Diferenças Irreconciliáveis

Por Tâmara Freire*, Biscate Convidada

Eu fui casada por três anos.

E me separei pelas tais diferenças irreconciliáveis, ou qualquer nome que a gente dá para quando não houve nada além da vida, encaminhando um dos dois, ou ambos pra uma direção diferente.

E hoje voltando do trabalho eu estava cantarolando essa música e lembrando de quando eu fui morar com o Bruno.

A gente alugou uma casa toda engraçada, que não tinha sala (!), não tinha nada. Era um puxadinho, por um preço módico, numa localização nem tão razoável e que vivia uma zona, porque nenhum de nós era muito afeito a trabalhos domésticos.

Os móveis eram simplérrimos, comprados numa loja generalista, passavam longe de qualquer acepção de design. Tínhamos quatro pratos, quatro garfos, quatro colheres… E um único objeto de decoração: três baianinhas que a gente trouxe de uma viagem à Salvador.

Nessa casa ficamos seis meses. Nessa casa, eu enfrentei as crises de terror noturno de uma criança de um ano e meio. Nessa casa, eu flagrei um flerte na internet e dela saí prometendo nunca voltar. Nessa casa, Miguel firmou seu andar. Nessa casa, eu mudei de emprego, acordava cinco e meia, viajava duas horas pra ir, duas pra voltar, e só voltava nove da noite. Nessa casa, eu me deitava todas as noites dividindo as agruras com um outro alguém. Nessa casa, a gente também brigava, é claro.

E dessa casa, eu saía todos os dias pro trabalho, com essa música tocando a todo volume no carro, “pra energizar”, porque os dias eram sempre foda.

Faz dois anos que eu não sou mais casada e eu não me arrependo nem um minuto por ter tido essa casa, e as outras duas que tivemos, e todas as outras coisas, incluindo a separação.

A vida é feita de ciclos. Só mesmo quem nunca foi casado pra acreditar nessa visão catastrófica de que o fim de um casamento é a decretação de seu fracasso.

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Tâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

Mensagem Para Uma Paixão de 20 Anos

Por Mabel Dias, Biscate Convidada*

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Era um dia como outro qualquer. Acordei para ir ao trabalho e como sempre  faço chequei as mensagens no Whatsapp. Deparei-me com uma que chamou minha atenção. Era de um amigo  com quem há muito tempo não conversava. Achei estranho, pois ele nunca me mandava mensagens, nosso contato era tão formal que mal nos falávamos virtualmente. Apesar de achar estranho, fiquei contente com aquele contato. Tomei café e segui para o trabalho normalmente.

Ao chegar lá, comentei com uma amiga sobre a mensagem que havia recebido. Ela me sugeriu conversar com ele e saber qual é.

– Ah, amiga, se você soubesse, eu sempre fui a fim desse cara!

Sorrimos.

No dia seguinte, checando mais uma vez o aplicativo de mensagens, mais uma. Desta vez, com a foto de uma flor e a pergunta de como eu estava. Isso me enchia de felicidades e ao mesmo tempo de angústia. Não tinha coragem ainda de perguntar o que estava acontecendo.

Conversando com outra amiga, ela me disse para desencanar, pois podiam ser apenas cuidados e gentilezas de um amigo. Mas, dentro de mim, havia algo que sinalizava que não era apenas isso. Mesmo assim, não quis criar coisas na cabeça.

Os dias foram passando  e eu fui me acostumando a, toda manhã, ser acordada com estas mensagens de carinho. Minhas manhãs eram tristonhas, pois havia acabado de sair de uma depressão, e o que ele estava me proporcionando eram momentos de alegria, que me reenergizavam.

De repente, as mensagens se tornaram mais explícitas. E aí, o sinal vermelho acendeu: Nossa, será que ele está apaixonado? Este não era o problema, mas sim o fato dele ser casado. Isso para mim era um choque.

Criei coragem e perguntei o que ele pretendia com tudo aquilo.

– Pretendo pretender….não sei – ele disse.

E eu a cada dia ficava encantada e perturbada. Se fumasse, já tinha fumados os cigarros do mundo inteiro, tamanha minha angústia. Era o homem de quem eu tinha sido a fim na adolescência, que eu sempre quis e que agora estava aí, atraído por mim. Mas, eu também pensava: já foi, é passado, ele perdeu a chance, me perdeu, não vai mais me ter. Ficava num dilema. Parecia ter voltado à adolescência. Era de fato um pouco tarde para isso. Ele vem agora. Casado. Seria tudo isso um pesadelo? Sem falar nessa condição que nos impedia de ficarmos juntos, morávamos em cidades diferentes. 600 km nos separavam.

