Vai Gordinha, delícia

Tenho certeza que muitas pessoas leem o blogs feministas e pensam: UAU que mulherada foda! Tudo empoderada! Se olham no espelho do provador da Mesbla e dizem EU ME AMO e são felizes para sempre. Também têm filhos e casamentos ou parceira ou parceiro perfeitos.

Beeeeemm, nem sempre é assim. É que na verdade a gente acorda descabelada de camisetão furado. Tem que levar filho na escola, o emprego é chato e pra complicar  o espelho da Mesbla te chamou de gorda porque a calça jeans não fechou.

Pois é, é duro ser empoderada sendo gorda: gorda, com um “o” bem grande no meio, nem é gordinha, viu? É uma dificuldade a mais. Ok, tem coisas mais difíceis, tipo sofrer com racismo estrutural e transfobia, mas tem dias que dói e machuca.

Mas a questão é estar num ambiente em que as amigas nos reforçam ao invés de ficar naquela ladainha: “olha emagrecer é força de vontade e questão de saúde e zzzzz”, é um diferencial.  Nesse ambiente de acolhimento em que se respeitam escolhas, desejos, momentos. Se respeita a individualidade. Isso é o que gera um empoderamento diário, isso é que tem sido importante e alimentador para mim. A gente compartilha carinho, aconchego, medos, dúvidas e incertezas, mas estamos juntas.

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 (Abro um enorme parênteses pra avisar que não debaterei neste post sobre “ahhhh mas ser gordo não é saudável etc. etc. etc., reportagens, o globo repórter o MIT,  a revista Nature o escambau demostram que ser gordo …..” Pois é, da minha ficha médica sabemos eu, meu médico e o Dr. House – porque adoro ele, cada doida com  sua mania. Mas enfim, saúde tá ainda bem, brigada. Gordinha, mas com saúde).

Foi nesses papos e aconchegos e reforço e tal que me dei conta que, magra ou gorda, desde sempre me achei feia. Pra você ver que a auto imagem não está somente ligada ao peso real, mas a como nos vemos, e daí fui rever fotos minhas.

E eu era feia nada, era linda. Acho que o que faltou desde a infância foi um reforço positivo de imagem por parte dos meus pais, já que aparência não era um valor na minha casa. Veja bem, não é que seu filho ou filha tenha que ser compatível com algum modelo de beleza para receber esse reforço positivo: isso na verdade tem a ver com carinho e aconchego e nisso meu pais erraram (infelizmente, pais não acertam em tudo). A gente tem é que dizer que  filho é bonito como é, amar e acolher, aconchegar, trazer ao seio. Isso é que reforça a auto estima e a auto imagem.

 E voltando às fotos:  se, objetivamente, eu era linda será que  ainda não sou?  Se eu me sinto hoje linda,  se sou amada e desejada gorda será que não serei amada e desejada mais e de novo? E aí fui pro debate com as amadas e comecei a me arrumar de novo, sabe? Foi me amando mais de novo porque isso estava faltando, eu meter a colher na minha imagem atual. Havia muito aconchego externo, faltava o interno, eu comigo. Faltava auto aceitação.

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Acho meio ridículo, mas, enfim, era que aos 40 eu estava pensando, e tô ainda me experimentando. Eu tentei, juro que tentei, ser um feminista desencanada e talz, mas gente… num dou pra isso. Eu nasci perua, sou a única perua da família. Daí que preciso de cabelão, de batonzão, de make. De vestido. Muitos vestidos. De bolsas e sapatos, E colares, e anéis. Ok, comedida, menos, muito menos compradora e consumista que já fui. Mas enfim, voltei a me arrumar do jeito que eu sempre me curti (brigada, Rafa).

E aí saí à caça de blogs de gordinhas que se vestem bem, lojas com roupas pra gordinhas a preços aceitáveis e por aí vai ( tem muitos viu?  Dicas no final do post) e aí resolvi abraçar o projeto #gordinhasexy2016 #agoravai

E deu resultado, depois de um longo e tenebroso inverno já recebi cantadas, olhares ( eles tinham sumido) e me olho no espelho e acho bacana. Mudei eu? Mudei. Mas mudei mais ainda a atitude comigo mesma e isso devo ao reforço (beijos pras amigas e amigos – beijo para Vanessa) ao empoderamento e ao acolhimento de ser amada como se é. Experimentem aí, do jeito de vocês. Love will find a way.  Se amem. E vivam a vida.

 Blogs que curto:

http://juromano.com/

http://www.femmefatalebyjeh.com/

http://gisellafrancisca.com/

http://gordacabelinha.tumblr.com/

http://girlwithcurves.com/

 

Câncer, amor e delicadezas

Para Nanda

amor3Câncer, é, câncer. Palavra que assusta, doença que nos assola e nos tira o ar. Mistérios, medos, falta de controle. A morte presente no correr dos dias, a vida que muda sem pedir licença. Um diagnóstico que transforma e empurra a gente pra tantos fundos e tantos afogamentos.

