Biscateando às vezes

Às vezes… nem sempre, nem nunca…  em muitos casos,  em poucos. às vezes surpreendentemente, para o bem, para o mal ou para o incerto e às vezes, muito às vezes, a vez.

1950_Chagall_La_Mariée

às vezes
by Chagall

Não é bem uma matemática afetiva… não é uma multiplicação de pessoas e gestos e feições e afeições, sequer é soma… tampouco o clichê da divisão e, menos ainda, o subtrair do outro, mas, às vezes, esse é mais…

O querer é da ordem do “às vezes”… querer sentir, querer estar, querer ser… é em meio à infinitude, encontrar o que a gente quer e, também, o outro quer… para mais, para menos, por isso às vezes dá certo… nem nunca, nem sempre… às vezes…

O querer… querer é um bicho com quem ninguém pode… o querer é da destruição de qualquer matemática da vida… mas, às vezes, ele desperta um quê para além do querer… aquela ponta de desejo que vai para além do infinito e, por vezes, explode em uma profusão de querer também.

TAMBÉM, como querer também é bom! querer também subtrai pra dividir uma soma que multiplica tudo o que se é junto… mas também não é matemática… também é linguagem… de uma língua das mais aplicadas! Também é quando o às vezes do querer acontece…

São linguagens para além de palavras, são linguagens do sentir em forma de música, de movimento, de um conjunto de formas e maneiras confusas e inconfundivelmente abstratas para que só a ordem só sentir entenda… e para que só no tocar, no envolver, no beijar e no ser se entenda… linguagens para poder realizar o querer… esse querer também que parece difícil, mas que entre uma biscateada e outra, às vezes, desavisada e despretensiosamente captura…

Entreveros, ou você tem que vir pegar

To nessas fases da vida em que escutar Cher é dos meus melhores momentos de sabedoria… Porque, claro, a maior Diva Internacional viva tem algo a nos ensinar (tudo bem que, em geral, ouço Bethânia, mas esse momento eu to mais pra Cher). Pois é, toca a música aí abaixo e vem comigo!

 

Não sei se isso são bem preguiças de férias… ou se são somente preguiças, mas to na fase do “tem que vir pegar”, ou “me pegar”, ao gosto do freguês. Não se trata de uma revolta com a vida, ou um recado (afinal, em geral, se Maomé não vai até a montanha, a montanha fica na internet postando indireta), mas sim de um completo e total estado de preguiça. Afinal, como diz nossa querida Cher, “but if you want my heart, you gotta take it like a man”.

1468497_612096402159482_743083178_n

Pois é… é preguiça. Preguiça dos “entreveros”: do muito esforço por nada, dos excessos de esforços alheios, de ser alvo quando quero ser seta… Pegar é uma arte que tem que ser dominada por todos os lados envolvidos, sem qualquer exceção… Esforços são válidos, mas quando eles partem de um único lado causam isso, essa profunda e completa sensação de “não sei”, que eu prefiro chamar de preguiça… só pra não ter que explicar muito…

Por isso, em alguns momentos, o essencial é deixar estar… ver o quanto o outro suporta esperar e o quanto e de que forma o outro vai vir te pegar… E, assim, ver as atitudes tomarem forma para além de palavras, de meros gestos, de promessas – se é que essas promessas, de fato, existem ou são simples frutos podres da nossa imaginação… No fim, não ser o motor de um futuro entrevero… ter, simplesmente, preguiça por um pequeno período de tempo…

E, depois dessa fase Balú, aquele urso fofo e rabugento amigo-pai do Mogli-Menino-Lobo, de saber que “Necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”. Depois da pegada, passar para a fase Preta Gil e “não ter preguiça, não”! Mas isso é pra outro post.

Uma aliança

Dia desses, eu casei.

E dia desses, pra frente, casarei, de novo. E terei lua de mel e tudo. Menos festa chic e vestido de noiva, e padre na igreja. Mas terei papel passado, brinde, riso e amor. E tenho aliança.

Aliança, já usamos há meses. Depois que eu fiquei brincando (brincando?) em portas de joalherias, ele de fato propôs. E chamou para escolher. E pagou, como deve ser (deve?).

Lembro de quando era católica praticante, pela segunda vez, e em uma visita do amigo padre Elias em casa, falávamos sobre casamento, sacramento.

Eu, iconoclasta mas romântica, apontava que o sacramento devia ser um prêmio aos que provassem ser capazes de sobreviver amando ao convívio diário.

Minha mãe, roxa, sei que pensava em me beliscar.

E o padre, vejam só, concordou comigo – ainda que o Vaticano (ainda) não concorde conosco.

Vivemos “em pecado”, morando juntos há mais de ano, dividindo cama e chuveiro, tem dias que ele faz o café cedo, tem dias (poucos), que sou eu. Eu cozinho minhas invencionices metidas a besta (palavras dele) e ele come (ou não).

E a gente se pega (eu) pensando: qual o significado desse anel?

Bem, o que descobri, é que ele pode significar muita coisa, para muita gente, e que esse muita coisa pode ser nada diante do que significa para mim.

A gente usa o anel, e o anel nos usa. Ainda que eu só veja nele uma aliança entre eu e ele, para quem está de fora é as vezes diferente, divergente.

Eu vejo uma escolha entre nós dois. Alguns veem uma vitória (minha, claro) ou um selo de aprovação (dele pra mim, óbvio).

E enquanto eu transparentemente estou feliz em estar ao lado de alguém que amo, algo dessas visões de me perturba, pois é como se eu precisasse do selo de aprovação de um homem para ser feliz, ou como se só eu houvesse encontrado alguém, como se ele me fizesse um favor (ok, parte nóia, parte  não).

Já fui cumprimentada na fila do supermercado por uma conhecida, com um olhar meio aprovação, meio surpresa, ao vê-lo ao meu lado, e uma expressão que não sei definir, e que é um pouco lisonjeira e muito aterrorizante.

O que quero dizer é que me sinto casada, na medida em que amo, temos um compromisso, estou feliz, acredito que o faço feliz, e queremos continuar nos apaixonando, todos os dias.

E não acredito que estar casado é melhor que qualquer coisa. É a melhor enquanto estamos felizes.

Essa é uma declaração de amor, biscate, livre, feliz.

Movimento e corpo em descompasso

Não, este post não é pra falar de safadagi, embora quando se trate de corpo, só o movimento sexy é o que importa, ou o vulgar sem ser sexy , ou o sexy sem ser vulgar… sei lá. Este post, na verdade, sem qualquer pretensão, é pra discutir os rumos de militância. Sim, rumos. E não é de nenhum movimento em específico, mas especificamente daqueles em que o corpo de seus membros é a reivindicação em si da liberdade! Daí que este post, quer entender e talvez queira mais perguntar que entender: em que medida a intervenção do movimento, da militância, no corpo do sujeito – ativo ou passivo na causa –  é legítima?

by Goya

by Goya

Isso é algo que me preocupa… Não é incomum ver movimentos ditando regras sobre as formas como o corpo de seus militantes devam ser. FEMMEN; outros grupos que se dizem feministas e que vinculam o feminismo a certos padrões de sexo feminino e não de gênero; grupos LGBT que direcionam campanhas apoiadas em exposição corporal estereotipada, ou que vinculam a homossexualidade a determinados padrões – ursos xiitas, por exemplo, ou barbies; grupos negros que rechaçam seguidores que não adotem traços físicos – principalmente cabelo – e culturais – religiões e cultos – que não sejam afro; grupos a favor e contra modificações corporais e sua luta incansável em dizer o que seus seguidores tem ou não podem fazer, como certos grupos punk que só identificam como membros pessoas com tatuagem, piercings e alterações corporais, ou grupos naturistas radicais que não permitem qualquer tipo de intervenção estética em seus membros…

by Paula Rego

by Paula Rego

A lista é imensa e, talvez, inesgotável, mas nem é o propósito expor toda ela. Me intriga o seguinte. Apenas fazendo uma pequena digressão histórica, dá pra chegar à época das reformas religiosas. Romper com a idade média e caminhar rumo à modernidade –  que deus ou o diabo ou Cher a tenha – teve muito, senão tudo, a ver com o corpo.

