Para a Eterna Biscate, Amy

Por Tiago Costa

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 A dor de uma paixão é uma tragédia.

Corpo e vida desfiguradas. A dependência do outro ou de algo que tome o lugar desse outro na vida. A forma como isso atinge implacavelmente a auto-estima.

Na cabeça de alguns, essa tragédia vira comédia. Na verdade, a dor do outro, de uma forma ou de outra, é uma tragédia que vira comédia. E se tem uma vertente passional, viramos espectadores fomigerados de uma novela da vida real. Só que sem final feliz.

E assim assistimos a vida da biscate Amy Winehouse. Jovem dona de uma voz poderosa. Daquela que faz o coração tremer. Mas para além da própria voz, os refletores estiveram mais interessados em sua vida privada. Na sua autodestruição. No como ela se tornou ícone de dependência, de vexame, de autodestruição, de fraqueza. Essa foi a parte em que programas de televisão, tablóides e memes deram conta de transformar a dor tão bela e sinceramente cantada (a parte em que Amy tornava pública a sua dor) em piada. Já não havia espaço para publicizar a beleza de sua voz (única, diga-se de passagem), o interesse estava na sua imagem, melhor dizendo, na transfiguração de sua imagem.

As pessoas compravam seus cds, iam a seus shows, cantavam, adotavam seu estilo, acompanhavam seu drama. Todas a consumiam. Mas quem entendia o que ela gritava dentro dela mesma?

Quando nos apaixonamos, entramos num exercício de calibração do coração. Costuma-se a levar os sentimentos aos seus extremos. Nesse exercício, ou descobrimos (não sem custos) qual a medida certa do sentimento a ser desprendido, ou não descobrimos. E quando não descobrimos tudo é excesso. E quando tudo é excesso, cresce a dependência e adoecemos.

De certo, tem que haver um esforço individual para superar a dependência emocional e a baixa autoestima. Nem mesmo as biscates, como a Amy, estão livres disso. Mas o esforço é ainda maior quando a pessoa pela qual mantemos dependência identifica essa fraqueza e se aproveita disso. Não existe um único Blake no mundo. Mais esforço ainda, quando em tudo que se fala a respeito de você, está associado ao fracasso. As possibilidades de reabilitação são implacavelmente minadas.

E o desfecho dessa história já é conhecida. A morte. A morte de um jeito triste. Sozinha, como pareceu sempre ser.

Para alguns, fica a lembrança da infeliz piada que a pessoa se tornou. É triste ainda se deparar com isso ainda hoje. Para mim, fica a saudade de alguém que não conheci pessoalmente, mas que permiti entrar na minha intimidade. E permito que apenas a beleza dela ocupe esse espaço. Choro, ainda hoje, pela presença e pela ausência de Amy.

 

tiagoTiago Costa, meio termo, semitons, adaptável e qualquer coisa a mais que seja capaz de movimentar o mundo com graça! Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

 

Ele só está interessado no seu corpo

Por Nkyad Sobakovitch*, Biscate Convidado

Sim, eu só te quero pelo seu corpo. Noites em seu corpo e mais nada. Noites inteiras sem dormir, navegando em seu corpo, naufragando em seu corpo. Noites espaçadas, sim. Intercaladas pelo tempo exausto de dormir, pelo tempo faminto de comer, pelo tempo miserável de trabalhar longe do seu corpo. Que é só pelo que eu te quero.

Sim, só quero seu corpo. Mas nas manhãs também. Para depois das noites do seu corpo, despertar com seu corpo, sob seu corpo, dentro do seu corpo. Manhãs que terão café e torradas e suco e bananas, que alimentem seu corpo para que ele seja meu de novo. Café e torradas e suco e bananas levados na cama, para que você sequer pense em ir e levar seu corpo para longe de mim. Pois o que eu quero é só seu corpo.

Sim, levarei seu corpo ao cinema, para ter seu corpo depois. E ao teatro e a festas e ao shopping e à praia. Levarei seu corpo ao médico, ao dentista, ao hospital se ele precisar. Levarei teu corpo a todos os lugares que ele queira ir, a alguns lugares que ele não queira ir mas precise, levarei seu corpo comigo. Pois é só seu corpo que me interessa.

 Sim, só quero seu corpo, e ficarei em silêncio obsequioso quando você quiser ir trabalhar, ver seus amigos, visitar sua família. Ou irei junto para ter seu corpo perto do meu enquanto você satisfaz essas estranhas vontades de outras gentes. E serei polido, divertido, educado e solícito com essas outras gentes, para que você fique feliz e eu continue tendo o seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, só quero você pelo seu corpo, mas entenderei se você às vezes quiser outro corpo que não é o meu. Esse seu corpo que eu quero, afinal, é seu, e eu esperarei que a cada dia ele volte para mim, tendo feito o que quer que seu corpo faça quando não está comigo. Pois se eu só quero seu corpo, entendo que às vezes você queira outro corpo que não o meu. Claro que vou brigar, emburrar, chorar e me lamentar pelos cantos enquanto seu corpo não estiver aqui, mas entenderei. Porque só quero seu corpo, e quando ele voltar imediatamente esquecerei que ele se foi um dia.

Sim, eu só quero seu corpo e quero ele morando junto ao meu. Para facilitar as noites, favorecer as tardes, aproveitar as manhãs dentro dele. E teremos alguma casa onde seu corpo caiba, com móveis que seu corpo goste, janelas por onde o sol buscará seu corpo e um jardim com flores para enfeitar seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, quero seu corpo e continuarei querendo seu corpo depois dos inevitáveis filhos, que criarei a contragosto para ter seu corpo, das inevitáveis tragédias, que enfrentarei para depois me consolar no seu corpo, dos inevitáveis anos que envelhecerão nossos corpos. Que serão mais velhos, mais gordos, mais fracos. Mas ainda serão nossos corpos e o seu corpo ainda será só o que eu quero.

Sim, eu ouvirei seus medos, dividirei nossas alegrias e tristezas, verei filmes românticos, assistirei peças experimentais, escutarei música francesa, irei a Paris, ao Cairo e a Roma, me farei amado por seus pais, criarei seus filhos e serei amigo dos seus irmãos ou vice-versa. Serei forte, fraco, gentil, brutal, carinhoso e distante, serei o que você quiser que eu seja, farei o que precisar fazer para ter o seu corpo, todo o seu corpo, o tempo todo.

Porque, você sabe, eu nunca menti, eu só te quero pelo seu corpo.

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Um das críticas mais superestimadas (em geral só) ao moço da outra (e nunca à moça do outro – com essa o mundo é mais cruel), “ele só está interessado no seu corpo”. Porque, né, ele precisa estar interessado no seu intelecto, nas suas emoções profundas, nos seus planos de vida, no seu gato, na sua réplica de Matisse na saleta de chá, na sua coleção de encadernada de Vogue dos anos 50, nos seus livros de filosofia, psicologia, engenharia e culinária.

