A Vida Não Está Para Biscate

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

(pode conter spoiler, mas quem se importa?)

Cecilia é a mais jovem das cinco irmãs Lisbon. Vivendo no subúrbio de uma cidade americana, vivendo sua vida de classe média americana, um dia Cecilia tenta o suicídio cortando os pulsos. Ela sobrevive e em uma conversa com o médico é questionada:

“O que você está fazendo aqui? Você não tem nem idade para saber como a vida fica amarga.”

Ao que ela responde:

“Obviamente o senhor nunca foi uma menina de 13 anos.”

E é colocando a câmera de frente para Cecilia, fazendo com que seus olhos quase fitem os nossos diretamente, que Sofia Coppola, diretora de As Virgens Suicidas, arremessa a todos os espectadores essa verdade, a princípio óbvia, mas que guarda consequências devastadoras para as mulheres. E durante todo o filme Coppola vai mostrar, com habilidade e sensibilidade, homens tentando decifrar os motivos da tragédia que se abate sobre as irmãs Lisbon.

Cecilia, Lux, Bonnie, Mary e Therese são as filhas de um casal católico, Ronald Lisbon (James Woods) e a senhora Lisbon (Kathleen Turner). Com idades entre 13 e 17 anos, elas vivem uma vida cheia de restrições impostas pelos pais, como proibição de namoros e festas. Até que a tentativa de suicídio de Cecilia mostra que a aparente felicidade da família é construída em cima do sacrifício das liberdades e sonhos de suas crianças.

 A começar pela ausência do nome da mãe, que nunca é mencionado, Coppola nos mostra através de símbolos sutis que a vida aqui não está pra biscate. Um plano particularmente inspirado é aquele em que a senhora Lisbon e Cecilia são vistas através das persianas da casa de uma vizinha, dando a impressão que estão sendo enquadradas por grades de uma prisão. Ainda assim, as garotas encontram seus meios de driblar os pais e exercer sua biscatice.

Os figurinos são usados de maneira muito inteligente para demonstrar o contraste entre as gerações de Lisbon. Enquanto a mãe usa cores sem vida, que se confundem com as cores da casa, passando a ideia de que não existe vida fora daquele lugar para ela, as filhas usam estampas alegres, ainda que não exageradas. E no momento em que elas vão pela primeira vez a um baile, é a roupa a maior preocupação de sua mãe, que trata de fazer vestidos que mais parecem sacos, como nota o narrador do filme.

E quando Lux (Kirsten Stewart) resolve exercer sua sexualidade, mesmo no momento em que a repressão dos pais atinge seu ápice, a direção de Coppola demonstra inteligência ao não relacionar isso com o abandono da garota por um jovem conquistador (Josh Hartnett) após uma noite de amor no campo de futebol. Pois ao perceber que foi deixada, Lux não esboça nenhuma reação, não derruba nenhuma lágrima. Mas fica inconsolável depois, quando a mãe a obriga a queimar seus discos de rock. E quando todas as irmãs são confinadas a uma espécie de prisão domiciliar, o resultado é previsivelmente uma tentativa de libertação, seja pela autodeterminação no exercício da sexualidade, seja pela via trágica do suicídio.

Vale notar como o roteiro, da própria Sofia e de Jeffrey Eugenides, autor do livro em que se baseia, retrata os homens. Eles nunca estão no controle da situação. Se colocam em situações constrangedoras, como a patética e infrutífera tentativa de suicídio de um garoto ao pular de uma janela sobre um jardim, vista com um olhar de condescendência por Cecilia. Uma fala do narrador é reveladora do domínio que as mulheres têm da ação. Em certo momento ele diz que o personagem de Hartnett, famoso por colecionar garotas na escola, se apaixonou por Lux, mas ela não se apaixonou por ele. Mesmo Ronald Lisbon assume mais uma posição de passividade em relação à esposa do que autoridade. Um interessante modo de mostrar que, afinal, é a mulher quem comanda seu destino.  O final do filme é pessimista, com uma estranha festa em que os convidados levam máscaras de respiração devido ao forte cheiro resultante de um vazamento químico e fazem piada com o suicídio das irmãs Lisbon. Mas ele esconde uma firme convicção de que ao não aceitar as amarras que a sociedade lhe impõe, a biscate será livre para fazer de seu mundo o que ela bem entender.

