Eu tenho uma opinião

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.
“Meu melhor amigo e confidente é gay e apesar das nossas diferentes opiniões somos amigos.” — Joelma, Banda Calypso

opinião

Dia desses, fiz coro e perguntei à Astrid Fontenelle porque nunca houve uma negra na banca do Saia Justa. Segundo a jornalista, o programa que já escalou atrizes como Maitê Proença e Luana Piovani, chamará uma negra “assim que precisarmos e tivermos uma excelente opção disponivel, ou a qualquer momento.”

Apenas isso é assunto pra lá de metro. Não entendo como é possível “discutir temas da atualidade, comportamento e relacionamento, sempre com a visão diversificada” sem uma única mulher negra em toda a trajetória da atração. Como não faltam mulheres negras de opinião no mundo e no mercado, questiono a real motivação de nunca terem escalado uma.

Mas falemos sobre aquele momento surreal em que Astrid Fontenelle ensaiou argumentar que não é racista dizendo que “só pra constar, se é que vocês não sabem: meu filho é negro“. Preciso dizer que não me foi nada agradável ver alguém que sempre admirei (sou do tempo que a jornalista era uma descolada VJ, veja você) se aproximando da fala de gente como Rodrigo Sant’Anna, Marco Feliciano e Joelma.

EQUAÇÃO DO PRIMEIRO GRAU

A notícia boa é que o mundo tem estado bem mais sensível aos direitos humanos, aos privilégios. Ninguém ousaria dizer que um misógino não poderia sê-lo por ter uma mãe. Em contrapartida, ainda é frágil a compreensão de que a convivência com pessoas negras, gays, trans, gordas e/ou pobres não é capaz de coibir a discriminação. Infelizmente, o “eu tenho um amigo _________________ (insira aqui alguma minoria)” virou a frase da vez.

Apesar da fragilidade dessa afirmação, muita gente tem insistido nessa ideia ao invés de colocar em xeque seus próprios preconceitos. Marco Feliciano fez questão de posar ao lado da mãe e do padrasto negros. Meses atrás, Rodrigo Sant’Anna se apressou em dizer que sua Adelaide é uma homenagem à sua querida avó. Joelma, após uma série de declarações homofóbicas, também declarou que tem um amigo gay.

Como se os melhores amigos, parentes e parceiros fossem diminuídos ao status de bolsa, acessório a ser retirado do armário quando convém – eu tenho uma amiga negra, eu tenho uma amigo gay, eu tenho um parente negro, eu tenho uma funcionária pobre; logo não sou racista, trans-homofóbico, etc. etc e etc. Como se o preconceito fosse uma simples equação de primeiro grau.

VISCOSIDADE

Falarei mais uma vez de Astrid Fontenelle. Desacredito que tenha agido de má fé mas saliento que o fato de ela ter um filho negro não serve de resposta à crítica pertinente sobre a ausência de uma negra no Saia Justa. Assim como o fato de Ronaldo Fraga ser, muito provavelmente afrodescendente, não diminui em nada a gravidade de sua homenagem com a tal da escultura de bombril.

É muito provável que você e eu, pessoas legais, sejamos parte de uma engrenagem podre alimentada pelos pequenos preconceitos que aparentemente são de ninguém. Afinal todos temos uma mãe, uma amiga negra, um funcionário pobre, uma conhecida lésbica. A pergunta que fica é – quantos de nós pensamos nossos amigos, parceiros e funcionários como sujeitas de equidade, de respeito, de direitos?

A grande questão é pensar a discriminação e o preconceito em sua orgânica viscosidade que toma de assalto as menores brechas, de forma silenciosa e potencialmente letal. É provável que estejam bem mais perto do que imaginamos apesar de nossos amigos gays, negros e gordos, ainda mais se considerarmos que somos uma sociedade estruturalmente racista, machista, transfóbica, gordofóbica e afins.

MAS COMO DIZER QUE NÃO SOU RACISTA?

Essa pergunta não faz muito sentido para mim, afinal é muito improvável que alguém que não é racista seja acusado de sê-lo. E se acontecer, a pessoa saberá refutar a acusação de forma muito tranquila, sem ter de fazer uso de amigos, parceiros. Ou melhor, reconhecerá que a coisa toda pode melhorar em diversos aspectos.

Por outro lado é igualmente complicado afirmar que alguém está imune ao preconceito. Quem não é racista reconhece essa fragilidade, entende a afirmação de que somos estruturalmente racistas, que todos podemos ter comportamentos indesejáveis vez ou outra, é necessária e bem-vinda…

charÕCharô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Cabelo natural – Uma biscate quer abandonar o alisamento

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Toda vez que vou ao salão de beleza acontece algo mais ou menos assim.

Dessa vez estava de cabelo preso, num coque discreto. Esperando a minha vez, aproveitei pra ler uma entrevista de Marco Feliciano para um famosa publicaçãozinha que vocês conhecem. E assim nem percebi que havia chegado a minha vez de ir ao lavatório e depois à estação de trabalho do cabeleireiro.

Agora um pequeno adendo. Sou uma mulher negra que detesta ser chamada de morena. E o que o cabeleireiro faz para demonstrar intimidade? Pois é. Nem deu tempo de fazer muita coisa ante a um sonoro “oooooooi morenaaaaaaaaaaaa” . Respira, respira, diz que está tudo bem e faça o que você veio fazer aqui, pensei. E lá fomos nozes, eu e os cabelos, cortar dois centímetrozinhos.

Agora a parte que sempre acontece – meu black vira o assunto da rodada. Formam-se alguns times, mas falarei apenas das mulheres negras que cogitam ou já cogitaram abandonar o alisamento. Algumas costumam dizer que esse tipo de de cabelo é para gente descolada (leia-se quem não precisa passar um ar de seriedade), outras que tentaram e não conseguiram deixar o alisamento de lado.

Pois bem querida, esse post é pra você – uma biscate quer deixar de alisar o cabelo. Quando, como, onde, por quê?

QUANDO

Quem não se lembra da Maternidade Santa Joana validando o alisamento na infância?

Quem não se lembra da Maternidade Santa Joana validando o alisamento na infância?

Por muito tempo tratei quimicamente meu cabelo. Foram longos 28 anos, começando aos 4. E olha que até comecei tarde. Não se espantem, é corriqueiro passarmos uma vida alisando, sem conhecer a textura do próprio cabelo, sem imaginar que existe vida fora do tubo ou pote de química. No meu caso o danadinho custava 21 reais (em 2005) e era eu mesma quem aplicava todos os produtos.

Foi por acaso que descobri a possibilidade do cabelo natural. Vendo as fotos da gravidez de uma prima, reparei que o cabelo dela estava com uma textura diferente (nunca havia pensado que o cabelo dela era crespo). Aparentemente, alguns alisamentos são incompatíveis com a gestação de uma criança. Como pensava em engravidar também, decidi experimentar como seria a vida sem alisar.

A primeira tarefa é escolher o quando. Aconselho que seja numa época mais tranquila, de paz interior. Pra mim foi assim, sem grande estresse (coisa rara de acontecer). A raiz foi crescendo e surgiu a vontade de voltar a alisar (o que tinha na cabeça mesmo hein, é claro que alisar parece o mais adequado a ser feito, não há motivos para não ser assim, pensei na época). Mas resisti.

BIG CHOP – MAS PARA QUÊ DEIXAR DE ALISAR MESMO?

