Não mascare a violência contra a mulher – Campanha de Carnaval

Esta biscate escrevente está de plantão, em uma cidade histórica de Minas, com um Carnaval famoso em todo país.

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E onde em 2012 uma campanha da PM contra o beijo roubado gerou protestos dos foliões – e foliãs.

Este ano o mesmo tema retorna na campanha “Não mascare a violência contra as mulheres”, da Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana da Paraíba. Segundo informado, serão distribuídos mais de 50 mil leques com telefones de Delegacias da Mulher e do Disque Denúncia 197 alertando sobre o que fazer em casos de agressão e beijo forçado. De acordo com dados da Delegacia da Mulher de João Pessoa, neste período carnavalesco o número de denúncias aumenta cerca de 30%.

Tão importantes quanto processar criminalmente e punir os agressores, autores de violências contra as mulheres, são as campanhas de conscientização.

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O beijo “roubado”, pode, sim, ser “brincadeira”, se a parte do “roubado” for brincadeira, consentida, entre pessoas adultas e capazes.

O beijo forçado, obrigado, constrangido mediante uso de força física, segurando pelo braço, pelo cabelo, cercando a pessoa com os amigos em “corredores poloneses”, etc, é violência, é crime, tem que ser coibido.

O problema que vejo é que somos tão acostumadas, nós, mulheres, a mascarar a violência como brincadeira, ainda que de mau gosto, que toleramos e negamos nosso direito de dizer não. No Carnaval, não vale tudo.

No Carnaval e nas baladas, mais ainda que no dia a dia, é como se nosso corpo se tornasse público. E não é. Nosso corpo é nosso, e não abrimos mão de nossa autonomia ao vestir uma fantasia provocante e tomar bebidas alcoólicas e sairmos desacompanhadas de um homem.

Ano passado no plantão de carnaval em outra cidade do interior, um jovem de 16 anos, daqueles bem fortes, criados “a danoninho”, agrediu uma colega, com um murro no rosto que quase fraturou o nariz da jovem. O motivo: ela não quis aceitar a brincadeira de beijo roubado, já que o jovem estava embriagado.

Ser agarrada a força e obrigada a beijar, seja um desconhecido seja um colega, não é brincadeira.

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Brincadeira é brincar Carnaval. Somos todas a favor de variadas estripulias e de se fazer o que se quer. Beijin no ombro, camisinha no bolso!

Mas fazer o que não se quer, e ainda ser acusada de “estar aí para isso”, ter que ouvir “com essa roupa, quem mandou”? Não. Amor de Carnaval tem que ser sem violência!

Amigas, meninas, moças, mulheres. Não somos obrigadas. Se você quer beijar um, dois ou quantos mais, é seu direito. Se não quiser beijar ninguém, é também seu direito!

Se quer brincar, entrar na brincadeira dos beijos roubados e achar que não tem nada de mais, ok, claro que você pode.

Mas se outra não quiser, não é frescura, exagero nem “cu doce”.

É liberdade, também.

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* adendo necessário: muitos dos homens que fazem tais brincadeiras acham que são realmente brincadeiras, porque não estão acostumados a pensar na autonomia da mulher. Felizmente, vários já estão se conscientizando e entendendo que a violência se mascara de várias formas.

 

 

Biscarnaval

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É Carnaval! Hora de tomar conhaque com o ticket do leite. Isso mesmo, amiga-amigo, biscate. Caia na gandaia! Desça na boquinha da garrafa, segure o tchan, vá na dança da ondinha, chame Dalila, Pererê e quem quiser! #SiJoga

Beije um, beije dois, beije três e beija eu, seja eu! Porque se vamos comer Caetano ou Bethânia, tudo depende da madrugada com a vitrola rolando, nus, dançando de biquíni ou BB King sem parar! Pois já que em tempo de pega-pega-pega-pega-pega,  pega-pega, já peguei, nada mal, a gente curte o terra samba e tira essa loucura de dizer que não te quero, Conceição!

E, naquela hora, em que todo mundo é menino e vai gritar pra todo mundo ouvir: Olha a Mangueira aí, gente! Chama a Valesca e, #Mama, fia! Beija-flor, seja flor, dance no céu! #EuQueriaSerUmaAbelha #HajaAmor #AjaAmor

Depois, é felicidade que brilha no ar! É luar, estrela do mar e o que há de bom! Grita alalaôôôôô e vamos pra turma do funil!

É assim, bisca-amores, atrás da verde e rosa e na frente da Mangueira só não vai quem já morreu.  E como we are carnaval, we are folia, we are The world of carnaval, caia na folia!

A Parada Gay não é mais a mesma?