Sim, a modernidade foi o momento de rompimento. Foi no seu nascimento que, ora vejam só, por uma cisão religiosa – Beijo, Lutero – abandonou-se o modelo de domínio completo de corpo e alma pelo poder absoluto da igreja e se iniciou, de um ponto de vista ideal, a separação entre poder civil e poder divino. Assim, a Fé teria domínio exclusivo sob a alma-intelecto e o Estado passaria, então, a ter o domínio mediante a lei, do corpo.

Bom, ruim ou mais ou menos, ou mais pra mais, menos pra menos, nasce dessa divisão o ponto em que o ideário iluminista – que que não seja iluminista quem o queira, mas não negue que nossa sociedade o seja – nos permite a mobilização e a militância e, mesmo, a luta contra o Estado para garantir a nossa autonomia sob esse poder civil pelo próprio corpo! Ou seja, tão certo quanto dizer que o Estado passou a ter a gestão do nosso corpo de aí por diante, mais certo ainda é dizer que se fortaleceu a nossa luta pelo nosso próprio corpo até ela tomar a forma de movimentos organizados.

E é aí que mora o perigo. Não sei em que falha de entendimento da história, das questões sociais e da própria sociabilidade, se perde a noção de que a porra do corpo pertence apenas ao seu dono! Não sei se alguns movimentos não foram capazes se avançar ou se regrediram no debate e começaram a olhar com certa nostalgia pra era medieval e começaram a dogmatizar sua militância, começaram a transformá-la em fé e, agora, querem se firmar como seita, ocupando o papel perdido muito a contra gosto pela religião: o de domínio de corpo e alma-intelecto.

dali-egg

by Dali

E é isso, enquanto faltar entendimento de que A PORRA DO CORPO É MEU, vai sobrar espaço pra gente gritar pelo fim desse descompasso! Militância nenhuma é, de fato, libertária se ela não é capaz de reconhecer a autonomia indistinta de qualquer pessoa sobre o próprio corpo. E  isso não é uma mera questão retórica. Isso é, talvez, a maior conquista do que se possa chamar “humanidade”. E enquanto houver pudor, vergonha ou, mesmo, castração, ainda que auto-castração, da nossa autonomia corporal, estaremos aqui para lutar e lembrar que é essa a única liberdade que nos convém. É por essa liberdade que estamos aqui! Pois essa é a única liberdade que temos o direito e a capacidade indistintos de realizar, sem qualquer intervenção. A nossa existência depende só e somente da autonomia na gestão do próprio corpo. É livre o nosso corpo!

Renovar

Repensar o velho. Tá aí um sentido porreta que eu nunca tinha parado pra imaginar de “Renovar”. Me falaram tanto em renovar expectativas, renovar experiências, renovar planos, que começar o ano me pareceu um pegar tudo que passou, dar um banho tcheco, e botar uma roupa nova pra ir na esquina.

Renovar

Renovar

E sabe que é por aí? Não que seja pressão, exigência, opressão social, ou seja… mas pensar em começar uma nova vida a cada ano que passa sem enfrentar os fantasmas do passado, reviver a delícias do passado, resolver os problemas do passado é o mesmo que tentar não ver, apagando a luz em pleno meio dia.

Mesmo que um “Ano novo” possa não nos dizer nada especial de especial em relação a um novo ciclo, as lembranças que esse período nos traz das possibilidades de renovar são, pra dizer o mínimo, interessantes. E é justo esse sentido de botar uma roupa nova no passado que importa.

Quem nunca se colocou uma roupa nova naquele adolescente franzino e desengonçado e foi pra uma baladinha pela primeira vez se sentindo bem pela primeira vez? Quem nunca se imergiu naquela leitura fantástica que estava há anos jogada no fundo da gaveta do criado mudo e que indicou aquela possibilidades? Quem nunca se deixou levar por aquilo que sempre imaginou que daria errado e deu certo?

 Pois é… Renovar é o simples que é complicado… Renovar é (re)aprender a lidar com as próprias oportunidades, com as próprias liberdades, com as próprias liberalidades e, porque não, com os próprios desejos. Renovar talvez seja, buscar os impulsos reprimidos do passado, entender a causa de sua repressão e fazê-los valer a pena, ou lidar com sua impossibilidade.

Tá aí, se um  novo ano traz essa idéia de renovar, que essa idéia não se traduza em um único repensar e deixar morrer o repensado. Se esse sentido de renovar não se perpetuar todos os dias, aquelas, sete ondas, 12 uvas, prato de lentilhas, lingerie colorida não valeram de nada…

E que esse renovar possa, de fato, ser a oportunidade de pensar um novo momento de possibilidades. Falando de um jeito bem biscate, que esse renovar seja não ter vergonha de saber, ou querer saber, como se goza… E de gozar mais! Renove!

A misteriosa tabela entre a caixa de retalhos, a bola e a descoberta da liberdade

Por Fernando Amaral*, Biscate Convidado
#BiscateandoEntreAsQuatroLinhas #BiscateFC #2anosBiscateSC

Quase que o apito, final. O ano. Abro jornal, correio, caixa de email. Caixa de costura… Gosto de ler sobre futebol. Zilhares de metáforas, que bem cabem em tudo. Das analogias, com a vida, com a guerra, com o amor… O meia que costura. A meia costurada, cerzida. Urdiduras…

coração bola

“A menina cresceu, mas ainda hoje, como todo atleticano, quando ouve um estouro de foguete, grita: GALOOOO!!!! “. Em maio de 2012, nos primórdios do blog, fomos convidados a escrever sobre nosso time do coração. E eu encerrei meu texto, Paixão em Preto-e-Branco, com essa frase. E outro dia, no Facebook, uma amiga, de São Paulo, que mora em BH, falava sobre a estranha mania dos belorizontinos de gritar GALO, do nada, em coro. Só que não é “do nada”, especialmente nesse final de ano: 2013, TREZE, é GALO, é CAMPEÃO DA LIBERTADORES, campeão das AMÉRICAS… e o final do parágrafo acabou no Raja, um time africano desconhecido para nós, que só olhamos para nossos próprios umbigos, um time africano que derrotou o Atlético e cujos jogadores disputaram um sorriso do Ronaldinho Gaúcho, reconhecendo o talento mundial. Pena que nós subestimamos o talento deles, todos, e não mostramos futebol nenhum. De toda forma, ainda assim, 2013 foi o ano do Galo, vencendo o título inédito e nos fazendo cada dia mais ter orgulho de torcer para o Clube Atlético Mineiro.”

Fui lá. Fui tentar entender, buscar, compreender, desenhar, rascunhar, chorar e mais um monte de verbo tudo junto misturar. Nesses dois anos foi sempre assim. Um texto ali e outro ali, estórias e histórias, por mais que saiba que as regras da gramática, do vernáculo, da boa escrita, teimam em afirmar que as primeiras não existam mais. Mas regras… quem acostumou a menstruar sabe bem que nem sempre…

“Ser tricolor vai além de ser um resultado prático de animação por cheer leaders eletrônicas ou por ufanismos bestas, não é um sintoma de arrogância clubística cortejada pelas redes nacionais de mídia, menos ainda é cortejar felicidades iludidas aliando-as ao abandono quando navegamos pelos vales da sombra da morte. É mais do orgulho histórico de sermos ela, a História, com seus erros e acertos, com suas dúvidas, lambadas e rebaixamentos, com a lama nos sapatos, na alma, na camisa. É mais do que nos ater a Dons Sebastiões rotos e esfarrapados como ex-deputados sujos de charuto e de manobras. É mais do que portar o estandarte de uma glória inexistente, de museu mesmo, e arrotar uma grandiosidade ao mesmo tempo que abandona as parcas cores por que o amor de sua vida não repete o que Anjos de Pernas tortas fizeram em passado longínquo. Ser tricolor é, antes de tudo, Ser. Ser tricolor é cantar, com Candeia, que “de qualquer maneira meu amor eu canto, de qualquer maneira meu encanto eu vou cantar!”

