Cristo se fez mulher: Gritos e sussurros, Ingmar Bergman

Ontem uma amiga reclamou por não conseguir ver televisão. Em menos de 10 minutos de uma novela que não sabia o nome, 3 cenas de violência contra a mulher. Você estava vendo Gabriela, falei. Por coincidência (ou não) uma das cenas que tanto a incomodou, um marido dizendo que usaria a mulher, também é retratada em Gritos e sussurros (Bergman, 1973). Sem exagero, um dos filmes mais belos e pertubadores que já tive a oportunidade de ver.

Demônios não gostam de ar fresco.
Ingmar Bergman.

Para o diretor sueco Ingmar Bergman, o privado é o espaço onde crescem os bolores, os demônios. Adivinha, fiquei apaixonada pela tese, o fio condutor do filme: tudo acontece ao redor de uma moribunda, velada por duas irmãs e uma fiel criada cuja filha morreu recentemente. O cenário é uma casa de paredes insistentemente vermelhas, ornadas por madeira negra e emolduradas por móveis brancos. Uma arquitetura luxuosa de casa de bonecas, onde a felicidade é inviável.

Um detalhe supreendente: são apenas 91 minutos de duração. O suficiente para falar sobre a eminência da morte, insinuar abusos sexuais, incesto, adultério. Suicídio, necrofilia, disputas entre classes sociais, ódio, vernizes sociais, distúrbios e vivências oníricas. Sempre com uma delicadeza monstruosa. Até porque, se fosse diferente, ficaríamos entediados ou sobrecarregados. Mas acontece é justamente o contrário, a vontade de olhar pelo buraco da fechadura só aumenta.

O filme é carregado de religiosidade sem julgamentos desnecessários. As personagens sempre estão a beber água e vinho, o tom sanguíneo em cada close extremo. A irmã que sofre e se torna capaz de interceder junto a Deus a favor dos vivos. É nesse momento que, oh, perdemos o fôlego com a encenação do drama de Pietá. Cristo como mulher. Só para citar ***uma*** das imagens que colocam Bergman entre os principais artistas visuais de seu tempo, ao lado de gente como Marcel Duchamp.

Mas o principal motivo para ver Gritos e sussurros é emocionar-se com ele. Sorver ou deixar-se levar. Saber quando ir adiante e recuar. Nunca disse que seria fácil, a vida não é entretenimento. Chorei litros, coisa que não costuma acontecer no cinema. Pensei na minha vida, na vida dos outros. Revivi a infância com uma irmã hoje distante. Questionei esse modelo de maternidade cega. E principalmente, em como não deixar a vida embolorar, essa possibilidade tão cruelmente presente em nossos dias.

Para quem é familiarizado com a filmografia do autor, há inúmeras recorrências. O caco de vidro, a presença de cadáveres e o embate de personas de Quando as mulheres pecam; a inexorabilidade do tempo de Morangos silvestres. O suicídio de O porto e O ovo da serpente. A crueldade sobre o olhar do outro e de nós mesmos sobre quem somos, de Juventude. Para aqueles que gostam de pintura, a maestria de Alfred Stevens que tão bem retratou as mulheres do século XIX.

Sigo ateia mas sei aproveitar coincidências divinas quando me aparecem: decidi falar sobre isso porque domingo, dia 24, o filme será ***exibido*** na Mostra Ingmar Bergman em São Paulo. Em Brasília, dia 5 de junho. O ingresso custa 4 reais com direito a meia, hohoho. Não perca por nada desse mundo ou do outro. O filme é, tipo assim, essencial pra gente que é biscate ou está em vias de. Ainda mais numa época em que os demônios continuam à espreita por entre frestas e carmins…

A Parada Gay não é mais a mesma?

A tristeza acompanha as notícias vindas de São Petersburgo: a paraga gay russa será, até o momento e apesar do clamor dos defensores dos direitos civis, proibida pelos próximos 100 anos em nome de uma sociedade mais ***civilizada***. Nesse momento, a luta contra homofobia no país significa o direito de protestar pelo direito de protestar. Aqui a situação é parecida.