Apesar de todos os empecilhos, eu me via apaixonada, via a oportunidade de ficar com ele. Mas, mantinha meus pés no chão, pois não sabia ainda – apesar dos evidentes sinais – o que estava acontecendo.

Conversava sempre com minha amiga sobre esta situação, para poder ter a opinião de alguém que estava de fora. Ela, sempre moderada, me alertava para “ter cuidado” e “não cair em armadilhas”.

Em um dia que estavámos conversando via Whatsapp, perguntei a ele se tudo isso não era uma aventura para ele. O casamento devia ter caído na rotina e ele queria apenas se distrair comigo. Ele negou. Porém, em nenhum momento, ele me disse que estava apaixonado. Ao passo que eu já estava e dizia. Ele não admitia. Ou não estava.

Nossas conversas se tornaram  mais íntimas e ele me perguntou se não estava sendo machista por não falar com a esposa sobre o que estava acontecendo. Disse a ele que deveria criar coragem, saber o que realmente queria e aí então conversar com ela.

Toda vez que falávamos nesse assunto, me vinha uma aflição. Já imaginava que ele não iria deixa-la, pois tinha um relacionamento de muito tempo, tinham filhos e até um neto. Aí eu recuava e dizia a ele que era melhor não nos falarmos mais. Voltar ao contato formal. Mas, ele insistia que não queria parar de falar comigo e que não se imaginava um dia sequer assim.

– Você me preenche – ele dizia.

Eu parava e olhava para aquelas palavras piscando em meu celular, suspirava e não sabia o que dizer. Ponderava a situação, pensando sempre nos prós e os contras.

Tudo o que acontecia entre nós era maravilhoso, meu peito enchia-se de alegria. Sinto que fui egoísta em alguns momentos em não pensar em como a esposa dele ficaria, caso ele a deixasse. Ao mesmo tempo, sentia que isso não era problema meu. Não era eu quem tinha um compromisso. Mas não queria que ela se magoasse. Olha só, eu já pensava que estava com ele.

Eu não sabia o que podia acontecer. Ao final, podia ser eu a magoada, pois existe também essa  história de que os homens casados, depois de algum tempo, veem as esposas como mães, cuidadoras, e aí isso passa a nutrir o casamento, embora não haja mais paixão e às vezes nem sexo. Ou a estabilidade da relação deles poderia oferecer um encanto que a nossa não poderia. Ou a idéia de monogamia como caminho único e obrigatório podia magoar todo mundo.

Enquanto isso, eu ficava naquela situação surrealmente feliz. Em minha cabeça o impasse de dar seguimento a tudo ou dar um basta e dizer: não!

Não tem resposta certa e caminho fácil. Não tem modelo ou prescrição. Histórias são em aberto, sem soluções ou definições. Tudo pode acontecer, nada pode acontecer. Importa que a vida é minha, o caminho é meu. Um espaço se abriu, algo já aconteceu. Daqui pra frente….  verei para onde os passos que dou me levarão.

mabela*Mabel Dias, é jornalista, deu uma força na realização da Marcha das Vadias de João Pessoa e faz parte do Coletivo de Comunicação Intervozes. É uma mulher que luta por um mundo melhor para todas!

Nem mesmo Shonda Rhimes escapa da desnecessária pressão para se casar

Texto de Sesali B. Publicado originalmente com o título: ‘Not even Shonda Rhimes can escape de unwanted pressure to get married’, em 11/11/2015 no site Feministing. Tradução de Bia Cardoso.

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Shonda Rhimes. Foto de Joe Pugliese/August Images.

Shonda Rhimes, uma das mais bem sucedidas produtoras e escritoras negras da televisão americana, tem conquistado algumas coisas. Ela foi nomeada para três prêmios Emmys. Ela é a produtora e principal roteirista de quatro programas de grande sucesso da rede ABC. Ela tem um doutorado honorário. Qual destas realizações lhe renderam a maioria dos elogios em sua vida? Nenhuma delas.

