Transgeneridade e Subjetividade

Por Bia Pagliarini Bagagli*, Biscate Convidada

Vamos lá: sobre algumas coisas básicas sobre transgeneridade e subjetividade. Ser trans não é sobre ser inequivocamente alguma coisa tal como: ser normativo, “odiar o seu corpo”, e seguir determinadas narrativas rígidas sobre o que se convencionou em certo imaginário social ou senso comum sobre o que é ser trans de “verdade”. Você não “tem que” ser alguma coisa de forma pré definida para ser trans. Você “não tem que” odiar o seu corpo para “ser trans”. Você “não tem que” alguma coisa para “ser trans de ~verdade~”. Você não tem que “se odiar” para ser trans. Ódio a si mesmo em nenhum momento pode servir como base ontológica para “ser trans”. Não compreendemos a questão do “ser trans” através de certos pré requisitos para serem cumpridos. Não existe uma única forma de ser trans. As narrativas são plurais e falhas; falhas em relação a elas mesmas.

Nós pessoas trans tampouco somos meras criações dos discursos normativos sobre o gênero. Nós pessoas trans não nos “resumimos” a um algum tipo de projeto social de gênero que “deu errado” a partir do momento em que você pressupõe algum outro destino moralmente superior ou correto. A existência de pessoas trans não é moeda de troca pra você teorizar acercas de formas subjetivas supostamente mais livres de violência de gênero. Nossas vidas não se reduzem a “algo que deu errado” no sentido deste errado como algo moralmente indesejado ou inequivocamente “sofrido”. Nossas vidas não são moedas de trocas, como se você pudesse , em nome de alguma teoria de libertação, como uma teoria “feminista radical”, colocar a nossa existência como essencialmente indesejada; como se você pudesse desejar o fim de um grupo social em nome da própria libertação e do fim de um suposto sofrimento que nos constituiria. Nós pessoas trans denunciamos este tipo de abuso que tenta camuflar o seu exercício de poder sob um discurso da “verdadeira militância” que supostamente iria às raízes.

Algo deu errado e nós resistimos. A vida de pessoas trans e nossas subjetividades não se resumem à dor. A subjetividade trans não se resume a um ódio a si mesmo que seria condicionado pelas narrativas normativas, pelo exercício do poder como mera negatividade. A norma funciona pela falha, e vivemos a partir desta brecha: as relações de poder são tensionáveis. O nosso erro foi ter a audácia de resistir, de procurar viver no presente, com a total radicalidade que isso implica. A vida de pessoas trans é também potência de vida a partir da resistência. Transgeneridade é também afirmação da vida. A transgeneridade não é produto nem reprodutora de dor e sofrimento a partir de um funcionamento tautológico de uma relação de poder fechada sobre si mesma. As relações de poder são abertas às contradições que as constituem. Por isso, pense duas vezes antes de falar sobre como pessoas trans reproduzem estereótipos de gênero e de como o mundo supostamente seria “melhor” se pessoas trans não existissem. Nossas vidas extrapolam a teoria cisgênera de compreensão do mundo.

11705227_847401125342572_511374712937594907_n

*Beatriz Pagliarini Bagagli é estudante de letras e transfeminista. Acredita que o mundo pode ser mudado pelo transfeminismo

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...