Carreira, sonhos, escolhas

Desde hoje de manhã, essa imagem está circulando pela minha TL no fêicebuque, postado por várias amigas, com comentários entre divertidos e irônicos:

carreira

Um texto, a meu ver, bem-intencionado, sem dúvida. Que prega a autonomia de “seguir seus sonhos”, ao invés da submissão de “seguir o homem”. E continua com a afirmação sobre a carreira.

Embora seja bem-intencionado, me parece que o textinho está cheio de armadilhas. A primeira sendo, sem dúvida, essa de “seguir homens” no lugar de “sonhos”. O que é seguir homem? Todo casal pode se deparar, em algum momento da vida, com essa questão: um dos dois tem uma oportunidade de trabalho bacana no exterior ou em outra cidade, e o outro tem que decidir se vai junto ou não. A primeira pessoa que me vem à mente, nesse sentido, é minha própria mãe. Ela tinha um trabalho que a fazia feliz e a preenchia. E, um dia, meu pai foi convidado para ir para Brasília. Longas conversas em casa a esse respeito: afinal, tinha gente que sugeria que dava para passar a semana em Brasília e voltar no final de semana. Mas esse não era o propósito ali, a ideia era ter uma casa, viver mesmo juntos, aqui ou em outra cidade. Fora que voltar toda semana ficava caro demais. Então ela foi. E, sem dúvida, foi doloroso deixar o trabalho que amava. Mas foi uma escolha: viver comporta riscos sempre.

Conheço também a versão masculina do dilema: me lembro de amigo cuja esposa teve uma oportunidade imperdível…. na Austrália. Ele me dava carona pra faculdade, então a gente conversava sobre isso todo dia. A insegurança, a incerteza. O filho pequeno. Ele foi, largou o trabalho, encarou o machismo todo (seguir mulher é muito mais malvisto na nossa sociedade) e fez uma nova história. Na Austrália.

Outro amigo, casado com uma pessoa que conseguiu trabalho em um organismo internacional desses de postos itinerantes, se reinventou como fotógrafo e cuidador dos filhos. Está bem feliz, parece.

Tudo isso pra dizer: escolhas. Perde-se algo, ganha-se algo. Uma relação é uma relação, não se trata de (apenas) “seguir” o homem ou a mulher. Nada está dado, tudo deve ser conversado. Escolhas conjuntas, enfrentamento de dificuldades. Ninguém disse que seria fácil (ah, disseram? te enrolaram, perdão). E se, de maneira geral, as oportunidades parecem aparecer mais pros homens,  isso não é decorrente das relações, mas da dinâmica da sociedade e do mercado de trabalho. Aí sim algo que a gente deve lutar pra mudar.

Acrescentaria que, no caso dos exemplos acima, de alguma forma, a escolha “deu certo”. Só que não há garantia: pode dar tudo errado, sempre. Você pode ir e descobrir que aquela história já era, ou se apaixonar por outra pessoa, ou … enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo. Não esquecer disso, nunca.
A segunda parte, do meu ponto de vista, é mais problemática ainda. Primeiro porque liga “sonho” e “carreira”: ora, quem pode dizer, em sã consciência, que faz a carreira dos sonhos? Chutaria que pouquíssima gente. A gente trabalha no que dá, não no que escolhe, porque assim é a sociedade capitalista. Se você não for uma herdeira cujo pai está disposto a bancar seu “sonho”, se você não tiver tido a oportunidade rara de estudar exatamente o que queria e conseguir um trabalho que a preencha, bem…. trabalhar é apenas uma necessidade. A gente encara, a gente vai levando, dias melhores, dias piores. A gente tenta fazer direito, quando é possível. Cumpre o necessário. O que pedem. O trabalho te remunera, às vezes até adequadamente. Mas “sonho”? Sonho pra mim é outra coisa. E é importante separar, senão a gente vai encarar uma vida inteira de frustrações.

preguica

E aí a gente chega ao final do texto, sobre a sua “carreira” que nunca vai dizer que não te ama. Bem, sim, vai. Até Roliúde tá cheio de filmes em que as pessoas dão tudo de si, emprestam a identidade à firma, se entregam, fazem o seu melhor e…. corte de pessoal. Redução, realocação, “racionalização”. Assim é o estranho e mau mundo em que a gente vive: os objetivos das empresas não têm absolutamente nada a ver com deixar você feliz. Pode, em algum momento, coincidir. Você pode dar a sorte (e é sorte, não se engane) de trabalhar num lugar acolhedor. Mas certamente não é a regra. E mesmo o lugar acolhedor, ora, tem que ter retorno compatível. Senão, babau. O dono ou o chefe pode até chorar com você: isso não vai impedi-lo de realizar as demissões que a empresa considera necessárias.

