Uma Biscate De Família

#AlmaBiscate
Por Renata Lins

 

Pois é, gente. Sou biscate de família, confesso. Não tenho nem muito mérito nisso: a biscatagem corre solta há várias gerações. Da minha bisavó paterna Joana, dita Janinha, pouco sei: mas sei que ela causou escândalo em Areia, sua cidade natal, quando cortou os cabelos curtos, à la garçonne; quando andou a cavalo “como homem”, pernas abertas, e não de lado. É ou não é para ter orgulho?

Minha avó Maria, filha dela, parecia extremamente comportada. Silenciosa, ponderada, elegante. No entanto, botou os filhos – sob reprovação de boa parte da família católica – no Colégio Americano Batista do Recife: o motivo? Queria que seus filhos estudassem em colégio misto. Só tinha aquele. Minha avó não gostava desse negócio de homem prum lado, mulher pro outro. Quando resolveu deixar de pintar o cabelo e assumir o branco, foi no cabelereiro e pediu pro cara passar a máquina. A um. Essa eu me lembro. Tem foto linda da minha avó, toda sorridente, cabelinhos espetados. Minha avó só fazia o que lhe dava na telha.

De tia Sônia, irmã do meu pai, vou falar pouco aqui: dia desses faço um post só pra ela. Basta contar que ela foi presa e torturada pela ditadura. Guardou sequelas, mas não arrependimentos: nunca, nunca na vida vi minha tia dizer que deveria ter feito outra coisa. Tia Sônia, digna herdeira da linhagem Janinha-Maria. Dona do seu próprio nariz. Apesar do sofrimento.

Minha mãe? Biscate 100%. Das seis filhas do meu avô Pimentel,  a única que foi para a  faculdade: imagino que pra isso deva ter cantado meu avô, que esse era o jeito da minha mãe conseguir exatinho o que queria (e isso, eu, que bato de frente, nunca aprendi). Minha mãe que tinha sido proibida pelo meu avô de namorar tal ou qual sujeito, e combinou com a madre superiora da sua escola que iria ver o rapaz ali mesmo, na escola. Com o argumento razoável que ela iria vê-lo de qualquer jeito: será que a madre superiora não preferia que fosse sob as vistas dela? Minha mãe morena e seus microbiquínis, suas gargalhadas. Biscate toda vida. Casou com meu pai por procuração, porque ele já tinha saído do Recife após o golpe de 64 – e por isso não se formou, já que do casamento eles foram pra Paris e depois pra Argélia, onde eu quase nasci. Aliás, no dia em que saiu da maternidade, foi  a um churrasco… comigo. “Você tava bem, ia mamar, tinha um quartinho onde eu podia botar o moisés”, explicou.

Então, quando chegou a minha vez, acho que não tinha nem muito jeito, não levo nem muito crédito: não há saída senão fazer o próprio caminho, escolher as próprias dores, viver  as alegrias. Conquistar as gargalhadas, soltar o choro.

O que eu demorei a aprender, e que a coragem de vir fazer parte do time incrível do Biscate Social Club me ensinou, foi como é bom dizer-se. Contar-se. Deixar-se ver. Abrir esse espaço pra mais gente. Eu sou do tipo privado, introvertido. Por muito tempo eram vastas emoções e pensamentos imperfeitos guardados dentro. Ou escritos só pra mim, em cadernos trancados. Comecei a escrever “pra fora” porque ganhei um blog de presente no ano passado: obrigada, Cacá! E, pelas redes, conheci as super-fundadoras do Biscate, Niara e Luciana. Primeiro pelas redes, depois pelas ruas: amor eterno, encontro de almas. Mas mesmo assim foi devagar. Fui chegando de mansinho, olhando, visitando. Depois, como biscate convidada. E, finalmente, cheguei de verdade.
Ufa. Achei meu canto. Um canto de militância com muitas gargalhadas. Um canto de liberdade como poucos. Primeiro ano. Lindamente primeiro ano. Vamos mais!

Biscate de berço

#AlmaBiscate
Por Lis Lemos

Era mais ou menos assim que eu queria ser

Era mais ou menos assim que eu queria ser

“Menina não senta de perna aberta” “Menina não brinca de carrinho” “Você tem que se casar virgem” “Se você continuar assim nunca vai arrumar alguém que te queira” “Você pergunta demais, a vida é assim e pronto”.

Talvez eu sempre tenha sabido que nunca fui “moça pra casar”. Aliás, sempre achei meio tacanho essa história de separar as mulheres entre as boas e as más.

Talvez porque a minha linhagem seja de mulheres ditas perdidas, que se esforçaram pouco pra entrar na caixinha que lhe empurraram. Começou na minha bisavó (que até onde sei teve três maridos oficiais) e torço que não pare em mim. Talvez porque minha mãe não tinha marido e nem o meu avô era o marido da minha avó.

Talvez porque uma das imagens que eu guardo na lembrança é de uma propaganda do Domus (jabá, estamos aqui) em que aparecia uma mulher linda, sensual, num vestido vermelho jogando sinuca. Não lembro direito da propaganda, mas eu queria ser igual àquela mulher quando crescesse. (não, eu não achei esse vídeo). Ou talvez porque eu adorasse “Elvira, a Rainha das Trevas”, e queria maquiagem, roupa, e peitos iguais ao dela.

Daí que há um ano eu descobri o Biscate Social Clube e ele foi entrando bem devagarinho (ui, ui) na minha vida. Eu lia quase todos os dias e percebia que esse era (é) o lugar, o blog, o clube que mais bem me representava e onde eu me sentia acolhida. Toda vez que eu lia um texto pensava: “era isso o que eu queria dizer”. Mas, ao mesmo tempo em que adorava aquelas palavras todas, pensava de novo: “ah, eu não teria coragem nunca pra dizer das minhas biscatices por aí”. (Sou tímida e espalhafatosa)

E num lampejo, mandei um texto pra Luciana pra ela ler e ver se rolava de ser publicado aqui. Biscate é assim: se oferece toda! Talvez esse tenha sido meu primeiro ato biscate-consciente: quis me mostrar, me jogar e aceitar tudo o que viesse depois disso. E a Lu-bidinosa fez a proposta mais indecente que eu podia imaginar: “vem biscatear mais nóis!” E eu fui, cá estou. Desavergonhadamente feliz.

