Que Horas ela Volta? pelo olhar da classe média nas redes sociais

Segunda-feira, o programa Tela Quente que tradicionalmente exibe algum blockbuster do cinema norteamericano com muito tempo de atraso ou no máximo uma comédia brasileira, passou o recém lançado e premiado “Que Horas Ela Volta?”, filme brasileiro de Anna Muylaert, com Regina Casé e Camila Márdila nos papeis principais. Não vou me demorar explicando do que se trata, porque a essa altura vocês já devem saber. Por via das dúvidas, pros desavisados, vejam mais aqui .

Quando o filme chegou aos cinemas provocou uma enxurrada de textões, textinhos e bastante dissenso, aqui no blog também teve texto. ( aqui e aqui)  A luta de classes estava passando também nas nossa redes sociais. Cada um fazia sua leitura. É inegável que o filme toca num pilar não muito analisado e bem pouco admitido da nossa sociedade: a exploração do trabalho doméstico, quase sempre exercido por mulheres, em geral de baixa escolaridade, quase todas negras, muitas delas nordestina. Uma herança escravagista.

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Na exibição da Globo, na segunda-feira, dia 11,  o ibope foi excelente e o filme bombou nas redes sociais, como se fosse estreia, e mexeu com estruturas, de novo. Para mim, foi um experimento e tanto assistir o filme (no meu caso pela quarta vez), dessa vez com os comentários do twitter. Por óbvio que minha TL é minha bolha particular.  Ali estava gente de classe média como eu: ou éramos Fabinhos ou Bárbaras ou José Carlos ou todos eles ou no mínimo os convidados da festa de aniversário da Bárbara, que nem se dignaram a olhar para Val enquanto ela lhes servia.

Sim, estou colocando eu e vocês no mesmo patamar daquela família por vezes odienta, por vezes desprezível, mas tão como nós, porque a gente explora nossa empregadas, pede pra pegar uma água ao invés de levantar e ir lá buscar,  elas deixam de cuidar de seus filhos pra cuidar dos nossos, e no final o máximo que a gente faz é olhar pra elas e a vida delas com uma certa condescendência, porque a gente diz que é da família mas elas nunca partilharão da herança.

Enfim, são pequenas coisas que a gente já fez sem querer ou perceber ou já viu fazerem e se acostumou, simplesmente porque é assim. E em parte é isso que o filme é: um grande tapa na cara. Porque a gente precisa se reconhecer nas nossa falhas, nos nossos privilégios para poder melhorar. Ficar varrendo isso para debaixo do tapete e se achando muito legal só porque é de esquerda não resolve nada, não muda nada. A mudança começa dentro da sua casa mesmo. Tratando as pessoas com dignidade, respeito e profissionalismo.

E aí tem a Jéssica. Nossa, como amo a Jéssica! não é a toa que a frase que mais adoro no filme é da Jéssica: “Eu não me acho melhor do que ninguém. Eu só não me acho pior.” A Jéssica é essa nova geração que está aí no Movimento Passe Livre, na Ocupação das Escolas ou que passou na UNB – Universidade de Brasília-  sendo aluna de colégio público. E a classe média não perdoa isso. Olha com preconceito, desdém e .. raiva.

Óbvio que também teve muita gente que refletiu com o filme, analisou as relações de mães e filhos estabelecidas nele, mas a enxurrada de reclamações , principalmente sobre a Jéssica, não pude deixar de notar. Quantos tuítes eu vi reclamando da folga da Jéssica porque abriu a geladeira, porque tomou sorvete, afinal era visita?! Ué, mas não disseram pra ela se sentir em casa? Ao menos aqui em casa quando vem visita eu deixo à vontade. Mas é que Jéssica não era visita, né? Era a filha da empregada, e aí não merece ser tratada como “visita de verdade”. Não merece o quarto de visitas, merece um colchão novo, olha que bondade, no chão. Já tá até demais, né?

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E assim é. Sempre que se debate sobre o filme, ele toma essa proporção imensa, desse fosso social gigantesco que temos, dessa exploração e divisão de classes no Brasil que nunca é falada com clareza e, assim como o racismo, varrida para debaixo do tapete. O brasileiro é avesso a determinados conflitos, aos que mexem com as estruturas que lhe favorecem.  Mas é preciso, sim, falar disso, cada vez mais e esse é o maior mérito do filme. 

Uma sociedade mais igualitária passa pelo reconhecimento de privilégios e pelo abandono desses para uma diminuição do fosso social, sem isso não há como ter um país melhor em futuro algum. 

De carnaval, de verdades e dores de cada um

“Fácil, não é? Você me conta tudo e assim se livra da culpa.  Isso é egoísta, eu ficaria muito melhor se você ficasse calado e guardasse a culpa para você. Mas tem essa história de verdade. A verdade é superestimada”.

(Norma, em “Felizes para sempre?”)

Achei espetacular essa fala aí, da personagem interpretada pela Selma Egrei, que é uma grande atriz, dita com um misto de raiva e desprezo pro marido. Porque toca em um ponto essencial: tem quem conta, tem quem ouve. O que a gente conta não tem a ver com o que o outro ouve, necessariamente. 

