2015: ano de luta, resiliência e visibilidade

Minha retrospectiva poderia começar na semana passada, quando uma mulher virou motivo de chacota e agressão de todo tipo, moral e física, ao ser vista e filmada pelo marido entrando no motel com outro homem. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais e, inclusive, na imprensa.

Fabíola, a mulher pecadora. A mulher que “precisa ser perdoada”. A mulher traidora. A mulher que merece apanhar. A mulher puta. Tudo no mesmo pacote  do moralismo e machismo destilados no ato do marido, do amigo que filmou, dos comentaristas de portal, daqueles que viralizaram um vídeo que deveria muito mais horrorizar pela violência que promover riso.

E nisso reiteramos nossa percepção desalentadora: violência doméstica parece não ser da conta de ninguém. Mas, a sexualidade alheia, especialmente a de mulheres, ah, esta, sim. Esta é da alçada de todo o mundo.

A única compensação é que o marido vai ter que pagar indenização à mulher e será acionado pela justiça pelos crimes de injúria, violação de intimidade e dano ao patrimônio privado. O cinegrafista do episódio também responderá criminalmente pelas agressões físicas e verbais.

Mas, minha retrospectiva poderia ir pra trás mais um tiquinho e falar dos diversos crimes de feminicídio, estupro, violência doméstica e transfobia que tenho acompanhado pra atualizar a comunidade do Não foi ciúme. Com alguns crimes claramente premeditados, como aquele do marido que estava cavando uma cova embaixo da cama pra enterrar a mulher depois de matá-la. Foi o filho do casal que descobriu o buraco e fez a denúncia.

Vou nem colar o link. Porque, olha.

E tem ainda o Mapa da Violência 2015, que revela que 50% dos homicídios cometidos contra mulheres são por familiares. E, mais ainda, que entre 2003 e 2013 o assassinato de mulheres negras aumentou 54%, ao passo que o de mulheres brancas diminuiu quase 10%.

No entanto, minha retrospectiva também tem Marcela Nogueira dos Reis que, do alto dos seus 18 anos, foi uma das protagonistas dos protestos contra o fechamento das escolas paulistas, que seriam “reorganizadas” pelo governador Geraldo Alckmin. “Minha única arma é a caneta”, ela diz. E me encho de fé e esperança.

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Minha retrospectiva também tem Nathalia Santos. Negra, pobre, moradora de periferia e cega, Nathalia é encantadora. Mesmo após viver um episódio cruel na PUC de violência capacitista, racista, misógina e classista, a moça busca se manter inteira e emociona pelo tanto que é lúcida, didática e empoderada.

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E minha retrospectiva tem Elza Soares, eleita pela BBC como a cantora do milênio. Estive no fantástico show “A mulher do fim do mundo”. E me derreti de amor e de gratidão! Se a vida fosse apenas beleza, prazer, emoção, resiliência e luta, seria Elza Soares.

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Se minha retrospectiva fosse encarnada numa pessoa, sem dúvida alguma – e não poderia ser diferente -, seria numa mulher negra.

Ou em todas.

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Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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Assédio não pode ser normal, mas é

É assim: assédio não pode ser normal. Mas é. E a gente tem visto isso nesses últimos dias: as denúncias todas geradas pela hashtag #primeiroassédio. O volume. Dá a sensação de que aconteceu com todo mundo que a gente conhece.  Então a gente tem que entender. Não adianta, de novo, dizer que eles são todos pedófilos. Não são. Não são doentes, não são bandidos. São gente como a gente. Os homens que assediam são gente como a gente. criados para serem homens nessa sociedade maluca aí. E é disso que a gente tem que falar. Da porra da sociedade. Do que é chamado de homem nessa porra dessa sociedade. É nisso que a gente tem que mexer. Na cultura, nos hábitos. no “homem não chora”. No “isso é que é coisa de macho”. Ou, e talvez até mais importante, “isso não é”. É dessa porra dessa sociedade que a gente tem que falar.

Não adianta dizer que é “sordidez”, que são “canalhas”. Você não nota, mas quando diz isso está reduzindo o problema. Está desconhecendo que o problema é da sociedade: logo, é de todo mundo.