Guardadas as devidas proporções, recentemente enfrentamos situação semelhante com a Marcha da Maconha. Felizmente, o STF considerou inconstitucional a repressão contra manifestações públicas. Temeroso pensar que precisamos chegar a essa instância para garantir um dos direitos mais básicos do modelo democrático em que vivemos.

Esse é o contexto da 16ª edição da Parada Gay 2012 que acontece amanhã em São Paulo. Porém, o evento vem sendo erroneamente criticado pelo suposto esvaziamento político e acentuado alcance econômico. A data, antes marcada pelo protesto, teria se transformado numa ocasião de diversão, pegação geral, sexo livre, promiscuidade. Coisa que não ***combina*** com a luta pelo casamento igualitário e a defesa da ***família***.

As perguntam se multiplicam. Por que temer o caráter carnavalesco do evento? Por que uma manifestação LGBT deveria ser casta e puritana? Por que a luta deveria sublimar toda e qualquer manifestação da sexualidade? E se os manifestantes não podem pegar geral em seu próprio evento, quando poderão? Não se trata apenas de moral e bons costumes. Pegar geral e irrestritamente é fazer política, biscates sabemos.

E assim temos avançado. Há conquistas a  celebrar, terreno a ser defendido. Na base de muito pancake, por que não? Porque nunca será apenas uma oportunidade para ver e ser visto. E mesmo que seja, teremos motivação política suficiente: lutamos pelo direito de existir numa sociedade que nos quer (femininas, masculinas, transsexuais ou assexuais) invisíveis a todo custo, no máximo submissas e caricatas.

A boa notícia (e a má) notícia é que todo manifestante LGBT sabe disso.

Então que venham muitos beijos, glamour e pegação.

Enquanto incomodar muita gente, é porque estamos no caminho certo.

É Dia de Festa!

Nosso quarto mesversário, estamos aqui comemorando a proximidade dos cem mil acessos, 119 posts e 1.583 comentários. Isso é bem mais do que se imaginávamos quando o clube abriu as portas. O time que começou com duas jogadoras e muitas promessas hoje tem no elenco nove “escreventes” e ainda as promessas todas. Hoje é dia de festa e a comemoração é com as letrinhas dos noss@s escreventes-fix@s (já que biscatagi casual não nos falta)…

Augusto MozineAugusto Não é fácil ser o único homem fixo da biscate… Responsa da braba! E foi mesmo um romance, diria que até atribulado. Conheci a Biscatagi por uma amiga, que já frequentava o meio há tempos e, claro, pirei! Daí começaram os flertes, alguns dos textos dos meus blogs tinham alguma conexão com a linha das Biscates e, depois do Expurgando Teresinhas, veio o convite para o primeiro Guest Post (Os mino pira na biscatagi) que foi um debut muito gostoso! E, então, um belo dia me surpreendi com o convite para uma parceria fixa e aberta uma vez por mês. Só tive uma resposta: Muito Amor <3 <3. A experiência? Liberating! Escrever e participar de discussões sobre a safadeza nossa de cada dia tem me feito muito bem. Além disso, já recebo alguns comentários do tipo: ah, uma amiga leu o seu post num Blog, disse que gostou muito. É sempre bom, né! Daqui pra fentre? Consolidar a parceragi, me embrenhar nos caracóis dos cabelos biscates e ser feliz!