Me lembrou da primeira vez que eu tive contato com essa questão e seus meandros. Eu tinha 17 anos e um namorado que não gostava de carnaval. Fui pra Olinda e ele ficou aqui. Tomei duas doses de pau do índio (favor não fazerem isso) e fiquei com outro cara o carnaval inteiro.
Fiquei, e era carnaval.
Quando voltei pro Rio, a primeira coisa que fiz foi contar pro meu namorado. De supetão. Era uma história de carnaval, pra mim tava claro. Não era nada sério. Só brincadeira.
Aí eu vi que  a discussão da “verdade”, nessa história aí, não fazia sentido nenhum. Que o que eu tinha vivido não era o que ele escutava ou sentia, e que nada, nada justificava a dor que eu causava a ele, com a desculpa de “ser sincera”. Na minha percepção, eram várias dores, inclusive, em camadas: uma era o fato concreto, eu com outro cara, que ele ficava revivendo e com o qual se torturava. A outra era a dor dele ver que eu não estava penitente como ele esperava. Não era que eu não sofria: não queria estar causando aquela dor a uma pessoa de quem eu gostava, claro que não. Mas era isso, eu tinha ficado com um cara no carnaval. Não considerava aquilo tão grave, não me sentia tão culpada assim, sentia o abismo que havia entre a minha percepção e a dele, e que só aumentava a cada conversa.
E foi isso, um desentendimento só. Uma conversa e uma verdade que não existiam, verdades que se esbarravam e que se machucavam uma à outra.
Esse texto não pretende dar lições de moral a ninguém, claro. Cada um sabe dos seus acordos e das suas possibilidades. A intenção aqui é só pensar um pouquinho mais sobre esse assunto fugidio, a “verdade”, o que se diz, o que se cala, como um sente, como o outro recebe. O que é possível partilhar, compartilhar, viver junto. O que não é. O risco permanente que é viver no mundo, se expor no mundo, aparecer. As escolhas que se faz, as consequências dessas escolhas.
Não sei, de verdade, nem quero discutir, se se deve ou não contar, o que se deve ou não contar (porque, é claro, o buraco é muito mais embaixo, e a gente pode se encantar de forma plena por outra pessoa sem nunca ultrapassar os limites impostos pela moral vigente. Isso pode. Ninguém discute.). Acho mesmo que cada um sabe de si. Do que sente, do que faz. De como lida com isso. Mas estou convencida de que certas sinceridades servem apenas para tirar o fardo da culpa da pessoa que resolve ser sincera, e jogá-lo em cima da outra pessoa. E vale a pena pensar um pouco sobre isso. Tudo são escolhas, sempre. Narrativas, cada um tem a sua. É tão mais fácil classificar e categorizar. Fica parecendo tudo tão arrumadinho. Só que não.
Carnaval

O Que Aconteceu Com Renée Zellweger?*

com a leitura querida
de Patrícia Guedes e Liliane Gusmão

Circularam esses dias uns links sobre a aparência de Renée Zellweger, no estilo antes e depois e a pergunta, em diversos tons, dos mais maliciosos aos bem preocupados: o que aconteceu com ela? Engordou? Emagreceu? Anorexia? Botox? Bronzeamento artificial? Cirurgia? Doença terminal? Drogas? Os comentários nos links não foram menos diretos e não pouparam agressividade e virulência: ridículo, aterrorizante, doente, repulsivo foram termos usados para descrever seus rosto e devastada, mentalmente desequilibrada, enlouquecida, embarangada, plastificada, algumas das palavras usadas – das que tive estômago pra ler – que se referiam a ela integralmente.

Então agora, vou dizer tudo que eu acho que tem que se discutir sobre a aparência dela: (                                ). Pois é, um imenso, enorme, absoluto: NADA.

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Mas, como sou muito legal e para efeitos pedagógicos, vou até responder a inquietação dos mais bem-intencionados: o que aconteceu com ela tem nome. Vida. Em muitos sentidos.

Vida, porque é uma mulher de 40 e tantos anos que tem uma doença de pele (rosácea), que usou bastante maquiagem dados seus compromissos profissionais, que se expõe a forte iluminação artificial por causa das filmagens, uma mulher que engordou e emagreceu várias vezes por motivos vários – inclusive de trabalho. Vida porque é razoável supor que ela riu, chorou, teve dor de cotovelo, passou alguma noite em claro, divertiu-se, pegou sol, pegou brisa. Então, vida, ou como costuma ser apelidada: tempo.

Mas vida, também e principalmente, porque o que lhe aconteceu é o que tem nos acontecido, a nós, mulheres, por todo o tempo que passamos nessa bagaça: somos observadas, julgadas, avaliadas e rotuladas. O corpo, o rosto, a “moral” sob uma enorme lupa. Uma série de “tem que” dos quais é difícil escapar (e nunca sem alguma marca), inscritos na estrutura e que, no máximo, nos é apresentado como uma luta individual. Autoestima, amor próprio, ser mais independente… uma dose especial de crueldade tomar como responsabilidade pessoal um problema social que se espalha na cultura.

Essa lupa enorme e constante não deixa escapar nada. A mulher está sempre errada. Caso se submeta ao padrão (olha aí, não sabe envelhecer, tá usando botox; tá magra demais,deve ser anorexia) e caso o ignore (devia ter vergonha de ir a praia mostrando as pelancas; olha já dá pra ver cabelo branco, é muito desleixo). Uma mulher TEM QUE manter-se jovem, mas, atenção, não pode aparentar estar querendo se manter jovem. Tem que ficar jovem sem esforço e aí, se envelhecer (risível usar o “se” pois viver é sempre “quando”) desaparecer. Sabe coméqueé, velhice é feio, não é pra expôr assim.

Li um bocado de comentários dizendo que ela não soube envelhecer com dignidade, como se houvesse um jeito correto de viver, como se a uma mulher – especialmente famosa – não houvesse pressão sobre a aparência, como se não vivêssemos em uma cultura que glamouriza a juventude, como se não houvesse menos papéis nos filmes para mulheres maduras, como se não fôssemos bombardeados diariamente com a relação entre aparência jovem e saúde. Como se “envelhecer com dignidade” fosse um caminho reto individual sem relação alguma com contexto sócio-histórico. Como se, especialmente, pudéssemos julgar como alguém deve viver sua própria vida. Alguém, claro, uma mulher. Esse animal público.

O fato é que nos sentimos no direito de avaliar e emitir impressões sobre a aparência das mulheres. Isso está tão naturalizado que nem nos questionamos sobre. Como se o corpo e o rosto da mulher existissem para o olhar dos terceiros e devessem a ele corresponder, agradar, submeter-se. Mesmo as pessoas que solene ou alegremente entoam: “meu corpo, minhas regras” às vezes escorregamos e estamos lá, dando nota mental pro corpo da coleguinha.

