Voltando

Ô abre alas que eu quero passar, ô abre ala que eu quero passar. Voltamos. Estamos voltando. Arejando o club, abrindo portas e janelas, espanando os móveis, varrendo os cantos. Põe meia dúzia de brahma pra gelar, muda a roupa de cama, estamos voltando.

Voltamos outros, as vidas que vivemos nos aperta daqui, nos pede dali, revolve por dentro. Mas voltamos com a mesma vontade de biscatear. Ainda buscando a liberdade – emancipatória – através de diálogos, dicotomias e leveza. Estamos no mundo das redes sociais, mas da forma subversiva que nos apetece, não temos pressa nem respostas. Em um tempo/espaço em que a obrigação é militar (no sentido de militância, mas, inexorável constatar que no sentido bélico também) porque o mundo é muito cruel e as lutas são para ontem, reafirmamos o prazer como baliza, horizonte e caminho. O prazer da escrita, do acolhimento, do verso, do convívio e do contato.  O prazer do encontro.

Acreditamos no prazer. Acreditamos na putaria. Na liberdade. Acreditamos em escrever livre, viver livre, lutar livre, amar livre. Acreditamos na possibilidade do bom. Acreditamos no construir um mundo melhor de uma forma melhor. Com quem está. Com quem é. Acreditamos na insuficiência das pessoas. Na incompletude. Acreditamos na nossa humanidade como fraqueza, possibilidade e beleza. Acreditamos que é justamente nossa humanidade que possibilita sonhar e fazer um mundo outro. Melhor. Mas que só será melhor não pelo que miramos, mas pela forma como o fazemos.

Acreditamos na letra. E estamos dispostos a continuar escrevendo e convidando a escrever desse nosso jeito, evitando julgamentos, procurando a reflexão, a abertura (ui) para o outro. Temos incertezas, vacilos, dúvidas. A gente reconhece, como Vinícius, que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. Fazemos o clube como queremos vir a ser. Reafirmamos nosso Editorial, ele é nosso mar, barco, porto e horizonte. É o que nos desafia, o que nos comporta, onde repousamos e pra onde seguimos.

Escolhemos o dia de hoje para voltar não por acaso. Esse é um dia de tantos e tão reveladores equívocos. Um dia em que as pessoas parabenizam as mulheres por serem mulheres, como se houvesse alguma essência merecedora de mérito. Um dia em que aprisionam mulheres em estereótipos de cuidadadora, mãe, paciente, esposa, resignada e outros afins que garantem a continuidade de uma referência de papel subserviente para a mulher. Um dia, também, em que pessoas erram pensando que estão acertando e a forma como lidamos com elas diz muito do quanto ainda somos impregnados dos mesmos equívocos – talvez não de conteúdo, mas de forma. Escolhemos esse dia pra voltar porque biscatear é justamente buscar um jeito único, próprio, desvinculado de estereótipos e de imposições essencialistas, sejam elas louvatórias ou não.

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8 de março é o Dia Internacional da Mulher e voltamos hoje pra nos somar às vozes que falam de igualdade para as mulheres, que clamam pelo fim da violência de gênero, que apontam as desigualdades, o machismo, a misoginia. Voltamos, também, nesse dia, pra lembrar a diversidade – dessas mulheres e das vozes. Todos os dias quando dizemos: “as mulheres” estamos encobrindo a diversidade de relações e experiências. Porque há mulheres negras, mulheres índias, mulheres trans, mulheres lésbicas, mulheres em situação de rua, (entre outros grupos marginalizados) e cada uma nestes grupos sofre de forma estruturalmente mais violenta todos os preconceitos. Mulheres que por sua etnia, orientação sexual, poder aquisitivo ou por se inserirem de forma contestatória à lógica machista são invisibilizadas e têm minimizadas ou mesmo negadas sua condição humana e de identidade. Diversidade de mulheres, diversidade de vozes. Nossas vozes marcadas pelo riso, pelo gozo, pelas perdas, pelo engolir em seco, pelo engolir o sapo, pelo grito de protesto… Nós somos sujeitos, fazemos escolhas, pensamos e decidimos, mesmo limitadas pela conjuntura, cultura e história. Nós temos vontades: seja de consumir, de amar, de trepar, de pertencer. Temos desejos: de ser feliz, amadas, livres, o que for. Temos possibilidade de autonomia, mesmo quando reconhecemos os obstáculos estruturais.(um fragmento de memória, daqui) É esse o som que produzimos com nossas vozes biscates: gritos, gargalhadas, gemidos, palavras de ordem e de afeto e que aqui, blogando, fazemos letra e sonho.

Voltamos. Acenda o refletor, apure o tamborim…

Faísca

Eu estava encarando sua boca, sou louca por sua boca. Sabia que não ia dar certo, quando a gente fica juntos sai faísca, bebo um copo de cerveja, acreditando que, ao engolir o líquido, iria junto o desejo de beijá–lo. Ele tem esse poder sobre mim, não sei cumprir com meus acordos quando ele está presente. “Não fico mais com ele!” Disse pra mim mesma, ele disse algo parecido pra mim um pouco mais cedo. Esse era o certo, mas o certo nunca acontece quando estamos juntos.