Mas não. Não precisa ser assim. Foi ela que me ensinou que não precisa ser assim. Ela que viveu a doença e dançou em seus braços, flertou com a morte, agarrou a espada e foi em frente. E venceu. Venceu com vida nos olhos e vontade de amor. Com o brilho renascido de quem já viu os avessos da vida. De quem conseguiu driblar os escuros das adversidades e emergir com cheiro de flor. Com sorriso nos lábios e ainda mais gentileza para o mundo que vem.

Não, não foi fácil. Por vezes ela ainda chora ao contar dos dias de quimioterapia, dos remédios, das fraquezas, das dores, dos furos na pele, dos hospitais, das incertezas. Às vezes ela ainda chora os seios que não são mais como antes, as cicatrizes e marcas de reconstrução das mamas. Os cabelos que caíram nas suas mãos, os cílios vazios de cores no espelho de outrora. O medo de passar por tudo de novo a cada exame e a cada dor de cabeça. Ela ainda chora a justa tristeza de quem passou pela tempestade e caiu no meio das ondas.

Mas não, não é só isso. Foi ela que me ensinou que não é só isso. Que no meio do processo ela aprendeu tanto e teve tanta coisa bonita. Que estar com câncer não te resume, nem te traduz. Que tem tanto carinho e tanta gente especial que aparece, e que a emoção de estar viva pode ser todo dia e toda hora. Que os laços se fortalecem e a gente se aprende só e tão cheio de gente.

Foi ela que me mostrou que tem sorriso e aprendizado e leveza. Sim, que pode ser leve. Que também pode ser leve. Que o caminho é a gente que escolhe, mesmo quando se tem uma doença grave. E que aceitar quem se é, e quem se esta sendo, é semear delicadezas. Foi ela que me ensinou, beijando meus olhos, que cada segundo é cheio de presentes de estar viva. E que aceitar os limites, tão finitos e tão humanos, é ser gentil consigo mesma.

E então ela segue, e eu sigo com ela. Ela segue sua travessia com ainda mais coragem para viver as suas belezas. E eu ando com ela pelas ruas, pelas águas, pelo amor sempre amanhecido das nossas intensidades. Com o sol reluzindo nos cabelos que nascem mais fortes do que caíram. Com a intensidade de mulher feita e refeita de vento, de mar, de dias claros e águas profundas. Nós duas em pedaços desconexos e tão juntas, tão inteiras em nossas metades.

E foi juntas que nos desnudamos, que olhamos as cicatrizes e fizemos do sexo um ato sublime de prazer e liberdade. Porque ser mulher é muito mais que ter os seios, esse falso e pesado padrão enfrentado pelas mulheres mastectomizadas. Doloroso olhar social que encolhe e esconde essas mulheres. Essas, que podem ser qualquer uma de nós, a qualquer momento.

E fui eu que a ajudei a enxergar que não precisava ser assim. Porque a beleza está nos olhos do amor e do encanto, e não tem padrão capaz de engessar a beleza reinventada de poder ser, e viver como se é. De nos impedir de abraçar nossos corpos nus e bonitos como são. Nós, juntas, rompemos as amarras, e ela pode ver, através dos meus suspiros, que ela é uma das mulheres mais lindas e mais cheias de feminilidade que já conheci. Uma mulher que me transborda os olhos, e me penetra os ossos.

Ela, que me ensinou a “a arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”.

Eu. E ela.

Eu. E ela.

Do Que é Humano, Demasiado Humano

Por Daniela Andrade, Biscate Convidada

sexualidade

Toda vez que leio alguém defendendo a homossexualidade dizendo que ela também existe no reino animal (detalhe: seres humanos também são animais), eu me pergunto:

Todas essas espécies animais não humanas transam uns com o outros por conta de afeto e desejo ou só por instinto? Sei que há espécies de primatas e de golfinhos que segundo consta, transam também apenas por prazer, mas não tenho notícia que isso se dê com todas espécies animais.

Acho tão rasas essas comparações. Afinal de contas, parece que só serve para a homossexualidade e a heterossexualidade, como se sexualidade se reduzisse à práticas sexuais, que praticas sexuais definissem orientações sexuais, quando sabemos que isso não é verdade. Um homem que transou com outro homem não se transformou em um homem gay, uma mulher que transou com outra mulher não se transformou em uma mulher lésbica. Pressupõe que para alguém ser gay, para além de fazer sexo com outra pessoa, exista também o afeto; afinal, o cara pode nunca ter transado com alguém e ainda assim ser gay, pois seu afeto está orientado para determinado espectro de gênero: outros homens.

Um homem que é penetrado por uma mulher não é gay automaticamente. Ele pode continuar amando mulheres, ainda que goste de ser penetrado por elas, mas continuar rejeitando homens a qualquer pretexto.

Outra coisa, onde estão os animais não humanos bissexuais, pansexuais, assexuais, arromânticos, biromânticos, heteroromânticos, panromânticos, poliromânticos, gray-românticos, demirromânticos, pomossexuais, e todo o infinito de sexualidades diferentes e inimagináveis?

