Bolhas

Às vezes me dá um pouco de cansaço. De não entender porque as pessoas não entendem. Que seria tão melhor – acho – que ninguém regulasse a vida do outro pelo seu umbigo. Que não, não interessa o seu pecado, a sua crença, a sua teoria, o seu deus, o seu medo, o seu desejo, pra o outro tomar as decisões dele. Que a diferença do outro não é liberação pra ser morto de fome, de dor, de procedimentos mal feitos, espancado, de solidão, queimado na rua, baleado por engano, esfaqueado por ciúme. De desesperança ou desilusão. Às vezes me dá um pouco de cansaço. A insensibilidade pesa. A do outro, que não se acanha de verbalizar seu ódio, sua crueldade e se ofende se a gente apenas diz: mas isso é tão cruel. A minha insensibilidade pesa, porque estou aqui, ocultando status pra não saber se gente que eu quero bem é capaz dessa falta de sensibilidade aí. Às vezes me dá um pouco de cansaço de estar sempre vasculhando as entrelinhas, de perguntar de onde vem o riso, de me inquietar com as concordâncias imediatas. De tentar ser quem eu espero ser. De percorrer as distâncias. Eu disse cansaço? Devia dizer tristeza.

Esses dias em que existir tem sido difícil. Tanto desprezo, tanto ódio, tanta crueldade em relação às mulheres. A forma como nossos poucos direitos vão sendo dissipados, nossos corpos violentados e nossos desejos ignorados. Vamos garantindo que as mulheres que não são boas o suficiente (e nunca somos), morram, por dentro e de fato, algumas vezes. A gente não pode trepar. Fecha as perninhas. Se comporte. Se oriente. Só com a bênção do papa da vez, seja qual for sua doutrina, que seja decente. Incluindo aí, sua militância. Uma militância de perninha fechada. Sem riso e sem gozo. Sem gosto. A não ser por um pouquinho de sangue.

Dói e eu quase. Quase me fecho ali, na bolha confortável que é a ilusão que meus privilégios me protegerão. Aí recebo seu inbox, amigo, me falando do que aprendemos juntos. Aí tem o Blogueiras Feministas e a resistência. Aí tem a conversa livre com a amiga, que escuta, fala, pondera e permite. Aí tem o convite pra falar de feminismo – eu, biscate. E tem esse clube. Essas pessoas que fazem esse clube. Essas ideias e anseios e risos e trocas e gozos, liga que nos une, que mantém o blog no ar, que mantém a esperança no ar, que sustenta minha luta. Uso a ponta afiada da dor e estouro a bolha. O único modo de seguir que conheço é esse.

bolha

Biscate e luta não se requenta em microondas

Joy Division foi uma banda que durou exatos quatro anos, ao menos pelo que se sabe. Surgiu na Inglaterra, em Manchester, em 1976, ainda em pleno explodir do movimento Punk no país, e tem seu fim em 1980, após o suicídio de seu vocalista Ian Curtis.

Entre outras coisas é tida como uma banda “depressiva”, com canções em tom obscuro e triste. Apesar disso ser um dos aspectos das canções, esta análise incomoda porque limita as características amplas da obra, que vai além do estado de espírito dos autores das canções e dos executores da interpretação. Como as características elencadas até na própria Wikipédia, em artigo a respeito do conjunto: A experimentação que ia de influencias de The Doors a Kraftweark, o andamento marcial da bateria (que veríamos até depois reproduzidos em algumas canções de outras bandas da época como o U2) e a meu ver um pouco de experimentação com a música “industrial”.

Joy division

As linhas de baixo, a bateria marcial, o uso da eletrônica, o tipo de vocal, referências criticas diretas à política pré-Tatcher, tudo isso é a meu ver um arcabouço de possibilidades de análise critica do trabalho da banda Joy Division, que no entanto é rotulada, catalogada, posta na prateleira das bandas “Depressivas” dos anos 1980.

E ai um tipo de manifestação artística fica ali, exposta ao consumo determinado, determinante, limitado, datado que a diminui a um espasmo de um sentimento de uma época. A partir disso a transformação dela em outros ouvidos em outras experiencias, outros mundos, morre, ela se torna um retrato desfocado do passado.

Se isso ocorre com um conjunto musical e uma manifestação artística, quando nos afastamos de situações menos “tensionadas” na vida social vemos que isso é muito mais amplo e presente. No caso das lutas dos movimentos sociais isso é, como se diz no Rio, mato.