E acabou a cerveja, abre outra correndo, entra em casa e respira fundo, volta pra rua e enche o copo, já estava embriagada. Só não sabia se era por causa de (só) uma garrafa de cerveja ou se era por causa do seu cheiro, uma mistura de perfume com cigarro. Sem querer, ele esbarra em mim, eu arrepio toda. Vai dar errado, nunca dá certo quando estamos juntos, tenho essa fraqueza por ele que eu não entendo.
“Falei tanto que iria dar errado que ele já está deitado na minha cama”, pensei comigo. “Meu último ônibus já saiu, agora só daqui a três horas.” ele falou. “Puta merda! Três horas, tenho que me segurar pra não atacá–lo.” Pensei e respirei fundo. A gente sempre perde a hora conversando, ele iria passar rapidinho aqui e iria pra casa, mas… nunca dá certo, a gente pode planejar o contrário, mas é só quando eu estou com ele que eu não me controlo.
Ele me contou da sua cicatriz, que ele não gosta e eu acho linda, sinto tanta vontade de beijá–la, não tenho juízo quando estou com ele, só penso em beijá–lo. Como num passe de mágica, eu já estava alisando a perna dele, ele pega na minha perna, eu reclamo, ele fala “você também tá com a mão na minha perna!” E tudo flui tão bem, como se eu pudesse viver sem culpa, sem medo, sem me preocupar com o dia seguinte. Eu só sinto, desejo, amo e gozo! E é sempre assim, a gente junto não dá certo (será que não?), sempre sai faísca.

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Ainda Mais Biscate

Reunir a biscatagem. Biscatear. Arregimentar biscates. Ser Biscate. Ser cada vez mais Biscate. É isso, é o nosso club, a nossa dança, é o jeito que a gente dirliza na sociedade.

Entender o jeito de se biscate, o propósito de ser biscate e a vontade de se tornar e estar biscate é o nosso trabalho, o nosso sacerdócio, a nossa sina! Optar, politicamente, pela biscatagem é o que nos move coletivamente, é o que nos faz uma corja! Sim, porque se quiséssemos ser família, também seríamos, mas queremos ser corja!

Queremos e tentamos subverter os padrões, somos o buteco incômodo do debate político-trollador, libertário-afetivo, artístico-militante e nada, mas nada modestos! A regularidade não nos importa! A conformidade não nos apetece! O discurso pronto, pelo discurso, não nos elabora! E apontar dedos, não nos cabe!

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Nossa Cor Biscate (foto: Antonio Miotto)

O Biscate é o espaço do nosso conforto enquanto sambamos na lama, na cama e na passarela. Descalços, de salto, de sapato alto! Gloriosos ou tristonhos. Mas sambando num mesmo tom furta-cor!

E são nesses tons, que não são 50 nem 250 – contar pra quê? – que damos a nossa tônica. Que reunimos a nossa esbórnia. Que compartilhamos a nossa sanha! Sim, porque ser biscate é ter sanha de viver! Ser biscate é acontecer, onde quer que esteja!

E quando queremos acontecer, o melhor que seja junto, que seja misturado, que seja agregando amigos-leitores. É assim que a gente gosta! Se espetando e se amando, em processos profundos de afofamentos! Na mesa, na cama, no banho e no feno! Rolando no chão e mordendo de tesão. Tesão pela vida, tesão pelos outros, tesão por si mesmo, tesão em ser biscate.

E é assim que aprendo não apenas ser, mas ser ainda mais! E é assim,  Biscate é a nossa amizade, a nossa familiaridade, o nosso amor. Amor pela nossa liberdade, juntos, separados, com os outros e com ninguém. Ser biscate é estar reunido nesse objetivo, ser biscate é a suruba da vida!

Dia de memória biscate

#MemóriaBiscate #2anosBiscateSC

Do filme “Colcha de Retalhos”. Um filme biscate.

Hoje é dia de memória biscate. E memórias a gente – já – tem muitas, com apenas dois anos. Dois anos de desconstrução e de ressignificação do termo “biscate”, do seu conteúdo, dois anos de afirmação de luta à base de gargalhadas, de copos, de abraços, de choros também, de dores. Falando de comidas gostosas, que a gente também é disso. De futebol, como não. De sexo, todo dia e sempre. Falando e fazendo, quando dá. Ou não, porque tem períodos em que não. Questionando idéias prontas, transformando idéias feitas, questionando, rediscutindo, mudando de posição (que sempre é bom mudar de posição de vez em quando, já nos ensinava o Kama Sutra). Solidificando afetos, que isso também o biscate faz, todo dia. Nosso clubinho só cresce, e se alegra com seus novos integrantes. Com visitantes ocasionais. Com viajantes que passam pra dar um alô. Biscate acolhe, abraça, dá espaço. Clubinho gostoso esse nosso clubinho.

Saboroso, sacana, moleque, maroto, dançarino. Pairando, saltando, roçando, encostando, sentindo, provando, esfregando, gostando, doendo, chorando, abraçando,  acarinhando, gostando de novo. Lembrando.