Fora que, quem define o que é homossexualidade e heterossexualidade são os seres humanos, para os animais não humanos isso não existe. E a definição da homossexualidade e da heterossexualidade foram modificadas ao longo dos tempos, da Grécia antiga até o que temos hoje, nem sempre o que se convenciona-se por homossexualidade e heterossexualidade é o que modernamente se define.

Acho que para dizer que a homossexualidade é mais uma das legítimas formas da sexualidade humana, não é necessário enquadrar todos animais que fazem sexo e/ou trocam afeto com animais de mesmo genital como homossexuais. Inclusive por que isso nem é homossexualidade para humanos, afinal de contas, um homem trans com uma vagina com um homem cis com um pênis, podem ser um casal homossexual; e uma mulher trans com um pênis e uma mulher cis com uma vagina podem ser um casal homossexual.

daniela andrade *Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Dilma, o vestido, as críticas e as críticas das críticas

Aí que teve a cerimônia de posse da Dilma, e o assunto foi …. claro: a roupa da Dilma, a cor do vestido, o corpo da Dilma. E dá um cansaço. De novo e de novo.
Uma mulher em situação de poder? Critique-se a roupa, o rosto, o cabelo, a maquiagem. Sempre, todo dia, não há de faltar. A saia é curta, é longa, o decote, o corpo, fica bem, não fica,  a cor da roupa, o tecido, o corte de cabelo…. assunto para longuíssimas horas de nada e coisa nenhuma.

Dentre as “críticas estéticas” da cerimônia de posse, estavam as jornalistas Míriam Leitão e Cora Rónai. Cora chegou a criticar o “jeito de andar” da Dilma – segundo ela, “deselegante”. Sinceramente.

Muita gente ficou indignada com os comentários, corretamente, a meu ver. Já é a segunda posse da Dilma, e o assunto é esse de novo? Roupa, corpo “acima do peso” (do peso de quem?), cabelo, maquiagem…? Sério que o assunto é esse?

Só que, na sequência, chegamos à segunda onda de mais-do-mesmo: algumas pessoas passaram a exibir fotos de Míriam e Cora, para, de alguma forma, deslegitimá-las. Com essa ou aquela roupa, com esse rosto, com esse corpo, querem criticar quem?

E teve gente que achou isso razoável, que achou que elas apenas “tiveram o que mereceram”. Aí eu queria esclarecer, desde já, que estou me lixando para elas. Não é esse o problema. O problema, pra mim, é que, se luto desde sempre para dizer que uma mulher pode ter o corpo que tiver, usar a roupa que quiser, andar do jeito que lhe convier, isso vale para a Dilma, mas tem que valer também para  a Cora e a Míriam. Ou vocês acham que não? Que o “olho por olho” é o caminho? Mais ainda, será que vocês não percebem que, ao “expor” Cora, Míriam e quem mais for, estão atrasando a luta e a trajetória das mulheres todas, a nossa, que queremos que a conversa saia da avaliação de corpos, de jeitos, de roupas? Que temos que rebater, sim, as falas delas, mas não deslegitimando-as pela sua aparência?

(pausa para auto-citação)

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Alguém  reparou que não havia nenhuma discussão dos ternos dos inúmeros homens que tomaram posse. Procurei também, e não achei nada a respeito. Outra pessoa chamou a atenção para o fato de que, se não se fala das roupas dos homens, é que elas obedecem a um figurino bem mais rígido, o que não deixa de ser outra prisão. Fato. Mas esse uniforme os protege, como se fosse o avesso de um certo tipo de nudismo: quando está todo mundo igual  – seja nu ou de terno -, o que se vê é a pessoa, não a roupa.

Eu, por enquanto, prefiro pensar que a gente pode ir além. Que há tantas, tantas coisas passíveis de ser criticadas na Dilma e no governo Dilma. Que é possível e necessário rebater e discutir os comentários idiotas da Míriam Leitão e da Cora Rónai, sem precisar chamá-las de feias ou de mal vestidas. Porque se a gente acredita que essa não é a questão, bem… essa não é a questão. Nem para a Dilma, nem para a Míriam, nem para a Cora.

Voltemos ao que interessa.

Nojinho de buceta?

A origem do mundo, de Courbet www.francebleu.fr

Quem tem medo de buceta?

Certa vez, transando com um peguete novinho, pedi que me masturbasse. Até que o menino tinha habilidade, mas ficou um tanto incomodado por eu querer isso e não pedir que me penetrasse logo de cara. Daí, quando estava perto de gozar, ele parou e pediu pra eu pegar camisinhas. Como assim, brasil? Estava com paciência porque era a primeira vez que trepava com o dito cujo. Me levantei, peguei a bendita e dei pra ele (a camisinha e a buceta).

E foi tão borocoxô… Não gozei. O homem parecia uma britadeira, mete, mete, mete. Aí a paciência foi diminuindo, assim como o meu tesão, interrompido abruptamente. Pedi que parasse. Ele também não gozou. Estávamos quites. Dispensei o boy e esse, ah, esse não me come nunca mais.