Mas que textos! Já chorei, ri, compartilhei, amei e até odiei. E sou outra agora. Depois de dois anos, aquela que achava que certas cousas eram importantes, mas não fundamentais, mudou de lado, de escrete, de time. Já me chamaram até de feminazi, numa idiotia de quem não quer entender para além do próprio umbigo. E da própria impressão que faz de si mesmo. Para nosso espelho quase sempre somos lindas, lindos, perfeitos, engajados até. Aprendi, firme, que não: fundamental. A velha anotação: o time joga, perde uma, perde outra, ganha uma, ganha outra, mas é, também, o campeonato que disputa.

Mais de ano e meio depois deste texto aqui, o que ali estava desenhado se concretizou: a despeito de um título de Copa do Brasil sofrido e até heroico, fizemos uma péssima campanha no Brasileirão e caímos à B. Subimos, é verdade, e em 2014, ano do centenário, estaremos de volta à elite. Muito provavelmente para ser um ano centernada e com sérios riscos de disputarmos o Tri da Série B em 2015. Mas, isso pouco importa. Na alegria e na tristeza; na saúde e na doença; na moderna Arena de nome alemão ou nos maltratados campos estado e país afora; continuaremos sofrida mas apaixonadamente cantando:  “Palmeiras minha vida é você….””.

Da primeira vez que me chamaram “biscate”, doeu. Opa, se doeu! Porque ali naquela palavrinha havia um adjetivo. Uma consideração, uma opinião, um rótulo, um pré: conceito. É difícil, muito, mesmo, sempre, sentir esta labareda que sobe o ventre, molha o sexo, explode no coração, muda a entonação do cérebro. Hoje sei, “biscate” é substantiv(a). Mais que palavra que só acompanha. Mais que palavras… Mais do que os jogos, bem mais que os jogos.

“Em 2012, quando tivemos o especial de futebol no Biscate, o Atlético Paranaense, meu Furacão, amargava a segunda divisão no Brasileiro. Hoje não só estamos na primeira divisão como conquistamos uma vaga na Libertadores. Fizemos uma final inédita contra o Flamengo na Copa do Brasil (parabéns pelo teu rubro-negro Luciana!) e temos, no elenco do time, o artilheiro do Brasileirão 2013. Ser torcedor do CAP – Clube Atlético Paranaense – é viver com o coração na mão, entre altos e baixos, mas nunca, jamais, despir a camisa rubro negra que, como diz o hino do time ‘só se veste por amor’.”

Fui aqui escolhida, e confesso lisonjas, bela, nua, inteira, para escrever nestas festas de dois anos deste blogue linda. Fêmea. Plural. Legal, de bom e não de de direita – feminino de direito ou definição ideológica do palco da revolução. E resolvi que neste texto seria ela, que acaba por muitas vezes e muitas vezes tentar compreender o que se passa por uma cabeça feminina.

“Em maio de 2012 o Brasil de Pelotas estava na segundona do Gauchão e tinha ganho na justiça o direito de disputar a série C do Brasileirão. Depois disso foi rebaixado para a série D pelo STJD, entrou na justiça comum contra a CBF e a FGF, e se segurou enquanto pode enfrentando a cartolagem do futebol. Mas sabe comé… índio pequeno – mesmo guerreiro – num mar de tubarão… virou isca pra peixe. 2012 encerrou sem títulos, como sempre; mas com promessas e o crédito da torcida, como sempre. Finalmente, em 2013 voltamos à elite do Gauchão. Brasileirão? Sei lá… Andando pro Brasileirão. 2014 teremos de novo o maior clássico do universo futebolístico: o BRApel, e… “nós esse ano vamos vencer, salve o Brasil, o campeão do bem-querer”! Eu acredito.”

coração costurado

Aprendi muito das mumunhas nesses dois anos: a simples “conferida” pode encerrar um conteúdo político, sexista, machista, feio. E eu, que sempre gostei de olhar, admirar, paquerar, brincar, começo a pensar que seria muito linda a noite depois da revolução. Onde estas questões se resolveriam sem medos, receios, tolices, mas sem opressão, caralho de qualquer tamanho, tamanho qualquer de quadril. O jogo, a bola, a jogada arquitetada – ou intuição, talento, faro, tino.

“Entre maio de 2012 e dezembro de 2013, algo não mudou no Grêmio: a “seca”. Não ganhou absolutamente nada. Sequer um turno do estadual. Nem mesmo o grupo da Libertadores de 2013: ficou em segundo lugar, atrás do Fluminense. Mas nesse tempo aconteceram importantes mudanças. Paulo Odone felizmente deixou a presidência, para o retorno de Fábio Koff. Também houve a inauguração da Arena, em dezembro de 2012. Um belíssimo estádio, sem dúvidas, que oferece muito mais conforto que o Olímpico. Mas lá falta algo: alma. Parece um lugar mais voltado ao consumidor do que ao torcedor. Onde um cachorro-quente bem fuleco (eis um bom uso para o nome do mascote da Copa: como palavrão) custa os olhos da cara. Onde a norma é assistir ao jogo sentado em uma confortável cadeira… Como se estivesse em casa. Mas se é para assistir “como se estivesse em casa”, por que ir ao estádio? Minha última partida no estádio foi em abril: Grêmio 0 x 0 Fluminense, pela Libertadores. Nunca passei tanto tempo sem ir a um jogo do meu time. Talvez volte em 2014, já que tem Libertadores de novo (e num grupo difícil pra caramba). Dizem que o estádio é nossa segunda casa, mas a verdade é que agora me sinto mais em casa assistindo no buteco, junto com aqueles que não podem pagar caro por um ingresso.”

Estou aqui a cerzir. Costurar cousas neste canto de sala que tem meu computador, alguns livros, dicionários. Cerzir, fantasiar sobre tecidos puídos. Costurar, que as etiquetas todas dão como tarefa de menina porque “banal”. Enquanto que o alfaiate faz o chique, o soberbo, o diferente. Tão simples de entender as razões desses significados, destas dicotomias… mas que demora tanto quando a gente simplesmente não quer tentar entender. O passe está lá, a redonda também… o que nos impede de jogar o fino?

“Há dois anos escrevi sobre o Vasco. Ainda assinei com meu pseudônimo, Letícia Fernández, e me empolguei falando do orgulho de ser vascaína. Falei dos cem anos de história do meu time. E é exatamente essa história que vem sendo apagada hoje. Preciso explicar? Todo mundo viu a barbárie do último domingo do campeonato. Meu time do coração caiu para a segunda divisão, e isso não é nada perto do que aconteceu. O Vasco não caiu de pé; pelo contrário, caiu em meio a muita violência e vergonha. Continuo vascaína, porque torcer por um time é um amor que não se explica, mas, agora, não carrego a cruz de malta com nenhum orgulho. Minha torcida, agora, não é por gols, mas sim por decência no clube do meu coração.”

E quando me convidaram para escrever, que beleza, resolvi que seria Alfaiata. Minhas fazendas e vestidos nesta festa de comemoração: falar de futebol! Alfaita, treinadora, professora, lutadora. Tática, métrica, ponto, linha, agulha, ponta de lança, artilheira, zagueira, goleira, comentarista, corneteira… biscate.