A tristeza acompanha as notícias vindas de São Petersburgo: a paraga gay russa será, até o momento e apesar do clamor dos defensores dos direitos civis, proibida pelos próximos 100 anos em nome de uma sociedade mais ***civilizada***. Nesse momento, a luta contra homofobia no país significa o direito de protestar pelo direito de protestar. Aqui a situação é parecida.

Guardadas as devidas proporções, recentemente enfrentamos situação semelhante com a Marcha da Maconha. Felizmente, o STF considerou inconstitucional a repressão contra manifestações públicas. Temeroso pensar que precisamos chegar a essa instância para garantir um dos direitos mais básicos do modelo democrático em que vivemos.

Esse é o contexto da 16ª edição da Parada Gay 2012 que acontece amanhã em São Paulo. Porém, o evento vem sendo erroneamente criticado pelo suposto esvaziamento político e acentuado alcance econômico. A data, antes marcada pelo protesto, teria se transformado numa ocasião de diversão, pegação geral, sexo livre, promiscuidade. Coisa que não ***combina*** com a luta pelo casamento igualitário e a defesa da ***família***.

As perguntam se multiplicam. Por que temer o caráter carnavalesco do evento? Por que uma manifestação LGBT deveria ser casta e puritana? Por que a luta deveria sublimar toda e qualquer manifestação da sexualidade? E se os manifestantes não podem pegar geral em seu próprio evento, quando poderão? Não se trata apenas de moral e bons costumes. Pegar geral e irrestritamente é fazer política, biscates sabemos.

E assim temos avançado. Há conquistas a  celebrar, terreno a ser defendido. Na base de muito pancake, por que não? Porque nunca será apenas uma oportunidade para ver e ser visto. E mesmo que seja, teremos motivação política suficiente: lutamos pelo direito de existir numa sociedade que nos quer (femininas, masculinas, transsexuais ou assexuais) invisíveis a todo custo, no máximo submissas e caricatas.

A boa notícia (e a má) notícia é que todo manifestante LGBT sabe disso.

Então que venham muitos beijos, glamour e pegação.

Enquanto incomodar muita gente, é porque estamos no caminho certo.

Das Musas Improváveis ou Gracyanne Rules!

Por Charô Nunes*, nossa Biscate Convidada na Quinta Cultural

Num mundo onde as mulheres são todas loiras e devassas, no máximo variações do mesmo tema, mulheres e homens transitam entre o lá e o cá desse caldo cultural que alguns chamam de gênero, enterram clichês normativos e se libertam do sexo que por acaso carregam entre as pernas. Esse post fala sobre essas pessoas que destroem as barreiras entre os sexos e difundem a ideia radical de que nós mulheres somos gente.

Enjoy.

Oi, quem tem medo de Gracyanne Barbosa?

Ao olhar para o corpo milimetricamente desenhado de Gracyanne Barbosa alguns sentem que algo está fora de lugar. Um dos blogues mais influentes do país chegou a afirmar categórica e irresponsavelmente que em seu corpo há menos Gracyanne e mais Barbosa. Infelizmente, o twitter também serve de termômetro nesse caso. Porém, ao contrário do que muitos gostariam de admitir, Gracyanne é mulher e aquele corpo também é o de uma mulher.

E aí que enrolam e assam o pepino.

Se ela é mulher e eu sou homem hetero, existe a possibilidade de eu vir a gostar de uma mulher fisiculturista. Mas não existem (ou não deveriam existir) mulheres praticanto fisiculturismo, esse esporte de homem. Logo Gracyanne é traveco ou não é uma pessoa, mas sim uma coisa, “um troço”. E se eu achá-la bonita mesmo assim, eu tenho de “trocar de time” e me assumir como gay.

Se ela é mulher e eu sou mulher, então eu tenho de questionar as possibilidades de meu próprio corpo. Melhor afirmar que ela é homem do que encarar a ideia de que meu corpo, se malhado, possa vir a ser como o dela. Mas existe um cenário ainda mais assustador: se ela é mulher então pode ser considerada mais bonita que eu. Como rainha de bateria, ela o é. Logo deve ser rotulada a qualquer custo como um homem.

As combinações são infinitas.

Mas existe uma constante: homens e mulheres competem continuamente para saber quem é mais viril (como se a virilidade tivesse sexo) e quem é a mais bonita. Gracyanne ameaça a todos, nas duas modalidades. Assim a primeira coisa que as pessoas fazem é negar sua humanidade e sua capacidade de ser amada. Por causa disso é nossa primeira (e maior?) musa improvável desse carnaval. Gracyanne Rules!