Sabe por quê?

Disse que só fazia sexo oral em namoradas (e eu concluí que o boy sofria da síndrome do nojinho de bucetas). Ok, é uma escolha dele. Não vou obrigar ninguém a ter uma prática que não é a sua. Mas fico me perguntando até que ponto a negação tem a ver com essa cultura asséptica, sem pêlos, com bucetas padronizadas e jovens que se espalha como uma praga por todos os cantos. E me parece que isso é algo recente, sabe? Nas minhas memórias pregressas de sexo, todos os meus parceiros caíam de boca em mim com fome e vontade. De uns breves tempos pra cá, tive a infelicidade de me deparar com homens que simplesmente não curtem fazer isso.

Sim, não curtem chupar, mas adoram ser chupados. Que injusto, não?

Pra completar a inutilidade da noite, o boy ainda questionou se eu era hetero. Por que, né? Quem seria louca de adiar o encontro com o pau-maravilha dele? Porque, se eu fosse uma hetero de verdade, ia querer logo que metesse bem fundo. Desde quando gostar de sexo oral e de masturbação me torna lésbica? Que equação bizarra é essa? Não, infelizmente não sou lésbica. Só queria deixar registrado que muitas lésbicas amam penetração e muitas mulheres heterossexuais não gozam só com penetração. Bem didático, né?

Não existe amor mesmo nessa vida. Recuso-me a entrar nessa. E fiquei orgulhosa de deixar claro que o rapaz tinha sido um péssimo amante. Quase escorracei daqui de casa. Esse não volta mais. Vá pro inferno com seu nojinho e preconceito! Bem longe da minha cama, de preferência.

Sabe, não quero me relacionar com homens que pensam ser o falo (deles) o centro de toda a transa. Pra coisa ser boa pra mim, não rola ter tanta frescura e egoísmo. Quero mãos que me toquem profundamente, línguas que me chupem com desejo até eu gozar e sentidos que saibam reconhecer o cheiro bom da excitação do sexo. Quem não manjar disso, simplesmente, vai ser carta fora do baralho.

Se eu tenho nojinho? Não, nenhum. Tudo que curto que façam em mim, gosto de fazer também. Comigo a brincadeira tem que ser recíproca, que assim me dá mais prazer. Eu dou e como também. Caça e caçador. Tudo isso e mais um pouco. Definitivamente, não tenho mais tempo a perder em um sexo com muitas restrições e caretices. Pior é perceber quando a restrição e a caretice esconde um medo danado de uma buceta. Medo do corpo de uma mulher adulta. Medo de perder uma suposta primazia do falo. Sabem de nada, inocentes!

E um beijo pra quem sabe apreciar uma buceta. Pra quem gosta de olhar, admirar, cheirar, beijar, lamber, chupar. Foder. Com amor, carinho e muita safadeza. Afinal, como num texto que li há pouco tempo, quem ama, chupa. Querem verdade mais cristalina que essa?

Por um verão sem padrão

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Aqui vem o verão. E com o verão, exacerba-se o padrão.

O padrão. Os padrões, ah, os padrões. As mulheres são bombardeadas cotidianamente com milhares deles. Padrões de comportamento de “boas moças”. Padrões sexuais. Padrões estéticos. Até padrão para as nossas respectivas bucetas, sim, eles existem , e machucam as mulheres que fogem deles. Machucam tanto, que muitas buscam cirurgias doloridas para modificá-las (veja aqui), para se enquadrarem nos padrões de beleza vaginal. Não, não é culpa da mulher que faz. Não, não vou julgá-la. Sei que dói. Dói estar sendo apontada como diferente. Dói a sensação de não ser aceita. De não ser “bonita”, “desejável”, ou coisa que o valha, perante a sociedade de corpos padrão e beleza consumível em revistas e propagandas de iogurte.

Até as propagandas de cerveja, claro, elas, as piores. Bebam. Eu bebo. Mas mulheres que são desejadas pelos homens cervejeiros não são aquelas que sentam na mesa do bar com eles e se divertem noite adentro, bebendo e gozando a vida. São aquelas do corpo padrão academia-barriga-de-tanquinho e bumbum durinho, que provavelmente sofrem ao tomar o terceiro copo, porque né?

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Barriga de cerveja é algo repugnante. Mulheres que vendem cerveja não são aquelas que bebem cerveja sem culpa, com prazer, degustando e sentindo-se feliz com sua barriga saliente de mesa de bar. Não. Não pega nem bem. Porque mulheres são objetos de desejo. E nessa sociedade consumista e padronizada, mulher desejável não pode ser feliz como é. Ela tem que se enquadrar, o tempo todo, no peso “certo”, no corpo “bonito”, no cabelo de revista, na pele sem manchas e sem olheiras, na vagina “certinha”, no bumbum malhado, na barriga delineada, no comportamento adequado, nisso, naquilo e naquilo outro. Padrão machista. Fetiche machista. É isso que a gente vê  por aí.