Acho bem mais inquietante pensar que são pessoas comuns que se sentem no direito de fazer isso. De pegar nas meninas, nas mulheres, de não escutar, de agarrar. Homens que agarram mulheres. E a grave questão é “se sentem no direito de”. Não porque são malucos: porque assim a sociedade lhes ensinou. A cada propaganda de mulher pelada vendendo cerveja ou carro, a cada “prenda suas cabras que meu bode está solto”, a cada “ele tá fazendo isso porque gosta de você”, a sociedade ensina que é assim. Sempre que se espera que as mulheres cuidem da casa, das crianças, e ainda estejam lindas e cheirosas para seu homem, é isso que se ensina. Toda vez que se trata uma mulher como menos, como menor, como sem espaço, toda vez que são os homens que ocupam a sala e relegam as mulheres para a cozinha, toda vez que os assuntos “de mulher” não têm vez na conversa, toda vez que elas não falam… toda vez que se acha que “direitos da mulher” não dizem respeito aos homens. Que, afinal, não abortam. Que, afinal, não engravidam.

Toda vez que se diz que “homem que é homem é que”…. toda vez. Quando às mulheres não se ensina que elas têm querer e voz: também. Quando se lhes pede calma, delicadeza, voz suave, não contrariar, “deixa, ele é assim mesmo”, “é só o jeito dele”….. toda vez que se diz às meninas que elas é que não devem usar saia curta, decote, que são elas que têm que se proteger, que se cuidar, em vez de dizer aos meninos que não, que não pode, que não é pra fazer. 

É de um olhar desassombrado para dentro dessa sociedade que é a nossa que a gente precisa: não de um repúdio horrorizado, como se não tivesse nada a ver com a gente. É da mudança no tratar desde pequenino, desde bebê praticamente: como se tratam os meninos, como se tratam as meninas. O que é ensinado a cada um deles. Isso é que tem que mudar, isso é que cria uma sociedade em que cada menina, cada mulher tem uma história de assédio pra contar. Em que, por trás de cada assédio, há um homem criado “para ser homem”. Desse jeito aí. Achando que pode.

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De alma, de corpo

É uma ideia que pode parecer a princípio meio inquietante: abandonar a ideia de alma. De essência. Do que está por trás.

A gente fica só com a “casca”. Ou melhor: a casca é o que há.

A casca: o que se faz. Como se age. Não quero saber daquilo que se chama “alma”: das intenções, dos propósitos ocultos, dos sentimentos nos bastidores. De uma suposta essência, enfim. Se a gente abandonar a ideia de alma, o que resta é ação. Atitude. São gestos. E, afinal, esse é que é o ponto mesmo, não? Não quero saber se você ama seus filhos, lá no fundo. Se tem afeto pelos seus amigos. Se você, em pensamento, lá dentro do seu coração, é bacana, bom caráter, bem intencionado. Se tem vontade mesmo de fazer “o bem”.  Não é essa a questão aqui. O propósito não é julgar “o bem”, “o mal”. A questão, de novo, é o que se faz.

Se você chuta lanches dos outros e acha que está certo botar uma arma na cabeça de alguém porque disse algo de que você não gostou, sinto muito: pra mim não serve. Se você manda uma diretora de cinema convidada para debate sentar em outro canto e ocupa o espaço dela, não a deixa falar, desrespeita seu trabalho e seu lugar, também não.

Sou a favor dessa ideia de mundo sem alma. No mundo sem alma, ninguém vai escolher pelas intenções ou pela suposta bondade. Que intenções. Que bondade. É de atitudes que se faz esse mundo, o mundo sem alma. É se disse bom dia, boa tarde, boa noite. Se cumprimentou o porteiro. Se falou com a faxineira. Se não enfiou a mão na cara do primeiro que apareceu por algum motivo muito bem elaborado. Enfiar a mão não pode. Botar arma na cabeça, muito menos, e acho que devia ser evidente: a boa intenção dos justiceiros deveria ser substituída por mecanismos legais, já que não estamos no faroeste e que direitos humanos são para todos os humanos, ao contrário do que alguns querem fazer crer.

Mas, em um nível mais sutil,  também não pode ignorar, desprezar, não ouvir, não dar valor. Também não pode usar termos que desqualificam. Tem que tratar como igual, ora. E realmente não quero saber se você acha, lá no fundo, que a outra pessoa é igual mesmo: não conheço seu fundo. Não sei se você tem fundo. Não é relevante pra questão. O que me atinge é o que você faz, não o que você pensa ou sente. Isso aí é do seu foro íntimo. É da sua conversa com Deus, caso você acredite em Deus. A mim não afeta: se você me tratar como igual, isso sim afeta. Isso sim faz diferença.