Ifeyinwa foi pra internet mostrar seu Big Chop

Ifeyinwa foi pra internet mostrar seu Big Chop

Sempre fui conhecida por ter um cabelo bonito e comprido (para uma negra). Mesmo assim enfrentei o (então) temível big chop, como as americanas chamam o ato de cortar todo o alisado e deixar o cabelo bem curtinho. Imagina o desafio – além de deixar o cabelo natural, ficar com ele curtinho quando o mundo diz que o correto e bonito é o cabelo grande e alisado!

Não consegui assumir totalmente o grande corte, deixando o cabelo com uns 8 a 10 centímetros. Mas existem outras estratégias como usar tranças, muito práticas e bonitas. Só desaconselho com veemência seu uso prolongado. O perigo é ficar careca igual à Naomi Campbell que literalmente teve seus fios arrancados pela contínua tração a que os submeteu.

Fica a pergunta – o que aconteceria se gente como uma grande modelo internacional ou a grande primeira dama dos EUA assumisse o cabelo natural? Minha birra contra o alisamento é o fato de algumas de nós simplesmente não termos o privilégio da escolha sob pena de sermos chamadas de sujas, de termos uma imagem pouco profissional ou sermos simplesmente chamada de feias.

ONDE – PRECISO IR A UM SALÃO DE BELEZA ESPECIALIZADO?

Uma das pioneiras no aconselhamento de mulheres que decidiram deixar de alisar é a Naptural 85, que foi convencida a deixar de alisar pelo namorado brasileiro.

Uma das pioneiras no aconselhamento de mulheres que decidiram deixar de alisar é a Naptural 85, convencida a deixar de alisar pelo namorado brasileiro.

Você pode fazer a transição com a ajuda de um cabeleireiro. Mas fuja desses que dizem adorar o nosso cabelo mas nunca fizeram nenhum curso especializado sobre. Em toda São Paulo há apenas uma profissional branca em quem realmente confio quando o assunto é cabelo natural. Veja, cabelo natural. Pois já aconteceu de ela destruir meu black com progressiva uma vez.

A verdade é que após a decisão de não mais alisar, caí no conto do “seu cabelo não ficará liso, ficará igual ao da Taís”. O black que estava loiro e gigante do jeito que eu sempre quis, simplesmente parou de encaracolar (coisa que foi geneticamente programado para fazer). Foi preciso recomeçar tudo do zero, desde o grande corte. Dessa vez não tive problemas em cortar bem curto, foi um big chop de responsa.

Então decidi fazer tudo sozinha, em casa. Como sou bem relax, fiz o que meu companheiro fazia – lavar, secar e pentear. Fim. Mas há inúmeras fontes mais indicadas quando o assunto é going natural. Há diversas blogueiras e vlogueiras (internacionais e brasileiras) falando sobre o assunto e você certamente saberá quem é entendida no babado e quem não.

PORQUE – É MAIS FÁCIL, SAUDÁVEL E BONITO

O alisamento constante dos cabelos é caro e danifica sua estrutura.

O alisamento constante é bom para todo mundo, menos pra você – é caro e danifica sua estrutura.

As razões para deixar de alisar são muitas.

Comigo foi a necessidade de ter uma gravidez mais segura. O que não esperava foi todo o resto que veio depois. Finalmente percebi que meu cabelo era do jeito que sempre sonhei (e se quiser que a textura fique parecida com a da Taís, é simples) basta saber como cuidar. Junto com a alegria da descoberta a tristeza em perceber que passei uma vida pagando por algo que a natureza havia me dado.

Outro bônus foi a liberdade. Muitas negras são levadas a crer que cuidar do cabelo natural é complicado, ninguém ensina como cuidar do cabelo natural. Pois saibam que o trabalho envolvido é muito menor que fugir da chuva, retocar a química, camuflar a diferença entre a raiz e o comprimento, usar cremes para ativar os cachos (imagine, chegamos ao ponto de alisar para depois comprar um creme que encaracole os cabelos novamente), etc.

Finalmente o mais importante – me sinto linda. Meu cabelo sempre foi fonte de constante frustração e medo. Tudo implantado em mim nos primeiros anos da escola, quando era perseguida se alisava e se não alisava o cabelo. Quando deixei de colocar química na cabeça,  a relação com meu corpo mudou e terminou a infrutífera busca por soluções que dessem jeito em quem sou .

SE VOCÊ É UMA BISCATE QUE QUER

Deixar de alisar o cabelo, meu conselho é se joga. É uma trajetória de crescimento pessoal muito bonita e única. A minha foi e continua sendo. Ontem no cabeleireiro, quando as pessoas diziam que amam meu cabelo como ele é, uma delas disse baixinho que o achava feio sem perceber que eu escutava tudo. A minha reação? Nenhuma, isso simplesmente não me diz mais respeito.

Porém me perguntei quantas dessas pessoas falavam a verdade sobre gostar tanto assim de um black. Todo mundo diz que adora mas não vejo meu cabelo representado na capa da revista. Felizmente, não sei como e nem porquê, aconteceu algo dentro de mim – não preciso da banca da revista para gostar de mim. E quando me faltam mulheres negras com cabelo natural, é só correr pros lugares certos.

Há gente falando sobre isso na internet, como muitos vídeos e imagens a respeito, redes sociais especializadas. No gueto as mulheres negras usam cada vez mais o cabelo ao natural. Algumas celebridades também deixando de alisar como a Solange Knowles. Cabeça a cabeça, a ditadura do alisamento vai sendo desconstruída.

E olha, me sinto muito feliz em participar dessa revolução.

Fica o convite para que você venha pro nosso time.

charÕ*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Entrevista com Yazda Rajab, mulher muçulmana de alma biscate fala sobre islamismo e cultura árabe

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Conheci Yazda Rajab no mundo da dança do ventre.

Uma mulher absolutamente apaixonante, bailarina graciosa, que hipnotiza a gente sem o menor esforço. Mulher muçulmana, brasileira de alma biscate, dessas que vontade de passar mil tardes conversando… Filha de libaneses radicados no país há mais de 50 anos, guerreira, mulher de fé. E sobretudo, pessoa despachada que aceitou facinho falar pro Biscate sobre islamismo e cultura árabe.

Espero que seja tão bom para vocês como foi pra mim <3

Yazda, uma mulher muçulmana brasileira

Yazda, uma mulher muçulmana brasileira

Charô – Quem é Yazda? Qual é a estória de sua família?
Yazda – Meus avós e pais eram camponeses. Meu pai veio para cá na década de 30, por navio, começou a mascatear como a maioria dos libaneses imigrantes e acabou fazendo a vida dele aqui. Depois que ele teve certa estabilidade, conquistou a vida dele, foi buscar minha mãe. Ele já dormiu na rua, lavou prato, fez de um tudo. A dança do ventre eu estudo há 12 anos, depois do 6º ano comecei a dar aulas. Mas sempre estudando.

Charô – Qual é a sua fé? Você decidiu seguir o islamismo depois de adulta?
Yazda – Na verdade eu sou desde criança mesmo. E mesmo depois de adulta, tirando essa parte da cultura na qual nasci e cresci, quando tive um pouco mais de discernimento e decidi estudar os porquês das coisas, continuei muçulmana. Ma seu tenho muita interferência de outras coisas…

Charô – Agora vou partir um pouco dos preconceitos que nós ocidentais temos para com a sua religião. Qual o papel da mulher numa sociedade islâmica?
Yazda – Ela tem papel fundamental como ela tem aqui no Ocidente também. Só que existem as questões culturais. O islamismo é uma coisa e a cultura árabe é outra. Quando a religião chegou lá em Meca, quando veio a palavra e o alcorão foi revelado, era um povo que sim… Tinham uma filha mulher eles matavam, era uma vergonha. A religião veio e mudou isso mas as pessoas tem uma essência, tem a cultura e isso meio que veio vindo junto. E vem até hoje.
Isso não faz parte da religião muçulmana. Vou te dar um exemplo simples, a castidade da mulher até o casamento e tudo mais, não é só da mulher muçulmana, ela é do homem também. Só que o machismo que a gente conhece e tem pavor, o mundo machista, os homens fazem o que eles querem e as mulheres se mantém castas. Mas o que se pede da mulher e do homem muçulmano são direitos e deveres iguais.