Então não, não devia interessar a aparência da Renée. Renée não existe pra enfeitar a vida de ninguém. Nenhuma de nós, aliás. Mesmo que você esteja falando com a melhor das intenções e super preocupado com a saúde dela, é bom prestar atenção no pronome possessivo. O corpo, a saúde, a aparência, tudo DELA. No lugar de apontar dedos pras coleguinhas, talvez seja melhor a gente desconstruir esses padrões que oprimem, machucam e demandam de todas nós um dolorido impossível. E, no “por enquanto” dessa demorada mudança de paradigma, todas as vezes que pensarmos em comentar a aparência de alguém – especialmente uma mulher, mais ainda uma mulher envelhecendo – vamos contar até 10. De preferência, em biscatês (um rala e rola, dois rala e rola, três rala e rôlas, OPS…). Distrai e faz sorrir.

PS. Não que cada uma de nós não tenhamos autonomia ou discernimento, não que sejamos conduzidas, moldadas e forjadas apenas pelo ambiente. Não. Mas ignorar esses fatores é cruel e deturpa o olhar. Não custa lembrar do Graciliano Ramos: “liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”

PS2. Não por acaso a pergunta “o que aconteceu com Renée” leva-nos ao filme “O que aconteceu a Baby Jane” e à discussão sobre fama e aparência.

Cinema: Contos de fada e foda

Aquela boa e velha história da melhor foda da vida e foram felizes para sempre. E daí nasce todo o amor de tudo, de que vai dar certo e pronto: fim, the end, blockbuster, explodiu na bilheteria. O sonho é este: o de uma boa foda, memorável, com que se ama – ou vai amar.

Ellen Barkin e Al Pacino em Sea Of Love

Ellen Barkin e Al Pacino em Sea Of Love

Escrito assim a gente até já sente a náusea. Daquela opressãozinha marota das certezas absolutas, da tal ordem. Porque resumem amor e foda, sentimentos que definitivamente não podem ser catalogados numa estante de mercado.

A foda, dizem, é só sexo. Então, não é. A foda é experimentar o outro ou a outra. Sim, tem fricção, felação, brincadeira. Mas não, né. A foda é vivenciar. No sexo, vivenciamos o corpo da companhia, das companhias, também trilhando o nosso. Quantas vezes a gente não descobre um novo e nosso pau quando um invento novo – que pode ser da mesma língua, do mesmo dedo, da mesma buceta, do mesmo cu – surge da foda?

Sei que tem gente que considera o ato sexual um protocolo de operações repetitivas. E não julgo, não. Mas a foda, a foda é outra parada. Envolve mais que saliva. E pode não ter sexo na foda, pode ter aquela provocação de carta, de recreio, de internete. Efe, ó, dê, á.

E o amor, o amor é tanta cousa. Nessas histórias de contos de fada fica o amor condicionando a foda num rame rame que não leva ninguém a lugar nenhum.

Dito tudo isso, quer casar comigo?

Final alternativo: “Vamos pegar um cineminha hoje?”

Sobre Jared Leto e mulheres trans*

Texto dedicado a Danie Segadilha, Ânderson Galdino e Daniela Andrade

A premiação do Oscar deste ano distribuiu suas estatuetas para Matthew McConaughey, como melhor ator e Jared Leto, para melhor ator coadjuvante. Com isso, deu grande visibilidade ao filme Clube de Compras Dallas (2013) e trouxe à tona uma polêmica delicada: um ator interpretando a personagem da Rayon, uma mulher trans*. Após a premiação de Jared Leto, tive a oportunidade de ler, no mundo cibernético, uma enxurrada de textos, geralmente assinado por mulheres trans* militantxs, que não se sentiam representadxs na atuação de Leto. À primeira vista, fiquei curiosa pra saber mais a respeito da opinião destxs militantxs, porque se tem algo que o cinema costuma fazer é se pensar como uma arte livre de questionamentos e enquadramentos. Como se a arte não fosse essencialmente política e não tivesse que se explicar, que se desembrulhar, como se não fosse comprometida com o momento histórico atual, marcado pela exclusão e pelo silêncio de populações marginalizadas. Ainda mais no caso específico do filme, que traz uma personagem trans*. Falar sobre essa população significa chamar a si inúmeros questionamentos éticos e responsabilidades políticas. Querendo ou não, de modo implícito ou não, existe um conteúdo de transfobia rondando a produção (e repercussão posterior) do filme.

Cena do filme Clube de compras Dallas, na qual o ator Jared Leto interpreta a Rayon, uma mulher trans* .

Cena do filme Clube de compras Dallas, na qual o ator Jared Leto interpreta a Rayon, uma mulher trans*

Sim, eu penso que o diretor de Clube de Compras Dallas, Jean-Marc Vallée perdeu uma bela oportunidade de dar visibilidade à causa trans*, quer dizer, visibilizou a partir da invisibilidade. Porque a polêmica foi posta pra gente, ainda que do avesso, ainda que pelo anti-exemplo. O grito político se deu através do silêncio enunciado pelo filme. Ora, não existem mulheres trans*, também atrizes competentes, que possam dar conta da personagem Rayon? O desconforto da escolha de Leto vem justamente do ator, homem cis, representar a antítese da identificação de uma mulher trans*. E sim, isso é doloroso. É a negação de uma identidade. E por que essa dor não foi levada em consideração? Será que a arte está autorizada a passar por cima dessas questões, será que a arte, ela mesma, às vezes posta como uma categoria que paira sobre nós, não precisa se refletir como uma prática igualmente ideológica, atravessada pelas contendas do seu tempo?