“Transição. A palavra serve para definir o que foi o Santos de 2013. Com um presidente que já vinha se afastando por problemas de saúde e agora definitivamente licenciado, além de um técnico cansado e cansativo saindo do clube, o torcedor teve que ver seu maior craque pós-Era Pelé ir embora justamente para o clube catalão de tão amarga lembrança. Foi a saída do gênio ainda garoto que determinou a queda de Muricy, a quem o santista tem gratidão pela Libertadores de 2011, mas pelo qual nunca teve reverência, por conta de seu DNA nada ofensivo. E o samba de uma nota só caracterizado pelo refrão “bola no Neymar que ele decide” deixou de existir, dando lugar a um time comandado por um maestro ainda inexperiente, Claudinei Oliveira, que talvez tenha grande futuro à frente de outras orquestras. Fez o papel que lhe cabia, e era o que se podia fazer, lançou jovens e recuperou jogadores experientes, como Montillo. Deixou um legado (palavra da moda) e o torcedor alvinegro pode ver um Santos mais afinado com alguns reforços em 2014.”

Futebol que se define macho. E por isso, bestializam – no sentido de feras animalescas e não no bestial de estupendo, fenomenal, maravilhosa. Naquilo que podemos fazer, o melhor que faríamos, era desmachar o ludopédio. Porque a bola, é fêmea. A meta, mulher. A torcida, a peleja, a vida, a paixão, a desmedida. Olha que linda a partida, olha que maravilha, que bestial. Plural, porque coletivo. Singular, porque comum de gêneros.

Não pense que estou dizendo isso pela proximidade do “ano novo”, estou dizendo essa frase desde junho, aliás desde junho eu gostaria que o ano acabasse… Sem casa e sem comando, o meu AMOR se perdeu, tropicou, quase caiu /o\ Briguei, xinguei, chorei..agora passado o susto , quero que venha 2014 e que o velho-novo GIGANTE seja o palco da nossa reconciliação. Te amo INTER, meu CAMPEÃO DE TUDO, e sei que o GIGANTE me espera para começar a festa!!!!”

E mais, não me cabe só falar – escrever – sapatear – brincar – sobre o futebol. Outra das missões era costurar um conjunto de parágrafos e linhas descritos sobre nossos times, nossos casos de amor, nossas camisas. A minha são-paulina e as outras. Biscates que somos! E não é porque este campeonato brasileiro acabou que a linha deixou de ter sentido. O novelo todo, segue lá, necessário. Alias, já houve um “biscateando nas quatro linhas”, uma série de paixões moventes que encantou o blogue no ano passado e que inspirou este brigadeiro.

Em 2012 eu escrevi que eu torço Flamengo pra sentir tudo mais vivo e feliz em mim. Há uma magia em saber-se Flamengo. Digo sempre que cada clube tem seu estilo. Entra e sai jogador, passa o tempo, o time muda, mas há alguma coisa, intangível e específica, que permanece. No meu Mengo é a vocação para a leveza. Meu time me faz feliz quando joga assim: leve, alegre, com vontade de vencer, sem medo de perder. E foi assim que o Flamengo venceu a Copa do Brasil de 2013, com essa ousadia, essa vontade de um pouco mais. Foi o primeiro campeão do “novo” Maracanã – e por mais que se conteste a forma e o processo dessa transformação, é ainda belo que o time que tem o Maraca como casa inscreva na História seu nome de campeão. Torcer Flamengo. Amar o Flamengo. É quem sou. A alegria rubro-negra, pra mim, só equivale à alegria do grande amor. Aquele que tira o fôlego, o eixo, o norte, os pés do chão. Aquele amor de sempre ou o amor de agora. O amor de pra sempre, o amor de uma rapidinha no banheiro do bar. O amor dos que se conhecem sem falar e os que não param de falar pra tentar chegar mais perto. O amor dos iguais, o amor dos dessemelhantes. O amor de alma, o amor de corpo. A alegria rubro-negra equivale à alegria do amor que é gozo. A alegria rubro-negra é a do amor biscate. é de dançar na rua e do coração sambar no peito. Eu sigo alegre.”.

Vamos lá, cerzir pedaços. Construção. Jogada. Defesa, meio campo, ataque. Tática, estrutura, resultado, método. Aqui a agulha, a caneta, o teclado, a chuteira, o boteco. Parabéns para todas nós. Biscateando, sambando, vivendo: “Gooooooooooool”.

biscateando entre as quatro linhas

Os textos foram costurados e são: Da Renata Lima, o do Galo. Do Gílson, o do Fluminense. Do Daniel Nascimento, o do Palmeiras. Da Cris, do Furacão. Da Niara, do Brasil. Do Rodrigo, o do Grêmio. Da Nádia, do Vasco. Do Glauco, o do Santos. Da Suzana, o do Colorado. Da Luciana, do Mengo. E eu, que são-paulino.

fernando_amaral *Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

Feira Biscate: Dois Anos

 #FeiraBiscate #2anosBiscateSC

E as biscas estão em festa de novo!!! Comemorando *\o/* mais um anos em festa e, novamente, fazendo uma Feira Biscate! Porque, claro, somos biscas de respeito e sem vergonha e estamos aqui para responder às buscas que não demos conta ao longo do ano de nossos queridos leitores!

Festa Biscate

Festa Biscate

Porque, né! Nóis é Biscate das bom e damos *\o/* conta de tudo!

Então, vinde a nós os biscatinhos! ( ͡° ͜ʖ ͡°) E nossas delícia querem saber de que, de que? Pois é! DIS-PA-RA-DO, querem saber de “Casa de Swing, Suigui, Swift, Sunguisugui” e correlatos! Mas vejam só, seus safadinho! As bisca tem a seguinte D1K4, se joga! Casa de Siwuingue é onde a gente se esconde pra ser livre! É porque os #ReguladoresDaPPKAlheia costumam não deixar a gente se compartilhar, daí a gente usa a Casa de Çuinftingue! Só dizemos #VemGente e #ConvidaPô.

Também nos buscam muito por causa das “Gordinhas Gostosas” e só temos que dizer VOCÊS TÃO FAZENDO ISSO MUITO CERTO. Na realidade tem que lembrar que todo mundo é gostoso do seu próprio jeito, né! E cada um pode ser @ gostos@ de alguém! Então, #StayBeaultiful e #FogoNasParte para aproveitar a gostosura de todo mundo. Sem imposições estéticas, né! Porque cada um sabe a dor e a delicia ( ͡° ͜ʖ ͡°) que é ser do jeito que é! #ProveitaMinina

Feira Biscate

Feira Biscate

E desse jeito as bisca vai! E vocês vêm a nós buscando por “Saudade”. Claro! Porque é isso que todos Biscatix deixa no coracãozinho de vocês! E sentimos muitas também! /o\ #TodasXoraPorOndeSenteSaudade. Mas saibam que biscate que ama e sente saudade sempre passará #PorAíNaSuaRedondeza, quando vocês menos esperarem!

Porque nós biscates somos assim, do jeito que vocês nos buscam! “Flores Raras” que cruzam os caminhos e transformam a vida de vocês em um belo “Clube das Vadias”! #VemVadiar Pois assim, ou “Biscates Casadas” ou membros vitalícios do “Clube das Perversas”, basta por a luz no palco e abrir *\o/* a passarela que uma Boa Bisca vai pular na sua vida!

Isso tudo pela Festa, claro! Não há biscate que não goste de *\o/* FESTA *\o/*. Vocês que procuraram por “Biscates no Carnaval” saibam que nem tudo é suruba essa coisa toda! #MintiraÉSim Festa Biscate é Festa “todo mundo nu” e Festa do “bunda de fora”, coisas que atraem você ao nosso covil! <3 E falando em covil, nada melhor que Festa no melhor ponto de encontro Biscate: o querido “Boteco Sujo”.