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*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

B. de Biscate

Quando recebi o convite da Luciana para escrever no “Biscate Social Club” fiquei: contente, lisonjeada, entusiasmada e algo temerosa. Estados de alma esses que não requerem grandes explicações. Até porque os leitores do BSC são inteligentes. E começava já a escrever. Mas. Há um mas. Ou vários, mas vamos com calma. O “Biscate Social Club”, qual  Super-Gestor Fashion Pré-Troika tem uma Missão/ Visão e um  Conceito.

Esta  blog-situation  requer que o escritor/colaborador/ocasional biscateiro, ou seja, moi se identifique tanto com a Missão/Visão como com o Conceito postos a uso. Ora eu não tenho duvidas, identifico-me com a Missão/Visão : “Um tantinho de felicidade por dia…”,  e adoro de paixão o Conceito: «Aqui, somos todas “biscates”»

Acrescento que era- e é –  meu desejo, apresentar em termos aos meus conterrâneos  o “Biscate Social Clube” e a ideia que lhe deu vida. E assim, voltamos ao princípio. Ou seja a…

Este cartãozinho

Este cartãozinho, em que dois felizes jovens WASP mostram a sua felicidade ao lado da pérola que se lê. Ele, o FELIZ homem inteligente, deu-se conta de que mais lhe valia ter a INCRIVEL MULHER, loira e terna, ao lado, do que uma colecção de “biscates”. A colecção não sabemos onde.se posicionaria. Imaginamos. Mas não sabemos. Mais.  Do que é que a loira se deu conta, não nos é dado conta a nós. Mas supomos que estará embevecida quer na FELICIDADE dele, quer na suprema honra de ser considerada uma MULHER INCRIVEL pelo HOMUS INTELIGENTUS – claro que nos fica a esperança de que ela esteja a pensar em algo muito diferente, como, hmm, por ex.:”Quando é que desengomas daqui, paspalho, para eu telefonar ao teu grande amigo Joe e termos sexo fantástico na cama dos teus pai. Adoro que ele seja namorado daquela sonsa da Alicinha…”  Eii! Teresa! Basta.

O cartão provocou espanto, repulsa, hilaridade e pensamentos diversos num interessante grupo de mulheres. A ideia da “biscate” como, alguém que simboliza, de certa forma, o contrário desta ganga toda, está formulada, mais ou menos assim, no primeiro post do blog:

Uma “biscate” sabe que um ser humano inteligente nunca pensaria numa mulher como “parte de uma colecção”. Uma “biscate” sabe que não precisa de estar sempre maravilhosa. Mas maravilha-se com as possibilidades que o aceitar das próprias limitações lhe traz. Uma “biscate” sabe que ‘estar ao lado’, seja de um  homem seja de outra mulher, é só mais uma posição. Como ‘estar por baixo’, ‘estar por cima’… ou ‘estar longe’.

Longe deles, cá para mim.  A menos que o Joe e tal…

Mas o que é uma “biscate”? É que “biscate” calha ser daquelas palavras que, sendo de uso corrente  em Portugal e no Brasil, têm significados diferentes num e noutro país,significados objectivos e subjectivos e tudo isto se torna menos simples do que parece.  O que, aliás, era de esperar, Ou alguém esperava que “biscate” fosse uma palavrinha bem comportada, das que não dão trabalho, obediente, uma palavrinha boaaaazinha!? Dah! E  andava eu a brigar com a descrição mais exacta possível do sentido, do significado de “biscate”, que, nos dicionários sérios e nos populares, – dicionários biscate, pode ser? –  vai desde o puro e duro: prostituta, puta, mulher de vida fácil, passando pelos ambíguos: mulher que anda com os maridos das outras, promiscua, até aos mais suaves: veste-se de forma provocante, dá nas vistas, e mesmo, em nota de rodapé, misteriosamente escondida, a frase:

1)-  No liceu, a rapariga que andava com todos e permitia avanços de natureza sexual era uma biscate.

Uhhh. Andava com todos.Uhhh Natureza sexual. E desde o liceu. Tchhh…Mas não ajuda muito. Tomei nota de sinónimos: vadia, cabra, bitch, allumeuse, slut, não. Tramp.

É isto. Tramp! The lady “biscate” is a tramp. Relembrei a letra (tradução aqui):

 

Ela é A TRAMP, não é uma gaja.

Ela gosta de sentir o  vento no cabelo, gosta de viver sem maçadas, ela está falida e depois? Ela faz o que quer. Ela faz o que acha bem. Ela age pela própria cabeça.

The lady é uma biscate! Q.E.D.

