Hoje tem

Era uma mesa grande, daquelas animadas, os amigos tinham vindo dar os parabéns, ele era amigo de uma amiga, se conheciam de FB, estou pensando em ir, vem, ele foi. Não se sabe bem como acabaram sentando um ao lado do outro. Não foi de princípio, não. Ele, o centro da mesa, rodeado de quem chegou mais cedo, acenando muito, rindo alto, esbarrando nos copos. O outro do lado da amiga, nem quina nem meio, olhos pequenos por trás da lente, gestos contidos, mais curiosidade que interesse.

Mas era um bar, era festa, muita gente chega, muita gente sai, gente levanta pra fumar, pra beijar, pra mijar. Olha, cabe mais uma cadeia aqui? “Fasta” pra cá. Vai mais pra lá. Vem aqui cumprimentar Fulana, Sicrano, Beltrano e o Edu, que fez a música. E ali estavam, um do lado do outro. Desculpa, ainda não tinha falado direito contigo. Magina, você estava ocupado. Umas impressões sobre a cidade. Gosto sempre de vir aqui. Pena a gente não ter se conhecido da outra vez quando passei mais tempo. O ombro esbarra no outro, a cerveja pula do copo. Desculpa, meio rindo, meio constrangido. Que nada, foi bom, meio safado. Trabalho, amigos em comum, a política, música, música, o céu, o nada. Os joelhos. O inclinar pra falar mais pertinho do ouvido. Muito barulho aqui, né?

As duas mãos em direção ao mesmo copo. Opa, esse é o seu? O copo esquecido, as mãos enlaçadas. Olho. No. Olho. Nu. E foi assim: ele pegou o indicador do outro, levou até os lábios entreabertos, enfiou num movimento rápido e sugou, firme. O outro, choque. Ele continuou a sugar, com a língua catou outro dedo. A mesa continuava, impávida em seu alvoroço de cervejas e tira-gostos, conversas e risadas. O outro semicerrou os olhos, estremeceu, a calça apertando o pênis que endurecia. Ele sorriu, como quem desafia: gosta? O outro inspirou, puxou a mão com uma certa violência, ele quase entristeceu, o outro e seus dedos úmidos puxaram-no pela nuca, a boca firme na boca ainda entreaberta, a língua, dura, invadindo, exigindo, amolecendo, convidando, percorrendo, provocando. A saliva. O tesão. As mãos por baixo da mesa, por cima das camisas, a língua na orelha, que buraco gostoso, o outro ri, desejo é alegria, cangote, lambida, deixa eu respirar, quero te engolir. Delícia. Beijinho na ponta do nariz. Mão na perna. A noite segue, sem pressa, os dois, a mesa, a conversa, o ruído, a cerveja no mesmo copo, a certeza. Hoje tem.

Hands toasting wine glasses

Hands toasting wine glasses

Das noites. Dos botecos. Das cantadas.

Por Sílvia Sales*, nossa Biscate Convidada

Sou uma biscate da noite, da madrugada lunar, da ventania. Não é pra menos. Nascida às 23 horas de uma quinta-feira, antessala da tão esperada sexta, de mistérios, de (re)encontros, do porvir. Isso talvez, acho – toda trabalhada no fetiche pisciano – deu um empurrãozinho para esse encantamento pelos dias escuros, pelas noites claras de lua e estrelas. Há gentes. Burburinhos. Delícias do anoitecer. E, de boteco em boteco, lá vamos nós.

Música para ouvir, para dançar. Lembranças. Saudades doídas. Saudades boas. Saudades. Conversas ao pé do ouvido. Chopinhos. Risadas, entre um gole e outro. Escrachos. Reencontros e mais gentes, novas. Amantes, decerto, da soberana lua de Jorge, da noite de alegria.

