Cada uma com seus cada qual…

“Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.” — Galeano

Cada um com seus cada qual é uma máxima que vale para quase tudo na vida. Cada uma/um com suas lutas, indignações, vida, amores, biscatagis, prazeres e dores. Carregamos o que escolhemos e o que aceitamos. Ponto. Nem mais nem menos. Por não aceitar x ou y e por escolher esse ou aquele caminho sou essa pessoa com essas ideias e características. É o que fiz de mim nesse mundo capitalista, machista, racista, homofóbico, xenófobo, transfóbico, etc, intolerante. Sou o que fiz de mim para resistir e organizar uma resistência a um mundo com essas condições. Isso não me faz melhor ou pior, apenas eu.

Dentre os meus “cada qual” que me mobilizam estão o moralismo e a hipocrisia. Mas só eles não são capazes de definir a minha revolta. Me refiro ao ódio, repulsa que algumas pessoas sentem de mulheres vadias-putas-biscates-livres que sejam também feministas. Porque até ser feminista é suportável, desde que sejam moralistas e tenham certos critérios. Feminista e puta já é vandalismo… Bueno, e aí que feminista e puta sou eu. É por mim que estas pessoas sentem ódio e repulsa. Quanto a repulsa, vá lá. Elas se sentem repelidas por mim e ficam lá no seu canto. Mas, ódio é complicado. Vai além do seu canto e causam mal ao outro.

Estou há dias tentando achar-inventar-criar um termo que defina isso. Existe na literatura feminista essa classificação? Ajudem-me, por favor, se existir. Caso não, me ajudem a criar. Na falta de um termo/conceito mais completo sou obrigada a apelar mais uma vez ao bom (sic) e velho moralismo combinado à hipocrisia.

Minha boca, buceta e cu não são da conta de ninguém além da minha e de quem pretende conhecê-los mais de perto. E mesmo para quem pretende conhecer, estar, visitar, usar, abusar deles e do resto do corpo — mas povinho é fixado em orifício, né? — também não interessa o que faço com meu corpo quando não estamos no intercurso. A questão é que não é apenas o corpo. Galera se ocupa também da ‘minha moral’ (pfffffff) e vida pregressa, quantos homens já conheci biblicamente (nem eu sei quantos), se dei por amor ou só por dar e essas coisas que só deveriam interessar a mim.

deu é amor

Deixa eu dizer uma coisinha. Dar é amor. Então, dar apenas por dar já é amor, se não amor pela outra pessoa, amor por mim, pelo meu corpo, pelo meu prazer. Não interessa se conheço para quem dei, se tinha garantias, promessa de ressarcimento ou pagamento. Dei, tá dado. Vai me atirar pedras?

Ler tudo que escrevi até aqui e concordar se tu for homem e mais ou menos liberal é relativamente fácil. A coisa pega mesmo é quando a mulher que tu julgavas como sendo tua — por ilusão, contrato, compromisso, promessa, acordo — dá para outro. Inquiri meus amigos virtuais uma noite dessas sobre como reagiriam. Perguntei: Como é que você homem chama a mulher com quem se relaciona quando ela fica com outro? O assunto é tão incômodo que quase a totalidade se esforçou em responder o aceitável, ou o que eu não condenaria como resposta. Apenas ~um~ respondeu “chamo pelo telefone prá gente conversar“. Ainda tentei ajudar reforçando “me refiro na hora em que vê ou fica sabendo… no desabafo com o melhor amigo“. Não funcionou. E desculpa se apelo para a achologia ou empirismo ou ao “todos sabemos que” tão carentes de maior comprovação, mas a resposta é uma só: julgariam moralmente e a chamariam de puta-vadia-biscate-vagabundzzzzzzzzz… Não entendo porque a vergonha em admitir. Sentem vergonham do que são e pensam? Desculpaê, não sofro desse mal.

Me chamem pelo meu nome, porque se tentarem me classificar moralmente me sentirei elogiada. Beijo no ombro.

Mulher de um homem só é mulher sofrida. Mulher que tem dois homens é evoluída. Mulher que tem três homens é uma atrevida. E a que tiver mais? ela não sofre, ela curte a vida… ela é feliz, ela é bandida! — da funkeira MC Mayara de Curitiba adepta do Eletrofunk.

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