Nojinho de buceta?

A origem do mundo, de Courbet www.francebleu.fr

Quem tem medo de buceta?

Certa vez, transando com um peguete novinho, pedi que me masturbasse. Até que o menino tinha habilidade, mas ficou um tanto incomodado por eu querer isso e não pedir que me penetrasse logo de cara. Daí, quando estava perto de gozar, ele parou e pediu pra eu pegar camisinhas. Como assim, brasil? Estava com paciência porque era a primeira vez que trepava com o dito cujo. Me levantei, peguei a bendita e dei pra ele (a camisinha e a buceta).

E foi tão borocoxô… Não gozei. O homem parecia uma britadeira, mete, mete, mete. Aí a paciência foi diminuindo, assim como o meu tesão, interrompido abruptamente. Pedi que parasse. Ele também não gozou. Estávamos quites. Dispensei o boy e esse, ah, esse não me come nunca mais.

Sabe por quê?

Disse que só fazia sexo oral em namoradas (e eu concluí que o boy sofria da síndrome do nojinho de bucetas). Ok, é uma escolha dele. Não vou obrigar ninguém a ter uma prática que não é a sua. Mas fico me perguntando até que ponto a negação tem a ver com essa cultura asséptica, sem pêlos, com bucetas padronizadas e jovens que se espalha como uma praga por todos os cantos. E me parece que isso é algo recente, sabe? Nas minhas memórias pregressas de sexo, todos os meus parceiros caíam de boca em mim com fome e vontade. De uns breves tempos pra cá, tive a infelicidade de me deparar com homens que simplesmente não curtem fazer isso.

Sim, não curtem chupar, mas adoram ser chupados. Que injusto, não?

Pra completar a inutilidade da noite, o boy ainda questionou se eu era hetero. Por que, né? Quem seria louca de adiar o encontro com o pau-maravilha dele? Porque, se eu fosse uma hetero de verdade, ia querer logo que metesse bem fundo. Desde quando gostar de sexo oral e de masturbação me torna lésbica? Que equação bizarra é essa? Não, infelizmente não sou lésbica. Só queria deixar registrado que muitas lésbicas amam penetração e muitas mulheres heterossexuais não gozam só com penetração. Bem didático, né?

Não existe amor mesmo nessa vida. Recuso-me a entrar nessa. E fiquei orgulhosa de deixar claro que o rapaz tinha sido um péssimo amante. Quase escorracei daqui de casa. Esse não volta mais. Vá pro inferno com seu nojinho e preconceito! Bem longe da minha cama, de preferência.

Sabe, não quero me relacionar com homens que pensam ser o falo (deles) o centro de toda a transa. Pra coisa ser boa pra mim, não rola ter tanta frescura e egoísmo. Quero mãos que me toquem profundamente, línguas que me chupem com desejo até eu gozar e sentidos que saibam reconhecer o cheiro bom da excitação do sexo. Quem não manjar disso, simplesmente, vai ser carta fora do baralho.

Se eu tenho nojinho? Não, nenhum. Tudo que curto que façam em mim, gosto de fazer também. Comigo a brincadeira tem que ser recíproca, que assim me dá mais prazer. Eu dou e como também. Caça e caçador. Tudo isso e mais um pouco. Definitivamente, não tenho mais tempo a perder em um sexo com muitas restrições e caretices. Pior é perceber quando a restrição e a caretice esconde um medo danado de uma buceta. Medo do corpo de uma mulher adulta. Medo de perder uma suposta primazia do falo. Sabem de nada, inocentes!

E um beijo pra quem sabe apreciar uma buceta. Pra quem gosta de olhar, admirar, cheirar, beijar, lamber, chupar. Foder. Com amor, carinho e muita safadeza. Afinal, como num texto que li há pouco tempo, quem ama, chupa. Querem verdade mais cristalina que essa?

Você deveria votar em, ou a buceta é de quem mesmo?