Cada post que escrevo e que leio aqui ajudam a forjar essa mulher-feminista-biscate que sou e que vou me tornando e da qual gosto cada dia mais. Que me dá mais prazer, mais alegria, mais tesão, mais força. Nessa troca toda aprendo mais sobre mim e sobre liberdade – palavra cara e apreciada por todxs do clube.

Sempre fui biscate, ainda que só conhecesse o lado pejorativo dessa palavra. E, como eu acredito na “dialética interna do signo” (Oi, Bakhtin) sei que é possível fazer de biscate algo do que se orgulhar. E eu tenho um orgulho despudorado de ser Biscate e de estar no Biscate Social Clube.

Quem Ama o BiscateSC Levanta a Mão

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Como diria o Chico: foi bonita a festa, pá…mas com um errinho de tempo verbal. Não foi, ainda é. Porque biscate não faz por menos e deixa os festejos se estenderem até surgir a questão: é uma festa que não termina nunca porque está sempre começando ou não se sabe quando começa porque não lembra de acabar? (sim, nós lembramos do Programa legal sobre a Bahia).

Já tivemos, nesse furdunço comemorativo, a retrospectiva dos posts que nós, biscateiros-escreventes, mais curtimos esse ano, as respostas aos motores de busca mais inusitados, tivemos as mensagens dos biscxs-convidadxs, o nosso strip tease coletivo de fim de mundo…e hoje é dia de curtir um pouco a interação com nossos leitores, comentadores e afins.

É uma delícia quando passamos na nossa página no FB e encontramos algum leitor mais costumeiro marcando umx amigx e dizendo: lê esse, é a tua cara. Bom saber que tem gente cara de biscate por aí. E é igualmente saboroso receber mensagens dizendo: comecei a ler o blog por acaso/por curiosidade/por x motivos que não seja identificação e com o tempo fui me descobrindo biscate, compreendendo mais minhas vontades e inquietações.   O Biscate se anima de ser um espaço coletivo, de diálogo, interação e aprendizado constante. E devemos isso, além dxs nossxs biscxs convidadxs, aos leitores.

Aos leitores, esses lyndos, nosso obrigada. Aos leitores de fim de semana, obrigada. Aos leitores que chegaram por acaso, foram ficando e voltam sempre, obrigada. Aos que passaram uma vez, curtiram um post e o divulgaram, obrigada. Aos que lêem quando podem, obrigada. Aos que tratam o blog como a um amigo querido e distante, que se frequenta uma vez por ano mas lembra-se sempre com carinho, obrigada. Aos leitores que tem seu bisca-escrevente preferido e só lê quando é ele que escreve, obrigada. Aos que lêem tudo e acham que todos os posts são escritos pela mesma pessoa, obrigada. E um obrigada com xêro no cangote e cafuné, aos queridos que passam aqui diariamente, aos que comentam, aos que divulgam.

E nessa semana de celebração, andam fazendo a festa com a gente no twitter: Lucia Freitas ‏@lufreitas, Suzana GuaraniKaiowá ‏@sudornelles, Cristiane ‏@_Cris_Rangel, Escrever dói ‏@fuiobrigada, Patricia ‏@SampaioPatricia, Cadu ‏@cadulorena, Márcia ‏@fimdepapo, Deh Capella @dehcapella, Silvia Sales @silviarsales, Miss Beauvoir @missgarden, renata correa ‏@letrapreta, Chico Tiago ‏@FTiagoCosta, Brukmüller ‏@PaulaBruk, Black soul Foda ! ‏@Jorge_Maravilha, Aline França ‏@lili_france, Maria S. Magnoni ‏@Salmagnoni, Dani Bispo Guadalupe ‏@lelibispo, Marcos ‏@marcosfaria70…

Festejaram em comentários gentis na nossa página no Facebook: Lilian Angel, Alessandra Trindade, Carolina Simões, Welber Santos, Fernando Amaral, Carlos Alberto Heillman, José João Louro, Aureliano Monteiro Neto.

Responderam nossa perguntinha e escolheram seus posts queridos deste ano:

Mone Gardênia: Uma Mulher Casada Incrivelmente Biscate.

Adriana Torres: Quem Não Curte Um #Brega?

Soraya Souza Guarani-Kaiowá: Biscate Casada

Selma Carvalho:  Viver, Nossa Maior Oportunidade

Welber Santos: Não Posso Ficar Nem Mais Um Minuto

E aqui, na caixinha de comentários do clube, tivemos a Alessandra falando da programação de aniversário(Que maravilha! Já fiquei toda animada para comemorar o aniversário deste querido clube. Vida longa para o BSC! <3), Gi. Somente Gi comentando nosso post sobre os motores de busca (Eita que a festa tá danada de boa! Li num fôlego só, texto gostoso e arretado!! Eu sugiro que a mulher não se comporte na cama, que seja insubmissa aos comportamentos previamente planejados, “no se reprima, no se reprima”!! Parabéns às biscas e ao Biscate social club, amor eterno!), também sobre os motores de busca, Maria S. Magnoni (Eu ri tanto que cheguei a chorar, de rir, lógico! È muita biscataria pra um post só!! <3) e Mari Biddle que além de dar uma resposta mara pra um dos motores de busca ainda trouxe sugestões (Ri muito e esse post deveria virar uma coluna semanal aqui no biscateiro). Comentários também de Aline França (LOL é cada doideira. Morrendo de amores por esse blog. Sempre!), Danieli (Muito bom! Adorei! Sem contar o que ri! Mas #TrazemosOCuAmadoEm3Dias é a hastag! Hahahaha), José Wagner (Putz,que texto!confetes,serpentinas,poesias….Como não gostar das e dos BISCATES?), Isabela Casalotti (Caramba!!! Um ano já?!?!?!?!? Ai ai, essa vida voa mesmo, só sendo biscate pra conseguir aproveitá-la. Parabénsss!!! Esse blog é mara tem um lugar bem especial no meu coração!).

Tem também os comentários que parecem abraços da Iara Paiva, da JuFinaFlor, dos biscxs convidados: Dandi, Cris Rangel, Tiago Costa, Mari Biddle, Miss Garden e a interação divertida com os comentários dos biscas-escreventes: Augusto, Charô, Lis, Luciana, Niara, Renata Lins, Sara e Silvia Badim.