Senão ele não vale a pena, pois vai apenas te usar para sexo e te abandonar na beira da estrada deserta dos one-night-stands. Ou pior, Deus me perdoe, você vai usá-lo para sexo e depois abandoná-lo na esquina escura dos casos rápidos.

Como se sexo casual não fosse sexo, ainda que casual, se alguém ainda acredita no acaso. E como se a Terceira Lei do Newton Biscate não se aplicasse sempre: “A toda trepada corresponde uma trepada de igual intensidade no corpo contrário”.

E além disso, como ele vai conhecer seu Matisse avec Earl Grey, saber de seu plano de visitar Cimmeria, adivinhar que Wittgenstein seu gato é um rematado canalha, entender do seu medo de cair da cama em trens, ler sua tese de doutorado, se agora é seu corpo que ele quer, e é o corpo dele que você quer, e esses corpos não se encontrarem porque “não tem futuro”?

Deixa eu te dizer, nada tem futuro. Porque tem aquela curiosa propriedade do futuro, sua inexistência. Aliás, existe lá um futuro, mas ele tem só um ou dois tons de cinza: decadência e entropia, entropia e decadência.

Esse futuro do qual a gente fala é só uma construção mental que tem lá umas serventias. Serve para a gente não atravessar a rua quando vem um carro, porque no futuro, daqui uns 7 segundos, ele vai estar justamente onde a gente quer passar. Serve para a gente não gastar todo o nosso dinheiro em livros, porque sabemos que no futuro, semana que vem, temos que pagar as contas de luz, água, telefone. Serve para a gente ir fazer faculdade disso ou daquilo, porque achamos que no futuro, daqui uns anos, seremos felizes fazendo isso ou aquilo. Mas nada garante que o carro não vai nos atropelar na calçada, que aqueles livros não teriam sido essenciais para a gente conseguir entrar naquela faculdade, que daqui a dez anos não seremos os cirurgiões plásticos ou CEOs mais infelizes da face da Terra.

E o futuro dos corpos nunca é assim fácil de ver. O que parece só corpo pode ser só corpo mesmo e se o sexo foi bom, para que reclamar? Pior, porque não ir, gozar e voltar? E quem sabe para onde vão esses corpos, quem pode dizer?

Porque além do Newton Biscate tem também a Mecânica Quântica Biscate: o resultado da colisão de dois corpos é sempre imprevisível. Ou devia ser – se você sabe tudo do outro, entende tudo do outro, prevê tudo do outro, pode acreditar, alguma coisa você não sabe, não entende, não está vendo e não vai prever. Porque os corpos são coisas vivas, quentes, úmidas e muito, muito pouco confiáveis. Dificilmente você sabe para onde vai o corpo do outro. Admita, você mal sabe para onde vai o seu corpo.

E o desejo de um corpo posto no outro, e o desejo do outro posto no um, causam entrelaçamentos complexos, impossíveis de medir à distância. Podem durar dez minutos, dez horas, dez dias ou dez anos, esses enlaces. Mas você só vai saber a duração se for lá medir e aí vai ser tarde demais para saber a velocidade da colisão, e mais tarde demais ainda para evitar o impacto.

E é assim que que as pessoas acabam atropeladas por uma paixão que nem viram da onde vinha, estiradas nuas numa cama estranha, exaustas, perdidas, quebradas, extasiadas, confusas, em pânico. Porque era só um beijo…

corpo

*Nkyad Sobakovitch, poeta russo exilado em São Paulo, amante fiel da vodka com ou sem suco de laranja, amante infiel das mulheres com ou sem vodka. Seu poema épico “São Paulo é a Sibéria da Alma” foi recebido pela crítica paulistana com a mesma indiferença gélida que acolhe toda poesia naquela cidade sem amor.

Basta um fio de luz para um quarto escuro não ser mais o mesmo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

quarto escuro

Três noites foram o suficiente para Ângela perceber como era a respiração do companheiro dormindo ou acordado. Por isso não hesitou ao disparar no escuro.

Cícero, por que você demorou tanto?

O homem tentou fingir o sono, não por maldade, mas por achar que a mulher falava enquanto dormia.

Por que, Cícero?

A insistência, porém, dissipou as nuvens da dúvida.

Tirou o acúmulo de ar dos pulmões e aproximou o nariz dos cabelos da companheira. O mesmo cheiro aprisionado de trinta anos atrás.

Não te entendo, querida.

Sempre gostamos um do outro. Mas continuamos por muito tempo deixando o não-dito dar a linha entre nós. Uma palavra e poderíamos ter ficado juntos antes, Cícero.

Estamos agora, querida. Estamos agora.

Olha nossos corpos, Cícero. Falou olhando para o teto como se ali tivesse um espelho e as luzes estivessem acesas. Éramos tão lindos. Tão jovens. Poderíamos ter incendiado o mundo.

Ainda somos, querida. Ainda podemos.

Na juventude você me disse não quando eu cansei de ter que amar sem tocar. Por que só agora?

Não te entendo. O tempo não nos degenerou. Você teve muitos homens, eu também tive algumas mulheres. Ganhamos experiência enfrentando barras e mais barras, assim como já sabemos o que é a felicidade. Hoje podemos ter toda a serenidade para o amor.

E os nossos corpos, Cícero? Eu sei, você nunca ligou pra isso. Mas você sempre soube que eu me importava. E ainda assim não o quis enquanto ele era jovem. Isso não é amor: é um requinte de crueldade da sua parte.

Suas mãos deslizaram no peito de penugem grisalha do homem. Sentiu que dali não sairiam mais palavras. Era o seu carinho de misericórdia.

Você não sente? A espera da morte é mais longa que a juventude. Essa é subversão do tempo contra a pretensão dos homens em marca-lo através do calendário. Eu não posso mais esperar, meu amor.

Os olhos do homem travaram no espelho imaginário do teto. Via-se pela primeira vez velho. Um fiapo de luz iluminou o quarto seguido da batida suave da porta. Estava só.

caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Com letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

Não me Arrependo

amor de índio

Amor, eu não me arrependo de você. Não me arrependo do tempo que esteve na minha vida, não me arrependo de ter dado oi naquele aplicativo de pegação, não me arrependo do seu seu cheiro, não me arrependo do seu beijo, do seu corpo suado junto do meu. Não me arrependo da sua mão que subia pela minha perna, entrava na minha bermuda e pegava no meu pau no fundo do ônibus. Não me arrependo do sorriso safado. Não me arrependo da pouca grana, de ter me doado. Não me arrependo de te convidar pra morar comigo sem te conhecer direito. Não me arrependo das brigas, das mancadas dos desentendimentos.

