Both Sides Now

Por Fabiana Nascimento*, Biscate Convidada

Quando se é fã do universo da cultura pop é impossível não notar como as coisas parecem tão mais conservadoras hoje do que foram há 40 anos. Digo isso não por saudosismo de um passado idealizado, mas por observar que o comportamento pessoal dos astros e estrelas pop é colocado como mais relevante do que a música que produzem.

Essa comparação me veio à mente quando assistia um documentário sobre a música folk aqui que faz uma cronologia do auge comercial desse estilo, dos anos 60 até meados da década de 70. E em um depoimento David Crosby, que fez parte de duas das mais importantes bandas do período o Byrds e o Crosby, Stills & Nash, diz que o modo de vida deles iria chocar as pessoas hoje, porque eles viviam em uma espécie de comunidade de artistas, em que se abusava de drogas e não havia parceiros sexuais fixos entre eles.

Isso todo mundo sabe por ouvir dizer, faz parte do folclore construído em torno dxs artistas daquele período, mas no documentário em questão, aparece uma cena de uma festa na casa do David Crosby em que várias pessoas tomam banho todos nus em numa banheira. Alguém consegue imaginar artistas número 1 nas paradas da música pop atual tendo um vídeo desses divulgado? O tamanho da repercussão nas inúmeras revistas de fofoca, programas de televisão e portais de internet?

Ainda no universo do folk californiano, assistindo a um show atual do James Taylor na TV a cabo, ele fez um relato antes de começar a cantar um de seus maiores sucessos You Got A Friend, que foi escrita por Carole King, as palavras foram mais ou menos assim: “um dia Joni Mitchell me mostrou essa letra época ela era minha biscate (a palavra que ele usou foi bitch, mas ele não a usou em tom pejorativo) e eu era o “biscato” dela”. Daí eu pensei , nossa, a Joni biscateou com James Taylor, o Graham Nash (dizem que uma das músicas mais lindas dela, Both Sides Now, foi escrita para ele), o Jack Nicholson, Warren Beatly Jackson Browne e era amiga do David Crosby, que dava essas festas animadas. E antes de ser famosa, Joni teve uma filha que foi dada para adoção, porque ela no momento não tinha condições de cuidar de uma criança. Certeza que se fosse hoje em dia ela teria seu comportamento sexual devassado pelos profissionais da vida alheia. E, como os tempos eram outros, esses relacionamentos todos não são importantes quando se fala de Joni Mitchell, quando se fala dela ressalta-se sempre suas virtudes como cantora, compositora e violonista.

Joni Mitchell e Graham Nash

Joni Mitchell e Graham Nash

Aí minha mente randômica me levou até o caso da Taylor Swfit (para quem não está por dentro do que se divulga no universo da música pop, é uma cantora estadunidense que acumula recordes de vendagens de discos e hits número 1), que tem os seus relacionamentos listados em sites e revistas mundo afora. Junto com a lista de seus relacionamentos, ela ganha uma lista de insultos que menosprezam seu comportamento, por não esconder suas trocas de namorados e fazer canções que relatam essas experiências.

Taylor Swift e seus namorados

Taylor Swift e seus namorados

Não quero fazer nenhum tipo de comparação musical, mas tentar entender a diferença nos relatos sobre essas duas cantoras. Me pergunto por que a vida pessoal dela seria tão importante, gerando tantas páginas (inclusive essa) e tantos profissionais envolvidos na “apuração” e divulgação dessas “notícias”? O que ela faz é música e é por isso, que a meu ver, ela deveria ser conhecida.

Sinto que – não tenho nenhum referencial teórico para constatar isso, se nos anos 60/70 xs artistas se comportavam de modo mais libertário, havia uma repressão muito maior ao comportamento sexual dos jovens. E essxs artistas eram vistos como pessoas exóticas. E hoje, depois de todos os movimentos de contra cultura, que tiveram, em grande medida esses astros da cultura pop, como porta vozes, o comportamento sexual dxs jovens é mais livre e menos vigiado em muitas partes do mundo.

Como otimista que sou, sempre acreditando no aprimoramento da raça humana, acho que esse movimento de vigília da vida sexual de artistas por parte dos veículos especializados na cobertura de entretenimento é um grito de desespero dxs moralistas, uma tentativa (falha, diga-se) de tentar fazer com que o mundo volte aos padrões de comportamento sexual do início do século XX. Controlando a vida das celebridades, xs moralistas do mundo esperam controlar a vida de quem consome cultura pop, que é em sua maioria jovem. Porque, por mais que os desesperados pelo retorno de um passado que nunca existiu gritem, o mundo se move em direções mais libertárias.

I´ve looked at love from booth sides now (tradução)

fabiana

*Fabiana Nascimento é nossa convidada que confirma a diversidade: biscate-tímida. Historiadora, feminista, indignada e preocupada com o mundo, ativa militante virtual. Inteligente e articulada, vai com a gente, sambando na cara da sociedade que anseia pela padronização.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...