Ainda enterrado em cova rasa o AI-5 completa 45 anos

Por Niara de Oliveira

E as mulheres com isso?

*esse texto faz parte da VIII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

grafite, de Gabriel Muniz

Em quase todos os momentos da história da cultura judaico-cristã o simples fato de ser mulher e ir um passo além do papel designado pela sociedade patriarcal já nos colocava na situação de subversiva. E foi assim na resistência à ditadura.

“Fica evidente que para a ditadura militar brasileira, a mulher militante não era apenas uma opositora ao regime militar; era também uma presença que subvertia os valores estabelecidos, que não atribuíam à mulher espaço para a participação política. Como esta questão está presente na sociedade e nas próprias organizações de esquerda, pode-se concluir que as relações de gênero têm uma dimensão que perpassa todas as instâncias e instituições sociais.
Para uma história das mulheres é imprescindível que a história seja entendida como resultado de interpretações que têm como fundo relações de poder. O caráter de construção da história nos permite desconstruir e reinventar a história, inclusive o papel dos homens e das mulheres na sociedade. Assim a história passa a ser vista como um campo de possibilidades para vários sujeitos historicamente constituídos; lugar de lutas e de resistências.”
As mulheres e a ditadura militar no Brasil, artigo de Ana Maria Colling ICH-UFPel

Se os atos institucionais, entre eles o desgraçado AI-5, foram dando as desculpas legais para toda sorte de arbitrariedade nos porões das delegacias e “departamentos de ordens e segurança” durante a ditadura militar contra quem ousava criticar e se insurgir, contra as mulheres nada disso nunca foi necessário. Embora a subversão das mulheres nunca tenha sido tolerada, também nunca precisou de uma ditadura oficial para ser combatida especificamente. Mas, mulheres subversivas e comunistas já é vandalismo. E embora também não tenha sido fácil para as mulheres (como ainda não o é) enfrentar o machismo da esquerda e se destacarem como quadros políticos na resistência, nunca se teve dúvidas sobre quem era o inimigo maior. E enfrentamos os mesmos horrores.

Difícil dizer se na tortura a crueldade era maior com mulheres. Tortura é cruel, desumano e abominável. Ponto. Claro que haviam os abusos continuados, porque alguns torturadores usavam presas como objetos sexuais diariamente, independente da tortura outra, para arrancar informações e para “quebrar” militante. Estavam ali mesmo, “à disposição”. Sevícias eram comuns com homens e mulheres, fazia parte da cartela de crueldades. Úteros perfurados, filhos roubados, mães logo após sessão de tortura expostas à visita dos filhos, grávidas torturadas… Muitos e horríveis são os relatos do período, ainda não oficiais, ainda não inclusos na história oficial do país, ainda não julgados, ainda colocados em dúvida.

45 anos após aquela tenebrosa sexta-feira 13 de dezembro de 1968 ainda tememos as delegacias, os abusos, a tortura, os desaparecimentos. Ainda tememos a polícia, homens e mulheres que ousam se insurgir contra… qualquer coisa. Basta ser consideradx subversivx. Estar com uma câmera, profissional ou celular, na mão e “ameaçar” registrar os crimes dos agentes da lei. Basta estar com uma garrafa de desinfetante no lugar errado — ou no lugar certo, do ponto de vista do Estado e da polícia que precisa responsabilizar alguém, e se for preto e pobre fica “melhor responsabilizado ainda”.

Embora não estando oficialmente num estado de exceção, o Estado não é seguro. As ruas não são seguras para subversivos e insurgentes, homens ou mulheres. Como bem lembrou a Suzana Dornelles, o AI-5 está enterrado em cova rasa, e se não estivermos atentos e vigilantes talvez nem precisemos de outro ato institucional para vivermos mais horrores nessa “democracia”.

