A culpa, o samba, os relacionamentos 2*

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Um casal (famoso ou não) se separa e as especulações começam. Se há suspeita (e sempre há, quando não por indícios “reais”, por pura inferência) de um triângulo amoroso, não resta dúvida: a “culpa” é da mulher. Ou das mulheres, com gradação. Primeiro a culpa da “traída”, porque não soube segurar seu homem, não deu atenção, deve ser fria, trabalha demais e tal e coisa e coisa e tal. E, com mais vigor, as recriminações à que é descrita como causa, motivo, razão da separação. A outra, a rameira, fácil, destruidora de lares e mais uma coleção de xingamentos que relacionam atividade sexual com pouco caráter e/ou ética questionável. Em uma vibe aparentemente menos virulenta, mas ainda com uma demanda de rotulação e culpabilização da mulher, chegam os argumentos de “cadê sororidade?”, “tem que respeitar o relacionamento da outra mulher pra ser respeitada”, “mulheres tem que se apoiar e não tomar o companheiro da outra”, etc.

Um questionamento válido que muitas pessoas acrescentam são reflexões e indagações sobre a participação dos homens envolvidos na relação. Afinal não são eles os comprometidos no casamento/noivado/namoro/whatever? Não são adultos, responsáveis pelos seus desejos e ações? Não são eles que “quebram” os votos, as promessas, os vínculos? A “culpa” não é deles?

Nessa vibe, uma manchete que responsabilizava a babá pelo fim do casamento entre Ben Affleck e e Jennifer Gardner foi transformada em: Ben Affleck é pivô da separação entre Ben Affleck e Jennifer Gardner. Parece bom? Parece. Mas. Pois, esta biscate tem mania de mas. A manchete modificada traz a ideia de que uma separação, o fim de um relacionamento, tem um responsável, um culpado. E, aqui entre nós, penso que não existe pivô de uma separação. Um casal se separa porque chegou ao ponto em que não dá mais. Porque sim. Porque assim é melhor. E se é pra um dos dois, é para os dois. Quem convive com suas razões, e apenas estes, podem explicá-las a quem lhes é de interesse, aos outros melhor seria ocuparem-se de seus próprios nós. A vida íntima alheia (de célebres ou não) não deveria motivar tanta preocupação e, principalmente, julgamentos baseados em julgamentos do comportamento sexual das mulheres.

E tem outro mas. Ai tem? Tem. Porque o buraco, penso eu, é bem mais embaixo. O bafafá e quiprocó sobre separa-não-separa, foi-por-causa-do-quê-de-outra-não-de-homi-que-não-presta só acontece inserido em uma lógica de a) exclusividade afetivo-sexual e b) imperdoabilidade (existe essa palavra?) de relacionamentos sexuais com outras pessoas.

A nossa sociedade construiu e tenta sustentar (ao mesmo tempo que se sustenta, também, nela) uma ideia de que relacionamentos certos são capazes de – e devem – suprir todas as demandas, faltas e necessidades dos envolvidos. Mas, sei eu e, aposto, sabe você, somos seres de incompletude. Nada, ninguém, relacionamento nenhum vai nos deixar inteiros. Ah, mas a gente não precisa atender a todos os nossos desejos, porque essas pessoas não se controlam? Eu mudo a pergunta: porque é preciso o controle sobre o corpo e o desejo? O que se garante, garantindo esse controle? A quem interessa regrar o sexo alheio?

Vamos combinar: o que há de realmente grave no fato da pessoa com quem trepamos trepar com outra pessoa? Ou ainda, o que há de mais grave nisso do que ela ir ao cinema com outra pessoa? Do que ela gostar de conversar sobre vinis antigos com outra pessoa? O que há de realmente mais grave no fato da pessoa com quem trepamos participar de uma suruba do que participar de um grupo que faz degustação de vinho ou escalada? Porque achamos que é uma imposição nos afastarmos de quem beijou outra boca que não a nossa mas não de quem passa horas jogando videogame com outro alguém que não a gente? Parece-me que nada – afinal tem prazer envolvido, tem tempo envolvido, tem desejo envolvido em todas essas outras atividades, assim como no sexo – a não ser o local em que colocamos o sexo na nossa pudica sociedade. E como o usamos para cercear, reprimir e hierarquizar situações, pessoas e desejos.

Não estou dizendo que não dói, que não mexe, que não balança a gente saber que a boca que encostou na minha boca anda sugando línguas outras. Afinal somos todos inscritos em um discurso de posse, exclusividade, que nos ensina que isso é pra doer, que isso é prova de desamor, que se perdoa quase tudo, mas isso, ah, isso não. Não estou, também, dizendo que, ok, agora entendi, então vamos todos nos tornar não-monogâmicos. Não estou dizendo que ah, coitadinhos, deixa os homens treparem à vontade. Estou dizendo nada disso. Estou, mal e mal, tentando circunscrever esses discursos de posse, separação, traição. Tentando discutir que essa dor de “ser traída” não é um dado natural inevitável, mas resultante de uma construção social que pode ser desconstruída, devagar e sempre (incluindo a noção de traição) rumo a uma sociedade que nos reprima menos e onde se goze mais. Tentando conversar sobre o quanto intimidamos e magoamos outras pessoas ao reforçarmos discursos onde a exclusividade sexual se torna tema central e inquestionável (quantas vezes não ouvi as pessoas dizendo “mas é CLARO que ela devia se separar, imagina, ele transava com outra pessoa há meses”) dificultando que as pessoas afirmem seu desejo de continuidade “apesar de” ou, mesmo, “por causa de”.

Disse antes e repito, não se trata do que sentimos, mas do que fazemos com o que sentimos. Trata-se de quem queremos ser e em que sociedade queremos ser quem queremos ser. Trata-se de ser responsável pelo meu desejo, pela minha falta e pelas minhas ações. Trata de amar no outro a sua incompletude. De amar, na vida, também os silêncios, os vazios, as distâncias. Trata-se de mais. Querer mais, ser mais, gozar mais. Trata de substituir a culpa pela responsabilidade. De afirmar o desejo. E de parar de se importar com quem os outros estão trepando, porque estão trepando, o que A ou B acham da trepada. Parar de criar regra pra trepada alheia, olha aí um bom mote.

*Texto desenvolvido a partir de uma postagem de Dai Dantas no FB que, aliás, está copiada (com autorização) praticamente sem mudanças no parágrafo em itálico no meio do texto.

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