PEC 241: O buraco é mais fundo

Por Luiz Antonio Simas*, Biscate Convidado

O buraco é mais fundo e exige análises não apenas conjunturais (essas são importantes, mas aqui vou me ater a outros aspectos). Baterei de novo numa tecla que me parece uma das chaves do problema brasileiro: a exclusão social no Brasil é um projeto de estado inscrito na nossa História como o mais consistente. A afirmação simples apenas constata que, com momentos raros de relativização deste processo, nós temos um Brasil que articulou estratégias em relação à pobreza fundadas na experiência que é o maior marco da nossa formação: a escravidão.

O fim da escravidão exigiu redefinições nas estratégias de controle dos corpos e coincidiu com os projetos modernizadores que buscaram estabelecer, a partir da segunda metade do século XIX, caminhos de inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados.

Essa prevenção contra a pobreza articulou-se também no campo do discurso em que atua a História como espaço de produção de conhecimento. Apenas elementos externos aos pretos, índios e pobres em geral – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a inclusão pelo consumo de bens, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los, ainda que precariamente e como subalternos, naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. É assim que o racismo opera no campo simbólico.

O problema brasileiro passa, em larga medida, pela manutenção do traço mais profundo da nossa formação, aquele que se revela ou se esconde em inúmeras variantes que, todavia, obedecem ao mesmo mote desde o século XVI: confinar, afastar, normatizar, negar, domar, usar, punir e descartar as sobras viventes, todas e todos que ameaçam o projeto predador e civilizatório das elites do Brasil, continua sendo a pedra de toque da ordem e do progresso nesse canto do mundo.

Nós somos um país que não conseguiu, como contraponto a isso, universalizar os direitos à educação e saúde públicas como princípios inegociáveis. Conseguimos apenas avançar circunstancialmente – e pouco – em um ponto ou outro.

O que a PEC 241 faz não é apenas desmontar o estado social brasileiro (ele mal foi montado, afinal). O que ela faz é consolidar o projeto que identifiquei no primeiro parágrafo deste texto e inviabilizar o Brasil como uma possibilidade de país que não seja o fundamentado na lógica acumulativa mais tacanha, na manutenção de privilégios, na domesticação dos corpos para o trabalho subalternizado e no descarte genocida destes corpos tão logo eles não sejam mais viáveis para a engrenagem do imenso engenho colonial do qual nunca saímos de fato.

O Brasil não tem exatamente deputados: tem, com exceções que confirmam a regra, senhores de engenho, bandeirantes apresadores, capatazes e capitães do mato que nunca saíram do século XVI e acabam de dizer o que seremos no século XXI.

fotosimas*Luiz Antonio Simas é historiador de formação, macumbeiro por vocação e contador de causos por ofício.

 

Invicto Nas Batalhas

Por Alexey Dodsworth Magnavita*, Biscate Convidado

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No anúncio da morte da tão querida Elke, seus familiares citaram uma frase grega: “Eros aníkate mahan”, que pode ser traduzida como “o amor é invencível nas batalhas”. Essa era uma frase bastante repetida por Elke nas mais diversas situações. Como a mulher cultíssima que ela era, falante de oito línguas com assombrosa fluência, conhecedora do grego e do latim, Elke certamente leu “Antígona”, de Sófocles. Foi desta obra que ela tirou a frase que funcionava como sua invocação pessoal.

Falemos sobre o contexto da frase: Antígona, na mitologia, é filha da relação incestuosa entre Édipo e Jocasta e, por isso mesmo, filha de um destino inescapável. Antígona é o fruto de um encontro que, não importa o quanto se desejasse evitar, estava fadado a ocorrer.

A ironia é que Antígona, filha deste destino inescapável, é a imagem da desobediência diante do poder autoritário. No mito, ela deseja oferecer os devidos ritos de sepultamento a Polyneikes, seu irmão morto, contrariando as determinações do rei. É como se do enlace inescapável entre Édipo e Jocasta, nascesse seu exato oposto: aquela que desobedece, que enfrenta o poder vigente, nem que isso a prejudique. Com seus atos, Antígona está mandando a ordem externa às favas e fazendo o que ela sabe que deve ser feito. Consequentemente, ela termina dando a vida por seus princípios éticos.

E é por isso que o amor é invencível nas batalhas: os humanos eventualmente vencem, eventualmente caem, eventualmente triunfam, eventualmente perdem. O amor, não. O amor sempre vence, mesmo que isso nos destrua. Se Édipo tiver que amar Jocasta, nada há de impedir. E se Antígona tiver que enterrar seu irmão, ela o fará mesmo que isso a mate. Porque ninguém pode desafiar a vontade do amor.

A oração completa, evocação, clamor ou hino, como vocês preferirem, é a seguinte:

“Amor, tu que és invicto nas batalhas!
Amor, tu que destróis as riquezas!
tu que manténs tua vigília na face macia de uma donzela!
tu que caminhas sobre as águas
e entre as casas dos moradores dos desertos!
nenhum imortal pode escapar-te,
nem tampouco os homens que vivem por apenas um dia,
e aquele para quem tu viestes é louco!
Apenas eles mesmos têm suas mentes por ti urdidas para o mal,
para suas próprias ruínas.
Tu, que despertas a contenda entre parentes,
Vitoriosa é a luz ascendente do amor que brota dos olhos da noiva;
Tu que és o poder entronado no balanço ao lado das leis eternas
por onde a deusa Afrodite urde sua vontade indomável.
Amor, tu que és invicto nas batalhas!”

 

14081186_10154431327914913_2028334642_n*Alexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP e pela Università Ca’ Foscari de Veneza, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor de literatura fantástica e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida.

O Herói Homossexual

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Existe uma ideia equivocada quanto às pessoas pertencentes a alguns grupos minoritários no que se adentra à resiliência (principalmente) em sua forma mais complexa.

Não há estudos que comprovem nenhuma característica ligada ao DNA de pessoas homossexuais que define, por exemplo, alguns traços do que, mais tardar, formarão sua personalidade – modelada pelos meios sociais, claro – como paciência, compreensão, resiliência, frieza, racionalidade, didática e empatia. As leis da física quântica se aplicam aqui em sua forma mais simples e, neste caso, desonesta: pra toda ação, existe uma reação. E, desde cedo, somos colocados a teste.

Uma vez que me assumo como homossexual publicamente, pago pelo preço por tal. Pago o preço de um valor incontável e subjetivo [a cada um]. A sensação de que devo é constante: tenho que pagar pelas consequências (negativas) da escolha pela vivência da minha homossexualidade. Devo e sempre deverei explicações de quem sou, do por quê sou (e do por quê não sou). Pago, também, nas humilhações diárias, nos silenciamentos, nas violências, nos direitos negados, nos acessos restritos, na humanidade irreconhecida.

Quando se faz parte de grupos discriminados (e nesse caso, falando somente dos gays), a justificativa do ser e de ser não se corrobora à lógica cartesiana de pensamento claro e de distinção – uma evidência ingênua da epistemologia tradicional. Nesta análise, eu não posso somente ser. Eu vou ser por que (insira aqui qualquer merda). Razão. Qual razão?

Desde que minha homossexualidade se tornou pública a algumas pessoas próximas da família, o discurso vem sempre em um tom que atravessa, entre linhas, a ideia de causa-consequência: “mas você precisa entender o lado dele também”; “você precisa dar tempo a ele”; “você tem que ser paciente, uma hora tudo vai se ajeitar”; “você vai aguentar isso tudo, você é forte”. E isso não se resume as instituições familiares. E quem entende o meu lado?

