Sentidos

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Sentidos, Borboletas nos Olhos

Chico Buarque cantou e eu não sei responder a ele nem escrever este post. Porque o erótico, é, quase sempre, inesperado. O susto que prende o olho e tira o fôlego. Surpresa. Mas passa o tempo, é preciso um texto e só me apetece ver Bardot e Michel Pic­coli:

Bom, vou tateando. Erótico, é, talvez, em mim, o que se inscreve na pele, seja em ausência ou presença. O erotismo, em mim, é passivo, a voz rouca penetrando em meu ouvido, o tecido delicado escorregando dos ombros, a língua audaciosa provando os lábios (quaisquer lábios), o odor do sêmen na colcha da cama, um vislumbre de torso. O erotismo, em mim, é ativo, despir-me sem espetáculo, nenhuma desculpa para o desejo, só o incisivo ato de ficar nua para os olhos outros. Deixar o nariz fazer trilha no corpo alheio até reconhecer nuances. Lamber, chupar, saborear. Sussurrar sugestões, indicar posições, sugerir lugares e formas. Tatear e ler o corpo amante em braile. O erotismo, em mim, é lacuna. É entrever. É buraco de fechadura. O entreaberto. Seja da porta, seja das coxas.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O Erotismo, George Bataille/ Uma sugestão de escuta: Âmbar / Uma sugestão de filme: Livro de Cabeceira / Uma sugestão de textura: areia da praia / Uma sugestão de comida: cogumelos *

Porque as águas do desejo são turmas
e o que percorro tem cheiro de sexo.
Aqui, eu o tenho nos olhos,
mas o sinto entre as pernas
E lateja o corpo
A pele pede mãos
pede língua
pede sonhos.
Porque em vermelho eu sentiria o teu gosto
E saberia a sabores, em rubro, em rubro.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: La Nuit Sexuelle (o post é em português)/Uma sugestão de escuta: Estranho Rapaz / Uma sugestão de filme: Ata-me / Uma sugestão de textura: água / Uma sugestão de comida: ostra *

Eu só queria me despir pra você. Tornar-me a paisagem árida, difícil e intensamente bonita que você se acostumou a desejar. Eu só queria me despir pra você. Deixar que meu corpo nu apague todas as palavras de amor que nós não vamos dizer. Eu só queria me despir pra você. Ser entendida em uma língua que nunca falamos. Em braile, talvez.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: Quando todas as coisas são puras /Uma sugestão de escuta: Cheiro de Amor / Uma sugestão de filme: A Bela da Tarde / Uma sugestão de textura: algodão / Uma sugestão de comida: uva

E se for mesmo simples? Um dia, um lugar, uma vez? Uma esquina? E se for mesmo simples, um querer e a rima? E se for mesmo simples? Sem dor, sem medo, sem esperas? E se for mesmo simples, eu, você e o tempo espiando a gente aprender o prazer? E se for mesmo simples, eu vou, você vem, as estradas se fazem quarto para um tempo sem amanhãs. E se for mesmo simples, café forte, música na vitrola e olhos se fazendo poços? E se for mesmo simples, a pele arisca, os desejos inquietos, as saudades antecipadas? E se for mesmo simples, gentileza, malícia e aquela vontade de não dormir nunca mais? E se for mesmo simples: todos os verbos no presente, todas as perguntas no pretérito, todas as vontades no gerúndio? E se for mesmo simples, beijos curiosos, mãos impacientes e horas fora do calendário? E se for mesmo simples, sem memória, sem história, sem álbum de fotografias? E se for mesmo simples, um pouco sem razão, um tanto sem esperança, o reconhecimento tranquilo do outro. E se for mesmo simples: coragem?

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O erotismo na arte acadêmica e moderna da América Latina /Uma sugestão de escuta: Me deixas louca / Uma sugestão de filme: Vítimas de Uma Paixão / Uma sugestão de textura: azulejo / Uma sugestão de comida: camarão

Às vezes eu penso nele. Ou neles. No meu, quase sempre. Penso no coração. É que quase toda a gente o traz lá, em seu frágil invólucro de carne e sonhos. Umas cartilagens, para aumentar a ilusão de conforto e segurança. Há quem o traga nos olhos, nunca sei se como filtro ou muralha. Os que andam com o coração na boca, claro, sempre a ponto de saltar e nos cair no colo. E tem aqueles outros, os que o trazem nas mãos, prontos para entrega, quero fazer um depósito, por favor. O que traz? Coração. Coração na mão – a gente se espanta com essa disponibilidade kamikase. “A gente”, penso, paro: eu. Eu me espanto com este ataque kamikase a si mesmo. Porque meu coração está no lugar certo: no meio das pernas.

sentidos

Panayiotis Lamprou, “Portrait of My british wife”, 2010

* Como se viu (ou não) eu roubei. Os filmes roubaram o lugar dos odores 😉

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Silent Night, Valmont

Sobre Beijos e LínguasAugusto Mozine

Façamos, Renata Lima

Trinta Anos Quase, Renata Lins

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

Verdes, Cláudia

Combo Biscate ou Essa Tal Felicidade

Nasceu na Inglaterra, no mesmo ano que Peter Pan. Nesta época, discutia-se as cidades e se pensava em alternativas para reunir campo e urbano, como as idéias de Ebenezer Howard propostas em seu livro Garden Cities of Tomorrow. Também foi o ano de uma tragédia no futebol, no jogo entre Escócia e Inglaterra, arquibancadas cheias, tão cheias que cederam, morreram 25 pessoas e 500 ficaram feridas. Foi neste ano, justo 1902, que ocorreu a primeira corrida de automóveis em Portugal e Euclides da Cunha publicava seu Os Sertões no Brasil. Mas para a Gladys, que nascia em Edmonton, nada disso importava. 

essa tal felicidade

Gladys Aylward, muito jovem, por volta dos seus 14 anos, já trabalhava como empregada doméstica. Filha de operários, aprendeu cedo as dificuldades. Gostava de ler. Lia sobre a China, porque não? E, com 26 anos, quando foi tocada por uma mensagem missionária, foi o que quis: juntar a missão à vasta China. Decidiu ser missionária na China, como não. E, se fosse fácil, não haveria este post, logo, foi difícil. Procurou a Missão Para o Interior da China, fez o treinamento de três meses e…foi rejeitada. Porque era pouco instruída. Mas não era pouco decidida e formou-se só. Lia, lia muito. A Bíblia ou sobre a China, livros da biblioteca ou emprestados dos patrões. Ela lia. E pregava nas praças de Londres, como treino para o que viria. Aceitou trabalhar para um casal que acabava de voltar da China e aprendeu mais. Enquanto a China não chegava e o casal não precisava de seus esforços, foi trabalhar junto às prostitutas do porto. Era formada em dificuldades, a mulher Gladys. Sem agência que a quisesse mandar pra China, começou a fazer economias e comprou, enfim, uma passagem só de ida. Ia encontrar-se com a viúva Lawson e com ela trabalhar. 

Gladys partiu, em seus já 30 anos, para a China, em uma viagem de trens e lombos de mula que durou 30 dias. Levava um fogareiro, uma panela, uma mala com roupas, pouco dinheiro e os olhos cheios de futuro. Yangcheng é o lugar que vai transformar Gladys e ser por ela tocado. Corajosa e sem dinheiro, Gadys sugere à viúva a criação de uma pousada. E assim é feito. Gladys cuida das mulas, um cozinheiro é contratado e a sra. Lawson entretem os viajantes com histórias da Bíblia. Gladys – a que não era suficientemente instruída – logo tratou de aprender a língua. Mas não havia de ser fácil, eu disse, a viúva morreu e Gladys ficou sem dinheiro. 

 Sem dinheiro, num país distante, de hábitos diferentes, conhecendo precariamente a língua, o que faz uma mulher? Ora, vai trabalhar de “inspetora de pés”, claro. A nova lei da China não incluía mais o enfaixamento dos pés das mulheres. Ela é a inspetora adequada, pode entrar no quarto das mulheres sem escândalo e tem os pés normais para servir de exemplo. E lá vai Gladys bater-se com os costumes enraizados e convencer pais e mães que o melhor é deixar os filhos crescerem livres. Ou, pelo menos, deixar os pés livres para crescerem. Logo era querida e conhecida por muitos. Ficou fluente na língua. Os desafios parecem surgir espontaneamente pra ela os desdobrar. Uma rebelião entre os presos? Ela logo acalma. Mas não fica na pacificação apenas, começa um trabalho de assistência, consegue a doação de teares e moinhos para cereais, começa uma criação de coelhos, dá aulas de higiene pessoal. É boa em transformação, essa Gladys. 