Auto estima babe. E auto estima não é algo fácil. Nós, mulheres, estamos a todo tempo enfrentando esse grande espelho social que nos tolhe e nos oprime. E temos que quebrar esse espelho. Não, não é fácil. Mas é possível. Porque não podemos mais aceitar esse espaço comprimido de beleza. Essa saia justa para nossas pernas grossas. Esse espartilho que sufoca nossa respiração. Saúde e bem estar não pode ser confundido com o manequim 38. E nós temos que brigar, sempre, pelo direito ao prazer. Para sermos felizes como somos. Pelas nossas barrigas serem sinônimo de desfrute, degustes, alegrias, e não choros escondidos e vômitos provocados no silêncio de depois.

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Não é fácil estar acima do peso, olhar as rugas, ver pular os cabelos brancos, ouvir as fofocas: “nossa como ela engordou”. E eu me coloco dentre essas tantas mulheres que, sim, vez por outra também sofre. Sofre o olhar social, o julgamento, o não enquadramento como “bela”. Outro dia ouvi, num ato falho da minha própria mãe: “é que filha, você ERA tão linda”. É, uma mulher acima do peso não é linda. Ela, né? Pode até ter sido, ou vir a ser. Mas não é. Ou, a pior frase: “ela é uma gordinha bonita, tem o rosto bonito!”. Essa me dá vontade de agredir de volta. Mas me contenho, e milito. Militemos por esse processo de desconstrução.

É, sim, é preciso um processo de desconstrução, começando por nós mesmas. É ver-se por dentro. Olhar a saúde de outra forma, mais associada ao bem estar e à felicidade. É ver que o padrão é falho. Que está todo mundo atrás de algo que nunca se alcança. Que a beleza imposta à mulher é capitalista, cheia de produtos, plásticas, malhações infinitas, estéticas de consumo. Que é machista, que escraviza, que nos enche de culpa e que ofusca os olhos da alma, que são aqueles que nos enchem de sorrisos por dentro, independe de. Já dizia Vinicius: “uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”. Eu digo: uma mulher não tem que ter nada. Ser, viver, ser feliz é essa beleza toda. A beleza de existir, cada qual no seu universo.

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Ano passado eu, que tenho um problema crônico de tireoide, fiquei hiper, com hormônios a mais. Meses de insônia, taquicardia, tremedeiras, ansiedade. Emagreci muito, 7 kilos em 2 meses. As pessoas me falavam: “nossa, como você está bem!”. E eu pensava: “Não, eu não estou bem, estou doente”. Regulados os hormônios, engordei tudo de novo, e mais um tanto. Voltei a comer, a dormir, a estar bem. Kilos e sorrisos a mais, saúde em dia e felicidade de poder ficar onde existe prazer. Magreza não é sinônimo de saúde. A cultura da magreza é a cultura dos padrões e metas, ditadura da estética, nem sempre feliz.

Corpo perfeito é o que a gente tem. E eu sempre prefiro a felicidade. Por menos imposições, e mais prazer…sigamos!

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Corpo Magro e Saúde. Saúde?

Por Mariana Vedder, Biscate Convidada

Essa semana, no programa Bem Estar, que passa de manhã na Globo, um especialista convidado falava sobre dieta e as festas de fim de ano. Segundo ele, “estudos apontam que a maior causa de ganho de peso ao longo da vida são as festas de fim de ano”, porque a pessoa engorda 3kg em dezembro, depois ao longo do ano ela emagrece só 2kg e, depois de 5 anos ela já engordou 5kg só com esse quilinho a mais que ela ganhou em dezembro. Zero novidade, né? É TV deixando a galera “neurótica” com peso até nas festas de fim de ano. Só que a gente sempre encara essas “dicas” como conselhos pra melhorar a saúde, a forma física etc. Mas aí logo depois de falar dos PERIGOS de engordar, no intervalo do programa, rola uma propaganda de shake de emagrecimento da Herbalife, além de vários outros produtos light e diet que “auxiliam” nas dietas.

Eu não consigo enxergar isso como coincidência. Há quem diga que essa campanha da mídia “pró emagrecimento” é pela saúde do brasileiro. Mas pra mim isso é sobre o lucro mesmo. É o mesmo capitalismo que incentiva durante horas e horas do dia que a gente coma bastante hambúrguer, sorvete, bolacha e tudo mais, dando um jeitinho de lucrar com os supostos resultados disso. Falo supostos porque há inúmeros estudos que mostram que nem sempre a alimentação determina o formato dos corpos dos indivíduos, e em alguns casos também não determina a saúde. Só sendo muito inocente pra achar que a quase exigência da mídia pelo emagrecimento não tem foco no lucro. A indústria do emagrecimento é uma das que mais cresceram recentemente, como alguns números nessa matéria aqui indicam.