E, claro! Na nossa Feira Anual não poderia faltar ELE, o maior órgão sexualmente transmissível das busca: O CU. E pras biscas, projetos de biscas e curiosos ( ͡° ͜ʖ ͡°) que buscam por ele temos a dizer: #TiremOCuDoPedestal. E, por isso, amigue, todas vez que você pensar um jogar no Google um “vontade de dar o cu”, não pense! Ligue pro boy magya, compre “vaselina”, “manteiga” #BjoMarlonBradon ou “gel” e vá de ladinho, que de ladinho é mais gostoso [dizem].

Aproveita, Jeit!

Aproveita, Jeit!

E aproveitando o mote do Cu, partimos para um quadro que todas ama, o Biscate Responde, para aqueles leitores que não se fazem de rogados e chegam a nós já empunhando a pergunta pronta! E pra você que é safadchenho e contesta: “vamos comer um cuzinho”? A gente só pergunta: De quem?, porque, afinal, a pessoa tem que querer, né! For a isso, VAMOS *\o/* ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊEÊ. E a você, queridxs que pergunta: “fumar sem tragar faz mal”? Temos a dizer: fumar sem tragar é igual trepar sem gozar, dá prazer, mas tem que cuidar de todo jeito! Pois tem consequências! Por isso, fumando ou trepando, ou fumando depois de trepar, ou antes, ou durante, cuide-se e seje feliz porque com menas preocupação a vida é menas dificultosa!

E para a última grande pergunta dos nossos leitores: “como saber se ele só quer te comer”? ( ͡° ͜ʖ ͡°) Uma dica, amigue, eles [e elas também] só querem te comer. Se você não é do bonde do #PrimeiroAGenteFode #DepoisAGenteVê saiba que isso torna as coisas mais fáceis, gera menos expectativa e #VaiQueRola. Por isso, se ele só quiser te comer, vai levando, porque é justamente isso que pode fazer seu príncipe aparecer! #AcrediteNoInusitado

E pra acabar, falando em inusitado, algumas buscas que fazem a diferença! Temos que revelar que temos leitores infantis, ingênuos, poéticos, militantes e cientistas! E AMAMOS isso! Afinal, o Biscate Social Clube é terra aberta *\o/* e queremos todos com a gente! E vejam só, muitos chegam aqui procurando “passarinho”, que bunitinho! <3 Outros queriam “Ipê Vermelho” e temos a dizer, filho! Que parnasiano! E informamos: temos também ipê rosa, ipê amarelo, ipê roxo e o raro ipê aveludado da cabeça preta. Aos militantes, dizemos que nossa “Coluna Prestes” está em riste preste a te pegar! Porque Biscate é igual à cuca e te pega, e pega daqui e pega de lá.

Aos pudicos que procuraram “envelope de fermento biológico seco”, ressaltamos que envelope é muito importante! Afinal, o fermento biológico só não vai te encher barriga se tiver envelopado [ou for por trás] ( ͡° ͜ʖ ͡°) . Mas o mais importante! Seco NÃO! Porque assa, arranha e machuca! Lembrem-se da manteiga! #ÉNaManteigaManteogaManteiga. Ao cientista que procurou “imagens de vulvas virgens adolescentes” temos a dizer: menas, fio! A não ser que você esteja fazendo trabalho de escola, essa busca não te levará a grandes conquistas!

Por fim, a você que buscou pais de santo, mães de santo, padres cantores, freiras musicistas e paxás. E só queria saber como “livro a moça e seus problemas”, saiba que vieram ao lugar certo! No bisca nós trazemos a pessoa amada, fazemos amarração e tudo o que precisarem! #TrazemosOCuAmadoEmTrêsDias.

 Então, amigues, venham pra nossa Feira! O Bisca é de vocês! #BeijoNoCoração

Pequeno Compêndio sobre Questões Táticas no Futebol

Brasileirão da Biscatagem
Fernando Amaral*

Durante muitos anos o que unia Marta, Gasolina e Diego era uma amizade colorida, um festerê danado, uma alegria gostosa do descompromisso gostoso. Ninguém sabia muito como aquela história começara, nem quem deu o primeiro flerte, muito menos quem sugeriu ideias de triangulações como forma de tornar o jogo mais prazeroso. O fato é que Marta, libertária como tal, era sempre a indicada como responsável pelo fuzuê. Embora alguns insistam numa versão mais endemoniada da história, pois Diego tinha uma capacidade universal de fazer milongas, de floreios e romances tempestuosos. Mas também era inegável a vocação do Gasolina para o gol… e este apetite nunca poderia ser desconsiderado para justificar aquela peleja tão sinuosa que os três participavam, divertiam-se, encantavam. E, sincera e honestamente, este encantamento entre eles gerava mais encantamento. Era difícil não gostar e não torcer por eles.

Marta era daquelas mulheres inesquecíveis.  Era fantasista, cerebral, ousada, corajosa, tratava a pelota com esmero, com gala. Tinha um faro de gol incrível. Eram numerosas as histórias de parelhas árduas resolvidas por soluções simples, mas absolutamente geniais. Assim era Marta, que ademais falava inglês, sueco, português e se tivesse que aprender italiano resolvia o trem em uma semana.

Gasolina, moço da pele preta, era definitivamente um homem de superlativos. Genial, objetivo, contumaz. Fazia gols como quem respira e era o homem das jogadas espetaculares. Para Gasolina não tinha zagueiro. A vida se apresentava e ele, com gala, com altivez e com aquela soberba de majestades, seguia adiante. Jogava o fino. Na verdade, desconfio, era a própria pelota em forma de gente.

Já Diego era mágico. Sim, a definição para aquele moço só poderia ser esta: mágico. Uma habilidade sobrenatural o acompanhava. Ninguém reparava em outra gente se Diego tivesse por perto. “Este tem pacto com o canhoto”, diziam. Devia ser verdade, pois a redonda grudava em seus pés, assim como os problemas, as confusões, as bebedeiras, as intensidades. Além de ser bailarino. Imaginem a confusão, entre sopapos e sapatilhas.

Mas o romance deles, que era uma história de muita fuzarca, liberdade e libertinagem, como nessas brincadeiras de bola em campos de futebol na rua ou nas praças e parques – não tinha muita regra, como todo jogo de recreio com tampa de refrigerante ou bola feita de papel amassado-, começou a ter problemas na mesma proporção em que resolviam estabelecer contratos, pactos, obrigações. Num jogo como estes, anotem, é batata que o ciúme venha empacotado com qualquer “porque você não me passa mais a bola”. E, convenhamos, qualquer ser vivente reconhece que o ciúme degenera qualquer encantamento.

E Gasolina queria ser melhor que Diego. E os dois resolviam pavonear. E quando pavoneavam, ainda que sem querer (não esquecendo às vezes em que isso acontecia por querer…) tratavam Marta como um bibelô, como um brinquedo para se ter. E nessa moléstia, acabava a elegância, sobrava bravata. Num jogo assim, sabemos, o vaticínio é o gol contra.

E aquela belezura de antes começou a ficar chata, tipo comercial de margarina: tudo lindo, maravilhoso, perfeito, mas nunca mais manteiga. E foi perdendo o viço, as cores e por fim, até, não jogavam mais se não fosse para competir. Dava pena, sabia… E como a vida assim vira campeonato, acabou tudo no tribunal de justiça desportiva.

Mas noutro dia a Marta resolveu ligar. Sempre ela, atrevida como só. Arteira, numa breve frase que resumia tudo: “O Campeonato Brasileiro vai começar e seria uma tremenda enorme e retumbante estupidez que nem uma cerveja a gente tome juntos.”.