Sim, eu não me arrependo. É, claro, ás vezes me pego pensando “e se eu tivesse agido daquele jeito e não daquele”? Se eu tivesse ligado? Seu tivesse mandado mensagem?  Será que ainda estaríamos juntos? Eu sei, amor, é apenas um exercício de imaginação. Não dá pra saber o que teria sido, sabemos apenas o que fizemos. E, sim, ás vezes acho que foi culpa sua, ás vezes acho que foi minha, mas daí lembro que não há culpa, nem desculpa, fizemos da nossa vida juntos  o que foi possível.

Outro dia aqui em casa entrei no quarto que era nosso e foi como se uma onda de memória me tomasse. Lembrei de quando chegava em casa cansado , entrava no quarto e te via dormindo. Era como no clichê  dos apaixonados porque parecia que o mundo parava naqueles segundos em que eu te olhava. E eu só saía desse estado de apaixonamento pra te beijar. Você nem se mexia. Foi assim durante meses.

Mas acabou. Assim como esse texto.

 

maycon

 

*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Fica a Dica

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

Há alguns dias descobri que um amigo da família está com mal de Parkinson. Ele não deve ter 50 anos, tem filhos dos quais só se tem notícia de que são seu orgulho, vive um casamento aparentemente feliz de muito tempo. Uma pancada dessas levanta questões sobre a justiça da vida. Bom, minha conclusão, já de há muitos anos, é que não existe justiça ou injustiça nos acontecimentos que nos atropelam. Não dá para viver esperando que nossas ações nos trarão alguma recompensa neste ou em algum outro mundo. O máximo que dá para fazer é: viver, amigos e amigas. #ficadica

dica

Tenham orgasmos, sozinhos ou acompanhados, por uma ou mais pessoas, do mesmo sexo e/ou do oposto. Gozem por onde vocês quiserem. Mas estendam a gentileza de ter suas vidas sexuais fora do controle público aos outros. Não odeie nem ensine a odiar. O que você ganha com isso? Não odeie nem mesmo o Felipão, que convocou o Henrique no lugar do Miranda. Já que falamos de Copa: torça se quiser, grite se quiser, festeje se quiser. Mas não dirija ressentimento a quem quer se fazer ouvir e ter seus direitos assegurados mesmo nesta hora. Não me venha com o papinho de “odeio o pecado e amo o pecador”. Esse não cola. Não se importem com a opinião dos outros. #ficadica, again

dica

Dêem o braço a torcer, caramba. Apesar do que a expressão possa dar a entender, não dói. Deixa eu contar um segredinho: aquele chefe daquela empresa na qual você se mata de trabalhar está cagando e andando para você. Dêem um jeito de serem felizes. Se preocupem menos com regras gramaticais e mais com fazer do mundo um lugar do qual quem vier depois de nós não sinta vergonha. Estejam prontos para redescobrir o amor aos 30, 40, 50. Diabos, estejam prontos para redescobrir o amor aos 60, como minha mãe acaba de fazer. Não sejam tão duros com o funk. Mordam mais bochechas. Vejam mais filmes de artes marciais da Tailândia. E saibam que, quando a hora chegar, a única coisa que a gente vai querer por perto é um montão de gente querida pra dizer: “mas já vai? fica, vai ter bolo”.

PS: quando chegar a minha hora, eu quero que o meu caminho para o crematório seja feito desse jeito aí. Se virem 😉

Z144vmkx*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Carta resposta para um amor biscate

Por Luiz Welber*, Biscate Convidado

Qualquer lugar do mundo, hoje ou qualquer outro dia.

Querida amada biscate,

Uma carta feita de saudades. Sinto saudades. Saudades de você. De andar contigo. De procurar caminhos, metrôs, endereços, praças, esquinas, pontos de ônibus, bares, bistrôs, botecos, terreiros, praias, encontros. Comer acarajé na feira, pedir Heineken (porque a Brahma custava o mesmo naquele bar). Saudades de procurar tua mão para segurar no meio daquela muvuca de todos os lugares em que estivemos, daquelas multidões de tanta gente sem rosto, sem voz, sem graça, sem meu interesse, sem meu querer, sem minhas saudades.

Saudade das minhas mãos em tua cintura, das caminhadas em passos trocados e fora de ritmo, de você com a mão no bolso sobre a minha bunda ao andar pela calçada larga de grandes avenidas tão movimentadas. De ligar para seus amigos em cada cidade pelas quais passamos e, melhor ainda, encontrá-los e me sentir parte.

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Before Sunrise (Antes do Amanhecer)

De contar a saudade no pé do teu ouvido, nos vendo loucos para, logo, encontrarmos um lugar para ficarmos apenas você e eu.

Saudades de tê-la a escolher as músicas do karaokê daqueles botecos “copo sujo” na tentativa de evitar que outros estragassem o momento de nosso beijo com trilhas sonoras que não queríamos nestas memórias de nossos encontros. De compartilhar, ao vivo (ou não), das músicas que agora são parte de nossas conversas. Muitas delas.

E o tempo, esse que passa, transforma, refaz, permite novos encontros, epifanias e…

De manhã, pó de café, água fervente. Passa a água pelo filtro de papel, aquele que guardo após o uso, para que você dê um fim mais digno do que a lixeira. Café, com açúcar, café, com adoçante, mais café.

Música, mais música, ao vento, aquele vento com repelente, num espaço sem mosquitos, com abraços e coisas mais.

Água, muita água, brisa litorânea, lá fora um coqueiro generoso, cheio de cachos. Cai um coco, caem dois, escada, sobe, mais coco, água… doçura líquida.

Caminhar, caminhar, acender os cigarros e conversar, contar de outros carnavais, saber de ti, de si, de mim, de lá, de cá, de quando, de quem nem sempre. Mas é de nós mesmos, sempre. Conhecer, reconhecer, caminhar mais ainda numa trilha que só vê quem conta os contos sobre ela, e o outro imagina, dificilmente vê a mesma que se conta, talvez nunca. Pensar, imaginar, sorrir, rir-se, olhar sério, sentir mundos entre alegrias, humores, graças, ciúmes, acertos, desacertos, acordos.

O gelo e o limão caem, a coca-cola ensopa o tecido que, horas depois, rasga. Rasgam dores, rasgam reações desmedidas e tolas, rasga a crítica e a autocrítica, costuramos de novo, isso que já é novo e, paradoxalmente, velho.

Sono, descanso, pensamentos, acorda, presente de doçura.

Doçura.

Bom dia, amor!

welber *Luiz Welber é mineiro. Se diz historiador e nas horas vagas navega de maria-fumaça. Biscate que viaja por trilhos e trilha narrativas, em contato com o passado sem sair do presente. Viciado em café e em cervejas. Não foge das mesas de bar e aprendeu a fazer macarronada.

Adoro Ser Viado

Por Cristiano Lucas Pereira, Biscate Convidado*

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Tenho 38 anos e “dou o cu” desde 1988.