Lembrando aqui de tanto caminho desde que a Niara e a Luciana tiveram a idéia de criar um blog pra se contrapor à ideia feita, pronta, difundida de que “mais vale uma mulher incrível do que uma coleção de biscates”. Um blog que diz ao se apresentar: “Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Esse é o nosso clube.”   Parece simples? Parece fácil? Pois é luta de todo dia, nesse mundão de meu deus em que tantas mulheres não conseguem sair de casa sem autorização do marido ou do pai; não conseguem usar a roupa que querem, namorar a pessoa que querem, dançar no passo que desejam, cantar a melodia que lhes apraz. O Biscate é um espaço, que a cada dia reafirma a necessidade de estar e de dizer. De dizer contra quem machuca. Às vezes com palavras que parecem pequenas e simples. Que parecem quase nada. E escondem tanto. A gente precisa dizer muito, dizer sempre, dizer de novo.

Viva o Biscate. Longa vida ao Biscate. Que venham muitos textos, muitas fotos, muitos encontros, que a rede que a gente tece vá ficando cada vez maior, que os fios cheguem em mais lugares, que venha mais gente conversar e pensar junto e gargalhar e cair no choro e dançar com a gente, até que a gente possa, um dia – quem sabe? -, esquecer que o Biscate surgiu porque tinha gente que achava que uma “mulher incrível”  vale mais do que  uma penca de biscates. Um dia em que essa afirmação não faça mais nenhum sentido. Porque, é claro, biscates são mulheres incríveis. Desculpaê. Mas é isso, eu tinha que dizer, né?

 

 

Sobre o ato de ensinar

Sobre o ato de ensinar. Por uma professora biscate.

E para os meus alunos, todos eles. Os que foram, os que são, e os que ainda serão.

Cena do filme "Entre os muros da escola", de François Bégaudeau

Cena do filme “Entre os muros da escola”, de François Bégaudeau

Tem vezes que fico feliz só por pensar que faço o que gosto, em um mundo de trabalhos massificados e corporativos. Claro que nem sempre, e nem tanto. Nem tudo dentre o que faço floresce, navego também por burocracias e papéis contemporâneos e weberianos. Exigências de publicações, linhas de pesquisa e cadastros, processos administrativos de fluxos e aprovações, enquadramentos. Somos todos sujeitos a navegar numa caixa, vez por outra.

E no meio desse mar, também enfrento uma ciência que se faz ciência protocolar e nem sempre alcança os muros para fora da Universidade, desgastes de neurônios e conversas cíclicas que esboçam devaneios E não me refiro aos bons devaneios poéticos. Mesmo não tendo muros nesta escola em que me localizo, eles existem, metaforicamente, jardim afora. Por entre os ipês e as pessoas que passam espremidas nos ônibus, a nos mostrar que o mundo é maior e mais complexo do que qualquer livro.

É, nem sempre, ou quase nunca, a ciência alcança a sociedade, os olhos, as mãos e as mudanças necessárias. Falta-nos o empirismo honesto e despretensioso. Empirismo de riquezas não escritas. As poucas apropriações do que se faz em letras e teorias, tantas e tantas vezes, não alcançam resultados importantes para a sociedade que vivemos.

Mas, sim, as minhas ilhas, elas existem: vamos a elas. São muitas. A cada semestre ganho novas ilhas que me fazem acreditar que é possível a renovação, e que o saber pode ser compartilhado para mais. Onde aprendo mais do que ensino, e o que ensino se faz diferente a cada fala e a cada pergunta, a cada texto meu que se reescreve com o que eles me trazem de presente.

Descansos de mar verde e de amor. Porque acredito, e sinto no corpo que se move pela sala de aula, que educação se faz com amor. E sabendo que educar é, sempre, um ato político. Mesmo quando não é. Então eu tento, tento agir politicamente e trazer a eles possibilidades. Mais perguntas. Mais dúvidas. Mais inquietações para que eles possam, quem sabe, tomar o mundo. Multiplicar, fazer crescer, viajarem e me mandarem cartas de longe questionando os meus dizeres, dizendo que eu estava doida, que eu estava lúcida, que eu estava errada, que eu estava certa, que eu estava sei lá onde quando eles me ouviam falar. E que eles continuam pensando.

Então eu ensino, de repente, com um amor que me transborda porque eu acredito, acredito em cada risada, em cada olhar pensativo, em cada olhar profundo, em cada arroubo, em cada brincadeira partilhada. Eu acredito em cada um deles, mesmo quando eles dormem na cadeira ou passam a aula mandando mensagens pelo celular – o que eles fazem sempre.

Faço questão de sabê-los pelo nome, de tentar entendê-los como são, de poder abraçá-los e demonstrar meu afeto e minha gratidão por eles estarem ali, sentados a minha volta, me dando o que mais gosto de fazer nessa vida acadêmica: o ensino. Agradeço por eles existirem com sede de saber, partilhando comigo construções que sonham um mundo melhor.

 

Flerte

Flerte.

Eu flerto, tu flertas, ele flerta.  Nós, biscatemente, flertamos.