Charô – E em relação aos pais e aos homens muçulmanos, existe algum tipo de subordinação?
Yazda – Existe um respeito, um respeito que a maioria das pessoas tem ou deveriam ter. Por sabedoria, experiência. Subordinação acho que é uma palavra meio pesada. Mas ela existe, não vou te falar que não, mas como eu já disse antes mais por questões culturais. O alcorão prega o papel da mulher feminina, o papel do homem, o papel do filho, normais como aqui no ocidente também.

Charô – Agora um pouco da dança. Existe alguma contradição entre a sua dança e a sua religião?
Yazda – Todas (risos). Mas assim, vou te falar uma coisa muito particular minha, que eu acredito muito, tudo vai da intenção que a gente coloca nas coisas, que a gente tem dentro do coração. Então quando eu danço, dou aulas ou estudo, a minha intenção ali é uma. Se as pessoas tem uma visão distorcida, cabe a cada um resolver seus próprios problemas. Eu estou aqui fazendo uma coisa e você tá pensando outra, problema seu.

Charô – Existe alguma restrição à dança? No Egito é proibido dançar de umbigo de fora, no Líbano também?
Yazda – Ah sim, lógico. A gente sabe que a mulher muçulmana, não digo a maioria hoje em dia, ela tem todo aquele conceito do Hijab (pronuncia-se rijeb), de colocar o véu. Até aqueles que não usam, isso eu digo de cidade mais do interior tá. Porque eu fui lá um tempo atrás e está tudo mudo, mais peladinhas do que eu. Lindo, eu achei excelente. Mas com certeza tem a vestimenta, nem é tanto a questão do umbigo. O peito, os movimentos…

Charô – O que é o Hijab, para que ele serve?
Yazda – Em primeiro lugar, ele não é uma coisa obrigatória. Eu digo que não é obrigatória querendo dizer o seguinte- eu por exemplo, meu pai e minha mãe não podem chegar pra mim e dizer você vai colocar. Já não vai mais estar valendo, eu posso até colocar mas aos olhos de deus já não vale mais. Religião é uma coisa espontânea, ou você sente ou você não sente.
Então se você carrega aquilo e fala eu quero, eu vou colocar de coração porque eu quero, vai com deus. A minha mãe por exemplo não usa Hijab. Uma vez que eu pensei em colocar, meu pai me viu com lenço e disse tira essa porcaria da cabeça agora. Tira, pode tirar, não quero saber de você usando isso. Pelo respeito aos mais velhos que acabei de falar, ele me convenceu (risos).
O Hijab é usado como uma forma de proteção à mulher mesmo. Não é uma questão de submissão. Você precisar andar toda pelada também é uma forma de submissão uma mulher precisar andar toda desnuda só pra um cretino olhar pra ela. Tem de usar porque gosta, porque acha bonito e se sente bem. Não por causa de alguém.

Charô – E o que existe por baixo do Hijab?
Yazda – O Hijab que a gente está falando é um lenço que o rosto fica de fora e roupas compridas, posso usar blusa de manga comprida e uma calça comprida, daí você vê o que você quer usar. Uma calça branca, uma blusa azul, uma blusa colorida. Os preceitos são não usar roupa transparente porque aí já mostra o contorno do corpo ou uma roupa muito justa.
A questão do por baixo vem a burca, que é uma coisa diferente – é aquela roupa preta, tem só a redinha nos olhos. Eu acredito que ela não existe na cultura libanesa, eu não vi. Mais Arábia Saudita. E diga-se de passagem, não foi uma coisa imposta por deus e nem dita por ele. Ele falou sim do Hijab mas as mãos, os pés e o rosto podem sim ficar de fora e a burca cobre tudo.

Charô – Como é a beleza para a mulher muçulmana?
Yazda – A mulher muçulmana é muito vaidosa, muito vaidosa. Se enchem de ouro e aqueles olhos pretos (maquiagem), adoram cabelo. O padrão de beleza da mulher árabe, da mulher muçulmana, também não deixou de ter um pouco de interferência de fora. Por que a mulher muçulmana é morena de cabelo preto… mas elas afinam sobrancelha, colocam botox no olho, plástica no nariz…

Blogueira usando Hijab

Blogueira usando Hijab

Charô – Existem outros códigos de vestimenta, para os homens por exemplo?
Yazda – O profeta Maomé deixou alguns costumes que seria a forma ideal de o muçulmano se comportar. Então fala que o homem anda com a barba um pouco maior, com a barra da calça um pouco mais curta, mas ninguém faz isso. Não é uma coisa que se diga faça ou você não será um muçulmano.

Charô – Nós temos muitos preconceitos sobre a sua e a sua cultura, concorda?
Yazda – A gente ia ficar aqui umas 3 horas falando dos preconceitos. Não digo que eu sofro porque pra sofrer preconceito você tem de ligar mas… Que a mulher não tem liberdade nenhuma, o que mais falam. Ou vocês são violentos, por conta das brigas entre Israel e Palestina..

Charô – Sobre o sexo na cultura árabe e na religião muçulmana, como ele é visto?
Yazda – Na verdade o sexo é visto dessa forma, uma coisa sagrada, linda, lícita, maravilhosa, gostosa, tudo isso mas tem essa questão de praticar o sexo depois do casamento. Eu vejo isso mais como uma preservação de muita coisa que a gente acaba sofrendo, que a gente vê que as pessoas sofrem também, de fazer antes. As pessoas que eu falo que não sabem usar o sexo, que não sabem fazer com responsabilidade. Não mais uma questão de você está pecando ou você não é de deus…

Charô – E os jovens praticam? E o namoro?
Yazda – Risos. As meninas estão agora mais saidinhas. Elas adoram fazer sexo anal para preservar ali na frente e dizer eu sou virgem. Tem muitas que fazem isso. Muitas que enfiam o pé na jaca e é isso. Não pode ter contato mas sempre tem (risos). Ainda tem famílias que preservam um pouco isso mas são muito tradicionais e muito raras.

Charô – Falando um pouco sobre inserção da mulher na política, existem mulheres nos cargos de comando?
Yazda – Lá você vê muito pouco. A gente não foge desse preconceito não. A política lá já é muito difícil, os homens não dão contam, já é a maior bagunça. Se eles não conseguem se manter no poder, imagina a aceitação de ter uma mulher ali. Isso está extremamente longe e não sei isso vai acontecer e tem preceitos religiosos aí no meio também, de uma mulher em posição de comando político.
Porque (o cargo prevê) reuniões íntimas, mais confidenciais, de ter de ficar sozinha com um homem… Tem toda essa coisa puritana do islamismo que existe. Nem é tanto porque a mulher não pode ou não tem capacidade de estar no poder. É mais para a mulher não ter contato direto com o homem.

Charô – Sobre a tolerância religiosa, como são vistos os outros deuses e as outras culturas?
Yazda – Tem até um versículo no alcorão que diz que nós temos de respeitar a tudo e a todos. Existem muitas brigas entre eles mas foi isso que foi mandado pra gente. A mensagem é muito clara e o versículo é muito simples, independe de interpretação. Ele é simples e direto. Conviver sempre com as diferenças e fazer o bem sem olhar a quem.


Mas é claro que a coisa toda tem de terminar em ventre, então assista a essa apresentação da Yazda com o grupo Les Almées.