E dou com o significado de biscate neste estabelecimento:

Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Esse é o nosso clube.

Ei! Podia ter poupado trabalho. Mas é isto mesmo e cheguei lá sozinha.

Terei o direito de aqui estar – com elas? Memórias. Três anos e em frente do nariz o terceiro cestinho do dia. O desafio era enchê-lo com ovos de plasticina feitos por mim.  E andei pelos corredores desertos até sair da escola infantil, que odiava, e seguir sozinha até casa. Isto é verdade. Era só um quarteirão, mas percebem a mensagem. Biscate pode até ter três anos. Mas não atura nem mais um cestinho com ovinhos de plasticina. No Crap! Salto 15 anos e há revolução e tudo na rua a cantar, tanto mar, tanto mar. As discussões em casa.Não vai viver sozinha. Vou. Enquanto viver à minha custa não vai. Então vou viver à minha custa. Um curso abandonado – isto foi um engano. A solidão do wild side. Um  namorado despejado à porta de casa, com uma bebedeira enorme. E eu para o taxista: siga, que ele fica bem. No crap. O amor proibido, clandestino. A minha falta de culpa. As unhas que nunca deixei de roer. A semana passada, eu a discutir com o polícia mais velho, enquanto os outros interrompiam a sua tarefa, a tarefa injusta, feita de má fé, para ouvirem, trocistas. Só estou a cumprir ordens minha senhora. E eu, ahaha é agora que digo aquela olhe que em Nuremberga trataram da saúde a muita gente que só estava a cumprir ordens.  E a Ana e eu, de bikinis minúsculos, como há trinta anos, a sentir a areia quente e o cheiro do mar na primeira praia do ano. A rir a rir a rir. Memórias. Posso aqui estar.

Uma biscate faz o que quer. Não tem receio de levantar a voz e por a mão na cintura, varina. Ou de seduzir de baton e vestido à jessica rabbit. Ela pode ser rica, pobre ou remediada. Mas se é “biscate” mesmo, fica do lado dos nada têm. Ela repõe a justiça como pode – a lutar numa barricada ou a morrer por uma causa. A dormir com o boss ou a roubar um pão. Ela ama quem ama e não quer saber se o seu amor é homem, mulher, casado, solteiro, bígamo ou lobisomem. E, se não amar, ela dorme com quem lhe apetecer. E com quantas pessoas lhe apetecer. Uma, duas…Ou três. Ou com a prima do ex-marido. Ou então com ninguém. Ela não é obrigada a. Ela é fiel ou não. Ela tem filhos ou não. Ela pinta o cabelo de azul ou não. Ela decide. Dificil? Põe difícil nisso. Ela vai ser olhada de lado. Ostracizada. Apontada a dedo. Vai andar com a letra escarlate, vai ser apedrejada logo que o zeppelin desapareça. Biscate não pode ter medo. Ela age como se tudo lhe fosse permitido  ou como se nada lhe fosse permitido. A biscate tanto parece Louis L’État c’est moi XIV,  como o mais despojado, despossuido dos seres, parece  a frase pirosa de Me and Bobby McGee, freedom is just another word for nothing left to lose.. É tudo ou nada.

Citando Rita Lee, eh, sua biscate doida, este caminho, como o rock, não é para frouxos.

Mas compensa, ah se compensa. Porque escolheu a Liberdade e honrou a escolha. Porque há outras como ela por aí e a vida é de tal modo também outra nesses lugares. Porque é para ela – sim, vaidade, faz mal? –  é para ela que  foi apedrejada pelos mesquinhos, pelos invejosos, ou tão só pelos que não entendem porque não lhes foi dada a bênção de entender, é para a biscate que génios escreveram, pintaram, esculpiram, compuseram, pensaram.

Ser biscate, para muitas de nós – olha este nós, Luciana! – é um caminho. Poucas mulheres nasceram biscates, como poucos têm o ouvido absoluto, ou a capacidade de ver dentro da cabeça uma demonstração matemática. Há quem tenha morrido na tentativa. Há rendições. Há quem tenha conseguido e faça da biscatagem um estandarte. Há quem lá chegue com toda a simplicidade. E há muito para dizer. Mas entretanto, olhe, venha cá. Sim, estou a falar consigo. Entre, venha conversar, venha ouvir a musica. A musica é sempre óptima aqui. Sente-se, descalce os sapatos se lhe apetecer. Peça uma bebida.

Willkommen, Bienvenue, Welcome.  

Bem –vindos ao Biscate Social Clube.

