Liberdade sexual e Consentimento

Por Raíssa Éris Grimm*, Biscate Convidada

Então, gente…
Liberdade sexual não é sinônimo de compulsoriedade sexual.

Liberdade sexual pode ser sobre você transar com 10 caras se você quiser (se com cada uma dessas pessoas você tiver condições de consentir). Pode ser sobre você não transar com ninguém, se você quiser. Ou com uma pessoa só (se em cada transa com essa pessoa você tiver condições de consentir)

Mas é também sobre entender que a mina que transa com 10 não é pior nem melhor que a mina que não transa com nenhum. E que a mina que transa com 1 só não é melhor, nem pior do que as outras duas.

É entender que o exercício da sexualidade ou o não exercício dela não muda a pessoa que somos. “Santas”, “rodadas”, “certinhas”, “biscates”, “putas”: somos todas mulheres, e simplesmente isso.

É sobre a gente entender que sexualidade (o exercício ou o não exercício dela) não é algo que “suja” ou que “mancha” as mulheres, que não define uma verdade a nosso respeito, ao mesmo tempo que não é uma tarefa “funcional” que devemos cumprir diante da sociedade. Que qualquer exercício ou não exercício da sexualidade deve se pautar no consentimento e NUNCA, nunquinha, deveria ser parâmetro pra qualquer tipo de violência ou punição sobre como queremos viver.

Tanto a mina “rodada”, quanto a mina “certinha” sofrem estigmas na nossa sociedade. O fato é que não importa com quantos você transa, ou se você não transa: nossa sociedade se incomoda com todas as mulheres cuja sexualidade não se submete ao consumo masculino

Situações em que a gente não tem condição pra dizer “não” não são situações de liberdade de modo que a liberdade pra dizer sim PRESSUPÕE a liberdade pra dizer não.

“Mas nessa sociedade as mulheres não são livres”, pois é, verdade, por isso mesmo existe ativismo por isso mesmo existe luta pra TRANSFORMAR essa sociedade.

Se essa liberdade já estivesse dada, a gente não precisaria lutar por ela. Mas a gente vive numa sociedade em que mulheres são violentadas por não quererem transar ao mesmo tempo que violenta mulheres por gostarem de transar fora dos parâmetros que o patriarcado recomenda.

O que nossa sociedade não quer é mulheres donas dos seus corpos.

Então parem com essa de hierarquizar as discussões. A liberdade da mulher que quer transar muito importa tanto quanto a liberdade da mulher que não quer transar. A liberdade da mulher que não quer transar importa tanto quanto a liberdade da mulher que quer transar muito.

Redundante, eu sei. Mas simples assim.

13406813_198429917223746_4983157974029228924_n*Raíssa Éris Grimm massagista, anarcotransfeminista, organizadora da Marcha das Vadias de Florianópolis de 2012 a 2014.

Sobre filhos, consentimento e empatia

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Quando comecei a frequentar o mundo dos casais liberais a coisa que mais me impressionou nem foi o sexo, mas os códigos de conduta que organizam essas relações. Nesse meio “não é não” e o sim é mais que benvindo. O consentimento é acordado entre as partes, sempre e a cada vez. A empatia uma constante. Muito do que é praticado nas alcovas das casas de swing deveria ser lembrado aqui fora.  E não somente entre nós adultos, mas sobretudo no trato com as crianças.

A questão do consentimento e da empatia são recorrentes nas fantásticas animações de Michel Ocelot (1943, França) como em Kiriku e a Feiticeira (1998) e Príncipes e Princesas (2000). No primeiro, aprendemos a respeitar um pequeno grande herói e a termos empatia por uma vilã que… Bem, digamos apenas que tudo se explica no final. Já no segundo, e esse vou contar, o castelo da bruxa é alvo de diversos ataques infrutíferos. Todos os homens do reino querem entrar e não conseguem porque… Nunca cogitaram pedir permissão.

Kiriku e a feiticeira, Michel Ocelot, 1998.

Quem dera a vida imitasse os finais felizes da ficção. Seguimos invadidos e invasores. Vítimas e algozes. Dizemos minha manicure, meu médico, minha esposa, meu esposo, meus filhos. Com a mesma desfaçatez com que falamos de uma bolsa, de um objeto. Num dos episódios de Os Simpsons, em que Bart pede a emancipação dos pais, Homer resume filosoficamente a questão: até os 17 anos os filhos lhe pertencem. Mas… Se o objetivo primeiro da parentalidade é ver os filhos crescerem, porque muitos parentais não suportam ver os filhos se tornarem indivíduos?

Eu não sei mas…

Deixa eu te contar uma coisa sobre a minha vida offline. Eu e o Roger buscamos viver uma relação amorosa e não mais que isso. Eu não sou dele e ele não é meu. Procuramos evitar expressões como meu marido, minha esposa. Acreditamos que os filhos merecem o mesmo status: são deles mesmos, não nos pertencem. Por isso ando meio ressabiada por ainda falarmos sobre nossa filha e temos procurado internalizar alternativas. Aos quase 9 meses, Ayo não é nossa. É uma pessoa, um corpo, uma personalidade. E isso envolve questões de consentimento e empatia.

Não, não estou dizendo que os filhos podem tudo. O que estou dizendo é que os pais também não podem tudo. Que o limite é o outro. Que existe um breve momento em que, por questões de sobrevivência, parentais e filhos se confundem na mesma pessoa, no mesmo corpo. Mas isso tende a acabar a medida em que os filhos oxalá crescem. Aliás, eu diria que a mágica acontece desde o momento em que nascem. Ali já existe alguém. É alguém que ainda tem carinha de joelho, que não fala nosso idioma, que precisa de nossa proteção mas… É alguém.

Por simetria, do mesmo modo que os filhos não nos pertencem, nós parentais também não pertencemos a eles. Nos dedicamos por um tempo, desejamos o melhor, fazemos das tripas e o coração. Tudo nos limites do consentimento e da empatia. Antes de sermos pais e mães somos literalmente muita coisa. E isso não deve ser colocado a mercê dos outros, ainda que os outros sejam os filhos. Eles crescem para que nós possamos viver nossas vidas. Vidas que não se confudem, apenas se tangenciam.

É nisso que acreditamos aqui, Roger e eu. Por isso decidimos finalmente ter filhos. Mas… Nem tudo são flores e há momentos em que esquecemos tudo isso. Sim, esquecemos. Meu marido e eu. Há momentos em que sou esposa dele. Que a gente fica bravo por que a Ayo não quer fazer ao nosso modo e semelhança. Que a gente fica feliz por ela gostar das mesmas coisas que a gente. Que morremos de medo de ela fazer diferente. Que tudo vira de cabeça pra baixo e é preciso relembrar tudo outra vez. De novo. Eu, Ele e Ela.

Bem, chegou a hora de dizer que esse post não tem respostas. Apenas quis dividir com vocês um pouco de minhas inquietudes. E confesso que me sinto um tanto confortável assim, cheia de perguntas até o talo. Enquanto isso, peço sua opinião a respeito. Você também já pensou nisso, já viveu coisa parecida ou procura viver? Como é a sua relação com seus (opa) filhos e seus namorados, maridos, companheiros? E pra terminar, deixo um beijo, um abraço, um aperto de mão e uma foto da gente.

Até o próximo post.

charÕ*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

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