E nesses 25 anos de proveitosa viadagem já vi de tudo (ou quase tudo). Fui batizado com meu nome de guerra pelas bichas mais velhas no chafariz da praça principal da cidade; aprendi logo cedo o “pajubá” pra poder desaquendar dos “alibãs” e dos “ocós” homofóbicos; já dei todo o tipo possível de pinta em todo o tipo de lugar; já levei curra; já fodi em lugares que deixariam Madame Satã corada; vi muitos amigos gays morrerem assassinados; vi a grande maioria de meus amigos da adolescência perecerem diante da AIDS.

Mas de tudo que já vi, vivi, ouvi e presenciei, tenho a convicção de que algo estranho tem acontecido entre os viados dos dias de hoje que eu ainda não consigo analisar por completo.

O fato é que nunca vi tanto conservadorismo entre nós, tanta repressão ao sexo, às pintosas e às fechativas e tudo aquilo que denuncia a homossexualidade.Não sei se por causa da AIDS, por causa da internet, de novos padrões de beleza e comportamento ou por essa necessidade doentia de “sermos aceitos” pela sociedade que tanto nos despreza, tudo isso junto e misturado tem provocado nas bichas uma verdadeira aversão à liberdade sexual duramente conquistada pelas pioneiras de Stonewall ou, aqui no Brasil, pelos militantes que editaram o jornal “Lampião da Esquina”.

Aliás, as bichas nem gostam de serem chamadas mais de bichas ou viados. Inventaram agora o tal homoafetivo. Homoafetivo de cu é rola!

A impressão que tenho é que entre nós, gays, é preciso ser monogâmico, ter aversão ao sexo livre, às trepadas inesperadas, às bichas que dão pinta (já que pra ser viado não precisa desmunhecar). É preciso parecer ser hétero, a ponto de queimar qualquer “gaydar”!.

Não estou falando que todos nós temos que sair como cadelas no cio, roçando em tudo quanto é homem na rua(se bem que isso não seria ruim…). O que quero dizer é que o desempenho, a performance e a satisfação sexual são experiências individuais. Alguns preferem pau pequeno, outros preferem sexo grupal, outros gostam de levar uns tapas, outros de dar uns tapas.

Cada um procura a sua maneira de sentir prazer sem apontar os dedinhos para aqueles que sentem prazeres de forma diferente. Por isso, acho mesmo que os caras que aparecem no vídeo de Floripa, durante o Carnaval desse ano, estavam eram muito felizes!

Essa questão toda me faz lembrar do personagem Brian do seriado “Queer As Folk” (bichas mais novas, assistam). Para ele, a forma de combater a homofobia era trepando, esfregando na cara da heteronormatividade a nossa existência, a nossa libido, o nosso tesão.

Até mesmo porque, a gente pode até emular parecer hétero, casar, adotar crianças, deixar pra trás a putaria. Mesmo que a gente seja bonitinho, arrumadinho, sem dar pinta, com o cabelo de primeira comunhão ou escola dominical, sem ter voz de pato, “sem usar gola V” e com as mãos controladas, JAMAIS seremos plenamente aceitos por uma questão muito simples: Não somos héteros!.

E eu particularmente ADORO ser viado.

 

562469_10200325776844636_1182282969_nCristiano Lucas Pereira escreveu esse texto no seu perfil de Facebook. Nós, que somos atentxs às pessoas livres e biscas, pedimos permissão e reproduzimos aqui. Como ele disse: idéias precisam circular. Cristiano é professor na rede pública de ensino do DF, atuando no Núcleo de Diversidade e Educação Inclusiva na Escola de Formação de Professores/as do DF, militante na Cia. Revolucionária Triângulo Rosa e orgulhosamente bicha. (quer saber mais? veja esse vídeo)

Armários

Por Everson Fernandes, Biscate Convidado

outro dia tava rolando um vídeo sobre saídas de armários…

no vídeo, uma mulher lésbica falava sobre os diferentes tipos de armários que precisam ter suas portas escancaradas. e, ok, é um vídeo e um discurso interessante, mas ‘sair do armário’ tem um peso diferente quando relacionado à orientação sexual. o fato é que, além de todos os outros armários, a saída do armário da sexualidade tem que ser feita, e refeita e reforçada e feita mais uma vez. e de novo. não é ‘uma saída do armário’. são várias, em ambientes diferentes, contextos diferentes, pessoas diferentes. porque sociedade heteronormativa é heteronormativo em vários ambientes e contextos. e sair do armário não é exatamente algo simples, fácil. requer muita paciência.

armários

caso 1: primeiro semestre de graduação. roda de colegas conversando no corredor. inicia-se o assunto sobre homossexualidade. alguém comenta que um casal homo iria influenciar na criação da criança, que também se tornaria homo. aí explico que ser criado por um casal hétero, conservador e cristão não fez com que eu me tornasse hétero. foi a primeira saída de armário na universidade. olhares de espanto; ‘mas você nem parece’, e lá vamos explicar um monte de coisas.

caso 2: balada. tô no fumódromo, fumando, encostado na parede, sozinho. uma moça vem bater papo comigo. conversamos pelo tempo o suficiente de um cigarro. nome, o que faz, onde mora e aquela coisa toda. ela pergunta se eu sou solteiro. respondo que não [na época não era]. pergunta se estou com namorada. nesse momento, aparece o rapaz. apresento a ela. cara de espanto. e sai.

caso 3: balada. encontro ex-colegas de aula. fico com um rapaz. os ex-colegas olham espantados. final da noite, vamos para a fila acertar a conta. tudo bem enquanto não tínhamos contato físico. nos abraçamos, os dois rapazes que estavam na frente olham atravessado. um se afasta e fala pro outro “vou esperar na rua porque não aguento ficar no mesmo ambiente que ‘esse tipo de gente'”. aguardo outra manifestação pra revidar. não aconteceu.

dava pra listar mais alguns casos, mas tá ficando extenso já. mas é isso, não existe uma ‘saída de armário’. nem mesmo do ‘armário da sexualidade’. e essas saídas se tornam desgastantes. e, às vezes, ficar no armário não tem nada a ver com não-aceitação, homofobia internalizada. pelo contrário: é questão de auto-preservação, ou cansaço. apesar de que a ‘saída do armário’ seja um ato político importante, ele precisa ser feito quando a pessoa se sente segura de que pode lidar com o que se seguirá. a saída de armário compulsória é mais uma forma de opressão e violência. tirar alguém do armário é violência.

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*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

Ah, essxs lindxs…viva xs convidadxs! (2)

E xs convidadxs que viraram fixxs!

#BiscateConvidadx #2anosBiscateSC

Minha maior alegria nesses dois anos do clubinho é ver gente que estava por aí se reconhecer biscate ao se deparar conosco. Minha segunda maior alegria é transformar essxs que agora se sabem biscates em escreventes convidadxs. E a terceira maior alegria é ver esses escreventes convidadxs se transformarem em biscas escreventes fixxs.