Leia também:

E assista:

“Que Bom Te Ver Viva”de Lúcia Murat:

As poetisas: Alessandra e Formiga

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Alessandra Reis

Alessandra Reis, 34 anos, solteira, filha de nordestinos, negra, lésbica. Residente do bairro de São Miguel Paulista desde que nasceu (salvo por um ano e 3 meses em que se refugiu em terras Soteropolitanas). Foi professora de educação infantil por 8 anos, é artesã e se arrisca nas linhas da escrita e poesia (não se considera poeta), é vegetariana, acredita na força da união e nas lutas sociais, sonha com um mundo onde exista mais respeito, tolerância, compaixão e amor ao próximo. Ativista na luta pela divulgação das Doenças Falciformes, é Coordenadora Financeira da Associação Pró Falcêmicos APROFE, uma instituição sem fins lucrativos que tem por missão contribuir na melhoria da qualidade de vida dos portadores desta anemia e de propagar informações para familiares, profissionais da saúde e população em geral.

[*sem título – nota BSC]

Eu trago estrelas na alma
a iluminar-me por dentro
nascendo e renascendo
reafirmando-me a Luz
que brilha internamente
e aos meus passos conduz
Eu trago a chama de um fogo
um sol que vem me aquecendo
surgindo não pela metade
na resplandecente Verdade
que me leva em liberdade
a reencontrar-me de novo.
Reencontrar-me na Cruz, 
a ser reafirmada em silêncio,
que na Palavra se encontra.
Ter a mais firme esperança
da Vida que vai soerguendo 
e aos poucos revigorando
os erros desta humanidade
que se perdeu da Verdade
e  foi se escurecendo
nas sombras que em si foi erguendo.
Eu trago em mim a vontade
de ressaltar uma voz
a voz que vem do espírito
que nos conduz ao equilíbrio
que reconduz nossa ação
esta é a voz da intuição
que abafará o malefício
que a humanidade exaltou
que calará os barulhos
que a mente em si reforçou.
Eu trago assim a certeza
de que nada há a temer
pois tudo então colheremos
para o nosso amadurecer
e despertar para a Luz.

20130823_AntonioMiotto_ale-7

.-.-.-.-.-

FORMIGA

Moradora do região sul da capital paulistana, poetisa.

Formiga

Formiga

Minha poesia que eu acho mais a cara o 29 de agosto é essa aqui:

*Lésbika Antiestétika

Ela cola, Ela olha, Ela bate um flash, Ela ocupa teu abandono

e tranforma em squat

Ela é mudança, Ela ri, Ela quer assumir, quer amar, quer

beijar quer quer o preconceito abolir

ELA abranda, ELA é anti moda, Ela é capaz, Ela é punk, Ela

é rap, Ela é guerrilheira da paz

Ela é manax, Ela é ación directa, Ela é capoeira,

Ela é revolución, Ela é mente fecunda, Ela é antissexista,

roda o globo, pedala na pista, Ela é...

Ela é negra na cor raspou o cabelo, Ela é autoestima

em frente ao espelho, Ela é...

Ela é Frida , Ela é Angela Davis, ela é Valerie Solanas,

faz prosa, faz verso, Ela é fortaleza,

Ela é Amazona, Ela é memória viva, Ela é sutil, no

Verso exposto ela tem franqueza, sua ginga é

vera

destreza, Ela é...

Vai que vai!... Lésbika antiestétika

Lésbika antiestétika já rimou

Ela é  poétika revolucionou

Antiestétika o mito da beleza destruiu

Vai que vai!... Lésbika antiestétika

Lésbika antiestétika

Seu abraço feminista é acolhedor

na denuncia anti machista sua voz é amplificador

“Ela é Banto, é Nagô, é Iorubá”, Ela é anti heteroNORMATIVA, vai te escrachar

Ela rima, Ela decora, Ela berra, Ela cria, Ela não bebe e ser livre de
drogas propaga, Ela...

E a resistencia não acaba... lesbianidade É REBELDIA também...

ela vai  mais além

Ei DJ "dead men don´t rape", que Ela é mudança, Ela ri, Ela quer

assumir, quer beijar, quer amar,

Quer a lesbofobia abolir ... “Ela é zica na cena”, Ela é poliamor

“Ela é ie ie ie ie, ou ou ou ou”...

Movimento P I N T O C O R E ela é skateboard. Ela está compondo

uma canção porém Ela é Rebel Girl, Ela é ms. 45

hein?! Ela é cheia de marra também já viveu, já

sofreu o heteropatriarcado racista na pele... tem parceria na ZN, ZS, ZO
América Latina, ABC e ZL...