Em vez disso, Shonda contou a NPR, que as pessoas lhe fizeram mais elogios quando ela tinha um homem elegível-para-o-casamento em seu braço:

Eu nunca recebi tanta aprovação, elogios, carinhos e felicitações como quando tinha um cara no meu braço, com quem as pessoas achavam que eu ia me casar. Foi incrível. Quero dizer, ninguém me parabenizou tão fortemente quando eu tive meus três filhos. Ninguém me felicitou tão fortemente quando eu ganhei um Globo de Ouro, ou um Peabody, ou meus 14 Prémios NAACP Image Awards. Mas quando eu tinha um cara em meu braço e as pessoas achavam que eu ia casar, as pessoas perderam suas mentes como se Oprah estivesse dando carros. Foi inacreditável. … Eu era fascinada por isso, porque eu pensava: como eu não sou Dr. Frankenstein, eu não fiz esse cara — ele apenas está lá. Todo o resto tinha relação com algo que eu tive que fazer.

O Feministing já abordou os mitos sobre as mulheres solteiras — sempre chamadas de solitárias e desesperadas por um casamento. Nós também falamos sobre de que modo aplicativos de namoro como o Tinder estão chamando a atenção para o fato de que as mulheres estão interessadas em — * suspiro * — sexo ocasional (algumas vezes queer), também. Mas relatos como o de Shonda nos lembram que ainda há uma narrativa predominante de que se você é uma mulher solteira, independente de suas outras realizações e contribuições para o mundo, o seu principal objetivo na vida deve ser o casamento. Em última análise, o seu potencial marital é a verdadeira medida da feminilidade.

E, eu seria negligente ao não mencionar o significado desta expectativa quando aplicada a Shonda Rhimes. Mais do que uma diferença entre ter um triunfo desejável ou ser a “senhora louca dos gatos”, ser uma mulher solteira que também é negra significa estar envolta em estigmas e patologia. Começando pelas interesseiras que só querem dinheiro, passando pelas negras raivosas até as mães inapropriadas, as mensagens referentes as mulheres negras são quase sempre negativas e problemáticas. Algumas vezes, os sucessos nas carreiras de mulheres negras solteiras apenas exacerbam esses aspectos, porque, aparentemente, ainda temos dificuldade para entender a complexidade de mulheres que precisam ao mesmo tempo trabalhar e ter famílias. As pessoas ainda estão à procura de um “felizes para sempre” heteronormativo para validar o sucesso profissional, educacional e financeiro das mulheres negras.

Para reiterar o ponto de Shonda Rhimes, qualquer cara potencial que ela tenha significa que “ele apenas está lá”. Eu sou grata por ter uma comunidade que me apoiaria se me apaixonar e quiser estar com alguém que me faz feliz, e tenho certeza que com Shonda também seria assim. Mas nossos parceiros não nos definem. Eles não aumentam ou diminuem o nosso sucesso ou valor. E eles certamente não são algo maior do que a criação de um império de mídia como ShondaLand!

Autora

Sesali B. escreve no site Feministing e também em seu blog: Bad Fat Black Girl. Twitter: @BadFatBlackGirl.

Bia Cardoso é autora convidada, feminista e lambateira tropical.

Uma aliança

Dia desses, eu casei.

E dia desses, pra frente, casarei, de novo. E terei lua de mel e tudo. Menos festa chic e vestido de noiva, e padre na igreja. Mas terei papel passado, brinde, riso e amor. E tenho aliança.

Aliança, já usamos há meses. Depois que eu fiquei brincando (brincando?) em portas de joalherias, ele de fato propôs. E chamou para escolher. E pagou, como deve ser (deve?).

Lembro de quando era católica praticante, pela segunda vez, e em uma visita do amigo padre Elias em casa, falávamos sobre casamento, sacramento.

Eu, iconoclasta mas romântica, apontava que o sacramento devia ser um prêmio aos que provassem ser capazes de sobreviver amando ao convívio diário.

Minha mãe, roxa, sei que pensava em me beliscar.

E o padre, vejam só, concordou comigo – ainda que o Vaticano (ainda) não concorde conosco.

Vivemos “em pecado”, morando juntos há mais de ano, dividindo cama e chuveiro, tem dias que ele faz o café cedo, tem dias (poucos), que sou eu. Eu cozinho minhas invencionices metidas a besta (palavras dele) e ele come (ou não).

E a gente se pega (eu) pensando: qual o significado desse anel?

Bem, o que descobri, é que ele pode significar muita coisa, para muita gente, e que esse muita coisa pode ser nada diante do que significa para mim.