Se você gosta muito da mulher em quem você bateu, que você destratou ou deixou de ouvir, isso é algo que deve atormentar você, imagino, e que, sim, faz diferença pro seu futuro: mas se gosta ou se não gosta de verdade, se sofre ou se não sofre: não é a questão aqui. A questão é o que fez ou não fez. Bateu? Destratou? Deixou de considerar? De escutar? Que importa se, no fundo, sua alma está cheia de boas intenções. O que a outra pessoa recebe e percebe são suas atitudes. E isso é que tem que mudar. Um esforço pra mudar as atitudes, é o fundamental: o resto pode vir depois. Ou não vir, sei lá.

Porque, na verdade, sua alma não importa: é de corpo que a gente está falando.

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Sexo é a dois

“Sexo é a dois” é um título de provocação. E, é claro, pode ser a mais que dois – ou a menos: masturbação também é sexo, afinal. E bem ajuda a se entender…..

Mas voltando: a questão aqui – e vou me ater a esse “a dois” mesmo, pra simplificar  – é que sexo é algo que se faz com outra pessoa. No sexo hétero, algo que uma mulher faz com um homem.

Aí que quando vejo uma listinha engraçadinha de “atitudes que as mulheres odeiam no sexo”  já me dá preguiça. Dá vontade de dizer, primeiro, que eu não sou “as mulheres”: não, amiga, não dá pra descrever assim direitinho “do que as mulheres gostam”, porque elas gostam de coisas diferentes…. e só fazendo sexo com cada uma delas é que dá pra saber do que, de fato, cada uma gosta. Não tem jeito, é tentativa e erro. Tentativa e às vezes acerto. Se possível, se divertindo muito no caminho.

Ia dizer que é bom que seja leve, mas o “leve” não se refere ao sexo em si: é sobre a forma de encarar. Quer dizer, ninguém nasce sabendo, não é mesmo? Não precisa ser incrível da primeira vez. Não precisa ter orgasmos múltiplos, ver estrelas, sentir a terra tremer, não importa o que digam todos os Sabrinas e Julias que você possa ter lido – sempre, sempre, nesses livretos, a primeira vez define tudo e leva a pessoa às nuvens: nada mais apropriado pra criar expectativas erradas sobre uma primeira vez.

E a “primeira vez” é a primeira vez com aquela pessoa. Cada pessoa é uma, cada caminho é um. Certo, pode ser sexo de uma vez só: não foi incrível? Não foi maravilhoso? Não rolou bem? Ué, acontece. Como dançar. Imagina dançar com alguém pela primeira vez uma música desconhecida: ninguém espera que o encaixe seja perfeito, que seja absolutamente harmonioso, que ninguém pise no pé de ninguém…  pode até acontecer, mas isso é fruto do acaso. Não é um dado da vida.

Já se houver a vontade de outras vezes, a gente vai aprendendo… a dois. Um aprende o corpo do outro. Interpreta, decifra, escuta. Vê como é. Acho que abertura e curiosidade, em termos de atitude. (Eita, já tô entrando na linha “manual”… )

É nisso que eu queria chegar, isso é o que me incomoda mais na ideia dos tipos-de-homem: afinal, você está participando do ato, ou está ali apenas observando a performance alheia para depois descrever a pessoa? Se o cara é apressado, diminui o ritmo; se não gosta de preliminares e você gosta, sugere, com a fala, com o corpo…. porque nessa dança não há música a seguir, vocês constroem a música juntos.

Ninguém sabe tudo de prima. Ainda mais nessa área aí. Esse negócio de “ser bom de cama” (ou boa de cama) obscurece o que devia ser o ponto: sexo é a dois, e se o sexo foi bom, as duas pessoas estão envolvidas nisso. A ideia do homem “bom de cama” sugere que é um atributo do cara, e não um resultado do encontro. Sexo com fulano, com beltrana, pode ser incrível. Pra mim. E pode não ser pra você. Se a primeira vez não foi incrível, a próxima pode ser melhor. E se foi tudo mais ou menos, ué: não precisa ser culpa de ninguém. Mais do que isso, um sexo mais ou menos pode até ser divertido. Se a pessoa é bacana, se você está ali de bobeira… ora, por que não?

Acho que é nesse sentido a leveza de que falava: não precisa ser ótimo, não precisa te tirar do chão. Mas é bacana, vai. E você tem parte nisso. Você. A outra pessoa. É a dois que se faz sexo. Tá todo mundo ali envolvido. Ralando. E rolando.