Podia me apaixonar...

Ela batuca e protesta, Ela é quem forma a ciranda e DE MÃOS DADAS com a
irmandade

ilumina o breu,

Sororidade é noiz valeu.... ooo MANAXS QUE fortaleceu...

Críticas de uma guerreira Black, é a feminista radical is back, vai

vendo mulequA, Ela é capaz

de deixar os pelos do suvaco crescer e não voltar atrás, Ela é...

Vai que vai...! Lésbika antiestétika

Lésbika antiestétika já rimou

Ela é poética revolucionoau

Antiestétika o mito da beleza destruiu

Vai que vai!... Lésbika antiestétika

Lésbika antiestétika...

Lésbika antiestétika já rimou

Ela é poétika revolucionou

Antiestétika o mito da beleza destruiu

Vai que vai!... Lésbika antiestétika

Lésbika antiestétika...

* Lésbika Antiestétika é uma versão poética da música Mulher Elétrica dos
Racionais Mc´s.

formiga, poetisa. São Paulo, 04/07/2013

A postagem faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

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A Biscatagi e a Visibilidade Lésbica

Lésbicas. Mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com outras mulheres. Diariamente invisibilizadas nos discursos que, no máximo, as tratam por gays ou homossexuais, obnubilando o gênero, as lésbicas sofrem preconceito por sua orientação sexual e seu gênero, preconceito este agravado quando são mulheres trans. Pois não aqui e, especialmente, não agora. Respondendo ao chamado da Blogagem Coletiva de Visibilidade Lésbica e Bissexual, começamos não uma semana, mas uma quinzena de postagens que – do nosso jeitinho biscate, trôpego, tateante (ui) de quem tá sempre tentando fazer o melhor, embora nem sempre acerte – colocarão holofotes e megafones bem onde a sociedade vela e cala: lésbicas, lésbicas, lésbicas (incomodou, benzinho? lê mais um pouquinho)
A biscatagi decidiu se unir ao movimento da visibilidade lésbica, que tem como dia de comemoração oficial o dia 29/08, e soltar o verbo sobre o tema. Falar, sem pudor, sem meias palavras, sem receio. Visivelmente, como queremos que todos e todas sejamos. Falar pra escancarar os preconceitos, as limitações, as dificuldades, as sombras que caem sobre o que a sociedade heteronormativa, cissexual, racista, cristã e classista rotula de diferente e indesejável. Estamos aqui, biscatemente, pra incomodar, ao lado do que causa estranhamento e desconforto, somos vadias, gays, lésbicas, transexuais, poliamoristas, macumbeiros, bissexuais, negros, índios, feministas. Estamos com.
A idéia da nossa quinzena não é falar por, não é falar no lugar de, não é ocupar o espaço. Nossa semana quer dar a ver. Mostrar. Chamar pro centro do palco. Ouvir. Queremos estar juntxs, despidxs, entregues e livres. Não somos, aqui, todxs lésbicas ou bissexuais, mas queremos estar ao lado de quem desconstrói um mundo lesbofóbico e bifóbico. Biscate é uma mulher, um homem, um ser humano que se quer livre. E não há liberdade possível em um mundo onde mulheres são agredidas diariamente por sua orientação sexual. 
Nós, biscates do clubinho, temos sonhos. Que os rótulos sejam para quem os deseja e não uma violência externa e imputada. Que todos possam se assumir, transgredir, extravasar. A definição a quem a deseja, a não definição aos que assim decidam. Queremos respeito pelas nossas diversidades e vivências sexuais, queremos a desconstrução, o gozo livre, queremos ser o que quisermos ser, sem penas ou juízes arbitrários.
 
Queremos mesmo é que nos amemos livre e loucamente entre nós, queremos é que, dentro do desejo de cada um, gozemos. Queremos mesmo é sermos felizes sendo quem somos. Queremos é um mundo em que mulheres que desejam outras mulheres sejam livres e que se amem, que se beijem, que trepem, que se deliciem e que sejam. E que sejam assim, sem precisarem se esconder, sem precisarem de bar específico, sem precisarem de fachada. Que sejam assim, no meio da rua, no dia-a-dia, nas esquinas, nas padarias, nas casas abertas e fechadas e aonde for. 
 