Esse lucro vem de uma estratégia eficaz: baseada no discurso da saúde, não no da estética, a indústria te convence de que você precisa emagrecer uns quilinhos ou quilões, mesmo que você esteja com a saúde perfeita. Os argumentos relacionados à estética são hipocritamente menos valorizados, mas também são utilizados – “veja como fulana ficou mais bonita após perder 12kg”. Digo hipocritamente porque as propagandas exibem corpos magérrimos e que não existem (porque são moldados via photoshop) como ideais de “saúde”. Mas não se pode identificar a saúde dos corpos olhando pelo seu formato. Quando discuto sobre isso no twitter, sempre alguém diz “minha mãe é pele e osso e tem um colesterol altíssimo, e também é cardíaca”. Pois é. Meu irmão sempre foi magro e é o único dos três filhos que tem problemas com colesterol. Eu sou gorda e minha saúde tem estado OK, mesmo com o hipotireodismo que descobri em 2008. Tem aqui uma entrevista razoável sobre o tema.

Então, se o objetivo é exibir o ideal de corpo saudável, por que nas capas constam corpos que não existem, esculpidos em photoshop? Por que não mostrar os corpos “reais” com saúde – em tese – perfeita? É preciso desmascarar esse discurso porque as crianças estão crescendo em um mundo que opera precisamente através dessa lógica nociva para o desenvolvimento psicológico de qualquer pessoa. E é óbvio que não preciso dizer que as que mais sofrem são as meninas. Será que vale à pena, portanto, arriscar a saúde mental das meninas pra alimentar um grande capital em desenvolvimento sem questionar os objetivos disso? Vale a pena expor as crianças a um ambiente que maltrata os corpos porque vivemos sob uma lógica equivocada que diz que magreza é sinônimo de saúde e sobrepeso é sinal de doenças – se não já existentes, futuras?

1465224_660458583974836_1508417344_n*Mariana Vedder é feminista, funkeira, mestranda em cultura e territorialidades, comuna, paulista que mora no Rio, e tem uns afetos: Emicida, Criolo e o São Paulo. Não necessariamente nessa ordem.

 

Sobre idade, mulheres e desejos

Li recentemente um blog de uma brasileira que vive na Austrália. A menina fez uma lista falando das diferenças culturais entre os dois países. Não costumo dar ibope pra esse tipo de comparação que geralmente recai na inferiorização da cultura brasileira frente ao outro. Como se nada aqui prestasse ou se eles, os outros, fizessem tudo certo e nós, bárbaros, as coisas erradas. Não dá. Porém, algo me chamou atenção na lista dessa moça. Ela disse que lá na Austrália, os homens mais velhos preferiam se relacionar com mulheres da idade deles. Que era até difícil ver um casal com uma diferença significativa (?) de idade.

Daí fiquei pensando em um monte de coisas. Até meio contraditórias. Confesso que achei bacana isso de pessoas mais velhas continuarem namorando, se apaixonando, se encantando. Mas também acho que a diferença de idade entre casais não pode ser tabu. Chato mesmo é ter regras rígidas pautando normas em relacionamentos afetivos. Né?

Mas, em nossa cultura, só um lembrete: homens, de qualquer idade, estão autorizados a ter vida sexual e afetiva. O mesmo não vale para as mulheres.

É sem sombra de dúvida, um hábito cruel e canalha desautorizar socialmente que uma mulher mais velha namore. Com alguém da idade dela, mais velho ou mais novo (aí o escândalo é total). Parece válido indagar: por que mulheres consideradas “maduras” ainda causam bastante estranhamento por exercerem seus desejos e suas sexualidades? Parece que a sua avó, a sua tia, a sua mãe ou aquela sua ex-professora devem estar condenadas a viver sempre no lugar da não-libido; como se fossem seres destituídos de desejos e que devem ser engolidas por essas identidades, quase sempre ligadas a maternidade com uma conotação conservadora e aprisionante.

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Vejo com dó o escarcéu que a mídia faz em torno da vida amorosa de Susana Vieira. Quase sempre na perspectiva de ridicularizá-la e de torná-la uma figura folclórica porque a mesma simplesmente comete a ousadia de namorar. E de namorar homens mais novos. Mas e daí? Susana poderia se relacionar com toda a torcida do Flamengo mais a do Corinthians que não seria da nossa conta.

Mas a mídia que alimenta as fofocas das celebridades, esperta como ela só, sabe que criar esses personagens como esse, da “senhorinha sem-vergonha”, ajuda e muito a vender revistas e a aumentar o número de acesso aos sites de espetacularização da vida privada. E sinceramente, a gente só perde com isso. Porque não devíamos reforçar essa cultura que tanto deprecia as mulheres mais velhas no exercício das suas liberdades de corpos e afetos. Ora, todxs nós chegaremos lá (assim espero, risos). E que vida linda, farta e generosa podemos ter sem esses rótulos babacas e moralistas! Realmente precisamos alimentar esse julgamento que acaba pesando muito mais pra nós, mulheres?