 “Ô, seu Mané, desce aí umas ampolas que o negócio tá começando a esquentar…”. E o Mané trouxe foi um engradado cheio: “Vai faltar João”.

.

*Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

Na Bola, No Peito e Na Raça

Brasileirão da Biscatagem
Flamengo, Luciana

na bola, no peito e na raça

“Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia.” (Nelson Rodrigues)

Domingos da Guia

Você sabe quando só de estar perto lhe falta o ar, a mão gela e a taquicardia se apresenta acentuada? Sabe quando você tem vontade de gritar? E o corpo todo parece não se conter em si mesmo? O sangue batuca um samba nas veias e o pescoço lateja? Sabe quando o riso é mais solto e o choro mais sentido? E você não pensa em outra coisa, só: e se, e se, e se…?

Juan
Flamengo de 1996 a 2002
Campeonato Carioca: 1996, 1999, 2000 e 2001

Você sabe o que é não aceitar nenhum convite apenas na esperança de encontra-lo? Ver que ele faz tudo errado mas não conseguir afastar-se? Sabe o que é torcer as mãos, ansiosa, antes do encontro e, na hora, não conseguir dizer nada, garganta travada e sentimento em desalinho? Sabe o que é viajar 2.600 km para ficar ao seu lado por apenas duas horas e sentir que tudo vale a pena apenas para sentir aquela emoção?

Zizinho 1939 – 1950 Tricampeão em 1942/43/44

Você sabe o que é querer tanto, tanto, que dói fisicamente e se você fosse livre você se perguntaria se vale a pena, mas você não é livre, não mais, não pode sê-lo, está perdida? Você sabe o que é acordar e pensar em mimetismos de querer bem? E ansiar pela presença? E sentir-se só e só porque não há encontros naquele dia? Você sabe o que é ficar procurando notícias, interessar-se pelas bobices cotidianas, devanear sobre qualquer palavra?

Você sabe o que é ter o coração em desalinho só de ouvir o nome? E se emocionar com pequenas conquistas, pequenos avanços? Sabe o que é irritar-se, alegrar-se, desesperar-se, embelezar-se, animar-se, tudo por obra de uma presença? Sabe o que é ter o corpo em festa? A alma em festa? A vida em festa? Sabe o que é amar e amar e amar e amar até não se saber mais?

Junior
Flamengo de 1974 a 1993
Campeonato Carioca 1974, 1978, 1979, 1981 e 1991
Campeonato Brasileiro 1980, 1982, 1983 e 1992
Copa do Brasil 1990
Copa Libertadores de América 1981
Campeão Mundial 1981

Leandro Flamengo de 1978-1990
Campeonato Brasileiro: 1980, 1982, 1983 e 1987
Campeonato Carioca: 1979, 1981 e 1986
Taça Libertadores da América: 1981
Mundial Interclubes: 1981

É assim que eu torço Flamengo. Pra sentir tudo mais vivo e feliz em mim.  Há uma magia em saber-se Flamengo. Digo sempre que cada clube tem seu estilo. Entra e sai jogador, passa o tempo, o time muda, mas há alguma coisa, intangível e específica, que permanece. No meu Mengo é a vocação para a leveza. Meu time me faz feliz quando joga assim: leve, alegre, com vontade de vencer, sem medo de perder. Meu coração rubro-negro descompassado ri-se na beleza de encontrar raça e talento em tabelas rápidas, laterais que avançam como pontas, centro-avantes raçudos e atacantes bailarinos.

Poxa, será mesmo que alguém prefere ganhar de um a zero, espremido no seu campo, golzinho amarrado esperando um erro do adversário? Será mesmo que alguém prefere ser campeão com ajuda da arbitragem, jogando alguma coisa que lembra vagamente futebol? Será mesmo que alguém prefere seu time cheio de volantes (no sentido atual da palavra que equivale a futebol de bunda no chão – tipo Dunga, ao invés de significar sua concepção de origem, alguém que arma e desarma, que joga de cabeça erguida) a um time montado com poesia e talento?

Rondinelli – Deus da Raça
Flamengo de 1971 a 1981
Mundial Interclubes: 1981
Campeonato Carioca: 1974,1978,1979,1981
Campeonato Brasileiro: 1980

Eu prefiro a doce embriaguez de um jogo bem jogado, prefiro gols resultantes da vontade de vencer, gols com drible, com tabelinhas, jogo arquitetado, planejado, com espaço para o improviso da genialidade do craque. Eu prefiro meu time com ardor e fogo nos olhos. Com ímpeto. Prefiro ousadia e risco. Prefiro o time indo pra frente. Escolho a beleza. Quando vem com vitória junto, melhor ainda. Não me importa, mesmo, não sei quantos anos de jejum de títulos brasileiros. Eu me alimento é de troca de passes, é de gol olímpico, é de cabeçadas certeiras, é de desarmes precisos sem falta… Se outros são campeões com futebol medíocre e muita retranca e ficam satisfeitos com isso? Bom a mediocridade se alimenta de si mesma.

Eu sou mais meu Mengo. Do jeitinho que ele é: bola de pé em pé, com alegria, raça, amor, tesão…Eu sou mais meu Mengo como na música do Djavan: “ainda bem que eu sou Flamengo, mesmo quando ele não vai bem”. E quando ele vai bem então: que beleza! Que festa no Brasil! O riso mais solto, o passo mais leve, as pessoas mais gentis.

Carlinhos
Jogador do Flamengo de 1958 a 1969
Campeão Carioca 1963 e 1965
Campeão Brasileiro 1987 e 1992

Como alardeava Nelson Rodrigues: “A alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda ou mais dilacerada, ou mais santa, só sei que é diferente”. E eu nem falei da torcida; do Maracanã que é nosso (ah ah uh uh, o Maraca é nosso);, da incrível polarização que faz com que os torcedores dos outros times torçam contra com tanta paixão quanto torcem pros seus times, tendo o Mengo como farol; não contei as histórias divertidas (como a crônica do Paulo Mendes Campos na Suécia), não tratei das bandeiras, uniformes e cores, não fiz o histórico dos títulos, a trajetória dos ídolos…Eu nem falei do Zico! Há tanto a se amar no Flamengo que uma semana de biscatagem só pra ele ainda não seria suficiente.

Zico
Flamengo 1971 – 1990
Campeonato Carioca 1972, 1974, 1978, 1979, 1981, 1986
Campeonato Brasileiro 1980, 1982, 1983,1987
Copa Libertadores de América 1981
Campeão Mundiall, 1981

A alegria rubro-negra, pra mim, só equivale à alegria do grande amor. Aquele que tira o fôlego, o eixo, o norte, os pés do chão. Aquele amor de sempre ou o amor de agora. O amor de pra sempre, o amor de uma rapidinha no banheiro do aeroporto. O amor dos que se conhecem sem falar e os que não param de falar pra tentar chegar mais perto. O amor dos iguais, o amor dos dessemelhantes. O amor de alma, o amor de corpo. A alegria rubro-negra equivale à alegria do amor que é gozo. É de dançar na rua e do coração sapatear no peito. Do sangue acelerar, da respiração falhar, dos olhos nublarem. A alegria rubro-negra é de festejar hoje, esperar os amanhãs e sorrir dos ontens.

Uma Paixão Imponente

Brasileirão da Biscatagem
Palmeiras, Daniel Nascimento

Um amor assim, biscate, livre, liberto, não vem de bate-pronto como uma decisão que se toma na vida, de caso pensado. É necessário a maturidade, aquela cevada, as dores. Passar pela etapa do gozo e da dor. Compreender que muitas coisas são incompreensíveis e que pra ser verdadeiro não faz-se mister a posse e que com isso a palavra fidelidade ganha um sentido mais amplo. Vira cumplicidade. Esse amor vem de manso, te magoa, te faz sofrer. Mas justamente tais passos lentos e dolorosos fazem tal sentimento penetrar na carne e na alma. E assim os obstáculos somem. Vem aquela paz e tranquilidade de uma relação onde sabe-se que não importa os obstáculos, as agruras, as lágrimas: sempre teremos um ao outro.