E quando, de uma hora para outra, as leis ou as técnicas mudam e seu trabalho da vida inteira passa a não ser mais demandado, passa a não ser mais necessário ou mesmo permitido? Me lembro de um documentário que mostrava pescadores de baleia, que precisavam ser realocados já que aquilo não era mais permitido. E aí? Me lembro também de tantos artistas gráficos maravilhosos que foram encostados por não saberem operar programas de design, das datilógrafas que, de uma hora para outra, deixaram de ser necessárias num mundo em que a maior parte das pessoas digita seus próprios textos….

Oh, baby, baby, it’s a wild world
It’s hard to get by
Just upon a smile…..

Enfim, acho que o textinho lá de cima tem um ponto: a questão da autonomia. Não “seguir” ninguém. Ir, se quiser. Se tiver ponderado e for melhor. Se você não sabe se é melhor ou não, mas é o que seu coração manda. Não há garantias, mas há responsabilidades. É você, é sua vida. Tome posse dela. Se for possível escolher (nem sempre é), decida por você. Não dá para cobrar do outro. E, sim, um dia ele pode acordar e dizer que não te ama mais. Ou você, vai que.

A parte ruim é que seu trabalho também pode te largar de uma hora pra outra. Aí também não há certezas.

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Uma rosa flutuante


“Dou muito” é percebido como “isso é muito importante pra mim”, quando a questão é apenas “tenho facilidade de dar muito”.

Essa fala aí, desse jeito mesmo, faz parte de conversa com amiga. E eu nem tava falando de mim. Nem tava falando de dar, assim, fisicamente. Era uma conversa sobre outra pessoa – vamos chamá-la de Rosa: uma pessoa querida, generosa, afetiva. Naturalmente assim. Aí ela se apaixona e – aparentemente – entrega tudo: coração, corpo, cabeça. Faz poesia, declaração pública, leva pro parque de diversão, pra passear em Paris ou em Bangu, tanto faz, tudo é uma festa mesmo. Ela é a festa. E enche os olhos de quem vê.

De quem recebe, por suposto. A pessoa fica se sentindo a pessoa mais maravilhosa do universo. A mais querida, a mais amada. A mais.

Aí um dia,  Rosa acorda e pensa “tá meio tédio por aqui”. Pouco movimento, tudo em volta com certo ar de déjà-vu. Poucos terrenos inexplorados. Ou peles. Gemidos já conhecidos.

Levanta, vai tomar banho, faz a mochila e vai. Sem olhar pra trás. Explorar novos universos, viver novas aventuras. Porque dessa matéria-vida ela é feita: intensa, generosa, amorosa e… leve. Escorregadia. Flutuante. Bolha de sabão. Arco-íris. Riacho cristalino.

E a pessoa que se imaginava amada, querida para-todo-o-sempre, cai de alto, em geral. Não entende nada. Terá sido algo que fez? Algo que deixou de fazer? O que terá acontecido? Por que uma mudança tão brusca, se ontem mesmo….?

Pois é. Só que não há explicação. Não há o que entender. Apenas acabou. Porque o que encantava Rosa não era você, ou sequer o relacionamento. Era o novo, a novidade, a aventura, as surpresas, a exploração. Acabou isso? Acabou. Rosa vai. Você fica.

Reescrevendo a história, catando cacos, colando pedaços. Se desfazendo em lágrimas, se enfurecendo. Não há nada a fazer, Rosa foi. Pode até ficar com pena, ela não é insensível: mas aquilo não a toca mais, já está olhando ao longe, na direção do horizonte. Tanto a andar ainda. Tantos caminhos, tantas peles macias, cachos de cabelo, tantas bocas úmidas. Tantos sexos. A vida chama. Ela vai.

Mochila nas costas, vai.

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Sobre cantadas erradas

Random dude at the faculty cafeteria. Must be engineering faculty, telling from his books:
–Wow, you sure eat a lot for such a small woman.
–Wow, you sure talk a lot for such a stupid guy.
Wrong pick-up line, honey. On a very wrong day too.
(Asli Berktay, no facebook)

[Um cara qualquer na lanchonete da faculdade. Deve ser da engenharia, pelos livros dele.
– Caramba, pra uma moça tão pequena, você realmente come bastante.
– Caramba, pra um cara tão mané, você realmente fala bastante.
Cantada errada, querido. E num dia particularmente ruim.]

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Essa aí é uma de tantas. Cantadas erradas. Invasivas. Sem-noção. E num sentido específico: de onde o cara tirou que ele, sem nunca ter visto a moça, poderia dar palpite sobre quanto ela comia? O que será que ele pensou? Que seria visto como um elogio por ela ser magra? Que seria engraçadinho? É apenas invasivo e irritante.