Eu sou culpado por ser como sou e devo, agora, assumir as responsabilidades por ser quem sou. Neste nível, mais uma vez, as atenções se voltam ao agressor e, como se não bastasse a empatia do mundo para aquele que “lida” com a homossexualidade de um ente (ou qualquer outro tipo de relação), cabe a nós, também, exercitar nossa empatia para com o próximo que nos agride. Não sabemos, quase que diariamente, o que é sofrer violências? Empatia está no nosso sangue, em algum par de cromossomos. Risos irônicos.

A esperança depositada em nós quanto à resiliência também é angustiante. Diariamente, eu preciso ser forte sem que haja sequelas desse enfrentamento e nem uso de outros dispositivos que me mantenham de pé. Faz parte do processo de desconstrução do outro e, com a dignidade já manchada, é dever nosso se manter intacto. Mas e quanto a mim, mesmo? Se eu fraquejar, perco a razão.

A didática no que diz respeito à educação e desconstrução ao que toca nossas vidas também é esperada com ansiedade: temos que explicar, quantas vezes for necessário, a quem quer que seja, que – veja bem – eu também sou gente. Também amo, odeio, fico triste, feliz, tenho dias bons e ruins, como e durmo (e que nada disso se manifesta em função da minha sexualidade), ainda que para os mais tradicionais eu seja um cu a ser preenchido pela maior quantidade de pinto que ali couber.

A minha humanidade, neste ponto já pouco lembrada, é colocada de lado de vez quando, este sujeito estratégico, equipado com características em níveis destoantes do resto mundo, tem que tomar o lugar de quem sou de verdade. Realidade constante.

Acontece que eu já não aguento mais.

Dos sorrisos amarelos que enfeitam o meu rosto e divide seu público entre aqueles que nada têm a ver com meu sofrimento psíquico e psicológico – dado as circunstâncias atuais -, e aqueles que, mesmo ao meu lado, não fazem ideia da dimensão do que a minha realidade significa tão e somente pra mim, me entristeço ao saber que internalizei, depois de anos vividos na prática, a responsabilidade individual pela minha sanidade. “Para de drama, Abdala!”, é o que dizem.

Não demonstro fraqueza, não porque não acredito que não possa ser fraco, mas porque fraqueza se materializou por mais de uma vez durante minha jornada e ninguém se importou. Não quero demonstrar tristeza, não porque não me permito (eu diria que muito pelo contrário, inclusive), mas porque tristeza pontual se trata com ações pontuais, o que não é o meu caso. Não quero me fragilizar mais porque fragilizado eu já estou. Não atravessem a barreira da auto-suficiência e auto-proteção que construí ao longo dos anos; por lá, quero estar só.

Entre perder um pai (simbolicamente), uma casa, uma ceia de Natal e até um sobrenome em nome daquilo que deveria ser somente mais uma característica que me torna um sujeito como qualquer outro, a maior dor fica por conta daquilo que já não consigo mais transformar: a mim mesmo. E com as seqüelas de uma infância conturbada, de um mundo às avessas e uma mente inquieta, internalizei também algo pior: a responsabilidade de fazer o outro ver em mim aquilo que só eu posso enxergar. Paradoxal, portanto, contraditório, eu sei. Mas a este nível, a lógica já nem se faz mais tão necessária.

Eu estou doente. Eu já não consigo lidar, de maneira harmoniosa, com o que a vida tem colocado de obstáculos a serem superados que se corroboram a homofobia destroçada diariamente. Tenho perdido, com o tempo, a capacidade básica de convivência; tornando-me cada vez menos tolerante aos que reproduzem discursos vazios e preconceituosos contra mim ou os iguais a mim, ao passo que também afasto de mim, de certa forma inconscientemente, aqueles que demonstram algum nível maior de simpatia e afeto afinal, enquanto puro processo de construção para um fim, como qualquer outra obra, eu posso ser abruptamente interrompido.

Ergo-me dolorosamente, dia após dia, na certeza de que, para além da materialidade melancólica que minha existência consigo traz, sigo sem o direito à subjetividade, tão importante no meu processo identitário; sobretudo humano.

Termino fazendo das palavras da Daniela Andrade as minhas: “Viver, neste sentido, é preparar-se para estarmos sós, é despedir-se, a cada etapa, de quem muito admirávamos e os quais não poderão permanecer, ou de quem muito pensávamos que admirávamos e se demonstraram independentes da personagem que lhes criamos. […] Vivo no automático, até que por automático saibamos que também é preciso dizer adeus às pessoas com quem cruzamos, com quem convivemos, aos nossos erros e aos erros dos demais. Dizer adeus, inclusive, a nós mesmos, nos permitindo nascer e renascer em uma nova etapa, em uma nova vida, ou quem sabe, para o grande finale. O dia em que, finalmente, saímos de cena”.

Sintomático que isso recaia, em grande parte das vezes, sobre nós.

11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

Pátria Educadora

Por Vinícius Abdala*, Biscate Convidado

Nasci e fui criado em Itabira, uma cidade do interior de Minas Gerais que também tem Carlos Drummond de Andrade como um dos meus conterrâneos. Cidades do interior sempre carregam consigo o inevitável conservadorismo e tradicionalismo de sempre, principalmente se tratando do estado de Minas Gerais e sua cultura coronelista.

Parte da minha educação formal básica foi feita em uma escola particular católica. Não consegui me adaptar às regras impostas pela instituição e, com isso, meus pais logo trataram de me colocar em uma escola de ensino público estadual. Sempre muito hiperativo e, desde essa época, sendo medicado para conter a hiperatividade, penso que nunca acreditaram muito que eu poderia trazer resultados e transformações significativas a mim e ao meio que vivo devido as minhas limitações em relação à atenção e concentração.

Ainda que uma fosse uma escola estadual, o nível sócio-econômico dos alunos não era condizente à realidade das escolas públicas do país: a Escola Estadual Major Lage sempre fora referência no ensino fundamental do município, tendo filhos de advogados, médicos e engenheiros ocupando os espaços de quem não tinha condições de pagar por um ensino de qualidade. Eu mesmo fui um desses: por influência da minha mãe – Chefe de Seção na Prefeitura Municipal, consegui uma vaga.

Ainda que fosse uma escola tida como “bem frequentada” e, portanto, de pessoas com maior acesso a informação e educação, as questões de gênero e sexualidade não eram (são) discutidas nesse âmbito educacional. Com isso, era (é) presumível que a homofobia fosse (seja) naturalizada inclusive pelo corpo docente desse espaço, como acredito ser “natural” em todas as outras escolas do país também.

Constantemente, eu era ridicularizado pelos amigos de classe, que não me agrediam somente verbalmente, mas, muitas das vezes, também fisicamente. Das poucas vezes que recorri aos professores, ouvi mais de uma vez da boca deles que “eu deveria entrar na brincadeira”, que tudo não passava de “piadas”.

Acredito que compartilho aqui a realidade de muitos: venho de uma família que dizia que, se eu sofresse qualquer tipo de agressão fora de casa e não revidasse na mesma moeda, apanharia o dobro em casa. Eu, que sempre troquei as bolas e carrinhos por bonecxs e video-games tinha pavor em sequer pensar na possibilidade de agredir ao próximo. O medo de apanhar fora e dentro de casa sempre me acompanhou, principalmente do meu pai, que me bateu poucas vezes, mas que, quando aconteceram, deixaram marcas não só no corpo, mas na alma.