Protesto de feministas estadunidenses a frente do concurso de Miss Universo em 1968

Frequentemente vemos referências às lutas feministas como algo que nasceu, cresceu e conquistou os tais “direitos iguais” nos anos 1970 e que hoje o que rola pelas Ramblas do planeta é uma excrescência, um surto de feminazis arcaístas. E isso não é novo, a própria localização temporal da luta feminista em um dado corte histórico situado nos anos 1960 é também uma redução do papel destas lutas a um elemento, a um momento único, a um tipo de fenômeno curto, localizado e que não tem continuidade nem passado.

Voltamos à transformação de algo em um tipo de artigo de museu, no sentido pejorativo do termo, de algo que o inibe, que o estagna, que o torna monolítico e por isso imóvel, sem cor, incapaz da sedução e de transformação.

Não se diz pelas ramblas que no início do século XX nos EUA , feministas, planejadores urbanos, movimentos anti-corrupção. religiosos, sindicalistas, socialistas meteram bronca na busca de redução da profunda desigualdade naquele país, no combate à falta de direitos políticos e à profunda miséria a que parte da população era exposta.

Não se diz que 20% das mulheres estadunidenses constituíam a mão-de-obra industrial até 1920, que não tinham direitos políticos e já convivam com a dupla jornada de trabalho. Não se expõe que as mudanças advindas da migração do meio rural pro urbano promoviam já atritos contra moral sexual vigente e levam à mulheres a experimentarem práticas sexuais mais livres, especialmente pelas jovens mulheres, que “batiam de frente” com valores tradicionais e tensionavam os limites comportamentais e políticos de então ( e que me parecem presentes ainda hoje).

Emma Goldman

Emma Goldman

Ao som do Blues, que cantava as vicissitudes da exploração econômica, da discriminação racial, das amarras de raça, classe e gênero, mulheres se embalavam na poesia e iam pro pau. O caso de funcionárias dos correios de Nova York que assumiam um comportamento de bastante liberalidade sexual, biscate mesmo, orgulhosas de sua situação de “independência e liberdade” é sintomático.

Na política “propriamente dita”, de ação sindical e partidária, não se pode esquecer que o formato que vemos cotidianamente em filmes e em abordagens “tradicionais” procura de alguma forma restringir a atividade política feminina às “Sufragistas”, que apesar de terem sido um movimento social fundamental na vida estadunidense da época estavam longe de serem a única forma de participação feminina na vida política cotidiana, não foi a única atuação das mulheres.

Elizabeth Gurley Flynn

E só pra dar um gostinho podemos abrir mão de citar a grande Emma Goldman e partir pra descrição do que as mulheres com e sem nome fizeram nas fantásticas mobilizações sindicais do IWW ( Industrial Workers of The World), que se propunha uma alternativa combativa ao sindicalismo conservador da Federação do Trabalho Americano (AFL em Inglês) e das ações do Partido Socialista da América, cuja atuação pela emancipação política das mulheres foi uma de suas principais bandeiras, mesmo não abraçando todos os aspectos dessa luta. Podemos citar que na greve de 1912 em Lawrence, Massachussets, vinte mil operários, grande parte mulheres, eram embalados por ativistas como Elizabeth Gurley Flynn, que frequentemente discursava para os trabalhadores em enormes comícios.

Kate Richards O’Hara

No Partido Socialista da América o papel das mulheres não era assessório e embora não fossem mais de 15% dos filiados possuíam forte presença na direção e se destacavam como líderes regionais e ativistas importantes como Kate Richards O’Hara, líder socialista de Oklahoma, e a escritora cega, surda e muda Helen Keller, que também era importante ativista no movimento pelos direitos dos deficientes.

São tantas as histórias que desmitificam o ativismo, a militância social e política de homens e mulheres fixados a uma só época, e cara e jeito, como se o mundo fosse um eterno congelador de movimentos, o que inclusive estimula um a busca da idade do ouro perdida (Mas isso é outra história), que teríamos de ter mais espaço para destilar o tanto de informação disponível. E falamos só dos EUA com as informações obtidas no livro organizado por Leandro Karnal, História dos Estados Unidos, há muito mais em cada país e cidade.

Helen Keller

O importante é perceber que não há um papel fixo, limitado, colhido e temporalmente morto, congelado e impossível de se manter ativo em nenhum aspecto da vida cotidiana. Matar a ideia das lutas pela conquista e manutenção de direitos como um elemento contínuo, com um lastro histórico que vai muito além de cortes temporais definidos é um ato político deliberado de tornar estas lutas ou mortas ou como quem atinge o objetivo final de sua existência.