Aí vem a questão: como abordar gente que você não conhece? Acho que se dar conta de que você não conhece é um bom começo. Mesmo que você tenha se encantado com a pessoa à primeira vista: a pessoa não necessariamente se encantou com você – e, sem querer desanimar, a probabilidade maior é de que não tenha acontecido. Assim, se você quer começar algo (uma conversa informal, sem consequências, ou quem sabe uma “amizade ou algo mais”), a dica é: é devagar, é devagar, é devagar é devagar devagarinho…..

Mesmo comentários francamente elogiosos sobre olhos, cabelos ou corpo podem ser percebidos como invasivos. Sim, caro leitor, é isso mesmo: o argumento “eu só estou elogiando” não é argumento. Não se sai comentando por aí dos detalhes físicos de gente que não se conhece. Se você fosse mulher, me arrisco a dizer que isso lhe seria evidente. É prerrogativa puramente masculina sair comentando o rosto e o corpo de mulheres desconhecidas e achar que está tudo bem. As mulheres sabem perfeitamente que desconhecidos, ora, são desconhecidos.

Veja, não estou dizendo que não se deve seduzir desconhecidos e desconhecidas, que não se deve tentar fazer contato, chamar a atenção. A questão aqui é o “como”. Caso você pretenda ser bem-sucedido e não apenas irritante.

O segundo ponto é: tentou e a pessoa não correspondeu? Deixe passar. Deixe pra lá. Não era uma boa hora, não deu certo, não rolou sabe-se lá por quê. Faz parte, né. A segunda tentativa já é um exagero e uma invasão em si.

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Ah, os filmes “românticos” mostram histórias assim o tempo todo? Pois é. Mostram mesmo. Danem-se os filmes “românticos”, que ensinam homens a serem irritantes, invasivos e insistentes.
Danem-se.
Era bom que a gente começasse a aprender de novo a não ultrapassar certas barreiras. A da boa educação, por exemplo.

Sei, é difícil, é contrário ao que seu pai diz, ao que o seu tio diz, ao que o seu irmão mais velho diz. Afinal, sociedade machista tá aí pra isso mesmo: pra perpetuar esse tipo de abordagem.

Mas a gente não ia mudar a sociedade? Tá, a sociedade inteira é difícil, é obra pra muito tempo e muita gente. Mas… pelo menos no nosso cantinho?

Suruba não tem nada a ver com estupro

Por Carlos Pereira*, Biscate Convidado

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Gente que confunde orgia com estupro nunca participou de um ménage mequetrefe na vida. Quiçá nem trepou de luz acessa. Gente que responde com ressentimento aos perigosos mistérios do corpo. Gente reacionária.

Uma suruba séria é repleta de regras ditas e não ditas, subentendidas em cada gesto, alguns bem sutis. Outras criadas no momento, estabelecidas por palavras sussurradas, mas firmes, ditas ao pé do ouvido (“isso não”). Costumo brincar dizendo que numa suruba é que vemos de forma plena o imperativo moral kantiano da lei como instrumento libertador, pois é só a partir da submissão às leis dos ritos é que se pode entregar aos prazeres. Isso para não falar das orgias sadomasoquistas que possui regras ainda mais sofisticadas. Aliás, não por acaso, o estabelecimento de leis é fundamental para a literatura do Marquês de Sade (complemento lógico da lei kantiana, tão bem flagrado por Lacan).

Há uma diferença fundamental entre a economia do gozo da orgia e do estupro: enquanto na primeira tenta-se cultivar o mistério do desejo do Outro (embora em muitos casos se confunda cópula com desejo, mas isso é outro papo…), na segunda tenta-se apagar esse mistério, porque, na verdade, esse mistério não aparece como mistério, mas como estranhamento insuportável, um desconforto que precisa ser eliminado. A menina que “trepa com todo mundo”, que “trepa com bandido”, que “faz isso sempre”, quebra o narcisismo machista e, por isso, precisa ser punida.

Numa orgia, os participantes são iguais, são comuns. Por isso que se pode encenar com liberdade posições de submissão. Há uma interdependência forte entre os participantes e qualquer vacilação nessa interdependência o encontro cessa imediatamente. O estupro não tem nada a ver com isso. No estupro é a força bruta e violenta que se impõe a um outro corpo, submetendo-o aos seus desígnios.

Isso não significa que uma orgia é um mar de flores. Como qualquer comunicação é feita de mal entendidos, os problemas numa trepada coletiva acontecem. Mas impressiona como a preocupação com as regras é imensa (aliás, se percebe a presença de iniciantes facilmente, justamente pela dificuldade de reconhecimento das regras). Orgia séria e estupro estão em campos diametralmente opostos.

Quem tenta fazer comparação entre orgia e estupro o faz por um duplo preconceito (que tem mesma origem): preconceito com aqueles que tem coragem em se permitir a curiosidade com o seu próprio corpo e preconceito com mulheres que se permitem liberdades que mulheres “belas, recatadas e do lar” não deveriam se permitir. No fundo, preconceitos derivados de atitudes ressentidas diante do mal estar gerado pelo desejo do Outro, desejo de lidar com os mistérios do corpo – mistérios perigosos, que devem ser evitados a todo custo.

