Ela

Desde aquele dia, não fui mais a mesma…

A iniciativa foi dela. Sem que eu esperasse – ou me desse conta do quanto queria – recebi o doce e forte toque dos seus lábios. Os meus, tímidos, aceitaram este encontro. E meu corpo já não estava mais sob controle.

Ela sabia disso. E assim, me fiz entregue…

Aliás, ela sabia tantas coisas sobre o meu corpo que parecia conhecê-lo há muito tempo. Cada carícia dela me mostrava o que, por muitos anos, neguei a mim mesma sentir. Ela me ajudou a descobrir não apenas desejos, mas também um pouco de quem realmente sou.

Desde aquele dia, o que sinto por ela é gostoso e conflitante. Gostoso porque flui, sem grandes esforços de ambas as partes. Conflitante porque ainda existem em mim barreiras que me impedem de dizer a ela o quanto a quero outra(s) vez(es). Algumas dessas barreiras, infelizmente, eu mesma coloco. Porque sou aquela pessoa toda errada que não lida tão bem assim com as próprias vontades…

Acho que tudo seria bem mais fácil e menos doloroso numa sociedade aceitasse e compreendesse que o desejo muitas vezes transcende gênero e sexo. Que não diminuísse ou colocasse em descrédito as bissexualidades. Que não fizesse com que em alguns momentos, eu e mais um monte de gente pensasse que sentir algo por outra mulher fosse menor/uma fase/ uma mera experimentação.

No mais, tô aqui ensaiando como dizer a ela o quanto gostaria de ter ela em meus braços denovo. E como agradecê-la por ela, sem saber, ter me tirado desse limbo que é a negação…

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Reflexões Biscates

Por Thayz Athayde, Biscate Convidada

Próximo ano serei uma mulher balzaquiana. Sim, farei 30 anos. E não estou reclamando, tô achando bom, curtindo e achando gostoso. E aí que eu fiquei observando minhas sobrinha e irmã, que estão na faixa dos 15 anos. As duas já conhecem o feminismo e isso faz com que elas tenham acesso a debates e reflexões que eu não tive nos meus 15 anos. Então, fiquei pensando como teria feito as coisas se tivesse conhecido a biscatagem e o feminismo antes, se eu teria feito as coisas de uma forma diferente.

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Não se engane: eu aproveitei muito quando era adolescente. Mas, eu não tinha coragem e o empoderamento suficiente para entender que ser biscate é… bom! E então, eu aproveitava a vida, me divertia, mas a noite eu sentia aquela culpa. Aquela culpa chata por não ser uma mulher santa. Não tinha força suficiente para dizer para todos os amigos e amigas que sim, sou biscate e não tô nem aí para o que você pensa.

Se tivesse me assumido como biscate, eu teria feito sexo muito mais gostoso. Teria feito o sexo que faço hoje, o sexo sem culpa. Teria ficado com mais meninos e meninas, que eu não tive coragem por achar que “o que será que vão pensar de mim?”. Não teria ficado ou feito sexo com algumas pessoas, justamente porque ser biscate é saber o que deseja. E seguir seu desejo também passa por dizer não. É também decidir quem pode te tocar e quem não pode.

Teria menos vergonha do meu corpo, me sentiria muito mais bonita. Me sentiria livre muito mais vezes e insegura menos vezes. Teria ficado nua mais vezes. Teria admirado meu corpo e me deixaria ser admirada. Saberia que para ser bonita e gostosa não é preciso estar dentro de um padrão de beleza.

Teria me desculpado menos por quem sou e teria aproveitado as relações de uma forma bonita, intensa e almodovoriana, como a vida deve ser. Teria entendido que uma relação para ser boa não precisa ser necessariamente longa ou monogâmica. E para ser ruim não precisa ser longa e nem monogâmica. Só precisa de duas pessoas. Três. Quatro. O número que sua imaginação quiser.