Não quero de forma alguma sugerir que a arte deve ser feita aos moldes de um panfleto. A discussão não é esta. Mas, repito e reitero: ela é uma prática política, situada no mundo, envolta de historicidade, ideologias e ambiguidades. Houve um tempo em que homens tinham que representar mulheres, porque as mesmas não podiam atuar. Houve um tempo que atores brancos escureciam o rosto pra representar negros porque negros não podiam ser atores. E agora, o que vemos? Em nossa época, homens cis representando mulheres trans* porque, por quê mesmo, gente? Será que elas não podem ser atrizes? Ou será que na estreiteza do nosso preconceito, da nossa transfobia, só lhes é permitido o trabalho nas ruas como prostitutas ou em salões de beleza como cabelereiras?

Pra traçar um paralelo, deixo aqui uma breve história da modelo e atriz trans* Telma Lipp. Ela explodiu na mídia na década de 1980 e teve uma carreira prolífica na moda e nos palcos. Foi jurada de programa de calouros do Clube do Bolinha e atuou como atriz no teatro e no cinema. Em 2001, fez testes para atuar no filme Carandiru, tendo sido selecionada para interpretar a personagem da travesti Lady Di. De um modo ainda não explicado, perdeu seu papel para Rodrigo Santoro, que interpretou a travesti. Pouco anos depois, sem conseguir nenhum trabalho no meio artístico, Telma Lipp falece em 2004, em virtude de neurotoxoplasmose uma doença degenerativa que paralisa os órgãos.

Telma Lipp, modelo e atriz trans*, sensação na década de 1980

Telma Lipp, modelo e atriz trans* paulistana, sensação na década de 1980

Se nós não dermos visibilidade a esses grupos hoje, se não deixarmos que falem por si mesmxs, como podemos esperar que crianças de grupos minoritários se espelhem em alguém e que em um breve futuro tenhamos mais representantes desses mesmos grupos pra assumirem esses papéis que hoje, salvo algumas exceções, continuam restritos à atores e atrizes cis? Sério mesmo que vamos esperar a Era de Aquário em que tudo será lindo, perfeito e ideal para incluir essas populações marginalizadas? Penso que, infelizmente, até essa época dourada chegar, muita gente vai continuar sofrendo com a ausência de modelos positivos de identificação, com consequências pesadas no que diz respeito à construção de suas autoestimas. E nós, vamos continuar reforçando discursos e práticas de exclusão e transfobia, perdendo uma grande oportunidade de aprender com x outrx, de respeitar o jogo das diferenças, de ampliarmos a compreensão sobre os múltiplos modos de viver, ser e estar no mundo.

A Escada

Por Farley Valentim*, Biscate Convidado

A que se deve o erotismo de uma cena?
Às vezes, ao improvável!

Noite. Uma luz fraca ilumina a entrada de uma escada que conduz a um pavimento inferior. Ela desce para comprar algo. Vestido escuro, colado ao corpo, denunciando formas esguias, sinuosas. A cena é lenta, ritmada ao som de uma música dominada por três notas. Dilectatio Morosa, os prazeres da demora. Agora ela sobe. Seu corpo serpenteia em meio aos degraus. Sua silhueta esconde-se em meio às sombras. Finalmente emerge na rua, onde uma luz lôbrega lhe ilumina os olhos tristes.

Ele surge. Paletó escuro, cabelo engomado, jornal embaixo do braço. A escuridão o engole enquanto desce pelos mesmos degraus até que só reste sua sombra na parede. A cena continua lenta. A música domina. Nenhum outro som. Ele come.

Outro momento. A mesma escada. Agora ambos. Ela com o mesmo vestido justo, o corpo esguio. Ele de paletó entreaberto. O encontro. Entreolham-se e cumprimentam-se brevemente.

Escadas não são próprias para encontros, são locais de passagem, de trânsito. Conduzem a algum lugar, convidam ao movimento. Vários níveis em desnível. Lugar improvável para o encontro amoroso. Contudo, no espaço pequeno há profusão de sombras. Em cada uma, a ausência do olhar, uma negação das formas, um convite à fantasia. Na impossibilidade de ver, os amantes imaginam-se. Eros torna-se presente.

Ela sobe alguns degraus, ele desce outros tantos. A música se vai. Ambos maneiam levemente a cabeça. Buscam olhar-se. Um breve instante. Mas não ousam o suficiente. Ele desce. Mais acima, ela gira o rosto ainda uma vez. Não o vê. Emerge na rua e na luz, triste. Ambos se vão, mas Eros permanece.

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A escada, Tony Leung e Meggie Cheung

Amor à Flor da Pele, de Wong Kar Way, aos 14 minutos e 30 segundos.

 

farley*Farley Valentim é escritor “vez por outra”, cearense, psicólogo junguiano e apaixonado por literatura e cinema.

 

A Esquiva ou Somos Sempre Culpadas

Essa semana assisti “A Esquiva” um filme do qual nunca tinha ouvido falar (mas isso nem é novidade, sou mesmo desinformada, desligada e vários outros “de” como devassa, mas acho esse não vem ao caso dessa vez). O certo é que vi. “A Esquiva” (L’Esquive, 2003) é um daqueles filmes com cara de baratinho que agiganta sua forma via conteúdo. Dirigido pelo tunisiano Abdellatif Kechiche, tem um enredo aparentemente simples e lança um olhar sobre jovens de um bairro na periferia parisiense.

O filme me conquistou pela interpretação cativante dos atores e pelo movimento pendular entre dureza e delicadeza no tratamento dos dramas dos personagens, especialmente das meninas/mulheres. O filme está cheio de personagens femininos. São elas que conversam, que agem, que gritam. Qual não foi minha surpresa ao começar a me preparar pra escrever este post lendo (as poucas) resenhas que encontrei e vendo-as, todas, centradas no personagem masculino, Krimo, e sem nenhuma palavra sobre o que recai sobre as meninas: os julgamentos, as obrigações, os papéis sociais, as queixas, as responsabilidades pelo seu próprio desejo e pelo desejo do outro.

Elas falam, agem, gritam...e sofrem.

Elas falam, agem, gritam…e sofrem.