Em suma: o “inocente” fiu-fiu na rua é muito, mas muito mais próximo da cultura do estupro do que uma orgia séria.

Carlos_Pereira*Carlos Pereira é militante do Partido Socialismo e Liberdade e membro do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia.

Uma história de escola

Por Andréa Dutra*, Biscate Convidada

Eu tenho uma turminha muito querida. São mais jovens e super animados em aprender. Tinha o projeto de sair da escola, mas aquela turminha…a-que-la-tur-mi-nha…acabei ficando.

No início do ano, uma aluna, S., me surpreendeu pela idade, 10 anos no 7° ano. Era ex-aluna da “escola-desejo” dos outros alunos. Falamos muito rapidamente sobre a escola de onde eles vieram e ela me disse que lá era horrível e que não tinha amigos. Achei que era uma reclamação normal. Devia ter tido um ano ruim. Mas me apeguei a ela, como à turma toda, e passei a perguntar sempre a ela se estava gostando, se estava bem (coisa que tento fazer com todos, mas nem sempre funciona)…e ela sempre com um sorrisão no rosto, dizendo que estava feliz. Realmente, ela desabrochou, fez amigos, se diverte com tudo e até os defeitos da escola leva com graça.

Corta pra reunião de responsáveis de hoje. (De responsáveis mesmo. A maioria na sala eram avós e tias).

Comecei conversando com um pai que conheci na semana anterior. O filho, F., fez 15 anos e decidiu que não queria mais estudar. “Professora, pelo amor de Deus, conversa com ele! Não deixa ele largar a escola não!” E vamos lá: “Fulaninho, a escola blablablablabla.” Hoje F., sempre tímido, voltou e veio me abraçar: “Tia, eu voltei!”
Do lado uma senhora, a mãe da S.

_Oi, tudo bem? A senhora é mãe da S.? Ela parece bem feliz aqui, o que a senhora tá achando?

_Professora, a S. tá muito feliz. Deus sabe o que sofri com essa menina. Ela passou 2 anos sofrendo por bullying na outra escola (particular, cara pros padrões do local, cheia dos gueri-gueri). Ela toma remédio todo dia pra dormir. Aqui, graças a deus, sempre que eu pergunto, ela tá sorrindo, tá feliz demais com os colegas, os professores. Ela gosta de todo mundo.

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E eu parei. Caralho, ela tem 10 anos! Ela toma remédio pra dormir. Porque é traumatizada e foi vitimada por outras crianças e professores como eu. E quis chorar. Mas fiquei feliz logo depois, porque ela tá saindo dessa, acompanhada por psicólogos, pela família, pelos amigos e por nós. Fico pensando no quanto tem muito mais que ensino nessa coisa de educação. E o quanto é gostoso estar atento e participar da ascensão do amor. pelo amor.

AndreaDutra

Andréa nasceu no Rio, mas ama mesmo a Baixada Fluminense, e lá satisfaz seu complexo de Xuxa, sendo parada em todo canto por aluno, pai de aluno, mãe de aluno, vó de aluno, filho de aluno…

De perdas virtuais etc.

Sou do tipo que não se desfaz de amigo. Amigo, se é amigo, é amigo. Discordo, discuto, contesto: só que é amigo, ora. E assim será.

Mas esse texto – de que gostei muito – me fez pensar em outra circunstância: aquelas pessoas com quem convivo em redes sociais, algumas que até  já encontrei pessoalmente, e que se desfazem de mim. Assim, sem nenhuma briga, nada: elas me “desamigam”, provavelmente por não concordar com algo que eu disse, que eu postei, ou por terem problema com as pessoas com quem interajo. Por não aderirem à minha opinião, por achar que tenho más frequentações, por se sentir atingidas por uma indireta que não mandei.

Algumas dessas eu gostava de ler, com outras de interagir. Com algumas dessas eu já conversei inbox, já troquei e-mail: um passo à frente nas relações virtuais. Outras ainda eu já encontrei “no mundo real”, já sentei em bar, já tirei dúvidas, compartilhei preocupações e alegrias.
E, claro, é sempre possível brigar. Se desentender de verdade, achar que pra tudo há um limite e que não dá pra continuar daquele jeito. Não é disso que estou falando: é do desamigar fofo, sem aviso prévio: de repente, você vai falar com a pessoa e ela não está mais ali, na praça virtual em que se encontravam todo dia.

A minha reação, nesses caso, é assim, em geral: lamento um pouco pela relação que eu achava que era e não era.