Laerte, a loira morena do banheiro

A Cultura gravou um Roda-Viva de carnaval com ninguém menos que Laerte Coutinho, a morena do banheiro. Tinha tudo para dar certo mas… Brochamos todos que vimos o programa: o entrevistado era muita areia para o caminhãozinho dos entrevistadores. Bloco após bloco a entrevista se arrastava. Parecia que faltava oxigênio no recinto.

A perplexidade diante de um homem trajando o vestido era tamanha que chegaram a perguntar porque ele/ela (ao gosto do freguês, segundo o próprio Laerte) não se veste de acordo com sua classe social. Afinal, se é pra ser mulher, que seja ricka. E quando perderam os pudores, queriam saber se mijava em pé ou sentado, se ainda poderia jogar futebol (esse esporte de macho, né Marta?). Veja bem, pode até se vestir de mulher, desde que continue homem.

E com todo esse furdunço Laerte continuou absolutamente serena. Se veste como bem entender e reivindica o direito de ir ao banheiro sem que ninguém (e todo mundo) tenha a ver com isso.

Mas nem tudo foi tempo perdido. Angeli estava preocupado em saber se é possível fazer humor respeitando direitos humanos. Très legal. E no meio da barbárie, Laerte insinuou o poliamor. Diz, quase sem dizer é verdade, que a monogamia não lhe serve. E conceitua a não monogamia como prática anticapitalista.

Claro, foi tudo en passant.

Ainda assim, foi mais que suficiente para tornar a morena do banheiro ainda mais atraente. É musa improvável e inconteste.

Vânia Flor: gorda, porém casada

Ter samba no pé. Esse deveria ser o único quesito para ser musa de carnaval. Mas na prática a teoria é outra. As rainhas e madrinhas de bateria são todas brancas, magérrimas. No carnaval, as gordas desaparecem e as negras são descaracterizadas (lentes de contato azuis, apliques, descoloração dos fios). Ainda assim, Vânia Flor foi o nome do carnaval 2012. Ainda que negra e gorda. E justamente por isso.

E como era de se esperar, falou-se em dieta, quantidade de quilos (104, para ser mais exata). E uma enxurrada de elogios. Daqueles elogios que na verdade dizem que Vânia deveria se odiar, fazer dieta e ficar escondida em casa. Porque, com esse tamanho, tem de se amar muito e se assumir antes de sair de casa, e coisas do tipo.

Até que (nada é tão ruim que não possa piorar) uma comentarista da Rede Bobo (não lembro o nome) disse algo mais ou menos assim: “Ela é gorda, porém casada. E o marido é magro”.

Nesse momento desceu a Teodora em mim.

Say no more.

E pra concluir…

Obrigada pela paciência de ler um post assim enorme, um postão.

Com direito a dedicatória e o escambau: beijo para todas as mulheres que mijam em pé, que não gastam horas a fio com manicure. Que sujas, não depilam as axilas e virilhas. Para as que adoram puxar um ferro. Para aquelas que dão a mínima para a ideia de se vestir bem. Beijo para negras e gordas. Especialmente negras gordas. Sobretudo aquelas que ousaram se casar e ainda acharam escolheram um magro (só pode ser louco) para chamar de seu.

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Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Boletim Biscate

Quedê biscate?

Biscateando.

Quede convidados das biscas?

Na mesma (espera-se).

Segunda de Carnaval e estamos mesmo é sassaricando. Na rua, entre livros, no escurinho do cinema, de cama em cama, sozinhas na nossa, aqui e ali, em algum ou nenhum lugar.

Mas nem se preocupem, “No palco, na praça, no circo, num banco de jardim, correndo no escuro, pichado no muro, você vai saber de mim…”

Carnaval e Biscatagi

E então chega o carnaval.  Para muita gente, sinônimo de biscatagi.

Será?

Ilustração de Cláudia Gavenas

Ah, pode ser. Ou não. Uhmmm, talvez.  É que no carnaval (e só no carnaval, viu gente?) todo mundo tem uma espécie de “passe livre” para ser livre. É uma semana inteirinha em que a sociedade “aceita” que façamos o que tivermos vontade.  Aceita mais para uns do que para outros, certamente. E uns podem ter muito mais “liberdade” que outros pelos motivos que a gente já conhece.  Parece que o país inteiro fica mais tolerante, colorido e sorridente nessa época. Mas depois que passa a festa,  guarda-se as máscaras e as pessoas precisam voltar a ser “sérias”.  Afinal, o ano só começa depois do carnaval, não é?

Hipócrita isso, sabe.