E os incomodados é que engulam, porque vamos, cada dia mais, viver abertamente como somos. Que venha a Quinzena Biscate de Visibilidade Lésbica e que nunca nos calemos até que seja trivial e fácil ser quem se é gozar como se quer. E, por agora, você pode ir se informando, se divertindo, se antenando nesses espaços virtuais…luz na passarela que lá vem elas:

Abolição, ou pelos olhos do lobo*

Meu lugar em casa sempre foi a cozinha. O lugar onde sempre me identifiquei. Onde sempre brinquei com as panelas entre as pernas da minha mãe; onde sempre ajudei a tomar conta dos meus irmãos; onde sempre fiz todas as refeições, sem exceção para escapadelas na sala vendo televisão; onde sempre fiz meu dever de casa e estudei; onde sempre conversei sobre tudo e ainda converso. A cozinha é o meu lugar em casa.

Filho Bastardo - Adriana Varejão

Filho Bastardo – Adriana Varejão

Ainda que de família pobre, mas de imigrantes europeus e sírio-libaneses (com um passado caboclo e indígena tão no fundo que não é sequer possível identificar), a trajetória da minha família sempre esteve fadada a cumprir a “Boa Nova da América”. Crescer, multiplicar, vencer na vida e dar trabalho a quem precisa. E, nisso, se dar ao luxo de ter, ainda que passando de classe média-baixa, média-média e média-alta, conforme o tempo, empregadas pra a tranquilidade da família.

Não me lembro de ter ficado, durante minha vida, muito tempo sem empregadas. E, vivendo num estado esbranquiçado como o é o Espírito Santo, não raro elas foram de todos os tipos e lugares, mas principalmente mineiras e baianas, negras. Mulheres das mais diversas características. Mas a cor não era um senão, ou pelo menos a entendia como se não fosse.

Viver em áreas de transição, estudar em escola pública, brincar na rua sempre me possibilitou um contato muito grande com negros. Isso sempre me fez senti-los como próximos, mas sempre diferentes, por uma simples questão de status social, afinal, eu sempre era, na infância, da família de melhor condição de vida, o filho do funcionário público, aquele cuja família tinha empregada, lavadeira e que, claro, não tinha negros na família.

Em um tempo (isso remonta há pelo menos 25 anos atrás) em que a injúria não era velada, cresci ouvindo e utilizando os piores registros linguísticos para denominar um negro! Piadas de toda sorte, que meus colegas negros da rua também contavam e riam. E ainda hoje alguns são capazes de rir, dizendo que se não rirem da própria desgraça não podem rir de nada…

Mas foi principalmente na cozinha, onde sempre recebi o cuidado das empregadas, que conheci o que era, naquela época, ser negro. Conviver com mulheres que abdicam da própria família, dos próprios filhos, da própria personalidade para passar oito, nove, dez horas por dia, a semana inteira na sua casa é um aprendizado. Cruel, mas um aprendizado. Não entender como isso remonta a uma necessidade diariamente auto-afirmada de sobrevivência é criminoso.

Na cozinha da minha casa vi mulheres de todos os tipos, jeitos, caracteres, credos, estimas e estigmas. Conversei com todas, convivi com todas. Fui mimado, educado, aconselhado, recriminado por todas. Não que tivesse pais ausentes, pelo contrário, mas quando se passa muito tempo na cozinha de casa, é impossível não atrapalhar o serviço das empregadas com coisas de crianças!

Carpeaux  - "Pourquoi naitre esclave" - Abolição

Carpeaux – “Pourquoi naitre esclave” – Abolição

Essas mulheres nunca se mostraram a mim como vítimas e também nunca as vi assim. Quando já “grande” e nas melhores escolas e segundo grau, quase sem negros em volta, mas ainda com empregadas (e, agora, com todos ao meu redor na mesma situação), nunca consegui me curvar ao discurso da vitimização. As mulheres que, durante a minha infância, ajudaram a formar aquilo que sou, nunca me deram essa idéia, nunca se colocaram de um ponto de vista frágil. Pelo contrário, sempre me foram um modelo de que a vida se vence, pela luta e por todos os meios que a condição de inferioridade se nos colocam nessa luta.