Vem pra festa você também, deixe seu comentário, escreva um texto para o clube, leia, divulgue e torne o mundo um lugar mais divertido 😉

 

 

A Moça Feia da Ponte

Cora Coralina é goiana conhecida em muitos rincões do país. A sua poesia que retrata os costumes goianos de certa época, que desenha a cidade patrimônio, que enaltece os doces nos tachos nem sempre foi literatura de moça direita. Aliás, desconfio que Cora nunca foi o ue se convencionou chamar moça direita.

Escrever poesia é mister de homem. Pensar, sonhar, desejar, amar também são verbos que só os senhores masculinos podem conjugar. Quem disse? Muita gente disse, mas Coralina não ouviu. A moça feia da ponte só conseguiu escutar o que sua alma lhe dizia: não se subalterne, seja feliz.

Ela foi Aninha e Cora. Ana de batismo, Cora de guerra. Aninha estava sob o jugo do pai e da sociedade conservadora vilaboense. Cora publicava poemas em jornais e montava seu próprio. Foi Cora quem fugiu com o homem divorciado da cidade. E depois voltou para ser aclamada a “maior poetisa de Goiás”.

Rimando as dores de uma sociedade hierarquizada, em que as mulheres estavam invisíveis debaixo de tantos panos e trancadas em suas casas; Ana ou Cora, ou ambas, sabia que não era daquele tempo.

Alguém me retrucou.

Você nasceria sempre

antes do seu tempo.

Não entendi e disse Amém”.

Uma mulher que ousou dizer não e sim, tudo ao mesmo tempo. Amou, fez doce e poesia e encantou o poeta Drummond:

“Minha querida amiga Cora Coralina Seu “Vintém de Cobre” é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia …”

Vinte e sete anos desde que Cora não percorre mais os becos de Goiás. Mas, ainda hoje, é possível encontrar quem a trate como uma pecadora.  Biscatagem não tem época, assim como os julgamentos morais e o discurso conservador sobre as mulheres que se desejam livres. Quem não (re)conhece sua poesia, se limita a perpetuar um machismo rançoso que quer fazer de sua liberdade algo de que se envergonhar.

A poesia de Cora Coralina é de orgulhar os brasileiros e brasileiras, revelando o que há de mais profundo nas relações pessoais no interior desse país.  Além disso, me orgulho de ver em Cora uma biscate em seu tempo.

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* Lis Lemos é nascida no cerrado, escolheu viver perto do mar. De múltiplas palavras: jornalista, feminista, mestranda, mas nada disso é importante. O que importa mesmo é a paixão por pamonha à moda, torresmo e cerveja. Ah, e seu amor incondicional pelas pessoas. Todas elas. — A Lis escreve sexta-feira sim, sexta-feira não aqui no BiscateSC.

B. de Biscate

Quando recebi o convite da Luciana para escrever no “Biscate Social Club” fiquei: contente, lisonjeada, entusiasmada e algo temerosa. Estados de alma esses que não requerem grandes explicações. Até porque os leitores do BSC são inteligentes. E começava já a escrever. Mas. Há um mas. Ou vários, mas vamos com calma. O “Biscate Social Club”, qual  Super-Gestor Fashion Pré-Troika tem uma Missão/ Visão e um  Conceito.

Esta  blog-situation  requer que o escritor/colaborador/ocasional biscateiro, ou seja, moi se identifique tanto com a Missão/Visão como com o Conceito postos a uso. Ora eu não tenho duvidas, identifico-me com a Missão/Visão : “Um tantinho de felicidade por dia…”,  e adoro de paixão o Conceito: «Aqui, somos todas “biscates”»

Acrescento que era- e é –  meu desejo, apresentar em termos aos meus conterrâneos  o “Biscate Social Clube” e a ideia que lhe deu vida. E assim, voltamos ao princípio. Ou seja a…

Este cartãozinho

Este cartãozinho, em que dois felizes jovens WASP mostram a sua felicidade ao lado da pérola que se lê. Ele, o FELIZ homem inteligente, deu-se conta de que mais lhe valia ter a INCRIVEL MULHER, loira e terna, ao lado, do que uma colecção de “biscates”. A colecção não sabemos onde.se posicionaria. Imaginamos. Mas não sabemos. Mais.  Do que é que a loira se deu conta, não nos é dado conta a nós. Mas supomos que estará embevecida quer na FELICIDADE dele, quer na suprema honra de ser considerada uma MULHER INCRIVEL pelo HOMUS INTELIGENTUS – claro que nos fica a esperança de que ela esteja a pensar em algo muito diferente, como, hmm, por ex.:”Quando é que desengomas daqui, paspalho, para eu telefonar ao teu grande amigo Joe e termos sexo fantástico na cama dos teus pai. Adoro que ele seja namorado daquela sonsa da Alicinha…”  Eii! Teresa! Basta.

O cartão provocou espanto, repulsa, hilaridade e pensamentos diversos num interessante grupo de mulheres. A ideia da “biscate” como, alguém que simboliza, de certa forma, o contrário desta ganga toda, está formulada, mais ou menos assim, no primeiro post do blog:

Uma “biscate” sabe que um ser humano inteligente nunca pensaria numa mulher como “parte de uma colecção”. Uma “biscate” sabe que não precisa de estar sempre maravilhosa. Mas maravilha-se com as possibilidades que o aceitar das próprias limitações lhe traz. Uma “biscate” sabe que ‘estar ao lado’, seja de um  homem seja de outra mulher, é só mais uma posição. Como ‘estar por baixo’, ‘estar por cima’… ou ‘estar longe’.

Longe deles, cá para mim.  A menos que o Joe e tal…

Mas o que é uma “biscate”? É que “biscate” calha ser daquelas palavras que, sendo de uso corrente  em Portugal e no Brasil, têm significados diferentes num e noutro país,significados objectivos e subjectivos e tudo isto se torna menos simples do que parece.  O que, aliás, era de esperar, Ou alguém esperava que “biscate” fosse uma palavrinha bem comportada, das que não dão trabalho, obediente, uma palavrinha boaaaazinha!? Dah! E  andava eu a brigar com a descrição mais exacta possível do sentido, do significado de “biscate”, que, nos dicionários sérios e nos populares, – dicionários biscate, pode ser? –  vai desde o puro e duro: prostituta, puta, mulher de vida fácil, passando pelos ambíguos: mulher que anda com os maridos das outras, promiscua, até aos mais suaves: veste-se de forma provocante, dá nas vistas, e mesmo, em nota de rodapé, misteriosamente escondida, a frase:

1)-  No liceu, a rapariga que andava com todos e permitia avanços de natureza sexual era uma biscate.