Com isso, nunca denunciei aos meus pais ou aos professores as constantes agressões que meus colegas de escola me faziam passar. Dos xingamentos aos empurrões, rasteiras e chutes (quem lembra do tratado “até amanhã? risos), preferia a humilhação dos amigos de sala do que ver a cara de desgosto do meu pai por ver seu único filho homem apanhando de outros meninos da mesma idade sem revidar da mesma forma.

Os anos se passaram e as agressões foram se naturalizando. Constantemente, prestava favores aos meninos em troca de momentos de paz, onde podia ler as revistas das Witch sem ser incomodado. O tempo foi passando, as crianças foram crescendo e a puberdade foi se aproximando…

Viado e bicha sempre fizeram parte dos vocativos usados para se referirem a mim, fosse na minha presença ou não. As palavras quase perderam seu sentido de adjetivos e se tornaram substantivos próprios: VV (Vinícius Viado) ou Abdabicha foram alguns dos apelidos que ouvi durante grande parte da minha vida naquela época.

Naquele tempo, próximo aos 11-12 anos, não tinha ainda a noção exata do que queriam dizer quando me acusavam (como se fosse uma culpa a ser carregada) de ser bicha. Sabia que era algo muito ruim; que meus pais repudiavam, que a escola preferia se cegar a enxergar essa realidade e que os colegas, mesmo os próximos, usavam como dispositivo de humilhação para me expôr, condenar e justificar as constantes agressões. Os apelidos arrancavam gargalhadas e, mesmo os que se mostravam solidários a mim não continham o riso.

Certa vez, estava sozinho no banheiro masculino – banheiro este que possuía diferentes cabines individuais para fazer nossas necessidades. Dois alunos de séries acima da minha resolveram me seguir e entrar logo depois de mim.

Eu não entendia que o “ser bicha” implicava também em sentir atração por pessoas do mesmo gênero. Na época, acreditava que os insultos aconteciam porque, de fato, o mundo masculino e seus pertencentes não me contemplavam. Eu tinha 11 anos.

Sei o nome dos dois alunos que me trancaram em uma das cabines, colocaram o pinto pra fora e “pediram gentilmente” que eu colocasse a boca no genital deles. Em choque, olhei para os dois e comecei a chorar. Foram dois tapas no ouvido e a ameaça de que, se o que tivesse acabado de acontecer se tornasse público, eu apanharia ao final da aula até que não conseguisse mais andar.

Terminei não tendo que posicionar minha boca nos genitais que estavam a centímetros de distância do meu rosto; contudo, desejei que não tivesse que voltar a estudar nunca mais. Mudei de sala, passei a andar em grupo (formado principalmente por meninas e outros meninos gays) e tentei me proteger como podia.

Coincidência ou não, hoje, um desses agressores me adicionou no facebook. Acredito mesmo que na cabeça dele enquanto homem hétero, o que ele fez não passou de uma piada de mau gosto que deve ser perdoada devido a pouca idade e imaturidade. Se o mesmo acontecesse hoje, provavelmente seria mais um homem no mundo sem pinto pra contar história.

Quero dizer com isso tudo que as agressões sempre partiram de todos os lados e nunca houve a quem recorrer quando as situações ficavam quase insuportáveis. Se na educação familiar a repressão pela sua orientação sexual é forte – motivada por valores morais e religiosos na maioria das vezes, a escola não se mostra muito diferente. Um ambiente que deveria prezar pela transformação, emancipação, construção de conhecimento e noções como respeito à diversidade acaba servindo também como mecanismo de manutenção do preconceito e descriminação.

Existo e resisto para também denunciar, em nome dos milhares que também já passaram por situações como a minha e, por falta de amparo, idade e/ou noção de mundo e realidade, se silenciaram diante de tamanhas agressões que se naturalizam por falta de punições e repressões.

Aos que resistiram e ainda resistem para (sobre)viver nas instituições de ensino que são, na maioria das vezes, classista, machista, racista e homofóbico e transfóbico: vocês não estão sozinhos. Que a luta pela inclusão de pautas como discussão da diversidade sexual, religiosa, de gênero e étnico-racial dentro do meio acadêmico se torne um dia uma realidade palpável.

11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

Gênero, Prisão e Potência

Por Pedro Moraes*, Biscate Convidado

A invenção do sujeito
Um homem é uma invenção de si mesmo. Uma narrativa, uma personagem construída pra se comunicar com o mundo e lidar filosoficamente com a própria existência, com a vida nua. Essa construção é tanto menos livre quanto mais nos são impostas amarras sociais, e parte importante da luta por direitos humanos consiste em deslegitimar algumas dessas amarras, em afirmar que é possível e razoável ser outras coisas, sem prejuízo de direitos. Vou falar, no entanto, do mundo dos privilegiados: o que é que somos quando podemos ser tudo? Se tais barreiras normativas são brandas ou ausentes, o que é que resta por querer, o que é que se escolhe? Pretendo demonstrar que esse dever-ser majoritário, hegemônico, não é o melhor que a vida tem a oferecer, e é, também, uma prisão. Não me interessa se auto-imposta ou não: elencar culpados e beneficiários parece, nesse caso, uma operação ociosa e essencialista, que desastradamente anula a historicidade, a culturalidade e a chance de criticar no plano ideológico esse estado de coisas (se se tratasse mesmo da essência de alguém, combater o fenômeno seria uma operação fascista; pelo contrário, é pura ideologia e desconstruí-la é um gesto libertário). Isto não é um ato cínico, indiferente à dor de quem tem sua igualdade negada – pelo contrário: o que proponho é que é vantajoso libertar-se dessa prisão e que por efeito esse gesto será também, necessariamente, pela liberdade alheia.

Interlúdio
Se tratamos de fronteiras complexas como poder e potência, diferença e igualdade, é bom esclarecer de onde se parte: como bom comunista comedor de criancinhas, acredito na igualdade como um positivo. Ela não é, porém, um fim em si, um absoluto: ela é a condição em que as potências humanas podem melhor se realizar. Tratamos da horizontalidade da estrutura social. Tratamos, noutras palavras, da igualdade política, que já se pode inferir, em verdade, nas ideias de república ou democracia (para mim, dizer-se comunista é levar às últimas consequências – comme il faut – essas ideias clássicas, que de outro modo seriam apenas cavalos de troia). É a diferença (ou a diversidade de modos de vida, de fenômenos e experiências) que eu assumo como um fim em si, um bem em si. Do surgimento da vida e multiplicação das espécies à criação acelerada de sentido pela arte, o que acontece de extraordinário no mundo é produção de diferença. O avesso é o deserto, a repetição, a estéril paisagem lunar, a morte. Então, tomemos a distinção entre poder e potência em Deleuze e a valorização da diferença e (não paradoxalmente) da igualdade política como parâmetros.

Liberdade
O princípio da liberdade está na negação, na recusa, na revolta, e sua melhor antítese não está na prisão, no cárcere, mas na obediência. Constituir-se sujeito é tomar para si as rédeas da vida, assumir o próprio desejo, os riscos e as escolhas, em oposição ao que se possa esperar de cada um, em oposição ao poder e à alienação. E é assim que opera a heteronormatividade: ela não diz que não podemos ser alguma coisa (ela é mesmo muito anterior às identidades sexodivergentes que hoje reclamam aceitação – de modo que sequer poderia ser definida por sua recusa), o que ela diz é o que devemos ser. Não é só quem se desvia que está sob os efeitos, portanto, desse regime: quem não está sendo punido pelo desvio está também em sujeição, em obediência. As figuras prescritas num regime normativo não são opressor e oprimido mas, mais propriamente, desviante – quem se deve punir ou eliminar – e obediente – quem está ocupado em seguir as normas, e portanto deve ser aceito. E nem mesmo os papéis do fiscal e do fiscalizado são fixos: o desvio ou o cumprimento das regras são usados nas constantes disputas por superioridade moral e poder, e todos se fiscalizam mutuamente e esperam benefícios quando obedecem e prejuízo para seus competidores pegos em falta. (Obviamente, contudo, a vantagem é de quem já está em posição de ascendência social – este estará menos sujeito ao escrutínio e a punições, e poderá mais facilmente se aproveitar do desvio de um subalterno para reforçar sua inferioridade, sua submissão).