A gente usa o anel, e o anel nos usa. Ainda que eu só veja nele uma aliança entre eu e ele, para quem está de fora é as vezes diferente, divergente.

Eu vejo uma escolha entre nós dois. Alguns veem uma vitória (minha, claro) ou um selo de aprovação (dele pra mim, óbvio).

E enquanto eu transparentemente estou feliz em estar ao lado de alguém que amo, algo dessas visões de me perturba, pois é como se eu precisasse do selo de aprovação de um homem para ser feliz, ou como se só eu houvesse encontrado alguém, como se ele me fizesse um favor (ok, parte nóia, parte  não).

Já fui cumprimentada na fila do supermercado por uma conhecida, com um olhar meio aprovação, meio surpresa, ao vê-lo ao meu lado, e uma expressão que não sei definir, e que é um pouco lisonjeira e muito aterrorizante.

O que quero dizer é que me sinto casada, na medida em que amo, temos um compromisso, estou feliz, acredito que o faço feliz, e queremos continuar nos apaixonando, todos os dias.

E não acredito que estar casado é melhor que qualquer coisa. É a melhor enquanto estamos felizes.

Essa é uma declaração de amor, biscate, livre, feliz.

Visitando colônias em Marte, longe do casal blindado

Eu devia estar em Marte, possivelmente. Visitando as novas colônias. Só isso pode explicar o fato de que apenas ontem eu tenha sido apresentada ao casal que dá conselhos para “blindar o casamento”.

Ainda não me recuperei de todo.

Soube, depois, que o Casal Blindado é conhecido, que já virou (no singular, né, porque é “o casal”) celebridade, que tem um programa na TV.
Gente. Gente. Gente. Não só eles dizem essas coisas aí que eles dizem, mas tem pessoas pagando a eles para dizerem. O livro, parece, é um sucesso. Gente.

O Casal Blindado recomenda compartilhar o feicebúqui, excluir todos os ex, dar a senha para a “outra metade da laranja” – com o perdão da má palavra. Assegura que o ideal é que todos os amigos sejam amigos em comum. Vai o trecho, melhor do que qualquer paráfrase: “Obviamente, não é preciso abrir mão da liberdade, e todo casal que vive bem tem amigos — o ideal, porém, é que não sejam amigos exclusivos, mas sim amigos em comum, a fim de não gerar desconfianças.”

 A primeira observação, evidente, é que esse povo deve ter uma noção de liberdade no mínimo esdrúxula. Mais do que isso: a palavra “liberdade” entra aí como Pilatos no Credo. (aproveitando pra usar a expressão, que acho divertida. fecha parêntesis). Pega mal dizer que as pessoas têm que abrir mão da liberdade: mas é exatamente isso que os blindados tão dizendo, não é não? Num nível assustador de tão fusional? Dar senhas, compartilhar página em rede social, não ter amigos próprios? E quem decide quais são os amigos que permanecem? Quer dizer, quando você conhece alguém, se apaixona e tal, você já tem lá seu lote de amigos, não é verdade? A outra pessoa também. Aí o que é que faz? Cada um fica amigo de todos os amigos do outro (e quem disse que eles vão querer, não é mesmo)? Um dos dois joga seu lote de amigos no lixo? Os dois abandonam os “amigos prévios” e adquirem, a preço módico, um novo lote de amigos talhadinhos para serem amigos do casal? Só perguntando.

E o motivo? “A fim de não gerar desconfianças”. Acuma? Quer dizer que se você tem amigos próprios, se você não quer compartilhar suas senhas ou sua página em rede social, isso é motivo para desconfianças? Desconfiança de quê? Ah, sim. Claro. Ela. Ela, a famigerada. Aquela-que-não-deve-ser-nomeada. Já escrevi sobre ela aqui, neste biscablog mesmo. Ali, eu, ingenuamente, dizia que “Amigo a gente compartilha, a gente apresenta aos outros amigos e torce pra que eles também fiquem amigos: entre amigos a gente confraterniza, se abraça, se agarra, se beija ladeira abaixo. Dança junto, bebe junto. Nas dores dos amigos, a gente chora junto. Amigos a gente ama. Ama, de verdade.” Foi mal, galera. Eu ainda não era possuidora da sabedoria blindada: achava que amigo a gente podia ter. Mas parece que não. Risco de desconfiança. Ah, tá.