Uhhh. Andava com todos.Uhhh Natureza sexual. E desde o liceu. Tchhh…Mas não ajuda muito. Tomei nota de sinónimos: vadia, cabra, bitch, allumeuse, slut, não. Tramp.

É isto. Tramp! The lady “biscate” is a tramp. Relembrei a letra (tradução aqui):

 

Ela é A TRAMP, não é uma gaja.

Ela gosta de sentir o  vento no cabelo, gosta de viver sem maçadas, ela está falida e depois? Ela faz o que quer. Ela faz o que acha bem. Ela age pela própria cabeça.

The lady é uma biscate! Q.E.D.

E dou com o significado de biscate neste estabelecimento:

Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Esse é o nosso clube.

Ei! Podia ter poupado trabalho. Mas é isto mesmo e cheguei lá sozinha.

Terei o direito de aqui estar – com elas? Memórias. Três anos e em frente do nariz o terceiro cestinho do dia. O desafio era enchê-lo com ovos de plasticina feitos por mim.  E andei pelos corredores desertos até sair da escola infantil, que odiava, e seguir sozinha até casa. Isto é verdade. Era só um quarteirão, mas percebem a mensagem. Biscate pode até ter três anos. Mas não atura nem mais um cestinho com ovinhos de plasticina. No Crap! Salto 15 anos e há revolução e tudo na rua a cantar, tanto mar, tanto mar. As discussões em casa.Não vai viver sozinha. Vou. Enquanto viver à minha custa não vai. Então vou viver à minha custa. Um curso abandonado – isto foi um engano. A solidão do wild side. Um  namorado despejado à porta de casa, com uma bebedeira enorme. E eu para o taxista: siga, que ele fica bem. No crap. O amor proibido, clandestino. A minha falta de culpa. As unhas que nunca deixei de roer. A semana passada, eu a discutir com o polícia mais velho, enquanto os outros interrompiam a sua tarefa, a tarefa injusta, feita de má fé, para ouvirem, trocistas. Só estou a cumprir ordens minha senhora. E eu, ahaha é agora que digo aquela olhe que em Nuremberga trataram da saúde a muita gente que só estava a cumprir ordens.  E a Ana e eu, de bikinis minúsculos, como há trinta anos, a sentir a areia quente e o cheiro do mar na primeira praia do ano. A rir a rir a rir. Memórias. Posso aqui estar.

Uma biscate faz o que quer. Não tem receio de levantar a voz e por a mão na cintura, varina. Ou de seduzir de baton e vestido à jessica rabbit. Ela pode ser rica, pobre ou remediada. Mas se é “biscate” mesmo, fica do lado dos nada têm. Ela repõe a justiça como pode – a lutar numa barricada ou a morrer por uma causa. A dormir com o boss ou a roubar um pão. Ela ama quem ama e não quer saber se o seu amor é homem, mulher, casado, solteiro, bígamo ou lobisomem. E, se não amar, ela dorme com quem lhe apetecer. E com quantas pessoas lhe apetecer. Uma, duas…Ou três. Ou com a prima do ex-marido. Ou então com ninguém. Ela não é obrigada a. Ela é fiel ou não. Ela tem filhos ou não. Ela pinta o cabelo de azul ou não. Ela decide. Dificil? Põe difícil nisso. Ela vai ser olhada de lado. Ostracizada. Apontada a dedo. Vai andar com a letra escarlate, vai ser apedrejada logo que o zeppelin desapareça. Biscate não pode ter medo. Ela age como se tudo lhe fosse permitido  ou como se nada lhe fosse permitido. A biscate tanto parece Louis L’État c’est moi XIV,  como o mais despojado, despossuido dos seres, parece  a frase pirosa de Me and Bobby McGee, freedom is just another word for nothing left to lose.. É tudo ou nada.

Citando Rita Lee, eh, sua biscate doida, este caminho, como o rock, não é para frouxos.

Mas compensa, ah se compensa. Porque escolheu a Liberdade e honrou a escolha. Porque há outras como ela por aí e a vida é de tal modo também outra nesses lugares. Porque é para ela – sim, vaidade, faz mal? –  é para ela que  foi apedrejada pelos mesquinhos, pelos invejosos, ou tão só pelos que não entendem porque não lhes foi dada a bênção de entender, é para a biscate que génios escreveram, pintaram, esculpiram, compuseram, pensaram.

Ser biscate, para muitas de nós – olha este nós, Luciana! – é um caminho. Poucas mulheres nasceram biscates, como poucos têm o ouvido absoluto, ou a capacidade de ver dentro da cabeça uma demonstração matemática. Há quem tenha morrido na tentativa. Há rendições. Há quem tenha conseguido e faça da biscatagem um estandarte. Há quem lá chegue com toda a simplicidade. E há muito para dizer. Mas entretanto, olhe, venha cá. Sim, estou a falar consigo. Entre, venha conversar, venha ouvir a musica. A musica é sempre óptima aqui. Sente-se, descalce os sapatos se lhe apetecer. Peça uma bebida.

Willkommen, Bienvenue, Welcome.  

Bem –vindos ao Biscate Social Clube.

