Sobre o direito de sambar — amplo, geral e irrestrito

Por Niara de Oliveira

Devia ter escrito meu post mais cedo (chicoteada de auto-flagelo 1), mas não foi possível. Aí, que pouca gente vai ler e pans, e o BiscateSC ficou o dia inteiro sem post. Humpfff! 🙁 (chicoteada de auto-flagelo 2)

Mas, eu estava tri-ocupada com trabalho e cuidando do Calvin ao mesmo tempo. E, de verdade, tudo que eu queria era ter passado o dia agarrada na faxina. No final, não fiz bem nem uma coisa e nem outra. Trabalhei, cumpri as tarefas e o Calvin está com aquela sensação de que foi negligenciado. Sensação partilhada por mim.
(chicoteada de auto-flagelo 3)

O que me perturbava que não me deixava focar? E eu só pensava em “foca no transporte” — bandeira principal das manifestações que arrastaram multidões às ruas e que conseguiram baixar as tarifas do transporte coletivo em quase todas as cidades onde houve mobilização no país nas últimas semanas –, e não conseguia focar.

-- Foca no transporte!

Foca no transporte!

Acho que estava pressentindo o final do dia. A tentativa sórdida de manipulação e cooptação por parte da Globo e da direita dos atos #contraOaumento não ficou apenas na manipulação das bandeiras empunhadas nos atos. Chegou as vias de fato, e levou às ruas fascistas e reacionários de toda ordem. Um movimento apartidário consegue reconhecer fácil quem assume suas bandeiras e ideologia, mas não está preparado para quem está disfarçado e escondido atrás de máscaras.

reacionário fazendo gestos obscenos (até aí nenhum problema, desde que a intenção não fosse desqualificar) e com discurso de ódio, sexista e homofóbico para uma ativista no ato de hoje em São Paulo #sp20j

reacionário fazendo gestos obscenos (até aí nenhum problema, desde que a intenção não fosse desqualificar) e com discurso de ódio, sexista e homofóbico contra uma ativista no ato de hoje em São Paulo #sp20j (foto: Antonio Miotto)

E assim foi. O que eram suspeitas e impressões hoje são certezas. Os mascarados e não identificados foram crescendo e o discurso despolitizado em seu meio também. Enquanto os anarquistas, a esquerda e a direção do movimento se desgastavam discutindo um direito fundamental da democracia — se podia ou não empunhar bandeira em ato público –, o que há de mais vil na política se articulava nas sombras para encampar os atos. Acho que nem precisou muito empenho. A grande imprensa colaborou bastante, o obscurantismo que assola os bastidores da política nacional também.

Achei que esse tinha sido um ato isolado, do ato da última segunda em São Paulo; um reacionário lunático na manifestação errada. Era só o começo...

Achei que esse tinha sido um ato isolado na última segunda-feira em São Paulo; um reacionário lunático na manifestação errada. Errei. Era só o começo…

Agora, a esquerda — ou o que sobrou dela — terá que estabelecer uma pauta mínima de consenso para não deixar que um direito legítimo dos trabalhadores e uma pauta da esquerda não seja sequestrada, saqueada e transformada em mais violações de direitos humanos e opressão para os trabalhadores, negros, mulheres, LGBTs e demais minorias.

Daqui, das páginas do BiscateSC, afirmo (ainda que só em meu nome) que estamos aqui sempre para colocar o bloco na rua para lutar por liberdade e democracia. Mas, um movimento desse tamanho que não respeita os direitos mais elementares da pessoa e a expõe a toda sorte de preconceito e violações não nos representa. Já não bastava a violência da polícia para enfrentar?

Continuarei sambando na cara do moralismo hipócrita e do machismo, mas aqui desse e de outros cantos. Só isso já me/nos expõe a riscos demais, necessários na conquista da liberdade — dizem –, mas riscos demais. Democracia, assim como liberdade, é um exercício doloroso ao qual precisamos nos habituar para termos de fato uma sociedade justa e igualitária, onde possamos todxs sambar em paz.

wandalismo

o que nós, biscxs, queríamos mesmo era aderir ao Wandalismo e protestar atirando calcinha na polícia #VemPraRuaAtirarCalcinhaNaPolícia

Para todos e pra quase ninguém: sonhos

Iemanjá brincava com a gente na praia. Era sol de fim de tarde, o mar estava verde e o barquinho navegava um céu que quase não se via de tão rosa. Inundava-nos em sonho.