Teresa Font escreve, a partir de hoje, uma segunda feira por mês aqui no Biscate Social Club. Enquanto não se cadastra como autora (biscate ocupada, ai ai ai) colocamos aqui sua auto-descrição:

Sou mestiça. Lisboeta por nascimento e sangue da Mãe e açoriana por sentimento e sangue do Pai, tenho as metades de mim  separadas por 1.500  km de oceano AtLântico. Ao lado materno devo o amor por esta cidade bela e maltratada e pelo seu rio e o  esbarrar com o Fernando António, mais conhecido cá e no estrangeiro por Fernando Pessoa, em todas as esquinas da vida. O lado paterno deu-me um ADN marinho, guelras desde criança e a estranheza, vulgo maluquice, que caracteriza os insulares. Apaixono-me de caixão à cova, desvairadamente. De envergonhar as Bronte. Gosto com devoção: dos meus filhos, de livros, de cinema, de música, do mar, de vadiar em cidades, de igrejas desertas, de feiras de velharias. Adoro café, vinho tinto, o primeiro dia de praia, jantar com amigos, conversar muito e rir-me até às lágrimas. Vivo com pouco, sou impulsiva, corro riscos, esqueço-me de comer, o meu sono é caótico, os horários delirantes. Tenho uma gata. Trocava a minha alma imortal pelo dom de escrever como Nemésio, Faulkner ou Madox Ford em “The Good Soldier”, mas o  Chandler já era um grande negócio. Falo sozinha. Falo com a gata. Sei de cor metade do “Mau Tempo no Canal”, mas não sei onde ponho chaves. Físico: 1,59 mas digo 1,60, peso ridículo, loira, dolicocéfala. Roo as unhas. Um dia escrevi,  escrevi até ter um livro impresso na mão. Desde aí, já devia ter escrito mais três. Estão quase completos, imprimi-os e tudo. Li algures que este comportamento se chama auto-boicote e tem cura. Mas não tenho dinheiro para terapia, por isso vai ter mesmo que ser à força.

Biscateen

Esta era uma biscate adolescente. Biscatinha discreta, secretamente, estrategicamente não ficava com quem se conhecesse – sabem que na adolescência o medo de ser julgada é grande, mesmo entre biscates. Medo dos pais. Medo de engravidar. Medo, medo, medo. É claro, há outras coisas lindas e deliciosas, mas o medo está sempre lá. Ela porém não queria mostrar que era adolescente como toda outra adolescente.

Biscateen, vamos chamá-la. Ela ouvia as colegas, que um dia haveriam de ser amigas, talvez muitos anos mais tarde. Experiência zero. Era ela a primeira. Primeira a transar, a ficar com mulheres, a ter um trabalho, viajar sozinha, enfim. Como tantas outras Biscateens, chegara até os 15 lendo muita revista Capricho, numa época em que a internet não era lá muito disseminada e que não havia grandes e fáceis fontes de informação e espaços online para troca.

A revista Capricho dessa geração de Biscateens, porém, era outra. Moda e homens tinham algum espaço mas não muito. Havia séries de reportagens ensinando a fazer coisas diferentes, incentivando incursões em novas experiências. Havia matérias sobre drogas, aborto, sexo, sempre num tom não moralista (mas tampouco antimoralista, afinal de contas) que não se vê mais em qualquer mídia que dialogue com adolescentes. Talvez estejamos num momento de muito backlash. Vai saber.

Bem, pois mesmo no tom possível e não moralista da época, uma preocupação rondava a cabeça desta e das demais Biscateens: serem “usadas”.

Quem nunca ouviu, usou ou pensou nessa expressão, “ser usada” por alguém? Via de regra, significava que alguém “brincaria” com seus pobres coraçõezinhos femininos, românticos, inocentes. A sexualidade adolescente, para muita gente por aí, é uma mera curiosidade e nada tem de autonomia. Que erro.

Pois a Biscateen resolvia esse impasse é com um belo de um “foda-se”, recusando o papel constante de bestinha apaixonada. Protegendo-se decidia, então, era “usar” as demais pessoas também. Afinal, entrar com essa consciência toda na sexualidade lhe permitia inclusive mais liberdade. A obrigação da paixão, sentia ela, era uma prisão sexual. Um limite a mais, do qual ela não fazia questão nenhuma.