Muitxs não aceitaram a responsa de escrever por aqui a cada quinze ou trinta dias e preferiram mandar seus textos conformem fossem saindo ou respondendo a convites especiais. Alguns aceitaram e estão aí há tanto tempo ou tão organicamente inseridos que parece estarem desde sempre. Tem a Renata Lins, que começou fazendo um lindo obituário do Wando quando de sua morte, em fevereiro de 2012, e nunca mais parou, pegou o touro pelo chifre e teve tanta-tanta-tanta gente que se reconheceu biscate através dela que não há mais como dissociá-la de nós. *\o/*

A Charô Lastra chegou para apresentar a lindeza e biscatice de Josephine Baker, numa quinta cultural antes mesmo de completarmos um mês de vida, e ficou escrevente fixa, depois aleatória, de novo fixa e aleatória novamente, e sua presença é tão linda e iluminada que sua cadeira na Academia Biscate está garantida pra sempre, e torcemos fervorosamente para que ela a ocupe pelo menos de vez em quando para matar nossa saudade. ♥

A Jeane Melo chegou até nós como escrevente convidada em junho de 2012, com essa carroça já andando, com seu texto facinho e cheio de poesia, dúvidas e ousadia. E não é que ela se acomodou direitinho junto com as demais abóboras e virou escrevente fixa? Ah, ela chegou toda apaixonada, ainda em dúvida se amor combinava com a biscatagi, mas já desaforada. 😉

O Toni Miotto já é macaco velho na biscatice, nos acompanha e se reconhece biscate desde o primeiro dia, mas chegou oficialmente ao blog com seu registro fotográfico da Marcha das Vadias São Paulo de 2013. E gostou tanto de ver suas fotinhas aqui que foi oferecendo generosamente outros registros, com seu olhar e sensibilidade ímpar com a dor e o sofrimento humanos, até que o convidamos para fazer isso sempre. E ele ficou. Ê!!!

Esse post era para falar dxs Biscates Convidadxs, mas achei que tinha de fazer esse registro. Primeiro para dizer… Tu aí que colabora de vez em quando nesse clubinho, e gosta muito: estamos vendo tudo e querendo mais — sempre queremos mais — e qualquer dia pode pintar um convite mais formal… Então… Talvez seja o caso de nem esperar o convite… Se oferece logo, vai?! 😛

Ano passado, no aniversário de um ano, fiz um post parecidinho com esse, cheio de depoimentos lindos — que depois viraram banners mais lindos ainda lá no facebook –. Então, seguem aí outros depoimentos tão lindos quanto aqueles, que mais tarde virarão banners.

cris charãoCris Charão“Quando me olhei neste espelho, me vi. Hoje, falo assim, de boca cheia, escancarada, lambuzada: sou biscate. E ando em ótima companhia. Longa vida à biscatagem!”

andréaAndréa Moraes“Quando eu era pequena minha avó morava comigo. Eu aprendi a ser biscate com a minha avó. Quando eu ficava decepcionada com alguma coisa, ela sempre dizia: Não fique triste assim! Você tem muita sorte. Pra minha vó era assim: eu tinha sorte e o mundo era melhor por isso. Tinha sorte porque podia estudar, tinha sorte porque não era obrigada a casar, tinha sorte porque podia escolher com quem namorar e que roupa usar. E foi assim que eu aprendi que era a vida. Depois vovó morreu, eu cresci, vi que as coisas não eram assim tão simples. A minha sorte não era um prêmio, a minha sorte dependia de tantas lutas e histórias que vieram antes de mim e mais do que isso, a minha sorte depende da crença de que não só eu, mas todas as mulheres merecem sorte. Que a boa fortuna venha pra todas e que esse mundo possa ser mais biscate.”

marianaMariana Rodrigues“Dois anos de biscatice livre e prazeirosa e também dois anos de biscatice engajada e comprometida! Muito bom ser a Biscate Sapatão (ou seria a Sapatão Biscate?) para participar e acompanhar de perto toda essa produção sobre os temas da nossa vida: saúde, amor, trabalho, visibilidade, autonomia, sapatonices, filhos, perdas, saudades, politica… Enfim, dois anos deliciosos com toda a nossa história contada, produzida, relatada, inventada e compartilhada por nós, Biscates para Biscates do mundo! Que venham todos os (muitos) outros anos cheios de biscatice autônoma, livre e engajada!”

bárbara guimarãesBárbara Guimarães“Lembro quando o Biscate foi criado. E eu impliquei, é claro. Se não implicasse não seria eu. ‘Ah, mas biscate tem uma conotação negativa irremediável!’ Eu estava errada. Que bom. Hoje vejo o Biscate como um espaço fundamental. Nosso. De todo e qualquer um que tenha o que dizer para ajudar nesse longo processo de compreender e abraçar o feminino – o que inclui lutar contra as coisas que o sufocam ou oprimem. Parabéns, biscates corajosas!!!”

eversonEverson Fernandes — “Foi conhecendo o Biscate Social Clube, as biscas e os biscas, que eu aprendi a me desconstruir. Aos poucos, todos os dias. Essa biscatagem eximida da culpa de outrora. De gente que se oferece, que deseja, que beija e se deixa desejar. De gente viva, gente delícia. Gente biscate.”

E a biscaiada se agita e responde rapidinho aos apelos… Mais! Mais! Assim…

clara (2)Clara Gurgel
Biscate. Bi. Pan. Pa pum!
Bis…coito. Molha. Com um, com oito.
Bisca, pisca, trisca, pode, fode.
Bisca mor. Morde, assopra, de prima, de salto,
de quatro, no ato.
Biscate. Capte-me mas não adapte-me. Camaleôo.
Bisca…radamente desavergonhada, assume, assanha a sanha.
Bisca, zen, sem, com, dentro, fora, tudo ao mesmo tempo agora.
Bis…cato. De cá. De lá. De lado. De novo.
Biscate. Aranha que arranha a jarra, a vara, a cara.
Bisca…anátema, santa, profana, profícua.
Bisca, busca, lusca-fusca, ofusca
Bis…cate! Cate mas não mastigue. Engula, a gula
Peça bis… Biscate!

cl_romanoClaudio Luiz — “Quando conheci Luciana – Niara – Renata e passei a ler o Biscate fiz um up grade nos meus pontos de vista sobre a luta feminina, sobre pessoas, sobre liberdade de escolhas, sobre sexo. Depois, quando a Luciana me convidou a escolher algumas imagens que entrariam nas postagem de domingo, mais um ponto acima. O que seria interessante para elas? Quais imagens estariam mais de acordo com o site? Não acho mais que uma imagem diga mais que mil palavras, mas tenho claro que eles podem dizer muito (independe do número de palavras para traduzi-las. Sou mais de imagem do que de letras). E treinar o olhar, tentar ver todas as nuances expostas na imagem é um exercício para ser menos preconceituoso e consequentemente, mais atento a pessoas.”

deborah sá

Deborah Sá
“Jardim de delícias
Toda malícia
Biscate
Social
Clube
Colore tons de lume
Tão logo assume
A incandescência
De toda concupiscência”