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Os idiotas e as famílias

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Ontem, ontem mesmo, ontem… século vinte e um , um grupelho de deputados resolveu por bem aprovar um parecer, numa comissão especial, favorável a um tal “Estatuto da Família”. Em breve resumo, a ideia dos parlamentares é estabelecer um regime jurídico de proteção à família, entendida como a união do homem e mulher: papai, mamãe e filhinhos.

Até os paralelepípedos mais imberbes sabem que esta ideia é estúpida, reluz ignorância e preconceito. Porque absolutamente irrelevante no campo prático, vai criar uma série de entraves, empecilhos, dificuldades, bazófias, discussões inúteis e cocô a esmo. É daquela ideias de jerico fundamental, porque afastada completamente do dia a dia das pessoas comuns. Todos sabem que família é a união de neurônios em busca da sobrevivência comum, de garantir o dia a dia, o prato, a cama, o banho, o remédio. Pode ser pai e mãe, pode ser vó e neto, pode ser um solitário e um cachorro, um gato, um sapato. Pode ser irmão e irmão, irmã e primo, pode ser uma confraria hippie, um bando de estudantes em uma república, um divorciado e seu filho, uma divorciada e seu enteado, uma mãe e outra mãe, um time de futebol. A ideia de “família” como algo sacro, como um fundamento estanque, como um princípio em si mesmo, é de uma tosquice vulgar e obsoleta.

Sim, até acho mesmo mesmíssimo que tem gente que quer uma família no conceito tradicional e tal e lousa, mariposa e é bonito. Em comercial de margarina arranca lágrimas. Mas é o calor da vida que ensina que as cousas não são assim operação matemática simples, de soma ou subtração. Tem vida, tem morte, tem afeto, tem amor, tem rusgas, tem andor, tem sabor, tem falta de grana, tem fila de posto de saúde, tem seguro fiança, tem pão na padaria e tem sexo, muito sexo para além do ato divino da criação – e, neste ponto, ainda bem… já pensou se no mundo fosse a cada enxadada uma minhoca? A população global seria na faixa dos quinquilhões.

Não se trata, portanto, da defesa de um modelo que deus criou de sociedade. E também não é a denúncia desta blasfêmia legislativa somente uma bandeira de uma causa arco-íris. Este absurdo legislativo afetará a vida das pessoas comuns, em todos os cantos, de uma maneira completamente idiota,  e para nada. Porque as pessoas vão continuar a se agrupar para viver  – ou viverem sozinhos – e estes agrupamentos são famílias, mesmo de uma só pessoa.

Aos que acham que a ideia é boa e é a defesa do modelo de deus, seja lá o que isso for, indico a notável experiência de precisar de algum documento formal para ter acesso a um direito ou benefício. Da vó que cria o neto e tem que colocar ele como dependente no plano de saúde. Da viúva que tem como herdeiro o enteado. Das irmãs solteiras na hora do benefício previdenciário. Na partilha de bens daqueles dois homens que moram juntos no apartamento do sexto andar.

Mais uma grande cagada deste fundamentalismo hostil, que confunde alhos com bugalhos, que acham mais importante fiscalizar buracos do que legislar para o bem comum. Idiotas repletos, o que são.

Vamos deixar as pessoas em paz

Texto de Iara Paiva
com participação da bisca Luciana

Hoje na hora do almoço tava pensando em como alimentação é algo que rende assunto. Porque a gente pode pensar do ponto de vista da cultura, da história, da nutrição, da política de comércio internacional, da economia. É fascinante. Mas tem um ponto em que eu me recuso a entrar na conversa: quando passamos pra gordofobia.

Gordofobia, de forma simples, é o preconceito contra pessoas gordas. É julgar e rotular personalidade, comportamentos, valores a partir de um aspecto físico: ser gorda. Assim, nossa sociedade gordofóbica costuma relacionar às pessoas gordas coisas como preguiça, desleixo, má saúde, etc. A gordofobia faz com que as pessoas gordas sejam representadas, de maneira geral, como desagradáveis, repulsivas ou inconvenientes. A pressão que fazemos sobre as pessoas gordas, como sociedade, geralmente promove perda de autoestima, ódio internalizado, sofrimento psíquico, desconforto, inadequação social, etc. Gordofobia é a naturalização discursiva e material (porque tanto acontece quando dizemos que pessoas magras são mais bonitas como quando produzimos meios de transporte cujas poltronas não acolhem todo tipo de corpo com conforto) de um “modelo cultural que privilegia pessoas magras e marginaliza gordas”.