Teresa Font escreve, a partir de hoje, uma segunda feira por mês aqui no Biscate Social Club. Enquanto não se cadastra como autora (biscate ocupada, ai ai ai) colocamos aqui sua auto-descrição:

Sou mestiça. Lisboeta por nascimento e sangue da Mãe e açoriana por sentimento e sangue do Pai, tenho as metades de mim  separadas por 1.500  km de oceano AtLântico. Ao lado materno devo o amor por esta cidade bela e maltratada e pelo seu rio e o  esbarrar com o Fernando António, mais conhecido cá e no estrangeiro por Fernando Pessoa, em todas as esquinas da vida. O lado paterno deu-me um ADN marinho, guelras desde criança e a estranheza, vulgo maluquice, que caracteriza os insulares. Apaixono-me de caixão à cova, desvairadamente. De envergonhar as Bronte. Gosto com devoção: dos meus filhos, de livros, de cinema, de música, do mar, de vadiar em cidades, de igrejas desertas, de feiras de velharias. Adoro café, vinho tinto, o primeiro dia de praia, jantar com amigos, conversar muito e rir-me até às lágrimas. Vivo com pouco, sou impulsiva, corro riscos, esqueço-me de comer, o meu sono é caótico, os horários delirantes. Tenho uma gata. Trocava a minha alma imortal pelo dom de escrever como Nemésio, Faulkner ou Madox Ford em “The Good Soldier”, mas o  Chandler já era um grande negócio. Falo sozinha. Falo com a gata. Sei de cor metade do “Mau Tempo no Canal”, mas não sei onde ponho chaves. Físico: 1,59 mas digo 1,60, peso ridículo, loira, dolicocéfala. Roo as unhas. Um dia escrevi,  escrevi até ter um livro impresso na mão. Desde aí, já devia ter escrito mais três. Estão quase completos, imprimi-os e tudo. Li algures que este comportamento se chama auto-boicote e tem cura. Mas não tenho dinheiro para terapia, por isso vai ter mesmo que ser à força.

Biscateando na Música: Ana Cañas e a Performance

Por Danilo Marques*
com perfumaria e chamego da bisca Luciana Nepomuceno*

Uma mulher múltipla. Ela é quem diz. E quem diz assim, quase soletra biscate. A Ana, mas podia ser maria, joana, eu ou você. Leveza e versatilidade, suavidade e molecagem. Uma sucessão de elogios. À Ana.

Ana Cañas é das melhores vozes dessa nova geração de cantoras brasileiras – porque uma voz possui um corpo e este corpo transmite uma carga de vontades e desejos -e também porque toda voz é performática. A da Ana é. Ana era estudante de Artes Dramáticas na USP quando em um teste para o teatro se deparou com uma canção de Ella Fitzgerald. Ana se apaixonou por Ella e foi decidido ali que mudaria de papel, seria cantora. Ou seja, até os 22 anos, Ana não seguia nenhum dos caminhos comuns às grandes intérpretes, cantar sequer estava no seu horizonte. E ter a audácia de se reinventar é o primeiro aceno da biscatagi que vamos encontrando nela.

Mais que a coragem de tomar as rédeas e arriscar o sonho, na constelação de forças do timbre de sua voz Ana buscava experimentação um algo mais que não conseguia encontrar nas demais cantoras contemporâneas, um eu lírico livre para tocar o que bem entender, como escolher e encarnando forte uma interpretação particular e festiva – representando uma mulher como ela, como muitas (e daí mais uma tintinha de biscatagi, essa tal liberdade e a vocação festeira).

 música

A autenticidade de sua performance foi reconhecida por nomes como Chico Buarque, Caetano, Toquinho e Seu Jorge (não que uma biscate precise da aprovação externa/masculina, mas boa companhia é sempre bem vinda) desde o tempo em que ainda buscava espaço como no piano-bar Baretto. Seu mérito se acentua ao se saber que, por valorizar sua vontade e desejo, recusou-se inúmeras vezes a tocar por modismo ou a cair no estereótipo chavão mulher bonita que é muito trabalhado na música mundialmente. Ana tinha um foco e sabia bem o que queria. Sua voz de veludo, interpretação audaciosa e a opção por um andamento imprevisível e muito inovador foram criando o cenário para o seu reconhecimento. E pouca coisa é tão biscate quanto escolher ficar fora das convenções.

O que mais surpreende é o tempo curto que sua determinação construiu uma carreira, em menos de cinco anos se dedicando a sua arte e já tinha um cd gravado e assinatura com um selo forte do cenário da música. Ana tinha suas composições já prontas sem nem saber tocar um instrumento com uma atmosfera jazzística, sem fazer jazz. Pra que mais? Já tinha sua voz extravasando de sua garganta.

Seu primeiro álbum Amor e Caos foi muito bem recebido pela crítica. Autoral, audacioso e além do que se rotula habitualmente MPB, a cantora marca nas canções do álbum uma atmosfera jazzística, usando opções estéticas pouco usuais, misturando sons e influências, porém de fácil assimilação devido ao carisma de sua estética meio roqueira dentro de sua poderosa voz de contralto. Destaque pra três das faixas: Devolve, moço, que possui uma deliciosa cadência entre um piano jazz e uma batida bem marcada ao estilo triphop. Super mulher com uma batida de triângulo seduzindo para um ritmo bem nordestino e uma letra super biscate, como o título sugere. Mandinga Não é uma das marcas dos caminhos inusitados, com temáticas divertidas e belíssimas vocais.

Seu segundo álbum veio coroar o trabalho e a força desta mulher que escolheu seu destino. Nunca deixando de lado sua curiosidade com literatura, poesia, teatro e pesquisando ainda mais sobre sonoridades a cantora consegue emplacar hits a parcerias importantes para sua carreira, como a canção Esconderijo, que alcançou estrondoso sucesso nas rádios. Com uma vibração entre o pop e algumas levadas próximas do reggae, encontrando-se ainda mais na performance. Mais surpreende é como amadurece nessa fórmula sem perder sua identidade. Convite para brindarmos com Gira.

Deixa eu cravar as minhas unhas em você
Deixa eu beber, deixa eu olhar
Pra tudo que você não gosta em você
Pra tudo que a gente não vê

Porque eu quero sair dessa casa
Porque eu quero bater as asas
E quero ficar mais solta
E quero ficar mais louca

Às vezes fico cansada
Às vezes fico animada
Às vezes quero você comigo
Às vezes quero o impossível

Cabeça gira, gira, gira, gira, gira…

Curiosa, aberta, imprevisível, fora do padrão e atraente, eis uma descrição bem biscate da cantora que vem fazendo diferença e criando seu espaço na Música Brasileira. Com estilo.

* Danilo Marques é músico, humanista e, de vez em quando, professor. Diz ele mesmo que é um diletante despretensioso, ensimesmado e errante. Dizemos nós que é moço sensível, inteligente e talentoso. Vice-campeão do #BonitoesdaTL, versão 2011. Fez do seu inferno particular um blog: Inferno de Dante e, de vez em quando, aparece no twitter: @dandi_.

*Luciana Nepomuceno é fã e amiga.