Assim como a música de Joy Division, o movimento politico da mulher, o movimento feminista, não são só a queima de sutiãs da década de 1960 e nem morreram por terem atingido seu objetivo e mais, tem história, tem “linhagem”, tem movimentos pela liberdade, movimentos livres e ações claras libertárias par além de uma só época de “liberdade”.

Nossas vovós não ficavam só fazendo tricô, caras-pálidas!

A luta é antiga, a biscatagem também e não podem, nem querem, ser congeladas. Biscate e luta não se requenta em microondas.

Fui feita pra vadiar!

Sabia que neste final de semana, dias 26 e 27 de maio de 2012, em várias cidades do Brasil, um monte de gente vai sair às ruas, na Marcha das Vadias?

– Nossa, que nome horrível! Quem inventou isso? Que falta do que fazer! Eu não vou em uma coisa com um nome desses!

Hum… minha cara de Willy Wonka pensando em todas as outras marchas para as quais te convidei e você não foi.

Então! É sábado!

Dia de tirar a calça jeans, colocar um fio dental… ~ops~ não precisa!

Gente, é uma marcha sobre VIOLÊNCIA, e não sobre SEXO.

Não tem roupa específica. Não precisa “ir de vadia”.

Aliás, o que seria uma roupa “de vadia”?

Curta? Decotada? Barriga de fora? Peito pra fora?  Bunda pra fora?

Biscate, piriguete. O que é ser “vadia”?

O homem é civilizado
A sociedade é que faz sua imagem
Mas tem muito diplomado
Que é pior do que selvagem

Somos todas vadias.

Quando usamos a roupa curta ou decotada, e ousamos dizer um NÃO para algum homem? Somos vadias?

Somos vadias quando uma pessoa tem um relacionamento com um terceiro e busca a nossa companhia? Para um monte de gente, somos vadias…

Somos vadias quando nossa orientação sexual não segue um padrão heteronormativo, e paira sobre nós o fantasma do estupro corretivo.

Somos vadias quando somos estamos dirigindo, e desobedecemos a regra de ouro de … não cumprir as regras de trânsito e exceder o limite de velocidade. Para tantos e tantas outros e outras motoristas, somos putas e vadias, apenas por estar no volante? E se for em uma cabine de comando, de um avião? 

Somos vadias quando levantamos a voz, e dizemos que não concordamos com algo que foi feito ou que foi dito, somos vadias quando sentamos sozinhas em uma mesa de bar, somos vadias se vamos ao cinema desacompanhadas, somos vadias quando… bem, quem mandou nascer mulher?

A Marcha das Vadias é nome que recebeu, no Brasil, um movimento que começou no Canadá, em Toronto, quando um policial canadense, Michael Sanguinetti, fez a infame afirmação, em uma palestra: “Me disseram que eu não devia dizer isso, mas as mulheres não deviam se vestir como vadias se não querem ser estupradas”. As alunas da universidade se revoltaram e sairam às ruas, “vestidas de vadias”, para afirmar que a culpada pelo estupro não é a vítima e nem a roupa que ela usa mas, sim, a conduta do estuprador.

Até hoje, quase dois anos depois, e com a propagação dos protestos por todo o mundo, a Polícia do Canadá ainda insiste que este comentário não representa a visão de toda a instituição, mas “apenas um oficial”.

Infelizmente, não é só no Canadá que as mulheres são responsabilizadas pelas violências sofridas. Especialmente a violência sexual. E ainda há decisões nas quais a “mera negativa” da vítima em consentir com o ato sexual, sem resistência efetiva, serve para descaracterizar o estupro e absolver o agressor. Ainda há decisões nas quais o “comportamento” da vítima (e nem precisa ser o comportamento sexual da vítima com o agressor, basta dizer que a mulher é sexualmente livre, já teve “mais parceiros do que a média’ – e eu pergunto: qual é a “média”?) serve não para calcular a pena, como é previsto e justo, mas para afastar o crime,

E é por isso que marchamos.

A violência contra a mulher é uma chaga, naturalizada, internalizada, divulgada sem reflexão, repercutida sem informação.

Mulheres são assediadas, abusadas, estupradas, intependente da roupa que vestem, do corte de cabelo, da maquiagem, ou do salto alto.

Mulheres são agredidas e mortas, na maior parte dos casos, por companheiros ou ex-companheiros.

Nem sempre o estuprador é um “monstro psicopata”, nem sempre ele é o “estuprador serial” das manchetes sensacionalistas. (e até sobre o mítico “monstro”, recomendo essa leitura, da Eliane Brum –  A vítima indigesta ) Aliás, quase sempre, ele é o amigo do pai, do avô, do irmão. Quando não é o pai, o avô, o irmão, o tio, o marido da mãe, o vizinho.Todas as pesquisas e dados mostram que em mais de 70% dos casos, o estuprador é parente, companheiro ou ex-companheiro ou conhecido.

