Explosão

Por Maíra A., Biscate Convidada

É delicioso quando a cama é revisitada, ainda que no desejo. Adoro o seu jeito de cão sem dono. Indisciplinado, salivante, faminto. E você me serve camarão com abacaxi e pimenta. O vermelho, o rosado e o amarelo se misturam por entre as pernas e braços enlaçados em chamas. E você vem farejando calor no meu corpo, enquanto sente meu cheiro de goiaba tropical desejante e toca de leve meus mamilos, que endurecem ainda cobertos pela blusa. Respondo gemendo baixinho, acariciando a sua cintura com as duas mãos e arranhando de leve as suas costas, enquanto sinto seu cheiro másculo de hortelã com sal. Você acaricia de leve as minhas coxas, como se mordiscando-as com a mão. E elas se abrem lentamente, ansiosas por um toque na parte interna. E te beijo firme, sentindo a sua língua na minha. A boca molhada e as coxas úmidas pulsam de tesão. Fecho os olhos, desabotoo a sua calça e deslizo a mão pela sua virilha, mas mais forte, porque suave assim você sente cócegas.

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Você fica mais pra quente do que pra morno e me devolve a carícia na vulva, deslizando de leve o dedo pelo meu clitóris, flor de fogo. Crepitante, faço movimentos vigorosos no seu pau. Te sinto arrepiado da virilha à nuca. E você me lambe de leve no pescoço, porque assim você sabe que eu arrepio da cabeça aos pés. E a gente se mistura de novo em explosões orgásticas de cores fervilhantes. E você bebe no oásis da minha umidade, circulando a língua pela minha vagina e me olhando firme. E nós nos puxamos os cabelos, que fazem estalinhos. Foguetes de todas as cores espocam quando nos encaixamos mais uma vez. Delírio tropical, caliente, afrodisíaco. A nossa dança continua pela madrugada de gozos e gemidos uivantes de animais selvagens. Adormeço, como se saciada depois do jantar. Corpos em brasa que se desmancham. E renascem novamente na noite seguinte. Fênixes livres. Corpos pulsantes que se refazem. Corações que batem juntos. Você & eu, como em novela mexicana. Como em tourada espanhola. Como só nós nos sabemos. Ainda que só no desejo.

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Maíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Dia da Visibilidade Bissexual e Alguns Avisos

Por Sueli Feliziani*, Biscate Convidada

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Ontem foi o dia da visibilidade bissexual, e eu gostaria de dar alguns avisos:

1. a libido da mulher bissexual não é um território de disputa entre a mono lésbica e o macho cis. Get over it. Vocês não tem direito de reclame ou controle sobre a libido de mulheres. Ninguém tem. E muitas mulheres bissexuais se atraem por gêneros que não se enquadram entre homens e mulheres.

2. mulheres bissexuais vão se relacionar com homens, com mulheres, e com os gênero ques elas acharem por bem se relacionar e para onde seu desejo e afetividade as orientar. Antes ou depois de você. E isso não é um problema. Não há nada errado nisso.

3. Mulheres bissexuais não tem obrigação de serem lesbocentradas. A orientação bissexual não é mono. Já está na definição da coisa. Aceitem. A desconstrução da heteronormatividade compulsória não passa pela renormativização do desejo de grupos determinados de mulheres. Parem. Só, parem. Estratégias de controle patriarcal não destroem práticas patriarcais de adestramento do desejo. A menos que vocês só aceitem a existência de mulheres bissexuais se estar não forem bis, mas “lésbicas’.

4. Mulheres bissexuais não traem mais ou menos do que qualquer monossexual. Elas só são mais culpabilizadas por isso, porque são mulheres. E porque não tem uma orientação sexual que você, monossexual de fora, possa orientar conforme a sua vontade. E isso é assustador num mundo que nega liberdade e autonomia a mulheres.

5. Mulheres bissexuais não estão na vida para ser disponíveis para threesomes. Nós não existimos para ser a amiga unicórnio gostosa da sua fantasia. Comece a sonhar com outra coisa. Uma mente menos utilitarista, quem sabe.

6. Mulheres bissexuais cis não estão te passando fluidos penianos por tabela. Ao menos não mais do que qualquer outra mulher cis mono ou não. Projetar seu mal estar com o patriarcado e com pênis em uma mulher cis por esta se relaciona com pessoas com pênis é um comportamento misógino e slutshaming. Não jogue a conta do patriarcado sobre outra mulher e principalmente, não a culpe ou a detone apenas por ter uma orientação diferente da sua. E em tempo, há mulheres bis que possuem pênis. Então segura a transfobia aí tb, parça.

7. Mulheres bissexuais não são vetores de doenças. Nem depósitos de porra. Isso é mais putalização da mulher bi. E é argumento de mascu misógino. Respeita as mina. Vaginas não são entes mágicos promotores da saúde e pênis agulhas infectadas do patriarcado. Isso é argumento moralista, dicotômico trashing e culpabilizante de mulheres que se relacionam com pessoas com pênis. O que determina se uma pessoa terá ou não doenças não é sua orientação sexual, e sim o quanto essa pessoa zela pela próptia saúde sexual. Em tempo, precisamos de estratégias de saúde pública direcionadas para mulheres bi, urgentemente.

E se você acha que de alguma maneira algum dos comportamentos acima apontados como inaceitáveis é ok, pela razão que seja, você é bifóbico.
Beijos de luz.

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*Sueli Feliziani é feminista preta, carmelita de salto quinze e roupa de látex.
Colunista da Geni. Bissexual. Domme.
Possível fundadora de um clã de freiras bebedoras de cerveja lutadoras de Krav magá

Vamos deixar as pessoas em paz

Texto de Iara Paiva
com participação da bisca Luciana

Hoje na hora do almoço tava pensando em como alimentação é algo que rende assunto. Porque a gente pode pensar do ponto de vista da cultura, da história, da nutrição, da política de comércio internacional, da economia. É fascinante. Mas tem um ponto em que eu me recuso a entrar na conversa: quando passamos pra gordofobia.

