A saudade, o calor, a falta de grana e o preconceito

Por Niara de Oliveira

Ou… Estou me guardando pra quando o outono chegar

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Tempos bicudos, esses. Muito distante do meu habitat natural, tenho sérias, seríssimas dificuldades em me achar nesse espaço de agora. A dificuldade em me achar não me é estranha, mas não me saber nesse lugar incomoda demais. Faltam as pessoas conhecidas para encontrar por acaso na rua, e os “quanto tempo!”, “como vai a tua mãe?”, “ainda moras no mesmo lugar?” acabaram se tornando tão importantes quanto os rostos, ruas, casarões, esquinas e — óbvio — bares familiares.

Nesse calor do Ridijanêro pouco sobra de energia para qualquer coisa após o trabalho, cuidados da casa, filho. Dia desses lendo a Lu falar que são os sonhos pequenos que a fazem feliz (não era bem isso, mas foi assim que entendi), fiquei a me perguntar onde andariam os meus sonhos, grandes ou pequenos… Onde estão os meus sonhos? Nesse calor, querides, se perdem facinho. O cérebro amolece junto com o corpo e tudo se esvai. Cá estou eu, no subúrbio aguardando a tão desejada chuva em mais um final de dia… Esclareço: chuva não é sonho ou delírio. É necessidade, concreta, para suportar o dia a dia nesse pedaço “privilegiado” do inferno, abandonado até mesmo pelo diabo (dizem que foi passar férias em praias mais frescas do Caribe). E ainda tem os outros calores que estão fazendo um carnaval com meus hormônios… Sim, acho que estou entrando na menopausa. (spoiler!)

Se eu tivesse um ar condicionado, mais ventiladores, pudesse morar numa rua mais arborizada… O subúrbio do Rio é devastado, e nas lajes que tentam aliviar o sufoco das moradias precárias e ampliar um pouquinho o conforto só o que cresce é cimento, nenhuma árvore é plantada, nem mesmo em vasinhos. Falta de grana está diretamente ligada à precária qualidade de vida na “cidade maravilhosa”. Mais que uma cidade partida é uma cidade desumana para seus moradores — o Freixo tinha razão.

Além de rebaixar a qualidade de vida, a falta de grana te expõe mais aos preconceitos. E aqui me reservo e preservo o direito de não relatar pormenores. Porque dói se expor tanto, embora a necessidade de desabafo seja premente.

A saudade e a sensação de não pertencimento, o calor e a impossibilidade de sonhar com ele, combinados com a falta de grana e essas pressões e opressões cotidianas colocaram minha biscatice em xeque… Sou biscate, mas não estou biscate. Chuif.

Quem sabe quando chover e arrefecer um pouco, tudo o mais fique menos pesado… Quando é mesmo que começa o outono?

Post de sábado quente

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Sábado. Sol. Quente. Aqui tá mais fresquinho. Pela janela vejo a pedra, vejo o verde. Vejo azul o céu.

Post no Biscate: hoje é meu dia. Calor. Preguiça. Saco de gelo na nuca. TV-abobrinha. É meu dia: e isso pega, isso gruda nas idéias, isso atrapalha o fresquinho do saco de gelo na nuca.

Deixar pra lá: não sei fazer. Penso no que a Déborah me disse-que-o-analista-dela-disse- pra-ela mas podia ter sido pra mim: você nunca deixa pra lá e considera feito? Ele disse pra ela e ela me disse. A mim. E ele podia bem ter dito a mim, porque é mesmo a minha cara. Uma lista de não-feitos. De pendências quase caindo do pé. Mas permanecendo. Incomodando. Impedindo o balanço da rede, o dengo do sábado, o relaxar no calor.

Mas é assim: a gente ouve. Parece que nem deu atenção. Muda de assunto. E mesmo assim aquilo fica lá, ecoando. Esse ficou. Minha imagem é de fios desamarrados: na minha cabeça tem um monte deles. Pendências pendendo penduradas. São fios pretos, não que eu jamais tenha pensado nisso ou escolhido sua cor. Mas vejo-os: são pretos. Num varal. Desamarrados.

E aí, como uma nova porta, um novo horizonte desconhecido, a idéia nunca dantes navegada, quase revolucionária: e se eu deixasse pra lá? E se eu simplesmente aceitasse que alguns não? Que na verdade nunca, que talvez nem deveriam ter sido? Que nem estão mais lá, se eu olhar com honestidade?

Não sei ainda. Tá calor. Dá preguiça. E tem que definir. Tem que decidir que fios. Os que ficam, os que vão. É também um tipo de comodismo, esse não-escolher: um faz-de-conta à maneira da Emília. Faz de conta que estão todos ali ainda. E que um dia eu vou fazer. Vou amarrá-los um a um, bonitinhos, com laço e tudo. Vou completar. Vou fechar um ciclo.

E no “não sei” nada acontece. É necessário coragem pra deixar ir. Desapego. Até dos desafios, até dos problemas. Desistir: também uma sabedoria.

Aprender a desistir: um novo caminho. Novo fio?

Enquanto isso, a rede. O azul. O calor. A janela. A pedra.
O post.

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