E aí, vem a pergunta: depois de tudo isso, o que fica? Você foi lá, seguiu todas as regras, se desfez dos seus amigos exclusivos, compartilha redes e senhas, e o que sobrou? O que sobrou, não sei: sei o que não sobrou. Você. Você pessoa. Você com gostos, com vontades, com quereres só seus. Com dores, com história, com vida vivida. Com anseios, com dúvidas, com zonas cinzentas. Você, por quem a outra pessoa se apaixonou lá no começo da história. Se você seguir todas as dicas do casal blindado, uma coisa, acredito, é segura: você vai se perder de você. E não quero vaticinar nada, mas é possível que um dia você olhe para a outra pessoa e também não reconheça a pessoa por quem você se apaixonou. Que era uma. Que era única. Que era ela. Lindamente ela. Com todos os seus riscos e desafios. Com todo seu encanto de não ser você.

O que o casal blindado propõe, na sua distopia fusional, é a morte do eu e do você, nada menos do que isso. Só que não nota que essa morte acarreta, necessariamente, outra morte: a da paixão, do amor que é, necessariamente, amor ao diferente. Ao não-eu. Imprevisto, fugidio, doloroso às vezes. Aventura. E, sobre isso, sigo a sugestão da Fernanda M., que lembrou do preciso texto da Flávia Cera no Sopro n°94:

“Ama-se de corpo inteiro, mas esse corpo inteiro nunca é acessível porque é justamente no inapreensível do ser que está o amor. O amor nunca é completude e plenitude, a “sorte do amor tranqüilo” nunca chega. Ele não preenche, ao contrário, é a forma mais intensa de descobrir o vazio que nos estrutura. Amar não assegura nada, amando perde-se toda a consistência. Longe de toda posse e de qualquer idéia de fusão, o amor pode ser compreendido na soma e nunca na subtração ou na supressão das singularidades. Amar é projetar-se ao mundo, e não no outro. A tentativa de identificação máxima para justificar um encontro, que é sempre inesperado, é o que pode fazer desse amor uma burocracia tediosa. Quando se diz: “somos um só”, anula-se toda a diferença que sustenta o amor.”

Uma burocracia tediosa, diz a Flávia. E essa parece ser, sem tirar nem por, a proposta vendida a peso de ouro pelo casal blindado. Em palestras. Em livros. Em textos. Por cima, uma fina camada de chocolate-sabor-amor-verdadeiro: mas não se enganem. À primeira mordida, o miolo se revela. Em toda a plenitude do seu bolor. Que isso possa ser apresentado como sonho a ser conquistado, como meta de felicidade, me deixa sem palavras (ou quase, como se vê).  E, já que este post acaba sendo uma continuação, na ciranda, do anterior, fecho com o convite final daquele, que também serve para este aqui:

“Espaço. Amor. Encontros. Acolhimento. Vida vivida.
Riscos de dores? Ninguém está imune.
Nem os maracujás de gaveta que se encolhem à ameaça de novos sentimentos.
Joguemo-nos pois. Nos espaços que nos aguardam. Que nos convidam.
Abramos espaços nas rodas. Novas cirandas.
A vida é ciranda e vem. Inevitavelmente vem. Vamos.”

Caso, acaso, casal: espaços

Casa, caso, casal. Acasos. Casal, de novo. Casal há um tempo. E aí? Qual é a diferença? Dizia eu ontem que não gosto do começo de histórias amorosas: esse sufocar, essa taquicardia permanente, esse foco no outro que não cessa, essa febre. Essa doença. Vivo e mergulho, como febre, como doença. Mas espero ansiosa a hora de passar. De solidificar. De virar algo que dure. Que seja um namoro. Que seja uma amizade. Algo em geral vira, na minha história. Há, decerto, febres que dão e passam, deixando só uma lembrança, um leve sorriso no canto da boca. Mas são raras. Em geral se transformam. Desenevoam. Digievoluem. E viram o que hão de ser, o que estavam destinadas a ser. O que dura. O que fica. O que faz, de verdade, a matéria-vida.

Casal há um tempo: casa, casamento. E aí, me dizia alguém outro dia, num dos centros de filosofia de boteco que abundam pelas cariocas plagas: casamento é espaço. Relacionamento é espaço. E essa definição enganchou. Ficou na minha cabeça. Desde então ela vem e volta, ajudada pelos tempos passados à beira-mar. Espaço. Isso que a gente busca, isso que a gente almeja, isso pelo que a gente anseia, isso que é tão primordial e tão fugidio. Espaço. O meu, o seu, o nosso. Sempre disse que invejava essas personagens da Agatha Christie que moram em casarões onde há duas alas, a do marido e a da esposa. Eles se encontram à mesa do café, se encontram eventualmente no quarto de um, de outra. Mas têm seu espaço, sua sala de estar, seu banheiro separado (não sei se os da Agatha tinham mesmo banheiro separado, mas os do meu sonho têm, é claro. Banheiro separado é tudo).