Biscateen

Esta era uma biscate adolescente. Biscatinha discreta, secretamente, estrategicamente não ficava com quem se conhecesse – sabem que na adolescência o medo de ser julgada é grande, mesmo entre biscates. Medo dos pais. Medo de engravidar. Medo, medo, medo. É claro, há outras coisas lindas e deliciosas, mas o medo está sempre lá. Ela porém não queria mostrar que era adolescente como toda outra adolescente.

Biscateen, vamos chamá-la. Ela ouvia as colegas, que um dia haveriam de ser amigas, talvez muitos anos mais tarde. Experiência zero. Era ela a primeira. Primeira a transar, a ficar com mulheres, a ter um trabalho, viajar sozinha, enfim. Como tantas outras Biscateens, chegara até os 15 lendo muita revista Capricho, numa época em que a internet não era lá muito disseminada e que não havia grandes e fáceis fontes de informação e espaços online para troca.

A revista Capricho dessa geração de Biscateens, porém, era outra. Moda e homens tinham algum espaço mas não muito. Havia séries de reportagens ensinando a fazer coisas diferentes, incentivando incursões em novas experiências. Havia matérias sobre drogas, aborto, sexo, sempre num tom não moralista (mas tampouco antimoralista, afinal de contas) que não se vê mais em qualquer mídia que dialogue com adolescentes. Talvez estejamos num momento de muito backlash. Vai saber.

Bem, pois mesmo no tom possível e não moralista da época, uma preocupação rondava a cabeça desta e das demais Biscateens: serem “usadas”.

Quem nunca ouviu, usou ou pensou nessa expressão, “ser usada” por alguém? Via de regra, significava que alguém “brincaria” com seus pobres coraçõezinhos femininos, românticos, inocentes. A sexualidade adolescente, para muita gente por aí, é uma mera curiosidade e nada tem de autonomia. Que erro.

Pois a Biscateen resolvia esse impasse é com um belo de um “foda-se”, recusando o papel constante de bestinha apaixonada. Protegendo-se decidia, então, era “usar” as demais pessoas também. Afinal, entrar com essa consciência toda na sexualidade lhe permitia inclusive mais liberdade. A obrigação da paixão, sentia ela, era uma prisão sexual. Um limite a mais, do qual ela não fazia questão nenhuma.

Pois a Biscateen cresceu e aprendeu mais tarde a se apaixonar com alguma segurança. Sempre, porém, com muito pouca ingenuidade. Ingenuidade, aliás, na qual não acredita partindo de qualquer ser humano que seja, até hoje. Muito menos sobre a própria sexualidade.

Os Mino Pira na Biscatagi

Guest Post, por Augusto Mozine*

Eu já tentei, fiz de tudo pra te esquecer
Eu até encontrei prazer, mas ninguém faz como você
Quanta ilusão, ir pra cama sem emoção
Se o vazio que vem depois só me faz lembrar de nós dois

Nelson… cê já pegou uma Biscate? não sabe o que é Biscate… ah, meu saco! eu explico. como diz o Chico, fio, Biscate é quem te chama pra sambar, te leva pra benzer e vai pegar uma praia… capitou? ainda não! raios… vê se entende então: uma Biscate é quem vive na gandaia e espera que você a respeite; é quem toma conhaque com o tíquete do leite e te serve o pitéu na cama… é alguém pra, por fim, casar na igreja e fugir pra Bahia pra ver o sol nascer…

Agora cê entendeu, né! tinha isso na sua época? chamava cortesã… humm, sei… você pirava nelas também, né!?! então você sabe como é pegar uma Biscate (ou ser pegado, tudo que sobre, desce) fio! fala se não é irado! eu lembro daquelas da minha adolescência… putz, Nelson… toda vez que tinha dança da vassoura nas festas americanas era uma coisa!

Tinha que esperar a hora certa de dançar com a Biscate, não era em qualquer música… enquanto o Rodriguinho d’Os Travessos [uooo-ho-how] não mandasse um “sorria, que eu estou te filmando”, nem adiantava… por quê? ora bolas, porque, Nelson! Porque existia um código pra aproveitar a Biscate da sua vida! vê o vídeo e presta atenção…

Era assim: “toda vez que eu vejo vocêêê” – entrega a vassoura pro menino bonzinho que tava com a biscate; fala oi; espera ela dar um sorrisinho e abaixar a cabeça – “eu sinto uma coisa diferente [diferentiii]” – abraça ela pela cintura, sem indecência e chama ela junto na pegada – “toda vez que eu penso em vocêêê  [uhmm-humm] / te vejo nos meu olhos tão carente” – cantando no ouvidinho dela… se ela é Biscate, Nelson, pronto! desmanchou…

Na próxima estrofe, meu querido, começa o jogo! “por que você não cola do meu lado?” – ela deixa você entrelaçar a perna em meio às dela – “esquece os grilos todos do passado” – ela desce uma das mãos da sua nuca para as suas costas… é a senha pra você sair da cintura e segurá-la pelos quadris – “vem comigo e tenta ser feliz” – é a hora da cafungada no cangote…

Se até aí deu tudo certo, fio, não tem mais erro… continua a música: “pare de dizer tá tudo errado” – aquela rebolada – “deixa eu logo ser seu namorado” – já tem pitu no dendê – “o resto é o destino é quem diz” – aí rola o beijo desentupidor de pia que vai durar todo o refrão…

Mas espera, Nelson! ainda não acabou…é na repetição do refrão, naquela hora em que o Rodriguinho já está em êxtase com o cavaquinho chorando e cantando com a cabeça pra cima e de olho fechado, que vem o melhor!!! é aí que você reconhece a nata da biscatagem… vem o tão esperado direito à encoxada…. ahhhh, o direito à encoxada…

É tipo assim… o beijo acabou e o Rodriguinho tá esgoelando um “sorria, que eu estou te filmando” – ela tira as suas mãos dos quadris dela, vira de costas e faz com que você a abrace envolvendo a barriguinha – “sorria, o coração tá gravando / o seu nome aqui dentro de miiim [uooo-ho-how]” – ela dá aquela reboladinha no compasso da música e você passa o queixo no pescoço dela e o nariz na orelhinha – “sorria, que o prazer já vem vindo” – a encoxada tá na velocidade cinco com direito a beijo – “sorria, nosso tá tão lindo” – uma mão espalmada na barriguinha, a outra levemente abaixo do peitinho; a festa americana inteira parou pra gritar e apontar o dedo pra vocês… claro que já tem um sacana te cutucando com a vassoura – “não quero ver você tão triste assiiiiim” – aí tem que voltar à decência… cara vermelha e a boca babada…