O que eu entendi, depois com minhas aulas de história, geografia, sociologia, filosofia, direito, ética, é que essas mulheres são o exemplo velado de um falso modelo de sociedade. Essas mulheres, em sua abnegação ao próprio, em sua vulnerabilidade ao individual, em sua atenção (as vezes extremada, as vezes branda, as vezes negligente) àquilo que não lhes pertencia por ser seu, mas por buscarem nisso (a minha família) a própria sobrevivência, me deram uma dimensão de respeito ao outro que não tenho como recusar.

E essa consciência, tampouco, representa algo que me assumiu em uma epifania. Ninguém acorda no dia seguinte ao ler Casa Grande e Senzala e se dá conta disso. Ao contrário, muitos que leem Casa Grande e Senzala (e se regozijam com isso) apenas o reproduzem de forma mascarada. E é recorrente aquilo que vejo e aprendo na cozinha de casa.

Ao longo dos anos, foram essas mulheres que me trouxeram o cheiro da realidade que só me pintava às mãos pela tinta dos jornais, ou apenas me era aceso aos olhos pela luz da televisão. Foram essas mulheres que me trouxeram o outro lado da realidade, a que se vive e que, em certo sentido eu convivi na infância, mas que hoje não faria parte do que me é dado (ou do que procuro) conhecer do mundo.

É só por essa realidade que sou capaz de entender que, em 125 de abolição, o que a sociedade em que eu vivo representa é um recorrente choque de ordem. Choques de ordem que se empenham em conceder migalhas de direitos. Choques de ordem que buscam encobrir um estado social em que o trabalho e o esforço só são capazes de gerar a sobrevivência, mas nunca a vitória.

Choques de ordem que mantém pobres, os miseráveis; negros, os criminosos; e as mulheres que trabalharam ao longo dos anos na minha cozinha, as mesmas mulheres que, sem motivo nenhum para ter vergonha, continuarão lutando pela própria sobrevivência e abdicando das próprias vidas. E não se trata só de pensar em “o que é que eu posso fazer para mudar isso?”. Abolição não é algo que se faz, abolição não é algo que se entrega e se diz “vá, agora és livre, cuides da tua vida, deixes de ser aquilo tudo que sempre fostes e muda”.

Abolição é como a sociedade vive e se constrói e, perdoem-me, as mulheres que entram na minha cozinha todos os dias de manhã só são capazes de me mostrar, ainda, que essa abolição não é plena. Não é plena, porque mesmo com as subsequentes conquistas e dádivas de direitos, ainda não fomos capazes de reconhecer no outro aquilo que queremos como sociedade para nós. Ainda não somos capazes de aquiescer no outro a legitimidade na luta e a busca por oportunidades, por mais impossíveis que às vezes elas pareçam.

Estamos longe e considerar próprio que libertos tomem, quaisquer que sejam os meios legais ou legítimos que os levaram lá, lugares de destaque, sem ouvir, nos mais diferentes tons possíveis a reprovação acompanhada, não raro, da expressão (quando muito bem politicamente correta colocada) “aquele negro”.

Enquanto a cor, o sexo, ou condição continuarem a ser um parâmetro de identificação na nossa sociedade, não se enganem, a abolição ainda não terá chegado. Enquanto for necessário ver na ação e na conquista algo que tenha que ser tomado como igual ao invés de sê-lo, nossa realidade ainda estará fadada a criar meios de exclusão. Enquanto a cidadania tiver que ser celebrada como um meio de conquistas esparsas e não como um âmbito da satisfação de direitos, ainda estaremos apenas reproduzindo um vulto daquilo eu nos foi posto como liberdade.

E é isso. Em 125 anos de abolição, a noção de fraternidade foi a que menos se esboçou para nós. Aqui, vista pelos olhos do lobo e através dos exemplos diários que entram e saem da minha cozinha, parece que uma tensão cada vez maior se forma e que conquistas ou dádivas são capazes de criar celeumas impensáveis em nome do status vigente. A abolição da escravatura, jamais significou e ainda não significa a plenitude de direitos, ela sequer tergiversou sobre o reconhecimento do outro como igual em direitos.