Flertar é verbo cotidiano, verbo que faz bem aos olhos. Olhos que se cruzam, bocas que se olham, poesias, gentilezas, músicas, escritos, conversas despretensiosas, deleites, prazeres fugazes, levezas, brincadeiras.  Um chopp, ou dois. Desce outro. Um bilhete, um e-mail, um gracejo, um passeio, um mergulho, um cigarro aceso ou só um cruzamento na esquina.

Um bom flerte pode ser um bom começo, o prenúncio de uma noite quente. Ou pode ser só ou o fim em si mesmo. Não importa. Flertar é arte de sorrir, de se fazer voar ao encontro da mágica do acaso.

Eu flerto, e conto, aqui, uma pequena história flertada. Flertemos!

Flerte

De repente ela estava ali, sentada em meio a um mar de gente sem rosto.

A noite era fresca, e o evento era um protocolo divertido.

Ventava um vento leve, e eu cheguei com as boas aberturas que me percorriam os dias.

De repente eu estava ali. Com uma máquina na mão a registrar o escuro que envolvia as taças de vinho e os livros autografados.

Esbarramo-nos, num instante cheio de acontecimentos.

Seus olhos coloridos me convidaram a sentar. Eu sentei, com a naturalidade de seguir o pulso.

E no ritmo acelerado de sentir, fui soltando palavras que fluíam ao seu encontro.

Uma atrás da outra lhe chegavam conhecidas, em meio às outras vozes que ali estavam.

Seu sorriso grande parecia gostar do que eu dizia.

Encontramo-nos.

Tudo aconteceu muito rápido, impulsionado pelo fogo vermelho dos astros.

Em segredo ela me olhou e disse: eu quero.

Ouvi sua fala sem voz, e senti a força de seus olhos atentos.

Em silêncio respondi: eu também quero.

E de repente tudo estava ali.

Das perdas

Das perdas, hoje eu falo sobre perdas. Porque biscate também é ter coragem de mergulhar nesses buracos da gente. De se enfrentar sem escudos. De chorar e doer e varrer tudo por dentro. De ter tristeza, sim, de deixar ser triste quando a tristeza vem. Porque quem quer muito, tem muito muito. E às vezes o muito é a dor. Mas a gente busca o que Valter Hugo Mãe nos ensina em seu precioso livro “O Filho de Mil Homens”: aquela dor sobre a qual se foi capaz de construir uma felicidade ainda mais profunda. Ou, na melodia poética de João Gilberto madrugada adentro, cantando “pobre de quem não entendeu que a beleza de amar é se dar. e só querendo pedir, nunca soube o que é perder para encontrar..”. Porque a gente busca, sim, e uma hora a gente encontra.

Então, vamos ao texto!

Das perdas

“Agora é não perder a perda”, me disse a terapeuta no final da sessão de terça. Sai do divã ainda atônita, com a frase pincelada na hora certa, retumbando por dentro. A perda. As perdas. Gosto amargo, aspereza. Garganta ardendo. Sim, as perdas.

Depois de tudo, de toda chuva, de tanto tornado, de tanto vento, é preciso olhar o que se perdeu. Os escombros são meus, e eu os aceito. Aceito-os, sim, como parte de mim. Dos meus erros. Das minhas covardias. Das minhas escolhas tortas. Da minha pressa de viver que me conduziu a abismos e labirintos de minotauros com fome, dos quais eu não conseguir sair senão em sangue. Em tontura. Em pedaços desconexos. Em sombras afloradas que me fizeram ver o que eu não gostaria. O escuro de mim.

E eu vi, bem aqui diante dos meus olhos, com uma verdade quase insuportável a minha parca estrutura desconjuntada. Um buraco grande e negro de contornos desconhecidos, um território inexplorado dos meus escuros. Assustei, tentei correr, mas ele me sugava à medida que meus pés mexiam, ele me sugou e lá dentro eu fiquei, fiquei até gritar e querer sair, mas lá dentro ninguém te escuta a não ser você mesma.

Lá dentro é frio e é quente, e a gente se perde num tempo sem tempo, num medo de existir, num medo da nudez, num medo de ser quem a gente ainda não sabe ser. Num medo de olhar o feio da gente, o feio que é nosso e a gente tem que abraçar ainda em soluços, a gente tem que pegar no colo os feios da gente. Lá dentro parece que não tem fim, que não tem chão, que não tem ego, a gente é pequeno e frágil e não cabe em si, a gente é desconhecido da gente mesmo. Ali a gente não consegue mais sorrir e então ficamos assim, paralisados, sem movimento, sem palavra, com os olhos cheios e as mãos em prece.

E em suspiros a gente chora e sente dor, tem arrepio, tem morte e não tem sono – e às vezes tem muito sono, mas os sonhos não chegam, é um sono de cansaço que não tem imagem, que tem confusão e desacerto. É um deserto grande e seco, mas que chove gelo de vez em quando. A gente tem sede diante do lago e não consegue beber o lago, a boca fica seca diante das águas que não conseguimos engolir, e as pernas doem e não tem fim, e não passa nunca.