Pois a Biscateen cresceu e aprendeu mais tarde a se apaixonar com alguma segurança. Sempre, porém, com muito pouca ingenuidade. Ingenuidade, aliás, na qual não acredita partindo de qualquer ser humano que seja, até hoje. Muito menos sobre a própria sexualidade.

Os Mino Pira na Biscatagi

Guest Post, por Augusto Mozine*

Eu já tentei, fiz de tudo pra te esquecer
Eu até encontrei prazer, mas ninguém faz como você
Quanta ilusão, ir pra cama sem emoção
Se o vazio que vem depois só me faz lembrar de nós dois

Nelson… cê já pegou uma Biscate? não sabe o que é Biscate… ah, meu saco! eu explico. como diz o Chico, fio, Biscate é quem te chama pra sambar, te leva pra benzer e vai pegar uma praia… capitou? ainda não! raios… vê se entende então: uma Biscate é quem vive na gandaia e espera que você a respeite; é quem toma conhaque com o tíquete do leite e te serve o pitéu na cama… é alguém pra, por fim, casar na igreja e fugir pra Bahia pra ver o sol nascer…

Agora cê entendeu, né! tinha isso na sua época? chamava cortesã… humm, sei… você pirava nelas também, né!?! então você sabe como é pegar uma Biscate (ou ser pegado, tudo que sobre, desce) fio! fala se não é irado! eu lembro daquelas da minha adolescência… putz, Nelson… toda vez que tinha dança da vassoura nas festas americanas era uma coisa!

Tinha que esperar a hora certa de dançar com a Biscate, não era em qualquer música… enquanto o Rodriguinho d’Os Travessos [uooo-ho-how] não mandasse um “sorria, que eu estou te filmando”, nem adiantava… por quê? ora bolas, porque, Nelson! Porque existia um código pra aproveitar a Biscate da sua vida! vê o vídeo e presta atenção…

Era assim: “toda vez que eu vejo vocêêê” – entrega a vassoura pro menino bonzinho que tava com a biscate; fala oi; espera ela dar um sorrisinho e abaixar a cabeça – “eu sinto uma coisa diferente [diferentiii]” – abraça ela pela cintura, sem indecência e chama ela junto na pegada – “toda vez que eu penso em vocêêê  [uhmm-humm] / te vejo nos meu olhos tão carente” – cantando no ouvidinho dela… se ela é Biscate, Nelson, pronto! desmanchou…

Na próxima estrofe, meu querido, começa o jogo! “por que você não cola do meu lado?” – ela deixa você entrelaçar a perna em meio às dela – “esquece os grilos todos do passado” – ela desce uma das mãos da sua nuca para as suas costas… é a senha pra você sair da cintura e segurá-la pelos quadris – “vem comigo e tenta ser feliz” – é a hora da cafungada no cangote…

Se até aí deu tudo certo, fio, não tem mais erro… continua a música: “pare de dizer tá tudo errado” – aquela rebolada – “deixa eu logo ser seu namorado” – já tem pitu no dendê – “o resto é o destino é quem diz” – aí rola o beijo desentupidor de pia que vai durar todo o refrão…

Mas espera, Nelson! ainda não acabou…é na repetição do refrão, naquela hora em que o Rodriguinho já está em êxtase com o cavaquinho chorando e cantando com a cabeça pra cima e de olho fechado, que vem o melhor!!! é aí que você reconhece a nata da biscatagem… vem o tão esperado direito à encoxada…. ahhhh, o direito à encoxada…

É tipo assim… o beijo acabou e o Rodriguinho tá esgoelando um “sorria, que eu estou te filmando” – ela tira as suas mãos dos quadris dela, vira de costas e faz com que você a abrace envolvendo a barriguinha – “sorria, o coração tá gravando / o seu nome aqui dentro de miiim [uooo-ho-how]” – ela dá aquela reboladinha no compasso da música e você passa o queixo no pescoço dela e o nariz na orelhinha – “sorria, que o prazer já vem vindo” – a encoxada tá na velocidade cinco com direito a beijo – “sorria, nosso tá tão lindo” – uma mão espalmada na barriguinha, a outra levemente abaixo do peitinho; a festa americana inteira parou pra gritar e apontar o dedo pra vocês… claro que já tem um sacana te cutucando com a vassoura – “não quero ver você tão triste assiiiiim” – aí tem que voltar à decência… cara vermelha e a boca babada…

Ah, Nelson! o bobó derreteu… Nelson. Nelson?? tava fazendo o que no banheiro, fio? escutou o final? pois é, Nelson… os mino pirava na biscatagi…