Insuficiência
Somos todos, em última instância, desviantes. Mesmo os mais obedientes ou mais adaptados a essa prisão ainda viverão sob o signo da falta, da insuficiência, sob o fantasma do deslize. Os papéis de gênero consagrados pela heteronormatividade estabelecem alguma interface com o natural, mas numa leitura engessada, simplista e caricata, enquanto esse natural é fluido e instável; refletem ainda uma divisão social do trabalho já há muito anacrônica e a ordem patriarcal da tradição judaico-cristã, com profunda assimetria entre o homem, concentrador de todo o poder, sóbrio e infalivelmente forte, e uma mulher pura, submissa e cuidadora. Esses não são apenas papéis inaceitáveis moralmente – são papéis impossíveis de desempenhar, e a malograda tentativa que todos levamos até algum ponto é um processo violento e trágico. Sempre falharemos: nunca machos o suficiente, nunca santas e maternais o suficiente; e sabemos o que acontece a quem é posto nessa situação: uma vez em dívida, estamos coagidos a obedecer mais ainda, a ceder mais terreno, mais liberdade, e propensos a cometer violências covardes em nome da ordem que é nossa credora.

Recusa e escolha
A recusa desses papéis, portanto, deve ser uma operação libertadora mesmo para quem não foi condenado, de saída, à subalternidade (como o são as mulheres), nem teve sua expressão sexual ou de gênero reprimida e sufocada. Falamos da renúncia a um poder triste, limitador da experiência, e da busca de potências em liberdade. Entre as expressões que costumamos atribuir à masculinidade existem potências que estimo e de que não me sinto ou sentiria constrangido a abdicar (a própria busca da autonomia, injustamente, é uma delas), entre outras manifestações que são pura barbárie e boçalidade, das quais busco me libertar – num processo que teve início tardio, o que lamento, mas que tem sido invariavelmente recompensador. De forma análoga, há expressões de um feminino arquetípico que me seriam negadas e de que eu busco, com grande prazer, me apropriar, tanto quanto me convenha. Se o machismo não é outra coisa, em sua operação mais fundamental, senão a hierarquização do masculino sobre o feminino, não acredito num antimachismo que não passe pela valorização do feminino – e isso num processo de deixar-se afetar, deixar-se envolver. Se sou capaz de postular que o Outro me é igual em valor, seria difícil explicar que não quisesse para mim nada, absolutamente, daquilo que o constitui. Como disse meu ídolo Gil: “Todo artista tem de aprender uma certa viadagem…” Ele o diz, ouso elaborar, porque muitas das potências que deve buscar um artista – citaria a abertura para a alteridade, a sutileza, a comunicação empática – estão, em nossa cultura, atribuídas a um feminino.

Contradição e coragem
Não raro, penso em quantos dos meus amigos mais próximos, pessoas muito inteligentes, são aberta e veementemente favoráveis à igualdade de gênero, ao reconhecimento e defesa dos transgêneros e das orientações sexuais divergentes e, no entanto, ainda constituem sua própria subjetividade num clichê conformista e não conseguem abandonar expressões anacrônicas do machismo – entre chavões, renúncias e piadas tacanhas. Não se deve cair no protesto banal que sugere que essas contradições anulam a opção política acertada, é importante dizer. No mínimo, essa opção tem resultado presumível na conquista de direitos para as minorias e serve para colocar quem quer que seja em xeque quanto a suas posturas: um machista convicto sendo machista não poderia sequer ser dito incoerente. Ou será que os movimentos identitários, tão afeitos a coerências, preferem um machista coerente a alguém trilhando um caminho cheio de contradições mas na direção certa? A escolha, me parece, deveria ser óbvia e não é – mas, assim caminha a humanidade. De todo modo, o que me interessa é provocar esses amigos, que tanto estimo: a fragilidade que demonstramos nessas expressões, nessas sobrevivências do machismo chega a ser melancólica. O medo de ser “visto como veado”, o medo de não dar conta da masculinidade que devemos ao mundo salta à vista, e é risível. Por isso os provoco, os chamo a exercer uma potência tida, nessa tradição anacrônica, como masculina: a coragem. Tenhamos a coragem de recusar esse papel e esse medo.

Liberdade e potência do não
Por fim, e numa tentativa de sintetizar minha proposta e expandir seu alcance, eu trato aqui de que o gesto radicalmente livre está na recusa peremptória das identidades – que são, impreterivelmente, um dever ser, um regime normativo. O espírito comunitário, destruído pela colonização ocidental/cristã/capitalista do mundo para que esta se afirmasse como poder único, precisa ser reconstruído sob um novo tipo de identificação, um encontro na diferença, e não na homogeneidade fascista. Reconheço ainda, é claro, que os oprimidos se orientam e se reúnem em vínculos identitários como forma de reagir a opressões sistêmicas e conquistar direitos. Isto tudo é, sim, legítimo, provou-se eficaz até certo ponto, e deve ser apoiado, em suas demandas legítimas, por quem quer que se pretenda libertário. Esses vínculos não podem ser, no entanto, o modelo final da ação política, pois, primeiro, não oferecem um caminho para a libertação de seu próprio conteúdo normativo: a tentativa de dar conta deste efeito colateral tem sido – o que é um evidente fracasso – a fragmentação sucessiva em novos agrupamentos identitários, numa espiral sectária que já beira a esquizofrenia; e então, sobretudo, porque não oferecem um caminho para o encontro entre os diferentes devires minoritários com que precisamos – e esse é o grande desafio da política contemporânea – constituir uma maioria política diversa, igualitária, libertária e antifascista.

Para além do fenômeno dessas identidades reativas, é certo que existe um encantamento, uma tentação em servir, obedecer, conformar-se: ser livre tem um custo terrível, não é nunca um processo indolor, nunca um processo de que saímos impunes, ao menos sem conhecer a solidão – o maior dos terrores, talvez, da condição humana. O pertencimento traz algum tipo de recompensa psíquica primordial e o buscamos mesmo nas mais estúpidas fontes, como atestam torcidas organizadas e outras seitas fascistóides que escancaradamente só existem para e pela nivelação e identidade de seus membros, sem nenhum conteúdo positivo, sem nenhuma intenção perceptível senão o estabelecimento de uma fronteira Nós/Outros e a consequente tentativa de destruição do Outro.

A liberdade não é panaceia ou éden, mas o inferno da alteridade, da experiência, do risco e do desconhecido; não o fim das dificuldades, mas seu começo – é sempre mais fácil obedecer. A liberdade é a dor inenarrável da recusa, o terror do enfrentamento que é dizer: Não. E o único terreno em que a vida pode verdadeira e radicalmente florescer.

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*Pedro Moraes, o moço à esquerda, é programador e editor da Revista Baderna. Os gritos de ódio devem ser encaminhados à seção de reclamações do site naofo.de

Preliminares

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Há sempre muita conversa sobre a importância das preliminares, a forma das preliminares, a duração e natureza das preliminares. Para falar a verdade, se você olhar com cuidado, ninguém sabe mesmo como devem ser preliminares.