A fome se vai, a gente esquece que tem corpo, o corpo é máquina que anda e faz cócegas. Os sentidos desabrocham para o que vem de dentro e a gente quer sair de dentro, lá dentro é áspero e tem muita lama, tem cheiro ruim, tem muita água parada, tem sujeira e tem matéria prima que nos assusta. A gente quer sair desesperadamente, mas quanto mais nos desesperamos mais a gente escorrega, a gente escorrega o tempo todo e se sente sufocar pela própria saliva, pela própria respiração intercortada, pelo próprio peito aberto e úmido.

Mas não, não ainda, não temos força para sair dali, não temos mais forças para nada. É preciso ficar, ainda mais, é preciso parar de se debater e ficar ali, olhar o vazio, o escuro, as sombras que vão se materializando diante da gente. As sombras que ganham vida e nos contam segredos escondidos, daqueles que nunca contamos nem para nós mesmos, aqueles duros de espetar entranhas, aqueles que nos assolam e estão ali com a gente, desde sempre, e são eles que nos salvam.

De repente, assim, de repente eles nos salvam, eles nos abençoam para seguirmos em frente, eles nos olham e fazem as pazes conosco. E então a gente pode fazer as pazes com a vertigem do escuro, aceitar as nossas formas estranhas, o estranho da gente. O avesso que é tão feio e tão nosso. Nosso húmus, nossa matéria prima mais forte e assustadora, nossos próprios abismos de incompreensão e susto diante do descontrole da vida.

E eu estou aqui, ainda pela metade, eu estou parando em algum lugar que eu não sei onde é. E é desse lugar que eu te peço desculpas pelo que não soube, e por tudo que feri e afetei com as minhas mãos trêmulas e desajeitadas. Não, eu não me culpo, não é uma culpa católica de rendição, nada disso, é um pesar, uma pena, uma desculpa de pena de ter perdido o que, talvez, pudesse ter sido algo tão bonito e tão vivo de grandezas, algo ainda maior e imenso de beleza conjunta.

Eu perdi porque assim foi, porque assim foi como eu dei conta de viver, assim foi como eu soube, assim eu aprendi e continuo aprendendo e amadurecendo meus tantos eus dentro de mim, minhas tantas incógnitas que vão ganhando coragem de saberem-se. Até de saberem que nunca saberão, ao certo, um monte dessas coisas que a gente se pergunta junto. E eu me desculpo também, eu te agradeço e eu te gosto e eu te quero em flores e poesias de todo dia.

 

Sexo sem…

sexo sem...

sexo sem…

Pinto. Pau. Caralho. Pênis. Caráleo. Parte fálica avolumada por entre as pernas. Penetrante, intenso, jocoso, duro. Gostoso. Esperma, jorro, gozo, penetração. Encaixe profundo, remelexo por dentro. Uma boa biscate sabe o gosto bom disso tudo e sabe, sobretudo, desfrutar as boas sensações que podemos experimentar sem pudores e sem medo do universo fálico.

Mas o que quero falar aqui, neste espaço de hoje, é das delícias e possibilidades do sexo sem. Sem o falo. Sem o pau de carne e osso no meio das pernas. Sem a protuberância que é considerada tao relacionada ao homem, macho, que às vezes a gente esquece que tem homem sem pau. Eu quero falar sobre a possibilidade escolhida e, sim, nada temerosa, do sexo sem. E do sexo sem que navega pelo universo feminino, que mora ali entre duas (ou mais) pessoas, geralmente mulheres cis que, juntas, descobrem outros portos para o desejo e o para o prazer.

Já perdi as contas de quantas vezes ouvi a infeliz e machista frase: “ah, fala sério, o que duas mulheres fazem na cama?”. Ou pior: “ah, duvido que vocês não sintam falta de um pinto, vai! Impossível”. Ou, na versão mais repugnante de todas, a pérola: “ah, essas aí não foram bem comidas!”. Pobres pessoas sem imaginação!

O sexo entre mulheres, apesar de tão comum e tão praticado desde os primórdios da história grega, é tão incompreendido nesse nosso mundo de tabus e moralismos enrustidos. Talvez pelo fato de vivermos numa sociedade machista que não concebe, e não consegue conceber, a possibilidade de felicidade sexual sem um falo, o sexo entre mulheres é assunto velado. É tema camuflado que transita entre a fantasia erótica masculina, as aventuras sexuais de casais entediados (e outros nem tanto), os sustos das carolas sentadas no banco da praça, o receio de pais controladores, o medo masculino de perder a supremacia fálica para dar prazer, a curiosidade de olhos femininos.

Biscatemente, claro, vamos ao que interessa. E partimos direto para o nosso querido e saudoso Rauzito. Raul Seixas, ícone que tanto respeito, cantou e escreveu o famoso “rock das aranhas”. Ele sobe lá no muro do quintal e vê uma transa que “não era normal”. Duas mulheres “botando a aranha pra brigar”. Surpreso e nada delicado, proclama: “vem cá mulher deixa de manha minha cobra quer comer sua aranha”.

Pobre Raul, não entendeu nada. As aranhas não querem sua cobra, meu amigo! Elas estão lá felizes e aquilo que você viu, com espanto e indignação, não era uma briga: era amor, tesão, sexo. Simples assim. E um sexo que não quer, e não precisa, do seu pinto para ter prazer.