Ah, Nelson! o bobó derreteu… Nelson. Nelson?? tava fazendo o que no banheiro, fio? escutou o final? pois é, Nelson… os mino pirava na biscatagi…

*Augusto Mozine é desses. Desses que chega conquistando espaço. Diz-se por aí que ele não gosta de se definir, mas nós por aqui dizemos que é cientista social e surrealista. Se você passar quietinho e com atenção, vai ouvi-lo conversando com estátuas enquanto escreve nonsense pra quem quiser… Se espalha entre O Blog que Habito, Pode isso, Nelson? e Hipérbole Política (um segredinho: é um inveterado apaixonado, sofre e aproveita o melhor e o pior que as pessoas estão dispostas a oferecer…). Quer mais? Segue ele no twitter: @Mozzein

Coxinha e Pão de Queijo

Por Mari Biddle, nossa Biscate Convidada*

Na minha recente viagem ao Brasil, um primo reclamou para mim do outro primo-coxinha que, está o tempo todo implicando pelo fato dele usar brinco. Que a todo momento quando o vê pergunta – E aí, não vai tirar esse brinco? Você acha que vai poder usar brinco em corte? (primo vai se tornar advogado em poucos meses).

Eu tenho primo coxinha, você tem primo coxinha, todos tem ou irão ter um primo coxinha (ficou com fome de saber o que é? leia aqui). Mas o que eu queria dizer é que contei minha história de vida para o primo-do-brinco  na tentativa de deixar o bichinho melhorzinho. Fiz um resumão, claro, que sou uma biscate rodada e são necessários tempo e muitos copos de vinho para eu dar conta. Meu primo-do-brinco acha que a vida dele fica bem mais difícil com o outro primo chatérrimo pegando no pé. Eu concordo. Mas sabe o que é mais chato, muito mais chato do que isso? É pertencer à mesma família e ter entrado no mundo da biscatagem ainda mocinha.

Ser biscate no interior do Brasil, nos anos 80/90, é só para as fortes. Quem dera tivessem implicando somente com meus brincos. O negócio é que nasci com vagina e não dei moral para os decretos machistas que ouvia na época da juventude. –  Em mulher pega tudo, em homem não pega nada. – Se porte como menina direita! – Eu não dei ouvidos e fui pegando tudo. Ou todos. Não fugi ao clichê e peguei menino atrás da igreja, sim. Não entendia porque meninos podiam tudo e meninas não podiam nada. Mães dizendo para prender suas éguas que meus cavalos estão a solta. Ah, mães tão cheias de classe, né? Claro, eram mães só de meninos. E eu pensando que seria muito mais simples ensinar mocinhos e mocinhas a encapar antes de usar e só.

Era muito chato ser biscatinha no interior, mas eu não me ative ao falatório. Eu fui feliz. Passava as férias lá sendo ‘a moça da cidade, aquela filha do fulano que não vale nada’. Sei que os meninos que peguei, muitos devem ter ‘jogado meu nome na lama’, contado vantagem, falado ‘mal’ de mim. Se fiz a fama, deitei na cama. O primo não entende que difícil mesmo é ser biscate no interior.

Daí que agora eu moro no exterior e os faladores me colocaram noutra categoria. A biscate tem rótulos que não acabam mais. Como me casei, entrei na categoria ‘ex caçadora de gringo, louca por um green card, etc’ – Ser biscate nos EUA tem sido mais simples. Até ir ao SlutWalk eu fui. Fui ver o que as biscates daqui tinham. Fuço daqui e dali e percebo que estamos todas no mesmo barco. E vou levando. Tem biscates expatriadas que gostam de cozinhar. Eu sou uma delas. A gente sente saudades. Fuça lojas para descobrir temperos brasileiros, faz amizades com mulheres maravilhosas que nos ensinam como fazer determinadas receitas.

Trouxe pra biscatear com vocês uma receita que veio de outra expatriada. Se você é mineira, mora no Brasil e faz pão de queijo de olhos fechados, essa receita não serve para você. Só funciona se você mora fora e tem que se virar sem o queijo ralado que está a venda em qualquer esquina do Brasil.

Faça a receita, puxe a cadeira e me chame no Skype. As impressões de ser biscate no Brasil ou no exterior mudam, óbvio, de pessoa para pessoa e essa é a minha. Então, vamos à Receita Pinduca de Pão de Queijo. Primeiro, as medidas (não as minhs, que são ótimas e ainda causam impressão na praia):

5 copos de Polvilho Doce-Azedo, 2 copos de leite, 1 copo de óleo, 5 copos de queijo mussarela, 1 colher de sal e 3 a 4 ovos.

Aí, faz assim: coloque o polvilho em uma bacia – com jeitinho, com jeitinho. Misture leite, óleo e sal, biscate ama diversidade e misturas imprevistas, esquente um pouco as coisas: ferva tudo junto. Tá quente? Bem quente? Despeje a mistura em cima do polvilho doce pra escaldar a massa. Mexe, mexe, com uma colher de pau. Deixe esfriar (oh, yes, altos e baixos, vai e vem, o movimento é sexy). Após esfriar, misture o queijo mussarela ralado. O resto é fácil – mais fácil, eu deveria dizer – acrescenta os ovos, um a um, sovando a massa até que ela fique mole e grudando nas mãos – a massa, a massa. Deixa tudo na geladeira por uns 40 (quarenta) minutos – dê tempo ao tempo, uma biscate aprende – o período na geladeira vai ajudar a enrolar tudo depois. Aí, faz as bolinhas – não esqueça de untar as mãos com óleo. Uma dica: quanto mais mole você quiser a massa, mais ovos deve usar. Prontinho: deixe assar de 12 a 15 minutos e depois use a boca…pra comer, claro.

*Mari Biddle é cientista Social, com um xodó por Antropologia, Cinema e Literatura e louca por sushi. Mais? Feminista, atéia e atualmente monógama. Vive no aumentativo: lindona, mãezona e amigona. Tem um blog: Corpo Indisciplinado onde usa as vírgulas e o humor como quer.