Sinceramente, é só um pouco: porque, de verdade, o que fica mais forte é o “que não era”. E eu sou boa de me adaptar a choques de realidade. Se não era, então… não era. Porque alguém que corta relações comigo por esses motivos, sem nem dar um tchau, afinal, não era amigo, não é mesmo?

Vida que segue.
É aprender a entender a falta, lamentar sinceramente, e seguir adiante. Desapegar, soltar, deixar ir o que não é mais.
(E, sim, eu estou escrevendo um texto inteiro sobre corte de relações virtuais: pequenas coisas que têm a ver com coisas maiores, virtual-real que a cada dia mais são dimensões de uma realidade só.)

Se poupar? Economizar relações? Ficar protegida e resguardada? Não é a minha praia. Não é “do lado de fora”, não será “do lado de dentro”. Prefiro estar sujeita a isso: a descobrir, de repente, que uns que achava que era não eram. Até porque afinal, tem os outros: aqueles que, de verdade, são. E aí é de grão em grão. De clique em clique. De post em post. A gente vai construindo. Desbravando, caminhando, conhecendo. Se escrevendo, comentando, discutindo. Gostando, sim. Gostando, ué. Faz parte.
Bora lá. Me adiciona aí que eu tô com um bom pressentimento.

fogueira

Os homens hétero e a linha de demarcação

Sentar em mesa de bar com uma penca de homens cis hétero acima dos 50 é ter que ouvir uma infinitude de piadinhas sobre a última ida ao urologista, o peso nas costas e similares.
Aí você pode sorrir e esperar passar (mas demora…..).
Ou você pode questionar, e vira barraqueira.

McSorleys

Escrevi isso como status de feicebuque, e, à medida que recebia notificações, fui olhando pro texto e lembrando. E situando. E organizando, pra vir escrever aqui. Não era esse o objetivo – era apenas desabafar algo sobre a minha noite. E não se enganem: a noite foi ótima, foi agradável, foi divertida….  Falou-se de política, da nossa conjuntura líquida e tremelicante…. Era com amigos, pessoas queridas…. Mas teve isso.

Teve isso, tem isso. Isso faz parte. E, no caso, a mesa realmente só tinha homens acima de 50 anos. Mas arrisco dizer que, se fossem mais jovens, talvez não fosse tão diferente. As piadas poderiam ser outras: mas o conteúdo simbólico não iria mudar tanto assim. Homens hétero juntos: esse tipo de piada é tão corriqueiro.

Como comentei depois, o episódio – como tantos outros envolvendo grupos de homens –  me lembrou um filme do Claude Chabrol chamado “La ligne de démarcation”. Não achei o título em português, mas a tradução é ao pé da letra: “A linha de demarcação”. O filme é sobre uma cidadezinha francesa que, durante a ocupação alemã na segunda guerra, acaba sendo dividida em duas, uma parte ficando na zona alemã, outra na francesa. Pois então. Assim me parece o cotidiano dos homens cis hétero brasileiros (digo brasileiros porque me parece que aqui isso é particularmente marcado): uma eterna demarcação de zona. A hétero, em que se encontram, e o “lado de lá”. O “dos outros”. Arriscado e perigoso “lado de lá”. 

As pessoas da mesa certamente diriam (como disseram) que não têm preconceito, que estão do lado dos direitos dos homossexuais, que até têm amigos que…. E no entanto, fazem essas “brincadeiras”. Essas piadinhas. Todo dia, o tempo todo.

Em algum lugar já comentei que ser homem hétero é eterna vigilância. Como sentar, como andar, o jeito das mãos, a entonação da voz…. As roupas, o lenço (nunca jamais em tempo algum), as cores, o corte de cabelo… canso só de listar. Nunca saberia ser homem hétero, sério. Esse homem hétero padrão. É claro que existem outros, que fazem diferente: mas esses sabem que estão sujeitos a ouvir permanentes piadinhas sobre a roupa “de viagem”, sobre o jeito, sobre as cores. Sobre o que são, sobre aquilo de que gostam.

E, mesmo numa mesa dessas, em que, além de três mulheres, só havia homens hétero, uma boa meia hora se passou à base das piadinhas. Que giravam todas em torno do cu apertado. Apertadíssimo. Tão apertado que os dentes até trincam, imaginem. Deve ser difícil também, deve haver algum tipo de exercício específico pra manter o cu tão apertado. dessa demarcação. De como eram homens-machos. De verdade. De como estavam do lado de cá, e não do lado de lá. E por isso as piadinhas.

Fico pensando na educação que gerou isso. No “isso é coisa de maricas”, no “homem não chora” e tantas outras mais. Fico pensando na coragem de quem ousou assumir sua homossexualidade diante desse panorama. Nos motivos de quem não ousou. Porque não queria contar para os amigos de infância. Porque não queria perder esses amigos. Porque não queria decepcionar o pai. A mãe. Os irmãos. Tantos motivos pra não dizer.