Mas não tenha medo Rauzito. Se você olhar com um pouquinho de cuidado, vai perceber que sexo está além, muito além, da penetração pinto-buceta, essa fórmula básica e tão boa de ser desfrutada. Sempre se pode experimentar algo mais, ou andar por outros rumos, para se ter prazer. Mesmo em relações heterossexuais esse encaixe não é requisito ou passaporte da alegria. Nem garantia de nada. Pode-se tudo, sempre. Pode ser bom e pode ser mais, com ou sem pinto. Porque a descoberta do prazer é um território vasto e sem demarcações. Um território sempre a ser reinventado, e redescoberto.

Meu amigo Raul, você e tantos outros masculinos desolados, acalmem-se: vocês não perderam as suas importâncias sexuais, e nem deixarão de serem desejados por outras mulheres. É fácil de entender: mulheres que fazem sexo com mulheres apenas desejam outros territórios e outros sabores, apenas sentem tesão em outros lugares. E elas podem, sim e sempre, serem penetradas por outras mulheres (de vários e inimagináveis jeitos), serem satisfeitas por outras mulheres, serem desejadas por outras mulheres, sem que isso signifique a derrota masculina. Tem espaço para todo mundo. Vamos lá no dicionário, só para um exemplo?

Significado de Orgasmo. s.m. O mais alto grau de satisfação sexual, quando se atinge a plenitude das sensações.

Sim senhores, orgasmo e satisfação sexual acontece de tantos jeitos e não depende de um pinto. Cada um, e cada uma, alcança a plenitude das sensações, ou busca essa plenitude, em lugares diversos e distintos. E que bom. Duas mulheres (ou mais se formos ainda mais criativos) podem se explorar livremente e com possibilidades múltiplas de satisfação. Pernas firmes, encaixes muitos, dedos, línguas, quadris, seios, pele. Combinações diversas e incontáveis. Para mais.

E garanto-lhes, por fim, que elas não são “mal comidas” (muitos antes pelo contrário), ou tem algum tipo de trauma com o masculino (pode ser que a violência de gênero – infelizmente ainda tão usual – tenha deixado marcas fortes, mas estamos aqui em outra janela). Apenas tem outra busca, nem mais nem menos. Essas mulheres apenas descobriram novas possibilidades de gozo e prazer. E tá tão bom ali, mas tão bom, que não cabe mais. Ou quem sabe um dia.

Vocês podem ir para casa cantando outra música. Sempre existirão aranhas para as suas cobras. Agora deixem em paz as que estão brincando com outra aranha no fundo do quintal. Tem lugar para toda troca e todo espaço é pouco para o desejo. Machismo, homofobia e violência é que estão por fora, seu Raul! Essa é a transa que não é normal e que aqui, nesse clube, a gente repudia e deixa de fora. Porque de resto, pode tudo. E tudo é normal quando se trata de ter prazer.

 

Extravasamentos

Extravasamentos, assim, como correntes quebradas. Eu fiquei buscando um modo de extravasar aquela intensidade, aquela intensidade que queimava desde a semana passada, aquela intensidade que surgiu de algum lugar da memória do corpo, eu busquei sem trégua e com algum pesar, eu busquei.

E nessa busca eu fui assim, devagarinho, acostumando-me com as minhas novas roupas, com aquele novo jeito que eu não sabia que tinha, com a velha nova face desconhecida, eu fui. Fui direta e profunda, sem medo de mergulhar, fui seguindo as pistas que aquela noite me deixara assim, sem mais, junto com a ausência vazia do dia corrido que se seguiu a tudo aquilo, eu fui.

Não era você, não era só você, era eu no meio de tudo aquilo, era eu assim despida depois de tanto tempo de dor, era eu assim enfrentando os novos tempos de estar à flor da pele sem escudos, era eu sem saber dosar mais nada, era eu no meio da correnteza de mim mesma. Sim, também teve você, a gente dançou junto, teve você mas não foi só isso, foi algum destempero de estar assim: latente, sem controle de racionalidade, pessoa de lembranças de outras pessoas cravadas no peito e sem porto de chegada, pessoa de anos de acúmulo, pessoa assim latejada.

Depois de tanto tempo construindo barreiras e muros intransponíveis, arquitetando proteções para conter as águas, as minhas águas sempre tão fartas de sentires, eu quebrei tudo, simplesmente, quebrei sem olhar para trás, joguei tudo fora, todo o amontoado de proteções, joguei tudo de uma vez só, e tudo se perdeu para nunca mais. E que frio percorria a espinha. Era muita vida, era muita água, e eu a nadar no meio da correnteza sem bóia nem nada, sem barco, sem esteio, sem uma mísera máscara, nada. Era eu e toda aquela vida.

Aí teve você, aquele encontro bom, teve você e eu no meio daquelas águas revoltas. Teve você e eu sem saber mais nada. Eu não soube mesmo, não soube dizer ou explicar, e eu não queria palavras concatenadas, eu só queria sentir. E eu senti. Senti a mim mesma, senti o feminino sem reservas, senti a veia pulsando por algo mais, senti seu corpo tão quente e tão branco junto ao meu, senti seu sorriso tímido e tão pulsante, senti tudo de uma só vez e eu não soube.