É esse reconhecimento que, pela busca da própria sobrevivência, essas mulheres me trouxeram e ainda trazem. É esse reconhecimento que, hoje mais claro pra mim, me parece negligenciado por um discurso do que deveria ser próprio e meritório a cada um, quando na verdade não é. Abolição não se trata só de permitir, seja em que nível for, que os demais sejam livres, trata-se de viver isso!

*Post vinculado à Blogagem Coletiva pelos 125 anos de Abolição, convidado pelo Blogueiras Negras.

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Das diferenças entre nós e da Chica

Há muitas formas de preconceito e discriminação. Todas elas têm, no início, a mesma origem: o medo do diferente, do desconhecido. No início. Porque depois esse “medo” vai dando lugar a sentimentos menos nobres ou justificáveis, como nojo e ódio e conforme crescem se tornam anomalia social, apesar de sua aparência “natural”.

Dizer que uma mulher é fácil-vadia-biscate-galinha-pirigueti-puta e apontar o dedo para ela achando que não tem o direito a sua sexualidade e a fazer o que bem entender com seu corpo é uma coisa. Todas nós, mulheres, sofremos isso em algum(ns) momento(s) da vida, sendo fácil-vadia-biscate-galinha-pirigueti-puta ou não. Dizer preconceituosamente o que somos (?) e nos negar nossa sexualidade (a gente vai lá e assume ela do jeito que der) é diferente de achar que porque somos fácil-vadia-biscate-galinha-pirigueti-puta estamos ao alcance, a disposição de quem quiser “se servir”.

É aqui que está a diferença nada sutil entre nós, e precisamos ressaltá-la. Uma diferença de pele, de tom, de cor. As mulheres negras estão mais à disposição e ao alcance de quem objetifica a mulher e nosso corpo: herança ainda tão vívida do nosso passado de casa grande e senzala.

Mas, ao invés de fazer um rosário de lamentações sobre porque as mulheres negras — e também as biscates — sofrem mais discriminação que as brancas e fazer o discurso denúncia-vitimização, prefiro lembrar de uma negra, escrava, biscate até a raiz dos cabelos, que deixou sua marca no imaginário brasileiro da mulher negra e dona do seu corpo e vontade: Chica da Silva.

diferençasNão vou contar toda sua história porque há filme, contos e novela onde era o personagem central*, bem mais por sua atitude do que pelo concubinato de quinze anos com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Chica (ou Xica) da Silva, “a negra”, ficou conhecida por sua atitude diante da vida e porque ela dava, e muito. E sabia usar sua sexualidade em benefício próprio. E usou o dinheiro que tinha para forçar ser aceita como sinhá. E foi aceita, a contragosto…mas foi! E foi feliz também, apesar dos pesares.

Há historiadores que colocam em dúvida sua existência, mas o que importa é a história que ficou e que se conta até hoje, como registro do agir de uma mulher livre, nada além do seu tempo, apenas dona de si. Quando se fala em Chica, costuma-se dizer que foi o dinheiro e o prestígio do concubinato com alguém muito importante que lhe conferiu segurança, a salvo da maldade, preconceito e injustiças sofridas por suas iguais. Ainda mais numa época em que a liberdade era uma questão de pele e o direito à fala uma questão de gênero.  Claro que a história dos negros no Brasil não é feita só de vitimização**. Teve resistência, e muita, e outras histórias lindas assim como a de Chica. Uma coisa é certa, num mundo machista e escravocrata somente o dinheiro não teria sido suficiente sem a atitude e o desejo pela liberdade. Sem sua alma biscate Francisca da Silva de Oliveira não seria Chica da Silva.

Dizem que Jorge Ben, antes de ser Benjor, teria dito que o “Xica dá” tem o significado que a sonoridade lhe confere, do verbo dar… “Xica dá”, dava e sambou tanto na cara da sociedade e tão antes de nós que mesmo que ela não tenha existido é preciso de alguma forma fazê-la uma figura presente em nossas mentes e corações.

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva Mulheres Negras 2012.