Cheguei até aqui no texto e me deu vontade de chorar. Lembrei do Jean Wyllys que vive naquele ambiente inóspito da Câmara dos Deputados. Do que ele deve ouvir todo dia, toda hora. Da coragem, da firmeza.

Do momento em que ele se descontrolou diante de um crápula que exaltava um notório torturador da ditadura militar.

E acabo o texto aqui, porque acabou por conta própria, com uma homenagem a ele: Jean, seu cuspe foi nosso também.

E um recado amigo:
Homens cis hétero brasileiros, melhorem. Melhorem muito.

imagem daqui.

Ele talvez possa estar a fim de você


Eu tenho uma amiga que é essa pessoa: a pessoa anti “Ele Apenas Não Está A Fim de Você”. Queria contar um pouquinho dela.

Mas antes era bom dar uma recapitulada: o livro, esse aí citado acima, é um livro de tese. A tese do livro é a seguinte: todo homem que está a fim de uma mulher vai fazer o possível para ir atrás dela. Vai matar trabalho, vai pegar ônibus de outro estado, vai conseguir telefone, endereço, vai mandar flores…. Enfim, vai fazê-la saber que está a fim. Caso você, mulher, saia com um cara e ele não faça nenhuma dessas coisas em um período curto de tempo, bem…. Ele apenas não está a fim de você. É isso. Simples assim. Não adianta insistir, ele apenas….

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Assim é a tese. E nessa ordem: não é uma pessoa a fim de outra pessoa (essa tese, inclusive e evidentemente, não foi pensada nem funciona para relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero.) É um homem que está (ou não está) a fim de uma mulher. E isso se define em um encontro ou dois. À mulher resta, portanto, exibir seu desempenho máximo, mostrar todos os seus truques, encantá-lo da melhor forma possível, porque…. ali tudo se decidirá. Se você fisgar o rapaz (estou tentando não rir e não soar como uma tia Cornélia do começo do século, mas o tema não ajuda), ele vai dar sinal. Vai aparecer. Vai mandar uma mensagem, um torpedo, um uatzáp, um pombo-correio. Flores ou um presunto da Virginia. Você vai saber. Ele está a fim de você. Se não, amiga, recolha as armas, as purpurinas, os saltos-agulha, as cintas-ligas: não vai rolar. Ele não ficou a fim.

A antítese é essa minha amiga. Vamos chamá-la de Babi. Essa moça faz tudo ao contrário. Os escritores do livro iam balançar a cabeça, desanimados, caso a conhecessem. Imaginem vocês que ela é do tipo que vai atrás. Se interessou? Babi vai lá. Manda mensagem. Entabula uma conversa por inbox. Combina um chope, quem sabe um cinema. Ah, não vai dar? De repente outro dia. Quem sabe. Tá de bobeira? Por que não ligar pro Fulaninho, com quem saiu uma vez no ano passado? No ano passado não rolou. Mas e hoje? A vida anda, junto com a fila. Bora conferir.

Minha amiga nunca pensa que “ele apenas não”…. Ela na verdade paga pra ver. Vai lá saber. Abre espaço pro acaso. Tudo pode acontecer, inclusive nada, já dizia o ditado. Mas ela é da filosofia de que do chão não se passa, o “não” você já tem. Dói um pouquinho no ego, se o cara disser não? Ah, mas tão pouco. Afinal, a vida é essa, não é mesmo? Vida que segue. Pra gente, pra eles. E, com esse olhar, já ficou com muita gente que a dupla de escritores de “Ele apenas” teria descartado de cara. Gente que inclusive deu bolo no primeiro encontro, por motivos variados. Que disse que ia ligar e não ligou. Que ia passar no samba e acabou não indo. O caso é que, muitas vezes, há motivo de sobra pras coisas não terem acontecido como planejado. E outras, o cara é que tava inseguro. Ou com problemas. Ou enrolado com um rabo de história mal-resolvida. Quem decidiu mesmo que ao homem cabia fazer o movimento, e à mulher apenas esperar? A gente não tá no século XXI? Já na segunda década? Isso não era pra ter acabado em algum momento lá atrás? As mulheres não conquistaram tanta coisa, como é que ainda se deixam enredar nesses roteiros bestas, chapados, antigos?

Babi hoje tá namorando um cara que conheceu há tempos. Não sabia dele, mandou mensagem inbox. Acabou chamando prum chope. Deu liga, rolou e estão eles juntinhos. Mas podia também não ter rolado, com já aconteceu muitas vezes. Ou podia ter sido apenas uma saída e nada mais. Quem se importa? A questão é que ela vai lá. Faz o movimento. Cutuca pra ver. Pode ser, pode não ser. Mas quem saberá?

Ah, sim, contrapõe você, tem caras que se incomodam com isso. Que acham que a mulher tem mesmo que esperar que o movimento parta deles. Mas tem certeza que é com esses caras que você quer ter alguma coisa?