Preliminar é aquele jogo antes do jogo principal, em geral um sub-20 meio mambembe para distrair quem chegou cedo no estádio, um jogo de meninos em um campeonato que ninguém sabe direito se é o estadual, se é o nacional ou se nem é nada disso, se é só um amistoso extemporâneo. Perá lá, o telefone…

– Alô? Oi, Silvia!
– Cara, esquece o futebol, você esté escrevendo no Biscate, futebol é no outro site. Aqui é ripa na chulipa e pimba na gorduchinha, para de enrolar!
– Mas estava construindo a metáfora…
– Apaporra, Paulo, metáfora de futebol com sexo já tinha cansado minha mãe, lá na época que o Pelé jogava futebol em vez de falar bobagem!
– Tá, tá, eu paro…

Como eu ia dizendo, preliminar vem do latim limens, limite. “pre”, todo mundo sabe, é antes. Antes do limite, mas que limite? Ora, ainda gastando o latim, num antigo manual de sexo atribuído a Cícero, o grande orador romano escreve: “Ante coitum pre limens sed”, implicando que as preliminares são tudo o que vem antes da penetração. Telefone de novo, segura aí…

– Oi, Rê!
– Latim, Paulo? Latim??
– Ah, eu estava só me divertindo…
– Mas onde o Cícero escreveu essa porra?
– Em lugar nenhum, né? Eu inventei tudo, até a frase. Mas preliminar vem de pre limens mesmo.
– E limens é onde está a paciência da leitora..
– Quantas editoras tem esse site, afinal?
– Quantas forem necessárias para fazer você parar de enrolar e ir direto ao ponto.
– Ou pelo menos ir bem indiretamente ao ponto, para deixar crescer a tensão, né?
– Mas lembra da paciência no limens, rapaz.
– Lembro sim.

A verdadeira natureza das preliminares é alvo de algum debate. Os americanos, que gostam de definições precisas e objetos mensuráveis, costumam situar o início das preliminares de forma um tanto exata no momento em que os parceiros começam a se tocar, mesmo ainda completamente vestidos.

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 A ação propriamente dita envolve beijos na boca, abraços, mãos passando pelos corpos, apertões, chupões no pescoço, beijos pelos corpos (quando a roupa começa a sair), mãos roçando bucetas e pirocas. Hmm. Deixa eu perguntar uma coisa aqui…

– Oi Paulo, tudo bom?
– Oi, Lu! Eu estou com uma dúvida. Aqui pode piroca?
– Por que não poderia?
– Sei lá, outro dia deu um problemão lá num grupo de novela…
– Você vê novela?
– Não, mas adoro o grupo de novela. E daí teve uma piroca e um moço ficou muito ofendido.
– Com a piroca?
– Com a palavra.
– Ah. Mas pode. Pode piroca, pode buceta, pode cu, pode o caralho a quatro. Parece que você nem lê o que eu escrevo.
– Era só para confirmar. Vai que está rolando alguma interdição da piroca e eu não sei.
– Pode tudo. Mas um aviso: não use diminutivos. Se você falar em xoxotinha, piupiuzinho e coisas assim, a gente vai rir de você daqui até o fim dos tempos.
– Tá, não se preocupe.

O Consenso de Las Vegas, a lendária reunião dos principais sexólogos americanos ocorrida em meados de 1995, determinou que as preliminares terminam no momento em que o órgão de um dos parceiros é tocado.

Na verdade, o Consenso de Las Vegas determinou um monte de outras coisas, como a ordem em que as partes do corpo devem ser estimuladas, a duração destes estímulos, as variações aceitáveis dependendo do sexo e da orientação sexual de cada um dos parceiros, etc. Se é verdade que as determinações de Las Vegas fizeram um estrondoso sucesso nas redações de revistas femininas e masculinas por todo o Ocidente, se tornando a base de 99% dos artigos sobre sexo publicados desde então, a reação do resto do mundo não foi menos feroz.

Já em 97, um artigo coletivo de um grupo de sexólogos, antropólogos, anarquistas latino-americano denunciava o Consenso como “a base do neo-liberalismo sexual” e “uma bobagem sem tamanho”. Um ano depois, a nota final do Congresso Pan-Europeu de Sexologia criticava o Consenso sem meias palavras. “La merde réductionniste américain”, era o título da nota, cujo tom e vocabulário causou certo espanto na época.

A polêmica sobre a natureza real das preliminares se arrastou por toda primeira década deste século. Com o reducionismo empiricista do Consenso desacreditado, restou-nos tentar uma visão mais abrangente, menos presa a dogmas e a fenômenos diretamente mensuráveis, ainda que talvez menos precisa e mais genérica.

Quando começam as preliminares? Ora, talvez elas comecem no instante em que os parceiros decidem que vai ter sexo. Pode ser um olhar, pode ser um leve toque, pode ser um beijo. Mas também pode ser uma calcinha descendo, um vestido subindo, um zíper se abrindo urgente. Mas talvez elas comecem antes, um roçar de pernas sob a mesa, um dedo subindo distraído pelas costas, uma mordida despretensiosa na orelha. Numa mensagem de texto, num inbox de Facebook.

Quando elas terminam? É uma pergunta difícil. Claro, todo mundo concorda que quando ocorre uma penetração as já preliminares terminaram. Mas quando elas terminaram exatamente? O orgasmo não é parâmetro, pode acontecer a qualquer tempo. O toque em um órgão genital, como queriam os americanos, é um parâmetro insuficiente e claramente errado – a brincadeira pode ir e voltar dos ditos órgãos por um longo tempo. Pior ainda, dissemos ali que quando há penetração, as preliminares terminaram. Mas e se não houver penetração? Quem disse que sexo envolve necessariamente e sempre a penetração? Se alguém chupar o outro até os confins do êxtase, sem penetração, não é sexo? E se alguém se deixar amarrar e vendar e bater e quase morra de gozar no processo, não é sexo? E duas mulheres perdidas com as línguas no outro clitóris, estão fazendo o que, senão sexo?

Um pergunta de outra ordem talvez ajude. Qual a função das preliminares? Excitar-se, excitar o outro? Deixar paus duros e bucetas molhadas, prontos para a ação principal? Divertir os parceiros? Ver quem aguenta mais tempo sem gozar? Tudo isso junto?

As preliminares talvez terminem quando a atenção do jogo se foca decisivamente no orgasmo de um, de outro ou dos dois. A tensão já subiu até o limite (o limite, lembra?) e agora muda natureza da dança. Claro, isso não diz nada sobre duração. Pode durar os cinco ou dez segundos necessários para abrir o zíper e afastar a calcinha. Pode durar horas. Pode até ter por objetivo não deixar o outro gozar.

Mas ainda cabe aqui um epílogo mais antropofágico, por assim dizer. Uma outra forma de ver a natureza mesma do sexo, uma forma menos compartimentada, mais afastada das receitas fáceis das revista femininas. Porque para alguns de nós, parafrasendo Paul Veyne, as preliminares não são uma ciência e não tem muito a esperar das ciências; elas não se explicam e não tem método; melhor ainda, as preliminares, das quais muito se tem falado nesses dois últimos séculos, não existem.