Se tio Eric Hobsbawn tivesse vivo, certamente rafaria o livro Tempos Interessantes e o escreveria de novo. Certamente o chamaria “Tempos Interessantes: uma ode ao chorume e à cagação de rega”, como caso, nossas eleições de 2014. Por isso, resolvi escrever esse post pra ensinar como uma biscate deve votar.

Bz4QvfqIgAA-9x0O processo de votação é simples: você vai à urna se quiser, digita se quiser e confirma se quiser… é tudo no consentimento. Mas na hora de escolher o candidato você tem um problema. Problema fundamental! A escolha do candidato é algo tão intrínseco e íntimo  que merece uma pergunta em especial: A buceta é de quem mesmo?

Isso mesmo, leitor amigo! Ao pensar em votar, pense na sua buceta. Se você não tiver buceta, deixe de pensar em termos normativos de sexo e incorpore uma buceta ao seu físico. Agora, pergunte comigo: A buceta é de quem mesmo?

Exato! Seu voto, sua escolha nessa e em qualquer eleição é como a sua buceta (real ou figurativa). Você escolhe que quiser, se quiser e, mesmo, não escolhe. Buceta e voto, na biscatagem, é coisa sagrada! Dar, pra quem quiser, ou não dar depende apenas da sua vontade. Isso mesmo VON-TA-DE.

Pode parecer chula e inapropriada a comparação entre voto e buceta, mas eu te garanto que não é! Ambos repousam cálida e contemplativamente sobre um mesmo princípio, a liberdade. Isso mesmo, a liberdade de dar o seu voto é a mesma de dar a sua buceta.

A formação de uma consciência política dorme junto e se inquieta justo no meio de suas pernas, na sua tímida bucetinha do voto secreto, normativo, regrado, representativo, mas seu. Ou no seu bucetão militante aberto, reganhado e vociferante de uma posição sólida, ideológica e partidária. Ou ainda, na sua buceta virgem, ou na cansada, que não querem ou não se dispõem ao trabalho de se abrir a proposta do candidato e simplesmente não querem votar!

Por isso, amigues, nesses tempos tão interessantes de estupros políticos generalizados, toda vez que vierem enfiar um candidato buceta, digo voto abaixo em vocês, perguntem: A buceta é de quem mesmo?

E lembrem-se: ninguém é obrigado a votar em alguém, ninguém é obrigado a aceitar ou concordar com qualquer posição política ou candidato e todos estão aptos a expressar as opiniões mais esdrúxulas possíveis e serem arduamente criticados por elas. Afinal, ninguém é obrigado a gostar da sua buceta também… Aliás, tem até gente que prefere outros sistemas, como o cu, por exemplo… mas daí são outros casos…

Por isso, amigues, argumentem, ou não. Se ofendam, ou não, mas lembrem-se que assim como a sua buceta, seu voto e tudo o que está em torno dele é pra ser objeto do seu gozo. Se não for pra gozar muito, melhor não ficar cagando regra na internet…

Beijo no coração.

A mulher de valor, o medo da buceta e o moralismo de plantão

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores e moralistas de plantão. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta não tem valor.

Na semana passada foi noticiada uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o órgão recursal da Justiça estadual, na qual um desembargador emitiu um voto no qual considera que “Não cuida da moral mulher que posa para fotos íntimas em webcam“. Tratava-se de um recurso sobre uma ação de indenização por dano moral, diante da divulgação de fotos de cunho intimo compartilhados pela autora da ação (vítima da quebra de confiança) com o réu (autor da divulgação indevida das fotos que lhe foram enviadas no curso de relação intima). Popularmente, o pornô de vingança.

marias da net

A autora ganhou a ação em primeira instancia, e o juiz concedeu o valor de R$100.000,00 (cem mil reais) de indenização, a ser pago pelo réu. Foi uma vitória, especialmente diante do Judiciário de um Estado onde se costumava usar uma tabela para o dano moral, e que continua parcimonioso na concessão de indenizações.