O vento era forte e Santa Bárbara sussurrava. Era conforto. Estava quente e eu só me lembrava que a distância é o esquecimento… como a música gosta de dizer. Brincar era mais que aquilo e responsabilidade era dádiva. Não estávamos no limbo, mas num interstício entre ser e ser também.

Cantávamos nossas músicas. Eu velho, quase macambúzio; você tristemente, buscando um reconforto para aquilo que acreditava nunca ter passado. Não era a vida, apenas parecia uma profusão de momentos sem nada que os alinhavassem, mas era bom.

Era um jeito de estar, uma mania de inventar, uma chance de não pensar, um sentir de arrebatar. Não causou euforia. Muito menos ilusão. Quebraram-se mitos de ações inesperadas, de reações desapontadas e de feições acalentadas. Era simples não ser o que a música espera que sejamos… A arte não era o nosso forte.

Inesperado, poderíamos dizer… não, não dessa forma. Racionalidade imperava naquilo, mas era contrária ao que praticávamos. Imperavam predicados, mas nossos verbos estavam mal e parcamente colocados, nossas regências nominais se confundiam. Éramos ora vocativo, vezes aposto, mas nunca orações subordinadas.

Faltavam-nos conhecimentos e línguas que pudessem expressar aquilo que não queríamos omitir, mas que uma megalomania de sentimentos enveredava. Excessos de cosmopolitismos. Éramos crianças em gênero, adultos em número e liberdade em graus diferentes.

Sonho causado pelo vôo de uma abelha em torno de uma romã, Salvador Dalí

Sonho causado pelo voo de uma abelha em torno de uma romã

Fraternidade nos soçobrava. No íntimo, reconhecíamos-nos, mas dispensávamos. Éramos distintos disso. Disso que todos esperam… Alagar cântaros de virtude nos era demais. A tentação nos bendizia e a transgressão nos estimulava. Estávamos ali, diante de Iemanjá, à lá traviatta

Não queríamos fora, não exigíamos diferentes, não manifestávamos o óbvio. Apenas chorávamos o também… também. Para todos também, mas pra quase ninguém atendia… Assim, não queriam. Assim não se entendia. Estávamos ali por você, também, éramos biscates…

Muito mais biscatagi em 2013!

Demos adeus a 2011 anunciando que 2012 seria “ano de biscate, baby“. E foi. Mas quem disse que biscate fica satisfeita só com um ano? Na-na-ni-na-não. Queremos mais, queremos muito mais biscatagi em 2013, 2014, 2015…

Levantemos então um brinde à biscatagi, a liberdade e às relações livres em 2013!

E já que é verão do lado de baixo do Equador…

Que tal um brinde com sorvete? Sorverte. SORVER-TE!

Vem?

biscatagi

“no calor é bom sorver-te” — ilustração da Bárbara Araújo

 

 

Ah, essxs lindxs…viva xs convidadxs!

O aniversário é nosso mas quem ganha homenagem e agradecimento são todxs xs biscates convidadxs que já passaram por aqui nesse #UmAnoBiscateSC. E foram muitos e tantos que se todx tivessem respondido nosso chamado esse post não teria fim.

Acompanhe os depoimentos desses lindos e lindas. Sem eles o Biscate SC não teria o mesmo colorido, a mesma graça.

adriana torresAdriana Torres — Três linhas é pouco para uma biscate. Afinal, a gente é assim, se esparrama feito manteiga na panela, vai ocupando cada cantinho e não tem como segurar. Mas enfim: descobri minha biscatagi nesse club privê (nem tão club, nem tão privê). Assim como reconheci meu feminismo graças a algumas biscates que aqui se esparramam direto. Entonces, feliz aniversário de descoberta pra mim! Continuo me enchendo de orgulho de fazer parte dessas LINDAS!

576460_10151203395732836_795142732_nRenata Corrêa — Biscate é celebração. É o feminino em festa. Fazer parte de um coletivo que ressignifica um dos aspectos mais pesados da cultura machista que é a figura da puta, da mulher fácil de forma tão leve acabou ressignificando também um aspecto importante da minha miltância, que é a forma de tocar o outro. Sem discurso fechado, sem sisudez. Agora dá licença que essa história de “tocar o outro” me deu idéia para outro texto.

jeane meloJeane Melo — O Biscate pra mim é um espaço de liberdade, despudor, provocação e reflexão. E o mais bacana ainda é que os textos não fecham nada; só apontam inquietações e possibilidades. Tem coisa mais sedutora que isso?

