Cabelo natural – Uma biscate quer abandonar o alisamento

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Toda vez que vou ao salão de beleza acontece algo mais ou menos assim.

Dessa vez estava de cabelo preso, num coque discreto. Esperando a minha vez, aproveitei pra ler uma entrevista de Marco Feliciano para um famosa publicaçãozinha que vocês conhecem. E assim nem percebi que havia chegado a minha vez de ir ao lavatório e depois à estação de trabalho do cabeleireiro.

Agora um pequeno adendo. Sou uma mulher negra que detesta ser chamada de morena. E o que o cabeleireiro faz para demonstrar intimidade? Pois é. Nem deu tempo de fazer muita coisa ante a um sonoro “oooooooi morenaaaaaaaaaaaa” . Respira, respira, diz que está tudo bem e faça o que você veio fazer aqui, pensei. E lá fomos nozes, eu e os cabelos, cortar dois centímetrozinhos.

Agora a parte que sempre acontece – meu black vira o assunto da rodada. Formam-se alguns times, mas falarei apenas das mulheres negras que cogitam ou já cogitaram abandonar o alisamento. Algumas costumam dizer que esse tipo de de cabelo é para gente descolada (leia-se quem não precisa passar um ar de seriedade), outras que tentaram e não conseguiram deixar o alisamento de lado.

Pois bem querida, esse post é pra você – uma biscate quer deixar de alisar o cabelo. Quando, como, onde, por quê?

QUANDO

Quem não se lembra da Maternidade Santa Joana validando o alisamento na infância?

Quem não se lembra da Maternidade Santa Joana validando o alisamento na infância?

Por muito tempo tratei quimicamente meu cabelo. Foram longos 28 anos, começando aos 4. E olha que até comecei tarde. Não se espantem, é corriqueiro passarmos uma vida alisando, sem conhecer a textura do próprio cabelo, sem imaginar que existe vida fora do tubo ou pote de química. No meu caso o danadinho custava 21 reais (em 2005) e era eu mesma quem aplicava todos os produtos.

Foi por acaso que descobri a possibilidade do cabelo natural. Vendo as fotos da gravidez de uma prima, reparei que o cabelo dela estava com uma textura diferente (nunca havia pensado que o cabelo dela era crespo). Aparentemente, alguns alisamentos são incompatíveis com a gestação de uma criança. Como pensava em engravidar também, decidi experimentar como seria a vida sem alisar.

A primeira tarefa é escolher o quando. Aconselho que seja numa época mais tranquila, de paz interior. Pra mim foi assim, sem grande estresse (coisa rara de acontecer). A raiz foi crescendo e surgiu a vontade de voltar a alisar (o que tinha na cabeça mesmo hein, é claro que alisar parece o mais adequado a ser feito, não há motivos para não ser assim, pensei na época). Mas resisti.

BIG CHOP – MAS PARA QUÊ DEIXAR DE ALISAR MESMO?

Ifeyinwa foi pra internet mostrar seu Big Chop

Ifeyinwa foi pra internet mostrar seu Big Chop

Sempre fui conhecida por ter um cabelo bonito e comprido (para uma negra). Mesmo assim enfrentei o (então) temível big chop, como as americanas chamam o ato de cortar todo o alisado e deixar o cabelo bem curtinho. Imagina o desafio – além de deixar o cabelo natural, ficar com ele curtinho quando o mundo diz que o correto e bonito é o cabelo grande e alisado!

Não consegui assumir totalmente o grande corte, deixando o cabelo com uns 8 a 10 centímetros. Mas existem outras estratégias como usar tranças, muito práticas e bonitas. Só desaconselho com veemência seu uso prolongado. O perigo é ficar careca igual à Naomi Campbell que literalmente teve seus fios arrancados pela contínua tração a que os submeteu.

Fica a pergunta – o que aconteceria se gente como uma grande modelo internacional ou a grande primeira dama dos EUA assumisse o cabelo natural? Minha birra contra o alisamento é o fato de algumas de nós simplesmente não termos o privilégio da escolha sob pena de sermos chamadas de sujas, de termos uma imagem pouco profissional ou sermos simplesmente chamada de feias.