A marcha das Vadias é contra a violência, é séria, e prá valer.

E pego um trecho de uma música do MV Bill, com o Charlie Brown Jr:

“Muda, luta, move essa bunda. Cria coragem, larga dessa vida imunda. Porque a culpa é de quem tem a culpa e não de quem leva a culpa!”

[+] Um adendo necessário: Vadias somos todas. E sérias. Somos vadias sérias, de luta, de coragem.

Mas tambéms somos vadias biscates, e biscate sempre biscateia. E é claro que todo lugar é lugar de biscatear, e pra quem gosta, de beber e se divertir.

Porque alguém já disse e eu aplaudo: não é a minha revolução, se não pudermos dançar. E paquerar. E beijar na boca.

Se ainda formos fazer tudo isso, sambando na cara do patriarcado, nossa… nossa!

Delícia, delícia!!! Hey, machista, meu orgasmo é uma delícia!

[+] Datas e locais das Marchas por todo o Brasil:

Brasília, DF 26 de maio de 2012 Local e hora: concentração no CONIC, 13h (próximo à Rodoviária do Plano Piloto) Comunidade no Facebook Siga pelo Twitter

Belém, PA 27 de maio de 2012 Local e hora: Estação das Docas, 9h Evento no Facebook Fan-page no Facebook

Belo Horizonte, MG 26 de maio de 2012 Local e hora: Concentração na Praça Rio Branco (praça da Rodoviária), a partir das 13h. Fan-page no Facebook Evento Twitter: @slutwalkbh Blog

Campinas, SP 1o de março de 2012 Fotos no Facebook

Campo Grande, MS 10 de março de 2012 – Próxima Marcha 26 de maio de 2012 Local e hora: a confirmar Veja fotos da primeira Marcha de 2012 Mais fotos aqui

Criciuma, PR 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça Nereu Ramos (em frente a Casa de Cultura), 10h Evento no Facebook

Curitiba, PR – Ato Vadio 26 de maio de 2012 Local e hora: Reitoria da UFPR, das 18h às 22h Evento no Facebook – Marcha das Vadias 14 de julho de 2010 Local e hora: a confirmar Comunidade no Facebook Veja fotos da Marcha das Vadias Curitiba 2011

Florianópolis, SC Dia 26 de maio Local e hora: Concentração na Catedral (centro da cidade), a partir das 10h. Evento no Facebook

Guarulhos, SP Data a confirmar (junho) Local e hora: a confirmar Grupo no Facebook

Natal, RN 26 de maio de 2012 Local e hora: Feira do Alecrim, 10h Twitter da Slutwalk Natal Página no Facebook Macapá, AP 2 de junho de 2012 Local e hora: Praça Floriano Peixoto, 15h Evento no Facebook

Salvador, BA 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça da Piedade, às 13h30 Evento no Facebook

São Carlos, SP 26 de maio de 2o12 Local e hora: Praça Santa Cruz, 9h Comunidade no Facebook

São José dos Campos, SP 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça Afonso Pena, 10h Fan-page no Facebook Blog

São Paulo, SP 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça do Cicllista, 13h Grupo no Facebook

Pelotas, RS 8 de março de 2012 Fotos aqui

Porto Alegre, RS 26 de maio de 2012 Local e hora: Arcos da Redenção, 14h Evento no Facebook Grupo no Facebook

Recife, PE 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça do Derby, 14h Evento no Facebook

Rio de Janeiro, RJ 26 de maio de 2012 Concentração no Posto 4 da Av. Atlântica, a partir de 13h Evento no Facebook Veja fotos da Marcha das Vadias em 2011

Vitória, ES 26 de maio de 2012 Local e hora: UFES, 14h Evento no Facebook

Juiz de Fora, MG 26 de maio de 2012 Concentração às 11h no Parque Halfeld

Santa Maria, RS – Dia 02 de junho, às 14h, na Concha Acústica do Parque Itaimbé – Página no FacebookGrupo no Facebook

-Marcha das Vadias em Sorocaba/SP – sábado, 14h (não está claro se vai ser dia 26 de maio ou 2 de junho… ),  no cruzamento da Moreira César com a Barão de Tatuí

-Marcha das Vadias em Londrina/PR Sábado, 02 de junho, 14:00h,  no Calçadão de Londrina- em frente a Pernambucanas – Evento no Facebook

=]

Biscate de Luta

 Por Niara de Oliveira

Não sou uma biscate qualquer.