Não concordo e não darei o braço a torcer. Jamais esboçaria qualquer sinal de reprovação se minha mãe, aos 56, viúva, quiser namorar. Aplaudo e sempre aplaudirei pessoas que optam por serem felizes, sozinhas ou acompanhadas, por viverem seus desejos à revelia do olhar alheio, da patrulha alheia. Gosto dos que têm fome, como diz o verso de uma música de Adriana Calcanhotto. E vamos parar de apontar o dedo e deixar que as pessoas apenas fluam nas suas experiências, em qualquer fase da vida.

Gordos

Outro dia falei dos meus traumas de ser gorda. Bem, hoje queria falar sobre como eu adoro homens acima do peso, gordinhos, gordos.images (1)

Não alimento o desejo que a mídia vende para nós de homens fortes e com a porcentagem de gordura próxima do zero. Gosto de homens largos, com barriga grande, com pernas grandes, braços grandes e sem muito músculo. Já fiquei com homens magros e homens fortes, mas minha preferência sempre foram os mais gordos. Por muito tempo eu não aceitava o meu próprio desejo, achava feio me sentir atraída por homens fora de um padrão, mega gordofóbico, que exige que eu ame ou deseje um parceiro “apesar de” ser gordo e não por ser gordo. Acho que se libertar de padrões que se acham no direito de ditar os meus desejos é muito libertador. Mais que ser livre pra ter o corpo que eu quiser, tenho que ser livre pra desejar quem eu quiser, independente do seu corpo se encaixar no padrão midiático.

E vocês não tem ideia de como o sexo é bom quando nos libertamos de nossos preconceitos. Transar pegando na pessoa inteira, mordendo, apertando e beijando barriga, pernas, bunda, o corpo inteiro sem se preocupar. Já tive medo de meus parceiros se sentirem incomodados por eu apertar, pegar demais. Por ser frustrada com meu corpo, via o toque como uma lembrança do meu tamanho, da minha gordura, então me privava de pegar com vontade pra não levar o mesmo trauma a quem está comigo. Agora não deixo de tocar e ser tocada, aprendi a me libertar do medo de ser pouco gostosa por causa do meu tamanho. Com isso, entendi que um cara gordo também precisa entender o quanto é gostoso pra mim e só posso mostrar isso se eu pegar, morder, beijar e apertar inteiro, qualquer parte do seu corpo.

Quinta-feira passada, assistindo The Voice Brasil, na Globo, vi o cantor querido das meninas (que é muito bonito), Kim Lírio, e o achei bonito. Mas, quando apareceu o Lui Medeiros, fiquei totalmente encantada, e não é tipo “gordo com rosto bonito”, não gosto dessas coisas, quando acho bonito, acho tudo bonito, rosto, corpo e sorriso. E eu não pegaria o Kim, mas pegaria o Lui fácil, fácil! Não só ele, acho o Jack Black lindo, o André Marques também, mas eu mesma nunca analisei esse meu preconceito. Por muito tempo, eu falava que o André Marques era bonito, mas era gordo. Por um medo de assumir que gordos são bonitos e me atraem.images (2)

E o desejo é uma coisa curiosa, né? Minhas melhores transas com homens foram com homens gordos. Porque sexo não tem nada a ver com ser bom ou ruim de cama, ter pinto ou não, grande ou pequeno. Sexo também não tem nada a ver com “peso ideal” e nem com “beleza midiática”, uma trepada gostosa diz respeito apenas ao que nos agrada aos olhos, olfato, paladar e tato, o que nosso corpo quer e gosta, e cada umx de nós tem gostos diferentes. Que bom! 🙂

Não tenho filhos. E daí?

Reencontro com as colegas da antiga turma de graduação via um grupo virtual que foi criado. Muito tempo que não as vejo, que só tenho contato com algumas poucas por intermédio do facebook. Das primeiras perguntas: Quem casou? Quem tá solteira? Quem teve filhos? Respirei fundo, porque já pressentia como ia ser a tônica da conversa e falei de mim, como estava a minha vida, no que fui solenemente ignorada. Aqui o papo é outro. Muitas respondem orgulhosamente que casaram. Que já tiveram filhos. O primeiro e o segundo. Que estão grávidas. Como não tenho filhos, não casei e nem penso em engravidar no momento, senti que fui deixada de lado. Já um pouco cansada daquela conversa, tentei mudar o assunto. Muito embora porque entenda que nós somos maiores que esse projeto do casamento e que, vez ou outra, é bom conversar sobre filhos, mas também é prazeroso bater um papo sobre carreira, viagens, projetos profissionais, bofinhos, bofinhas e outras contingências mais. Então ousei perguntar: “Além disso (casamento e filhos), quais são as outras novidades? Que vocês andam fazendo de bom, meninas?”. E escuto, na lata, de uma colega que já tinha dito anteriormente que estava grávida, repetindo em alto e bom som: “eu fiz um FILHO!”. Assim, com letras garrafais mesmo. Entendo que ela esteja feliz e empolgada com a primeira gravidez (e com todo direito), mas o que não gosto é dessa sutil crítica que permeava a conversa, em dividir, as mulheres entre aquelas casadas (supostamente bem-sucedidas) e as solteiras coitadas (“mas não se preocupe, deus vai te mandar o homem certo na hora certa”). Percebendo o rumo da coisa, eu fui irônica de uma forma que até me causou arrependimento depois e falei sem pensar: “E por acaso você quer um troféu por estar grávida?”