fernando antolinFernando Antolin — Eu biscateei ?? Nááááá… Apenas dei duas receitinhas. Fica a terceira: bata dois ovos,sal e pimenta. Mexa na frigideira e coloque no prato, abra um espaço ao meio e ponha polpa de tomate e queijo ralado. Oiça o Chico, o Ney, oiça o Alan Rickman ou o Falabella declamando poesia. Sejam felizes.

tiagoFrancisco Tiago Costa — Estamos aonde somos e somos aonde estamos: do Oiapoque ao Chuí  afirmamos a nossa liberdade na luta, na rua e na privê intimidade do corpo, da casa e da cama! Em um ano, certamente tenho sido mais eu, afinal, reescrevendo Beauvoir, não se nasce biscate, TORNA-SE!

silviasalesSílvia Sales — Li-ber-da-de. Liberdade de expressão. Liberdade de escolha. Liberdade para todas as formas de prazer. De amor. Liberdade para escrever, porque ainda é preciso escrever. Ainda. Ainda é preciso empunhar as bandeiras nas marchas. Ainda é preciso a delegacia da mulher. Ainda é preciso ‘desenhar’ sobre direitos, igualdade, liberdade. Liberdade, liberdade. É assim que o BiscateSC nos abraça. Como não gostar de bater o ponto no núcleo da biscatagem? A gente se encontra, compartilha experiências, potencializa a luta. Ah, não fosse esse ambiental virtual como eu chegaria até vocês, morando em Belém? Biscates de todo o Brasil, recebam cheirinhos do Pará.  Agora, um tempinho para vadiar, né? Porque a semana promete.

cris_rangel2Cris Rangel — O Biscate pra mim é sinônimo de liberdade e poder participar do Biscate é uma honra e claro, um prazer. Que venham muitos aniversários, muitos textos, muitos gozos, prazeres e arrepios na nuca. Que venham as reflexões e que venha muita biscatagi solta, gostosa e facinha, facinha. Parabéns!

lukaLuka Franca — Um ano de biscatagem na internet e cavando um espaço importante no mundo virtual, o BiscateSC nos colocou em um momento de virar e falar: Sim, eu biscateio e isso não é um problema, não é um demérito. Na verdade é algo que está dado na sociedade e deve ser encarado sem preconceito, sem taxações e sem violência. Biscatear é vida e eu sigo biscateando.

310975_273270442686901_1923123_nBia Cardoso — Vi o Biscate nascer, porque conheço essas mulheres parideiras de criatividade. A partir daí fez-se a revolução das biscates. Chega de mulher honesta, mulher para casar e mulher que não goza, as biscates chegaram para divar. Tem biscate de todo jeito para quem quer ser feliz. Tem biscate para mim, para você e para quem mais quiser chegar na festa. A biscatagi corre solta enquanto houver liberdade, safadeza e risadas. Taí uma revolução em que todas e todos podem dançar até o sol raiar.

priscilla carolinePriscilla Caroline — Minha relação com as Biscates é algo como quando a gente fica com alguém, mantém o desejo de ficar com a pessoa de novo, mas não rola… e aí fica aquela coisa ali, meio viva e meio adormecida. Envolve desejo, envolve o exercício da própria liberdade e a alegria da entrega. É um relacionamento casual, mas muito marcante, então não quero pôr fim nele tão cedo.

anabeeAna Beatriz — Eu escrevo muito. Todos os dias, o tempo todo. Escrevo porque meu trabalho só se concretiza através de artigos, pareceres, apresentações, avaliações… No mar de tantos textos, encontrei no Biscates SC o lugar onde me realizo através das palavras escritas, torcidas, rearrumadas… Foi lá que encontrei outras mulheres com as mesmas preocupações que eu: livres, resolvidas e reflexivas.  Aprendi lendo os textos das outras biscas que a vida sexual não define quem você é e risquei do meu vocabulário palavras como vagabunda, galinha, oferecida… Só caracterizo as pessoas hoje se puder usar a palavra para qualquer gênero. Interessante mesmo é que quando parei de julgar as pessoas, parei de julgar a mim mesma. Sem julgamentos e sem amarras, somos livres. E quando sou livre, estou bem perto de ser feliz!

fernando amaralFernando Amaral — Há um ano emancipando meu cromossomo X e fazendo do Y um cromossomo melhor, mais atento e úmido! E tem o poema que fiz para vocês no aniversário de um mês!!! Das cousas que gosto de ter escrito. Beijo na bunda de todxs.