Podemos pegar o exemplo dos fumantes… por mais que ninguém seja obrigado a fumar – como é obrigado a se alimentar – por mais que fumar possa causar diversas doenças, por mais que deixar de fumar seja socialmente mais simples do que fazer regime, o fumante não é assediado como a pessoa gorda. Ainda bem, nem tem que ser! A gente discute propaganda, indústria do tabaco. Discute os limites alheios por conta da fumaça e tal. Mas eu não vejo ninguém ridicularizando fumante, sabe? Tratando como alguém inferior ou digno de pena.

Mas, ain, é por causa da saúde, sei que lá a saúde da pessoa gorda, muitos anos de vida”… Mas saúde não é nem precisa ser um referência individual universal. Nem o desejo de viver muito tempo. Tem gente que quer e se preocupa, tem gente que não, ué. Ser saudável (o que quer que isso seja, porque é outra discussão bem longa) é um valor e uma referência individual que não podemos imputar ao outro e quando o fazemos é sempre uma violência.  Como disse a Jarid: “ é também papel do feminismo combater esse discurso de ódio e má fé disfarçado de preocupação com o bem estar; é necessário lutar contra a imposição de padrões, seja de aparência, roupas ou comportamentos. Cuidar de si mesma e amar outras pessoas significa não constrangê-las e envergonhá-las. Ninguém jamais deveria impoôr aà outra pessoa, não importa quem seja, nenhum tipo de roupa, alimentação ou comportamento.”

Então me irrita essa desculpa cínica do “é pela saúde!”. Não é, nunca foi. Vamos assumir que a gente não gosta de gordo? Que foi ensinado socialmente, mesmo que não tenha sido dito explicitamente, que gordo é inferior? Que mesmo pessoas gordas sofrem com gordofobia internalizada? Que eu tô escrevendo textão, mas olho no espelho e acho meu bracinho de biscoitera roliço? Que até pessoas magras podem sofrer por se acharem “gordas demais” para uma sociedade cujos padrões são cada vez mais magros e se afastam cada vez mais de uma suposta “busca de saúde”?

Bora ser honesto. Depois a gente foca o debate na indústria alimentícia, na propaganda, na política, no discurso médico, na educação, no caralho a quatro. Mas primeiro vamos deixar as pessoas em paz.

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Visibilidade lésbica. Porque nós nos recusamos a sermos invisíveis.

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Lésbica, sapata, fancha. Sapatão. Butch. Gobi, para xs baianxs. Somos, não importa o nome, mulheres que amam mulheres. Mulheres cis e trans que se relacionam com mulheres. Mulheres que fazem sexo com mulheres. Somos, assim, sapatonicamente, inteiras em nossas sexualidades e desejos. Femininos. Ou nem tanto. Não importa a classificação que se queira dar, não somos enquadráveis. Somos muitas. De todos os jeitos, cores, trejeitos, números, vestimentas. Amamos. Desejamos. Pulamos nesse mar, para nadar a perder de vista.
Nós existimos. Temos amores, famílias, trabalhos, dores, delícias. Temos corpo, temos rostos, temos história. Andamos pelo mundo, estamos nos bares, nos ônibus, em um lugar bem perto de você. Até dentro da sua casa, mesmo que você não queira ver. E já é hora de não nos escondermos mais. De transitarmos por aí como somos. De amarmos livremente, sem estarmos confinadas em guetos ou armários empoeirados. Porque já basta.
Foto: Coletivo lesbitoca

Foto: Coletivo lesbitoca

Essa é a semana de visibilidade lésbica e o dia 29 de agosto representa uma importante data de luta contra a lesbofobia. Essa data foi criada no 1º Seminário Nacional de Lésbicas em 1996, é um marco fundamental para o registro da luta de mulheres que têm seus direitos violados por sua orientação sexual no Brasil.

Nessa semana de visibilidade lésbica estamos aqui para pedir respeito, para lutarmos pelos nossos direitos civis, sexuais e de liberdade individual. Nossa Constituição nos garante proteção e a opressão, qualquer opressão, física ou moral, é totalmente ilegal. E nós estamos aqui e resistimos. Nosso amor é resistência. Nosso amor é luta. É tesão. É parceria. É tudo junto. É humano como qualquer outra forma de amor que, como já tanto se cantou: sempre vale a pena.

Guarde seu preconceito no bolso, para ser educada. Não importa a sua crença religiosa, seu recalque, sua mentalidade. Vivemos num Estado de Direito que optou por respeitar os direitos humanos  (graças às deusas) e nos garantir liberdade e direitos plenos para vivermos como somos. Afinal, ninguém paga nossas contas e a moral é problema de cada umx. Moral não confere o direito de ninguém nos julgar ou ofender ou tolher. Beijo no ombro.