Entenderia que uma relação é feita muito mais na confiança em si mesma e no olhar bonito ou cruel que você tem sobre si. Ainda viveria todas as dores, choros e noites mal dormidas, afinal, essa é a parte almodovoriana da coisa e eu sou especialista nisso. O sentir passa por viver as sensações, mesmo que seja de tristeza. E por que não chorar? Por que não vivenciar?

Teria ficado com mais mulheres e esquecido toda aquela culpa. Não entendia como poderia sentir atração por homens e mulheres. Sentia-me esquisita por isso. Não é esquisito não. É bom, é gostoso e não há nada de errado nisso. Teria me assumido bissexual muito mais cedo. Teria entendido todos os meus desejos e pensamentos com mulheres como algo tão comum quanto meus pensamentos em relação aos homens.

Talvez o meu relacionamento hoje seja tão gostoso porque eu aprendi todas essas coisas. E quando vejo garotas cada vez mais cedo se assumindo feministas e biscate eu penso: uau! Ela não vai passar pelas mesmas coisas que passei. Então, isso aqui é um recado de uma mulher que aproveitou e se divertiu muito, mas que teria se divertido e aproveitado muito mais se tivesse deixado biscatear. Você não precisa ser santa. Não precisa ser puta. Você não precisa ser nada. Só permitir-se sentir. Não importa com quantos meninos e/ou meninas você fica. Não importa o olhar de rejeição que você recebe. Eu sei que é difícil entender tudo isso, mas se você precisar de apoio tem um monte de biscates aqui pra te dizer que tudo isso é ok, e que vai ficar tudo bem.

euA Thayz é bi: bissexual e biscate. É também feminista, almodovoriana e babadeira, ela quer mesmo é desmontar as ideias montadas

Sou Bissexual Não Sou Indecisa

Texto de Sara Joker com participação especial de Thayz Athayde

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Porque você fala tanto que é bissexual? Pra que falar sobre isso se você, atualmente, namora um homem? Poderia deixar quieto e viver sua vida sem preconceito? Ora, porque namorar um homem não me faz hétero, a minha orientação sexual continua sendo bissexual.

Eu poderia deixar quieto se conseguisse apagar todo o preconceito que passo por ser bissexual, mas não posso apagar, sou bissexual desde sempre, já amei mulheres cis e trans, já amei homens cis. E esconder uma parte da minha identidade me fará incompleta e infeliz. Passei anos da minha adolescência escondendo minha sexualidade, por me achar estranha. Acreditava que amar mulheres e homens era errado, que tinha algo errado comigo.

Se eu me abrir, lutar, brigar junto axs minhxs companheirxs de militância, e isso puder fazer com que outras pessoas não pensem que são erradas, que não são aberrações (como eu pensei de mim mesma), continuarei levantando a bandeira de bissexual.

No movimento LGBT, somos invisíveis, esquecem de nossa existência, somos xs enrustidxs, xs indecisxs. Algumas pessoas acreditam que não sofremos tanto preconceito, pois podemos escolher ter uma relação heteronormativa. Não é verdade, não há escolha, não escolhemos quem vamos amar. Tipo “ah, acho que hoje vou me apaixonar por uma mulher!” Não é assim, sofremos com a insegurança de algumxs parceirxs, namoradxs, ficantes. Mulheres bi são alvo de objetificação por alguns homens (“pegar menina bi é legal porque ela é liberal e vai fazer ménage. Mas não namora não porque ela pode te trocar por outra mulher.”). Mas, mesmo assim, assumimos nossa bissexualidade.

Uma amiga lésbica me disse, uma vez, que eu era corajosa, que acha bonito eu levar tão a sério a militância LGBT. Na época, estava em um relacionamento bem estável e longo, ou seja, poderia me esconder naquele relacionamento de anos, como posso me esconder no atual, e fingir ser hétero. Poder, eu podia, mas não devia, seria desonesto comigo mesma. E era isso que ela admirava em mim, eu estava dando a cara a tapa, mesmo sabendo que podia me esconder. Pra mim, ser bissexual é dar a cara a tapa todos os dias contra a invisibilidade.