Gordofobia, de forma simples, é o preconceito contra pessoas gordas. É julgar e rotular personalidade, comportamentos, valores a partir de um aspecto físico: ser gorda. Assim, nossa sociedade gordofóbica costuma relacionar às pessoas gordas coisas como preguiça, desleixo, má saúde, etc. A gordofobia faz com que as pessoas gordas sejam representadas, de maneira geral, como desagradáveis, repulsivas ou inconvenientes. A pressão que fazemos sobre as pessoas gordas, como sociedade, geralmente promove perda de autoestima, ódio internalizado, sofrimento psíquico, desconforto, inadequação social, etc. Gordofobia é a naturalização discursiva e material (porque tanto acontece quando dizemos que pessoas magras são mais bonitas como quando produzimos meios de transporte cujas poltronas não acolhem todo tipo de corpo com conforto) de um “modelo cultural que privilegia pessoas magras e marginaliza gordas”.

Podemos pegar o exemplo dos fumantes… por mais que ninguém seja obrigado a fumar – como é obrigado a se alimentar – por mais que fumar possa causar diversas doenças, por mais que deixar de fumar seja socialmente mais simples do que fazer regime, o fumante não é assediado como a pessoa gorda. Ainda bem, nem tem que ser! A gente discute propaganda, indústria do tabaco. Discute os limites alheios por conta da fumaça e tal. Mas eu não vejo ninguém ridicularizando fumante, sabe? Tratando como alguém inferior ou digno de pena.

Mas, ain, é por causa da saúde, sei que lá a saúde da pessoa gorda, muitos anos de vida”… Mas saúde não é nem precisa ser um referência individual universal. Nem o desejo de viver muito tempo. Tem gente que quer e se preocupa, tem gente que não, ué. Ser saudável (o que quer que isso seja, porque é outra discussão bem longa) é um valor e uma referência individual que não podemos imputar ao outro e quando o fazemos é sempre uma violência.  Como disse a Jarid: “ é também papel do feminismo combater esse discurso de ódio e má fé disfarçado de preocupação com o bem estar; é necessário lutar contra a imposição de padrões, seja de aparência, roupas ou comportamentos. Cuidar de si mesma e amar outras pessoas significa não constrangê-las e envergonhá-las. Ninguém jamais deveria impoôr aà outra pessoa, não importa quem seja, nenhum tipo de roupa, alimentação ou comportamento.”

Então me irrita essa desculpa cínica do “é pela saúde!”. Não é, nunca foi. Vamos assumir que a gente não gosta de gordo? Que foi ensinado socialmente, mesmo que não tenha sido dito explicitamente, que gordo é inferior? Que mesmo pessoas gordas sofrem com gordofobia internalizada? Que eu tô escrevendo textão, mas olho no espelho e acho meu bracinho de biscoitera roliço? Que até pessoas magras podem sofrer por se acharem “gordas demais” para uma sociedade cujos padrões são cada vez mais magros e se afastam cada vez mais de uma suposta “busca de saúde”?

Bora ser honesto. Depois a gente foca o debate na indústria alimentícia, na propaganda, na política, no discurso médico, na educação, no caralho a quatro. Mas primeiro vamos deixar as pessoas em paz.

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O outro em mim

Por Helen Leal*, Biscate Convidada

“Se não me misturo
Ao que é diverso no mundo,
Fico ausente de mim.”

           Decidimos terminar. Ou melhor, decidi e ele me disse: espero que a certeza da tua certeza te faça feliz, porque, quanto a mim, seguirei juntando os pedaços. Fiquei com aquela imagem de corpo esquartejado na cabeça e me senti desconfortável, pois não queria fatiar nenhum corpo, nenhuma alma, nenhuma lembrança. Só queria recomeçar.

          Alguns dias se passaram e percebi que o meu próprio corpo se desmanchava. Por uns minutos poderia ser um saco vazio sem órgãos e por outros um canto de passarinho de manhã cedinho, ou ainda, o pelo macio do gato em contato com a pele. Me sentia ora repleta de mim mesma, ora sem os braços, os pés e até mesmo sem a cabeça. Dentro de mim fazia eco, por outro lado, sentia cheiro de mar e minha pele mudava de cor. Estava em transformação e gestava em mim algo desconhecido do meu inconsciente porque parecia vir de fora, mas um fora que era borda também e prenhe da minha história no mundo.

          Meses depois de ter terminado, passeava por uma cidade pequena, encravada numa serra. Ali, me vesti de orquídea lilás, fui os matizes do verde das matas, fui o cheiro do café caseiro e me desfiz em noites frias ao lado da fogueira. Já não sentia mais minha carne e ocupava o espaço entre a correnteza da água do rio e a pedra quente do meio-dia.  Neste espaço exíguo de ser, fui cortada pela natureza que se desdobrava em luz, em elemental, em onda. Assim, no instante em que me recobri com a luz verde de um jacarandá, capturei a inteireza do sorriso dele, desdobrando a minha experiência presente em passado, através da sua lembrança, e em algo que ainda está por vir, através da interrogação: o que serei eu, depois de não-carne que se encontra com ele, pedaço-sorriso? Lançada em intimidade profunda com a leveza do seu sorriso, deixei-me atravessar por este impalpável que ali, na beira do rio, me fazia companhia.