Coletivo lesbitoca

Coletivo lesbitoca

E estamos aqui para dizermos que não seremos mais invisíveis. Como afirma o coletivo lesbitoca: não queremos mais viver na invisibilidade. Ou melhor, como bem dizem as meninas lesbitoqueiras, nós nos recusamos a sermos invisíveis. Existimos e exigimos respeito. Essa é a nossa luta e essa é a nossa vida. E não pararemos até que nenhuma mulher mais sofra violência por ser quem é.

Acostumem-se conosco, porque nós não voltaremos, nunca mais, para a invisibilidade. Os armários estão de portas abertas e a gente continuará a existir e a resistir. Pela vida das mulheres, pela liberdade das mulheres, pela sexualidade livre das mulheres. Keep calm and respeita as sapatão!

Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

A quem pertence a história

Aí o moço olhou pra mim meio de lado e disse: “eu estou me sentindo responsável por você ter terminado com ele”.

Eu tomei um susto. Como assim “responsável”?

Amigo, isso não tá na sua conta. Isso não tem nada a ver com você. Você, por acaso, passou por ali na hora em que isso estava acontecendo. “Isso”: aquela história, minha e do outro cara, estar acabando. A história era minha e do cara, não sua. Onde é que você podia ter alguma responsabilidade nela?

Ah, porque eu olhei pra você, porque me interessei por você? Mas isso é outra história, não vê? Essa é – ou seria – a minha com você. Que nem é história, vai: é um encanto. Como é que algo assim tão aleatório poderia me fazer terminar uma relação de anos? Claro que não. Sinto informar, seu ego talvez sofra um baque: você não é tão importante assim.

Ninguém é tão importante assim. As histórias acabam porque acabam, e às vezes a gente acha mais confortável responsabilizar um terceiro pelo fim delas. Mas nunca é verdade: no máximo, é coincidência.

As histórias pertencem única e exclusivamente aos envolvidos na história: e se há histórias com mais de duas pessoas, é que há relações que envolvem mais de duas pessoas. Caso contrário, ora, não. A história é das duas pessoas que nela estão. E, se acabar, é por motivos que dizem respeito exclusivamente a elas.

Ou você acha mesmo que foi a sua aparição loira-de-olhos-azuis que virou minha vida pelo avesso? Isso aí se chama catalisador, não vê? Apenas algo que acelera a velocidade de uma reação. A reação, ela, já iria acontecer de qualquer forma. Tava previsto. Tava contado. Tava escrito na própria história. E nem é que “não tenha dado certo” a história: deu, ué. Deu certo pelo tempo que deu. Esse era o tempinho dela. Encontro-coreografia-afastamento: no compasso. Ao som da cuíca.

Você? Ah, gostei de te encontrar também. Até porque me ajudou a ver algumas coisas mais claro. Até porque me mostrou que eu já devia ter pegado a mochila e seguido caminho. Mas “responsável”? Sinceramente, não mesmo. Pode ficar tranquilo. Relaxado. Aliviado. Não teve nada a ver com você. Era minha a história. Minha e do cara lá. Era e continua sendo, até seu final.

Mesmo que pra alguém seja mais confortável acreditar que tudo teve a ver com uma aparição loira e um encantamento.

 FimdeCaso

Eu daria pra você

Cara leitora, vim aqui contar de  uma ideia antiga, à espera de execução, que tem a forma de um cartão de visitas. Um cartão de visitas bonito, em que estaria escrito apenas:

Eu daria para você.
Fulana – contato: xxx@xxxx/tel: xxxxxxxx

Só isso. Ou, melhor ainda, sem e-mail ou telefone. Apenas a afirmação de que, se algum dia acontecesse, se pintasse, se rolasse a oportunidade, a ocasião, os dois assim de bobeira, um tempo conveniente… bem, eu daria pra você. Não precisa perguntar, não precisa ficar na dúvida, não precisa hesitar.

O que, cara leitora, parece pouco romântico? Bem, não é para ser romântico mesmo. Tenho pra mim que a disseminada ideia de que qualquer relação digna desse nome deva ter algum toque disso aí que chamam de “romantismo” (atenção às aspas) é mais furada do que secador de macarrão. Mais esquisita do que botar o dito secador na cabeça e fundar uma seita. E a fonte de tantos desnecessários sofrimentos. Uma confusão sem fim. Um equívoco da cabeça aos pés.