*Augusto Mozine é desses. Desses que chega conquistando espaço. Diz-se por aí que ele não gosta de se definir, mas nós por aqui dizemos que é cientista social e surrealista. Se você passar quietinho e com atenção, vai ouvi-lo conversando com estátuas enquanto escreve nonsense pra quem quiser… Se espalha entre O Blog que Habito, Pode isso, Nelson? e Hipérbole Política (um segredinho: é um inveterado apaixonado, sofre e aproveita o melhor e o pior que as pessoas estão dispostas a oferecer…). Quer mais? Segue ele no twitter: @Mozzein

Coxinha e Pão de Queijo

Por Mari Biddle, nossa Biscate Convidada*

Na minha recente viagem ao Brasil, um primo reclamou para mim do outro primo-coxinha que, está o tempo todo implicando pelo fato dele usar brinco. Que a todo momento quando o vê pergunta – E aí, não vai tirar esse brinco? Você acha que vai poder usar brinco em corte? (primo vai se tornar advogado em poucos meses).

Eu tenho primo coxinha, você tem primo coxinha, todos tem ou irão ter um primo coxinha (ficou com fome de saber o que é? leia aqui). Mas o que eu queria dizer é que contei minha história de vida para o primo-do-brinco  na tentativa de deixar o bichinho melhorzinho. Fiz um resumão, claro, que sou uma biscate rodada e são necessários tempo e muitos copos de vinho para eu dar conta. Meu primo-do-brinco acha que a vida dele fica bem mais difícil com o outro primo chatérrimo pegando no pé. Eu concordo. Mas sabe o que é mais chato, muito mais chato do que isso? É pertencer à mesma família e ter entrado no mundo da biscatagem ainda mocinha.

Ser biscate no interior do Brasil, nos anos 80/90, é só para as fortes. Quem dera tivessem implicando somente com meus brincos. O negócio é que nasci com vagina e não dei moral para os decretos machistas que ouvia na época da juventude. –  Em mulher pega tudo, em homem não pega nada. – Se porte como menina direita! – Eu não dei ouvidos e fui pegando tudo. Ou todos. Não fugi ao clichê e peguei menino atrás da igreja, sim. Não entendia porque meninos podiam tudo e meninas não podiam nada. Mães dizendo para prender suas éguas que meus cavalos estão a solta. Ah, mães tão cheias de classe, né? Claro, eram mães só de meninos. E eu pensando que seria muito mais simples ensinar mocinhos e mocinhas a encapar antes de usar e só.

Era muito chato ser biscatinha no interior, mas eu não me ative ao falatório. Eu fui feliz. Passava as férias lá sendo ‘a moça da cidade, aquela filha do fulano que não vale nada’. Sei que os meninos que peguei, muitos devem ter ‘jogado meu nome na lama’, contado vantagem, falado ‘mal’ de mim. Se fiz a fama, deitei na cama. O primo não entende que difícil mesmo é ser biscate no interior.

Daí que agora eu moro no exterior e os faladores me colocaram noutra categoria. A biscate tem rótulos que não acabam mais. Como me casei, entrei na categoria ‘ex caçadora de gringo, louca por um green card, etc’ – Ser biscate nos EUA tem sido mais simples. Até ir ao SlutWalk eu fui. Fui ver o que as biscates daqui tinham. Fuço daqui e dali e percebo que estamos todas no mesmo barco. E vou levando. Tem biscates expatriadas que gostam de cozinhar. Eu sou uma delas. A gente sente saudades. Fuça lojas para descobrir temperos brasileiros, faz amizades com mulheres maravilhosas que nos ensinam como fazer determinadas receitas.

Trouxe pra biscatear com vocês uma receita que veio de outra expatriada. Se você é mineira, mora no Brasil e faz pão de queijo de olhos fechados, essa receita não serve para você. Só funciona se você mora fora e tem que se virar sem o queijo ralado que está a venda em qualquer esquina do Brasil.

Faça a receita, puxe a cadeira e me chame no Skype. As impressões de ser biscate no Brasil ou no exterior mudam, óbvio, de pessoa para pessoa e essa é a minha. Então, vamos à Receita Pinduca de Pão de Queijo. Primeiro, as medidas (não as minhs, que são ótimas e ainda causam impressão na praia):

5 copos de Polvilho Doce-Azedo, 2 copos de leite, 1 copo de óleo, 5 copos de queijo mussarela, 1 colher de sal e 3 a 4 ovos.