Alter Ego de Biscate

Se me perguntassem quem eu gostaria de ser eu responderia: eu mesma, porque, bom, minha vida é boa e dá um certo trabalho ajustar-se a um corpo, um pensar, um sentir. Então, respostinha rápida: eu gostaria de ser eu. Mas se fosse de todo impossível e tivesse mesmo que pular pra outro canto, escolheria ser a Scarlett O’Hara. Pra mim é a maior personagem do melhor filme já feito (sim, eu sou superlativa). É também, a mais repetidamente considerada biscate. De forma atemporal, inclusive.

“Nothing modest or matronly will do for this occasion!”

Se você não sabe quem é Scarlett O’Hara, baby, é hora de rever os seus conceitos. Mas sou boazinha (#not) e vou dar umas dicas: ela é personagem de um romance sobre a época da Guerra Civil dos EUA escrito por  Margaret Mitchell e que resultou em uma adaptação cinematográfica, produzida por Selznick. Pra ajudar a entender como os motivos das condenações de biscatagi assim como a moral prevalente mudaram pouco, informo que a Guerra Civil Americana ocorreu entre 1861 e 1865 (uma leitura deliciosa sobre o livro e a personagem foram feitos pela Caminhante Diurno aqui)…

Um pequeno resumo não do romance mas das acusações de biscate:

Scarlett é dita biscate quando, jovem, solteira e desimpedida, gosta de receber a atenção e amizade de vários rapazes. Eles não tem culpa, coitados, são “enfeitiçados” pela biscate malvada e sedutora. Sobre a situação, a pérola que volta e meia reaparece, só trocando o primeiro verbo: “os homens flertam com estas mulheres, mas não casam com elas” (os homens transam, comem, agarram, namoram, etc., mas não casam com elas…pareceu familiar?).

Scarlett é vista como biscate por, viúva antes dos 20 anos, não aceitar viver o resto da vida à sombra da lembrança do marido, sem rir, dançar, encontrar com as pessoas…

Scarlett é encarada como biscate por, ainda que amorosa, não ser uma mãe nos padrões convencionais, preferindo um filho a qualquer outra experiência na vida. Ou seja, uma pessoa que é mãe nunca mais pode ser mulher, trabalhadora, amiga, esposa…

Scarlett é considerada como biscate por casar 3 vezes tendo como critério a avaliação de suas necessidades e não o mito do amor romântico convencional (aliás, adoro que ela se casa só pela “diversão”).

Scarlett é dita biscate por ser abordada, assaltada e quase estuprada por estar na rua sozinha à noite. A culpa é dela, que provocou…. (ops, parece com alguma coisa do cotidiano?).

Scarlett é vista como biscate por estar sozinha em uma sala, abraçada com um amigo casado (só por curiosidade e a respeito da suposta rivalidade entre as mulheres, a única pessoa que a defende é sua amiga e esposa do tal cara casado).

Scarlett é identificada como biscate por tocar sua vida, decidir o que quer, trabalhar por isso, negociar “feito homem” pra fazer seu negócio crescer e garantir estabilidade pra sua família.

Scarlett é a anti-heroína. Ela é julgada o tempo todo mas dá de ombros, diz seu mantra: “eu penso nisso amanhã” e segue desejando, mudando, querendo, lutando, amando, sendo cada vez mais quem ela se constrói, com suas dúvidas, com seus anseios, sabendo-se diferente da maioria, ponderando entre adaptar-se e ser quem é. Sofrendo também, claro. Mas seguindo. Forte. Inspiradora.

Também eu, Scarlett, juro que nunca mais passarei fome.

E não é de nabos que estou falando.

Como "nasce" uma biscate?

Quem começar a ler este texto, provavelmente, espera que eu dê (dar, verbo tão associado às biscates) um passo a passo de como “iniciar-se” no mundo da biscatagem…

Mas para isso, não existe iniciação. O correto seja, talvez, uma inquietação. Uma série de perguntas que nunca foram completamente respondidas. Uma necessidade de romper com verdades que acostumaram-se a ser (e sempre vão querer ser) absolutas. A biscate é inquieta. Ela busca por respostas. Rompe com as verdades absolutas. E assim, ela segue. Viva, como ela só. Encarando de frente as consequências de suas escolhas.

Só por ser assim, aos olhos de quem realmente mantém o status quo , ela será eternamente biscate. Ou  puta. Ou vadia. E só aos olhos dessas pessoas ser vadia, puta ou biscate é um problema. Daquelas incorrigíveis, que ousam acreditar que podem sim ser donas delas mesmas.  Que podem lutar por várias causas. Daquelas que andam por aí, com shortinhos curtinhos, chocando o mundo com a sua liberdade. Toda mulher livre é disponível. É inevitavelmente, biscate.

Biscate, eu? Sim, eu. Poderia ser você. Sua amiga. A vizinha bonita da casa ao lado… Menos a sua mãe, porque mãe é santa. É sagrada. Mexer com mãe é muita sacanagem. E sacanagem é coisa de biscate!!!

Biscatagem não escolhe cor, religião ou classe social. Ela escolhe mulheres – ou seriam as mulheres que a escolhem? Ela é tão plural quanto nós mesmas somos e muitas vezes, reprimimos. Só para não parecermos… Biscates!

Essas biscates são como ervas, daquelas que crescem sobre o concreto. Matam “mil leões por dia” para seguirem seus caminhos em paz. E como fazem barulho! São insuportáveis aos olhos pesados da sociedade. Elas são um exemplo de como uma mulher não deve ser. De como uma mulher direita não deve ser. Mulher direita não deveria gritar. Mulher direita deveria viver em silêncio e dizer sempre sim. Mulher direita, quando lembrasse de rir de si mesma e de sua desgraça… deveria ser sempre bem baixinho, tá? Mulher direita deveria esperar sentada pelo seu provedor. Deveria aprender, com muito esmero, que só é digna se agradar a todos. Sim, a TODOS. Porque a todas não seria possível, já que, nessa lógica, a mulher é invejosa, falsa e nunca gosta de uma “concorrente”.

E mesmo depois de tudo isso, digo com veemência que prefiro ser biscate. Foi sendo biscate que aprendi que sou dona do meu destino. E, ai de quem tentar me calar.


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