Porque, veja bem, cara leitora, não estou falando de nada que vá além de uma relação sexual. Limita? Ué, por quê? Caso você goste, caso a outra pessoa goste, não seria possível repetir, de novo e de novo, até que isso aí se chame uma relação? Podendo inclusive prosseguir até que alguém abra a gaveta da cozinha e encontre ali um descaroçador de azeitonas – quando então se descobrirá casado?

Por outro lado, caso seja ótimo mas seja isso mesmo, tá tudo certo: cada um vai pro seu lado, saciado, satisfeito, sem demandas fora de hora, sem incertezas incômodas. Era isso, foi isso. Foi ótimo. Eu daria pra você, eu dei pra você. Que delícia. Que alívio.

(suspiro)

Ah, o cartão de visitas? Por que não no feice, por que não no tuíter, no zapzap e coisa e tal? Ora, cada um com seu jeito, né? Eu sou assim, antiquada. Gosto da imagem do cartão de visitas. Porque é físico, em primeiro lugar: papel, textura, cor, impressão, fonte. Uns envelopinhos, talvez? Escrito à mão e depois impresso, com sua própria letra? Pode ser, tem tantas possibilidades. Lindezas. Só de pensar, já fico com água na boca. Adoro artigos de papelaria desde que me entendo por gente.

Tem também outro motivo, porém: é que desobriga. Você nem precisa entregar pessoalmente: pede pro garçom. Deixa na caixa postal, e acrescenta a lápis: “Fulana, do 702”. Larga em cima da mesa da pessoa, no trabalho. E pronto. Tá dito. Acabou. Não precisa mais ter angústia quanto a isso: daria. Daria, mas talvez não dê, porque sua situação tá complicada, porque a minha é, porque agora a gente tá sem tempo, nunca apareceu uma chance, um momento bom pra introduzir, por assim dizer, o assunto…. mas caso role, se acontecer, quando a gente puder, quem sabe um dia: daria.

E não é nem um “a bola agora está no teu campo”: não tem bola em jogo, não nessa hora. A bola tá no ar, flutua, vagueia, desliza. Não é questão de bola. Porque não precisa ser agora, não tem urgência nem ansiedade, essa a beleza da coisa. É assim, se um dia… eu daria.

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Tem dia que é pra assim…

Ok. Dispara o despertador. E tem dia que a gente quer pensar na vida, escrever, tecer. Refletir. Mudar de opinião. Olhar, perceber, escutar. E tristeza, alegria, dúvida, incerteza, amor, dor, calcanhar, joanete ou cefaleia e colesterol. Ou música, fossa, cinema, filme, bêbado, novela, livro, cabelo, rede, internetes e isso aí tudo que tudo é.

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Mas tem dia… ô se tem… que a gente só quer é sorrir.

Não queria ficar aqui com mais delongas. Mas o fato é que tua língua nos meus seios me leva longe, numa trilha fantástica que vai acabar explodindo o pinto, naquele jorrar porra – e a deselegância discreta ou não da ejaculação fora de hora. Sim, seios. Homem tem seios.

E não é só o pinto que fica duro. Tem o grelo também, aquela cousa que decifrada com a língua desmancha você toda, em uma pele arrepiada, um cheiro de sexo que tem um quê de suor, mas tem perfume outro que exala e aumenta volumes, eretos. Mulheres tem sexo ereto.

E tem a bunda ou o cu. Que sabemos, molha, umedece, enriquece e aquiesce. E agora, o que é que vamos fazer com todos esses conceitos caixinhas e tal e qual de seios, peitos, duro, molhado, papai mamãe? Não queria ficar aqui com mais delongas, mesmo. Vamos?

beijo 1

Estopim. Estupor. Entro. Saio. Entras, sai. Coloca, enfoca, maneja, mistura, chupa, engole, gole, matreira, eira, beira, sacode. Entende. Estoura. Espoca. Enforca, descabela. Ejacula, ejaculas, ejaculo. Sorri.

Sorri… “ser feliz é bem possível“.

O sorriso é gozo, desconfio.