Mas vamos por partes, o cenário: a periferia de Paris, uma escola, os ensaios pra apresentação de uma peça.  Os personagens: adolescentes. Os pesos: as paixões em ciranda, o fato de serem minoria étnica, os padrões e reputações que “precisam” ser mantidos. Krimo é um adolescente retraído que, ao terminar um namoro, apaixona-se por uma colega de sala. Esta mesma colega é a atriz principal da peça ( “O Jogo do Amor e do Acaso”, de Marivaux) que é ensaiada na escola. Para estar perto dela, entre outras coisas, Krimo suborna um colega para atuar como par romântico na peça.

Uma das coisas mais interessantes do filme, na minha opinião, é o confronto entre a linguagem da peça ensaiada (rebuscada, elaborada) e a linguagem dos adolescentes (direta, corrente, simples). Outra coisa interessante é a forma como se relacionam “arte” e “vida”, como a trama da peça (pessoas que se fazem passar por outras pra seduzir) se enreda com os amores e dramas juvenis. Há ainda o mote da peça que se coloca como pergunta que atravessa o filme: somos determinados pela nossa classe social, geografia e cultura? Somos presos ao de onde viemos? A linguagem é mais um personagem na trama, ela não leva ao entendimento, ela é expressiva mas não faz convergir, antes isola, separa, cinde. É o que não se pode ou não se deve dizer que aflige os jovens.

Há muito a se falar sobre o filme, especialmente como ele foge dos lugares comuns sem, no entanto, subtrair-se das questões difíceis, sem calar-se sobre o cenário político e social que opera sobre os protagonistas. O filme não vai tratar de integração dos imigrantes, de roubos e marginalização, de diferenças culturais ou religiosas, mas está tudo lá, sutilmente implicado, os pais na prisão, a impaciência da professora, a brutalidade dos policiais. O pulo do gato está em imbricar estes elementos aos mais universais – o romance, as dificuldades de passar da infância à idade adulta, as relações de amizade – e, assim, criar uma dinâmica em que se ultrapassam os estereótipos comumente usados para tratar deste cenário.

Lydia (Sara Forestier) em "A Esquiva"

Lydia (Sara Forestier)

Mas eu não escolhi falar deste filme pra tratar de nada disso. Eu escolhi falar desse filme por causa da Lydia. A primeira vez que vemos Lydia ela está negociando o vestido com que interpretará a personagem principal da peça. É tocante o seu entusiasmo, a sua persistência, a sua entrega. É a Lydia que ocupará o centro da ação dramática embora ela tenha pouco interesse em qualquer outra coisa que não seja a peça. Mas, mesmo assim, independente do seu interesse ou desejo, ela é convocada. Eu explico. Krimo se apaixona por Lydia e, a partir daí, ela é cobrada por todos os lados como se tivesse uma obrigação por ter “despertado” esse sentimento. Ela é xingada de puta e oferecida pela ex-namorada do Krimo (como se o “bom moço” só pudesse ter sido envolvido de forma passiva, como se ele tivesse que ser seduzido pra desejar) quando ainda desconhecia que o amigo agora fosse um apaixonado. Quando Krimo enfim se declara e ela pede um tempo pra decidir se quer namorar ou não é julgada pelas amigas como se uma mulher não pudesse pensar pra decidir sobre si mesma, tem que saber “na lata”, se não agir assim é porque está jogando, “fazendo doce”, etc. A sua dificuldade de saber se quer ou não ou mesmo a sua dificuldade de ceder ou negar ao seu desejo é ignorada por todos e tratada com violência e segregação.

Lydia é como uma qualquer de nós na boca de tantos: biscate se enuncia seu desejo, biscate dissimulada se não é capaz de fazê-lo. Assisti com aquele desconforto de reconhecer tanta gente e tantas situações parecidas: a mulher é culpabilizada pelo que “provoca” no outro e qualquer violência contra ela é justificada com “alguma coisa ela deve ter feito pra merecer isso”, a mulher é responsabilizada por coisas diversas que passam por usar uma minissaia e assim está “pedindo” a cantada, a passada de mão, o estupro até a justificativa por ter sido espancada ou morta por não “avisar” ao parceiro que é uma mulher trans. O filme não foge a essa cobrança em relação à mulher (fico pensando se foi intencional, torço que sim), a todo momento parece que se pergunta: porque ela não se decide logo, ora? Como se fosse um grande favor do moço tão legal se interessar por ela.

À Lydia (e às meninas, moças, mulheres, de maneira geral) não é concedido o benefício da dúvida. Não é aceitável que ela pense, que ela pare, que ela não tenha certezas. Ela é um corpo de mulher a ser dado ou negado sem reflexão, automaticamente, porque o corpo feminino é público até ser requisitado por alguém. Aí passa a ter “dono” – que não é a pessoa a quem o corpo originalmente pertence, atente-se.

“A Esquiva” é um belo filme, daqueles tão ricos e complexos que, certamente, atinge os diversos expectadores de diversas formas. Eu acho que nunca vou esquecer o tapa que uma das personagens recebe apenas porque é mulher e amiga. Vai doer aqui nessa biscate aqui um tempão.

Depois de Lúcia: os culpados somos nós

Nesta semana fui assistir ao tão esperado Depois de Lúcia e posso dizer que todas as críticas que li sobre a crueldade da violência explicitada no filme não é capaz de traduzir o que eu vi ali na minha frente. O que eu mais li sobre o filme e, de fato, a violência que está mais explícita é a do bullying. E isso é mais do que certo. Mas acho que há outro ponto primordial a ser discutido e levantado: a violência de gênero que sofre a personagem.

Alejandra é uma adolescente que se muda com o pai para a Cidade do México depois que sua mãe, Lúcia, morre. Na nova escola ela faz novos amigos e aceita o convite de passar o fim de semana na casa de um deles com toda a turma. É aí que sua vida se transforma num inferno.