Foi Biscate Convidadx e seu depoimento não está aqui? Ainda dá tempo. 😉

já que estamos rememorando... esse foi o banner do primeiro aniversário biscate :)

já que estamos rememorando… esse foi o banner do primeiro aniversário biscate :)

A misteriosa tabela entre a caixa de retalhos, a bola e a descoberta da liberdade

Por Fernando Amaral*, Biscate Convidado
#BiscateandoEntreAsQuatroLinhas #BiscateFC #2anosBiscateSC

Quase que o apito, final. O ano. Abro jornal, correio, caixa de email. Caixa de costura… Gosto de ler sobre futebol. Zilhares de metáforas, que bem cabem em tudo. Das analogias, com a vida, com a guerra, com o amor… O meia que costura. A meia costurada, cerzida. Urdiduras…

coração bola

“A menina cresceu, mas ainda hoje, como todo atleticano, quando ouve um estouro de foguete, grita: GALOOOO!!!! “. Em maio de 2012, nos primórdios do blog, fomos convidados a escrever sobre nosso time do coração. E eu encerrei meu texto, Paixão em Preto-e-Branco, com essa frase. E outro dia, no Facebook, uma amiga, de São Paulo, que mora em BH, falava sobre a estranha mania dos belorizontinos de gritar GALO, do nada, em coro. Só que não é “do nada”, especialmente nesse final de ano: 2013, TREZE, é GALO, é CAMPEÃO DA LIBERTADORES, campeão das AMÉRICAS… e o final do parágrafo acabou no Raja, um time africano desconhecido para nós, que só olhamos para nossos próprios umbigos, um time africano que derrotou o Atlético e cujos jogadores disputaram um sorriso do Ronaldinho Gaúcho, reconhecendo o talento mundial. Pena que nós subestimamos o talento deles, todos, e não mostramos futebol nenhum. De toda forma, ainda assim, 2013 foi o ano do Galo, vencendo o título inédito e nos fazendo cada dia mais ter orgulho de torcer para o Clube Atlético Mineiro.”

Fui lá. Fui tentar entender, buscar, compreender, desenhar, rascunhar, chorar e mais um monte de verbo tudo junto misturar. Nesses dois anos foi sempre assim. Um texto ali e outro ali, estórias e histórias, por mais que saiba que as regras da gramática, do vernáculo, da boa escrita, teimam em afirmar que as primeiras não existam mais. Mas regras… quem acostumou a menstruar sabe bem que nem sempre…

“Ser tricolor vai além de ser um resultado prático de animação por cheer leaders eletrônicas ou por ufanismos bestas, não é um sintoma de arrogância clubística cortejada pelas redes nacionais de mídia, menos ainda é cortejar felicidades iludidas aliando-as ao abandono quando navegamos pelos vales da sombra da morte. É mais do orgulho histórico de sermos ela, a História, com seus erros e acertos, com suas dúvidas, lambadas e rebaixamentos, com a lama nos sapatos, na alma, na camisa. É mais do que nos ater a Dons Sebastiões rotos e esfarrapados como ex-deputados sujos de charuto e de manobras. É mais do que portar o estandarte de uma glória inexistente, de museu mesmo, e arrotar uma grandiosidade ao mesmo tempo que abandona as parcas cores por que o amor de sua vida não repete o que Anjos de Pernas tortas fizeram em passado longínquo. Ser tricolor é, antes de tudo, Ser. Ser tricolor é cantar, com Candeia, que “de qualquer maneira meu amor eu canto, de qualquer maneira meu encanto eu vou cantar!”

Mas que textos! Já chorei, ri, compartilhei, amei e até odiei. E sou outra agora. Depois de dois anos, aquela que achava que certas cousas eram importantes, mas não fundamentais, mudou de lado, de escrete, de time. Já me chamaram até de feminazi, numa idiotia de quem não quer entender para além do próprio umbigo. E da própria impressão que faz de si mesmo. Para nosso espelho quase sempre somos lindas, lindos, perfeitos, engajados até. Aprendi, firme, que não: fundamental. A velha anotação: o time joga, perde uma, perde outra, ganha uma, ganha outra, mas é, também, o campeonato que disputa.

Mais de ano e meio depois deste texto aqui, o que ali estava desenhado se concretizou: a despeito de um título de Copa do Brasil sofrido e até heroico, fizemos uma péssima campanha no Brasileirão e caímos à B. Subimos, é verdade, e em 2014, ano do centenário, estaremos de volta à elite. Muito provavelmente para ser um ano centernada e com sérios riscos de disputarmos o Tri da Série B em 2015. Mas, isso pouco importa. Na alegria e na tristeza; na saúde e na doença; na moderna Arena de nome alemão ou nos maltratados campos estado e país afora; continuaremos sofrida mas apaixonadamente cantando:  “Palmeiras minha vida é você….””.

Da primeira vez que me chamaram “biscate”, doeu. Opa, se doeu! Porque ali naquela palavrinha havia um adjetivo. Uma consideração, uma opinião, um rótulo, um pré: conceito. É difícil, muito, mesmo, sempre, sentir esta labareda que sobe o ventre, molha o sexo, explode no coração, muda a entonação do cérebro. Hoje sei, “biscate” é substantiv(a). Mais que palavra que só acompanha. Mais que palavras… Mais do que os jogos, bem mais que os jogos.

“Em 2012, quando tivemos o especial de futebol no Biscate, o Atlético Paranaense, meu Furacão, amargava a segunda divisão no Brasileiro. Hoje não só estamos na primeira divisão como conquistamos uma vaga na Libertadores. Fizemos uma final inédita contra o Flamengo na Copa do Brasil (parabéns pelo teu rubro-negro Luciana!) e temos, no elenco do time, o artilheiro do Brasileirão 2013. Ser torcedor do CAP – Clube Atlético Paranaense – é viver com o coração na mão, entre altos e baixos, mas nunca, jamais, despir a camisa rubro negra que, como diz o hino do time ‘só se veste por amor’.”

Fui aqui escolhida, e confesso lisonjas, bela, nua, inteira, para escrever nestas festas de dois anos deste blogue linda. Fêmea. Plural. Legal, de bom e não de de direita – feminino de direito ou definição ideológica do palco da revolução. E resolvi que neste texto seria ela, que acaba por muitas vezes e muitas vezes tentar compreender o que se passa por uma cabeça feminina.

