Contos de Fadas

Por Jeanne Callegari, Biscate Convidada

Uma vez conversei com um contador de histórias. Ele contou muitas histórias, inclusive as suas próprias. Como de quando ele ia toda semana em uma escola e um menino pedia pra ele contar, de novo, sempre o mesmo conto. E chorava, chorava. Toda semana o menino queria ouvir o conto. E toda semana ele chorava. Até que um dia ele não chorou mais. E nunca mais pediu.

Tem algo de aterrador nos contos de fada. O medo que os personagens enfrentam, as crianças enfrentam junto. E de modo físico. Isso quem me contou foi um neurocientista. Para o cérebro, tem pouca diferença entre realidade e ficção: as reações físicas são as mesmas. Se sentimos medo, ele se manifesta fisicamente. Descarga de adrenalina, suor frio, coração acelera. A criança não simplesmente ouve uma história. Ela a sente, no corpo, com todas as suas células. E no final, quando tudo dá certo, ela sente isso também: o alívio, a tranquilidade. E ela aprende a lidar com o medo assim, fisicamente. É uma simulação que a prepara para as suas próprias angústias.

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Os contos de fada são histórias que sobreviveram no tempo, passando por várias culturas e épocas. Algo de quase universal se passa ali, algo muito humano e íntimo e que não conseguimos compreender completamente, porque cheio de possibilidades e significados. Polissemia é a palavra. Se as histórias tivessem uma única leitura possível, não sobreviveriam às diferenças entre épocas e povos. Outra palavra: simbólico. Se o medo que sentimos no corpo é real, as ameaças são simbólicas. Não há uma Fera, um Lobo Mau, vindo nos pegar. As crianças sabem disso. Se não soubessem, seria intolerável dormir com um monstro debaixo da cama. Mas elas dormem.

Fera, Lobo Mau, Bruxa Má nada mais são que os medos e angústias de cada um personificados, transformados em arquétipos. Os pais dos protagonistas morrem no início das narrativas porque as histórias estão lá pra nos ajudar a crescer, a ficar independentes. A enfrentar os desafios de um mundo que, sem as referências parentais, se torna assustador. É preciso aceitar o chamado e ir viver a própria jornada.

É preciso largar o pai e ir ao encontro da Fera. É preciso ir ao encontro do desejo, um desejo novo, que assusta, que parece monstruoso à primeira vista. Ao nos familiarizarmos com esse elemento, ele se humaniza, se reduz, volta a uma proporção menos aterradora.

Mas também não é só isso. Polissemia, como disse. Ouvir histórias é também vestir a máscara de cada um dos personagens e ver como é estar no seu mundo. A criança de qualquer gênero pode se identificar com a Fera, com sua inadequação, sua percebida monstruosidade, sua necessidade de ser amada e seu medo de nunca conseguir ser, por ser como é. E ver que mesmo ali existe humanidade e amor. É aceitar-se.

E assim a história vai, e segue, com múltiplas leituras. Simplifico bastante alguns significados, psicanalistas podem dizer melhor. Mas é isso. O que os contos trazem, mesmo nas versões higienizadas da Disney, é uma possibilidade de lidar com coisas que nem sabemos quais são. Daí meu receio com a leitura das histórias de forma literal como tem rolado, reduzindo e tratorando tudo a papéis sociais criticáveis – o relacionamento abusivo, o cárcere privado. Estaríamos perdendo a capacidade de fazer leituras simbólicas das coisas? Talvez seja sinal dos tempos, afinal, os contos já foram muito mais assustadores do que hoje, e nada garante que não sejam ainda mais higienizados. Acho que seria uma pena, mas quem sou eu na fila do pão.

Jeanne CallegariJeanne Callegari é poeta e jornalista, autora de Miolos Frescos (Patuá, 2015). Adora um ismo – desde que esteja do lado certo da força, como ciclismo e feminismo. Você pode encontrá-la em jeannecallegari.com.br/blog.

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