Gladys vivia, vestia-se, comia, mantinha-se como as pessoas do lugar. Em 1936 torna-se, oficialmente, cidadã chinesa. Por estes tempos, começa a adotar órfãos. É assim, vai andando entre as vilas, vê uma mulher explorando ou vendendo ou maltratando uma criança (provavelmente sequestrada) e já arranja um jeito de tomá-la pra si. Ela tem amor pra dar, a Gladys. Além de seus filhos, moravam na pousada muitas outras crianças órfãs a quem ela acolhia com comida, carinho e pregação. 

Mas eu disse que não era fácil nada disso, então veio a Guerra. Guerras são dolorosas, sabe-se. São especialmente cruéis – e poucos recordam-se disso ao provocá-las, mantê-las ou justificá-las – com as crianças. E são muitas as que se refugiam junto a Gladys: umas 200. Mas a pousada também já não é um lugar seguro, toda a vila onde Gladys mora está em risco. Corria 1938. Há enviados do governo para buscar as crianças. Levam cerca de 100. Gladys percebe que não voltarão para buscar as demais e vai, ela mesma, acompanhá-las. Valente, eu acho. Ela, um ajudante e cem crianças atravessando montanha e floresta. Foram aproximadamente 21 dias de viagem (outros dizem um mês, outros 15 dias), 21 dias de fome, de angústia, de medo. Andaram, atravessaram rio, perderam-se entre árvores. Ela chorou, não precisavam me dizer, eu sei, eu sinto. Ficou sem dormir. E não perdeu nenhuma criança, levou-as toda para segurança.

É claro que ficou doente. Tifo, pneumonia, dores externas e internas. Ela sofria. Perdeu parcialmente a memória (e quem gostaria de lembrar-se de tantos nãos da vida?). Mas recuperou-se e…claro, começou tudo de novo. Voltou às suas pequenas transformações, a grande Gladys. Em 1947 teve que ir à Inglaterra fazer uma cirurgia e ficou lá, recuperando-se, sempre trabalhando, recolhendo fundos para as missões. Em 1953 tentou voltar à China, mas teve o visto negado. Desistiu? Não, foi para Taiwan. Fundou um orfanato. Trabalhou com as crianças até morrer em 1970.

Tudo isso lhe parece coisa de filme? Pareceu também a outros que fizeram um dos filmes que me arrebata: A Morada da Sexta Felicidade**, com Ingrid Bergman. Sobre o enredo, quando a revista Newsweek publicou a resenha, um leitor, desconhecendo a origem da narrativa, enviou uma carta dizendo: para um filme ser bom, sua história tem que ser crível. Sabe o que mais? A Gladys não gostou muito do filme não (diferentemente de mim). Não gostou de ser representada por Ingrid Bergman (demasiado alta, demasiado bonita) e nem de ter cenas romanceadas com um belo Capitão. 

Inacreditável e admirável Gladys.

E a biscatagem, podem perguntar-me…ora, fica por conta da Ingrid Bergman, claro.

Ou vocês não sabiam que um senador norte-americano se deu ao trabalho de subir à tribuna para “acusá-la” de ser uma ‘cultivadora do amor livre’ e “denunciar” que “Ingrid Bergman cometeu uma afronta à instituição do casamento”. A origem da polêmica? Bergman – casada – apaixonou-se por Roberto Rossellinni – casado – e os dois ousaram viver a paixão. Bergman engravida de Rossellinni e ambos deixam as respectivas famílias para viverem juntos. Ela, claro (o claro é ironia, viu, gente) foi praticamente banida de Hollywood, chamada de vagabunda pelos (anteriormente) fãs e acusada de mau exemplo para as mulheres norte-americanas. Além disso, foi proibida de ver a filha do primeiro casamento por anos. Sim, as línguas sabem ser ferinas quando vigiam a cama alheia.

Disse ela, biscate da cabeça aos pés: “Eu não tenho nenhum pesar. Eu não teria vivido minha vida no modo que eu fiz se eu fosse preocupar sobre o que pessoas iriam dizer.

PS(1). Chama-se a Sexta Felicidade porque, segundo a tradição chinesa, há cinco felicidades: riqueza, longevidade, saúde, tranquilidade e boa morte.

PS(2). Pode-se fazer todo tipo de crítica a esta evangelização não solicitada e etnocêntrica. Mas nenhuma eu consigo fazer a pessoas como Gladys e Ingrid: amorosas, valentes e generosas.

 

 

A Girl é Dele

Por Teresa Font*

Hoje, para algo completamente diferente, venho aqui contar-vos de coração aberto a minha relação <3 secreta-e-quase-quase- amorosa  <3 com um homem mundialmente famoso.

Injusta e birrenta como uma criança mimada, afastei-o  de mim durante anos e afirmei alto e a bom som não ter nada que me interessasse.

Apesar de interessar muito às mulheres. E de interessar muitas mulheres.

Agora,

 1.   Agora chegou a altura de lhe pagar um pouco do muito que me deu. De dizer para todos ouvirem, nesta  hora de fazer  honestamente  as nossas contas ,  que gosto muito dele.

  2. Agora, passados  tantos anos sobre o nosso primeiro e desastroso encontro,  vejo que foram  também  passadas e fintadas  com sucesso as armadilhas do caminho a dois, as negras armadilhas da usura, da rotina, da impaciência, do desamor, que estão bem disfarçadas ao longo do trajecto  à espera de nos apanhar.  E cuja dentada de ferro não é menos dolorosa lá por esse caminho ter sido percorrido, quase toda a vida,  em estradas diferentes.

 3.  Agora,  que o passado está  à  distância ideal para ser visto com olhar certeiro, verifico  terem  sido sempre exaltantes, divertidos, mesmo gloriosos todos os momentos em ‡que as nossas  estradas se encontraram e seguiram juntas, para se separarem  algum tempo depois num “Até à próxima, tem cuidado contigo” saudoso q.b., amoroso q.b. , aliviado outro tanto,  sentimentos que se fundiam numa névoa vagamente melancólica, já dispersa em farrapos quando o ruido do carro estupendaço  a afastar-se deixava de se ouvir.

E sempre que, depois de nos entendermos, – eu! por fim adulta e suportável! – a saudade levezinha me tocava, era sinal de alegre  antecipação, nunca de sofrimento. Era  sinal de “ele vem aí, o patife e aconteça o que acontecer, vai ser animado”.

Há dias, senti a saudade levezinha. O  arrepio de excitação. Olhei à volta em busca de sinais para decifrar e dei de caras com um desconhecido. Teria que ser, mais tarde ou mais cedo. Ambos sabíamos. Nada de lamentos.

Mas! Atenção!

Se o deixei entrar sorrateiramente na minha vida, não é sorrateiramente que quero que saia.

 Ah não!

Vou fazer-lhe uma festa enorme, como ele gosta! 

Com mulheres bonitas e bem vestidas para seduzir, 

                         um vilão para lutar e para vencer,

 

…  e um barman filósofo para conversar nos intervalos.

 

No fim da festa, já madrugada tardia, procuramo-nos  com os olhos e, sem necessidade de palavras, saímos para a larga varanda do Palace.  Ele protege as minhas costas nuas com  o casaco do dinner jacket  e por uns  minutos ficamos de mãos dadas, a ver o Sol nascer.

Há sempre uma larga varanda do Palace  e uma  baía nesta altura, esses pormenores não me preocupam..

 

Depois, provavelmente, desaparece sem que eu dê por isso e sem deixar mais dele que o  tecido negro e sedoso  sobre os meus ombros, do que o vago cheiro  de ‘Grey Flannel’ misturado com o Romeu y Julieta. . Dizer adeus sempre lhe foi difícil mesmo a fingir, quanto mais assim. Mas isso é depois.

 Antes, vou fazer-lhe um discurso. Que curioso acabar por ser aqui, nesta tribuna. E o que ele vai gostar, quando souber que começamos o fim no Biscate Social Clube.

VENHO FALAR-VOS DE BOND. JAMES BOND.

(Sim, esse mesmo. The notorious MI 6 Double-0-Seven agent, with License to Kill)

Teria quinze anos quando, numa noite de férias, assisti ao meu primeiro Bond.  A projecção era má, o som transformava  o arranque dos carros em rugidos insuportáveis e, para dizer a verdade, talvez esteja a inventar estas recordações, porque a única coisa de que me lembro bem  era da mão que segurava a minha. E do dono da mão que segurava a minha.

Ficou-me uma vaga ideia de hotéis luxuosos,  casinos, mónacos, vamps, carros rápidos guiados à beira de ravinas e patetices.

Esta curta experiência afastou-o de mim durante anos. Na época eu era uma snob, armada em intelectual, li os  “ Buddenbrook nas férias porque era  levezinho, achava “The razor’s edge” do Maugham má literatura ligth – ainda acho… – e cinema era Visconti, De Sica, Fellini, Rossellini, Renoir, Bergman, Wilder, Lean , Huston , Kazan , embora aqueles rapazes Coppola, Scorsese,  Cimino, Allen e etcs  prometessem.