Aí, faz assim: coloque o polvilho em uma bacia – com jeitinho, com jeitinho. Misture leite, óleo e sal, biscate ama diversidade e misturas imprevistas, esquente um pouco as coisas: ferva tudo junto. Tá quente? Bem quente? Despeje a mistura em cima do polvilho doce pra escaldar a massa. Mexe, mexe, com uma colher de pau. Deixe esfriar (oh, yes, altos e baixos, vai e vem, o movimento é sexy). Após esfriar, misture o queijo mussarela ralado. O resto é fácil – mais fácil, eu deveria dizer – acrescenta os ovos, um a um, sovando a massa até que ela fique mole e grudando nas mãos – a massa, a massa. Deixa tudo na geladeira por uns 40 (quarenta) minutos – dê tempo ao tempo, uma biscate aprende – o período na geladeira vai ajudar a enrolar tudo depois. Aí, faz as bolinhas – não esqueça de untar as mãos com óleo. Uma dica: quanto mais mole você quiser a massa, mais ovos deve usar. Prontinho: deixe assar de 12 a 15 minutos e depois use a boca…pra comer, claro.

*Mari Biddle é cientista Social, com um xodó por Antropologia, Cinema e Literatura e louca por sushi. Mais? Feminista, atéia e atualmente monógama. Vive no aumentativo: lindona, mãezona e amigona. Tem um blog: Corpo Indisciplinado onde usa as vírgulas e o humor como quer.

Prazer. Sou biscateira, com orgulho!

Por Adriana Torres*, nossa Biscate Convidada

Minha mãe sempre debochou de mim dizendo que desde que nasci preferi colo de homem do que de mulher.

Continuei assim durante anos, tendo mais amigos homens que mulheres, até porque trabalhei em empresas onde 90% dos funcionários eram do sexo masculino (ok, deletei da memória a terrível época que estudei no IEMG e só tive mulheres como colegas de sala…)

Nunca entendi de moda, mas sempre me vesti razoavelmente bem (clássica, usualmente. Não sou de arriscar).

Não ia ao salão com frequência fazer as unhas (e não sei fazer em casa), mas meus cabelos sempre foram motivo de gastar tubos e tubos de dinheiro para, a cada ano, estar com um look diferente.

Comecei a beber com onze anos de idade. Coisa de quem frequentava cidade de seis mil habitantes e que não tinha nada mais pra fazer além disso. E comprei meu primeiro maço inteiro de cigarros com treze.

Nessa idade, saia com minhas irmãs e ficava até cinco horas da manhã na rua. Minha mãe nunca ligou para horários, pois dizia que “quando se aperta demais, escorrega entre os dedos”.

Por outro lado, não tirei um único sarro antes dos meus dezoito anos. Apenas beijos na boca (e tapas nas mãos, eita, falta de paciência). Virginiana, com ascendente em touro e fã de histórias de amor, para mim sexo era algo muito valioso para ser feito com qualquer um que aparecesse. Todas as minhas amigas já tinham transado e eu “na amarração”, como elas diziam.

Pois é, quem mandou nascer do contra nessa vida?

E mesmo depois do meu primeiro amor, continuei fiel a ideia de que sexo era como um champagne francês – para ser apreciado de forma única, estupenda, sem pudor, mas na hora que eu achasse conveniente, com quem eu quisesse.

E dá-lhe controle de qualidade, para desespero de algumas queridas amigas feministas que me julgavam a “carola”!

Mas, afinal, porque estou aqui escrevendo esse monte de coisa sem pé nem cabeça?

Eu sou uma biscate qualquer. E uma santa. E uma louca. Eu sou uma colcha de retalhos, maluca, certinha, safada, fiel, amiga, amante. Eu sou uma porção de Adrianas dentro de um corpinho até bem pequeno pra tanta personalidade diferente.

Gargalho alto (muito alto, vocês não tem noção. Fui contralto em coral, tão ligados?) ; adoro decotes e fendas;

Não sei conversar sobre moda, cosméticos ou maquiagens. Mas acho lindo quem sabe.

Tenho uma fé gigante. Amo minha religião, não com fanatismo, mas com aquele amor puro de quem se sente realizada em sua crença. E choro quase toda vez que canto canto Ave Maria (mesmo não sendo católica).

Adoro meu trabalho. Ah, atuo com movimento social. Discuto política, gestão pública, qualidade de vida, justiça social e otras cositas más diariamente no mundo off e online.