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* era o personagem central, não quer dizer que conte sua história de fato, lhe faça justiça ou não faça uma leitura preconceituosa ou moralista.

** nem os negros e nem as mulheres curtem o papel de vítima, mas é através do registro da vitimização que se prova a existência do racismo e do machismo, e é por isso que precisamos recorrer a ele mesmo quando preferimos falar apenas da luta ou da resistência.

 

Luta, Coragem e Memória: Substantivos Femininos

Por Niara de Oliveira

O assunto aqui é sempre biscatagi, mas tem momentos que precisamos falar sério. Hoje é um desses dias. A nossa tão amada e louvada biscatice e a liberdade para biscatear não seria a mesma não fossem muitas mulheres que se privaram dos prazeres da vida para lutar pela liberdade de todos.

Além de pegarem em armas quando foi preciso na resistência à ditadura militar brasileira e aos horrores que ela impunha ao país, foram elas as grandes responsáveis pela Anistia. Sim, a tão questionada Anistia que era para ter sido ampla, geral e irrestrita — mas que só serviu até hoje para proteger o Estado e seus agentes criminosos, torturadores e violadores de direitos humanos — foi resultado direto da coragem e da luta das mulheres.

“A anistia sancionada por Figueiredo foi parcial, mesquinha e restrita. Não houve pacto. Houve imposição. De uma pequena maioria, num Congresso ainda emasculado pela legislação discricionária, associada à truculência habitual dos trogloditas do regime. Aos que estavam do lado dos perseguidos restou apenas se curvar à correlação de forças e aproveitar os elementos de avanço que a medida de qualquer forma representava (porque ninguém seria louco para se recusar a sair da prisão ou a voltar do exílio).” — observa  Chico Assis, em Os penduricalhos da mentira.

Era a luta possível e mesmo com assassinados ainda ocorrendo no país (vide o caso de Vladimir Herzog, assassinado em 1975, e a lista dos mortos oficiais a cada ano e ainda a lista dos desaparecidos políticos) não se intimidaram e foram à luta.

Foi a advogada Terezinha Zerbini que conseguiu entregar a uma autoridade norte-americana em visita oficial ao Brasil em 1974 uma carta onde denunciava as condições dos presos e exilados brasileiros.

“Paralelo a este trabalho de denúncia, havia um trabalho de assistencialismo aos presos políticos em várias regiões brasileira, realizado por grupos de mulheres, que possuíam familiares e amigos de presos ou exilados. Tais mulheres realizaram práticas políticas na assistência aos presos, naquela época.

A partir de 1975 – Ano Internacional da Mulher – com a fundação do Movimento Feminino pela Anistia no estado de São Paulo, mulheres de todo o Brasil iniciaram a campanha pela anistia política aos presos e exilados políticos.

Inicialmente, a campanha pela anistia assumiu uma forma mais amena, sendo as reuniões restritas a ambientes fechados.  Naquele momento era arriscado opôr-se ao regime militar, cuja legitimidade apesar de desgastada pela crise do Milagre Econômico, era imposta, ora pela força física, ora pela propaganda ideológica. Falar de oposição ao regime militar significava: ameaça de levante submisso e comunista  contra a defesa da ordem democrática.

Mas o clamor por anistia política, entoada por vozes femininas, de mães e esposas que imploravam, ao Estado, o perdão de seus entes queridos não podia ser ignorado. Aos olhos da sociedade, tratavam-se de mulheres dispostas a reconstituir seus lares desfeitos pela “ameaça comunista”.

Com esta justificativa, as mulheres brasileiras iniciaram a campanha pela anistia aos presos e exilados políticos, protegidas pelo papel da mulher na sociedade: defensora e protetora do lar. Naquele contexto, não havia como bloquear a ação daquelas mulheres.

Progressivamente a campanha ganhou fôlego e avançou no cenário nacional e  internacional, dando origem a vários movimentos e comitês pela anistia em todo o país.