          O tempo já não contava, pois não era mais medido e quantificado. Ele era o tempo da minha experiência com o seu sorriso lindo, mostrando dentes perfeitos e lábios sedutores. Meus sentidos se abriram e, como em mágica, minha visão tornou-se capaz de captar o inaudito e meu olfato foi dotado de habilidade para recolher o cheiro dos amores secretos. Fui invadida por ondas de amor carregadas por ventos fortes que, a cada lufada, faziam correr em mim partes da nossa história, já misturadas com o som da correnteza, já imiscuídas no que deixamos de ser.  Meu presente se tornou recipiente animado, conjunto de inúmeras forças que me faziam tocar o interstício de nós mesmos. Não apenas já não era eu, mas também já não era ele. Éramos nós que naquele instante se fez de maneira infinita e audaz, pois desse encontro entre não-eu e não-ele, surgiu um nós profundo, amoroso, sem amarras.

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          Ao ser percorrida por afeto tão forte, que abriu meus poros para o novo que estava ali em potência, percebi que abrigava os pedaços dele. Ele está em mim e me fez outremim, quando já não sou, mas estou em conexão com o que é dele e me afeta, desmanchando meu rosto. Já não posso mais questionar “eu ainda o amo? Ele está pensando na gente agora? Será que fiz bem em terminar com ele? Não poderíamos ter dado certo?”, pois não há certeza possível quando o encontro dos corpos não é promessa de nada, mas a passagem para a criação de algo novo dentro de nós mesmos.

         Quando vou à cachoeira, ele está dentro-fora de mim, quando o meu cabelo brilha, pode ser ele entrelaçando os dedos ali, como gostava de fazer. Hoje sou eu, não-eu, ele, parte dele, nós, eu nele, ele em mim e a superfície onde tudo isso se encontra e se refaz. Sou também a força de querer que, aquilo que me recorta, me desdobre em outra que olhe o mundo com olhos de criança e sorriso largo. Hoje amanheço o amor das incongruências.

 

foto Helen*Helen é vento inquieto, psicóloga freudiana por formação e nômade por profissão. Trabalha no Itamaraty, já morou em vários países e por estar em constante contato com outras culturas, todo dia desaprende um pouco mais. Tem por hobby unir em uma mesma sentença as coisas sãs e seus desvarios e está sempre atenta ao que pulsa para além do cotidiano desgastado. (na fotinha, dando as caras no Templo de Baco)

Que Horas Ela Volta? Resenha

 Por Haline Santiago, Biscate Convidada

É a pergunta que aparece logo no início do filme, apresentando a personagem principal e já apontando que se trata também de um filme sobre mulheres-mães.

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Val, interpretada brilhantemente pela Regina Casé, é uma empregada doméstica do tipo “faz tudo” que mora com os patrões e sua vida é modificada com a chegada da filha Jéssica (Camila Márdila) em SP pra prestar vestibular. Val é uma personagem incrível, é divertida, afetiva, cativante. Val escuta a conversa dos patrões atrás da porta da cozinha. A cachorra da casa só anda atrás da Val. Val dedicou sua vida a cuidar da casa e do filho dos patrões, Fabinho (Michel Joelsas), pra poder sustentar sua filha que teve que deixar em Pernambuco. É muito presente no filme essa “terceirização” da maternidade: Val cuidou de Fabinho, enquanto a mãe dele (Karina Teles, ótima no papel) cuidou da carreira, enquanto a Jéssica foi cuidada por outra mulher lá em Pernambuco. Tanto a mãe da Jéssica como a mãe do Fabinho têm dificuldade em se comunicar e se conectar afetivamente com seus filhos biológicos. É um drama feminino que coloca em debate o próprio sistema que impõe escolhas complicadas para as mulheres que são mães, entre elas a de “cuidar da carreira ou se dedicar aos filhos?”. E, principalmente, é um drama social que evidencia a imposição, sobre mães pobres, de deixar seus filhos pra cuidar do filho dos outros. A diretora Anna Muylaert definiu como “um filme que trata da arquitetura dos afetos e simboliza os estratos sociais na sociedade brasileira”.

A minha primeira experiência coletiva (cinema) foi incrível porque as pessoas se emocionaram e bateram palmas para cenas em que a Val comete pequenas subversões, vamos chamar assim. A diretora conseguiu criar uma personagem tão legal e tão bem estruturada que mesmo quem não reflete sobre o filme sai amando ao menos a Val e identificando memória afetiva de suas próprias empregadas. Na outra sessão que assisti (sim, eu já vi DUAS vezes), uma pessoa saiu comentando como a Val era fofa e como ela queria encontrar uma (empregada) assim pra vida dela, já que hoje em dia tá difícil encontrar uma “boa”. Muita gente tem mesmo se lamentado que não existem mais empregadas como antigamente, não existem mais Vals (quem dera, infelizmente sabemos que essa situação ainda é mantida em vários níveis e relações pelo Brasil afora). Vivemos uma realidade em que as relações de opressão e exploração via serviço doméstico são tão naturalizadas no Brasil que a classe média encara como um direito “ter uma empregada”. Mesmo a militância de esquerda não problematiza com a frequência e a profundidade necessárias este tipo específico de vínculo empregatício e suas ramificações práticas e simbólicas.

E o filme segue mostrando um encontro de mundos diferentes, que oferece perspectivas diferentes através das personagens Val e Jéssica.

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Jessica é uma garota segura e sabe do seu potencial: foi estimulada por bons professores e vive no que podemos chamar de um “Brasil novo” onde é possível uma filha de empregada doméstica sonhar com o vestibular de arquitetura. Ela não consegue entender a relação de subserviência da mãe com os patrões. Essa cultura escravocrata que permeia as relações de trabalho no Brasil é tão naturalizada que as pessoas acreditam que existe um lugar que não é o delas, a que elas não podem chegar. Tem um diálogo (não é spoiler porque aparece no trailer) em que Jessica questiona a mãe sobre onde ela aprendeu tantas regras, que manual ela leu antes de trabalhar naquela casa e a Val responde que “a gente nasce sabendo o que pode e o que não pode”. Só que para Jessica não existe essa limitação, ela quer fazer arquitetura. Tudo pode. E dessa forma ela causa bastante desconforto, tanto com a mãe quanto com os donos da casa.