AGRADECIMENTOS ou YAZDA SUA LINDA

Antes de fazer essa entrevista, a primeira da minha vida, falei com a Yazda sobre os meus preconceitos e a minha ignorância acerca da sua religião e cultura. Ela, com muita paciência, topou a empreitada de explicar o básico, responder essas perguntas tão primárias sobre a sua concepção de mundo.

Uma estória que não entrou pra entrevista, o significado do nome Yazda. O pai sempre disse para ela que se tratava de uma princesa e ela sempre acreditou nisso. Um dia, maiorzinha, descobriu que essa princesa na verdade era a sua avó <3

Em meu nome e em nome do time Biscate Social Club, muito obrigada.

Lembrando que esse post faz parte de uma série sobre dança do ventre aqui no blog.

charÕ

*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Dina, primeira bailarina de dança do ventre do Egito, biscate e delícia

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Recentemente ouvi de um bailarino de danças orientais, de ascendência árabe, que sua família temia que ele seguisse a carreira artística. O receio nada tinha a ver com quaisquer questionamentos sobre sua sexualidade como muitos poderiam pensar. O problema era frequentar aquelas mulheres que dançam de umbigo de fora, ato proibido pela lei egipcia desde a década de 1950.

O assunto de hoje é uma dessas mulheres, a bailarina, filósofa e biscate Dina Talaat.

LOOOOOSHO, VOLÚPIA E PROTESTO

Nem toda família de ascendência árabe tem a mesma visão de mundo sobre a dança, assim como nem toda mulher que faz dança do ventre é biscate, vero. Só que probabilidade de a dança despertar a bisca que existe dentro de cada uma é muito grande pois a visão do umbigo emoldurado pelo vai e vem do próprio quadril (e o das zamigas, aiaiai, uiuiui)  é qualquer coisa de solene. Fora o acinte uma mulher ser indenpendente, tendo como instrumento de trabalho o próprio corpo.

Dina Dança do Ventre

Dina e um figuro looooosho

Esses detalhezinhos fornecem pistas sobre o status da mulher na sociedade egípcia. A feminista muçulmana  Nihad Abu el Konsa reporta que a nova constituição ignora os direitos das mulheres. A cláusula que assegura a igualdade entre todos os cidadãos perante a lei existe, mas não garante a não violação dos direitos humanos da população feminina.

Em contrapartida,  o vocabulário visual da dança do ventre parece indelevelmente associado ao universo do harém. São princesas e odaliscas inacessíveis. Não é raro esquecermos que sua dança geralmente se desenvolve num contexto de opressão. É por isso que quero apresentar uma personagem muito singular no mundo da dança, toda luxo, volúpia e protesto – Dina Taalat.

A PRIMEIRA BAILARINA DO EGITO

Dina é a última entre as egípcias,  está para dança do ventre assim como Alcione e Bete Carvalho estão para o samba. Antes dela, mulheres como Badia Massabni, que abriu uma casa noturna aos moldes europeus em plena Cairo da década de 1930. Ou Tahya Karioca, preterida por Farid el Atrash que preferiu se casar e ter filhos. Um mundo de babados homéricos.

Mais uma vez que as bisca pira!

Mais uma vez que as bisca pira!

Desavisada de todo esse background, acabei me acostumando a pensar a dança do ventre como coisa de princesa. Meus olhos transbordavam ignorância e preconceito toda vez que assistia uma apresentação da bailarina. Como assim começar uma dança do ventre que deveria ser toda elegância exibindo o derrière para o público¿ Detallhe que para a cultura egípcia, essa atitude tem nada de vulgaridade.

Tudo mudou quando uma professora me fez pensar sobre a coragem necessária para dançar numa sociedade estruturalmente machista , tão afeita ao slut shaming. Como não é possível proibir as mulheres de dançar, algumas adaptações são feitas. Assim se desenvolveu a dança Shaabi que, grosso modo, é o funk da dança folclórica, praticado por quem goza de relativa liberdade.  Assim as bailarinas cobriram o umbigo com broches, diminuiram o tamanho das saias e aumentaram os decotes.

Uma dança que exala sensualidade mas se esmera na exposição de conflitos sociais, políticos e raciais. Algumas letras falam abertamente sobre o consumo de substâncias entorpecentes. Apesar de dominar diversas modalidades da dança oriental inclusive a dita clássica, Dina é a mãe dessa modalidade irreverente e tão amada pela classe trabalhadora. Não por acaso, detem o status de Primeira Bailarina do Egito, título informal muito parecido com aquele o Princesa do Povo conferido à Ladu Di.

SEX TAPE TIMES E DIAMANTES

Apesar disso, o ano de 2002 não foi nada glamouroso. Dina teve sua intimidade exposta numa sex tape difundida por um ex-marido desejoso de vingança. Sua reação foi se exilar e adotar o hijab (código de vestimenta muçulmana para mulheres). Logo ela que faz tanta questão de se apresentar com trajes provocadores, subversivos. Ah sim, com uma discreta jóia no umbigo, como manda a boa moral e os bons costumes.

Pelo que sei, passou 2 anos em Meca, ainda que não haja fontes para comprovar esse fato. Deu entrevistas chorando diamantes, sem jamais borrar o rímel e tentando contornar a situação. Apesar dessas tentativas de se retratar perante o público, sua carreira parecida irremediavelmente destruída (qualquer semelhança com o caso Kristen Steewart não é mera coincidência).

A parte boa é que, após alguns meses de jejum, Dina retomou sua agenda de apresentações com um cachê mais alto que nunca. Finalmente superava uma (malsucedida, ufa) tentativa de suicídio. As acusações contra o ex-affair foram formalmente retiradas sob a alegação de que tudo foi feito com seu consentimento, o que me pareceu uma estória pra lá de mal contada…

ESSA VADIA SOU EU

É muito fácil rotular Dina como vadia. Gosto de imaginar que, se ela soubesse o que a palavra biscate significa, seria a primeira a menear seus lindos cabelos negros e dizer – EU SOU. Foi justamente por esse motivo, e para deixar de lado meu próprio olhar viciado, que decidi trazer para vocês essa mulher delícia. E olha que nem falei sobre filosofia, área do conhecimento em que Dina é bacharel.

E pra terminar, o mais importante: vídeos! Dina fazendo a linha primeira bailarina e biscate do país num porgrama de TV. Depois se jogando num clipe de Shaabi bem humorado e muito distante dessa coisa melosa dos harens ou de uma cultura sisuda. E pra terminar com Fatme Serhan em Taht El Shibak, essa música que tanto amo ouvir e dançar. Botem reparo na roupinha Xeeeeena mais linda de todas. E o menear de bunda inesquecível, tem como não amar? Aprecie sem moderação!



MUCH MORE

Se você quiser comparar o modo como a música é interpretada hoje e ontem, veja esse vídeo bem legal de Taheya Carioca que integra uma seleção feita por mim para aprender dança do ventre.

AGRADECIMENTOS ou AYSHA SUA LINDA

A dança do ventre sobrevive porque mulheres se dispõe a aprender e ensinar. Comigo não foi diferente. Tenho por inspiração artistas como Dina que estão lá longe no Egito, mas também gente que trabalha muito duro pelo desenvolvimento da dança com acento brasileiro. Todo meu agradecimento e admiração pelo talento e pela pessoa de Aysha Almée que você encontra facinho no facebook e teve a paciência de fazer imprescindíveis observações para a feitura desse texto.