Falo de uma relação com outra pessoa? Poderia bem ser. Mas no caso é o que sinto ao querer transcrever minha paixão por meu time: o Palmeiras.

Nasci em 1978. Quando criança eu amava – e ainda amo – mesmo é o futebol. Sou de uma família onde toda a parte paterna é palmeirense e a parte materna corinthiana. Diz meu pai e meu avô materno comprova que este fez de tudo para que eu fosse mais um alvinegro na família: deu-me camisa, bola, boné. Eu poderia dizer que meu pai venceu a batalha mas as coisas nunca são tão simples assim. Afinal nos anos 80 (como hoje por sinal, mas isso não importa) o Palmeiras não ganhou nada. Imaginem uma criança louca por futebol ver os amiguinhos corinthianos e são-paulinos revezarem-se na comemoração por títulos. Até o Santos teve sua vez em 1984. E a Inter de Limeira, em 1986. Justamente em cima do Alviverde. Mas a grande verdade é que eu realmente não me importava muito. Gostava mesmo do jogo.

 Mas aí veio a adolescência e nela junto com os hormônios que nos dão pulsão e desejos veio a necessidade de por tal amor à prova. Pensei até em não torcer pra time nenhum ou, como bom metido a outsider, torcer por um time de tradição mais refinada como o Santos ou Botafogo (que sempre me foram simpáticos) ou a Portuguesa. Afinal, time que não ganha nada por time que não ganha nada esta é mais cool. Como diz um grande amigo meu: eu era jovem e tolo. Isso era uma clara fuga. E tudo foi recompensado e confirmado em 12 de junho de 1993. Dia dos namorados; só podia ser. O Palmeiras humilha o Corinthians, logo o Corinthians! na final do Paulistão por 4 x 0, devolvendo derrota simples na partida de ida, levanta a taça, quebra o jejum de 17 anos, me dá um tapa na cara e diz: você é meu! E era.

Torcida que canta e vibra

A partir daí, lua de mel: grandes times, grandes jogos, grandes conquistas. Mais estaduais, bi-brasileiro, Copa do Brasil, Mercosul, a cobiçada Libertadores. Vi grandes craques desfilarem e honrarem o manto-sagrado alviverde, como Evair, Edmundo, Mazinho e seu show contra o Boca Juniors, Alex, Zinho, César Sampaio, a era Felipão – quando aprendemos a ter raça, e o maior de todos: São Marcos.

Como não há mal que nunca acabe nem bem que dure pra sempre, hoje voltamos a vivenciar uma fase ruim. Mas como disse no início, esse amor já está consolidado, enraizado, e não há queda pra segunda divisão (quando fui em todos os jogos que ocorreram no Palestra), vexames ou gozações que nos afaste. Ouço muito dizer que viraremos uma nova Portuguesa. Como se isso importasse ou fosse vexatório. São tolos; não aprenderam ainda. Eu e o Palmeiras não precisamos ter títulos, ter maior torcida, ter o melhor estádio, ter nada. Simplesmente somos.

Daniel Nascimento é palmeirense, roteirista de ficção científica e faz um guacamole como ninguém. Tem 33 anos de paixão por futebol, ama os grandes torneios mundiais e tem saudades do Desafio ao Galo. Nasceu em São José dos Campos, mas tem alma cigana, mora em São Paulo e já viveu em outras três cidades, outro estado e outro país. Não está satisfeito, tem aquela coceirinha de conhecer muito mais do mundo. Não sabe de umas tantas coisas, mas sabe bem de uma, onde  estiver terá sempre uma raiz: sua paixão pela Sociedade Esportiva Palmeiras

O campeão do bem-querer!

Brasileirão da Biscatagem
Brasil de Pelotas, Niara de Oliveira

Nasci numa família dividida entre gremistas e colorados. Os homens todos gremistas talvez expliquem a minha aversão pelo tricolor gaúcho, talvez seja o azul, não sei. Fato é que nunca entrei nessa disputa e cheguei a cogitar torcer por um time que não fosse gaúcho. Mas sem ver de perto e sem poder manifestar e nem com quem dividir a paixão o futebol perde muito da sua graça.

Tinha dezoito anos quando um grupo de amigos petistas estava combinando um churrasco  bem próximo da Baixada para ir depois ao jogo. Animei de ir, talvez mais pelo frege e pela curiosidade que sempre tive de ir no mítico Estádio Bento Freitas. Era um domingo sombrio, bem do tipo que gosto, quase chovendo. E ali, no meio da mais apaixonada torcida de futebol era impossível não se apaixonar também, e desde então meu coração é Xavante.

Títulos? O Grêmio Esportivo Brasil de Pelotas foi o primeiro Campeão Gaúcho, em 1919. Esse permanece sendo nosso principal título. Né… Fazer o quê?

Como um time consegue manter uma torcida tão apaixonada e fiel sem títulos? Ninguém sabe. Esse mistério não pode ser explicado, só sentido. Só estando na Baixada, em meio àquela torcida rubro-negra, barulhenta e exigente — sim, não tenham dúvidas disso — é possível explicar o que é ser Xavante.

Quando quero contar quem é o Brasil de Pelotas para quem nunca ouviu falar, falo do nosso maior feito: o terceiro lugar no Brasileirão de 1985, que incluiu derrotar o Flamengo não por sorte, mas por competência. E não era qualquer time. Era o Flamengo de Fillol, Mozer, Leandro, Adalberto, Tita, Zico, Adílio, Andrade, Aílton, Bebeto e Chiquinho; treinado por Zagallo. Foi esse time que o Brasil de Pelotas inacreditavelmente venceu na Baixada por 2×0. O time Xavante vencedor? João Luís, Jorge Batata, Silva, Hélio, Nei, Dias, Alamir, Lívio, Canhotinho, Márcio, Doraci, Bira (25’/1) e Júnior Brasília (86’/2) treinado pelo lendário Valmir Louruz. O Brasil perdeu o jogo de volta no Maracanã por 1×0, sendo que foi um gol de pênalti do Bebeto.

Se fosse hoje, onde os jogos são de 180 minutos, talvez o Brasil tivesse ido à final do Brasileirão de 85, talvez tivesse sido campeão. Mas… Se vocês notarem, o Brasil não conseguiu usar seu uniforme principal nem no Maracanã. Valia “a força da camisa”, leia-se o poderio dos grandes times de futebol.

Tem ainda a história da quase troca de Joaquinzinho por Pelé, história curiosa do futebol brasileiro. Joaquinzinho, craque do Brasil de Pelotas, interessou ao Santos, que na proposta de compra incluiu o empréstimo de Pelé na negociação. O Brasil pediu muito dinheiro pelo passe e o Santos desistiu do negócio. Joaquinzinho acabou indo jogar no Fluminense e depois no Corínthians. A história é confirmada por Pelé.

Não sei se a placa ainda está lá, e infelizmente eu não tenho mais a foto, mas ao chegar a Pelotas, próximo da Polícia Rodoviária, existia uma placa dizendo: “Bem-vindo a Pelotas. Aqui de cada dez habitantes, oito são Xavantes!“. Não sei se a proporção é exatamente essa (já teve até proposta do Cão Uivador de que a cidade adote o escudo do GEB nos órgãos públicos — proposta muito justa, por sinal), mas é mais ou menos isso. Diferente da grande maioria dos municípios gaúchos que se dividem entre tricolores e colorados, nós temos a nossa própria rivalidade. E Pelotas, além do arqui-inimigo Lobão (EC Pelotas), tem ainda o Farrapo (GA Farroupilha).