“bando do 007”, constituído por aspirantes a playboys, pelos  analfabetos que então acolhiam os dois neurónios que conversam actualmente na cabeça das louras e por dez sumidades tão mas tão sofisticadas  que até podiam ver o Joselito, quanto mais o Bond, não me interessava mais do que ele.

Não é que me  limitasse  a não ver filmes ‘do 007’. Eu  desprezava quem via filmes ‘do 007’.

Parte da minha vida de adulta coincidiu com uma crise dele  (sempre negou que tivesse sido de meia-idade, o querido…).

 A personalidade andou-lhe por mãos erradas, entregue a troca, baldrocas e desacertos.

 E o  tempo corria.

Quando tornei a passar pela bilheteira de um cinema com o  Bond, James Bond na mira, foi  em resposta a um insistente  pedido. Levava comigo muita resignação e um entusiasmado filho de dez anos.

Não digo que me tenha apaixonado de caixão à cova. Não. Mas fiquei naquele estado em que passamos a vida a olhar para o telemóvel.

O actor que deu vida ao meu Bond é Pierce Brosnan. Tornado entretanto um ícone, o agente Double-0-Seven, with   licence to kill, começou a ser discutido às claras e os seus filmes vistos, revistos e analisados. Os especialistas e os puristas juram por Sean Connery. Percebo e reconheço o mérito. Mas uma coisa é razão e outra é coração.

 Brosnan manteve a personagem no limite do ridículo, sem nunca a deixar passar a linha. Dava três piruetas, escorregava por uma  encosta gelada  na Russia , with love, e aterrava  na borda de um porta –aviões. A primeira coisa que víamos a seguir era o par de Church’s’ impecavelmente  engraxados. A câmara subia pelo fato custom-made, Jermyn Street  a tempo de o mostrar, sem uma madeixa desalinhada, a dar uma olhadela ao Omega  Seemaster. Exactamente quando o barco salvador aparecia em campo.

 Todo o tempo o Bond de Pierce  piscava o olho ao espectador, sem nunca atraiçoar a sua gente.

Os filmes, adaptados dos famosos romances de Ian Fleming, não só são muito bem escritos, como estão suportados por uma pesquisa histórica, politica, económica e social de alta qualidade. Terminada a a guerra- fria, caído muro de Berlim, aberta a  “cortina –de-ferro” para lá da qual tudo se imaginava e, por fim,  desmembrado  o bloco soviético, o conflito das  histórias, até então centrado na luta entre os dois blocos, URSS e USA e nos seus aliados, deslocou-se para temas diferentes,. Há quem tenha falhado o desafio, mas no caso os temas tornaram-se mais interessantes e universais. Nos quatro filmes a que assisti,  o  terrorismo, o petróleo e todas as manobras associadas à sua posse e/ou controlo, a existência e possível utilização de armas de destruição maciça em ditaduras com governos voláteis,– fala-se da bomba atómica e da tecnologia de cisão do átomo. para ser clara –  e o poder emergente da world wide web e dos seus detentores inspiraram os plots.  O curioso é que o fazem bastante antes  destes assuntos serem acessíveis à maior parte da população.

Devo confessar que há em James  um aspecto que me surpreendeu muito. É particularmente interessante referi-lo neste local.

Ao contrário da opinião corrente, James Bond não é um mulherengo nem um D. Juan.

É  um homem que gosta de mulheres. Que gosta muito de mulheres.  Não é um abusador, não é  um agressor. Não é violento no contexto de uma relação  amorosa.

É um sedutor, mas a sua conduta  nunca é cruel, nunca humilha ou diminui as mulheres. Nunca as rotula. Bond não é o tenente Franz Mahler , de Senso, falso herói, falso apaixonado, fraco e cruel por oportunidade, que tortura a Contessa Serpieri  quase até à loucura. Seja por vingança imatura, seja por maldade , a atutude releva sempre da falta de caracter. Nem é   le lieutenant  Armand de la Verne , de  Les Grands Manoeuvres, com as suas apostas, o seu desprezo pour les femmes, as piadas de caserna e  as descrições  pormenorizadas, para divertimento dos amigos, das  suas conquistas amorosas.

Incapaz de qualquer destas atitudes, não me parece que Bond proceda como procede por respeito, devoção, reverencia. Ou educação. Mesmo que as possua. A verdade é que,  sem fazer alarde do facto, the M.I.6’s  Double –O-Seven considera as mulheres como suas iguais.

James seduz, elogia e, mesmo nos casos, como Monneypenny, em que ambos sabem   colaborar num jogo que nunca vais passar disso mesmo,  James nunca desiste. Mas sempre que o  vilão do filme revela ser uma vilã, tem direito ao mesmo número de frases cínicas, murros e balas que os seus companheiros. Por outro lado, quando é uma aliada, James confia nela e se for uma especialista na matéria em questão, entrega-lhe as decisões. A própria competição que por vezes surge nessas s situações, podia aparecer igualmente numa relação masculina.

No trabalho, as pessoas que lhe estão mais próximas são M, a sua chefe e Miss Moneypenny, a secretária.  É tratado pelas duas com um afecto levemente exasperado. E mantém com Moneypenny  o já referido  jogo permanente de pretensa sedução/hostilidade. Às quais ela responde, sendo a única personagem cujas réplicas, por vezes, suplantam as dele.

Por M sente amizade e consideração. Mas é mais do que isso.  Sendo um outsider, ele é o herdeiro  no romance e na  ficção quer do lonesome cow-boy quer do private-eye,.

James  Bond antagoniza ‘os maus’ , contra quem trabalha , mas também  desconfia  dos ‘bons, ao a serviço de quem   é suposto trabalhar. O seu caracter faz com que desafie permanentemente o status quo.

Esta atitude tem-lhe criado não poucos problemas. Mas M, a fabulosa Judy Dench, é tão capaz de lhe dar ordens e de  o aconselhar, como de fazer com que acate as primeiras e  e aceite os segundos.

Quase sempre…

A razão do seu  ascendente sobre o insubmisso Bond, não é  M  ser mulher, como não o seria se fosse homem. Ou  ser  o superior hierárquico de James.  A razão é ser M praticamente a única pessoa, no seio do sistema fechado e algo paranóico para o qual trabalha,  que James Bond  genuinamente respeita, além de a estimar profundamente.  Estima e respeito esses, de resto, recíprocos.

Os cenários de luxo, as histórias bem contadas, o ritmo acelerado, contribuem para que o filme prenda o espectador. Mas  e falo por mim, o melhor de tudo  são os brilhantes diálogos.

Os habituais “ the name is Bond, James Bond”, o Martini, Kina Lillet não esquecer,  “shaken, not stirred” que aguardamos e nos tranquilizam, são só imagens de marca.

 Ver uma “fita do 007” é assistir a uma espécie de Óscar Wilde meets Winston Churchill com ritmo dos Marx  Brothers.  É  ver passar uma saraivada de replicas aguçadas, limpas de excesso e  cheias de sentido de humor. Seja qual for a situação, mesmo com um pé nas costas e uma arma encostada à cabeça, Bond não se fica. E o que  eu gosto disso nele!

Em “The World is Not Enough”,  impõe a sua companhia à principal personagem feminina, a bela e milionária  Elektra King, quando esta pretende visitar a gruta do Azerbaijão que foi durante séculos o templo sagrado da família da mãe, descendente dos primeiros Azeri. Por coincidência, a gruta está encostada ao longo  pipeline que é a mais importante  estrada de petróleo do mundo, a ligação preciosa entre  o Oriente e o Ocidente, guardada por  exércitos ao longo de todo o comprimento. E da qual Elektra é  agora a única proprietária. Só então os espectadores percebem  que  aquela  jovem mulher com sotaque de Belgravia, an english rose,  mas europeia da ponta dos Louboutins à Aquascutum displicentemente pousada nos ombros, é na verdade uma mestiça, uma privilegiada a quem Oriente, Ocidente, pais amantes  e incríveis somas de dinheiro deram tudo o que de melhor existe sobre a Terra.

Farta da discussão, Elektra acaba por ceder,  mas observa, irónica: – I hope you know how to ski, then.

Ao que James responde: –  I came prepared for a cold reception.

Tau!

A recepção será fria , mas ele é tãocool quanto se pode ser. Mais cool não é possível. Mais cool e morre-se.

 

 Há simultaneamente à-vontade e cautela nos movimentos felinos de James. Ele não olha à volta para ver a vista, mas para entender o que o rodeia. Bond, James Bond é um gato e não escrevi uma metáfora. Um gato a quem não cortaram nada. Gosta de lutar, gosta de ganhar, volta para casa feliz mas em mau estado, ainda a sangrar da ultima escaramuça, aproveita o período de convalescença e mimo, como aproveita o sol, o luxo e o conforto. Mas não se apropria de nada, bens ou pessoas. E não deixa que se apropriem dele. Está de passagem. Nunca foi completamente domesticado, porque não é completamente domesticável. Dorme com um olho aberto e outro fechado, é ágil, é esperto, reage  depressa, tem muitas vidas.