 Ah, claro, o telefone. Como não ia tocar…

– Oi de novo, Rê
– Paulo, meu filho, ninguém tem nem ideia de quem é Paul Veyne…
– Mas povo não lê mais “Como se faz a História” no primeiro ano da faculdade?
– Temo que não.
– Lá quando a gente fez faculdade acho que só os engenheiros escapavam. O quê eles leem agora?
– Vai saber. Acho que alguma apostila ou outra bobagem assim. Com certeza não leem historiadores franceses amigos do Foucault.
– Bem, Biscate também é cultura, quem sabe alguém se anima a ler…
– Você é que sabe…

Por que eu digo isso? Por que eu acho que posso dizer isso? Não estava claro para todo mundo que as preliminares tem função, começo e fim? Pois então. Estava claro que algumas pessoas querem que as preliminares tenham função, começo, meio e fim. Método, técnica e sentido. Se possível, que sejam mensuráveis e que se possa dar nota aos participantes. Mas e se não? E se todo o objetivo do jogo fosse jogar, sem ponto de partida ou porto de chegada?

 O caso aqui é por em dúvida alguns dogmas. O primeiro é a centralidade do orgasmo. Toda a visão de que existem preliminares se baseia na visão anterior, de que o auge e o fim do sexo é o orgasmo. Mas se você toma o orgasmo como passagem e não como ponto de chegada, você muda todo o paradigma. Porque aí você precisa questionar o outro dogma, do sexo como algo separado da vida e delimitado por momentos, ambientes e regras. Algo com método e técnica. Algo além de uma narrativa.

 Pense numa paisagem. Nessa paisagem existem lagos, rios, talvez um braço de mar por vezes calmo, por vezes bravio. Tem montes, montanhas, vulcões. Tem bosques, campos, florestas. Talvez tenha até geleiras e pântanos. E ligando cada acidente desses, caminhos: vias expressas, trilhas difíceis, caminhos batidos e caminhos perdidos, estradas de terra, de asfalto, de tijolos amarelos. Cada acidente um orgasmo, cada caminho um jeito de chegar lá. Mas os caminhos não começam nem terminam  nos acidentes, nem os acidentes estão lá para serem necesariamente alcançados. Por vezes os caminhantes querem apenas andar a esmo. Olhar de longe a montanha, contemplar as ondas quebrando.

Se vida e sexo são um só, a distinção entre preliminares e sexo em si perde qualquer razão de existir. Você até pode tentar manter a diferença, mas vai acabar com um conceito circular – as preliminares começam exatamente quando termina o “sexo”, atravessam aquilo que os manuais chamam de “pós-sexo” e vão terminar lá no próximo “sexo”. No fim, um conceito que não serve para nada. Porque o sexo existe, pode existir, o tempo todo. Qualquer gesto, qualquer olhar, qualquer toque, pode desencadear a escalada do vulcão, o banho no lago ou a corrida pelo campo florido. Basta uma mudança na direção do olhar. Basta encarar a vida como uma imersão contínua e eterna num oceano de sexo sem fim.

Claro, todo mundo precisa dormir, trabalhar, comer e ir ao supermercado. Mas quem disse que cada uma dessas atividades não são parte da vida e, portanto, da vida enquanto sexo?

Não estou sugerindo que você saia agarrando sua chefe, a caixa do supermercado, o garçom do quilo. Você até pode fazer isso, se eles quiserem e vocês combinarem de orientação, mas não é essa a ideia aqui. A ideia aqui é que qualquer momento pode e deve ser aproveitado para se mover na paisagem dos orgasmos – basta prestar atenção aos sinais que você manda e recebe. Basta encontrar outro alguém tenha ânimo para fazer da vida não uma sequência de orgasmos, mas um contínuo de sexo, que ocupa todo no tempo e desfaz as fronteira do espaço.

Porque dormir também é dormir juntos sem roupas, comer também é cozinhar e alimentar alguém, e não preciso nem dizer como isso pode ser sexual, trabalhar também é pensar continuamente em cenas explícitas enquanto a reunião se arrasta ali fora, imaginar mil jeitos de sair dali e ir andar até um acidente orgásmico ou simplesmente mandar uma flor, uma língua ou uma boca vermelha no whatsup.

E tudo retorna a uma nova caminhada em direção ao mesmo ou a outro, um novo encontro com o mesmo ou com outro, uma nova visita ao pântano, uma um novo passeio pela estrada dourada, um novo mergulho no vazio…

PauloCandido* Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

Sobre ser gorda e ser livre

Por Bruna Giorjiani de Arruda*, Biscate Convidada

Durante grande parte de minha vida, acreditei que chegaria o dia em que eu, finalmente responsável e esforçada, abandonaria minha “falta de vergonha na cara” e emagreceria. Achei que haveria de chegar o dia em que, de fato, eu mostraria meu valor para a sociedade e conseguiria atingir o ponto máximo da vitória, a conquista de um corpo esbelto.

Lembro-me, de maneira clara, as inúmeras vezes que, frustrada com a imagem do espelho, convencia-me de que aquilo acabaria e, na próxima segunda, eu começaria o caminho de uma vida melhor. A crença no amanhã perfeito me roubou risos, me roubou a autoestima e manteve-me presa na esperança de que, se somente os magros são felizes, em breve, eu seria também.

Acreditava que todos os meus problemas eram fruto direto de minha gordura e que, quando triunfasse, nunca mais teria motivos para chorar. Relacionamentos, roupas, espelhos, comidas, sorrisos, amor próprio confinados em algum canto obscuro dentro de minha mente, enquanto o que assumia o controle de meus pensamentos era a minha constante falha enquanto ser humano, a de ser gorda.

Demorou muito tempo para que eu, de fato, sentisse a libertação de todo estigma social que rondou a minha existência desde sempre. Nasci e cresci gorda. Em algumas épocas mais; outras, menos, mas sempre gorda. Descartada do conceito de “normalidade” corporal, demorou muito para que eu encaixasse o tamanho do meu corpo no tamanho da delícia de viver.

Meu processo de libertação teve início quando entrei em contato profundo com o feminismo. Foi difícil compreender que os padrões estéticos, estes que meus próprios olhos diziam ser perfeitos, eram, na realidade, uma manipulação da escolha sobre o “ser belo”. Entender a trajetória do corpo feminino e como, em tempos distintos, fomos tratadas apenas como adorno, enfeite, objeto de deleite masculino, fez grande diferença na compreensão do fato de que os padrões nada mais são do que grades que condicionam as mulheres em um viver passivo, sem ação e sem sentido. Enquanto nos preocupamos em sermos lindas e desejáveis (dentro dos moldes escolhidos pelos homens), perdemos nossa capacidade de entender o que nos é desejável e o que achamos realmente lindo na vida.

O corpo que eu, durante tanto tempo, neguei é o corpo que entendo hoje como meu templo de prazeres. Ele é gordo, mas sente; ele é gordo, mas goza. O sabor da liberdade, de ser sem prestar contas, de mostrar sem se constranger e de sentir sem medo de ser ridicularizada é palatável. É com base na liberdade que alcancei que me nego a viver em dietas ou fazendo exercícios intermináveis. É dessa liberdade, também, que emana minha ânsia pela vida e o desejo da saúde. Meu corpo é minha escolha. Ele não foi feito para o prazer do outro, ele foi feito para a minha satisfação. Não sou produto, não sou objeto e o sucesso que tanto desejava foi alcançado. Amo minha profissão, meu companheiro, minha família. Amo minhas gatas e, acima de tudo, amo meu corpo. Em mim, a sociedade, de fato, falhou. Falhou no projeto de me fazer infeliz e frustrada, falhou no projeto de submeter mais uma mulher aos anseios masculinos. Sou de fato, um erro, uma falha e, por isso, sigo feliz.

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11156222_10200533571418304_7454700366930713511_n* Bruna Giorjiani de Arruda é formada em ciências sociais, pós graduada em sociologia política e ensino de sociologia. Residente em São José do Rio Preto, professora da rede pública e privado e do ensino superior. Militante feminista e comunista, destaca dentro de sua militância a luta anti-gordofobia.