Por que o Brasil é tão popular em Pelotas? Bueno, lembrando que Pelotas é a cidade mais negra do Rio Grande do Sul e que a história de riqueza das Charqueadas foi construída à custa do trabalho escravo, talvez uma parte da letra do nosso hino — composto em 1956, pelos músicos José Costa e Victor Jacó — explique:

“Brasil, Brasil, Brasil
As tuas cores são nosso sangue nossa raça”

Entre as minhas lembranças mais ternas está eu cantando (não se iludam, só a lembrança é terna, eu canto muito mal) para ninar o Calvin quando ele era bebezinho (eu cantava o hino da Internacional também…). Agora que estou longe de Pelotas, ouço os jogos pelo rádio, via web. O Brasil está disputando nesse momento a segundona do Gauchão e acabou de ganhar na justiça o direito de disputar a série C do Brasileirão. Ou seja, só amor explica.

É assim que os jogadores na Baixada comemoram as vitórias, junto da torcida.

E só o amor imenso de sua torcida poderia fazer o time superar seu pior momento, que foi o acidente com o ônibus do time em 15 de janeiro de 2009 que vitimou o zagueiro Régis, o treinador de goleiros Giovani Guimarães e nosso maior ídolo, o atacante Claudio Milar. Após o acidente, o Brasil de Pelotas perdeu todos os jogos que disputou pelo Gauchão e caiu para a segundona sempre apoiado e aplaudido pela torcida Xavante.

ídolo Milar fazia esse gesto na comemoração de seus gols

Por que Xavante? Após a vitória do Brasil num BRAPEL em 1946 por 5×3 (havia terminado o primeiro tempo perdendo de 3×1, na casa do adversário) “a torcida vencedora não se aguentou nas arquibancadas, atropelou o alambrado e invadiu o campo para comemorar. Vendo toda aquela euforia, quase que descontrolada, um dirigente áureo-cerúleo (do Pelotas) comparou a festa em vermelho e preto ao filme “Invasão dos Xavantes” (em cartaz naquela época), dizendo: “eles foram um bárbaros ao final do jogo, pareciam uns Xavantes”. Irreverente que é, a torcida rubro-negro ignorou o tom pejorativo da expressão e adotou a simpática e querida figura do Índio Xavante como mascote do Brasil.”

Essa história de termo pejorativo ser adotado com orgulho e usado a seu favor, nós biscates conhecemos bem, né?

Mais sobre a história do Brasil de Pelotas? No site Xavante.

PS: Esqueci de dizer… O Felipão não iniciou sua carreira como técnico de futebol no Brasil de Pelotas, mas sua passada pela Baixada foi decisiva. Foi lá que ele conheceu seu fiel escudeiro Flávio Teixeira, o Murtosa, que é pelotense.

Grêmio, um amor não correspondido

Brasileirão da Biscatagem
Grêmio, Rodrigo Cardia

“Eles” ganharam, de novo… Tem sido uma triste rotina nestes últimos 11 anos: o Grêmio, quando parece que vai ser campeão, nos frustra – desta vez conseguiu nem chegar à decisão do estadual. E os vermelhinhos vão lá e vencem. É dose.

Não sei dizer a partir de que momento me tornei gremista. Foi em algum dia dos anos 80, isso é certo. Vitoriosos anos 1980 e 1990: torcer pelo Grêmio naquela época, salvo alguns anos anômalos (tipo 1991) era garantia de felicidade futebolística, de flautas contra os adversários (“secadores”). Eram tempos em que os colorados eram apelidados de “melancia” toda vez que o Grêmio enfrentava algum time verde: sabem como é, melancia é verde por fora e vermelho por dentro…

Vieram os terríveis anos 2000, e a decadência. Seu primeiro ano foi exceção: Grêmio campeão da Copa do Brasil em 2001, com um futebol encantador. Mas depois, tudo foi tristeza. Em 2003, em pleno ano do centenário, ao invés de brigar por títulos o Grêmio só conseguiu se manter na Série A. E mesmo assim, não abandonei meu time, por mais acostumado que eu estivesse com situações opostas, ou seja, de conquistas. Fui ao estádio, tomei chuva e no grito, igual a 1996, ajudei o Tricolor a ganhar para, ao final, sair abraçando todo mundo que estava por perto. Se antes era uma taça, em 2003 era não ter de brigar por outra taça, a da Série B.

Só que no ano seguinte não teve jeito: a torcida já estava desanimada com a bagunça na qual o clube tinha se transformado, e o Grêmio caiu. Então aconteceu o que foi regra com os grandes clubes que caíram: a torcida abraçou novamente o time, e o Olímpico voltou a ser um caldeirão que amedrontava os adversários. O time de 2005 do Grêmio chorava de tão ruim, só que no Olímpico jogava com bem mais que 11 jogadores. Quanto àquele jogo nos Aflitos contra o Náutico, o que salvou o Grêmio foi alguma coisa que um dia ainda será explicada: era na casa do adversário, com quatro jogadores a menos… Aquele momento fez lembrar as décadas de 1980 e 1990, quando o Grêmio só conseguia nos fazer chorar se fosse de felicidade.

Era o “pontapé inicial” para uma nova era vitoriosa, certo? Afinal, já acontecera do Grêmio cair em 1991 e na sequência ganhar tudo, logo isso se repetiria. Porém, eram outros tempos, outros dirigentes. Em 1993 tínhamos Fábio Koff (campeão da América e do Mundo em 1983) na presidência, e um rival deprimido (apesar de ter ganho a Copa do Brasil em 1992). Já em 2005 o Grêmio tinha Paulo Odone como presidente, que adorou poder repetir ad nauseum o exemplo da Batalha dos Aflitos para se esquivar das críticas a cada mau resultado (como tanto temos visto em 2011 e 2012), e ainda por cima “descobriu” que nosso Olímpico Monumental é “defasado” e por isso precisamos de um novo estádio no “padrão FIFA”; não bastasse isso, o co-irmão garantia participação na Libertadores do ano seguinte para, pasmem, ganhá-la.

Pois é, o Grêmio vem tratando mal sua torcida nos últimos anos. Nosso amor pelo Tricolor há muito tempo não é mais correspondido: não só os resultados não vêm, como ainda o Grêmio vai se mudar para uma “casa nova” que servirá para definitivamente transformá-lo em um clube de elite. Algo que já acontece no Olímpico, é verdade (estão aí os ingressos a R$ 40 em jogos de Gauchão para não me deixarem mentir), mas que na Arena é escancarado pela mensalidade a R$ 92 para assistir ao jogo atrás do gol. Saem o torcedor e a torcedora, entram o consumidor e a consumidora: mais do que para torcer, o objetivo do estádio passa a ser o lucro.

E desse jeito, a todos os que não se enquadram neste padrão de classe média, só restará a alternativa de acompanhar o Grêmio pelo radinho ou pela televisão, em casa ou no buteco (para ao menos poder abraçar todo mundo toda vez que vencermos os jogos). O Tricolor nos despreza, mas nós seguimos amando-o, numa situação que lembra um “pé na bunda” vindo de quem amamos: por mais impossível que seja, acreditamos que ela “abrirá os olhos” e perceberá a bobagem que fez ao mandar passear alguém que tanto a ama. Com apenas uma diferença: chega um momento em que nós “abrimos os olhos” e decidimos parar de sofrer por aquela pessoa; já o time de futebol, este sim é amor eterno.

.

Rodrigo Cardia é um portoalegrense gentil, historiador, de esquerda, crítico na vida e no futebol, que odeia calor e não tem intimidade nenhuma com o sol. Curte cinema, coleciona camisas de futebol e, embora de coração partido pelo Grêmio, gosta de uivar para a lua. Você pode acompanhá-lo no seu blog ou pelo twitter @caouivador.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...