Eu estava mergulhada e assim eu fui quando a semana seguiu, assim eu te procurei quando nada fazia sentido, assim eu te escrevi só para extravasar o muito que queimava a pele. Queimou e eu segui, eu enfrentei o fogo, e foi tão bom. Foi bom andar tão cheia de vida, foi bom olhar para mim só e despida, foi bom.

Tudo vem acontecendo muito rápido nesses tempos de 2013, faz apenas uma semana e já faz tanto tempo. Foram tantos cigarros, tantos copos cheios e vazios, tanta gente que passou por mim e eu andei. Andei até chegar a meses, percorri até fazerem-se anos e eu ainda estou aqui de pé e tão viva. E tudo tão bom apesar do fogo que ainda arde, apesar de não saber o que fazer com tanta vida, é tudo tão livre e tão bom.

Alguns confetes coloridos me enfeitaram a face, e sucederam-se mais tantas coisas sem voz e sem quaisquer explicações que eu vou me acostumando a andar assim e não saber, apenas deixar-me guiar pelos sentidos que assolam a racionalidade. Agora eu já não me perco tanto, a minha velha nova face me é mais familiar, eu equilibro um pouco o destempero, eu estou firme.

O tempo brinca de ser grande quando corre tão pequeno pelos dias, e eu estou aqui tão repleta de gente e tão repleta de mim, tão fluída nesse meio do caminho embolado e intenso. Intensa assim eu sigo com mais coragem, com mais vontade, com mais vida e te falo que está tudo bem, está tudo cheio e ainda restam muitos cigarros com sabor de amor pelo desconhecido.

Deu ruim

* texto especial para minha querida irmã de todas as horas, Luciana Baptista

 

Esses dias estive em Santos, transitando pelos meus laços familiares. Regresso que abriga, casca de ovo, gestações.

Coisas bonitas que a gente sente quando volta para o lugar de onde veio.

Lá estava eu nos percursos dos meus avessos, quando Luciana me diz, no meio de suas intermináveis e fascinantes histórias: “ih, deu ruim!”

“Deu ruim Lú?” Risos, cervejas, e mais risos. “É, deu ruim”.

 – Luciana, Luciana Baptista, melhor amiga desde sempre. Passamos juntas os treze, os quinze, os vinte. Trinta e dois. Quase quarenta. Montamos comunidades e baladas inacreditáveis. Vivemos alegrias e desafios aos montes, aventuras, histórias partilhadas que nunca tem fim. Irmãs de alma e festa. De dor e de ruim. Pau pra toda obra –

“Deu ruim”, contava a Lú. Simples e reto. Direto. Porque tem coisas que dão ruim. Simples assim.

A gente tenta e tenta e tenta. A gente chora, se descabela, vai até o fundo do poço e a verdade é uma só, uma frasezinha curta com um soco no nariz: deu ruim.

É, é simples. Tem plantas que não vingam. Tem projetos que não vão pra frente. Tem amores que não se transformam e não andam. Tem finais que não são felizes, e tudo bem. Porque, é fato, tem vezes que não dá para ser diferente. Tem coisas que tem seu ciclo assim, meio curto, ou curto-longo que dá nó e curto-circuito. Que nascem fadadas ao insucesso, e sua função é exatamente essa: fazer a gente acolher o que dá ruim. Às vezes a gente não tem mais nada pra aprender ali a não ser olhar e aceitar: é, deu. e deu ruim. O que foi bom no caminho, o sonho, a vontade, a tentativa, a paixão, o esforço, o gosto…acabou dando ruim. Gosto ocre, vômito, labirinto, perdição de espinhos. Lá na encruzilhada deu ruim pra cacete. Deu, e deu.

Porque dá, às vezes dá. Faz parte da vida. Todo sucesso tem um bocado de insucesso. Toda tentativa tem uma porção de erro. Para tantas coisas que desabrocham, outras tantas murcham e se despedaçam, jogando suas cores no vento e nos contando que tá bem ruim. E quando tá ruim assim a gente enterra, a gente faz a passagem, a gente dá em erro e segue adiante. O que dá ruim nem sempre tá no nosso controle e nas nossas mãos. Tem muita vontade genuína de dar certo que não encontra caminho. Tem muito caminho que não cresce. Às vezes é coisa de solo. Às vezes é falta de sorte. Às vezes é tudo isso, e nada disso.

E não, não é resignação não meu povo, porque resignar-se não é do nosso vocabulário. É questão de constatar e aprender com o que não vai. É querer enterrar e ser feliz em outras paragens, onde dá.  É saber perder e dar em ruim.

Diante do quadro, claro, a gente chora e se joga na lama. Nada na poça, se chafurda, olhos borrados de preto, cachaça na mão e Maysa no karaokê. Dignidade nenhuma diante da dor do desacerto. Deu ruim. Biscatemente, a gente vai. E desce mais uma dose porque depois da Maysa vem sempre a Maria Bethânia cantando Vanzolini: “Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”!