No entanto, obviamente o advogado do réu impetrou recurso, como é seu direito, e de todos (para isso existem os tribunais e o segundo grau de juridição, para que um grupo de magistrados possa dar a decisão final sobre o inconformismo de uma das partes com a decisão do juiz único da primeira instância).

O TJ/MG manteve a condenação. Nos termos do voto do relator, o desembargador José Marcos Rodrigues Vieira, o valor do dano moral deveria ser reduzido para R$ 75 mil, mas rechaçou o argumento de concorrência de culpa da vítima. “Pretender-se isentar o réu de responsabilidade pelo ato da autora significaria, neste contexto, punir a vítima.”

No entanto… muito bom para ser verdade? Pois é. O desembargador revisor, contudo, divergiu do relator. Para ele,

“a vítima dessa divulgação foi a autora embora tenha concorrido de forma bem acentuada e preponderante. Ligou sua webcam, direcionou-a para suas partes íntimas. Fez poses. Dialogou com o réu por algum tempo. Tinha consciência do que fazia e do risco que corria”.

Asseverando que a moral é postura absoluta e que “quem tem moral a tem por inteiro”, o julgador ainda chegou a entendimento de que as fotos sensuais diferem-se das fotos divulgadas pela autora da ação, imiscuindo-se não só no campo da moral, mas no da moralidade…

As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensuais são aquelas que provocam a imaginação de como são as formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais branda podem ser eróticas. São poses que não se tiram fotos. São poses voláteis para consideradas imediata evaporação. São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namorado por um curto período de um ano. Não para ex-namorado de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em momento íntimo de um casal ainda que namorados. E não vale afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distância. Passageiro. Nada sério.” Disse, ainda, o Des. Francisco Batista de Abreu: “Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida.”

Nesse contexto, vem-me tantas coisas a cabeça que chego a engasgar.

Inicialmente, pela condenação do réu na primeira instância, meu coração se aquece, e surge uma ínfima esperança de que algo sim, está mudando. Vários dos comentaristas do portal jurídico onde primeiro li a noticia da decisão também criticaram a postura do desembargador.

E aí vem essa traulitada. Vem esse jovem senhor, com 64 anos, mais novo que meu pai, que vem dizer o que é erótico, o que é pornográfico, e vem medir, etiquetar, rotular, e cortar fora o que não cabe em seu limitado entendimento da alma humana. Pega um conceito de sensual e pornográfico direto da coleção primeiros passos,  e vem despejar moralismo no que pode ou não pode fazer entre quatro paredes, entre pessoas adultas e capazes.

Não, senhor. Como bem escreveu a Bete Davis, aqui mesmo no Biscate:

Então, como vou eu definir o que é erótico e o que é pornográfico quando estas palavras  ganham a conotação moralista de certo e errado? Artístico e lixo? Erótico é o que me excita, e o que me excita eu bem sei. O que excita você, car@ leitor@, você também sabe.

Segundo o entendimento do terceiro desembargador da turma, que seguiu o voto do revisor:

De qualquer forma, entretanto, por força de culpa recíproca, ou porque a autora tenha facilitado conscientemente sua divulgação e assumido esse risco a indenização é de ser bem reduzida. Avaliado tudo que está nos autos, as linhas e entrelinhas; avaliando a dúvida sobre a autoria; avaliando a participação da autora no evento, avaliando o conceito que a autora tem sobre o seu procedimento, creio proporcional o valor de R$5.000,00.

O que os nobre magistrados não percebem é que o valor aqui não é só o valor que a autora tem sobre si. Eu, como disse a minha xará, Renata Correa, “particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. ”

Mas a ação em si, o ato do ex-namorado, que fosse por tempo curto (hello, o doutor acha um ano um tempo curto? Baby, conheci e fui morar junto com meu marido em menos tempo que isso, e nesse tempo, namoramos à distância, doutor, veja só). Tem nome, o ato do réu, e é pornô de vingança. E é uma dessas “modas” que pegam, e que deviam ser inibidas e não estimuladas por decisões como esta.

“Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e autoestima.”, aponta o desembargador.

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores tem. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta, que não só se toca e goza, mas tira fotos, oh, horror dos horrores, de sua “grotesca” VAGINA, não tem amor-próprio, não tem auto-estima.

origem do mundo

A Eliane Brum trata, lindamento, deste medo, deste horror, por parte da sociedade, neste texto aqui:

Que há algo perturbador no órgão sexual feminino não há dúvida. Até nomeá-lo é um problema. Vagina, como tenho usado aqui, parece excessivamente médico-científico. É como pegar a língua com luvas cirúrgicas. Boceta ou xoxota ou afins soa vulgar e, conforme o interlocutor, pejorativo. É a língua lambuzada pelo desejo sexual – e, por consequência, também pela repressão. Não há distanciamento, muito menos neutralidade possível nessa nomeação. É uma zona cinzenta, entregue a turbulências, e a palavra torna-se ainda mais insuficiente para nomear o que Courbet chamou de “A origem do mundo”. Para Lacan, “o sexo da mulher é impossível de representar, dizer e nomear” – uma das razões pelas quais teria comprado o quadro.

Eu tenho problemas com a forma da decisão, com as palavras, cuidadosamente escolhidas pelo julgador para des-valorizar não só aquela autora, aquela mulher que teve a coragem de se expor e exigir a retratação não pela exposição da imagem, mas pela quebra de confiança.

Eu tenho muitos problemas com quem não vê o machismo explicito nessa decisão, com quem a julga tecnicamente correta, pois a autora da ação, vítima da exposição indevida, se colocou em situação de risco.

Eu tenho muitos problemas, sim, com quem é incapaz de perceber que se expor para um homem, em um contexto privado não significa que a mulher não se valoriza. Pelo contrário, nesse mundo de bocetas plastificadas, depiladas, infantilizadas, é preciso muito amor próprio, muita segurança e auto-confiança para se exibir, por si, para o seu prazer. A regra é a exibição controlada e regulada da buceta para o prazer do homem, para o lucro, para a pornografia mainstream, dominante, dominadora. A mulher que se exibe porque quer, para quem quer (e só para quem quer, ouviram? Só para quem ELA quer, é bom repetir) tem um poder sobre o próprio corpo que a maioria dos moralistas de plantão não consegue admitir, aceitar, sequer tolerar, que dirá respeitar.

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Eu me descobri feminista em 2010, depois de trabalhar em um caso de estupro. Date rape, para ser precisa, ou “estupro de encontro”, uma figura importada dos EUA, onde a vítima do estupro já conhece o autor, e com ele mantém uma relação de confiança, ainda que volátil e passageira. No caso, a jovem havia conhecido o rapaz em uma festa, estavam ficando, outras pessoas foram para a casa dele depois da festa, em casais, incluindo ela, com as amigas e os amigos dele, amigos em comum, entre si. E la, depois, em algum momento, ela se sentiu desconfortável.

Ela disse NÃO. Ela se atreveu a dizer NÃO, NÃO QUERO. Não, não permito que você me use para o seu prazer. E ele prosseguiu, contra a vontade dela, mesmo sem usar de violência física. Isso É estupro. E eu o indiciei, e o Ministério Público o denunciou, o Judiciário recebeu a denúncia. Não acompanho o caso, soube que ele se mudou de Estado para fugir do processo, eu mudei de Delegacia, mudou a juíza, mudou a promotora do caso. Eu duvido que hoje ele seja condenado. Eu temo pelo que a jovem vítima terá que ouvir como “defesa” do acusado, como a vida sexual prévia e a atual serão colocadas na berlinda.

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E essas decisões, desses homens e mulheres, sobre o nosso valor, vão pautar no futuro a forma como tantos casos semelhantes serão tratados. Serão essas pessoas, que vivem nesse mundo, que decidem e decidirão nosso valor.