“Em maio de 2012 o Brasil de Pelotas estava na segundona do Gauchão e tinha ganho na justiça o direito de disputar a série C do Brasileirão. Depois disso foi rebaixado para a série D pelo STJD, entrou na justiça comum contra a CBF e a FGF, e se segurou enquanto pode enfrentando a cartolagem do futebol. Mas sabe comé… índio pequeno – mesmo guerreiro – num mar de tubarão… virou isca pra peixe. 2012 encerrou sem títulos, como sempre; mas com promessas e o crédito da torcida, como sempre. Finalmente, em 2013 voltamos à elite do Gauchão. Brasileirão? Sei lá… Andando pro Brasileirão. 2014 teremos de novo o maior clássico do universo futebolístico: o BRApel, e… “nós esse ano vamos vencer, salve o Brasil, o campeão do bem-querer”! Eu acredito.”

coração costurado

Aprendi muito das mumunhas nesses dois anos: a simples “conferida” pode encerrar um conteúdo político, sexista, machista, feio. E eu, que sempre gostei de olhar, admirar, paquerar, brincar, começo a pensar que seria muito linda a noite depois da revolução. Onde estas questões se resolveriam sem medos, receios, tolices, mas sem opressão, caralho de qualquer tamanho, tamanho qualquer de quadril. O jogo, a bola, a jogada arquitetada – ou intuição, talento, faro, tino.

“Entre maio de 2012 e dezembro de 2013, algo não mudou no Grêmio: a “seca”. Não ganhou absolutamente nada. Sequer um turno do estadual. Nem mesmo o grupo da Libertadores de 2013: ficou em segundo lugar, atrás do Fluminense. Mas nesse tempo aconteceram importantes mudanças. Paulo Odone felizmente deixou a presidência, para o retorno de Fábio Koff. Também houve a inauguração da Arena, em dezembro de 2012. Um belíssimo estádio, sem dúvidas, que oferece muito mais conforto que o Olímpico. Mas lá falta algo: alma. Parece um lugar mais voltado ao consumidor do que ao torcedor. Onde um cachorro-quente bem fuleco (eis um bom uso para o nome do mascote da Copa: como palavrão) custa os olhos da cara. Onde a norma é assistir ao jogo sentado em uma confortável cadeira… Como se estivesse em casa. Mas se é para assistir “como se estivesse em casa”, por que ir ao estádio? Minha última partida no estádio foi em abril: Grêmio 0 x 0 Fluminense, pela Libertadores. Nunca passei tanto tempo sem ir a um jogo do meu time. Talvez volte em 2014, já que tem Libertadores de novo (e num grupo difícil pra caramba). Dizem que o estádio é nossa segunda casa, mas a verdade é que agora me sinto mais em casa assistindo no buteco, junto com aqueles que não podem pagar caro por um ingresso.”

Estou aqui a cerzir. Costurar cousas neste canto de sala que tem meu computador, alguns livros, dicionários. Cerzir, fantasiar sobre tecidos puídos. Costurar, que as etiquetas todas dão como tarefa de menina porque “banal”. Enquanto que o alfaiate faz o chique, o soberbo, o diferente. Tão simples de entender as razões desses significados, destas dicotomias… mas que demora tanto quando a gente simplesmente não quer tentar entender. O passe está lá, a redonda também… o que nos impede de jogar o fino?

“Há dois anos escrevi sobre o Vasco. Ainda assinei com meu pseudônimo, Letícia Fernández, e me empolguei falando do orgulho de ser vascaína. Falei dos cem anos de história do meu time. E é exatamente essa história que vem sendo apagada hoje. Preciso explicar? Todo mundo viu a barbárie do último domingo do campeonato. Meu time do coração caiu para a segunda divisão, e isso não é nada perto do que aconteceu. O Vasco não caiu de pé; pelo contrário, caiu em meio a muita violência e vergonha. Continuo vascaína, porque torcer por um time é um amor que não se explica, mas, agora, não carrego a cruz de malta com nenhum orgulho. Minha torcida, agora, não é por gols, mas sim por decência no clube do meu coração.”

E quando me convidaram para escrever, que beleza, resolvi que seria Alfaiata. Minhas fazendas e vestidos nesta festa de comemoração: falar de futebol! Alfaita, treinadora, professora, lutadora. Tática, métrica, ponto, linha, agulha, ponta de lança, artilheira, zagueira, goleira, comentarista, corneteira… biscate.

“Transição. A palavra serve para definir o que foi o Santos de 2013. Com um presidente que já vinha se afastando por problemas de saúde e agora definitivamente licenciado, além de um técnico cansado e cansativo saindo do clube, o torcedor teve que ver seu maior craque pós-Era Pelé ir embora justamente para o clube catalão de tão amarga lembrança. Foi a saída do gênio ainda garoto que determinou a queda de Muricy, a quem o santista tem gratidão pela Libertadores de 2011, mas pelo qual nunca teve reverência, por conta de seu DNA nada ofensivo. E o samba de uma nota só caracterizado pelo refrão “bola no Neymar que ele decide” deixou de existir, dando lugar a um time comandado por um maestro ainda inexperiente, Claudinei Oliveira, que talvez tenha grande futuro à frente de outras orquestras. Fez o papel que lhe cabia, e era o que se podia fazer, lançou jovens e recuperou jogadores experientes, como Montillo. Deixou um legado (palavra da moda) e o torcedor alvinegro pode ver um Santos mais afinado com alguns reforços em 2014.”

Futebol que se define macho. E por isso, bestializam – no sentido de feras animalescas e não no bestial de estupendo, fenomenal, maravilhosa. Naquilo que podemos fazer, o melhor que faríamos, era desmachar o ludopédio. Porque a bola, é fêmea. A meta, mulher. A torcida, a peleja, a vida, a paixão, a desmedida. Olha que linda a partida, olha que maravilha, que bestial. Plural, porque coletivo. Singular, porque comum de gêneros.

Não pense que estou dizendo isso pela proximidade do “ano novo”, estou dizendo essa frase desde junho, aliás desde junho eu gostaria que o ano acabasse… Sem casa e sem comando, o meu AMOR se perdeu, tropicou, quase caiu /o\ Briguei, xinguei, chorei..agora passado o susto , quero que venha 2014 e que o velho-novo GIGANTE seja o palco da nossa reconciliação. Te amo INTER, meu CAMPEÃO DE TUDO, e sei que o GIGANTE me espera para começar a festa!!!!”

E mais, não me cabe só falar – escrever – sapatear – brincar – sobre o futebol. Outra das missões era costurar um conjunto de parágrafos e linhas descritos sobre nossos times, nossos casos de amor, nossas camisas. A minha são-paulina e as outras. Biscates que somos! E não é porque este campeonato brasileiro acabou que a linha deixou de ter sentido. O novelo todo, segue lá, necessário. Alias, já houve um “biscateando nas quatro linhas”, uma série de paixões moventes que encantou o blogue no ano passado e que inspirou este brigadeiro.