Lembrando que esse post faz parte de uma série sobre dança do ventre aqui no blog.

charÕ*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

 

Uma biscate casada ou não: sobre a não monogamia

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Eu falo demais e falo da minha família abertamente. Brado, aos quatro cantos, que nossos principais valores são a convivência, autonomia e o respeito. Não que saibamos muito bem o que é isso e tenhamos todas as respostas, muito pelo contrário. Estou descobrindo. Aliás, estamos. Porque nem sempre funciona. E recomeçamos… Para minha surpresa, isso incomoda. Frequentemente somos vistos como pessoas egoístas que não se relacionam conveniente e adequadamente. Imaturos, com dificuldade de amar e de “jogar a âncora”. Seríamos virtualmente incapazes de criar uma família “de verdade”. Filhos? Nem pensar.

Essa idéia tem a ver com nossa opção por sermos não-monogâmicos, eu e o Roger. Algumas vezes mais, outras vezes menos, outras vezes beeeeem menos (há controvérsias) mas… Estamos sempre em busca da não-monogamia. Essa opção fez com que eu tivesse o privilégio de conhecer pessoalmente a Rede Relações Livres (ou simplesmente RLi) no ano passado. Foi uma das experiências mais transformadoras da minha vida. E se você não conhece, deveria. Eles são uma grupo não-monogâmico (com acentuação atéia, mas não necessariamente, abertamente feminista) que questiona o modelo de relacionamento monogâmico em todas as suas facetas.

O que achei fascinante entre eles é a recusa de adotar modelos tradicionais de conjugalidade. Eles não se casam, não usam alianças, não moram nas mesmas casas. Não andam de mães dadas e praticamente não expõe aquilo que, entre monogâmicos, é tido como próprio de um relacionamento. Eles vivenciam tudo isso, mas em momentos muito especiais, de extase. Quando se está numa de suas reuniões, a menos que se saiba de antemão quem é parceiro de quem, é virtualmente impossível formar pares entre eles. O mais adequado é assumir que qualquer um deles pode se relacionar com todos ao mesmo tempo.

Pode acontecer de você estar com vários parceiros num bar, mas será praticamente impossível estabelecer quem se relaciona com quem. E mais, a qualquer momento, essas pessoas tem a autonomia de estar com quem quiserem. Sem ter de pedir permissão para o(s) parceiro(s), sem ter de dar explicações. E quando não querem estar um com o outro, no problema. Ninguém tem de inventar dor de cabeça para explicar o porquê de não querer transar em determinado dia. Até mesmo porque eles muitas vezes preferem morar em casas separadas. Só admitem morar juntos em condições muito específicas, quando falta grana para manter duas casas por exemplo.

Aboliram de seus relacionamentos toda e qualquer atitude e símbolo que remeta à posse. Fale de ciúmes e eles não serão capazes de te entender. Preferem sentir compersão que é a felicidade de ver seu parceiro sendo feliz com outra pessoa. Isso se explica facilemente porque ntre eles já não existem mais casais e sim indivíduos. Ali não existem duplas, trios ou quartetos, existem pessoas livres para se relacionar com quem quiserem, pelo tempo que lhes aprouver, e do jeito que for mais gostoso, sem ter de dar satisfações para ninguém. É muito bonito de se ver. Mas é claro, é um caminho a ser trilhado pois tudo não vem assim facinho.

Para isso eles criaram uma estrutura que lhes permite estudar, conversar, vivenciar. Não falarei aqui dessas vivências porque não participei diretamente de nenhuma e prefiro manter certa discrição sobre os relatos que ouvi porque são estórias de pessoas e é melhor respeitar aquilo que eles mais prezam, sua intimidade. Mas posso dizer que todos ali me parecem muito sinceros, saudáveis (sim, tenho de falar nesses termos) e conscientes de sua capacidade de amar e de se comprometer seriamente (ou não) com mais de uma pessoa. São pessoas apaixonantes, simplesmente. As mulheres, todas biscas até o talo. Livres, livres, livres. Quando eles querem, simplesmente o dizem. Assim, facinho. Eu fiquei assim, bege (coisa bem rara para uma negra) de tanta admiração.

Há quem diga que se trata da incapacidade de se doar, de amar de verdade. O principal equívoco é achar que um Rli não se envolve emocionalmente uns com os outros. Há relacões que duram há praticamente 15 anos. Mas isso não quer dizer nada. Para um Rli o tempo não importa. O que vale é a intensidade. Super biscate a coisa. É puxar até a última ponta. Mesmo que seja só sexo ou não. Ou apenas afetividade. Ou ainda as duas coisas juntas. O fato é que ali impera o respeito a si e ao outro. Gente, só indo lá pra ver. E eles sempre estão aberto a “novatos” que não são obrigados a nada se não quiserem. Você pode ir lá, bater um papo gostoso e sair. Respeito gente, respeito.

Ali não há perdas ou traições porque ninguém se pertence. E mais, é bom se despir de qualquer preconceito. Entre os Rlis a escala de Kinsey é uma vivência. As pessoas não ficam em um ponto da curva para o resto da vida, elas valsam por ela todinha se lhes aprouver. É muito libertador para mulheres e homens que não tem medo de se descobrir pocahontas ou não. E é claro, quando um monogâmico é apresentado a esse universo dá um medinho. Mas garanto, pouco tem a ver com egoísmo. Diria que muito provavelmente uma bisca ficaria muito excitada com tudo isso. Até mesmo porque aqui o pagode é mais embaixo, como escreveu lindamente a Paula Bruk dia desses.

E se você gosta do nosso blog que tal distribuir amor em nossa página do facebook? #Sejoga. E para quem não pode ir até Floripa, fica o convite para o grupo RLi no facebook também. Uma deliça.

Agora um beijo, um abraço e uma perto de mão. Até o próximo post.

charÕCharô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Sobre filhos, consentimento e empatia

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Quando comecei a frequentar o mundo dos casais liberais a coisa que mais me impressionou nem foi o sexo, mas os códigos de conduta que organizam essas relações. Nesse meio “não é não” e o sim é mais que benvindo. O consentimento é acordado entre as partes, sempre e a cada vez. A empatia uma constante. Muito do que é praticado nas alcovas das casas de swing deveria ser lembrado aqui fora.  E não somente entre nós adultos, mas sobretudo no trato com as crianças.

A questão do consentimento e da empatia são recorrentes nas fantásticas animações de Michel Ocelot (1943, França) como em Kiriku e a Feiticeira (1998) e Príncipes e Princesas (2000). No primeiro, aprendemos a respeitar um pequeno grande herói e a termos empatia por uma vilã que… Bem, digamos apenas que tudo se explica no final. Já no segundo, e esse vou contar, o castelo da bruxa é alvo de diversos ataques infrutíferos. Todos os homens do reino querem entrar e não conseguem porque… Nunca cogitaram pedir permissão.

Kiriku e a feiticeira, Michel Ocelot, 1998.

Quem dera a vida imitasse os finais felizes da ficção. Seguimos invadidos e invasores. Vítimas e algozes. Dizemos minha manicure, meu médico, minha esposa, meu esposo, meus filhos. Com a mesma desfaçatez com que falamos de uma bolsa, de um objeto. Num dos episódios de Os Simpsons, em que Bart pede a emancipação dos pais, Homer resume filosoficamente a questão: até os 17 anos os filhos lhe pertencem. Mas… Se o objetivo primeiro da parentalidade é ver os filhos crescerem, porque muitos parentais não suportam ver os filhos se tornarem indivíduos?