Não me entendam equivocadamente, porque não acho que todos precisam estar felizes e contentes o tempo todo; aliás, eu tenho um pouco de receio de gente que nunca demonstra na vida um momento de fraqueza . No entanto, não encontro lógica num pensamento tão paradoxal, porém recorrente no discurso de tanta gente. E quando falo do paradoxo, refiro-me principalmente ao que remete à conduta ( não gosto do termo, mas não encontrei um melhor) sexual de cada um.

O carnaval, segundo o discurso supracitado, é a justificativa e a oportunidade para a galera “pegar geral”.  Mas se alguém resolver fazer isso durante o resto do ano, será tachad@ de imoral. Irá chocar a sociedade. E haja maledicência!  E paciência para aguentar… Se esse alguém for mulher então… Coitada. Então, paradoxo: é Ok usar abadá decotado e shortinho para seguir os blocos de rua; mas blusinha curta, para ir à padaria num dia de calor, em qualquer outro momento da vida dela, não.  Aí, ela não pode aparecer, ficar se “mostrando”.  Vamos pensando aí, pessoal.  Não é muito falso moralismo?  Por que as regras tem que mudar durante a folia?

E sobre o carnaval ser ou não sinônimo de biscatagi, digo que depende… Da biscate! Conheço biscates (eu inclusa) que não curtem muito essa época do ano. Outras aproveitam o feriado prolongado para descansar ou curtir as músicas da preferência delas. E outras ainda, que não perdem sequer um dia de festa: topam micareta, trio elétrico, bloco de rua, desfile de escola de samba, baile de salão… E garanto que se qualquer uma delas quiser ficar com alguém e for consensual, elas o farão porque querem.

E o que todas elas têm em comum é que se sentem livres o ano todo. Sem data marcada para começar e para acabar.

Rainha da Bateria

Por Marília Moschkovich

Este texto é sobre uma personagem ficcional, inspirada livremente em Haonê e Vânia Flor (musa do Salgueiro/2012)

Um dia ela quis.

A família foi contra. Nem ligava, ela iria mesmo assim. Sair nua no carnaval. Nua inteirinha. A arte da pintura corporal a adornar. Nada mais. Nem tapa-sexo. Não tinha sequer certeza de que seria permitido.

Candidatou-se. Os 118 quilos não eram impedimento legal, confirmou com a advogada. Sambava melhor que qualquer magra. Animava a bateria. Tinha uma voz incrível e um fôlego incomparável. Cantava e sambava, ao mesmo tempo, a distância do sambódromo inteirinha. Era uma verdadeira sereia do samba.

Amava mulheres. Era, além de tudo, lésbica. Preta, pobre, gorda, lésbica e, claro, mulher. Ela que sonhava em sair nua no carnaval.

O feito rodou as notícias, a mídia. Vieram repórteres de todo o Brasil, do mundo. Se ela conseguisse o posto de rainha seria a primeira gorda e a primeira lésbica a comandar no pé uma bateria do grupo especial. No começo estava até tímida com tantas perguntas. Não gostava de revelar o peso, nem a idade. Os repórteres insistiam. Ela lá, firme. Importava o peso? “Já não dá pra ver que sou gorda?”, retrucava.

Perguntavam sobre a família, afinal, duas mulheres de mais de 100 quilos que têm um filho e uma filha não é exatamente o padrão do comercial de margarina. Biscates, desafiavam o mundo inteiro com sua mera existência. Que não é mera coisíssima nenhuma, vale dizer.

Imoral. Pronto. Como são geralmente as biscates, ela era uma verdadeira imoral. O mau exemplo em pessoa. Ninguém escolhe nascer negro, claro, mas ela podia fazer um regime. Exercícios. Cirurgia pra reduzir o estômago. Podia não se casar ou tentar um tratamento para resolver os problemas psicológicos que levavam “ao homossexualismo”. Podia fingir casando-se com um homem. Podia não desejar sair pelada pela avenida.

Ofensa. Foi esse o tom das respostas pela internet. Ofensa pelo amor que ela nutria à sua companheira. Ofensa por seu corpo. Ofensa por seu desejo carnavalesco. Enfim não foi eleita rainha da bateria.

Indagada pelo repórter, o último que veria em sua vida de curto flash midiático, como lidaria com essa derrota, com a frustração de não realizar o sonho, respondeu:

“Derrota seria não tentar” e acrescentou, ainda, esmigalhando o tom de autoajuda que a imprensa tanto gostaria de levar ao ar: “Meus fãs ainda poderão me ver. Fui convidada pela escola de samba Unidos do Tupiniquim, em São Vicente, para comandar a bateria. Me aguarde!”

Certas biscates não desistem. Que bom.

PS. Inspiradoras mulheres…quando ser biscate é ter coragem: A Musa (Haonê) e Vânia Flor (musa do Salgueir/2012)

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