Arrumar a Casa

Por Bárbara Guimarães*, Biscate Convidada

Nunca fui boa dona de casa. Sabe aquela coisa de tudo sempre arrumadinho, panelas brilhando, chão brilhando, vidros brilhando? Jamais foi minha prioridade. Pelo contrário, quem me conhece com certeza já me ouviu falando que minha pia da cozinha estava virando foco de dengue ou olhando para um vidro de janela embaçado e falando “É… acho que alguma hora vou precisar chamar uma faxineira”.

(Pensando bem, acho que tenho é um certo orgulho de não ser boa dona de casa… reação minha a modelos antigos, expectativas paternas, sociais etc e tal. Enfim.)

Mas vez em quando uma coisa ou outra, um momento de vida ou outro me faz parar e arrumar a casa, num contexto mais amplo. O que significa revirar todos os armários, as estantes, as prateleiras, as malas debaixo da cama, as caixas de guardados. Espalhar tudo no chão e mergulhar. E então perceber que boa parte do tudo que estou guardando há anos – às vezes décadas – não me serve mais.

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Por que guardamos tantas coisas?

Arrumando, arrumando… Fotos. Antigamente as fotos vinham reveladas em papel, vocês lembram? A gente escolhia as melhores, colocava em álbuns… As não tão boas, guardava, sei lá pra quê. Escritos, tantos. Para que ainda estou conservando comigo anotações de cursos que fiz 15, 20 anos atrás, e nunca mais li? Roupas. Meu deus, quantas roupas. Algumas nunca usei. Livros. Já vendi toda a minha biblioteca uma vez, quando estava me mudando de país. Voltei e consegui juntar mais uma centena… quantos ainda vou de fato ler?

Sento no chão, cercada de mil e uma coisas. Separa, separa, separa. Isso fica porque eu uso, isso vai pro lixo, isso vai pro bazar – é, o volume é tão grande que resolvi fazer um bazar com precinhos camaradas para os amigos. Assim tudo ganha outros donos, felizes com suas boas compras, e eu ainda fico com um dinheirinho para ajudar na nova mudança. Círculo virtuoso.

Arrumação feita, caixas lotadas de coisas que vão ser vendidas, sacos pretos cheios de guardados eternos e nunca usados que agora vão para o lixo… E de repente me pego sentindo uma leveza nova na minha casa. Camadas descartadas. Paro tudo, me olho no espelho, e a mulher que vejo também parece mais leve…

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Aí fico pensando no lado simbólico do “arrumar a casa”. Sei muito bem que quando não estou em uma boa fase minha casa fica o caos. E então arrumar a bagunça alivia. Jogar lixo fora alivia. Simbolismos? Sim, mas tão efetivos… Arrumar uma casa também acaba sendo um parar e olhar para a nossa vida, para nosso passado. E deixar vir a percepção do que ainda nos cabe e do que estamos carregando a toa e só nos traz peso. É também parar a arrumação para chorar uma saudade, deixar sair uma dor… ou para dedicar a alma inteira a sorrir com uma lembrança boa. É sentir a delícia de jogar fora o que não nos serve mais. Lixo. Sai de mim, me deixa em paz, por favor.

Quatro anos atrás eu estava me mudando de uma cidade pequena depois de 8 anos lá, e um pouco assustada. A conselho de uma amiga, conversei por telefone com um pai de santo maravilhoso de Salvador, Tatá Anselmo. Ele me disse o fundamental: “Minha filha, mude, vai ser bom para você. Mas lembre que não adianta mudar de cidade sem se transformar também. Se não, você se muda, mas tudo que incomoda permanece”. Ele estava certíssimo. Já eu, talvez não tenha feito muito bem a minha parte. Mas estou no caminho, aos poucos.

Mudar de casa, de cidade, de país é duro. (Eu sei, já mudei dezenas de vezes nesta minha vida de cigana.) Livrar-se das coisas materiais que a gente vai acumulando, por um motivo ou outro, também é. Mas difícil mesmo é mudar por dentro. Desacumular por dentro. Parar, olhar-se com atenção, perceber como são antigas as causas de um sentimento ou de um comportamento… e se tocar que não são mais válidas para a pessoa que somos hoje. Chacoalhar os ombros e deixar cargas despencarem. Adeus, não quero mais vocês. Adeus pesos, adeus culpas, adeus lembranças ruins, adeus cobranças excessivas. Adeus, eu-antiga, te quero mais não.

Arrumar a casa. Por dentro e por fora. Difícil. Mas precisa, né?

bolhas1*Bárbara Guimarães é mulher multifacetada, às vezes maremoto, às vezes águas acolhedoras. Temperamento artístico e inquieto. Alma que se alimenta de música. Em uma busca eterna, tentando achar um caminho entre fomes, medos, luz, escuro, racionalizações e emoções.

Mudança, chocolate, amizades e muito rum!

Estou em um período de mudança, fechou um ciclo da minha vida. Um ciclo marcado por ceticismo, inconstância, medo e coisas que me assombravam me rondando. Assédio, desconfiança, depressão e insônia e eu tentando me mostrar uma muralha forte, um porto seguro, não incomodava ninguém com os meus problemas. A pior dor é a dor da solidão que nós mesmxs escolhemos e causamos. O medo de sofrer, nos afasta do mundo real, “gato escaldado tem medo” de todo mundo à sua volta! Me proibi de amar e confiar no fim desse ciclo e, desde o início desse ciclo, me proibi de crer.

Fui cética do mundo, da bondade, de Deus, de pessoas que merecem a minha confiança. Tive uma melhora significativa e depois piorei. Euforia demais após um momento de extrema depressão pode nos matar por dentro, se for seguida de decepção aí é que mata mesmo! Amigxs decepcionam, familiares também, o mundo todo nos machuca, seu coração te decepciona todos os dias.

Mas, um dia, um golpe do destino, uma irmã passando no mestrado com um projeto digno de orgulho, um ovo de páscoa de quem menos esperamos e casa nova nascendo regada a rum e, agora, protegida por cristais, quando você nota, pessoas que precisam de você e estão por perto quando você mais precisa vem e complementam sua família, te agregam a família delxs. Você vira mãe, irmã, companheira, melhor amiga, você vira você! Você tem ombro para chorar, você dá seu ombro para que chorem. Você cresce,você volta a acreditar nas pessoas, em Deusxs, numa força que modifica você e o mundo a sua volta. Você volta ao normal, sem excessos, sem euforia e sem depressão, só você de antes, de sempre, aquela Sara conhecida pelo otimismo, o copo sempre esteve meio cheio e eu nem notei!

Agora vou construir devagar meu alicerce, sem exagero, pois eu sei melhor que ninguém que construir tudo rápido e na euforia só faz desmoronar na primeira brisa.

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Rum, felicidade, amigxs!

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