Regina Casé e Camila Mardila merecem todos os prêmios possíveis como atrizes. São atuações impecáveis e sensíveis que se completam. Os atores estão todos ótimos, no tom certo, na medida certa. A trilha sonora é muito bonita e encaixa perfeitamente nas cenas mais emocionantes do filme.

Que horas ela volta? podia ser mais um filme sobre desigualdade social mostrando todas as situações abusivas entre a classe média alta e as pessoas mais pobres, já seria um grande filme, com um importante recorte. Mas ele é genial porque mostra de forma sutil a relação entre patrão e empregada, o afeto da babá pelo filho dos patrões, os limites da casa com aquela pessoa que é “quase da família”. São muitas as cenas em que é esperada uma determinada situação e o que acontece é mais inusitado, evitando o clichê de patrões agressivos, mulheres histéricas ou filho mimado. Nada disso acontece. No filme da Muylaert, as pessoas não precisam ser agressivas ou abusivas porque a própria situação patrão-empregada já é abusiva. É a própria relação que está em debate, que deve ser problematizada, independente da atitude de cada personagem. Como disse ela na coletiva de imprensa em Berlim “Os negros se identificam, os latinos se identificam, todos se identificam. Essas relações de poder se reproduzem em todos os lugares”.

Leia tambémEu fui a filha da doméstica que entrou na Universidade

canção para minha mãe

quase da família

Que horas ela volta? e os sonhos de minha mãe para mim

e tem a página do filme no Facebook “Que horas ela volta?” não chegou na sua cidade? vamos até lá apoiar e fazer pressão para os exibidores apresentarem o filme em mais salas!

meHaline Santiago é ex nadadora, ex analista de sistemas, ex praticante de bodyboarding, ex de alguéns. Se define como queer as a funk, mesmo isso sendo uma banda. Atualmente é jornalista e editora da Revista Wireshoes https://wireshoes.wordpress.com/.

 

 

O papa, o aborto e a decisão das mulheres

Por Katiuscia Pinheiro, Biscate Convidada

Semana passada o mundo observou atento a decisão do Papa Francisco de conceder o perdão a católicas que se arrependessem de ter feito um aborto. Imagino o alívio de milhares de mulheres ao poder se perceber não mais como uma excomungada. Trata-se, certamente, de um bálsamo para a saúde psicológica de mulheres que se sentiam culpadas por terem abortado. E estar em situação de menor tormenta emocional claro que é melhor que viver atormentada pela culpa.

Agora, a questão é: de onde vem toda essa culpa? No meu entendimento vem de uma teologia que não aborda a questão do aborto como tema passível de uma decisão pautada em uma reflexão ética. A culpa é alimentada por uma teologia que não ouve, ainda, as mulheres. Uma teologia feita por homens e a partir (ainda) dos privilégios deles.

Uma outra teologia já existe e está, por exemplo, nas publicações de pensadoras teólogas feministas como as “Católicas pelo Direito de Decidir” que já tem laudas e laudas de reflexão sobre aborto e religião. Mas a teologia dessas mulheres não é ouvida, é deslegitimizada e marginalizada.

Já existe reflexão católica sobre a possibilidade de abortar sem culpa. Um dia essa reflexão será acessível a todas as mulheres católicas para que elas não precisem mais de um homem lhes concedendo o perdão. Poque um homem CONCEDENDO perdão a uma mulher, ainda que seja um Papa amoroso em tantos aspectos como parece ser o Papa Francisco, ainda soa para mim como a princesa Isabel “libertando” os/ negros/as.

Sonho com o dia em que as mulheres se libertem da culpa pelas suas próprias consciências, que a decisão de ser ou não ser mãe para uma católica seja válida pelo simples fato de que foi a decisão que sua consciência melhor construiu a partir de uma reflexão tranquila e serena e em nada incompatível com sua fé, coisa que é impossível de ser obtida numa situação de clandestinidade.

Que um dia uma mulher possa também ser, caso ela queira, a líder da Igreja Católica e que essa mulher abrace todas as que decidiram abortar e lhes diga: confio e apoio a decisão de vocês porque sei que todas vocês tem elementos teológicos para decidir da melhor forma possível. Porque, como Maria, vocês tem o direito a serem consultadas. Porque sou mulher como vocês e sei o que é estar diante de uma decisão tão difícil. E acima de tudo porque, como mulher, feminista e militante, eu sei como é pesado o jugo do machismo. Coisa que nenhum homem sabe realmente… Nem o Papa Francisco, nem nenhum outro.

Sonho que uma mulher, que todas as mulheres, possamos reconhecer que a Igreja é uma instituição que, com sua doutrina, força e influência, ajuda a manter o status quo, invisibiliza o nosso sofrimento e favorece a reprodução de discursos de opressão e exclusão. Que chegue o dia em que as mulheres não sejam perdoadas pela Igreja, mas que a Igreja peça perdão às mulheres.

Até que chegue esse dia vamos vivendo de vitórias parciais, de possibilidades históricas que não vieram simplesmente da generosidade individual de ninguém mas de toda uma luta encampada pelas mulheres, com destaque para as feministas, que plantaram e plantam sementes as quais as vezes germinam de formas ainda insuficientes mas que geram alguma saciedade de nossa fome de liberdade, saúde e felicidade.

Que nossas decisões um dia sejam realmente nossas!

Leia Mais: A Igreja já tolerou o aborto

Coalizão Nacional de Freiras Norte-Americanas responde ao Papa


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se diz assim: leonina transfeminista, professora e tia. Ando com somente um pé no chão, de noite e de dia. Curto dançar, sexo e coisa e tal, mas ficar triste também é normal. Na alma tenho muitos defeitos, no corpo, dois peitos. E se a mídia não atrapalhar, vou envelhecer sem me estressar.

