Uma Não-Carta de Amor

Por Cristina Charão*, Biscate Convidada

Papel+amassado

Pensei em te escrever uma carta de amor, mas não posso.

Não sei encontrar em mim as bonitezas que cabem em uma carta de amor. Não há em mim sutilezas capazes de criar boas metáforas, nem certezas que me permitam hipérboles.

O que eu sinto agora é mais um desejo de violência do que de zelo, e se eu disser eu te amo (mais uma vez), quero que seja como um tapa, não uma carícia.

Pensei, então, em registrar as mil quatrocentas e setenta e sete vezes que penso em ti ao longo de um dia em pequenas tiras de papel, amassá-las lentamente, reduzi-las a bolinhas infames e atirar cada uma delas em ti. De pirraça.

Passei na Rua Botafogo hoje.

Li o artigo do ex-presidente. Falou abobrinhas, mas não só, né?

Me explica quais foram as não-abobrinhas que ele disse.

Minha mãe fez pudim.

Nossa, tá frio.

Tive vontade de tomar café.

Sabe que eu não tinha vontade de tomar café antes de ti?

Acho que vou comprar aquele hidratante.

Vesti aquela calça florida.

Preciso entender o marxismo.

Devia ler mais.

Ele deve estar estudando.

House. Lupus de novo? Eu ri.

Cada coisa dessas, anotada com a minha letra ligeira e horrorosa em um pedacinho de papel, amassado.

Bolinhas de papel, atiradas como quem joga uma bolinha de gude, assim com o polegar dando um peteleco. Cada uma delas atingindo a tua orelha, uma atrás da outra.

Irritantemente. Despeitadamente. Inconveniente.

Não é assim o amor?

cris charão*Cristina Charão [@cris_charao] é uma jornalista que vive de biscates – ou uma biscate que vive de jornalismos. É mãe, mas não mãezinha. Às vezes mulherzinha, às vezes mulherão. Gaúcha. (Sim, eu sei fazer churrasco. E troco lâmpadas. E mato baratas. E faço ballet nas horas vagas.) Fala mais do que faz. Escreve menos do que pensa.

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