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Cena do filme: Depois de Lúcia

Sempre que penso em bullying – e aqui a ignorância é toda minha –, penso na vítima como a criança gordinha ou o nerd. O adolescente negro ou homossexual. A aluna travesti ou trans*.  Nunca pensei na vítima como uma jovem bonita, de classe média, branca, heterossexual, cis*, magra. E aí que Alejandra é tudo isso e nunca passou pela minha cabeça que seria ela a vítima do bullying.

Mas Alejandra é vítima e eu me esqueci por um segundo que ela tem, sim, potencial pra ser vítima. Ela é mulher e uma mulher que faz sexo. Eis o ponto crucial no filme.

Uma adolescente que faz sexo se torna vítima de bullying. Faz dela um ser anormal, passível de sofrer as maiores atrocidades. A desumanização de Alejandra por parte de seus amigos/algozes é rápida. É pelas mãos daqueles garotos e garotas que ela acreditava ter sido acolhida em uma cidade estranha, que Alejandra vai apanhar, ser estuprada, ser despojada de sua humanidade e tratada como uma coisa qualquer. Por todos.

O que me pareceu mais intrigante no filme é a narrativa que nos mostra que, em atos extremos de violência, todos nós temos nossa parcela de culpa: o grupo de amigos, entre os que tomavam a frente nas “brincadeiras” e os que iam na onda; a escola omissa; o pai envolvido com seus próprios problemas; e você. Você, que foi despretensiosamente ao cinema, é cúmplice da violência contra Alejandra. E de tantas outras meninas e mulheres.

Pam Grier, Blaxploitation e um Cinema de Afirmação

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

Um conceito essencial na luta pela igualdade travada por grupos minoritários é o de que a vitória de nenhum deles será completa enquanto outros continuarem a sofrer opressão, venha ela de onde vier. As lutas não são excludentes. É uma espécie de “mexeu com um, mexeu com todos”. Audre Lorde, poeta, negra e lésbica, disse que não existe hierarquia de opressão e que “sexismo e heterossexismo surgem da mesma fonte do racismo”. Um sub-gênero cinematográfico perfeito para ilustrar a interseccionalidade das lutas é o blaxploitation. Surgido nos EUA na década de 70, consistia em filmes onde os negros eram os protagonistas, não apenas narrativamente, mas invertiam as atitudes historicamente reservadas a esses personagens no cinema. Assim, o negro não mais se contentava em ser salvo pelo branco, mas assumia as rédeas de seu destino e ainda por cima tirava um sarro da autoridade botando o pé na mesa e rindo na cara do opressor. No more nice guy. And girl.

Um interessante desdobramento desse movimento foi a aparição de filmes policiais estrelados por mulheres negras. E aquela que talvez possa ser considerada o símbolo dessa onda é Pam Grier. Intérprete de Coffy, Foxy Brown e Sheba Shayne (não são os nomes de personagens mais legais de todos os tempos?), Grier ajudou a definir esse momento na luta pela igualdade racial e de gênero. Anos mais tarde, quando o blaxploitation era uma página virada na história do cinema, Pam foi trazida de volta ao centro dos holofotes por Quentin Tarantino em Jackie Brown, uma homenagem à estética daquele período.
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Um de seus melhores filmes na década de 70 é Foxy Brown, escrito e dirigido por Jack Hill. No papel-título, Pam interpreta uma mulher que, tendo seu namorado, um policial no programa de proteção à testemunha, assassinado por gângsteres, resolve partir para a vingança passando por cima até mesmo de seu irmão. Sem nenhuma vergonha de usar o corpo escultural para atingir seus objetivos, ela assume um trabalho de prostituta para se infiltrar na gangue. É incrível a naturalidade com que o roteiro lida com temas como prostituição e homossexualismo, especialmente se levarmos em conta que só há poucos anos esses assuntos têm tido um tratamento menos moralista no cinema mainstream. Foxy transita por bares de lésbicas e fica claro que aquele é um mundo que ela já conhecia. Em nenhum momento o trabalho das prostitutas é julgado, apenas a exploração dele pelos vilões. E aqui cabe outra observação: a líder da gangue e principal antagonista de Foxy é também uma mulher. Ou seja, os dois principais papéis de um filme policial são femininos. Você lembra quantos filmes assim foram lançados nos últimos 30 anos?

jackie-brownMas aquele que talvez seja seu melhor papel vem de um filho desgarrado do movimento. Jackie Brown, com todo o refinamento narrativo que Tarantino impõe a seus filmes, se coloca acima das obras que homenageia, pelo menos sob o ponto de vista puramente cinematográfico. Contando a história da aeromoça que tem que dar um baile em policiais e traficantes que querem enquadrá-la, cada um a seu modo, o roteiro coloca sua protagonista no mesmo patamar que os personagens masculinos, embora o caráter sexual dos originais setentistas não esteja tão presente. É verdade que Tarantino tem sua parcela de erros, incluindo aí o retrato um tanto caricato dos outros poucos personagens negros, mas sua protagonista é tão bem definida e a narrativa flui tão facilmente que esse defeito acaba se apequenando.

97f719f9fa1614196efc550d37d65606Grier também teve sua cota de bombas, como o horroroso, e por isso mesmo divertido, Black Mama, White Mama, de Eddie Romero. Mas ainda que seja um exercício amador de cinema, essa produção trazia a visão emancipadora do blaxploitation, com nossa heroína no papel de uma prostituta acorrentada a uma guerrilheira branca lutando para fugir das autoridades.

Depois de seu retorno em grande estilo no final dos anos 90, Pam Grier voltou a ser coadjuvante em produções menores, como na fase que se seguiu a sua explosão nos anos 70. Mas aquela época será sempre lembrada como um marco no cinema de afirmação das minorias. E Pam viverá para sempre nos sonhos eróticos e libertários de biscates e afins mundo afora.