 

 

 

 

 

Canção Para Um Moço Triste

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

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Moço,

você diz que te falta coragem. Eu digo: você é tão bonito. Você diz que nunca poderia. Eu digo: eu preciso de uma noite, só mais uma noite.

Eu lembro, moço, da sua cara de espanto quando eu te tirei daquele bar com a força do pensamento. Ordenei: só saio daqui com esse moço do lado. E você é bem educado, de boa família. Fala baixo, não diz um palavrão sequer, usa os talheres que é uma beleza, acendeu o meu cigarro e segurou forte minha mão quando atravessamos a rua cheia de carros em direção ao motel mais fuleiro do bairro. E eu, enfim, eu tenho Madureira no peito, passei minha infância xingando o juiz do jogo, os jurados na Sapucaí, é claro que eu achava bem do caralho, um troço assim estupendamente foda o moço mais bonito do bar entrelaçar os dedos nos meus dedos e olhar lá no fundo do meu olho enquanto me espremia num murinho na esquina.

Estávamos numa cidade branca, e claro, percebi todas as correntes que você teve que quebrar para levantar daquela cadeira e sair daquele bar sob os olhares desaprovadores dos seus limpíssimos e amáveis amigos.

Caguei pra eles. Só estou de passagem.

Eu não disse o meu nome, mas não por nada, não disse o meu nome pois esqueci onde estava, o que fazia, onde era minha casa quando vi você dar um passo na minha direção.

Você não disse seu nome também, ali todo aristocrático, afinal, posto que se me faltam boas maneiras, sou versada nas vicissitudes da putaria. E como Julia Roberts, na cena do jantar em Pretty Woman, você foi indo assim, me acompanhando, observando o que era permitido.

Mas eu não proibi nada de nada afinal.

Ficou ali, religioso entre as minhas pernas, descansou o rosto na minha buceta e começou tudo de novo.

Ficou ali profanando nosso leito nupcial pago a módicos trinta reais falando de amor. Ficou ali sorrindo com seus dentes branquíssimos de menino bem nascido, me mordendo com todos esses dentes esculpidos com muita curaprox, sensodine e aparelho adolescente. Certeza que você foi um sucesso na escola particular.

Ficou ali prometendo me comer sempre que eu tivesse vontade, se oferecendo como um anúncio de pizza hut num banner de um site de notícias, mas que mal há em publicidade de pizza se você está com fome mesmo?, parece uma boa ideia.

Ficou ali dormindo a cabeça lourinha na minha barriga. E eu olhando o Moço Mais Triste que passou pela minha cama.

Essa sua cidade branquíssima cheia de névoa e neve te faz mal, moço. Faz ter ideias bobas do tipo estar preso, amarrado, algemado num tipo de vida bem morninha e aconchegante.

Moço, se um dia você vier me visitar no Rio de Janeiro, um dia se você sair da cidade transparente, asséptica, tão tão longe, um dia se você desembarcar aqui nas ruas de Copacabana eu te prometo, moço: não te levo para ver o Pão de Açúcar, nem o Cristo, nem o Bonde, nem a Pedra do Arpoador. Você, moço, vai sair daqui como se nunca tivesse pisado os pés nessa terra, vai sair daqui sem ver a luz do sol que nos queima, moço, eu te prometo.

renata corrêa* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Insone, com a mão no bolso

Por Ana Paula Medeiros*, Biscate Convidada

São três horas da manhã, você me liga
Pra falar coisas que só a gente entende
Pode ser de São Paulo a Nova York
Ou tão lindo flutuando em nosso Rio
Ou tão longe mambeando o mar Caribe
A nossa onde de amor não há quem corte
Oh, meu amor!

Mentira, são quatro horas e eu nem sei por que essa musiquinha idiota veio à minha cabeça. Não acordei com você me ligando e sim com sonhos inquietantes. Não, nada sexy e molhado, quem dera. Só angústia mesmo. A boca seca. Um peso ruim esmagando o peito. Vou fazer xixi, beber água, voltar para a cama, que às seis e meia toca o despertador para o trabalho.

Tic…Tic…Tic…

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Estava tão friozinho e gostoso dormir aí com você. Minha bunda encostada no seu pau, minhas costas no seu peito quente, suas mãos nos meus seios, descuidadas, as pernas pelo meio umas das outras. A bagunça que eu faço nos lençóis, rsrsrs…

O oxi ganhou na Grécia. Li antes de deitar que os líderes europeus já estão se coçando todos. A Merkel e o Hollande já disseram que “o resultado tem que ser respeitado”, outra forma de dizer que não vão respeitar porra nenhuma. Esse arroubo grego podia bem se alastrar pela Baixa Europa e levar de roldão Portugal e Espanha assim, só pra começar. Muito sonho, eu sei. Se pelo menos isso forçar uma negociação melhor com o FMI, em termos menos horrorosos para a população, talvez já seja bom. Não adianta de nada fazer bravata com o cu alheio e não é o nosso que está na reta, né?

Hahahaha, como não, o nosso tá MUITO na reta. Em várias retas. Eu ando tão preocupada. Com tudo. As incertezas políticas, o esgoto fétido do Congresso, os retrocessos na conquista de direitos, as lutas fratricidas cada vez mais acirradas entre grupos que supostamente deveriam estar do mesmo lado. Aí me agarro em pequenas luzes e carinhos e festas. Achei tão lindo o mar de arco-íris, quase toda a minha timeline no feicebuque ficou colorida. Mas acabei não colocando agora o filtro pelo orgulho trans. Devia. Militar em todas as frentes cansa, de vez em quando. Mas essa seletividade me desperta umas culpas. Eu tive uma aluna trans muitos anos atrás. Não lembro o nome dela. Lembro que na pauta estava o nome do documento e eu achava isso estranho. Como tinha pedido para os alunos se apresentarem na primeira aula, saquei logo, pus o nome dela a lápis do lado do nome que estava na pauta e resolvi esse problema. Para mim, era uma aluna. Uma moça. Como todas as outras da sala. Acho tão violento agir de outra forma. Ame-o e deixe-o ser o que ele é.