Eu não sei mas…

Deixa eu te contar uma coisa sobre a minha vida offline. Eu e o Roger buscamos viver uma relação amorosa e não mais que isso. Eu não sou dele e ele não é meu. Procuramos evitar expressões como meu marido, minha esposa. Acreditamos que os filhos merecem o mesmo status: são deles mesmos, não nos pertencem. Por isso ando meio ressabiada por ainda falarmos sobre nossa filha e temos procurado internalizar alternativas. Aos quase 9 meses, Ayo não é nossa. É uma pessoa, um corpo, uma personalidade. E isso envolve questões de consentimento e empatia.

Não, não estou dizendo que os filhos podem tudo. O que estou dizendo é que os pais também não podem tudo. Que o limite é o outro. Que existe um breve momento em que, por questões de sobrevivência, parentais e filhos se confundem na mesma pessoa, no mesmo corpo. Mas isso tende a acabar a medida em que os filhos oxalá crescem. Aliás, eu diria que a mágica acontece desde o momento em que nascem. Ali já existe alguém. É alguém que ainda tem carinha de joelho, que não fala nosso idioma, que precisa de nossa proteção mas… É alguém.

Por simetria, do mesmo modo que os filhos não nos pertencem, nós parentais também não pertencemos a eles. Nos dedicamos por um tempo, desejamos o melhor, fazemos das tripas e o coração. Tudo nos limites do consentimento e da empatia. Antes de sermos pais e mães somos literalmente muita coisa. E isso não deve ser colocado a mercê dos outros, ainda que os outros sejam os filhos. Eles crescem para que nós possamos viver nossas vidas. Vidas que não se confudem, apenas se tangenciam.

É nisso que acreditamos aqui, Roger e eu. Por isso decidimos finalmente ter filhos. Mas… Nem tudo são flores e há momentos em que esquecemos tudo isso. Sim, esquecemos. Meu marido e eu. Há momentos em que sou esposa dele. Que a gente fica bravo por que a Ayo não quer fazer ao nosso modo e semelhança. Que a gente fica feliz por ela gostar das mesmas coisas que a gente. Que morremos de medo de ela fazer diferente. Que tudo vira de cabeça pra baixo e é preciso relembrar tudo outra vez. De novo. Eu, Ele e Ela.

Bem, chegou a hora de dizer que esse post não tem respostas. Apenas quis dividir com vocês um pouco de minhas inquietudes. E confesso que me sinto um tanto confortável assim, cheia de perguntas até o talo. Enquanto isso, peço sua opinião a respeito. Você também já pensou nisso, já viveu coisa parecida ou procura viver? Como é a sua relação com seus (opa) filhos e seus namorados, maridos, companheiros? E pra terminar, deixo um beijo, um abraço, um aperto de mão e uma foto da gente.

Até o próximo post.

charÕ*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Pete Burns te despreza: sobre o deserto da imagem

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Seus cabelos estão escovados. Veste calça de couro, botas, um terninho preto. Sobre o ombro uma linda écharpe preta e branca. Sai do restaurante, sorri de soslaio, deixa-se fotografar e vira notícia de jornal. O motivo não é a diferença de idade ou de conta bancária. Ninguém se incomoda com esses pormenores, afinal Jocelyn é uma aberração, a fina flor do que se poderia chamar de Infamous Hall of Beauty.

Nesse Olimpo às avessas passeia a fina flor da estranheza como Pete Burns e Hang Mioku. Mas vamos por partes e começando pelo fim.

Hang Mioku é uma cantora coreana que, insatisfeita com sua aparência, chegou a injetar azeite e óleo de cozinha em seu rosto. Era viciada nesse tipo de tratamento. Acreditava que, se fosse mais bonita, chamaria a atenção do grande público. Tragédia meus amigos, tragédia. Encontra-se irremediavelmente desfigurada, de corpo e de alma. Dói de olhar, de pensar, de imaginar. Por que só podemos isso. De verdadeiro ou falso nos resta a humanidade e compreensão. Pra dizer o mínimo. Por que aqui não se pode nenhuma ironia.

Já Pete Burns inicia sua metamorfose com o declínio do Dead or Alive que não emplacava um clip há certo tempo quando… Não mais que de repente, surge Pete de franjinha na MTV cantando Rebel Rebel com um chapéu de Mickey Mouse e fazendo uh com o cantinho da boca. Eu, muitas outras e outros certamente ovularam. Deixara de ser mais um e se igualava ao próprio Bowie. Com todas as dores e as delícias, pagas a sangue e quem sabe algumas lágrimas. E pausa para movimentos orgiásticos de adoração.

Agora Jocelyn, cruelmente apelidada de a Noiva de Wildenstein. Alguns a chamam de Mulher Gato. Dizem que decidiu de caso pensado construir um rosto felino para agradar o marido. Tempos depois Alec Wildenstein, herdeiro de uma dinastia de marchands, seria flagrado com uma jovem russa de 19 anos na cama do casal. Em seguida seria acordado o divórcio. Estima-se que a bela tenha gasto mais de 4 milhões de dólares em procedimentos cirúrgicos. Ricka, mais que a Carolina Ferraz fazendo comercial de cicatricurrrrrr.

E apesar de toda troça e maledicência produzida por internautas acerca de sua pessoa, Jocelyn segue cercada de amigos. Algumas vezes com um namorado. Geralmente participando de alguma festa ou evento que lhe convenha. Com Pete é a mesma coisa. Só que um pouquinho melhor. Seus figurinos são ma-ta-do-res. E o rímel sempre, sempre, sempre é qualquer coisa de outro mundo. Resumindo, a exemplo de Bete Davis, Pete Burns te despreza.

É o que vejo em Jocelyn, esse je ne sais pas quoi desses que não se escondem de si mesmos.

Confesso que por muitas e muitas vezes fui (e sou) incapaz de… Deixemos que as reticências façam meu trabalho. Por que é mais fácil ver um aquilo, uma coisa. Por isso fiz esse post. Não para enxergá-los, mas para olhar por detrás de mim mesma com esses olhos cansados. Cansados desse vagar por entre desertos imagéticos. Porque aqui estou eu tentando entender e eles… Ah, estão por ai, brabuletando. Igual a uma de minhas ídalas maiores, Elke Maravilha que…

Bem, já falei demais. Por enquanto três pontinhos.

charÕCharô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

 

Dois botões da camisa e falso dilema do decoro

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Falemos sobre decoro, decência, vergonha e dignidade. Voltemos para um tempo em que a magreza era sinônimo de pobreza. O assunto não era a mulher que estava acima do peso, mas sim aquela pobre infeliz abaixo do peso. Estamos nas últimas décadas da era vitoriana, em 1885. Drácula será publicado apenas em 1897. Madame Bovary foi escândalo em 1857. Ao rápido processo de urbanização das cidades e gradativo relaxamento dos costumes, são contrapostas uma série de regras de conduta, bons costumes e vestuário.

Chama a atenção o uso de um acessório que você certamente conhece, o bustle. Por debaixo de múltiplas saias e anáguas, evidenciava as nádegas e garantia a ilusão de alguns quilinhos a mais sem sacrificar a cinturinha de pilão. Foram as primeiras armações usadas por mulheres comuns. Antes esses acessórios eram fetiche nas cortes européias, notadamente a francesa e inglesa. Mas se tornaram tão populares que pasmem, eram usados até mesmo durante a prática de alguns esportes como… O tênis.

E já que estamos falando em antes e depois do bustle, que me desculpem os admiradores da Sharapova, mas o meu negócio é com a sereia Serena Williams. Acontece de a moça adorar um biquini. Acontece também de a mesma moça ser fotografada usando os mais belos e insinuantes uniformes de todos os tempos. Costuma usar um short bem escuro, seguindo o tom de sua pele, deixando sem fôlegos nós que temos pouquinho de má intenção. Um desbunde.