Teatro do Oprimido na Maré

Por Felipe LSM*, Biscate Convidado

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Domingo,  29 de março, aconteceu a primeira Mostra do Teatro do Oprimido na Maré.

A apresentação, divulgada como ensaio aberto, envolvia três grupos de  jovens, cada um trazendo conflitos do dia-a-dia problematizados em forma de peça:  A garota que queria jogar futebol e o pai não deixava, o garoto que queria fazer teatro e não trabalhar na oficina, o pai que abandonava a família e voltava como se nada houvesse acontecido… Algumas das histórias passavam mesmo a impressão de clichês.

Até você se dar conta de que eram cenas baseadas nas experiências e vivências das pessoas ali. Até você se dar conta de que os clichês vêm de algum lugar. O que torna a cena mais pesada da mostra – uma situação em que o pai abusa sexualmente da filha, que não consegue contar para os amigos e não recebe apoio da mãe – ainda mais assustadora.

E aí você pensa um pouco mais e percebe que quase todos os problemas apresentados se reduzem a um: machismo. Só consigo pensar em uma história dentro da apresentação (que envolvia um garoto discriminado no trabalho por morar na Maré) cujo problema não estava ligado a machismo e papéis de gênero.

Em TODAS as peças, se encontrava uma família na seguinte estrutura:

O Pai: sempre o chefe da família e tomador decisões. O Pai fazia o papel de antagonista e opressor.

A Mãe parecia estar sempre resignada à sua condição de oprimida e, apesar de em geral concordar com a filha, dificilmente tinha forças ou vontade para se opor ao Pai. Mesmo trabalhando fora, recaíam sobre a mãe todas as tarefas da casa, e a cena típica (que apareceu várias vezes) mostrava a mãe fazendo o jantar e servindo o marido, que além de não ajudar, só reclamava).

A Filha: geralmente o centro do problema em questão, A Filha era a oprimida que de fato tentava lutar contra a opressão do Pai. Às vezes recebia o apoio da Mãe, mas nunca de forma muito enfática. Em uma das histórias, havia um filho nesse papel, com uma questão que envolvia fazer uma atividade que não era “de macho” (teatro), com a qual o pai (claro) não concordava.

Algumas das famílias incluíam uma irmã, um irmão, uma tia, mas – independente de estarem ou não no papel de oprimido – esses personagens não pareciam interessados em questionar o patriarcado.

Analisando esses arquétipos das personagens, talvez seja interessante lembrar que as peças foram concebidas por grupos de teatro jovens, e retratam vivências do seu cotidiano.

Como acontece tradicionalmente no teatro do oprimido, as situações nunca chegavam a uma resolução e, ao final de cada apresentação, as pessoas da plateia eram encorajadas a tomar o lugar de uma das personagens numa cena e buscar resolver o conflito apresentado. Havia alguma variação nas soluções: umas mais sérias e argumentativas, outras mais engraçadas e impulsivas. Dependendo da cena, das abordagens e dos atores participando do improviso, algumas funcionavam melhor do que outras. Na primeira intervenção, um garoto assumiu o lugar da mãe e expulsou o pai ausente de casa sob ovação da plateia. Aliás, em todas as cenas, havia meninos fazendo papel de meninas, meninas fazendo papel de meninos.

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Mas, no final de tudo, sempre vinha o “curinga” (como são chamados os animadores que fazem a intermediação com a plateia), lembrando que aquilo tudo era reflexo de um mundo real. Que aquelas personagens eram pessoas, e as histórias, vidas. E de repente nenhuma resposta parecia boa o suficiente. E de repente você se via perguntando, de novo e de novo: o que fazer?

FelipeLSM

*Felipe LSM assina assim porque não quis escolher um sobrenome. Gosta de criar laços e entender pessoas, odeia impotência, morre de medo da solidão e tem conflitos com essa coisa de paixão.

As guerreiras cansadas do 8 de março

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Oito de março e lá vamos nós para a enxurrada de ações e “homenagens” a esse ser místico e indecifrável: a mulher.

Quando não se exalta a “feminilidade”, a delicadeza, o encanto, o “toque especial” (esse último eu fico imaginando o menino do dedo verde com a roupa da fada madrinha da Cinderela, me deixa) surgem as declarações sobre a “mulher guerreira”.

Sim, todas e todos já elogiamos alguma mulher assim na vida, principalmente quando ela está passando por uma situação complicada (algo comum em nosso dia a dia, né?)

“Força, você é guerreira, vai dar conta!”

“Orgulho de você, mulher guerreira!”

“É isso aí, vá em frente, guerreira!”

Eu mesma sempre lembrei de minha mãe como uma grande guerreira. Eu mesma já me vi como uma grande guerreira. E quer saber?

CANSEI.

Não quero ser guerreira. Por sinal, odeio guerra. Eu quero paz, se possível com direito ao amor, ao sexo, ao rock (mentira, quero brega).

Lutamos diariamente contra a violência, a tirania, até contra a falta de empatia de outras mulheres (Olar.sororidade.como.vai.você). Não lutamos porque queremos. Lutamos porque não temos outra opção!

Quantos dias sentimos vontade de não sair de casa para não termos o desprazer de ter que conviver com o machismo nosso de cada dia no trabalho, na padaria, na escola ou na casa da sua mãe?

Quantas noites deitamos em nossas camas com os músculos tensionados pelo simples fato de termos andado nas ruas e passado por diversas situações vexatórias e constrangedoras?

Nosso país possui dados alarmantes relacionados à violência contra as mulheres. O mercado de trabalho nos desvaloriza a todo momento, mesmo que sejamos quase 40% das responsáveis por um lar.

Os postos mais valorizados do mercado de trabalho ainda estão concentrados na população masculina e as barreiras de entrada em determinadas profissões parecem intransponíveis para muitas, desde a infância.

Nem falei da desigualdade salarial. Dxs empresárixs que não querem contratar mulher porque ela pode engravidar. Da imensa maioria das mulheres no trabalho informal ou nos serviços domésticos.

Nesse 8 de março,  não quero parabéns, seja pela minha fragilidade ou pela minha força.

Não quero ser homenageada pelas não-opções da minha vida.

Quero ser eu, Adriana Torres, sem qualquer rótulo, padrão ou nomeações.

Será que é pedir muito?

 adriana-torresAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Êxtase

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Às vezes é muito rápido, vai, entra, faz e sai, urgente, correndo, fugindo do mundo, nem que seja só por um instante de calor e esquecimento. Um instante de explosão, um instante de paz. Um minuto para suportar todos os outros minutos do dia. Um minuto tão rápido, os gestos quase de máquina, a eficiência quase de funcionário, a atenção só no no essencial, no objetivo, no fim.

Outras vezes não, é devagar, sentindo cada momento, cada carícia, cada toque. Se deixar envolver, ver quase que de longe o calor crescer, perdida do mundo, perdida do tempo, rendida. Tudo bem lento, tudo quase parado, gestos longos, olhando para cada pedacinho do corpo, para cada canto escondido, para cada vontade insatisfeita. Sem hora para começar nem dia para terminar. Várias vezes. E de novo. Até não aguentar mais.

Às vezes é em pé, quase um exercício, quase uma dança. Giros de corpo, a cabeça virada para trás, as mãos se esforçando para alcançar todo o corpo, a pernas ora levantadas, ora estendidas, por vezes dobradas. Por vezes ajoelhada, por vezes curvada até tocar os pés.