Eu fecho com a Renata Correa, de novo:

Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história. (Renata Correa, Mocinha de Valor)

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Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Eu sei, eu não deveria dar IBOPE para essxs colunistas machistas, misóginos, e sem graça. Eu sei que não deveria nem comentar as atrocidades que a Folha de São Paulo anda publicando através dos Pondés da vida, mas essa eu não aguentei. Não, não foi nem o Pondé dizendo que não come mulher, foi a tal da Tati Bernardi, essa pseudo-qualquer-coisa, que ganha para escrever atrocidades que além de não terem a mínima graça, nem a menor técnica literária, são preconceituosas e de um machismo agressivo e arrebatador.

Dessa vez Tati resolveu destilar seu veneno às fotos de parto natural que circulam na internet. Não, ela não problematizou o acesso ao parto, nem a cultura da cesárea no Brasil, nem sequer defendeu o direito da mulher ter uma cesárea caso seja da sua vontade (o que eu esperaria de alguém que começa um texto dizendo que gosta mesmo é de luxo e conforto no hospital e nos estabelecimentos de saúde). O problema da moça é ver a xota. A buceta. O que incomoda a pobre pessoa é exatamente ver a buceta das mulheres ao parir.

Buceta. Repete comigo e com a Renata Lima que já escreveu aqui sobre ressignificar a buceta? BU-CE-TA. Quem tem medo de buceta? Buceta pelada, buceta peluda, buceta descabelada. Buceta. Nossa, da outra, de tantas mulheres que as tem. Porque também tem mulher sem buceta. Qual o problema de mostrarmos, e de vermos, bucetas por aí? Não é uma parte do corpo tão importante e tão cheia de bons significados? Porque o horror, o medo, a aversão a buceta ou a xota ou que nome queiramos dar para nossa genitália que tanto pode nos dar prazer?

Vivemos numa sociedade estruturalmente machista. E, nessa sociedade, aprendemos a esconder as nossas bucetas. Buceta é tímida e arredia. Não se mostra. Nem sequer podemos ver as nossas próprias. Nem sequer é autorizado a mulher saber-se, tocar-se e ter prazer. O exercício de pegar o espelho e olhar, intimamente, para as nossas bucetas, é um exercício e tanto. Olhar para dentro e para fora. Olhar os contornos, tocar, ir sabendo-se ali, ir sentindo aonde é bom, aonde tem curvas, aonde tem pelos, aonde tem tesão, aonde tem arrepio. Sentindo seu próprio cheiro, sua própria textura.

Não, não é pecado nem é feio, como dita o moralismo cristão que nos condena. Não, não é ameaçador, como reza o machismo que quer nos dobrar. Nem nojento, como brada Tati Bernardi ao ver uma buceta parindo. É nosso e é, acredite, um terreno cheio de boas possibilidades de prazer.

Acho engraçado que escuto de muitas mulheres ao argumentarem porque não gostam de trepar com outras mulheres: “ah, eu não gosto de buceta, eca”. Ora, não gosta da sua própria? Não teria você também uma buceta cheia de possibilidades para você mesma? Qual o problema da buceta? Não é porque você não tem tesão numa mulher que a buceta é algo repugnante. Não seria, de alguma forma, uma repugnância a você mesma?

Façamos as pazes com as bucetas. Deixemos as mulheres parirem com suas bucetas fotografadas e assumidas. Deixemos as bucetas respirarem livres, olhemos, experimentemos, contestemos o machismo que impede de nos olharmos e sentirmos prazer. Bucetemo-nos!

E Tati Bernardi, beijinho no ombro pro recalque passar longe!

buceta

Ressignificar a buceta

Segundo o Dicionário Aurélio,

Significado de Boceta

s.f. Pequena caixa redonda ou oval. / Caixa de rapé. / Casta de tangerina. / Variedade de manga. / Bras. Determinado aparelho de pesca. / Pop. Vulva. // Boceta de Pandora, origem de todos os males.

Esse finalzinho aí foi bem assustador, mas condiz com o que muitas religiões pensam das mulheres, do sexo, e, obviamente, do genital feminino.