Algumas ideias soltas sobre tudo isso que está aí

– Eu não sei para que o meu corpo foi feito. E, sinceramente, não me interessa. O que gosto e sei (ou vou descobrindo) não é para que ele foi feito (sai de mim, determinismo biológico, esse corpo não te pertence) mas o que faço com ele, o que ele pode fazer, o que gosto de fazer, o que gosto que façam com ele, o que não preciso fazer, o que não quero fazer e por aí ladeira abaixo e cama acima. Blá blá blá corpo feminino feito pra procriar/gestar/alimentar… Samuel tem 18 anos e já não mama, me mato agora? Meu corpo é e eu sou meu corpo e no meu corpo, mas não é apenas ele que me determina, nem a minha identidade, nem meu desejo ou possibilidades.

– Liberdade sexual é ser livre pra fazer sexo quando quiser, como quiser, com quem quiser – se a (s) outra (s) pessoa (s) envolvida (s) também quiserem. Primeiro, o óbvio: o “quando quiser” também comporta o nunca, o vez em quando, o só essa vez e todas as demais variáveis temporais… o quando não quer dizer sempre #ficadica. O “como quiser” não implica em dar de quatro ou não dar de quatro, nem se deu de quatro tem que dar sempre de quatro, etc, etc, etc… como as pessoas envolvidas quiserem não precisa ser pautado em regras externas de movimentos sociais, sejam eles legais como forem. O “com quem” compreende o dou pra todo mundo mas não pra qualquer um #leiladinizfeelings, o com quem quiser não significa com quem me quiser, embora eu possa usar isso como critério, se eu assim o desejar. Isso posto (eu que julgava desnecessário, mas parece que não é), acrescento que acredito que liberdade não é (apenas) um fenômeno individual. É um processo de construção coletiva. Liberdade não é uma condição estanque, é um processo relacional e dialético. Manifesta-se na individualidade mas se inscreve no contexto.

Sexo é busca de conexão emocional e não é suficiente sermos tocados por quem nos deseja, a gente quer ser amado blá blá blá não fomos feitos para transar a toda hora com qualquer um.  Olha, eu não sei quem é essa gente aí, mas me inclua fora dessa. Meus relacionamentos (e, suspeito, o de todos, mas nem vou meter o bedelho nos alheios) são únicos. Particulares. E dinâmicos. Sei lá eu o que vai ser. Sei o que está sendo e mal e mal. Sinto. E não, não espero o depois. Que, eventualmente, acontece. Porque a vida, a minha vida, é isso, dias que vão sendo e pessoas que vão estando nesses dias que são. E, vez em quando, olho pra estrada e vejo pegadas juntas que vem de longe. Outras, desvios, abraços de despedidas ou mudanças de rumo quase sem notar. Uma estrada hora mais movimentada, hora percorrida sozinha. Chato isso de pegar a sua demanda emocional e generalizar pro mundo e ainda rotular de superficial quem não sente como quem escreve sente. ZZZZzzzzz. E tem essa insistência no “não fomos feitos”, como se o ser humano fosse peça dessas de fazer casa pré-fabricada.

Sexo é melhor quando feito com sentimento. Não fomos feitos para relações vazias. – Ué, eu faço sexo casual com sentimento e o tempo não é nada vazio, ocupamos de maneiras bem divertidas e criativas… Mas, claro, respondo isso de zueira. Porque sei que quando se fala de sentimento, nesse contexto aí, está implícito o “duradouro”. E, quase sempre, vem junto a ideia de que isso “é coisa de mulher”, “qualidade (ou defeito, depende de onde o machismo fala) feminina”. Encontrar alguém na balada, em um aplicativo, na casa de um amigo, ter interesse mútuo e se jogar no rala e rola, onde mesmo que está o impedimento pras pessoas envolvidas nesse processo sentirem respeito, consideração, carinho pelo outro? Se eu respeito, considero e estou aberta ao contato com outras pessoas por elas serem gente, apenas, e não pelo que elas podem ou não me oferecer, não está suposto que também sentirei assim por alguém no vuco-vuco comigo? O que tem o sexo de tão degradante que alguém perderia automaticamente o carinho, respeito, consideração alguém só por ter trocado fluidos, se esfregado, chupado, lambido, sei lá o que mais o corpo da outra? E lá vem a dogmatização do “foi feito pra isso” novamente.

O “fomos feitos para” supõe uma intencionalidade externa a nós. Implica em uma passividade que não me atrai. Tem um deus ali disfarçado nas entrelinhas desse discurso, dá pra ver de relance. Um deus que, não nomeado nem definido, acaba se parecendo com a versão mais propagada e enlinhada na nossa sociedade. Esse mesmo, o que – pelo que dizem em nome dele – não curte que a gente goze. Não curte que a mulher trepe sem ser pra parir com dor. Esse mesmo no qual não acredito nem assino o conversê.

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