Eu tenho que levantar praticamente daqui a pouco, devia conseguir dormir.

Tenho que lembrar de pagar o aluguel amanhã. E colocar a roupa na máquina. Depois que eu dispensei a faxineira, as coisas estão meio acumuladas. Ah, passar no mercado também. Não tem uma mísera banana nessa casa, eu fico comendo bobagem. Queria perder uns cinco quilos. Pelo menos.

Mas tem a tese. Eu estou avançando tão lentamente nisso. A um custo enorme. Isso também está me angustiando. É como se eu estivesse muito perto, falta vencer uma pequena parede. Mas ela é de rocha dura e cheia de pontas, eu só tenho as mãos nuas para escavar, raspando pó de pedra com as unhas, sangrando os dedos, ficando exausta com quase nenhum progresso.

Olhos fechados pra te encontrar
Não estou a seu lado, mas posso sonhar…

Tantas contradições pra resolver, entender. Internas. Meus discursos, minhas práticas, os sentimentos, os padrões de comportamento tão arraigados. Que voltam, que empurram, que emperram. Por que é que às vezes é tão difícil viver, respirar, amar?

Um bocejo. Cara, que sono. Eu já estou embaralhando tudo, começo a pensar uma frase que não termina. É boa essa sensação de afundamento, de desligar as conexões aos poucos. Deixei a janela da área aberta. Será que esse barulho é de chuva? Hmmm… tá tão quentinho aqui.

Pííííí pí pí pí… Pííííííí

Maldito despertador.

*AAnaPaulaPBiscatena Paula Medeiros é mais amante do que esportista, mais flamenguista do que arquiteta, mais feminista do que parece, mais inquieta do que seria sensato. Se deixa doer quando dói a saudade, se deixa chorar quando as lágrimas pedem para sair, ri de si e do mundo e do estado das coisas no mais das vezes. Perguntada tarde da noite, quem sabe depois de muitas cervejas, ela ousaria dizer que talvez seja feliz.

Precisamos Falar de Aborto

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Eu preciso falar…
(de aborto, de machismo, de médicos, da Elis)

Com 42 anos de idade, eu achava que já tinha passado pelas minhas maiores batalhas na vida. Mas nada dessa minha vida louca vida me preparou para os primeiros meses desse maldito ano de 2015.

Pela primeira vez desde os meus quase esquecidos sete anos, quando sonhava em ser veterinária, eu confesso: não faço ideia do que quero ser agora que já cresci. E só não quero deixar de ser (ou estar, sei lá) por essa teimosia infinita de virginiana com ascendente em touro que acha que pode fazer alguma diferença nessa mundo insano.

Eu preciso falar de aborto.

Foram seis meses planejando minha segunda gestação. Inicialmente com medo, por conta da minha idade, medo que se dissipou com o novo ginecologista referenciado pelo movimento do parto humanizado, com a conversa com a enfermeira obstétrica sobre o possível parto domiciliar que me resgataria do nascimento do leãozinho, parto esse que me foi roubado nos últimos minutos do segundo tempo, que me sangrou a alma e me fez conhecer o estranho mundo da violência obstétrica.

Eu sabia que engravidaria. Eu já conhecia minha pequena Elis e seu desejo de vir. Ela me aparecia nos sonhos, com seus cabelos cacheados e dourados, suas bochechas rosadas e o riso fácil.

Investi no sonho, melhorando minha alimentação que é usualmente bem ogra, investindo no inhame duas vezes por semana, na vitamina B diária, nas castanhas, no abacaxi, até na beterraba com couve (que honestamente, eu detesto).

No dia que viria minha menstruação fiz o teste e a segunda linha rosa, ainda fraquinha, me encheu de amor e alegria. Tudo estava acontecendo como planejado.

Na mesma semana meu cão sênior piorou muito de saúde e a veterinária me pediu que eu o libertasse da dor. Já não andava direito, não se alimentava e mal conseguia beber água. Foi com o coração partido que dei meu adeus, abraçada ao seu frágil corpo após quase 17 anos de amizade. Entre a dor de perdê-lo e a alegria da confirmação da gravidez, oscilei meus dias entre lágrimas e sorrisos.

Primeiro ultrassom agendado, Cheguei na clínica já antecipando a emoção de ouvir o coração do meu feijãozinho. Uma hora e meia de exame, com direito a consulta a outra especialista da clínica e o veredicto que me tirou o chão: a gestação não tinha evoluído como esperado, o saco gestacional estava correspondente a sete semanas, via-se a vesícula mas não o feijão e muito menos se ouvia o coração. Pior: uma suspeita forte de uma segunda gestação na trompa, caracterizando um possível caso (raríssimo em uma gestação natural) de gestação heterotópica, uma dentro e outra fora do útero.

Passei dias me sentindo no inferno. Foram cinco exames de beta quantitativo dia sim, dia não, para acompanhar sua involução e, em cada ida ao laboratório eu parecia que ia morrer de tanta dor. Mais dois ultrassons para tentar confirmar ou não a suspeita da heterotópica, descartada no último quando o sangramento já dava sinais.

Final de semana marcado pelas pequenas cólicas e um sangramento leve. Eu só pensava nas palavras da terapeuta: “Quem ama de verdade deixa ir”.