LilianeLiliane Gusmão — Ser biscate é finalmente compreender que a maneira ou a quantidade de uso da minha vagina não determina meu caráter. Nem o meu, nem o de ninguém. Trepar não é ruim para mim, nem para ninguém, (sem esquecer da camisinha) a não ser que seja pouco. Pouco prazer, pouca gentileza, pouca intensidade pouca educação pouca troca, pouca sedução. Mas eu sou uma mulher de sorte e nunca tive mesquinhez na minha vida de Biscate.

Barbara Manoela — Participei poucas vezes como Biscate Convidada. Queria ter escrito mais. Meu primeiro post causou uma polêmica tão grande entre pessoas do convívio do meu marido, que preferi ficar na moita por um tempo. Bom, pelo menos, serviu pra começar a desmistificar o sexo com pessoas portadoras de deficiência. E em 2013, se deixarem, tem mais!

Deh_colarDeborah Capella — Passei rápido pelo BSC, tão rápido que foi quase um truque de invisibilidade. Mas foi rápida e intensa minha passagem, e biscate que se preza gosta de intensidade mesmo, gosta de ter oportunidade para pensar sobre a liberdade, sobre a felicidade, sobre a tristeza também (por que não? Biscate fica triste, não sabia?); gosta de se sentir livre, se sentir segura pra agir, pra falar. Estar no BSC mesmo que de passagem é sempre lindo. Vida longa à biscatagem!

amanda_Amanda Vieira — O Biscate pra mim é coragem. Coragem de romper com o status quo. Mas não é só isso: é romper sambando, sorrindo, dançando, com toda a alegria que a liberdade pode proporcionar.

vevêVevê Mambrini — Ninguém é de ninguém? Nada disso. Cada um é dono do seu próprio nariz. A biscatagi ensina sobre os amores mais lindos que a gente carrega nessa vida. Amar a si mesmo, o começo de um romance para toda a vida, como dizia Wilde. E esse amor a gente derrama sobre os outros, seja no brilho de cometa do amor de uma noite só, ao amor que vai ficando, até que tá aí desde sempre. Longa vida ao BSC, porque falta ainda liberdade, leveza, espontaneidade (e por que não? cafajestagem da bem-feita) nos relacionamentos.

márcia_biscaloserMárcia Avila — Depois do BSC sempre acho que ser chamada de biscate é elogio e aguardo ansiosamente a minha vez de recebê-lo. (continuo loser). A propósito, se você for gato e disponível, cata meu email no meu post.

suzanaSuzana Dornelles — Foi uma surpresa grande pra mim, quando convidada a escrever para esse Blog onde só “feras” até então escreviam.Confesso que tremi na base, mas como não fui “criada a promessa”, e com o incentivo desse pessoal tão bacana, que acabei indo lá, e abri esse meu coração-bisca-careta-brega. PARABÉNS, Biscas! SUCESSO!!!

dani damasoDani Damaso — Coragem e avante! Biscatagem boa é biscatagem que vem de dentro pra fora, sem medo de ser feliz, do jeito que se é, doa a quem doer. Aquela sensação que faz a gente cantar alto Chico Buarque: “São três horas, o samba tá quente. Deixe a morena contente.  Deixe a menina sambar em paz”. Que os trabalhos do Biscate Social Club continuem sempre abertos pra vida. Bora escrever, bora compartilhar, bora dizer não a essa gente sem coragem!

dandiDandi Marques — É o feminino em alta voltagem energizando tudo que enquadra e enrijece. É a alegria reverberando no corpo/comportamento. É a mente aberta para o carnaval de sensações e possibilidades. Ser biscate é Dionísia na gafieira, celebrando a vida e sua liberdade. Quem não ousa ter uma biscate em si perde parte do colorido na travessia. E o Biscate SC é porteira aberta pra entender a essência na diversidade. Evoé!

mari2Mari Rangel-Biddle — Biscate é um ser livre. Sem amarras. Sem regras. As vezes ela enfrenta a vida de cara lavada. As vezes ela se arruma e se pinta meticulosamente e espera. E todas se encontram aqui, nessa esquina maravilhosa deste blog. Parabéns para nós!

patricia sampaioPatricia Sampaio — No começo, me fazia rir, o que é para poucos. Às vezes, passava dias murmurando palavras de outra Biscate reconhecendo seus sentidos. Foi quando minha alma se distraiu e o post do Adeus me fez tremer. Perdi o chão porque aquelas eram as palavras que gostaria de dizer. Então me enchi de coragem para oferecer as minhas palavras também. Bom demais estar aqui.

miss gardenMiss Garden — Vocês são simplesmente @s responsáveis por me jogar no colo da coragem pra que eu pudesse dar um tapa de realidade na cara do machismo. Orgulho. Biscatági. Feminismo. Amô.