Começa daí. Espaço físico. Espaço de ser sozinho. Não é briga, não é nada: só necessidade de se espalhar sem esbarrar em ninguém. Lembro do Karydakis, saudoso e querido mestre, dizendo com aquele olhar de maio de 68, cigarro nos dedos: “casamento com amor é uma instituição burguesa, e quarto junto foi o jeito que a burguesia encontrou pra fechar as contas. Nos tempos medievais ninguém tinha essa veleidade de misturar casamento com amor: casamento tinha a ver com patrimônio e convenções, amor era outra coisa, amantes faziam parte da vida e da história.” Bom, não foi exatamente assim que ele disse, mas acho que a essência está aí. Eu tinha uns dezesseis anos e sorvia a largos goles tudo o que ele dizia. Essa fala aí encontrou ressonância, me cutucou, me desafiou: nunca mais esqueci. Espaço de ser sozinho, instituição burguesa, conveniência do amor romântico associado ao casamento….

Depois, bem depois, li o psicanalista Jurandir Freire Costa falando disso: “Sem Fraude Nem Favor“, que tem como subtítulo “Estudo sobre o Amor Romântico”. E ressoou de novo. Casamento: “O Submarino”, que é feito pra afundar, embora possa se manter na superfície, na peça do Miguel Falabella e da Maria Carmem Barbosa. Muita pressão, né. Muita demanda. O que tem a ver pagar contas, organizar casa, administrar filhos (não “amar” filhos, atenção: estou falando de administrar mesmo – resolver comida, pagar escola, levar, buscar, dizer não, estipular horários e regras), com amar alguém? Tem a ver? Combina? Faz parte? Está associado? Ou estraga, destrói, dificulta, impede? Ou, ainda, é uma corda bamba permanente, equilibrar-se entre manter o tesão e o afeto e fazer a empresa-casamento funcionar? Balanço, cuidado, um pé na frente do outro, atenção, braços abertos, olhar focado que é pra não despencar lá de cima. Eita, que difícil.

Acaso: aquilo em que a gente tropeça sem querer. “Você, raio humano, caiu na minha cabeça”. E aí? O acaso acasa, casualmente, e a gente embarca ou não. O “ou não” sempre é possibilidade. Ponderação. Mais corda bamba. Ao comer um quilo de sal com alguém, há que se prever a ocorrência de acasos. De eventuais raios humanos. Fazer o quê. É sinal de vida vivida. De que não se está trancado no armário, no tupperware, se deixando enrugar e ressecar. Viva. Viva a vida. Risco. Inevitável. Faz parte. E aí?

Aí é isso. Acho que o “embarcar ou não”, que tem a ver com o que se vai fazer (viver) depois, é quase menos importante. Quase menos importante do que reconhecer. Do que acolher. Do que não se deixar tolher pela culpa, pelo “pecado” de se encantar, de se deixar brilhar, de se enredar e de deixar a alma alçar vôos inesperados. No tempo em que casamentos não se desfaziam, talvez isso fosse mais claro: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Casamento. Paixões. Amores, quiçá. O que não quer dizer, vejam bem, que não haja amor no casamento. Mas quem disse que não acontecia? Que o encanto, que o enlevo, que o embarque… dependia de não haver mais ninguém ali? Sentimento, acho, é generoso: quanto mais tem, mais terá. Agora: isso é diferente do que se faz, e não é disso que eu queria falar. E sim do espaço, de novo. Do espaço pra sentir, do espaço pra sonhar, do espaço de cada um, do respeito. Do respeito. Do respeito. Porque o que me encanta na geografia dos amores-amizades é justamente isso: o não ser dono, o estar aberto e solto ao sempre cabe mais um à beira da fogueira, na roda de violão. Dá pra botar mais água no feijão, encher de novo a cuia de chimarrão, dá pra abrir espaço na roda. Amor bonito esse que abre espaço na roda.