Na segunda-feira, às 14h00, saiu um coágulo grande, assustador. E, de repente, a cada 10, 20 minutos saia um coágulo ainda maior. As cólicas não paravam, cada vez que saia um a dor voltava e eu já sabia que outro sairia. Em cada coágulo eu o investigava para averiguar se o saco gestacional tinha saído, mesmo sem entender bem do assunto. Por volta das 18h00 eu já não conseguia sequer me levantar sozinha e pedi arrego.

Com a ajuda do marido fui para o hospital, receosa de uma curetagem indevida e ciente que, caso não houvesse a expulsão total a indicação correta seria a AMIU (Aspiração Manual Intra Uterina).

Escolhi um hospital público, pois no privado dificilmente eu teria escolha ou seria ouvida. O que eu não sabia é que, mesmo em um hospital público, existem profissionais cansados, abitolados e que não seguem a ideologia da direção, essa, reconhecidamente adepta do atendimento humanizado. E, principalmente, que mesmo em uma condição clínica crítica, o aborto está no fim da fila de prioridades. Pode não ser o protocolo, mas é a realidade.

Eu não vou dar detalhes do horror que passei desde que a triagem me mandou com uma bela bolinha laranja no prontuário para a sala do plantonista. Foram 12 horas de espera e de luta, resistindo contra a curetagem, alternando o choro com a raiva da situação, deitada no mesmo quarto junto a duas mulheres em trabalho de parto e onde, a cada meia hora uma enfermeira entrava para auscultar o coraçãozinho dos que estavam para chegar ao mundo. Não dá pra descrever como aquela ausculta me rasgava inteira.

(Pausa pra respirar e chorar.)

Uma amiga virtual se materializou no hospital como um anjo guerreiro e passou a noite comigo, já que o marido precisava ficar com o filho em casa. E foi ela quem viu as enfermeiras chorando nos cantos, penalizadas com a situação absurda que assistiam.

Num relance, entendi o que estava acontecendo. Eu fui deixada lá de castigo. Porque eu quis “impor” a minha vontade. Me senti humilhada. Por mim, pelas profissionais que lá estavam e que não tinham autonomia alguma. Apenas no dia seguinte, quando um novo plantonista apareceu, fui atendida e liberada. Ele, ciente dos protocolos atuais, fez pessoalmente um ultrassom e me levou para a sala de cirurgia para realizar a AMIU.

Já faz mais de três meses que isso aconteceu. Coincidência ou não, a AMIU foi realizada no dia do aniversário de setenta anos de Elis Regina, a homenageada pela gravidez que não foi.

Meu corpo, minhas regras? Não no Brasil, onde o aborto é criminalizado, afetando todas que abortaram. Quase um quinto das gestações termina em um aborto espontâneo. Uma em cada cinco mulheres já interromperam voluntariamente a gravidez. Como não falar de aborto?

Eu preciso falar do machismo.

Dizem que o diabo mora nos detalhes. Eu percebo que o machismo mora nos detalhes. No hospital-referência, as mulheres eram as operárias e os homens os comandantes (grande novidade…). E, nesse ponto, vamos concordar: Nós que parimos. Nós que abortamos. Nós que sabemos a dor que sentimos. Não eles!

Eu não me arrependo de ter ido a um hospital público, pelo contrário, agradeço por ter ido lá, pois caso tivesse escolhido um privado sequer teria conseguido ser escutada. Mas o machismo daquele momento não será esquecido nem perdoado. Não pode ser. Nesse momento, só o que desejo é que mulheres estejam no comando. Porque enquanto o homem estiver não conseguiremos ter nossos desejos e necessidades respeitados.

Precisamos de mais mulheres no comando, seja no hospital, na política, na indústria, na mídia. De preferência mulheres feministas, empoderadas, de sangue nozóio e que saibam que sim, o aborto é assunto de Estado, muito mais do que a mandioca.

Mas eu também preciso falar de discurso e da empáfia da classe médica.

Precisamos de médicos que estejam abertos às novas evidências científicas. Que reaprendam os conceitos de humanidade e humildade. Que saibam que não são deuses e que o parto é da mulher, o  corpo é da mulher e o aborto também é da mulher. Sua função é basicamente se fazer presente para que tudo saia como o planejado ou, para que o que já saiu fora do planejado tenha os riscos minimizados e a paciente acolhida.

Eu preciso falar. Não me importa se vocês não estão me ouvindo. Eu realmente preciso falar. =/

 

M

* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la no Twitter @Adriana_Torres.

Uma palavrinha, cara ditadora

Por Deborah Sá*, Biscate Convidada

Cara ditadora que mora em mim,

Sei que tentei fazer vista grossa para suas exigências por muitos anos, talvez décadas, é, mais provavelmente décadas. Agradeço de antemão o cuidado extremo que sempre tem tido em projetar expectativas tão altas somente em si mesma. Quer dizer, você sabe que é injusta consigo mesma, às vezes pesa a mão demais, mas é a medida de segurança que você aprendeu, não jogar a dor que já jogaram em você em quem está do lado, poupar os outros, só que nem sempre me poupa dessa energia desgastante. Você é perita em implosão. Então, respeitando a sua autoridade (porque sei que é você que põe certas coisas nos eixos, bloqueia eu ir muito fundo em certas memórias, etc), é preciso respirar mais um pouquinho. Isso mesmo, a dura crítica a “procrastinação de pessoa preguiçosa, uau, por isso não vai pra frente”, na boa, não precisa ser tão severa. Sei que é por causa de você que os prazos (geralmente) estão prontos bem antes do previsto, com sua revisão em cores vermelhas e berrantes de “Opa, advinha quem mandou o anexo e esqueceu de arrumar aquele apud, hehehe”, “Não acredito que você ainda está errando isso”. Você usa palavras realmente horríveis como motivação, quer dizer, como culpabilização, como se realmente o universo fosse entrar em colapso porque não se pode controlar tudo o tempo todo. Você faz meu processo de aprendizagem sempre viciante mas um tanto dolorido, quer dizer, posso ter o caminho mais fácil, ou posso ir para o caminho novo, pouco explorado e um caminhão de termos difíceis e desafiadores. É claro que eu pulo no escuro um tanto de vezes. Mas esse pulo no escuro pode significar levantar da cama e chegar no encontro em tempo, sem auto-sabotagens, você tem que parar de me aterrorizar tanto. Cara ditadora, são três horas da manhã e já escrevi dezessete páginas hoje, dezessete, ontem, vou parar sim senhora, que esse braço não é feito de pedra. E vou celebrar com comidinhas e dancinhas e amorzinhos, eu sei que você só me deixa descansar se eu tenho a sensação de ter dado o máximo antes. Porque, você, Ditadora interior, parece uma propaganda tucana: “Trabalho, compromisso, responsabilidade”. Porém, também tem seus momentos de glória.