LiliLíli France — Desde que descobri o blog me vejo apaixonada. Sabe daquelas paixões que te deixam boba, de sorriso fácil e falando sobre várias e várias pra todo mundo que encontrar? Pois é. No Biscate SC eu encontrei um lar, onde vi pessoas falarem o que sempre martelava na minha cabeça. E meu coração de bisca se enche de orgulho e satisfação quando vê esse lar completando um ano e espalhando para tantas pessoas o que deve ser dito há tantos anos, tantos séculos. Às vezes num tom mais sério, às vezes embalado pelas risadas de uma mesa de bar, ou até mesmo num clima mais quente de coisas que sempre tomam conta da gente, esse blog é onde me faço presente com o maior prazer (e olha que de prazer a gente entende), e não pretendo deixar tão cedo. Beijos, daqueles que só uma biscate pode dar! 😉

mayarameloMayara Melo — Biscatear…eu biscateio, tu biscateia, nós biscateamos e nos esbaldamos nessa gostosa ressignificação de um termo inicialmente forjado para rotular mulheres. Que delícia ver o Biscate Social Club sambando na cara do conservadorismo e completando um ano de existência e insistência o/ Que bom saber que tem um cantinho, mesmo que virtual, no qual podemos falar e também ser faladas e sentidas. Amo esse emaranhado de gente que decidiu rir, gritar, gemer, sussurrar (ai!) pra deixar claro que “somos o que somos… somos o que somos… inclassificáveis…inclassificáveis…”

Os depoimentos que estão nesse post podem ser conferidos em forma de postal na nossa fan page no Facebook, no álbum #BiscateConvidadxDay.

 

 

 

Suelen, uma biscate exemplo de liberdade

Ahh as biscates das novelas… quase sempre são um grande sucesso. Uma das minhas favoritas recentes é a Camila Pitanga com muita catiguria fazendo a Bebel  em Paraíso Tropical de 2007, que além de biscate era prostituta, uma prostituta meio romantizada, estilo Julia Roberts, mas que conquistou o Brasil e o Wagner Moura na novela, redimindo vilão de suas vilanias.

O grande sucesso entre as biscates das novelas atuais é a maravilhosa Suellen de Avenida Brasil que par nosso orgulho biscateiro agora vive um amor a três. Casada por Roni, que ama Leandro quer por sua vez ama Suellen os três resolveram morar juntos, para escândalo geral do bairro do Divino e ciúme dos outros jogadores do time todo com quem a gata já saiu.

Isis Valverde está ótima no papel, mas em recente aparição no programa da Fátima Bernardes que teve a honra de contar com a participação da nossa maravilhosa diva Luciana num debate sobre biscates e periguetes. Isis deixou claro que não tem nada em comum com a personagem.

O que acho de mais interessante em Suelen é exatamente o que o senso comum condena: ela sabe que é sexy, poderosa e usa e abusa disso em seu favor. O senso comum aprova que mulheres possam usar em seu favor doçura, meiguice, lágrimas, chantagem emocional e até beleza, mas nunca o sexo. Sexo é um tabu tão grande que é condenado só por ser isso- sexo. Não entendo porquê, já que sexo é tão bom, tão gostoso, delicioso tanto quanto brigadeiro de colher. Poucos não apreciam, possivelmente somente os celibatários não gostam de sexo. Ainda assim as pessoas adoram condenar o gosto pelo sexo, principalmente nas mulheres desinibidas. Desinibidas. Nós, as biscates e periguetes.

Suellen usa o sexo para cavar o seu lugar ao sol. Acho justo, não vejo nada de errado nisso. Ela usa seu poder. O corpo é dela, o sexo é dela, ela faz como e quando quiser. E leia Suellen aqui como toda mulher que faz o que quiser na cama como, com quem e quando quiser. Suelen poderia ser libertária para o imaginário feminino. Mas ainda assim é perseguida, sua personagem só dá certo porque descamba para o homem. Uma biscate como personagem séria que levantasse a bandeira do sexo livre dificilmente seria querida pelo público como Suellen é. Ainda mais vivendo uma gostosa relação a três ( não vou entra aqui na questão da personagem estar aí para redimir Roni da homossexualidade, o que acho, obviamente, besta).