Z144vmkx*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Cinema em Linha Reta

#Alma Biscate
Por Fernando Amaral*, Biscate Convidado

Letsplay.tumblr (3)Todo mundo tem uma trepada memorável para contar. E aí sobe a rampa do planalto, como que assim o mundo fosse a mais perfeita tradução da pessoa incrível que a gente é. Entre um gole de chope e outro, entre uma piada e outra, piadas as vezes de gosto bastante duvidoso, conta-se o jeito que ela estava, de como a cousa toda funcionou, da molhação, da durescência, do ritmo, das promessas de vida eterna que um simples gozo pode dar. É engraçado que nessas histórias de transa perfeita quase sempre escapa ao relato aquilo que certamente confere a uma determinada transa um status de “memorável”: pouco se fala do afeto e do riso do depois, do carinho com as unhas nas costas, da brincadeira que ela faz com o pau em repouso, como aqueles aparelhos de jogar videogame, com um nome inglês que me deu preguiça de procurar a grafia correta – estamos falando de sexo, caramba, deixemos as grafias de lado: É tudo língua.

Voltando ao núcleo duro do parágrafo anterior, as trepadas para contar por aí são muito mais as aventuras das estripulias de educação física do que os sentimentos de química. Como um retrato daquelas cenas perfeitas de cinema e tudo fica tão maravilhosamente bem feito que aquela cueca rasgada, aquela calcinha puída, aquele chulé evidente depois de um dia de intenso trabalho, meia social ou suor no pé, somem dos resumos, desaparecem das súmulas. É evidente que escrevo aqui com um olhar do cromossomo Y e que aí já começamos a entender que os estereótipos sempre nos pegam no flagra: vai ter aquele cromossomo X que dirá que não é bem assim, que relata mais as nuances dos romances, que serve mais como rima do que como escusa… Mas aí recordo da calcinha puída, esta desaparecida política.

O cacete disso tudo é que este roteiro de cinema não permite muito inovações para as horas em que o trem todo descarrilha, que a máquina engripa e que o guerreiro… medra. Numa conversa de bar é libertador falar da boa e velha, mítica mas mais natural do que erva, brochada. Prepara a alma, prepara o menino, prepara discurso. Mas mais do que isso, prepara o riso, que é a única e verdadeira redenção. Nem o azulzinho salva. Pode ter sido a bebida em excesso, aquela mesma bebida que transformou aquele bate papo descompromissado num pedido de casamento. Pode ser o trabalho, as contas que não fecham, o chefe que persegue, a chefe que assedia. Podem ser as culpas cristãs, o adultério, a paúra de deus. Pode ser a trava porque a moça tem um brinco entre os lábios. Pode ser o pânico do goleiro na hora da penalidade. Pode ser orgânico. Pode ser arrependimento. Xi… pode ser tanta tralha, tanta gaveta cheia, tanto ar, canção, enxofre, paixão desmedida por outra ou outro, apetite, ejaculação absurdamente precoce. Pode ser, pode ser… mas será: a inevitabilidade da brochada é a garantia de que você é humano.

E, sim, na hora das filmagens, e não da exibição entre um gole e outro de vantagens, é encarar o roteiro com elegância. Deixar fluir a vergonha, deixar ela – ou ele, sei lá – brincar com aquele ingrato, mexer, dar beijinhos na ponta. E não é para vê-lo acordar em riste, vingador, perfeito. É para ele se sentir melhor. Só isso. Evidente, o roteiro nestes casos há que ter improviso. Mas se fosse para dar um conselho, tentaria este: nesses dias de infortúnio, tente um pouquinho salvar as preliminares, que a surpresa pode vir entre os afetos, os carinhos, as unhas nas costas. Mas não esqueça da proeza que é o sobreviver depois de uma digníssima brochada. O bar também precisa disso, dos sobreviventes.

Neste blogue de biscatagem libre, neste espaço de libertinagens, a machaiada pode encontrar a mais linda parte do tal feminismo, que é a sua capacidade libertadora, emancipadora. Então, que venham brochadas, cuecas furadas, calcinhas puídas, chulé. E que rir da gente mesmo é melhorar nosso cinema, e não só um ou outro roteiro. E se filme de aventura é, na maioria das vezes, mero entretenimento, comédia, quando boa, é arte pura.

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fernando_amaral*Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

 

Hiato

Por Barbara Manoela Bijos Maués*, Biscate Convidada

“desse jeito, tão perfeito, só você me faz feliz.”
(Movimento – Poléxia)

hiato

Desde o acidente, minha vida se tornou um amontoado de acontecimentos diários: contas pra pagar, gatos, meditação, amigos, trabalho. E o desafio que é aprender a lidar com um dia a dia tão dolorosamente vazio da falta que faz não escutar a cantoria dele durante o banho, pela manhã, ou as conversas imaginárias que ele tinha com o gato, durante os jogos do São Paulo.

Entre os aprendizados, está a questão da mobilidade: ir ao cinema tornou-se uma questão complexa. Hoje, enquanto combinávamos nosso próximo encontro (depois de 1 mês sem se ver), percebi que ir ao cinema já não é mais um programa simples: a distância entre a tela e as primeiras poltronas é confortável o suficiente para que ele consiga assistir ao filme sem sentir dores no pescoço? Será que é mais confortável ir ao cinema em uma sessão mais cedo e portanto, mais vazia, e assim conseguirmos posicionar a cadeira de rodas em um degrau mais alto?

Confesso que, diante de tantas  dificuldades, senti pena de mim mesma, pensando na dificuldade que vai ser conseguir assistir a um filme no cinema com meu marido. Mas a tristeza durou pouco, afinal de contas, biscate que ama não desiste nunca!

Rapidamente, lembrei da nossa coleção de DVDs, carinhosamente apelidada por ele de “Fetuteca”, em uma analogia ao apelido pelo qual ele é conhecido – Fetu. E imaginei nossa casa cheia de amigos, pipoca e risadas, durante sessões de cinema particulares, onde escolheremos que filme assistir, ou criaremos nossos próprios enredos diante da história que se descortina na TV de plasma. Ou então, brincaremos de cinema mudo e criaremos trilhas sonoras alternativas pra histórias de amor, suspense ou terror.