Em tempos de “tá dando condição”…

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Algo tem me intrigado nos últimos tempos. É uma pergunta simples e recorrente em conversas com as amigas de todos os tipos: biscates, recatadas, solteiras ou casadas. Como é possível ser gentil, trocar uma ideia, fazer novos amigos sem que o outro ache que você tá a fim, tá dando mole ou, na gíria atual, “tá dando condição”? E ainda, que porra afinal é esse troço de dar condição?

Pra ilustrar, vale lembrar um casinho tão real quanto corriqueiro.

Ele chama ela pra uma cerveja, ela topa. Ela nem sabe se quer mesmo “encontrar ao vivo” , mas o cara parece legal pelas conversas inbox. É amigo de amigos, inteligente, por que não? No dia da tal cerveja o cara dá uma investida e ela recua (sua suspeita de que ele era mais interessante no inbox procede). No dia seguinte o cara manda um inbox indignado: “Se não queria nada, por que topou encontrar?”

O ser humano é de fato curioso… O cara chama pra um chope, você topa. Ok, até aí nada. A única coisa combinada é que vocês vão tomar um chope. Certo? Errado. Tem um determinado tipo de pessoa que acha que ir tomar um chope “sozinha” com o cara é “dar condição”. Nessa lógica, chamar ou dizer “sim” pro chope é “dar condição” pra todo o resto. (E não vou nem mencionar aquele subgrupo que acha que “quando ela diz não, no fundo quer dizer sim.” Ardil 22. Neste caso não tem saída mesmo.)

Então, vamos lá, voltemos ao básico, tantas vezes maltrapilho, maltratado e esquecido.

Vivemos num mundo de sedução. Estamos todos, a todo momento, seduzindo uns aos outros. Isso é bom. É saudável. É gostoso. É biscate. Eu, você, casado, solteiro, padre ou adepto do poliamor, queremos gostar e ser gostados. Daí pro sexo, pra relação estável e pro pedido de casamento há um mundo de possibilidades. Às vezes, comprometimentos anteriores e convenções sociais nos impedem de ir adiante. Outras vezes simplesmente não queremos ir adiante. Queremos parar por ali mesmo, pelo menos por ora. Há ainda as inúmeras vezes em que mudamos de ideia. É aquela velha máxima: depois de um chope, tudo pode acontecer, inclusive nada.

Assim, topar um chope, conversar ou mesmo seduzir e jogar charme não quer dizer rigorosamente nada. Pra que “algo” além da sedução aconteça é preciso que os dois queiram aquele algo específico. E que isso fique claro.

Vamos fingir que o processo de sedução é um jogo de tabuleiro onde a pegação ou o sexo, ou qualquer “algo mais”, sejam o ponto de chegada. Este jogo, a meu ver, só tem uma regra clara: os dois têm que avançar juntos (repito, juntos, essa parte é importante). Pode pular casas? Pode. Se o outro topar, tudo bem, pulam juntos. Pode virar o tabuleiro de cabeça pra baixo e jogar ao contrário? Pode. Começa na pegação e vai caminhando pro “Qual é o seu nome?”, contanto que os dois concordem. Pode ficar várias rodadas sem jogar? Pode. O outro que respire, tenha paciência e vá meditar ou pular casinhas em outro tabuleiro pra se distrair. Se em qualquer momento do jogo alguém decide voltar uma casa, não há o que fazer, além de voltar uma casa. O que realmente não pode é achar que um dá a condição e o outro avança. Ou os dois avançam juntos ou ninguém avança.

 Aí o amigo pergunta: E as mulheres que fazem joguinho? Que dizem uma coisa, mas querem outra? Vamos lá. Sim, há mulheres que fazem joguinho. Há também homens que fazem joguinho. Você não pode saber o que ela/ele quer. Sabe apenas o que ela/ele diz.  Quem sabe do outro é o outro (às vezes nem ele/ela). Mas no nosso caso hipotético concreto, se o outro está confuso, indeciso ou faz joguinho, problema de quem faz o joguinho. Essa pessoa vai ter que aprender a dizer “sim” quando tá a fim e dizer não quando for o caso.

Voltando à nossa historinha do começo… Ela disse sim pro chope porque ele parecia um cara legal e ela quis ver qual é. Ao vivo, achou menos interessante e não quis mais nada. Quando ela viu a  mensagem indignada do dia seguinte, respirou aliviada, ele se mostrou um mané.