ONDE – PRECISO IR A UM SALÃO DE BELEZA ESPECIALIZADO?

Uma das pioneiras no aconselhamento de mulheres que decidiram deixar de alisar é a Naptural 85, que foi convencida a deixar de alisar pelo namorado brasileiro.

Uma das pioneiras no aconselhamento de mulheres que decidiram deixar de alisar é a Naptural 85, convencida a deixar de alisar pelo namorado brasileiro.

Você pode fazer a transição com a ajuda de um cabeleireiro. Mas fuja desses que dizem adorar o nosso cabelo mas nunca fizeram nenhum curso especializado sobre. Em toda São Paulo há apenas uma profissional branca em quem realmente confio quando o assunto é cabelo natural. Veja, cabelo natural. Pois já aconteceu de ela destruir meu black com progressiva uma vez.

A verdade é que após a decisão de não mais alisar, caí no conto do “seu cabelo não ficará liso, ficará igual ao da Taís”. O black que estava loiro e gigante do jeito que eu sempre quis, simplesmente parou de encaracolar (coisa que foi geneticamente programado para fazer). Foi preciso recomeçar tudo do zero, desde o grande corte. Dessa vez não tive problemas em cortar bem curto, foi um big chop de responsa.

Então decidi fazer tudo sozinha, em casa. Como sou bem relax, fiz o que meu companheiro fazia – lavar, secar e pentear. Fim. Mas há inúmeras fontes mais indicadas quando o assunto é going natural. Há diversas blogueiras e vlogueiras (internacionais e brasileiras) falando sobre o assunto e você certamente saberá quem é entendida no babado e quem não.

PORQUE – É MAIS FÁCIL, SAUDÁVEL E BONITO

O alisamento constante dos cabelos é caro e danifica sua estrutura.

O alisamento constante é bom para todo mundo, menos pra você – é caro e danifica sua estrutura.

As razões para deixar de alisar são muitas.

Comigo foi a necessidade de ter uma gravidez mais segura. O que não esperava foi todo o resto que veio depois. Finalmente percebi que meu cabelo era do jeito que sempre sonhei (e se quiser que a textura fique parecida com a da Taís, é simples) basta saber como cuidar. Junto com a alegria da descoberta a tristeza em perceber que passei uma vida pagando por algo que a natureza havia me dado.

Outro bônus foi a liberdade. Muitas negras são levadas a crer que cuidar do cabelo natural é complicado, ninguém ensina como cuidar do cabelo natural. Pois saibam que o trabalho envolvido é muito menor que fugir da chuva, retocar a química, camuflar a diferença entre a raiz e o comprimento, usar cremes para ativar os cachos (imagine, chegamos ao ponto de alisar para depois comprar um creme que encaracole os cabelos novamente), etc.

Finalmente o mais importante – me sinto linda. Meu cabelo sempre foi fonte de constante frustração e medo. Tudo implantado em mim nos primeiros anos da escola, quando era perseguida se alisava e se não alisava o cabelo. Quando deixei de colocar química na cabeça,  a relação com meu corpo mudou e terminou a infrutífera busca por soluções que dessem jeito em quem sou .

SE VOCÊ É UMA BISCATE QUE QUER

Deixar de alisar o cabelo, meu conselho é se joga. É uma trajetória de crescimento pessoal muito bonita e única. A minha foi e continua sendo. Ontem no cabeleireiro, quando as pessoas diziam que amam meu cabelo como ele é, uma delas disse baixinho que o achava feio sem perceber que eu escutava tudo. A minha reação? Nenhuma, isso simplesmente não me diz mais respeito.

Porém me perguntei quantas dessas pessoas falavam a verdade sobre gostar tanto assim de um black. Todo mundo diz que adora mas não vejo meu cabelo representado na capa da revista. Felizmente, não sei como e nem porquê, aconteceu algo dentro de mim – não preciso da banca da revista para gostar de mim. E quando me faltam mulheres negras com cabelo natural, é só correr pros lugares certos.

Há gente falando sobre isso na internet, como muitos vídeos e imagens a respeito, redes sociais especializadas. No gueto as mulheres negras usam cada vez mais o cabelo ao natural. Algumas celebridades também deixando de alisar como a Solange Knowles. Cabeça a cabeça, a ditadura do alisamento vai sendo desconstruída.