Outro dia, estávamos conversando, várias biscates, oficiais ou não, sobre o uso das palavras. Caralho! Tivemos a óbvia e etílica descoberta de que a palavra usada para designar o membro viril é muitas vezes usada num contexto não pejorativo ou obsceno, como “Bom pra caralho (ou pra cacete)”, enquanto não conseguimos encontrar um uso coloquial que fosse, no sentido positivo, para a pobre – palavra – boceta – ou buceta?

De acordo com a Wikipédia, bOceta é a tal caixinha, para guardar rapé, ou também, a palavra vulgar usada para designar a vulva, enquanto bUceta é a palavra usada, no português brasileiro popular e chulo, para designar a vagina ou a vulva. Também coloca alguns sinônimos regionais interessantes: bacurinha, buça, buçanha, capô-de-fusca, mijona (oi?) xereca, pastel (de novo: oi?) carne mijada (sério??) perereca, periquita, rachada (que original!), tabaco, tchura, tubia, xana, xavasca, xexeca, xibiu (oi Jorge Amado! Oi Gal! Oi Dorival! Oi Gabriela! ) xota e xoxota. Ufa.

São citados ainda, como “familiar”: bimbinha, griguilha, pipi, xibica, nhonhoca.

E como “popular”: passarinha, perseguida, racha ou rata.

Em Portugal, ora, pois, o nome da buceta seria cona, pachacha ou patareca (caso esteja por terras lusitanas, pesquise ai em que contexto, fora do sexual, elas são usadas, sim – as palavras, não as bucetas, por favor sim).

E tem também um termo que a Wikipédia colocou, que eu juro que não entendi. Sob o título de “social”, colocaram como sinônimo de BUCETA, perseguida.

Perseguida… lembrei do mito da vagina dentada.

E tem gente que tem medo mesmo. Medo da buceta perseguidora. Da buceta que faz o homem chorar, que faz o homem matar… Enlouquecer.

E enquanto PORRA e CARALHO e CACETE são vulgares, mas são populares (em certas regiões, o povo não tira da boca – ops!) e usadas para reforçar o quanto algo é bom ou serve como superlativo, acho que BUCETA só uso (como expressão) quando dou uma topada com o dedo mindinho do pé no pé da cama.

E aí é como xingamento, mesmo, né…

E enquanto um “puta que pariu, caralho, que porra é essa! É do caralho!” tem efeito elogioso, quando eu ouço um “puta que pariu, caralho, que buceta é essa!?!” boa coisa não se deve esperar.

Que medo é esse da buceta? Que medo é esse de falar, conhecer, tocar, deixar ter o cheiro ou os pelos que ela tem?

Não, não podemos. Tem que depilar tudo, usar desodorante “íntimo” para disfarçar o cheiro… da buceta (calma lá, ninguém tá falando da vibe Napoleão e Josefina, certo? Eu, ao menos, curto a coisa limpinha, né, mas sem neuras!), usar “protetores de calcinha”, sério, gente, a calcinha não pode ter contato com a nojeira da buceta, é isso?

Buceta não é coisa de mulher pra casar? Ah, então tá.

Buceta não é coisa de “mãe de família”? Ok.

E pra finalizar, deixo do desafio: vamos ressignificar a buceta!

Não precisamos ter vergonha das nossas “partes”, das nossas pobres “perseguidas”.

A buceta é nossa, cada uma tem a sua, com seu cheiro, sua cor, seu hair style.

Eu adorei essa montagem, as imagens usadas, de cantoras estrangeiras badaladas, ainda, fazem pensar no quanto de preconceito de classe existe contra o funk, quanto às mulheres do funk e contra mulheres falando de sexo em geral…

Eu dou pra quem quiser que porra da buceta é minha!! é apenas uma outra forma de dizer:

Não dá pra mudar o significado das palavras assim, de um dia para o outro, mas dá prá começar a pensar, né?

Então, vamos parar de ter vergonha até de falar?

Repete comigo: BU-CE-TA!

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