charôCharô Minha busca pelo ser biscate é uma estória que sei exatamente como começou. Os tempos eram outros e as únicas fontes de informação, além da escola e família, eram os livros e a televisão. Como a gente não lia, dou graças a deus pela televisão. Foi alí que encontrei as primeiras sementinhas de um mundo que nem mesmo desconfiava existir. Um mundo onde o Bryan Ferry cantava Don’t Stop The Dance, com mulheres dançando livremente na minha casa. Tudo muito sutil, o suficiente para que pudesse acontecesse na sala de estar que, no meu caso, também fazia as vezes de quarto de dormir. Apenas um rodopio de cabeça, jogada suavemente para frente e depois… Oh, para trás. Gestos que me ensinaram como a força pode ser inversamente proporcional à leveza de gestos. E essa estória continua, a cada novo post, a cada novo autor do blog. E se me perguntassem, diria que é esse um dos motivos que me fazem amar o o Biscate Social Club. Que de clube só tem o nome. Somos uma comunidade da qual participa quem quiser. Até o presente momento, 1,336 já se identificaram com o blog. E como hoje é dia de distribuir carinhos e beijinhos, fica o convite para que você deixe seu comentário, sua participação. E para terminar, muitos beijos e aplausos aos que se dedicam, tijolinho por tijolinho, para que o dia de hoje se repita, pita, pita… Com muito amor biscate.

Cláudia GavenasCláudia Medinho. Ou de escrever sobre coisas que me encabulam (biscate tímida, presente) ou da força que a palavra BISCATE tem (uhum, isso já me aconteceu). Foi justamente isso que senti quando recebi pelo Facebook o convite da Luciana para escrever por aqui. E tudo começou quando eu curtia os posts por lá. Aí, a Lu disse: “Cláudia, pára de só curtir e sijoga”. Pronto, me joguei. E não me arrependo nem um pouco disso porque eu cresço a cada texto que publico ou que leio neste blog. Fico imensamente feliz, não só por saber que o Biscate Social Club cresceu e cresce a cada dia, mas sim, porque isso significa que tem muita gente que também cresce e aprende com o conteúdo que é oferecido. Agora, orgulho define o que sinto por fazer parte deste clube. E espero que venham muitos aniversários a serem comemorados!

Luciana NepomucenoLuciana ser autora do biscate é ser uma eu: dessas que ama escrever, que ama escrever em blogs, que ama escrever em blogs com outras pessoas que vai aprendendo a amar. Ser autora do biscate é ser uma eu: dessas que tem discurso, bandeira e projeto. Ser autora do biscate é ser uma eu: dessas que esquece a hora, o tema, o rumo. Ser autora do biscate é ser uma eu: dessas que pede post, comentário, atenção, leitura, fotinha. Ser autora do biscate é ser uma eu, uma que diz: sou dessas. Ser autora do biscate é ser dessas.

Marília Ser Biscate não é a questão. Sempre fui. A questão é ser autora-biscate. É defender a biscatagem em público. É provocar com palavras a ira, a inveja, a gula e sei lá mais quais pecados capitais andaram inventando por aí. É testar os limites do bom senso comum. Deixar com interrogação. É demandar, assim, porque quero, minha própria liberdade. própria liberdade.

Niara de OliveiraNiara Ser biscate no mundo é complicado. Tem muito de alegria e tem aquele peso de quem transgride regras, desacomoda as pessoas de seus papéis fáceis e pré-determinados e não sabe muito bem — e nem quer — qual outro papel colocar no lugar. Nem sei se quero papel. Quero viver, quero o mundo com todas suas cores, dores e alegrias, de preferência no bar da esquina entre copos e risos. Ser biscate escrevente é isso e mais o enorme prazer de saber que estou por trás da libertação de muitas mulheres e homens de seus papéis e caixas através das letrinhas todos os dias publicadas no BiscateSC. Mais. Ser biscate nesse clube é o prazer contínuo de se libertar diariamente, em doses homeopáticas de alegria, pelas minhas letrinhas e de outras/os.