E por falar justamente em desbunde, ou a falta dele, a União Européia de Xadrez acaba de criar um código de regras que estabelece como as enxadristas devem se vestir. Sava Stoisavljevic, secretária geral do órgão, explica que a ideia surgiu a partir da observação das roupas usadas durante os jogos e cerimônias. Tenta justificar que, a exemplo de outros esportes femininos, trata-se “usar roupas adequadas”. Leia-se decotes. Apenas os dois primeiros botões da camisa podem permanecer desabotoados.

Nada foi estabelecido sobre vestidos e saias. Porém, Sava faz questão de salientar que muitas empresas indicam o comprimento adequado variando entre 5 a 10 cm acima dos joelhos. Admite que “jogadoras que ela viu usando saias curtas eram bonitas”, que “tornam os torneios mais atraentes” mas… Veja bem, “é preciso um limite”. Qualquer variante do tema seria um modo deselegante de desconcentrar a audiência e os adversários (algumas mulheres como as irmãs Polgar jogam exclusivamente torneios “masculinos”).

Sava, questionada sobre os uniformes femininos de tênis, argumentou pateticamente que os homens “comentam”. Que se trata de “fazer ou não algo a respeito”, que “é muito importante para a imagem do esporte”, que ”as regras serão mais úteis em torneios masculinos”. Que “não existe problema entre mulheres”, que “entre os homens é diferente”. Devemos concluir que todos os os enxadristas são heteros, imagine. E todos os decotes são coisa de um demônio chamado mulher.

De qualquer maneira, enquanto homens se sentiram aliviados por não ter de enfrentar os infames decotes de suas oponentes, outros esbravejam  argumentando que os torneios femininos se tornarão menos atraentes. Nós, jogadoras ou não, estamos nos questionando os porquês de um código estritamente feminino quando, oxalá, existem Serenas Wiliams e Paulas Radcliffs, essas malditas corredoras que insistem em usar shorts teimosamente diminutos.

Seria uma questão de verdadeiro decoro, que o dicionário descreve como “decência; vergonha; dignidade; conformidade do estilo com a elevação do assunto” mas também como “respeito de si mesmo e dos outros” ou… Que me perdoem as devotas e devotos da Navalha de Occam, mas desde menina aprendi a desconfiar da primeira alternativa posta à mesa, do primeiro acordo que se coloca. Vamos diretamente ao “ou”.

Esportes como tênis, vôlei, dança e corrida (que pratiquei com afinco antes de engravidar, sempre que possível com uma saia minúscula) não são tradicionamente considerados cosa mentale. A esportista não somente pode como deve ser bela. Serão consideradas as mais atraentes aquelas que forem combativas a ponto de serem temidas pelas adversárias, sem fugir daquilo que alguns constumam chamar de feminilidade.

Mas o xadrez, exercício intelectual por excelência, não combina com beleza, sensualidade. Afinal, o mundo é dividido entre mulheres bonitas e mulheres inteligentes e jamais, em caso algum, haverá superposição dessas qualidades. A grande pergunta é se nós e jogadoras como Sopiko Guramishvili, Sophie Millet, Antoaneta Stefanova, Irmãs Polgar aceitarão o falso dilema do decoro e acatarão o código ou…

Bem, você já sabe que prefiro o desvio ao atalho.

E agora deixa eu me apresentar. Esse foi meu primeiro post oficial. Meu nome é Charô Basta, ex-Lastra. Blogueadita, anticapitalista, praticante do desemprego voluntário, artista contraproducente. E minhas desopiniões são apenas o que são, desopiniões pessoais. Estarei aqui a cada quinze dias para trá lá lá com vocês. Fiquem atent@s, novas autoras estão chegando. Antes de ontem a Amanda. Ontem a Sara. Hoje moi.

E estamos cheias de post para dar, viu? #sejoga

charÕCharô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Das Musas Improváveis ou Gracyanne Rules!

Por Charô Nunes*, nossa Biscate Convidada na Quinta Cultural

Num mundo onde as mulheres são todas loiras e devassas, no máximo variações do mesmo tema, mulheres e homens transitam entre o lá e o cá desse caldo cultural que alguns chamam de gênero, enterram clichês normativos e se libertam do sexo que por acaso carregam entre as pernas. Esse post fala sobre essas pessoas que destroem as barreiras entre os sexos e difundem a ideia radical de que nós mulheres somos gente.

Enjoy.

Oi, quem tem medo de Gracyanne Barbosa?

Ao olhar para o corpo milimetricamente desenhado de Gracyanne Barbosa alguns sentem que algo está fora de lugar. Um dos blogues mais influentes do país chegou a afirmar categórica e irresponsavelmente que em seu corpo há menos Gracyanne e mais Barbosa. Infelizmente, o twitter também serve de termômetro nesse caso. Porém, ao contrário do que muitos gostariam de admitir, Gracyanne é mulher e aquele corpo também é o de uma mulher.

E aí que enrolam e assam o pepino.

Se ela é mulher e eu sou homem hetero, existe a possibilidade de eu vir a gostar de uma mulher fisiculturista. Mas não existem (ou não deveriam existir) mulheres praticanto fisiculturismo, esse esporte de homem. Logo Gracyanne é traveco ou não é uma pessoa, mas sim uma coisa, “um troço”. E se eu achá-la bonita mesmo assim, eu tenho de “trocar de time” e me assumir como gay.

Se ela é mulher e eu sou mulher, então eu tenho de questionar as possibilidades de meu próprio corpo. Melhor afirmar que ela é homem do que encarar a ideia de que meu corpo, se malhado, possa vir a ser como o dela. Mas existe um cenário ainda mais assustador: se ela é mulher então pode ser considerada mais bonita que eu. Como rainha de bateria, ela o é. Logo deve ser rotulada a qualquer custo como um homem.

As combinações são infinitas.

Mas existe uma constante: homens e mulheres competem continuamente para saber quem é mais viril (como se a virilidade tivesse sexo) e quem é a mais bonita. Gracyanne ameaça a todos, nas duas modalidades. Assim a primeira coisa que as pessoas fazem é negar sua humanidade e sua capacidade de ser amada. Por causa disso é nossa primeira (e maior?) musa improvável desse carnaval. Gracyanne Rules!

Laerte, a loira morena do banheiro

A Cultura gravou um Roda-Viva de carnaval com ninguém menos que Laerte Coutinho, a morena do banheiro. Tinha tudo para dar certo mas… Brochamos todos que vimos o programa: o entrevistado era muita areia para o caminhãozinho dos entrevistadores. Bloco após bloco a entrevista se arrastava. Parecia que faltava oxigênio no recinto.

A perplexidade diante de um homem trajando o vestido era tamanha que chegaram a perguntar porque ele/ela (ao gosto do freguês, segundo o próprio Laerte) não se veste de acordo com sua classe social. Afinal, se é pra ser mulher, que seja ricka. E quando perderam os pudores, queriam saber se mijava em pé ou sentado, se ainda poderia jogar futebol (esse esporte de macho, né Marta?). Veja bem, pode até se vestir de mulher, desde que continue homem.

E com todo esse furdunço Laerte continuou absolutamente serena. Se veste como bem entender e reivindica o direito de ir ao banheiro sem que ninguém (e todo mundo) tenha a ver com isso.

Mas nem tudo foi tempo perdido. Angeli estava preocupado em saber se é possível fazer humor respeitando direitos humanos. Très legal. E no meio da barbárie, Laerte insinuou o poliamor. Diz, quase sem dizer é verdade, que a monogamia não lhe serve. E conceitua a não monogamia como prática anticapitalista.

Claro, foi tudo en passant.

Ainda assim, foi mais que suficiente para tornar a morena do banheiro ainda mais atraente. É musa improvável e inconteste.