E olha, me sinto muito feliz em participar dessa revolução.

Fica o convite para que você venha pro nosso time.

charÕ*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Biscate desde sempre!

#AlmaBiscate
Por Sara Joker

Quando li pela primeira vez o Blog em 2011 quis postar nele, me reconheci em cada texto que lia. Meu primeiro post aqui foi comemorado, divulgado, compartilhado ao exagero. Sou uma Biscate que gosta de mostrar a todo mundo a minha felicidade!

Mas, minha biscatagi vem de muito tempo atrás, quando eu era adolescente. Sempre fui questionadora, mamãe diz que brigava com meus primos pra ter os mesmos direitos que eles. Quantas vezes dava crise com eles só pra poder sair pra paquerar a vontade? E sempre falei no colégio que não existe profissões tipicamente femininas ou masculinas. Não era presa a amores eternos, não sonhava com príncipes encantados (sempre preferi os sapos, eram mais interessantes). Voltando a falar de mamãe, ela dizia que eu me apaixonava a cada semana por um cara diferente, e era verdade! Paixões avassaladoras, como as de novela, mas que só duravam 1 semana, tudo muito intenso, muita dor, muita felicidade, muito riso e muito choro. Passou a semana e, adivinha só? Tinha outro menino (ou menina) na minha cabeça.

Aos 18 anos, época de cursinho, correria, arrumei um “namoradinho” de 15 anos (mamãe sempre me chamou de “papa-anjo”). Como sou Biscate, assumi o papel que a sociedade entrega pro homem da relação. Levava a porta do colégio, ia a casa dele conhecer a família, levava pra sair e, claro, eu que tentava avançar o sinal durante os beijos! Não me lembro o motivo pra terminarmos, mas lembro que sofri exatamente duas semanas! Lembro de ciúme excessivo da minha parte e um equilíbrio excepcional da parte dele.

Nesse momento passei por uma fase de trevas na minha vida Biscate, meu primeiro relacionamento adulto (foi quando eu finalmente amadureci pra me comprometer sem deixar de gostar na semana seguinte). O relacionamento mais traumatizante na minha vida. Quando saí dele, aí me afirmei Biscate adulta! Essa fase de transição entre Biscatagi adolescente e Biscatagi adulta não houve Biscatagi, só sofrimento, conto isso muito bem nesse post aqui. Depois desse relacionamento, nunca mais fui a mesma, revi muitas coisas em minha vida, minha forma de me tratar, de tratar a outra pessoa ao meu lado, de como me impor como indivíduo de vontades. Acho que o que me fez não me impor foi o medo de nunca mais amar. Afinal, demorei tanto pra amar que, quando amei pela primeira vez acreditei que fosse a única vez que amaria na vida. Mal sabia eu que ainda amaria muito depois20121219-234504.jpg disso. Pessoas muito melhores e que compreendiam mais que ele.

O sexo pra mim sempre foi coisa fácil de lidar, sou dessas que não se apaixona quando tem uma noite com um@ amig@ ou uma pessoa que conheço a pouco. Amor e paixão são coisas muito diferentes entre si e do sexo. Fazer sexo sem compromisso nunca foi um problema pra mim desde meu início de vida sexual. Isso assustava os meninos a minha volta, o curioso é que não assustava as mulheres com quem convivi. Me relacionei com poucas mulheres, nunca namorei uma mulher, talvez por ter me apaixonado apenas uma vez por uma mulher e não fui correspondida. Defini que desejo era algo que sentia sempre e nem sempre por uma pessoa que eu poderia admirar, paixão era o que sentia na adolescência, que durava uma semana e amor era algo duradouro, que aparecia vindo de uma amizade com desejo ou de uma paixão que consegui fazer durar mais que uma semana.

Na idade adulta, voltei a minha vida de Biscate, conheci a militância feminista através de uma comunidade de Orkut que militava pela legalização do aborto. Mas, só conheci algumas de minhas colegas de blog graças as minhas andanças pela internet quando militava por meus direitos de bissexual assumida, uma coisa levou a outra e conheci o Blogueiras Feministas em 2010. Como não amar essa vida de Biscate atuante?

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