Mas ainda assim vou defender a biscatagem de Suelen, suas roupas, sua barriga de fora, sua gostosura, seu sexo saindo pelos poros, sua segurança a toda prova de que pode tudo porque seria bom que todas as mulheres sempre se vissem como ela. Poderosas. Sendo uma Isis Valverde ou não, porque gostosura está em se sentir gostosa e usar e abusar dela, dá sim, poder na vida. Poder de ser o que quiser. Suelen é um exemplo de biscate, um exemplo da liberdade feminina de ser o que quiser, muito mais do que libertinagem. Beijo Suellen, te aguardo no final da novela registrando uma união a três.

Minha cidade se chama…

Dia 9 de junho teve a Marcha das Vadias na cidade que escolhi chamar de minha casa. Ela se chama João Pessoa e o seu nome sempre me pareceu redundante. Mas nenhum nome vem sem causa, não é?

De acordo com a Wikipédia a história é a seguinte:

“Em 1928, Anayde iniciou um relacionamento amoroso com João Dantas, político local ligado ao Partido Republicano Paulista, que fazia oposição ao então presidente do Estado (governador) da Paraíba, João Pessoa. Depois do violento confronto político que deu origem ao Território de Princesa, João Dantas acabou se refugiando no Recife, mantendo o relacionamento com Anayde à distância, através de cartas.

João Pessoa reagiu, mandando a polícia revistar as casas dos revoltosos e suspeitos, em busca de armas que pudessem ser utilizadas em uma revolta armada. Um desses locais foi o escritório de João Dantas na Cidade da Paraíba (atual João Pessoa), invadido em 10 de julho de 1930. Embora não tenham sido encontradas armas, os policiais depredaram as instalações e arrombam o cofre, onde foi encontrada a correspondência de Dantas, inclusive cartas e poemas de amor recebidos de Anayde.”

Ui!!! Tem sexo, violência e glamour, não é?

Mas continua…

“Nos dias seguintes, o jornal governista “A União”, e outros órgãos de imprensa estadual ligados à situação, publicaram o conteúdo das mesmas, visando atingir a honra de Dantas.

Em 26 desse mesmo mês, João Dantas, acompanhado de um cunhado, Augusto Caldas, entra na Confeitaria Glória, no Recife, e dispara contra o peito de João Pessoa, matando-o. Lavava, com esse gesto, a sua honra ofendida, com sangue.

Criticada publicamente por razões morais e políticas, Anayde sentiu-se acuada após o assassinato de João Pessoa, que causou comoção popular. Desse modo, abandonou a sua residência na Paraíba e foi morar em um abrigo no Recife, onde passou a visitar João Dantas, detido em flagrante e recolhido à Casa de Detenção naquela cidade.

(…)

Anayde veio a falecer, dias depois, aos 25 anos de idade, supostamente por envenenamento provocado por ela, quando sob os cuidados de freiras. O seu corpo foi sepultado como indigente no Cemitério de Santo Amaro.”

Assim se consumou o nome da cidade onde moro.

Antes de (também) criticar apenas um ou outro, lembremos que o Nego de nossa atual bandeira (vermelha e preta, flamenguista!) vem de uma frase de João Pessoa que tentava livrar o Estado de uma política oligárquica, e na época representada pelos Estados de São Paulo e Minas Gerais com aquele negócio que a gente estuda em história e chamam de política do “Café com leite”.

Pois é. Confusão.

E é nessa cidade que pela primeira vez aconteceu uma Marcha das Vadias há nove dias atrás. Não pude comparecer, mesmo tendo me programado com antecedência e por causa de um trabalho. Eu estava em outra cidade, no sertão Paraibano, há seis horas de João Pessoa e que se chama Sousa.

Triste, eu sei… eu sei…

Mas enfim…

Os comentários machistas e preconceituosos que surgiram desde que começou-se a falar da Marcha das Vadias aqui, e que pareceram se intensificar quando passei a ajudar a na organização da mesma, e que em muitos momentos me tiraram do sério, hoje não me parecem tão importantes, perto de outros comentários, da conversa de bar que acabei de ter, e das fotos que compartilhei de mulheres e homens, que pela primeira questionaram falsas, limitantes e sufocantes noções de “moral”, que aprisionam seus corpos e suas mentes em prol de uma suposta ordem social, que nada mais é, a grosso modo, apenas o que possibilita manter o status quo dominante que é branco, masculino, heterossexual e classe média.

E o que Anayde (o sobrenome é Beiriz, se lhe interessar) tem a a ver com isso?

Anayde se tornou a “prostituta do assassino do Presidente” por aqui na época em que viveu. Hoje ela é homenageada em casas populares e nomes de escolas. É mote de mestrado e motivo de orgulho, de uma Paraíba feminina, mas “mulher macho, sim senhor” retratada inclusive por Tizuka Yamazaki em filme.