Aí você vai dizer: Vixe! Esse papo seu tá qualquer coisa, você já está pra lá de Marrakesh. Bebeu? Escrevendo do boteco? Quase, porque hoje é quarta-feira, e para biscate não há dia marcado na folhinha para abraçar a noite, seguir rumo ao botequim, deliciar-se. O papo direto e reto? Biscate que curte sozinha a noite, um barzinho, um banquinho, um violão, uma breja estalando no gelo. Ou que curte um brega-corta pulsos sugerido pela Suzana; ou um brega-sambão lembrado pela Renata; ou um brega- Cult, como alardeia o Marcelo; ou um brega-retrô proposto pelo Pádua. Simplesmente apaixonada por uma meia-noite inteira.

Agora, vida de biscate sozinha pelaí nas noites tem seus percalços. Enfrentamentos. Nem tudo são flores. Ainda esbarramos em situações absolutamente bizarras, para não dizer deploráveis. Um chega junto patético, tosco, com cheiro insuportável de machismo no ar. Cantadas indesejáveis. Brucutus.

Amiga bisca, pergunto eu: Donde está escrito que nós não devemos sentar sozinhas à mesa do bar ou ajeitar-se no balcão? Melhor lugar não há. E entornar a breja sem incômodos e inconveniências? Em lugar algum, pois não? Bingo! E, se houvesse, a ordem expressa era transgredir. Por obviedades.

Mas o macho-que-se-acha-fodão ainda insiste (em sonhos de punhetas mal gozadas, por supuesto), que mulher sozinha no boteco está louca para dar pra ele, está caçando um sexo selvagem na madruga que cai e, quase sempre, crê piamente que só ele é capaz de proporcionar todos os prazeres do mundo e das fantasias da night. Rá rá rá rá. Sim, podemos desejar, querer e fazer muito, muito, muito mais. Sozinhas, inclusive. Até aqui, OK? Adelante.

Mas, querida amiga bisca, o desacompanhamento no boteco não dá o direito ao amigo macho de fazer a abordagem eu-sou-eu-e-boi-não-lambe. Nonsense. Peralá, mais devagar com o andor que a santa revida a qualquer tentativa de brucutulidades. Alguém devolve: mas ele tem o direito de “cantar”.

Calma aí. Há “cantorias” e “cantorias”. E você decide se quer, e se gosta. Agora, o que não pode é cantador achar que o “sozinha” no balcão do boteco, e já na terceira breja, significa necessariamente sinal verde para o abraço por trás, para o aconchego ou disponibilidade para o sexo. Porque, né, aí é o machismo “cantando” em alto decibéis. Violência e poluição sonora. E passar a mão na tua bunda assim, sem você querer, sem você pedir, sem você permitir? Por que? Porque você vadia sozinha pelo bar? Menos, põe muitão menos nisso.

A cantada arrebatadora tem que ter “quereres” dos dois lados. Mão de via dupla (mãos). Vontades. De ambos. Cumplicidade. Como se caetanear, tem que mexer alguma coisa dentro doida. Se conjuminar, aí deixa sentar. Noite. Enrosco de pernas por debaixo da mesa, cochichos lindamente convidativos, lambidinhas no ouvido, gemidos no alvoroço, beijo de borrar batom. Aí sim… Leva contigo. Recomendo. Levo comigo e digo em estado de quase gozo: Muito prazer, meu nome é Silvia. Acho que a noite ajuda a gente se ver.

PS: Esse post foi parido após um bate-papo na madrugada (claro,óbvio, sempre, e salve, salve!) com a bisca-mor-cucadospampas-satolepete-sociadessabagaça, a jornalista Niara de Oliveira. Experiências de biscate no boteco a ouvir as mais absurdas e, também, deliciosas cantadas. Porque eu, sozinha.

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* Sílvia Sales é jornalista, botafoguense, generosa e expansiva que  não tem papas na língua e nem amarras, não gosta de meias verdades, papo-meia-boca ou vida-mais-ou-menos. Uma paraense pai d’égua na luta desde sempre, bordando na areia,  bebendo do rio. Feliz. Uma pessoa como as outras, que você pode conhecer melhor no  Facebook ou seguir no Twitter @silviarsales.

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