E vive intensamente todas elas.

Last but not least, que o elogio vai longo, refiro outro traço da personagem, talvez o mais importante. O humor corrosivo, o gosto pelas coisas boas da vida, a aparente facilidade com que leva a cabo tarefas dificílimas, os misteriosos desaparecimentos * durante os quais  e contra a norma do bureau, fica incomunicável, a já referida indisciplina e uma auto-ironia desconcertante –  Brosnan ,mais do que qualquer dos seus antecessores, compõe um  James que está sempre a brincar com a sua persona  Bond, que não se leva demasiado a sério – tudo  contribui para criar uma aura de cinismo, de dettachement relativamente  ao seu trabalho e convicções. James sofre da  “maldição do dilettante”.

“James? James não se compromete a sério com nada, nem com uma mulher, nem com uma causa. “

Certo?

Errado. James não se compromete com uma mulher porque o trabalho que tem – e que leva muito a sério – não lho permite. Já tentou e os resultados foram trágicos. Sobretudo  para as mulheres.

Em “Tomorrow Never Dies”,  reencontra  Paris Carver, uma antiga namorada, a qual  percebemos ter sido bem mais do que um caso passageiro. Paris casou entretanto com Elliot Carver , o poderoso mogul da world wide web. Esse é o motivo que leva James a  julgá-la  protegida. Cede à vontade de ambos e passa a noite com  Paris.

 

 E por causa da sua fraqueza, Paris é assassinada. James é perigoso para quem está com ele e sabe-o. Não pode haver excepções. Assim, organiza as prioridades em torno do que faz. E tem certezas. Algumas. Tendo escolhido um lado, cumpre a tarefa ou está disposto a morrer na tentativa.  Mas sozinho. Não quer tornar-se vulnerável, nem quer causar danos às outras. Aos outros, digo. É algo que James, simplesmente,  não faz.

À cabeça dessa lista de  “coisas que James NÃO faz” , vem a traição.  James não trai e ponto final. O fim das ideologias não perturbou a sua ordem de valores. Há bem. E há mal. O seu papel é impedir que o mal seja feito. Não tem medo, não tem dependências que o impeçam de agir e não se vende.

Num mundo cada vez mais corrupto, o agente Double-0-Seven é incorruptível.

Prestes a ser assassinado por Electra King,  falsa vitima e verdadeira vilã  – e abro parêntesis para dizer que o nome da personagem, com as suas referências  escritas a mão pesada, toma um significado muito mais irónico e ‘culto’ quando percebemos que era o Pai quem ela odiava,  que a sua metade visível, ocidental , é  usada como máscara  e que é o seu lado Azeri , o sangue da Mãe, descendente dos primeiros persas, cujas raízes familiares se perdem na noite dos tempos, fincadas no Azerbaijão, na areia e no petróleo, é o  lado  que vai ganhar. Ou obter o poder, porque Elektra não tem outro interesse  que não o poder cada vez maior que ficará nas suas mãos.

Elektra, the king’s daugther ,  ordenou a morte do pai para vingar a mãe, subvertendo quer a génese da literatura clássica, quer a psicanálise d’aprés mitos, ambas matrizes  e marcos do Ocidente. Porque  ela está dividida em duas e uma das metades mora no outro lado do espelho, que nos devolve a imagem invertida.

Parece complicado? Não é.

Os “filmes do 007” têm a  característica que Vargas Llosa aponta e elogia ao romance  “A Grande Arte” ,de Rubem Fonseca e que é extensível a todos os ‘mandrakes’ do mesmo autor. Escreve  Llosa:

“…sucesso bem merecido, pois o seu romance, uma divertida história policial…todos os ingredientes do género e acessível ao leitor mais elementar, é também um livro elegante e subtil. O seu pequeno mundo de assassinos, prostitutas…constitui  um irónico caleidoscópio de alusões e paráfrases históricas, mitológicas e literárias que dignificam a matéria narrada, tornando-a uma proposta cultural e uma disfarçada zombaria do próprio género. Essas duas leituras possíveis do romance não se excluem . O leitor mais avisado pode ir detectando…sem que tal atenue ou anule o interesse pelas peripécias do romance.”

 (Llosa, M.V., posfácio  a “A Grande Arte”, Fonseca, R. ; p. 339, Ed. Sextante, 2012) .

O texto de Vargas Llosa pode ser aplicado, quase ipsis verbis, a estes filmes.

 Prestes a morrer, amarrado a um aparelho de tortura primitivo, Bond   assiste à encenação quase escabrosa que Elektra lhe preparou e ouve as suas insinuações, pejadas de troça despeitada e de conotações sexuais.  É necessário, para o êxito dos seus planos,  que James morra, mas esta morte  é também uma vingança. Porque ele recusou,  ele atreveu-se a recusar,  a linda princesa e ela, como todos os psicopatas, não pode ser contrariada. Mas nesse aspecto James só faz o que quer . E nem nesse ‘aspecto’ nem nos outros  é passível de suborno.

Elektra, imediatamente antes de desencadear o processo que levará Bond à morte, deseperada com a aparente indiferença e dele, incapaz de o ferir mesmo que o mate,  remata, a conversa, com desprezo:

I could have given you the world. “

Amarrado, indefeso, sem escapatória à vista, Bond  responde-lhe:

– “The world is not enough.”

Vou parar por aqui ou acabo por chorar. E ainda tenho que tratar do Beluga e verificar se a encomenda de  Kina Lillet chegou a tempo.

(E sim ele escapou. I mean…meninas mimadas com aliados super-terroristas  à prova de dor  e todo o dinheiro do mundo?  Brincamos?  Servem para pequeno-almoço e já é muito…)

 É verdade, não se esqueçam!   Estão todos convidados para hoje, pois claro!

 

 

Biscate de Luxo

Nova semana,  novo calendário, nova forma biscate  do nosso club.    Aos domingos, além das  – por assim dizer – “tradicionais” receitas, o Biscate Social Club também  trará, de forma alternada,  a biscatagem na cultura. Novas surpresas ao longo da semana. o/

Por Liliane Gusmão*

Breakfast at Tiffany’s é um filme biscate. Desculpem, mas o titulo em português foi, a meu ver, muito equivocado. Holly Golightlly é qualquer coisa menos uma bonequinha. Ela também não é de luxo. Mas ela é sofisticada e elegantemente biscate.

O filme está cheio de mulheres biscate, que bebem, que fumam, que tem casos extraconjugais, que sustentam seus amantes. Mulheres que não se encaixam no padrão ‘boa moça’, ou ‘mulher de respeito’ de 2012 quem dirá dos anos 60.

Essas mulheres estão protagonizando suas vidas e suas escolhas. Buscando a satisfação sexual que a vida dentro dos padrões não lhes proporcionou. O que pode ser mais biscate do que o inconformismo, do que a busca, do que o questionamento, do que a incerteza?

O filme conta a história dessa mulher que não sabe bem o que quer, mas sabe onde não cabe, o que não é suficiente para ela, onde não quer continuar. O filme conta a história do encontro de dois biscates que se conhecem e se apaixonam por essa sede de aventura ou seria pelo descaso com as convenções, com que vivem suas vidas?

Embora meu coração romanticamente biscate se delicie com o final feliz do filme sei que o personagem de Holly não aceitaria esse final para si, como sabia também o autor da história.

No começo, Audrey ficou insegura se deveria ou não aceitar o papel, ela não era a atriz que o autor da história imaginou para interpretar Holly na adaptação para o cinema. A personagem que ela interpretou não se parecia em nada com ela e o roteiro inicial foi modificado para que ela aceitasse estrelar do filme.

Muito impetuosa, a personagem assustou a atriz tímida e reservada A personagem no livro era uma garota de programa bissexual. A bissexualidade da personagem foi completamente omitida do filme e a prostituição da personagem ficou implícita em apenas uma fala da personagem.

O final feliz do filme também foi à revelia do autor que sabia que a personagem original do livro não sossegaria e continuaria de amor verdadeiro, em amor verdadeiro sem jamais deixar de ser seduzida por outras possibilidades de felicidade reais ou imaginárias.

Apesar de não ser biscate por inteiro em Bonequinha de Luxo, Audrey imortalizou Holly e emprestou seu rosto a uma biscate contida pelo moralismo da época em que o filme foi realizado.

Curiosidade: Breakfast at Tiffany’s é um livro de contos de Truman Capote, um dos maiores escritores americanos, pioneiro no jornalismo literário. Capote também virou filme em 2006, com interpretação brilhante e Oscarizada de Philip Seymour Hoffman.

Liliane Gusmão é brasileira residente no exterior. É feminista, arquiteta, estudante, imigrante, mãe, filha, irmã e mulher. Tem 38 anos, mas, confessa, às vezes parece ter 13 ou 130. Exagerada, rebelde, cansada, impaciente, indecisa. E, acrescentamos, inteligente e terna. É autora do Ponto de Fuga.