Por exemplo, aquele seu lado mais divertido e soltinho, arisco, sarcástico, desbocado, eu acho que é parte sua esse carão que eu adoro, uma certa petulância com gente desrespeitosa, essa vontade de querer o mundo no talo. E os desejos praticamente megalomaníacos, espontâneos? Eu adoro. E por não suportar a tirania de ninguém (nem de  si), vive reinventando as próprias regras e burlando as tuas leis. Talvez, você seja parte de uma força motriz que sempre me guiou, em todos os lugares, mas agora, estou respeitando e considerando sua devida importância, sem contar, gozando (em todos os sentidos) de sua vibrante companhia. Fica que a gente se ajeita, fica, que a gente reveza, fica que a gente se prosa.

11351327_1457045754607564_5642394097373800822_n* Deborah Sá é uma biscate delicinha que só sabe querer de tudo, com todas as coberturas, com todas as sensações e com todos os sabores.

Comportas

Por Maíra A., Biscate Convidada
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Às vezes é preciso não se saber para se encontrar. Deixar que as coisas explodam e se quebrem irremediavelmente. O que eu queria mesmo era os seus dedos nos meus cabelos. E mais um dedinho de prosa para arrefecer essa carência. Queria eu, nos meus dias de 365 horas, que você não tivesse entrado tão insuspeito, ou queria mesmo era que não tivesse saído. Mas você ficar é a vida como ela era. É demandar uma resposta que nem eu mesma tenho, porque a resposta antiga já não comporta mais. E eu também não me comporto naquela vida de ontem. O que eu queria mesmo era você lambendo os meus pés, chupando cada um dos meus dedos, subindo a língua morna e úmida pelas minhas coxas, passeando pela minha virilha, até eu não aguentar mais e explodir de tesão, gemendo feito gata no cio. Mas, na verdade, todas as nossas conversas foram imaginárias ou insuficientes. E eu cansei de escalar o muro da indiferença. Tudo não passa de uma noite escura, um vaso quebrado e um coração latejante da promessa que foi aquela noite. A cama já não comporta apenas dois. A vida estilhaçada entrecorta todas as promessas daquele conforto de “casa-marido-cachorro”. Porque a vida de gata no cio é a vida da noite, de quem pula de telhado em telhado, boêmia e vadia, sem eira nem beira nem garantia. De quem vai rondando os espaços ao sabor do vento, que entra pelas narinas enquanto corro, chegando a doer o peito e tontear a cabeça. Enfim, respiro.  O que eu desejo ainda não tem nome. Mas pulo assim mesmo no abismo da noite. Queria mesmo era me enredar no aconchego dos seus braços, mas não consigo parar quieta: é o corpo que explode em festa. Não me sei, apenas me desconfio um bocado. E insisto em não me comportar.

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Exijo, Sim, Respeito

Por Monique Prada*, Biscate Convidada

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Tu dizes que não me respeitas e eu fico aqui, me perguntando de onde tiraste a ideia de que podes negar o respeito a outra pessoa. E não que eu tenha te pedido respeito: tu levantas a voz e diz “não respeito”, e eu me pergunto o que é que tu julgas em ti tão superior ao que tenho pra dizer que não respeitas.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que não respeitas uma mulher por que ela faz sexo. E me pergunto de que ventre saíste, fecundado sem sexo. Ou quem sabe pra ti o sexo da santa mãe seja tão sagrado que ela te tenha gerado sem prazer – abnegada que é, como devem ser as mulheres respeitáveis.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que é com o suor do teu corpo que pões o pão na mesa sagrada de teus filhos, do mesmo modo que com o sagrado suor do meu corpo ponho o pão e a refeição à mesa dos meus. Dizes que não me respeitas por que não estudei, e o dizes sem ter perguntado se quem sabe não fomos colegas. Nos puritanos bancos de escola em que sentaste não teria antes se esbaldado a lasciva bunda de uma puta e assimilado tanto ou mais conhecimento que tu?

Dizes que não me respeitas e vais à missa, e lá prometes amar e respeitar teu próximo como a ti mesmo. E repetes semanalmente a promessa – mas estufas o peitinho e dizes que não me respeitas. Ou pelo comprimento da minha saia, ou pela acidez feroz da minha língua. Não te desperto respeito.

Isso como se a ti ou a qualquer de nós fosse dado o divino direito de sair por aí dizendo “não conheço mas não respeito”. Não me respeitas por que te parece que meu sustento vem fácil e o teu, suado – e parte desse teu sustento tão suado vem parar em minhas mãos ou nas mãos de uma das minhas, por que não resistes. “A carne é fraca”, tu dirás – e meus demônios internos rirão da tua cara, da tua falsa moral, e guardarão tua face na memória.

Te arrependerás do pecado de ter pago pelo gozo a uma pecadora, e pensarás te redimir dizendo “eu não respeito” – puro despeito. A mim não enganas. Eu acho graça e levanto a cabeça: exijo, sim, respeito.

10429437_1639299509627620_3154711491717519962_n* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

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