Nesse jogo de sedução há um mundo de subjetividade e interpretações possíveis. E se não foi hoje, amigo, quem sabe um dia… Ok, a regra pode não ser tão clara. Mas também não é muito difícil. Qualquer dúvida, é só perguntar. E existe, sim, a possibilidade dela querer só ser amiga.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Palhaçando de lugares

Tem um filme muito lindo do Tim Burton que fala sobre natal. É um desenho. A personagem principal é o Jack, uma simpática caveira que assusta as pessoas no dia das bruxas mas que resolve sair do script e ocupar o papel do Papai Noel na noite de natal… Obviamente o trem descarrilha solto… A dica é ver o filme e – incrivelmente, a versão dublada é excelente, as músicas funcionam excelentemente em português – depois contar aqui.

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Mas a questão toda não é o filme. Este texto aqui, de véspera de véspera de natal, quer dar a ideia mágica da gente se permitir um pouco ser o Jack. Sair da casinha, despirocar, descabelar o palhaço que mora na nossa alma. E faço este convite com uma única e expressiva vontade – ou desejo, palavrinha lúbrica parente de algum grau da vontade – que é o de possibilitar gozar em outras frentes, reconhecer outros espelhos, calçar sapato na cabeça, calcinha no peru, cueca na prexa. Sair como o Jack numa noite de natal.

Tá… fica com cara de auto ajuda este palavrório todo. Eu sei, sabemos. Mas juro que não é esta a intenção deste texto pré natalino. Esses dias de dois mil e quinze tem pesado demais. O ar tá carregado de intolerâncias, de panelas com bile, de sabedorias definitivas, de papai noel de vermelho mesmo que faça um calor da porra lá fora. Não importa aqui quais as concepções, posições, preservativos que se use, abuse ou cante.

O desejo é outro, é se permitir estar em outro papel. Buscar nesta transitoriedade fugaz alguma empatia, algum elemento novo para caraminholas, uma nova camisola para as ideias, um samba canção para vestir argumentos.

No filme do Tim Burton, apesar das cousas aparentemente não darem certo, dão: e muito…

2015: ano de luta, resiliência e visibilidade

Minha retrospectiva poderia começar na semana passada, quando uma mulher virou motivo de chacota e agressão de todo tipo, moral e física, ao ser vista e filmada pelo marido entrando no motel com outro homem. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais e, inclusive, na imprensa.

Fabíola, a mulher pecadora. A mulher que “precisa ser perdoada”. A mulher traidora. A mulher que merece apanhar. A mulher puta. Tudo no mesmo pacote  do moralismo e machismo destilados no ato do marido, do amigo que filmou, dos comentaristas de portal, daqueles que viralizaram um vídeo que deveria muito mais horrorizar pela violência que promover riso.

E nisso reiteramos nossa percepção desalentadora: violência doméstica parece não ser da conta de ninguém. Mas, a sexualidade alheia, especialmente a de mulheres, ah, esta, sim. Esta é da alçada de todo o mundo.

A única compensação é que o marido vai ter que pagar indenização à mulher e será acionado pela justiça pelos crimes de injúria, violação de intimidade e dano ao patrimônio privado. O cinegrafista do episódio também responderá criminalmente pelas agressões físicas e verbais.

Mas, minha retrospectiva poderia ir pra trás mais um tiquinho e falar dos diversos crimes de feminicídio, estupro, violência doméstica e transfobia que tenho acompanhado pra atualizar a comunidade do Não foi ciúme. Com alguns crimes claramente premeditados, como aquele do marido que estava cavando uma cova embaixo da cama pra enterrar a mulher depois de matá-la. Foi o filho do casal que descobriu o buraco e fez a denúncia.

Vou nem colar o link. Porque, olha.

E tem ainda o Mapa da Violência 2015, que revela que 50% dos homicídios cometidos contra mulheres são por familiares. E, mais ainda, que entre 2003 e 2013 o assassinato de mulheres negras aumentou 54%, ao passo que o de mulheres brancas diminuiu quase 10%.

No entanto, minha retrospectiva também tem Marcela Nogueira dos Reis que, do alto dos seus 18 anos, foi uma das protagonistas dos protestos contra o fechamento das escolas paulistas, que seriam “reorganizadas” pelo governador Geraldo Alckmin. “Minha única arma é a caneta”, ela diz. E me encho de fé e esperança.

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Minha retrospectiva também tem Nathalia Santos. Negra, pobre, moradora de periferia e cega, Nathalia é encantadora. Mesmo após viver um episódio cruel na PUC de violência capacitista, racista, misógina e classista, a moça busca se manter inteira e emociona pelo tanto que é lúcida, didática e empoderada.

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E minha retrospectiva tem Elza Soares, eleita pela BBC como a cantora do milênio. Estive no fantástico show “A mulher do fim do mundo”. E me derreti de amor e de gratidão! Se a vida fosse apenas beleza, prazer, emoção, resiliência e luta, seria Elza Soares.

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Se minha retrospectiva fosse encarnada numa pessoa, sem dúvida alguma – e não poderia ser diferente -, seria numa mulher negra.

Ou em todas.

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Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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