A Vida Não Está Para Biscate

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

(pode conter spoiler, mas quem se importa?)

Cecilia é a mais jovem das cinco irmãs Lisbon. Vivendo no subúrbio de uma cidade americana, vivendo sua vida de classe média americana, um dia Cecilia tenta o suicídio cortando os pulsos. Ela sobrevive e em uma conversa com o médico é questionada:

“O que você está fazendo aqui? Você não tem nem idade para saber como a vida fica amarga.”

Ao que ela responde:

“Obviamente o senhor nunca foi uma menina de 13 anos.”

E é colocando a câmera de frente para Cecilia, fazendo com que seus olhos quase fitem os nossos diretamente, que Sofia Coppola, diretora de As Virgens Suicidas, arremessa a todos os espectadores essa verdade, a princípio óbvia, mas que guarda consequências devastadoras para as mulheres. E durante todo o filme Coppola vai mostrar, com habilidade e sensibilidade, homens tentando decifrar os motivos da tragédia que se abate sobre as irmãs Lisbon.

Cecilia, Lux, Bonnie, Mary e Therese são as filhas de um casal católico, Ronald Lisbon (James Woods) e a senhora Lisbon (Kathleen Turner). Com idades entre 13 e 17 anos, elas vivem uma vida cheia de restrições impostas pelos pais, como proibição de namoros e festas. Até que a tentativa de suicídio de Cecilia mostra que a aparente felicidade da família é construída em cima do sacrifício das liberdades e sonhos de suas crianças.

 A começar pela ausência do nome da mãe, que nunca é mencionado, Coppola nos mostra através de símbolos sutis que a vida aqui não está pra biscate. Um plano particularmente inspirado é aquele em que a senhora Lisbon e Cecilia são vistas através das persianas da casa de uma vizinha, dando a impressão que estão sendo enquadradas por grades de uma prisão. Ainda assim, as garotas encontram seus meios de driblar os pais e exercer sua biscatice.

Os figurinos são usados de maneira muito inteligente para demonstrar o contraste entre as gerações de Lisbon. Enquanto a mãe usa cores sem vida, que se confundem com as cores da casa, passando a ideia de que não existe vida fora daquele lugar para ela, as filhas usam estampas alegres, ainda que não exageradas. E no momento em que elas vão pela primeira vez a um baile, é a roupa a maior preocupação de sua mãe, que trata de fazer vestidos que mais parecem sacos, como nota o narrador do filme.

E quando Lux (Kirsten Stewart) resolve exercer sua sexualidade, mesmo no momento em que a repressão dos pais atinge seu ápice, a direção de Coppola demonstra inteligência ao não relacionar isso com o abandono da garota por um jovem conquistador (Josh Hartnett) após uma noite de amor no campo de futebol. Pois ao perceber que foi deixada, Lux não esboça nenhuma reação, não derruba nenhuma lágrima. Mas fica inconsolável depois, quando a mãe a obriga a queimar seus discos de rock. E quando todas as irmãs são confinadas a uma espécie de prisão domiciliar, o resultado é previsivelmente uma tentativa de libertação, seja pela autodeterminação no exercício da sexualidade, seja pela via trágica do suicídio.

Vale notar como o roteiro, da própria Sofia e de Jeffrey Eugenides, autor do livro em que se baseia, retrata os homens. Eles nunca estão no controle da situação. Se colocam em situações constrangedoras, como a patética e infrutífera tentativa de suicídio de um garoto ao pular de uma janela sobre um jardim, vista com um olhar de condescendência por Cecilia. Uma fala do narrador é reveladora do domínio que as mulheres têm da ação. Em certo momento ele diz que o personagem de Hartnett, famoso por colecionar garotas na escola, se apaixonou por Lux, mas ela não se apaixonou por ele. Mesmo Ronald Lisbon assume mais uma posição de passividade em relação à esposa do que autoridade. Um interessante modo de mostrar que, afinal, é a mulher quem comanda seu destino.  O final do filme é pessimista, com uma estranha festa em que os convidados levam máscaras de respiração devido ao forte cheiro resultante de um vazamento químico e fazem piada com o suicídio das irmãs Lisbon. Mas ele esconde uma firme convicção de que ao não aceitar as amarras que a sociedade lhe impõe, a biscate será livre para fazer de seu mundo o que ela bem entender.

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*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Nhoque para dois

Por Niara de Oliveira

(Ou duas. Vocês que sabem)

Faz um tempo que venho fazendo nhoque por aí. Sempre que me reúno com amigos ofereço de fazer. Não é exibicionismo meu. Meu nhoque é bom mesmo. Já dei a receita no Pimenta com Limão, mas ficaram dúvidas sobre quantidades, dicas, segredinhos e tal.

Vamos ver se dessa vez consigo explicar melhor e vou dar a receita para apenas duas pessoas, porque né, vamo combiná que um prato tão trabalhoso é uma excelente oportunidade para biscatear. Então, voilá!

Descasque um quilo de batatas (qualquer tipo), corte em pedaços grandes e coloque numa panela com água e uma colher das de sopa de sal para cozinhar. Depois de cozidas num ponto depois da batata para salada de maionese, escorra e amasse. Se não tiver um espremedor de batatas, amasse com um garfo e depois com uma colher. Reserve e deixe esfriar completamente.

Enquanto isso, faça o molho. Dessa vez escolhemos uma versão adaptada de molho à bolonhesa. Para duas pessoas (ou um quilo de batatas), use 200gr de carne moída, 4  dentes de alho fatiados, 3 cebolas grandes, 1 pimentão e 3 tomates cortados bem miudinho, meia xícara de salsa picada, meia xícara de manjericão fresco (só destaque as folhas), sal, pimenta e uma pitada de alecrim desidratado. Doure o alho no azeite, acrescente a carne moída e vá mexendo para não deixar empelotar. Acrescente a cebola, pimentão e tomate, sal e pimenta a gosto e o alecrim. Se preferir o molho mais vermelho, acrescente 1 colher das de sopa bem cheia de extrato de tomate. Dica: Para tirar a acidez do tomate no molho, coloque uma colher das de chá bem cheia de açúcar. Acrescente um copo de água (250 ml) e deixe o molho ferver por uns 15 minutos para encorpar. Só misture a salsa e o manjericão depois que desligar o fogo.

Antes de começar a enrolar a massa, coloque uma panela no fogo com água (acima do meio) e sal. Com a batata já fria, vá pegando pequenas porções na mão e misturando farinha. Amasse até estar com consistência  de massa e numa bancada já enfarinhada, faça rolinhos mais ou menos da espessura de dois dedos (a massa não pode estar se quebrando, se estiver acrescente um pouco mais de farinha, amasse e enrole de novo). Corte em pedaços pequenos e polvilhe com farinha. Se tiveres uma bancada grande, os deixe reservados mais para um canto, desde que não fiquem colados.

Depois da massa toda enrolada e cortada, vá ajeitando os travesseirinhos. O segredo é ir pressionando os pedaços contra a bancada, moldando em formato de travesseiro e selando-os com a farinha. Não faz ideia de como se faz isso? O Andy Garcia ensina a Sofia Coppola em O Poderoso Chefão III e as biscates se derretem assistindo e querem fazer nhoque com ele. Ai, Ai… Não tem Andy Garcia para te ensinar? Convide outra vítima, digo, moço (ou moça) e aprendam juntos a fazer nhoque.

Depois de prontos os travesseirinhos, jogue-os em grupos dentro da água fervente (com cuidado para não saltar água quente para todos os lados). Os travesseirinhos inicialmente afundam e quando estão cozidos sobem e ficam boiando na superfície. Retire-os com cuidado com uma escumadeira, deixe-os um tempinho no escorredor. Quando retirar, pode já servir em porções individuais ou colocar numa travessa. Regue com azeite para não colarem (caso aconteça de colarem, basta aquecer no vapor para que descolem) e jogue uma porção generosa de molho em cima. Polvilhe com queijo parmesão ralado.

Fica melhor servido com vinho tinto seco. Se preferir, use molho pesto.

Andy Garcia “ensinando” Sofia Coppola a fazer gnocchi:

(fotos: Mayara Melo)

No Escurinho

Hoje é dia de luta. Luta na rua, chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. E, claro, fazendo, criticando e apreciando cultura. Biscatagi é cultura, Biscatagi é enfretamento e transformação. Ela se manifesta e transgride de acordo com a época e, com isso, ressignifica o seu próprio tempo. O cinema está cheinho de cenas inusitadamente biscates. Até em Love Story, pode acreditar, lá está a mocinha-água-com-açúcar-vou-morrer-te-amando dizendo ao belo rapaz que o convidou pra sair porque aprecia seu corpo. Assim, direta. Então, fui e vim, mexi, pintei e bordei uma lista de filmes pra biscate-amiga-cansada-de-guerra se deparar com grandes lutas, laivos de humor ou simplesmente um pequeno desvio no cotidiano rumo à felicidade. Personagens femininas que fazem e sabem pensar, sentir, refletir, contestar, gozar…

Dona Flor e seus Dois Maridos – quer coisa mais biscate que ter dois homens comendo na sua mão?