Mas sabe o que ainda assim me entristece?

Não achei nenhum texto, nenhum, nenhunzinho, dentre muitos que ela tenha possivelmente escrito enquanto pensadora da sua época, porque sim, ela não era apenas uma mulher dividida entre uma coisa e outra, entre um ideal e outro, entre alguém que lavava sua honra e outro que a dizimava…

Ela era poeta, professora, pensadora, escrevia em jornais, vivia entre intelectuais, ditava opiniões…

A única poesia disponível na web coloca-a como um personagem dúbio, entre puta e santa, entre mártir a algoz. Isso é bom ou ruim? Inclusive enfia historicamente, um outro homem a quem ela escrevia. Isso é bom ou ruim?

Ah, tudo bem, tudo bem… a vida é assim mesmo…

É?

Quem é essa mulher alem desses homens? Além da história?

E você, quem é além desse ou daquele? Disso ou daquilo?

Então escrevo esse texto como quem pede: questionem seus pensamentos e padrões!!! Suas histórias!!!

Sejam livres! A liberdade é uma escolha, mas precisamos lutar por ela, acreditem!!!

Que ninguém, além de você mesm@, possa escolher quando calar e quando falar. E em que tom. Não são nossos peitos que algumas pessoas que nos criticaram não queriam ver, porque “isso” toda a sociedade assiste hipnotizada em desfiles de carnaval e em qualquer programa de televisão.

Não se deixe iludir!!!

O que penso sobre os críticos da Marcha das Vadias aqui, na minha cidade, é que essas pessoas não queriam, quando reclamavam das pessoas, homens e mulheres, que defendiam uma causa, era ter que escutar os gritos de dor, medo e revolta escondidos durante muito tempo. Palavras que clamam justiça, igualdade e liberdade.

Porque eles incomodam quem prefere manter-se dormindo em sua zona de conforto e não quer pensar sobre si mesm@ e no quanto suas escolhas, mesmo que seja a de manter-se em silêncio, arrombar casas ou “defender a honra”, também destroem, machucam, mutilam e matam.

De quem você é filh@? Qual seu sobrenome? De que partido?  Com que roupa?

Sim, mulheres também são machistas, como muitos nos apontam os dedos para não ter que novamente (ai, que cansaço!) pensar sobre si.

Sim, talvez eu seja preconceituosa e carregue machismo como todo mundo, vejam só! Mas eu não sou só mulher, artista, pagã, romântica, divorciada, filha, amiga, feminista, louca, poeta, machista ou preconceituosa. Novas versões de mim podem surgir simplesmente quando penso, questiono ou apenas aceito que certas atitudes que tomo e pensamentos que tenho, farão diferença no meu caminho, só ou acompanhada, mesmo nesse mundão tão grande, todos os dias, todas as horas, em todos os momentos. Que posso inclusive MUDAR meus pensamentos, se eles forem machistas ou impliquem em qualquer dor ou mágoa, se eu for preconceituosa ou sexista com meu semelhante.

A Marcha não mudará nada? Faremos alguma diferença?

Minha cidade poderia se chamar Anayde, se ela não tivesse sido tão esquecida, mesmo quando lembrada. E a sua?

P.S: Nenhuma luta é isenta. Nenhuma bandeira é carregada sozinha. Esse texto é para Ieda, Tony, Wagner e Lauro. Porque sim.

P.P.S: As imagens que ilustram esse texto acima foram “roubartilhadas” do grupo Marcha das Vadias João Pessoa no facebook. Exceto a que me conta (ou não) aí embaixo.

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* Raquel Stanick, de acordo com ela mesma, não é, mas está, artista visual, entre mil outras e tantas coisas (inclusive quase sempre apaixonada) lá pras bandas da Paraíba. Delicada, arruaceira, mocinha do bem, mulher da noite, poeta do amor fácil e da vida difícil (e outras tantas vezes o inverso), é, não apenas biscate na vida mas biscate-fixa-escrevente no nosso clube. Quer mais Raquel? Ela é colunista da Revista Mostra Plural, se desalinha em Todas Essas Coisas Sem Nome e ainda tem este blog onde você esbarra em um pouquinho do lindo trabalho dela: Ceci, n’est pas un blog .

“É água no mar, é maré cheia” – As Biscates da Zona Costeira Cearense

GUEST POST Por Tiago Costa*

“É do medo que nasce a coragem”  — Mentinha, pescadora da Comunidade de Curral Velho, Acaraú – CE

Imagem do I Encontro Estadual de Mulheres Pescadoras do Ceará -- 27 a 29 de novembro de 2009, em Fortim (Foto: arquivos Terramar)

Conheço muitas biscates: Teens, de classe, desfrutáveis, mães, militantes, feministas… Todas mulheres incríveis e fantásticas!