 

Das sobrevivências

a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o samba é meu

Porque tem a dor.

Junto com quem mergulha, junto com o gozo, no fundo do copo, a dor. Por vezes corpulenta, densa, gelo sólido para lamber aos poucos. Por vezes fluída, cachaça que se toma num gole só.

Inebriante. Abre os poros e toma conta de tudo por dentro.

Dói, imobiliza, e a gente chora. Choro biscate é um choro aos rebentos: soluços vistos e vergonha nenhuma. Quando dói a gente grita. Um grito lá do fundo da garganta, sentido no fígado, no estômago, no coração aos pedaços. Um grito de alma.

Porque o revés do amor é a dor. O revés da busca da liberdade, a incompreensão. O revés da intensidade, a depressão. O revés da alegria nossa de sorrisos largos, o choro desesperado, sem rumo e sem descanso. O revés é nosso e a gente o recebe. Ele faz parte da busca.

 A gente busca, e a gente sobrevive. A bisca Raquel Stanick já me disse, no desconsolo de uma noite longa de lágrimas: nós somos sobreviventes. As biscates são sobreviventes.

É minha amiga, a gente segue sobrevivendo. Porque se há de seguir e acreditar que a luz do sol aparece por entre as nuvens. Aquela luz que a gente já viu tanto, que já nos cegou de claridades, que já nos aqueceu e nos nutriu para ir além.

Porque a gente quer o além. Biscate quer o além de si mesmo, refletido nos olhos dos outros. Quer o que está por trás. Os avessos bonitos de doer a vista. A gente inteiro cheio da gente mesmo. O amor para além dos falseamentos. O sexo para além do gozo. Ou como disse Clarice: o extraordinário tão simples de ser encontrado nas coisas comuns.

 Mas quem se busca, e busca algo mais que os protocolos e padrões engessados, os “sins” do altar dos noivos, o comprometimento de conta conjunta, as certezas do mundo concreto, já sabe que tem a dor. Quem vê para além do que a vista alcança tem dor de cabeça, por vezes, e cansaço de pernas estiradas. Quem busca o grande salto já sabe que tem que colher os espinhos das pequenezas e das tristezas dos lagos rasos. A gente se machuca, com a ingenuidade incansável de acreditar.

 Biscate tem ingenuidade, acreditem, ingenuidade de acreditar que a felicidade funda existe, de que é possível somar, de que alegria verdadeira é verdade. A gente já esteve lá, a gente já provou, a gente já viu, tá lá e é possível tangenciar um mundo livre para se ser feliz. Feliz e contingente, onde tudo pode ser, e tudo pode ser diferente. Feliz com as escolhas que vem do fundo do coração. Feliz com as aberturas, com os finitos, com o humanamente rico de possibilidades. Feliz e comprometido com o bem estar maior de se estar vivo.

 Mas enquanto isso a gente também chora e sente dor. Uma dor tão funda que às vezes a gente não respira. Um soluço continuado que parece que a gente não tem teto.

A dor é nossa e a gente chora. Forma rios e se afoga neles, para depois subir ainda mais dispostos a ir em frente. Porque quem quer muito, tem tudo muito. E eu quero o muito, a vida latente, sem roupas apertadas. Eu quero a nudez. Nadar na praia sem roupa e sem medo das ondas grandes e das submersões nos fundos gelados.

Vamos em frente?

Uma biscate de fé

 

Fé.

Fé em qualquer coisa. Em si mesmo, no outro, na poesia, na tarde que cai em nuvens negras, na chuva, no dia que termina e nunca mais amanhece o mesmo, na continuidade, nos ciclos, nas incógnitas.

Fé na vida.

Essa vida que desponta nova com o novo ano. Fé nas tantas possibilidades de recomeços. Fé na gente que nunca amanhece o mesmo, nos mergulhos de quem vai até o fundo para nascer de novo. Fé nessa gente que ri e tem vontade de alegria, nos nossos olhos pequenos diante das perguntas sem resposta, nos seus olhos que me miram a alma e me inspiram ser quem eu ainda não sou.

Fé em qualquer coisa que não tem nome, em tudo aquilo que eu ainda não sei, em tantas verdades partilhadas. Fé em verdade nenhuma de coisa nenhuma. Fé até nos tantos erros cometidos, que fazem a gente ser humano e querer mais, e querer mais e melhor.

2013 é número novo e é preciso fé. Fé de que existe gozo no fim do túnel, de que existe felicidade no fim do gozo, de que existe algo além de nossas mãos dadas e de nossos corpos unidos, de que é possível renovar-se sempre a cada dia. Fé de que existe união, e de que a esperança é verde e está reluzindo no nosso jardim. Fé na próxima ninhada, nos pés descalços sentindo a grama molhada, no carinho impensado, nos beijos roubados, nos porres sem motivo, na gente embriagada de vontade de vida.

Que tudo que foi ruim fique lá atrás, e que o que for ruim venha para ser grandeza. Que as tempestades fortes deixem a terra úmida para próximas e profícuas colheitas. Maçãs vermelhas. Apetites fartos. Sexo aos galopes. Risos largos. Renovações.

Axé!

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