Que bom te ver viva – mulheres de luta, presas pela ditadura brasileira.

Ela e o Secretário – biscate, biscate, como lidar com uma chefe firme e não estereotipada.. e isso em 1942?  o/

A Cor Púrpura – retrata o pesadelo que pode ser a vida de quem é à margem: preto, pobre, feio e mulher.

Tudo Bem no Ano que Vem – e daí que ela encontra com ele uma vez por ano, trepa, conversa, faz carinho e é acarinhada e mantém um casamento feliz, uma profissão bem sucedida, muda de idéia, faz e acontece. Olha, até hoje eu estou pra ver uma personagem que me inspire mais.

Mudança de Hábito – Ué, porque não? Cantora de boite, livre, resistente, amigável, animada. Uma mulher inteligente e interessante que leva a vida com ritmo.

Johnny Guitar – Porque ela é forte, decidida e sedutora. Porque diz, com tranquilidade, que cada prego e cada tijolo do seu estabelecimento foi um homem com quem ela trepou. E diz para o homem que ama, para que ele aprenda a lidar com isso.

Revolução em Dagenham – trata da história real de uma operária, mãe de família, que de repente se vê envolvida na luta por direitos trabalhistas e femininos. E isso em um passado recentíssimo, 1968, e que teve impacto significativo nas relações trabalhistas na Inglaterra e na vida das mulheres.

Eclipse Total – tem acusação injusta, tem luta de classes, tem mulher forte que luta contra a violência doméstica, tem relação mãe e filha, tem roteiro bem feito e uma atriz brilhante.

 Ann Vickers  – uma mulher que trepa antes de casar, faz um aborto, torna-se amante de um homem casado, tem um filho dele…e é tratada no filme não como indigna, mas como a protagonista a ser admirada).

Tem mais sugestão de filmes lá no Borboletas e no Blogueiras Feministas e, de quebra, um papo sobre Leila Diniz.

E, claro, não deixem de ver REDS nem de ler o post delícia da Niara com a cena mais biscate do cinema.

A cena mais biscate do cinema

Por Niara de Oliveira

São inúmeras as cenas do cinema que poderíamos classificar como biscates, mas nenhuma é tão ousada quanto a cena em que a feminista Louise Bryant intima o jornalista John Reed a transar com ela no filme Reds, de Warren Beatty.

Louise (Diane Keaton), tirando o casaco na cena mais biscate do cinema

Reds, de 1981, é a cinebiografia do jornalista norte-americano John “Jack” Silas Reed (Warren Beatty), desde a época em que era repórter do periódico socialista The Masses no início do século XX, até a fundação do Partido Comunista dos Estados Unidos, incluindo sua vida amorosa com Louise Bryant (Diane Keaton). Beatty usou o recurso de depoimentos de pessoas que conviveram com o casal, todos bem velhinhos, dando detalhes de suas personalidades e como eram vistos. E chama a atenção num dos depoimentos antes de começar o filme propriamente dito que Louise é classificada como “exibicionista”, o que também aparece num diálogo da personagem com o marido.

Louise Bryant, em 1912

É final de 1914 em Portland, cidade natal de Reed. Louise está numa exposição fotográfica com o marido para a qual tinha posado nua em algumas fotos. O marido só soube das fotos durante a vernissage, na frente dos amigos do casal e embora eles tivessem um acordo no casamento em que ela poderia ter liberdade para exercer suas atividades como jornalista e sair sozinha — algo raro em qualquer casamento no início do século XX — esse acordo era particular e não ficaria bem ela expor o marido daquela forma. (Eu achei lindo!)

Conforme Louise havia planejado, ela sai da vernissage e vai a uma reunião no Clube Liberal, onde Jack Reed estará presente para falar sobre a Guerra na Europa — de onde ele acaba de retornar –, ele está na cidade para rever sua mãe, e Louise é sua fã e leitora. Ela fica impressionadíssima com o discurso dele — ou melhor, o não-discurso — sobre a guerra, o aborda após a reunião, pede para entrevistá-lo e o leva até um pequeno apartamento que usava como estúdio.

Louise abordando Jack e pedindo para entrevistá-lo

Lá ele vê as fotos dela (as do nu artístico) que estão emolduradas. Logo no início da conversa ela pergunta se ele realmente não é casado como comentam e ele diz que não acredita em matrimônio. Jack lhe devolve a pergunta e ela responde: “Matriônio? Quem pode crer no matrimônio?” e muda de assunto. A essas alturas Jack, por mais liberal que fosse, já tinha formulado um conceito sobre Louise.

Ele fala por horas a fio enquanto tomam café e ela anota tudo o que ele diz. Durante a entrevista ele argumenta de forma lógica, como é próprio dos esquerdistas, sobre o porquê da guerra, da opressão das mulheres, da exploração de classe, sobre o público leitor de seu periódico e da dificuldade de conseguir financiar a impressão. Até que ele percebe que ela está cansada, ele senta a seu lado no sofá e ela propõe que eles avancem um passo. Ele diz sim e ela colocando as pernas sobre o sofá lhe diz: “O que te pareceria se te pedisse para fazer algo um pouco egoísta?” — Ele sorri e responde: “Pois deveria”, já se animando. Ela então se vira e pega uma pasta ao lado do sofá (enquanto ele se inclina sobre ela e fica no ar, no vácuo) e pede que ele leia os seus artigos e opine honestamente sobre eles. Levanta, pega o casaco dele e o manda embora (são 6h da manhã), enquanto ele tenta sem sucesso marcar um outro encontro antes de voltar para Nova York. Ele vai embora, atônito, impressionado com ela.

Na noite seguinte eles se encontram casualmente (esse acasos que só acontecem quando a gente se apaixona, ou quando esses acasos influenciam nos fazendo apaixonar? enfim…) num jantar familiar, onde ela está de novo desacompanhada do marido, eles fingem que não se conhecem, são apresentados e ele descobre que ela é casada. Entre olhares e cochichos ele debocha pelo fato dela ser casada e da profissão de seu marido e passam o jantar inteiro flertando e tentando ser discretos.


(esse vídeo sem legendas é apenas da cena biscate que cito, que está exatamente entre 15:47 min e 16:38 min do filme)

Ao final do jantar, Jack vai acompanhar Louise até em casa e conforme vão caminhando entram numa espécie de bosque ao lado da casa onde estavam. Ele diz a ela: “Não ia deixar você ir sem te acompanhar, Louise. Diga-me uma coisa. O  Dr. Trullinger (o marido) não se importa que passe tanto tempo no estúdio?”

Ela responde: “Tem que me dar um pouco de liberdade!” — Jack a retruca: “Liberdade, Sra. Trullinger?” (insinuando que mulheres casadas, sob a tutela e sobrenome de um homem não são livres), ele passa a frente dela caminhando e segue falando: “Eu gostaria de saber qual a sua ideia de liberdade. Ter estúdio próprio? Caminhar…?”

Ele então percebe que ela parou de caminhar e se volta para trás. Louise está tirando seu casaco (foto maior, acima), ela se abaixa, ajeita o casaco no chão, se ajoelha sobre ele, olha para Jack e diz: “Eu gostaria de vê-lo sem calças, Sr. Reed.”

Ele fica nitidamente zonzo, olha para os lados, faz menção de abrir o botão das calças, titubeia, ajeita a roupa, olha de novo para ela, sem saber o que fazer, se aproxima, se abaixa, a olha fixamente, sorri encantado e totalmente seduzido, tira o chapéu, a beija e eles transam ali, no bosque.

Infelizmente a cena termina no beijo e o filme continua já na manhã seguinte no estúdio de Louise, com Jack feliz cantando enquanto se barbeia e ela está arrumando suas coisas para sair e se despede dele friamente Em seguida eles discutem na escada do prédio sobre a ida dela com ele para NY e eu poderia contar o resto do filme (que tem 3h de duração) apenas de memória, mas daqui para frente se quiserem saber ou lembrar o que acontece, terão de assistir ou rever o filme.

Jack e Louise, em novembro de 1916

Jack e Louise se casaram em novembro de 1916, após o envolvimento dela com o escritor Eugene O’Neill (no filme interpretado por Jack Nicholson) em Provincetown, no litoral de Massachusetts, em meio ao relacionamento com Reed, onde os três e mais outros amigos dividiram uma casa durante o verão.