Espaço. Amor. Encontros. Acolhimento. Vida vivida.
Riscos de dores? Ninguém está imune.
Nem os maracujás de gaveta que se encolhem à ameaça de novos sentimentos.
Joguemo-nos pois. Nos espaços que nos aguardam. Que nos convidam.
Abramos espaços nas rodas. Novas cirandas.
A vida é ciranda e vem. Inevitavelmente vem. Vamos.

Case-se com ela. Oi?

Por Niara de Oliveira

Redes sociais formam a rua virtual onde todos se encontram sem sair de casa ou sem deixar de ir ou estar em outros lugares, inclusive na própria rua. E nessa rua cada um tem um espacinho de muro ou tapume para escrever, colar, rabiscar, pintar o que bem quiser. A gente também passeia, e vê coisas interessantes e para pra curtir, comenta, faz pergunta, se não gosta bate-boca, enfim… É vida real, só que de outro jeito, noutra versão.

Alguns desses muros tem holofotes em cima, são maiores, fundo claro, e tem um público cativo que sempre passa lá para olhar, aplaudir, comentar, fazer buxixo. Outros muros são pequenos, uns encantadores, uns mais agressivos. Cada um tem “a cara” de seu dono/a. O que me atrai nos muros virtuais é o conteúdo, embora a aparência conte bastante não é o principal. Para algumas pessoas basta um amigo estar curtindo, aplaudindo um muro que ele vai passar a curtir e aplaudir. A isso se chama confiança, admiração. ‘Fulanx pensa e articula ideias como eu gostaria de pensar e articular ideias, então, se ele tá aplaudindo, acho que posso confiar’. E confiam.

Nessa onda do comportamento por indicação e influência, como quem passa a frequentar determinado bar em determinada rua ou bairro porque alguns amigos legais e que são famosos por serem legais sempre estão, conteúdos muitas vezes absurdos e que nem sempre refletem o que as pessoas pensam e sentem de fato são reproduzidos . ‘Veio do fulano e ele não viu problema…’ e quando vimos, determinada frase, imagem ou ainda imagem + frase tomou todos os muros da rua naquele bairro. Viralizou.

Foi o caso desse meme:

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Há outros memes com o mesmo conteúdo, mas esse foi o que viralizou. Logo várias feministas e páginas feministas pensaram em respostas para esse meme. Uma delas foi essa aqui:

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Um viralizou e o outro não. Ou, um viralizou mais que o outro. Adivinha qual? É…pois, é. Enquanto o meme original teve 22,5 mil likes e mais de 25 mil compartilhamentos, as respostas pulverizaram. Essa resposta (foto acima) foi a que viralizou melhor — aparece melhor posicionada na busca do google com a frase + nome da rede social facebook. E teve apenas 640 likes e 462 compartilhamentos. Respondeu? Se contrapôs? Marcou posição? Nem precisa ser ‘social media‘ para saber que não. E não só pela quantidade de pessoas atingidas por e por outro…

Cadê a resposta supimpa, aquela que diz que o casamento como objetivo principal a ser atingido pela mulher ou como prêmio por um determinado comportamento nos foi imposto por essa sociedade machista e que não é a escolha individual e livre de cada uma? Cadê os questionamentos óbvios?

Seguem, então, os meus questionamentos: O casar com ela é um prêmio por ter mais livros que sapatos? E se a moça não quiser casar, não quiser ser o prêmio do cara por ELA ter mais livros que sapatos? E se a moça ler e doar todos os livros (é mais fácil se mudar e viajar com pouco peso) e carregar consigo apenas um, o que está lendo no momento, e dois pares de sapatos? E se os livros da moça forem todos de auto-ajuda? E se os livros da moça forem todos racistas, machistas, preconceituosos ou de direita? Desde quando é razoável que o relacionamento entre duas pessoas — que deveria ser a base de qualquer casamento — é decidido apenas por uma? Sério mesmo que é tipo bingo, se a moça marcar um número x de pontos o prêmio dela será… CASAMENTO? Sério mesmo que o valor de outra pessoa continua a ser medido conforme o código de outra?

Por fim. No que desqualifica uma pessoa ter mais sapatos que livros? E no que qualifica uma pessoa ter mais livros que sapatos/bolsas/roupas/bibelôs/bichinhos de pelúcia? E o pior, nesse caso: ninguém sequer imagina um meme colocando o homem como o objeto a ser julgado e receber o prêmio do casamento, né? Quase caí na tentação de gerar um meme colocando o homem como o objeto, mas não é isso que vai resolver a questão. Né?