Não é possível esconder a bissexualidade. Pelo menos não de mim mesma. Então, assumir-se bissexual e lutar contra a bifobia não é apenas uma questão de escolha mas é dar cada vez mais visibilidade à bandeira bissexual e demandar respeito e espaço. É desconstruir estereótipos sobre a bissexualidade, entre eles, que quando uma mulher, como eu, está em um relacionando com um homem, isso não faz com que eu me “torne” heterossexual. Namorar uma mulher não me torno lésbica. A luta pela visibilidade bissexual é justamente para que as pessoas entendam que não existe apenas orientações monossexuais. Mesmo estando em um relacionamento com uma pessoa de determinado gênero, ainda assim, continuo sendo bissexual.  É como diz aquele música que não canso de gritar nos protestos: eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser.

Leia também: (in) visibilidade bissexual no Blogueiras Feministas

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual organizada pelo Bi-Sides.

Amores muito possíveis

As personagens masculinas e femininas não fogem muito dos conflitos básicos de desenvolvimento da trama: amor/paixão, família, dinheiro/ambição. Se o gênero do personagem for masculino ou feminino isso terá diferença fundamental nos principais conflitos a serem desenvolvidos isso porque em geral se o personagem for homem o principal problema será dinheiro/poder, depois virá o conflito  amoroso e talvez junto o conflito familiar. Se for mulher o principal conflito passa a se dar no campo amoroso, podendo ser no amor familiar ou no amor com o parceiro, depois poderá haver, ou não um conflito envolvendo poder (no trabalho, empresas da família, etc). Afinal os grandes dramas da humanidade são mesmo amor, família e dinheiro, né?

E daí temos uma personagem feminina com um drama amoroso e familiar sendo muito bem defendida pela Suzy Rêgo (que a internet toda já brincou que pode fazer um filme sobre a vida da Dilma). Acontece que acham inverossímil a forma como a personagem defende o marido e aceita o relacionamento extraconjugal dele e consequentemente a sua bissexualidade. O texto, e a interwebs, só faltou chamá-la de corna mansa.

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Eu noto uma tremenda confusão sobre bissexualidade e homossexualidade e relações não monogâmicas. Mas boa parte da culpa disso é do texto que não deixa claro o tipo de relação que Claudio e Beatriz tem e a falta de um núcleo próprio para Beatriz que seja extra-família. Um núcleo com trabalho, amigas, algo para que ela pudesse viver que não orbitando em torno do problema, mas… Beatriz trabalha com Cláudio… puxado.

Ademais o texto da novela  trata a bissexualidade como se fosse o casso de um homossexual enrustido, como se fala lá, quando na verdade o bissexual sente desejo e amor pelos dois sexos. Ademais não é impossível que alguém ame duas pessoas ao mesmo tempo. Isso acontece milhares de vezes todo dia por aí mas ninguém comenta nem o Tio Mark deixa postar esse status de relacionamento do feissy, e isso não tem nada a ver com baixa auto estima, são só as diferentes possibilidades de amar.  A repressão social não deixa que se comente os diferentes tipos de relacionamentos abertos (cada um tem o seu ponto de equilíbrio) mas isso não quer dizer que eles não existem e que as pessoas não são felizes, tem libido e auto estima elevadas.

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Sendo assim reduzir a personagem da Suzy Rêgo de uma mulher que ama o seu marido, vive feliz com ele, é equilibrada (e por isso passou a ser chamada de chata, notem que todas as pessoas equilibradas são chatas) a uma dona de casa desesperada para manter o marido e sem amor próprio é muito pouco. Torço pelo triângulo amoroso e espero conferir mais na novela, mas novelista é igual juiz, nunca saberemos o que  virá.

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