Louise Bryant é quase sempre vista apenas como a sombra de Jack Reed, o grande jornalista comunista americano, que sempre foi tratado como espécie de herói na União Soviética. O filme também passa a ideia de uma jornalista e escritora não muito capaz e uma feminista intimidada pelas demais feministas amigas de Reed, principalmente Emma Goldman. Mas basta saber um pouco mais da história dos dois para perceber que Louise era ousada, uma mulher anos luz a frente de seu tempo, guiada pelos seus desejos, vontade e coração, e que não poderia ser nem retraída e nem sem conteúdo. Muito pelo contrário.

Quando Jack morreu (de tifo aos 44 anos, em Moscou, 1920), Louise escreveu ao amigo Max Eastman: “Eu não tenho coragem para pensar o que vai ser sem ele. Nunca amei realmente qualquer outro no mundo inteiro como a Jack e nós estávamos terrivelmente ligados… Ninguém em momento algum esteve tão só quanto estou. Agora eu perdi tudo.”

Louise tomando sol em Provincetown, 1916

Louise continuou seu trabalho como jornalista, publicou o livro Espelhos de Moscou em 1923 e diversas entrevistas com personalidades como Benito Mussolini e Enver Paxá. Em 1924 ela se casou de novo e se mudou para Paris. O casamento acabou quando seu marido descobriu que ela tinha um caso com o escultor Gwen Le Gallienne. Em 1928 desenvolveu Adipose Dolorosa (ou Doença de Dercum) e recorreu ao uso de álcool e drogas para suportar as dores. Morreu em Sèvres em janeiro de 1936 aos 50 anos de hemorragia cerebral, consequência de um tombo nas escadarias do Hotel Libéria (Paris).

Difícil dizer se Louise era biscate porque era feminista ou era feminista para justificar filosoficamente a sua biscatice, ou afirmar se a cena protagonizada por Diane Keaton aconteceu exatamente assim ou foi fruto da imaginação de Warren Beatty e Trevor Griffiths, roteiristas do filme. Mas é bem facinho se apaixonar pelo filme, pela Louise Bryant de Keaton nesse romance vermelho e nessa cena biscatésima. Né?

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Warren Beatty produziu, dirigiu e protagonizou Reds. Baseado na vida de John Reed e em seu relato (o mais fiel) da Revolução Russa, “Dez Dias Que Abalaram O Mundo”. Levou dois anos entre filmagem e montagem e conta ainda com Gene Hackman, Mureen Stapleton e Paul Sorvino no elenco. Recebeu treze indicações ao Oscar e levou três estatuetas, incluindo Melhor Diretor para Beatty.

Devoradora de Homens

Por Sandro Caldas*

Brigitte Bardot continua sendo uma das minha musas no cinema desde que a vi pela primeira vez em ‘E Deus Criou a Mulher’ (1956), de Roger Vadim. Logo depois, com ‘O Desprezo’ (1963), de Jean-Luc Godard, estabelecia-se em mim a devoção. Se tivesse que escolher um motivo para nascer nos anos 60, seria Bardot. Supérfluo? Tudo bem, Oscar Wilde me defenderia: A única coisa necessária é o supérfluo. No auge de sua beleza, ela exibia 1m,68cm de altura, 57 quilos, 50 cm de cintura, 90 cm de busto e 89 de quadril. Além do delicioso sotaque francês e do famoso biquinho, a atriz francesa era uma biscate de primeira.

Livre em sua sensualidade felina, Brigitte emanava magnetismo sexual, atração que moralismo nenhum podia conter ou frear. Todos os homens que colocaram os olhos nas curvas de Brigitte queriam devorá-la. E ela deixou-se devorar por todos que quis. Teve tantos que a mídia preconceituosa a chamou de devoradora de homens’, tanto pela rapidez como pulverizava seus relacionamentos quanto pelo número de homens que passou pelos seus lençóis. Mas uma mulher provou Briggite. Sua única experiência com o mesmo sexo foi relatada em sua autobiografia ‘Iniciais BB’:

“Odile estava passando pelas fomes amorosas da adolescência. Havia em seu quarto um eterno vai e vem de belos rapazes e de moças também. Fotógrafos e repórteres do ‘Paris Match’ se hospedavam ali, perto da redação e prontos a registrar a aventura que se passava. Era muito engraçado, uma calcinha esquecida ou uma cueca abandonada circulavam às vezes de quarto em quarto, para que não servissem de evidência no caso de alguma eventual crise de ciúme. Odile era muito bela, muito impudica, muito natural, muito selvagem. Ela me ensinou a dançar o cha-cha-cha, tinha 16 anos e eu, 19. Eu a achava maravilhosa porque encarnava tudo que minha educação me impedia de ser verdadeiramente. Eu maldizia meus 3 anos a mais e me achava velha. Ela me achava bela e de tanto ensaiar mais ou menos vestidas, ao som dos ares afro-cubanos, acabamos dançando um cha-cha-cha diferente na cama. Esta foi minha primeira e última experiência do gênero”.

 Je t’aime moi non plus 

Brigitte rompeu essa barreira educacional rígida e se tornou um símbolo sexual, fazendo do seu corpo a primitiva liberdade lasciva, do instinto, do desejo. Popularizou o biquíni usando-o em seus primeiros filmes, nas visitas a Cannes e em muitas fotos de revistas. Foi ícone da moda ao não utilizar meias em seus filmes, além dos vestidos esvoaçantes e decotados; guiou o visual feminino e despertou o tesão masculino. Por tudo que simbolizava, BB foi fonte de inspiração para grandes artistas da música pop, como Bob Dylan, cuja primeira música composta foi feita para ela, Caetano Veloso, Tom Zé, Red Hot Chili Peppers, The Who, Elton John e claro, a erótica ‘Je t’aime moi non plus’, composta para ela por seu amante Serge Gainsbourg.

Brigitte era ninfeta e femme fatale, tinha algo pudico e perverso, revelados por entre seus cabelos loiros despenteados, seus penetrantes olhos escuros e sua boca carnuda. Brigitte soube utilizar sua expressão erótica para conquistar seu lugar no mundo, além do talento que tinha, obviamente. Brigitte era elegante e pornográfica e soube devorar a vida e os homens. Gostava de sexo e com seu corpo e sua personalidade, ela mereceu o sexo. Ou o sexo a mereceu? Ela saciou fantasias, as suas e as de quem a possuiu. Como toda boa biscate merece.

Não me interessa aqui os processos, as tentativas de suicídio, os preconceitos contra negros, homossexuais e imigrantes e um tal rancor que a acompanha há algum tempo. A minha Brigitte Bardot é a que vai dos anos 50 aos 70. É por essa BB que sou apaixonado ainda.

Abaixo, uma homenagem tecida em acróstico por mim…

BB a lápis

Beleza iluminada pelo sopro divino

Rasgo que promoves na normalidade

Irrequieto me deixas com seu mambo

Galgo a passos rápidos a extrema excitação

Insatisfeito eternamente por não tocar-lhe a pele

Tens tudo que desejas em um movimento de quadris

Toca-me com seus olhos e inflama meu desejo

E, sim, és força dominadora disfarçada de angélica

Banhada em sol, torna-te a escuridão das outras

Amar-te apenas no privilégio da ilusão

Regozijo do milagre profano que são seus lábios

Diante do infinito, tu és mais infinita

O caminho que leva a Deus passa pela tua existência

Toda expressão criativa é menor que simplesmente olhar-te

E nós, Biscas-agradecidas, deixamos um mimo pro Sandro (e pra todos que passarem aqui, amantes da sétima arte…

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* A Bahia tem ziriguidum, charme, malemolência, beleza e um jornalista gente boa, aprendiz inquieto com o comportamento humano, apaixonado por livros, com mão boa pra pintura, que aprecia conversar, de preferência com uma taça de vinho na mão e lembranças cinematográficas na outra. Sandro Caldas escreve no Vinil Digital, vai lá, vai.

Uma Receita Para o Amor

Aos domingos, aqui brincamos de contradição. Porque não há nada menos biscate que modelos, fôrmas, padrões. Mas, como somos ariscas, inventivas e corajosas (e não modestas, dispensamos essa) escrevemos receitas. De comida a comportamento sexual, arriscamos. E como quem, em vertigem, aproxima-se do abismo, hoje temos receita de relacionamento. Quem vai?

“É preciso matar bem. Matar mal é uma desgraça para o toureiro e para o touro. Para o toureiro, porque não faz honra a seu nome: matador. E para o touro porque é uma traição à sua bravura. Antes de atraí-lo, sabe-se com que chifre atacará. Uma boa estocada é sempre o resultado de uma boa faena. Em toda boa faena, há um momento em que o touro se deixa investir, pedindo para morrer. A estocada ideal,  deve ser no alto do cangote, na cruz, onde se juntam as omoplatas. Há três coisas fundamentais para entrar e matar. A primeira é matar recebendo…*

Faz muito tempo que revi O Matador, de Almodovar, mas lembro bem que não é um filme fácil. Nem mesmo é um filme bonito. Mas é o mote da receita de hoje. Hoje, eu falo sobre o amor. O Matador é um filme sobre o amor. Uma pergunta sobre a possibilidade. Um filme também sobre matar. E morrer. Que são outras formas de dizer: amar. Logo nos momentos iniciais, tourada e sedução se equivalem, mulher/toureiro/touro/seduzido num balé, num jogo, num encadeamento que só pode conduzir à rendição e à morte.