Amo ficar em casa quieta, fazendo um comida gostosa pros amigos ou pro maridão, curtindo um estar contente, sem grandes pretensões do amanhã.

Enfim, quero dizer que eu não me encaixo na “mulher incrível”. E não sou biscate por completo, não na definição dos últimos posts que vi por aqui no Club. E é aí que eu queria chegar!

Nem toda mulher quer ser amada. E tá certa.

Nem toda mulher quer dar só pra um. E tá mais certa ainda.

Algumas não querem nem dar. Estão erradas?

Não somos um modelo de nada. E não somos homogêneas. A cada dia estamos de um jeito, todas sabem disso e todas comemoram!

O importante dessa bagaça toda é que eu sou o que eu sempre achei que devia ser. E ninguém tem nada com isso.

Essa, pra mim, é a essência da biscate.  Ser perua, santinha, doce ou maligna, de esquerda, de direita, do centro e o escambau. Hoje de um jeito, amanhã de outro.

Sem fórmulas, sem certo, sem errado. Solteira, casada, divorciada, viúva… tudo biscate! E não mais biscate ou menos biscate.

Apenas assim, cada uma na sua individualidade. No ser única.

Sendo, acima de tudo, o que quer ser.

Jamais, never, apenas o que querem que ela seja. E isso significa também que, se ela quer ser o que o outro quer que ela seja, bom também.

Porque é o direito de escolha dela, saca?

Prazer. Sou biscateira. Com orgulho!

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* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Biscate Absoluta

Depois da estréia com a biscate mais classuda e clássica, a magnífica Gilda, as quintas de cultura hoje apresentam, orgulhosamente,

A Biscate-absoluta:

Stefhany.

Stefhany é uma cantora piauiense, que estourou no YouTube com um vídeo amador, cantando:

Eu sou linda. Absoluta. Eu sou Stefhany.

Críticas ela ouviu. E leu. Várias.

Mas a todas rebateu com um gingado e um meneio da longa cabeleira (a jogada de cabelo é um trunfo infalível de uma biscate. Curtos, compridos, lisos ou crespos, pretos, ruivos, loiros, castanhos ou cinzas, não importa) um sorriso deslumbrante de adolescente periguete perigosa, biscate mirim, testando seus trunfos, e dando seu recado

Eu sou absoluta.

Se não vou chorar nem desesperar por um bobo e velho romance, acha mesmo que suas críticas vão me parar?

Eu vou é usar todas as fantasias que sempre desejei, testar todos os penteados que nas loiras lisas vocês acham o máximo, e vou cantar pra vocês:

Eu te ordenei: bote a mão na minha cintura, diz que eu sou absoluta!

Biscate não fica esperando no portão. Pega o Cross Fox, o Fuscão, o Porsche, o metrô, o trem, o ônibus, a bicicleta, o tênis, o cavalo, o camelo, uma Harley Davidson ou vai descalça e à pé mesmo. Sai pra dançar e se divertir.

Stefhany merece o posto de Biscate porque não fica esperando no portão. Vai atrás do que quer, e comanda:

Menino sexy, sexy, sexy
Menino lindo, lindo, lindo

Você não pode parar
Vem comigo dançar

Ela se diverte em cada vídeo. Experimenta poses, faz beicinho, joga o cabelo.

E não baixa a cabeça.

O preconceito que já existe contra as biscates contra ela ainda ganha os contornos do preconceito de classe e de origem: ela é do Piauí!

Ora, quem ela pensa que é para fazer sucesso na internet, no sudeste, ir parar na tv? Aqui é terra de gente cool, descolada, blasé e intelectual, que gosta de Chico Buarque… (teve outra biscate adolescente que também começou na internet, sabem quem pode ser? Uma dica: tchururu….)

E agora, colocamos no mesmo balaio, Chico, o lindo, do nosso hino, e Stefhany, a Absoluta. Outro hino da biscatagem!

Somos biscates, do norte ao sul, do Oiapoque ao Chuí, dizemos bah, vixi, uai, meu, puxamos os erres, os esses, jogamos os cabelos, e dizemos:

Eu sou linda. Absoluta. Eu sou biscate!

[o segundo vídeo foi dica da Caso me esqueçam, no twitter. Biscate internacional!]

* E caso você nunca tenha se fantasiado de biscate de videoclipe no quarto, e dançado na frente do espelho… hum… não sabe o que está perdendo. Quem acha que essas meninas estão inovando… antes só não tinha o “você tuba”. (biscate pré-internet e câmera digital)
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