No dia 4 junho de 1977, forças policiais cercaram o prédio da Escola de Medicina da UFMG,  e efetuaram várias prisões, minando o III Encontro Nacional dos Estudantes, em Belo Horizonte. O objetivo deste encontro era promover a reorganização da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Neste mesmo dia, várias pessoas manifestaram seu descontentamento com as atitudes do governo militar em relação à sociedade civil. Entre elas, destacou-se o discurso de Helena Greco, assustada com as cenas que havia presenciado e preocupada com a situação política e civil daqueles jovens (homens e mulheres), que reivindicavam uma realidade democrática para o país e o fim de todas aquelas perseguições, censuras e torturas.  As mulheres que se esforçaram para formar o núcleo do Movimento Feminino pela Anistia em B.H., aproveitaram a ocasião para convidar todas as mulheres mineiras a participarem de um ato de protesto contra o governo, vendo na figura de D. Helena, a representante maior daquela proposta. No dia 30 daquele mês foi fundado o Movimento Feminino pela Anistia em Minas Gerais, presidido por  Helena Greco.

As propostas iniciais do Movimento eram a luta pela anistia política e contra a discriminação da mulher. O núcleo mineiro foi um dos mais numerosos do país, chegando a congregar um total de 300 mulheres. Naquele momento, afloravam, de forma mais explícita, denúncias sobre as perseguições políticas, a situação dos presos políticos, dos cassados, dos exilados, dos desaparecidos e de seus familiares.

O principal motivo de integração das mulheres mineiras foi o mesmo que levou à desintegração do MFPA. Ou seja, a maioria das mulheres que se integraram ao Movimento o fizeram porque este era o único canal de participação possível naquele momento.

O principal motivo que levou o pioneirismo feminino à campanha pela anistia deve-se ao apelo humanitário da campanha. Ou seja, tratava-se de mulheres cumprindo seu papel designado pela sociedade: o de mãe e esposa, transmissoras de valores sociais e protetoras de seus entes queridos.”

(artigo de Anna Flávia Arruda Lanna, MULHERES E ANISTIA: ENTRE BANDEIRAS E FUZIS sobre o Movimento Feminino pela Anistia em Minas Gerais no período de 1975 a 1980)

Se hoje nós podemos biscatear livremente por aí — ou nem tão livremente assim, mas vamos enfrentando as adversidades com alegria — devemos isso às mulheres que subverteram o papel que lhes era permitido e foram além, levantaram bandeiras em nome da liberdade.

Fica aqui o pequeno registro do Biscate Social Club sobre a luta dessas mulheres. E para que essas histórias sejam conhecidas precisamos desarquivar o Brasil e promover o encontro dessa nação com a verdade e sua memória. Precisamos contar oficialmente, e com orgulho, a história da resistência ao horror oficializado pelo Estado. Para que se conheça, para que não esqueça, para que nunca mais aconteça!

Continuamos daqui, levantando outras bandeiras em nome da mesma liberdade.

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E para que conheçamos mais a história dessas guerreiras, assista ao filme “Que Bom Te Ver Viva” — baseado em depoimentos de mulheres (elas estão presentes no filme) que lutaram na resistência à ditadura, foram presas, torturadas e sobreviveram — e baixe em pdf o livro “Luta: Substantivo Feminino — Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura“.

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Este texto faz parte da 5ª Blogagem Coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28 de março a 02 de abril de 2012.

Biscates em luto, na luta pela liberdade sempre

Minha coluna em luto. Eu. Vocês. Elas. Todas.

Dadas como presente, de outrem a outrem.

Elas não. Não tiveram palavra. Eram só corpos.

Como fica a liberdade em tempos de estupro coletivo? Hoje só me calo.

Ser biscate é um privilégio.

* * *

Este texto se refere ao estupro coletivo seguido de assassinato de respectivamente sete e duas mulheres, por dez homens, no município de Queimadas (PB). A mídia não disse, ninguém quase disse, então é nosso dever dizer. Um crime de gênero contra mulheres – esse mecanismo tão cruel de cercear a liberdade de nossos corpos. Leia textos muito bons sobre isso aqui.

Não dá pra calar: Estupro Não é Sexo!

Esse post faz parte da blogagem coletiva de repúdio ao caso de Queimadas, convocado pelas Blogueiras Feministas e pelo Luluzinha Camp. Para fazer parte, basta externar sua indignação e reportar para que seus posts sejam linkados nas páginas desses blogs.

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