Amar é uma morte. Um assassinato consentido. Morro eu que não te conhecia, nada sabia de te querer, de ansiar por não existir. Morro de falta de ar, de falta de espaço, de falta de tempo. Morro. Não à toa o orgasmo é também chamado de pequena morte. Morre-se de gozo. E mata-se, claro. Tenho ganas de matar este outro que é tu sem mim. Quero-te sem ar, sem chão, sem norte e sem sorte a não ser a minha mão.

É preciso matar/amar bem. Com honra. Com orgulho de ser um amador. Respeitando a coragem de quem se entrega. Admirando quem se lança ao abismo de olhos abertos. Matar mal é uma desgraça para quem ama e para quem é amado. É preciso, sim, é extremamente preciso, uma boa canseira no amor. Brincar de gato e rato. Brincar é preciso: o riso, o canto, o encanto. Em todo embate amoroso há, gloriosa, a rendição. Eis aqui meu cangote, perfura-o com teu desejo.

É preciso, repito, matar/amar bem. Quem ama precisa estar pronto para dar a estocada final. E para recebê-la, claro, com um sorriso e meio grito nos lábios. Ou com um leve arfar, se for seu estilo. Ah, é preciso matar recebendo. Recebendo o outro inteiro, inclusive no seu mortal desejo. Recebendo sem nojos, reservas, dissemedisse. Receber a morte do outro e sua morte no outro.

O amor não é uma luta, uma batalha, uma guerra. Não há inimigos nessa morte, há cúmplices. É muito mais uma dança, um pareamento de matadores e touro, um sortilégio de sermos sempre os dois, pois no anúncio de Lacan: todo amor verdadeiro é recíproco. Somos algozes e vítimas de nós mesmos. Num abraço mortal, mato e morro, amo. E se não é a felicidade, é o gozo, e não se anda, em verdade, querendo mais que isso.

Esse amar assim, biscate, livre e entregue, demanda coragem. De dizer: quero. E de ouvir o que vier. Coragem de ouvir o não, claro. Nós, biscates, dizemos que não aceitamos a passividade, que não nos submetemos à demanda da sociedade de ficarmos à espera do interesse do outro. Dizemos, aqui no blog: enuncie seu desejo. Permita-se conhecer o seu querer, ser senhora da sua vontade. Mas, é claro, não há garantias. Ser capaz de anunciar o querer não torna o que se quer um dado consequente. Apenas nos tira da posição de objeto. Pode-se dizer: desejo! e ouvir: eu não! Pronto. Ponto. Vai-se ali, chora um pouquinho, descansa um pouquinho, lambe a ferida, reclama com os amigos, lateja a falta. E segue. Tão importante quanto respeitar o nosso querer é respeitar o não-querer do outro.

Mais coragem, ainda, eu digo, precisamos pra ouvir o sim, quando oferecemos um amar biscate, livre, transparente. Se dizemos: quero! e nos respondem: sim! ficamos nús, vulneráveis, expostos. Querer dói, porque nos lembra a incompletude. A nossa. A do outro. Aponta-nos o limite e o horizonte. Dói de um jeito que é gozo e riso, que não se espera que acabe. Esse amar biscate nos lembra que o nosso querer não dita o do outro e que, ambos, são inscritos no tempo. O amor sempre acaba. Ou porque acaba a vida que o mantinha ou porque acaba em vida e, às vezes, acaba com ela. Cruzar olhos sabendo ser a última vez quando se queria tanto mais é de uma beleza atroz. É preciso coragem.

Alter Ego de Biscate

Se me perguntassem quem eu gostaria de ser eu responderia: eu mesma, porque, bom, minha vida é boa e dá um certo trabalho ajustar-se a um corpo, um pensar, um sentir. Então, respostinha rápida: eu gostaria de ser eu. Mas se fosse de todo impossível e tivesse mesmo que pular pra outro canto, escolheria ser a Scarlett O’Hara. Pra mim é a maior personagem do melhor filme já feito (sim, eu sou superlativa). É também, a mais repetidamente considerada biscate. De forma atemporal, inclusive.

“Nothing modest or matronly will do for this occasion!”

Se você não sabe quem é Scarlett O’Hara, baby, é hora de rever os seus conceitos. Mas sou boazinha (#not) e vou dar umas dicas: ela é personagem de um romance sobre a época da Guerra Civil dos EUA escrito por  Margaret Mitchell e que resultou em uma adaptação cinematográfica, produzida por Selznick. Pra ajudar a entender como os motivos das condenações de biscatagi assim como a moral prevalente mudaram pouco, informo que a Guerra Civil Americana ocorreu entre 1861 e 1865 (uma leitura deliciosa sobre o livro e a personagem foram feitos pela Caminhante Diurno aqui)…

Um pequeno resumo não do romance mas das acusações de biscate:

Scarlett é dita biscate quando, jovem, solteira e desimpedida, gosta de receber a atenção e amizade de vários rapazes. Eles não tem culpa, coitados, são “enfeitiçados” pela biscate malvada e sedutora. Sobre a situação, a pérola que volta e meia reaparece, só trocando o primeiro verbo: “os homens flertam com estas mulheres, mas não casam com elas” (os homens transam, comem, agarram, namoram, etc., mas não casam com elas…pareceu familiar?).

Scarlett é vista como biscate por, viúva antes dos 20 anos, não aceitar viver o resto da vida à sombra da lembrança do marido, sem rir, dançar, encontrar com as pessoas…

Scarlett é encarada como biscate por, ainda que amorosa, não ser uma mãe nos padrões convencionais, preferindo um filho a qualquer outra experiência na vida. Ou seja, uma pessoa que é mãe nunca mais pode ser mulher, trabalhadora, amiga, esposa…

Scarlett é considerada como biscate por casar 3 vezes tendo como critério a avaliação de suas necessidades e não o mito do amor romântico convencional (aliás, adoro que ela se casa só pela “diversão”).

Scarlett é dita biscate por ser abordada, assaltada e quase estuprada por estar na rua sozinha à noite. A culpa é dela, que provocou…. (ops, parece com alguma coisa do cotidiano?).

Scarlett é vista como biscate por estar sozinha em uma sala, abraçada com um amigo casado (só por curiosidade e a respeito da suposta rivalidade entre as mulheres, a única pessoa que a defende é sua amiga e esposa do tal cara casado).

Scarlett é identificada como biscate por tocar sua vida, decidir o que quer, trabalhar por isso, negociar “feito homem” pra fazer seu negócio crescer e garantir estabilidade pra sua família.

Scarlett é a anti-heroína. Ela é julgada o tempo todo mas dá de ombros, diz seu mantra: “eu penso nisso amanhã” e segue desejando, mudando, querendo, lutando, amando, sendo cada vez mais quem ela se constrói, com suas dúvidas, com seus anseios, sabendo-se diferente da maioria, ponderando entre adaptar-se e ser quem é. Sofrendo também, claro. Mas seguindo. Forte. Inspiradora.

Também eu, Scarlett, juro que nunca mais passarei fome.

E não é de nabos que estou falando.

Nunca Houve uma Biscate como Gilda

Por essa você não esperava, não é? Biscatagem também é cultura. Gilda é um clássico do cinema. E uma aula de biscatagem. Aquela jogada de cabelo, na primeira cena em que Rita e Glen Ford se (re) encontram é pra ser treinada na frente do espelho, vezes e vezes. Aliás, a química entre Rita e Glen era tão intensa que eles trabalharam juntos em O Protegido de Papai (1940), Show Business at War (1943), Os Amores de Carmen (1948), Uma Viúva em Trinidad (1952), Dinheiro é a Armadilha (1965) e That’s Action (1977).

Gilda é um filme noir de 1946, dirigido por Charles Vidor e tornou-se referência em vários âmbitos, inclusive pautando a vida pessoal da protagonista. Lamentava-se Rita que o problema dos seus relacionamentos é que os homens deitavam-se com Gilda e acordavam com ela. Mulheres, atrizes, estrelas tão belas como Rita? Claro, muitas. Mas nenhuma entrou para o imaginário como referência do feminino e da livre sensualidade. Casou-se com um príncipe. Aliás, casou cinco vezes. Gilda (ou Rita?) é um brilho. O riso é fácil, o olhar é intenso e o corpo é livre. Poderosa, é isso. Os diálogos são ótimos, insinuantes, com tantos sentidos quanto os que você queira conotar. A cena mais famosa (e sexy) é o strip tease. Uma aula. Ela consegue insinuar tudo tirando uma luva. Uma única luva! E a música é uma alegria. Deliciosa, leve, provocante. Nunca houve uma biscate como Gilda.

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