Continuo indicando o texto da Renata Corrêa, que desconstrói de uma vez por todas essa coisa do ‘valor da mulher’ medido pela régua alheiaNinguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história.”

Memes machistas é o que mais tem na internet. Se fuçar bem, quase todos são. Mas, o que me irrita e aflige são justamente os que precisam ser esmiuçados assim para revelar seu machismo e ou misoginia e que, por parecerem inofensivos ao primeiro olhar, são compartilhados até por pessoas que se dizem antimachistas, que concordam conosco em todas as questões sobre a liberdade/libertação da mulher. O próprio Biscate SC surgiu de um meme desses, ‘bobinho. Parece inofensivo, mas não é.

Quantos livros ou sapatos eu tenho? NÃO INTERESSA! Apenas pare de medir xs outrxs com réguas/regras, elas são suas e ninguém lhe pediu medida nenhuma ou perguntou nada.

O casamento da Paula e Daniel

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O casamento da Paula e do Daniel foi dia 13 de julho, em uma cerimônia aberta no segundo platô da Praça das Corujas (Praça Dolores Ibarruri – Bairro de Pinheiros em São Paulo).

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Paula Aftimus é jornalista, apaixonada por futebol, cinema e pessoas que se arriscam em busca de algo em que acreditam. Trocou o carro pela bike – e longas caminhadas; a coleção de calças jeans por muitos vestidos e os amigos chatos por estranhos loucos que a gente encontra por aí (e que logo estão jogando Imagem & Ação em casa). Afinal, por que desejar segurança quando se pode sonhar com aventuras?

Daniel Santini é jornalista, coordenador da agência da de notícias Repórter Brasil, e mantém um blog de jornalismo de dados sobre cidades no site ((o)) eco.

Põe Devagar

Por Barbara Manoela Bijos Maués*, nossa Biscate Convidada

Como em uma ode ao amor, a frase que dá nome a esse post foi cantada em uníssono, em uma música do Rádio Taxi, sucesso nos anos 80.

Na minha opinião, essa é uma das melhores traduções poéticas de uma noite perfeita: ir direto ao assunto, sem mais delongas, com todo o carinho que uma boa noite de sexo merece.

Meu marido sofreu um acidente em Alter do Chão, interior do Pará, no fim do ano passado, e ficou tetraplégico. A recuperação dele está indo bem, mas é tudo muito, muito lento. E como fica o sexo, vocês estão se perguntando?

A gente vai descobrir, juntos. Porque maridon voltou a ser um adolescente, nas palavras do fisiatra. Um corpo novo, um pau novo e, pra minha alegria, acessórios novos!

Segundo o médico, se a gente não frequentava sex shop, agora é a hora. Para que a vida sexual de um casal onde o homem ficou tetraplégico continue sendo emocionante, excitante e divertida, é preciso inovar, abusar dos dildos, dos cremes, dos vibradores penianos e até do Viagra!

Outra dica importante foi a de estimular os outros sentidos: olfato, audição, paladar. Eu já estou pesquisando receitinhas afrodisíacas, pra criar jantares românticos, à luz de velas e musica do Marvin Gaye.

Cremes perfumados, meia luz, strip-tease. É, sinto que terei muito o que melhorar no quesito performance, se quiser manter a chama do tesão acesa no meu casamento.

Em qual posição?

Isso é outra coisa que teremos que descobrir. Segundo uma amiga nova, casada com um tetra, a melhor de todas é a mulher por cima – uma das minhas preferidas! Ainda segundo ela, a qualidade do orgasmo melhora infinitamente. Uma das razões é que o cara fica mais sensível, demora mais para gozar e mais: o toque de um tetra no corpo da mulher é completamente diferente.

Eu estou louca pra saber como é esse novo homem, essas novas sensações e novas trepadas.  Aliás, confesso que quero muito estrear a cama do centro de reabilitação, durante a segunda internação dele. O fisiatra, muito sutilmente, deu a entender que o sexo dentro do hospital não só é liberado como é permitido. Ui!

Prometo contar tudo pra vocês, nos próximos posts. Aguardem!

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*Barbara Manoela Bijos Maués é uma carioca morando em São Paulo, trabalha com gestão cultural, amigona, intensa e criativa, feminista e gateira. Para defini-la em duas palavras: amor pululante! Você pode acompanhá-la de perto no Facebook ou pelo twitter @barbaramanuela.

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