Renata LimaRenata O Biscate é o meu boteco. E a gente tem altas ideias inovadoras e revolucionárias, no boteco. O Biscate é a minha cozinha, aquele lugar gostoso para onde a gente leva os amigos de verdade. O Biscate é um prazer, nada secreto. Quando fui convidada para escrever, não sabia se conseguiria, mas a cada dia, me sinto mais liberta de amarras (salvo as que eu desejo… ) e preconceitos. E a cada dia, com cada uma e um e todos que escrevem no blog, eu aprendo mais, até mesmo sobre eu mesma. O Biscate é o boteco das feministas, dos homens que amam as mulheres, é o boteco onde a gente fala de coisas leves com profundidade, ou de coisas pesadas e densas, com leveza. Eu adoro escrever, ler, divulgar os textos, conhecer novas opiniões, novas perspectivas. Quebrando formas, amassando caixinhas, rompendo com os moldes, e tentando não criar novos. O Biscate é um rótulo que brinca com os rótulos, e ao brincar, desconstrói e deixa que cada um se forme, se amolde a si mesmo… E o Biscate é o lugar onde eu encontro a Lu, a Niara, a Claudinha, a Sara, a Marilia, a Silvia, a Charô… as anfitriãs dessa festa, e as convidadas e convidados mais incríveis. É uma festa! Daquelas bem boas, daquelas que deixam sempre gosto de quero mais, vontade de se jogar, e ser feliz!

Sara JokerSara Ser autora do Biscate é uma honra pra mim, me sinto fazendo a diferença de forma divertida e muito marcante. Cada dia que vejo uma nova autora biscate, fixa ou convidada, me sinto numa luta muito mais forte. Desconstruir uma palavra é coisa pra mulher forte, não ter medo de uma palavra é coisa de gente com coragem. Assumir que podemos ser um conjunto de biscates sem medo do julgamento alheio é quebrar tabus. E o melhor de tudo, estamos quebrando tabus da melhor forma possível, com bom humor. Sempre que ouço algum@ amig@ minh@ falando que leu o blog me sinto tão orgulhosa. E quando, além de ler, mudaram de opinião por nossa causa, me sinto importante, parte de algo muito maior.

Silvia BadimSilvia Um convite, daqueles que arrepiam a alma: ser autora-permanente-escrevente-biscate-arrebatadora? para mim? É claro que só podia ser recebido com um sim-sorriso. Com um sim-claro. Com um sim-eu sou. Com um sim-vamos juntas. Enlacei minhas mãos fortes aquelas mãos que ali estavam. Um laço que se fez verdadeiro desde que recebi as primeiras linhas do Biscate Social Club. Mesmo antes do convite eu já estava lá, inteira, reconhecendo-me em cada letra, em cada linha escrita, em cada concepção de ser mulher-livre que se quer cada dia mais livre . Orgulho de ser, e de me reconhecer nas outras mulheres que ali estão, expondo-se em linhas cruas e nuas de ser quem se é. Linhas que viram asas e voam, em direção a um mundo mais cheios de possibilidades de felicidade verdadeira. E minhas escritas começaram a sair. Saíram, e saem, ganhando o mundo. Juntas às vozes biscateadas que ali estão, fazem-me reconhecer em cada uma, em cada um que lê as divagações traçadas com vontade de quero mais. Com vontade de ser mulher sem amarras morais. De ser em sorrisos rasgados e anseios se permitir ir além. Ser biscate é uma construção diária, uma disposição que não se retraí, uma verdade que não se cala. Nesse espaço, nesse clube seleto e de dimensões sem contornos, a gente vai explorando as tantas possibilidades de dizer ao mundo que a gente pode. Que a gente quer. Que a gente é. Que mulher pode assumir as rédeas do próprio desejo, que mulher é lindo e vermelho e pulsante, e que se expande rumo a realização de nossas vontades mais estranhadas e estranhas, mais ricas e diversas, mais vorazes e com sede de vida. E a gente quer é isso: ser biscate cada dia mais, em um ano, dois, dez, vinte, percorrendo gerações e gritando ao mundo: desnudem-se!

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Gostou do time BiscateSC? Ainda há vagas. E se você nos paquerar direitinho, assim dicumforça com gosto e vontade, a gente que é biscate e facinha pensa aí na possibilidade de distribuir alguns convites para mais autor@s fix@s desfrutarem da nossa intimidade. Hein-Hein-Hein?!?!  ;-P

*Clique na foto ou no nome de cada autor para ver todos os seus posts no BSC.
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