A biscate que sou só eu poderia ser. Ou, a mulher que sou só eu poderia ser. Ou ainda, a pessoa que sou só eu poderia ser. Somos todos assim, construídos de pequenos detalhes, grandes diferenças, caminhos trilhados com dificuldade ou não, escolhas, dores, alegrias… Vida vivida.

Entre as minhas escolhas estão ser comunista — reconheço a que classe pertenço neste mundo capitalista, reconheço a opressão sofrida por esta classe, me rebelo, quero e luto para construir outro mundo, com outro sistema, sem classes e baseado na cooperação mútua tendo o ser humano como parâmetro — e feminista — reconheço meu gênero e todas suas implicações e opressão sofrida, e luto por um mundo antimachista, construído na parceria entre gêneros.

Para além de ser feminista, percebi que a opressão de gênero é um dos pilares de sustentação da opressão de classe e que essas duas opressões estão intimamente ligadas (a opressão de gênero e a normatização da sexualidade da mulher surge na História junto com a propriedade privada), uma não sobrevive sem a outra e talvez por isso seja tão difícil romper com as duas.

Nesse período do início de março é comum recebermos homenagens e flores e vermos a feminilidade ressaltada. Pois reafirmo, engrossando o coro de milhares de mulheres que lutam ao meu lado, o 8 de Março (leia aqui sobre a origem da data) é um dia de luta, de protesto e de reflexão. Dia de recusarmos as flores e falsas/frágeis homenagens e dizermos em alto e bom som: QUEREMOS É RESPEITO E UMA VIDA SEM VIOLÊNCIA!

Juntemo-nos às Marchas das Vadias e atos públicos desse 8 de Março nas cidades Brasil afora. Vamos às ruas fazer valer nossa autonomia e liberdade. Não há outro jeito. Nesse mundo, machista e capitalista, a biscate que eu sou é essa: rebelde, de luta!

MEU CORPO É MEU TERRITÓRIO

Silêncio enquanto dou voz a este corpo!
Nasci nua, mas logo que perceberam uma pequena abertura entre minhas pernas vestiram-me de opressões e perseguições, me modelaram conforme o ritual, a moral e a economia exigiam: submissa, proibida, inferior, culpada… culpada… culpada…
Assim batizaram minha vagina e a extensão deste corpo.
Assim educaram este corpo para servir e reproduzir a educação do servir.
Assim esqueceram este corpo na construção das leis.
Assim desenharam este corpo sempre em pedaços de acordo com os objetivos da propaganda: princesa, bruxa, puta, esposa, mãe, criminosa.
Assim a expressão do que este corpo deseja e rejeita realizou-se clandestinamente durante muito tempo… clandestinamente… clandestinamente…
Foi assim, arrancando da pele marcas de injustiças, violências e castrações, caminhando capenga com o peso do mundo dos homens em minhas costas, ventre, mente, passos… que então me rebelei arrombando a porta de um destino mal fabricado, queimando as folhas dos contos dos fodas.
Experimentei o conhecimento, o prazer da luta.
Criei novas palavras para nomear o que quero e do que sou capaz e hoje grito:
Meu corpo é meu território!

(texto construído coletivamente e interpretado na abertura da vigília organizada pelo Fórum Cearense de Mulheres, no Dia Internacional de Luta Pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres [25/11/2009] em Fortaleza.)

Atos referentes ao 8 de Março de 2012:

Brasília: 6 a 31/março — Diversas atividades do Fórum de Mulheres do DF.
Belém: 8/março — Caminhada, concentração em frente ao Tribunal de Contas às 9h.
São Paulo: 8/março — Ato e Passeata, concentração na Praça da Sé às 14h.
Recife: 8/março — Manifestação na Praça do Diário, às 15h.
Fortaleza: 8/março — Caminhada das Mulheres, concentração no Parque do Cocó às 16h.
Rio de Janeiro: 8/março — Manifestação, concentração no Largo da Carioca às 12h.
Belo Horizonte: 8/março — Ato e Passeata, concentração na Praça da Estação às 15h.
Pelotas: 10/março — Marcha das Vadias, concentração no Chafariz do Calçadão às 11h.
Natal: 10/março — Marcha das Vadias, concentração Ponte Negra atrás do Vilarte às 14h.
Vitória: 10/março — Ato das centrais sindicais na Assembleia Legislativa às 19h.
Campo Grande: 10/março — Marcha das Vadias, concentração Pça Rádio Clube às 8h30.

(divulgue aqui o ato da sua cidade)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...