Outras vezes deitada, imersa, coberta. O corpo todo tocado ao mesmo tempo, a pressão, o abraço, de algum controle, de chão. Acolhida, envolvida, entregue. Dada. O corpo inteiro envolto vagarosamente, o calor nascendo nos lugares mais inesperados.

Rápido ou devagar, mas sempre. Todo dia. Pelo menos uma vez por dia. Duas, nos dias em que o calor cresce. Três, quatro, muitas, nos dias de feriado e férias, nos dias vadios de verão na praia.

Em pé, deitada, mas sempre. Todo dia, como uma rotina cega, o dia todo como respirar. Nos dias de lida, rápido e em pé, nos dias de folga, devagar e deitada. Nos dias de férias o dia todo, nos dias de suor, todo dia.

Como? Não. Não é nada disso. Não tenho culpa se você só pensa nisso. Eu estava falando de banho.

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PauloCandido

Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

Reflexões Biscates

Por Thayz Athayde, Biscate Convidada

Próximo ano serei uma mulher balzaquiana. Sim, farei 30 anos. E não estou reclamando, tô achando bom, curtindo e achando gostoso. E aí que eu fiquei observando minhas sobrinha e irmã, que estão na faixa dos 15 anos. As duas já conhecem o feminismo e isso faz com que elas tenham acesso a debates e reflexões que eu não tive nos meus 15 anos. Então, fiquei pensando como teria feito as coisas se tivesse conhecido a biscatagem e o feminismo antes, se eu teria feito as coisas de uma forma diferente.

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Não se engane: eu aproveitei muito quando era adolescente. Mas, eu não tinha coragem e o empoderamento suficiente para entender que ser biscate é… bom! E então, eu aproveitava a vida, me divertia, mas a noite eu sentia aquela culpa. Aquela culpa chata por não ser uma mulher santa. Não tinha força suficiente para dizer para todos os amigos e amigas que sim, sou biscate e não tô nem aí para o que você pensa.

Se tivesse me assumido como biscate, eu teria feito sexo muito mais gostoso. Teria feito o sexo que faço hoje, o sexo sem culpa. Teria ficado com mais meninos e meninas, que eu não tive coragem por achar que “o que será que vão pensar de mim?”. Não teria ficado ou feito sexo com algumas pessoas, justamente porque ser biscate é saber o que deseja. E seguir seu desejo também passa por dizer não. É também decidir quem pode te tocar e quem não pode.

Teria menos vergonha do meu corpo, me sentiria muito mais bonita. Me sentiria livre muito mais vezes e insegura menos vezes. Teria ficado nua mais vezes. Teria admirado meu corpo e me deixaria ser admirada. Saberia que para ser bonita e gostosa não é preciso estar dentro de um padrão de beleza.

Teria me desculpado menos por quem sou e teria aproveitado as relações de uma forma bonita, intensa e almodovoriana, como a vida deve ser. Teria entendido que uma relação para ser boa não precisa ser necessariamente longa ou monogâmica. E para ser ruim não precisa ser longa e nem monogâmica. Só precisa de duas pessoas. Três. Quatro. O número que sua imaginação quiser.

Entenderia que uma relação é feita muito mais na confiança em si mesma e no olhar bonito ou cruel que você tem sobre si. Ainda viveria todas as dores, choros e noites mal dormidas, afinal, essa é a parte almodovoriana da coisa e eu sou especialista nisso. O sentir passa por viver as sensações, mesmo que seja de tristeza. E por que não chorar? Por que não vivenciar?

Teria ficado com mais mulheres e esquecido toda aquela culpa. Não entendia como poderia sentir atração por homens e mulheres. Sentia-me esquisita por isso. Não é esquisito não. É bom, é gostoso e não há nada de errado nisso. Teria me assumido bissexual muito mais cedo. Teria entendido todos os meus desejos e pensamentos com mulheres como algo tão comum quanto meus pensamentos em relação aos homens.

Talvez o meu relacionamento hoje seja tão gostoso porque eu aprendi todas essas coisas. E quando vejo garotas cada vez mais cedo se assumindo feministas e biscate eu penso: uau! Ela não vai passar pelas mesmas coisas que passei. Então, isso aqui é um recado de uma mulher que aproveitou e se divertiu muito, mas que teria se divertido e aproveitado muito mais se tivesse deixado biscatear. Você não precisa ser santa. Não precisa ser puta. Você não precisa ser nada. Só permitir-se sentir. Não importa com quantos meninos e/ou meninas você fica. Não importa o olhar de rejeição que você recebe. Eu sei que é difícil entender tudo isso, mas se você precisar de apoio tem um monte de biscates aqui pra te dizer que tudo isso é ok, e que vai ficar tudo bem.

euA Thayz é bi: bissexual e biscate. É também feminista, almodovoriana e babadeira, ela quer mesmo é desmontar as ideias montadas

Para a Eterna Biscate, Amy

Por Tiago Costa

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 A dor de uma paixão é uma tragédia.

Corpo e vida desfiguradas. A dependência do outro ou de algo que tome o lugar desse outro na vida. A forma como isso atinge implacavelmente a auto-estima.

Na cabeça de alguns, essa tragédia vira comédia. Na verdade, a dor do outro, de uma forma ou de outra, é uma tragédia que vira comédia. E se tem uma vertente passional, viramos espectadores fomigerados de uma novela da vida real. Só que sem final feliz.

E assim assistimos a vida da biscate Amy Winehouse. Jovem dona de uma voz poderosa. Daquela que faz o coração tremer. Mas para além da própria voz, os refletores estiveram mais interessados em sua vida privada. Na sua autodestruição. No como ela se tornou ícone de dependência, de vexame, de autodestruição, de fraqueza. Essa foi a parte em que programas de televisão, tablóides e memes deram conta de transformar a dor tão bela e sinceramente cantada (a parte em que Amy tornava pública a sua dor) em piada. Já não havia espaço para publicizar a beleza de sua voz (única, diga-se de passagem), o interesse estava na sua imagem, melhor dizendo, na transfiguração de sua imagem.

As pessoas compravam seus cds, iam a seus shows, cantavam, adotavam seu estilo, acompanhavam seu drama. Todas a consumiam. Mas quem entendia o que ela gritava dentro dela mesma?

Quando nos apaixonamos, entramos num exercício de calibração do coração. Costuma-se a levar os sentimentos aos seus extremos. Nesse exercício, ou descobrimos (não sem custos) qual a medida certa do sentimento a ser desprendido, ou não descobrimos. E quando não descobrimos tudo é excesso. E quando tudo é excesso, cresce a dependência e adoecemos.

De certo, tem que haver um esforço individual para superar a dependência emocional e a baixa autoestima. Nem mesmo as biscates, como a Amy, estão livres disso. Mas o esforço é ainda maior quando a pessoa pela qual mantemos dependência identifica essa fraqueza e se aproveita disso. Não existe um único Blake no mundo. Mais esforço ainda, quando em tudo que se fala a respeito de você, está associado ao fracasso. As possibilidades de reabilitação são implacavelmente minadas.

E o desfecho dessa história já é conhecida. A morte. A morte de um jeito triste. Sozinha, como pareceu sempre ser.

Para alguns, fica a lembrança da infeliz piada que a pessoa se tornou. É triste ainda se deparar com isso ainda hoje. Para mim, fica a saudade de alguém que não conheci pessoalmente, mas que permiti entrar na minha intimidade. E permito que apenas a beleza dela ocupe esse espaço. Choro, ainda hoje, pela presença e pela ausência de Amy.

 

tiagoTiago Costa, meio termo, semitons, adaptável e qualquer coisa a mais que seja capaz de movimentar o mundo com graça! Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

 

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