Quero, nesta oportunidade, falar de outras biscates com quem convivo desde 2006, quando ingressei no movimento socioambientalista na Zona Costeira Cearense. Com elas dividi e divido momentos de luta, de mobilização, de resistência, de desabafo, de ruptura e de muitos risos, festas, conversas e confidências nos terreiros de suas casas: são as mulheres pescadoras!

É muito comum, mesmo na zona costeira, atribuir à pesca como uma atividade masculina. Isso porque nessas comunidades a atividade masculina é mais centrada, enquanto que as atividades das mulheres tendem a ser mais multidirecionadas. Em outras palavras, os homens dão conta das atividades produtivas: pescam ou cuidam da lavoura; as mulheres, além de pescarem e cuidarem das lavouras, dão conta do trabalho reprodutivo (cuidam dos filhos, idosos e doentes, cozinham, lavam, passam, etc.).

E porque essas mulheres são biscates:

Primeiro, mesmo desenvolvendo inúmeras atividades dentro da cadeia produtiva da pesca, essas mulheres sofrem grande invisibilização, inclusive de seus companheiros. Contra isso, elas estão lutando e se organizando para o seu reconhecimento enquanto pescadora, pautando e articulando as políticas específicas de proteção, de assistência técnica, previdenciárias, etc. que demandam a sua participação no setor pesqueiro.

Segundo, nos conflitos socioambientais na zona costeira, são elas que costumam a ser mais afetadas e são elas que estão na linha de frente, nos momentos de denúncia, de articulação, de mobilização e luta contra os projetos de desenvolvimento que destroem seus modos de vida, sua cultura, suas atividades e seu meio ambiente. Posso citar aqui a trajetória da pescadora Mentinha de Curral Velho, que na luta contra a expansão da carcinicultura sobre os manguezais ou no avanço das eólicas que desterritorializam comunidades, sofreu e continua sofrendo ameaças de morte, mas nunca se calou: tornou-se uma grande liderança; viajou meio mundo – chegando a ir representar as pescadoras em um encontro na Índia -; e ainda escreve poesias e frases, como esta que inicia o post.

Terceiro, essas mulheres estão se descobrindo mulheres, falando de si mesmas, construindo conhecimentos, resgatando saberes e se descobrindo a cada dia sobre o seu “estar no mundo”, problematizando questões não apenas sobre o seu trabalho, mas também sobre os seus corpos, as suas vidas, os seus cotidianos e os seus direitos enquanto mulheres.

“(…) e quando a gente se descobre mesmo, como mulher, então a gente começa a se sentir responsável pela história, não só a nossa, mas a história da sociedade, a história das outras mulheres, a história do mundo, – da vida, né?” — Nazaré Flor, pescadora/trabalhadora rural do Assentamento Maceió, Itapipoca – CE

Quarto, para finalizar, essas mulheres se comprometem com uma ação política  que rompe com os paradigmas do patriarcado sem se verem atreladas ou engolfadas em movimentos estranhos as suas preocupações e interesses específicos, através da Articulação de Mulheres Pescadoras. Elas têm aprendido a se reinventarem e a se imporem no seio do movimento feminista contra a dominação simbólica. Com o apoio desse movimento, essas mulheres tem se mostrado capazes de dialogar, de elaborar uma fala pública e de se manifestarem contra instituições que contribuem para eternizar a sua subordinação.

“A grande vingança nossa é a esperança. A mudança traz a ruptura – e às vezes só acontece no grito, na marra” — depoimento de uma pescadora no I Encontro da Articulação das Mulheres Pescadoras do Ceará (AMP-CE)

Logo, desconstruindo as imagens essencialistas que geralmente são atribuídas às mulheres que vivem na zona rural e na zona costeira, espero ter trazido um pouco sobre esse ser biscate dessas mulheres, que reivindicam sua condição de pescadora e lutam por seus direitos, construindo sua própria organização e mobilização contra o patriarcado e contra a lógica capitalista de desenvolvimento.

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* Tiago Costa é um cearense divertido, alto astral, parceiros de todas as lutas. Engenheiro de Pesca, de esquerda, trabalhou junto a organizações da sociedade civil e movimentos sociais, é ativista dos Direitos Humanos, ambientais e de pescadores/as e “quase” mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFC. Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

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