Vânia Flor: gorda, porém casada

Ter samba no pé. Esse deveria ser o único quesito para ser musa de carnaval. Mas na prática a teoria é outra. As rainhas e madrinhas de bateria são todas brancas, magérrimas. No carnaval, as gordas desaparecem e as negras são descaracterizadas (lentes de contato azuis, apliques, descoloração dos fios). Ainda assim, Vânia Flor foi o nome do carnaval 2012. Ainda que negra e gorda. E justamente por isso.

E como era de se esperar, falou-se em dieta, quantidade de quilos (104, para ser mais exata). E uma enxurrada de elogios. Daqueles elogios que na verdade dizem que Vânia deveria se odiar, fazer dieta e ficar escondida em casa. Porque, com esse tamanho, tem de se amar muito e se assumir antes de sair de casa, e coisas do tipo.

Até que (nada é tão ruim que não possa piorar) uma comentarista da Rede Bobo (não lembro o nome) disse algo mais ou menos assim: “Ela é gorda, porém casada. E o marido é magro”.

Nesse momento desceu a Teodora em mim.

Say no more.

E pra concluir…

Obrigada pela paciência de ler um post assim enorme, um postão.

Com direito a dedicatória e o escambau: beijo para todas as mulheres que mijam em pé, que não gastam horas a fio com manicure. Que sujas, não depilam as axilas e virilhas. Para as que adoram puxar um ferro. Para aquelas que dão a mínima para a ideia de se vestir bem. Beijo para negras e gordas. Especialmente negras gordas. Sobretudo aquelas que ousaram se casar e ainda acharam escolheram um magro (só pode ser louco) para chamar de seu.

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Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Oi Freda, Oi Josephine

Por Charô Nunes*, nossa Biscate Convidada na Quinta Cultural

Nossa estória é tão surpreendente que poderia e já foi mote para roteiro de cinema. A personagem principal é a jovem Freda Josephine McDonald, nascida aos 3 de junho de 1906 em Saint Louis, Missouri. Provavelmente era mestiça como evidenciam seus traços. Existe a possibilidade de seu pai ser alemão. Alguns apostam que era músico. Dizem, não se tem certeza. É sabido que era filha de uma lavadeira, ofício que exerceu quando criança. Conta-se que chegou a ter as mãos queimadas por uma patroa branca.

As 13 anos fazia performances na rua (oi Justin Bieber) para ganhar uns trocados. Quando a fome apertava, revirava o lixo. Dizem que foi descoberta assim. Outros citam o nome da diva (negra) Clara Smith de quem teria sido camareira. O fato é que se tornou corista por volta dos 15 anos. Era a última da fila de dançarinas, tradicionalmente a mais engraçada de todas. A essa altura já tinha recebido o rótulo de inadequada: era negra demais, vesga demais, magra demais, engraçada demais.

Hoje, a grande maioria dos textos sobre Freda desfiam clichês: Pérola Negra, Rainha Crioula, Vênus Negra, Deusa de Ébano (levante a mão qual mulher negra nunca ouviu esse elogio). Mas nos anos 20 era tudo diferente. A América racista não era a terra das oportunidades, muito menos para uma exótica dançarina negra. Após conseguir uma vaga na Broadway e conhecer as pessoas certas partiu para uma Europa que ainda desconhecia o Charleston e o Jazz.

A essa altura do post Freda já adotara o sobrenome do primeiro marido. Assina Josephine Baker, famosa por sua Dança Selvagem, uma saia de bananas. Apresenta-se numa Paris que vivenciava o nascimento da Art Deco e se interessava por arte étnica por conta da Exposition des Arts Décoratifs de 1925 e da Révue Nègre. Ernest Hemingway, Le Corbusier, Picasso, Dior, Calder. A lista de admiradores é virtualmente interminável. Fala-se que recebera mais de 1500 pedidos de casamento, o que não quer dizer muita coisa mas diz alguma coisa.

Em pouco tempo, oxalá, ganha o status de diva. E se o prestígio da “mulher mais conhecida do mundo”, como era chamada, pode ser medido pela estatura de seus dissabores, é preciso dizer que Baker rivalizava com as mulheres mais fotografadas de sua época. Só para citar dois nomes: “A indestrutível” Mistinguett (cujo par de pernas é lendário) e Glória Swanson,atriz hollywoodiana chamada simplesmente de “A estrela”.

Baker é muito mais que um olhar revolto, que sua tez acentuadamente pintada de branco e melenas milimetricamente encaracoladas (oi Lisa Minelli), muito mais que movimentos selvagens. A exemplo de Mata-Hari, foi espiã. Como Luther King, lutou contra o racismo numa terra onde o prestígio alcançado na Europa não teve imediata repercussão. E mais, muito mais que a Cruz de Guerra e a Legião de Honra, as mais altas honrarias francesas com as quais foi condecorada.

Só podemos imaginar a complexidade de uma mulher que comprou um castelo para os 12 orfãos de etnias diversas que adotou (oi Brangelina), que teve um chimpanzé (oi Jacko), um leopardo que usava uma coleira de diamantes (oi Madonna), um porco, passarinhos, gatos e cachorros. A mulher que, já consagrada mas sem dinheiro, não teve medo de retornar aos palcos apesar da idade. Artista admirada por Grace Kelly que lhe deu uma propriedade em Mônaco e provavelmente o túmulo onde está enterrada.

Estrela que atuou ao lado de Grande Otelo, cuja alma de Dzi Croquette (luxo) alterou o cenário artístico brasileiro da década de 70. Estamos falando de abra suas asas e solte suas feras. O mundo é uma azeitona e gente como Josephine é ainda é o recheio. Sua influência sobrevive. Naomi, Beyoncê, Tina, Iman, Leila. Grace Jones. Oi pra mim e oi para você. Somos todas mães, filhas, irmãs, amigas e amantes de Josephine. E o mercado fashionista sabe disso. A diva é o assunto do verão 2012, recentemente foi motivo de uma modesta campanha de uma joalheria brasileira, já foi boneca. Em 2008 foi imortalizada em cera. Diga-se de passagem, demorô.

Ainda assim gostaria de esquecer por um momento a jovem mulher que se esforçava para ser o mais educada que podia em sua vida privada por personificar a figura da mulata exótica. Também, por um momento, esqueçamos que dançava seminua (opa, nada contra mas nesse caso é preciso ir além). Que a imagem dessa senhorinha simpática e aprumada ganhe nosso imaginário. Essa senhorinha que foi estrela até morrer no palco como desejou.

Esse post poderia terminar assim lindo se não fosse um detalhe. Como detesto finais felizes facinhos, vou falar de uma cosia que sempre me interessou: a peruca da tal senhorinha. Por que Freda, sim Freda, foi uma mulher extraordinária e contraditória. Nunca usou um black power, mesmo em pleno debate sobre os direitos civis. Dizia que não tinha medo de ninguém mas foi acompanhada pelo racismo até fim. Como artista, como negra, temia e conhecia bem o preconceito. Tanto que, ao ser ovacionada nos Estados Unidos, chorou.

Josephine não matou Freda, aquela pessoa de carne e osso. Que ao contrário de La Baker pertencia a seu tempo, sofria com as críticas, mulher que escondeu último casamento por ele ter sido um juntamento e não um sacramento, que nunca usou um black power. Ah, como teria sido maravilhoso não é? Mas como tudo na vida de Freda se transformava em limonada, até mesmo isso não a diminui. Muito pelo contrário. Talvez essa tenha sido a grande estrela da estrela. Nada como conhecer os próprios demônios e com eles saber lutar e acordar.

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Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

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