Em 2012 eu escrevi que eu torço Flamengo pra sentir tudo mais vivo e feliz em mim. Há uma magia em saber-se Flamengo. Digo sempre que cada clube tem seu estilo. Entra e sai jogador, passa o tempo, o time muda, mas há alguma coisa, intangível e específica, que permanece. No meu Mengo é a vocação para a leveza. Meu time me faz feliz quando joga assim: leve, alegre, com vontade de vencer, sem medo de perder. E foi assim que o Flamengo venceu a Copa do Brasil de 2013, com essa ousadia, essa vontade de um pouco mais. Foi o primeiro campeão do “novo” Maracanã – e por mais que se conteste a forma e o processo dessa transformação, é ainda belo que o time que tem o Maraca como casa inscreva na História seu nome de campeão. Torcer Flamengo. Amar o Flamengo. É quem sou. A alegria rubro-negra, pra mim, só equivale à alegria do grande amor. Aquele que tira o fôlego, o eixo, o norte, os pés do chão. Aquele amor de sempre ou o amor de agora. O amor de pra sempre, o amor de uma rapidinha no banheiro do bar. O amor dos que se conhecem sem falar e os que não param de falar pra tentar chegar mais perto. O amor dos iguais, o amor dos dessemelhantes. O amor de alma, o amor de corpo. A alegria rubro-negra equivale à alegria do amor que é gozo. A alegria rubro-negra é a do amor biscate. é de dançar na rua e do coração sambar no peito. Eu sigo alegre.”.

Vamos lá, cerzir pedaços. Construção. Jogada. Defesa, meio campo, ataque. Tática, estrutura, resultado, método. Aqui a agulha, a caneta, o teclado, a chuteira, o boteco. Parabéns para todas nós. Biscateando, sambando, vivendo: “Gooooooooooool”.

biscateando entre as quatro linhas

Os textos foram costurados e são: Da Renata Lima, o do Galo. Do Gílson, o do Fluminense. Do Daniel Nascimento, o do Palmeiras. Da Cris, do Furacão. Da Niara, do Brasil. Do Rodrigo, o do Grêmio. Da Nádia, do Vasco. Do Glauco, o do Santos. Da Suzana, o do Colorado. Da Luciana, do Mengo. E eu, que são-paulino.

fernando_amaral *Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

Sobre Morrer Amanhã

Por Arwen, elfo convidadx*

Eu li hoje essa entrevista: “Para ser feliz, pense na morte“. Você pode dizer que a Dra. Ana Cláudia é um pouco Pollyana, mas quem não seria? Ela se espanta com o paciente ateu não-analisado que diz não ter nenhum arrependimento. Mas isso é do espírito do tempo, daqui onde a religião e psicologia são as receitas “certas” para a prosperidade e para a felicidade.

Dra. Ana Cláudia Arantes -  médica especializada em cuidados paliativos

Dra. Ana Cláudia Arantes – médica especializada em cuidados paliativos

“Cuidados Paliativos” é o lugar da Medicina onde todos os dados já foram lançados, todos os dias já foram vividos, todos os pontos já foram contados. Não há nada mais a fazer senão esperar. O fim está tão próximo que você pode tocá-lo. E a alegria que ela passa deixa entrever que não deve ser fácil, não deve ser rosa e azul celeste, essa escolha de cuidar dos que já não tem esperança. Fazer da morte sua morada, por assim dizer.

E me deixou pensando em algo que ela diz lá pelo meio, da importância de ouvir a morte, de se aconselhar com a morte, de sentir que a morte está logo ali. Viver como se não houvesse amanhã. Mas isso a cada hora, cada minuto, segundo – nunca tomar uma decisão sem saber que pode ser a última. Nunca ir dormir achando que vai acordar. Nunca acordar achando que a noite você estará de volta nesta cama. Parece um plano.

Porque aí cada “sim” e cada “não” ganham um significado além do mero automatismo, além do desejo da manada ou do caminho suave da cartilha padrão (e numa nota irrelevante, talvez até  leviana neste texto, “Caminho Suave” é de um sarcasmo feroz, não se devia fazer isso com criancinhas analfabetas – quando aquele livro termina você aprendeu a ler, sua vida mudou para sempre, sua expectativa de um dia que nunca termine no parque de areia se perdeu entre uvas e bolas e a sombra da Biblioteca de Babel já ameaça, ao longe, qualquer perspectiva de um final feliz).

Porque aí qualquer coisa que se possa chamar felicidade passa antes pela necessidade – você não é feliz porque fez isso ou deixou de fazer aquilo, isso ou aquilo eram tudo o que você podia fazer e, se foi bom, que bom. Senão, não podia ser de outro jeito mesmo. Todas as consequências boas ou ruins são simplesmente marcos em uma estrada que você escolheu porque, fundamentalmente, não queria morrer sem passar por ali. Ou morreria se não passasse.

É uma terra estranha, além da linha amarela, aquela onde você não devia nem pisar, quanto mais cruzar. E a morte está sempre com você, não como ameaça e sim como destino. Mas é um lugar onde as escolhas podem talvez, finalmente, fazer um sentido.

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*Arwen, porque a gente escolhe, inclusive, reconhecer a finitude.

Seja Fácil

Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

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Esse negócio de ser difícil, de fazer joguinhos, de dizer que não quer querendo, de não ligar no dia seguinte, de ter que esperar o telefone tocar não sei quantas vezes antes de atender pra não mostrar desespero, de não escrever quando a bolinha do chat do facebook ficou verde, de não mandar sms dizendo que curtiu e quer repetir, de forçar uma suposta indiferença que em teoria despertaria o interesse de alguém não é comigo.

Seja fácil, diga que quer, ligue no dia seguinte, atenda o telefone logo, aproveita que a bolinha do chat tá verde e chama pra conversar,  mande sms, diga logo que tá a fim. Facilite.

…mas e aí ele vai ficar sabendo que eu to a fim”. Ué, mas é isso mesmo, tá a fim. O que outro vai fazer com essa informação já não tá na sua mão. Abra mão, baixe a espada e o escudo,  coloque a vaidade de lado. Desejar é se mover e  mover-se envolve risco mesmo.  Risco do outro dizer que não quer, que foi bom , mas não quer  mais, que você confundiu as coisas, que não te vê desse jeito. Tá, dói um pouquinho, mas tudo bem, a dor da vaidade ferida passa.  Fica uma raivinha chata, mas passa. Coloque o narciso pra dormir, escute um samba-canção, curta a dor de cotovelo. Faz parte. E volte pra biscatagi quando for possível.

Sou do tipo fácil, já abro um sorriso quando vejo quem eu  quero, convido pra ir pra casa,  se quero vou lá e digo, se a pessoa quer e me diz “vamos?”, digo “opa, mas é já”. Levo café na cama no dia seguinte, acordo com beijinhos, conto pra todos amigos que ficamos, que to feliz, que foi gostoso, que ele é lindo, que é inteligente, que o beijo é ótimo, que tem uma pegada maravilhosa, que trepa bem.

Não estou defendendo a empolgação simplesmente. Tem que ter faro, tato, olhar, ouvido. Farejar o que está sendo desenhado no encontro. Ás vezes é só mesmo da nossa parte que tá rolando, mas tudo bem, porque concordo com a Luciana : relacionamentos não são pra dar certo. Ainda assim, mesmo com todos os desencontros, é melhor ser biscate do que ser triste.

maycon

*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

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