A criatividade no viver a vida certamente terá que ser muito maior, assim como a vontade de experimentar situações para saber o que funciona e o que não vai dar certo. Devagar, estamos tateando esse universo e fazendo nossas próprias descobertas.

A falta de mobilidade do meu marido, definitivamente, não é sinônimo de isolamento e tristeza, pelo contrário.

E hoje, aprendi mais uma lição: quando existe amor, a gente vai aonde ele estiver, do jeito que for, porque não existe imobilidade, deficiência ou obstáculos pra ser feliz.

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Leia também Põe Devagar

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*Barbara Manoela Bijos Maués é uma carioca morando em São Paulo, trabalha com gestão cultural, amigona, intensa e criativa, feminista e gateira. Para defini-la em duas palavras: amor pululante! Você pode acompanhá-la de perto no Facebook ou pelo twitter @barbaramanuela.

 

Sentidos

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Sentidos, Borboletas nos Olhos

Chico Buarque cantou e eu não sei responder a ele nem escrever este post. Porque o erótico, é, quase sempre, inesperado. O susto que prende o olho e tira o fôlego. Surpresa. Mas passa o tempo, é preciso um texto e só me apetece ver Bardot e Michel Pic­coli:

Bom, vou tateando. Erótico, é, talvez, em mim, o que se inscreve na pele, seja em ausência ou presença. O erotismo, em mim, é passivo, a voz rouca penetrando em meu ouvido, o tecido delicado escorregando dos ombros, a língua audaciosa provando os lábios (quaisquer lábios), o odor do sêmen na colcha da cama, um vislumbre de torso. O erotismo, em mim, é ativo, despir-me sem espetáculo, nenhuma desculpa para o desejo, só o incisivo ato de ficar nua para os olhos outros. Deixar o nariz fazer trilha no corpo alheio até reconhecer nuances. Lamber, chupar, saborear. Sussurrar sugestões, indicar posições, sugerir lugares e formas. Tatear e ler o corpo amante em braile. O erotismo, em mim, é lacuna. É entrever. É buraco de fechadura. O entreaberto. Seja da porta, seja das coxas.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O Erotismo, George Bataille/ Uma sugestão de escuta: Âmbar / Uma sugestão de filme: Livro de Cabeceira / Uma sugestão de textura: areia da praia / Uma sugestão de comida: cogumelos *

Porque as águas do desejo são turmas
e o que percorro tem cheiro de sexo.
Aqui, eu o tenho nos olhos,
mas o sinto entre as pernas
E lateja o corpo
A pele pede mãos
pede língua
pede sonhos.
Porque em vermelho eu sentiria o teu gosto
E saberia a sabores, em rubro, em rubro.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: La Nuit Sexuelle (o post é em português)/Uma sugestão de escuta: Estranho Rapaz / Uma sugestão de filme: Ata-me / Uma sugestão de textura: água / Uma sugestão de comida: ostra *

Eu só queria me despir pra você. Tornar-me a paisagem árida, difícil e intensamente bonita que você se acostumou a desejar. Eu só queria me despir pra você. Deixar que meu corpo nu apague todas as palavras de amor que nós não vamos dizer. Eu só queria me despir pra você. Ser entendida em uma língua que nunca falamos. Em braile, talvez.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: Quando todas as coisas são puras /Uma sugestão de escuta: Cheiro de Amor / Uma sugestão de filme: A Bela da Tarde / Uma sugestão de textura: algodão / Uma sugestão de comida: uva

E se for mesmo simples? Um dia, um lugar, uma vez? Uma esquina? E se for mesmo simples, um querer e a rima? E se for mesmo simples? Sem dor, sem medo, sem esperas? E se for mesmo simples, eu, você e o tempo espiando a gente aprender o prazer? E se for mesmo simples, eu vou, você vem, as estradas se fazem quarto para um tempo sem amanhãs. E se for mesmo simples, café forte, música na vitrola e olhos se fazendo poços? E se for mesmo simples, a pele arisca, os desejos inquietos, as saudades antecipadas? E se for mesmo simples, gentileza, malícia e aquela vontade de não dormir nunca mais? E se for mesmo simples: todos os verbos no presente, todas as perguntas no pretérito, todas as vontades no gerúndio? E se for mesmo simples, beijos curiosos, mãos impacientes e horas fora do calendário? E se for mesmo simples, sem memória, sem história, sem álbum de fotografias? E se for mesmo simples, um pouco sem razão, um tanto sem esperança, o reconhecimento tranquilo do outro. E se for mesmo simples: coragem?

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O erotismo na arte acadêmica e moderna da América Latina /Uma sugestão de escuta: Me deixas louca / Uma sugestão de filme: Vítimas de Uma Paixão / Uma sugestão de textura: azulejo / Uma sugestão de comida: camarão

Às vezes eu penso nele. Ou neles. No meu, quase sempre. Penso no coração. É que quase toda a gente o traz lá, em seu frágil invólucro de carne e sonhos. Umas cartilagens, para aumentar a ilusão de conforto e segurança. Há quem o traga nos olhos, nunca sei se como filtro ou muralha. Os que andam com o coração na boca, claro, sempre a ponto de saltar e nos cair no colo. E tem aqueles outros, os que o trazem nas mãos, prontos para entrega, quero fazer um depósito, por favor. O que traz? Coração. Coração na mão – a gente se espanta com essa disponibilidade kamikase. “A gente”, penso, paro: eu. Eu me espanto com este ataque kamikase a si mesmo. Porque meu coração está no lugar certo: no meio das pernas.

sentidos

Panayiotis Lamprou, “Portrait of My british wife”, 2010

* Como se viu (ou não) eu roubei. Os filmes roubaram o lugar dos odores 😉

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Silent Night, Valmont

Sobre Beijos e LínguasAugusto Mozine

Façamos, Renata Lima

Trinta Anos Quase, Renata Lins

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

Verdes, Cláudia

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