familiaNão, não gostei do que eu disse. Achei desnecessário e um pouco arrogante até. Mas tentei ir na defesa de escolher entre um caminho ou outro. Porque sempre acreditei em um feminismo amplo e generoso, que respeita as liberdades e projetos de vida diversos de outras mulheres. Não estou criticando a escolha de ninguém em casar e ter filhos. Apenas não tolero que façam isso comigo porque tenho escolhido justamente o oposto.

Bem, depois disso, achei que fosse ser expulsa do grupo. Não fui. Mas também não me senti mais confortável de estar lá. Vi-me como uma estranha no ninho. Deslocada, perdida, sem conseguir me comunicar. Mas mais do que isso. Muito mais. A percepção da sociedade ainda é de lançar esse olhar piedoso e de cobrança para a mulher que tem mais de trinta anos e que ainda não casou. Mulher assim é considerada um projeto amputado; falta-lhe alguma coisa. Que pode ser prontamente resolvido com um marido e crianças. E dói saber que sejam as próprias mulheres a cumprir esse papel do carrasco. Nós, vítimas e algozes ao mesmo tempo dessa cultura que insiste em nos dar um script pré-acabado pra todo mundo. Mas eu rejeito, sabe? Não quero esse roteirão. Não vou dar chance para que meçam minha felicidade ou lhes dar poder para que façam o balanço da minha vida baseado em critérios que não são meus. Não acho que uma mulher que tenha casado e tido filhos seja superior a mim. Nem tampouco eu sou a ela. Somos todas mulheres, com trajetórias e escolhas diferentes. Por que eu deveria medir a minha vida pela sua? Não percebem o quão arbitrário e violento é isso? Favor parar com essa coisa de criar um ranking de parâmetro de sucesso individual pra saber quem fez mais ou menos com a sua vida. Coisa mais ultrapassada e démodé…

E o fato de eu não ter casado e não ter tido filhos não faz a minha vida menor ou incompleta. Também não é uma vida perfeita e sem crises. Uma das poucas coisas que tenho certeza, é que a existência não deve ser pautada pelo suposto verde da grama de outrem. Esse verde definitivamente não me cabe, não me representa, não me acolhe. Meu verde é outro, sabe? Sorrindo ou não, a minha grama é uma aquarela com nuances amarelas, azuis, brancas, vermelhas, cinzas e marrons. Aceite isso antes de querer me enquadrar. Apenas.

Arte linda da Carol Rossetti. Só pra lembrar que não somos menos mulheres porque decidimos não ter filhos.

Arte linda da Carol Rossetti. Só pra lembrar que não somos menos mulheres porque decidimos não ter filhos.

Amor & Sexo caretas

Amor & sexo é um programa de auditório engraçadinho, pretensamente libertário e até feminista, moderninho, mas na verdade é conservador, eu diria até tucano (rs).#vote45nãopera

Sempre começa com a bela Fernanda Lima exibindo sua curvas em roupas  diminutas e/ou justas com um belo elenco de machos no apoio num número musical “brodway wanabe”. Nesse, até tinha a nossa amiga #siririca (oba!), que eu achei mais parecida com um carrapato, e um clitóris com um textinho de duplo sentido de humor no palco.

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Pra dar um certo ar de seriedade acadêmica temos a famosa  psicanalista e escritora Regina Navarro para dar suas pílulas de sabedoria de sempre. Aí temos o Xico Sá pra ser o exemplo do canalha que ama as mulhrezzzzz (sobre ele o texto da Juliana Cunha é perfeito, mas também tem um texto sobre as bobices que moço comete aqui no Biscate). E tem O Otaviano Costa de palhaço-bobo-da-corte, tinha o lindo do Alexandre Nero (#voltaNerinho), o José Loreto que às vezes fala uma coisas bacanas e mais uns globais.

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Mas o que programa faz mesmo é backlash (aprenda sobre o que é backlash aqui, juro que vai ser muito útil pra ler revista, ver tv, etc.), bastante misoginia e muito machismo. O desta quinta em especial, pois, ao pretensamente diferenciar o que seria uma boa cantada de rua (será que existe isso?) de uma agressão verbal, validou as cantadas agressivas disfarçando-as em piadas. A participação de uma delegata (odeio o termo) não ajudou muito nem nisso.

Também sempre há um revalidação de estereótipos: nesse teve homens-pagam-o-motel porque-as-mulheres-gastam-com-depilação-e-unhas (de novo, não somos feministas que não se depilam ou não fazem as unhas: somos contra obrigações de depilar ou não, por exemplo), pessoas com corpos definidos como belos desfilando com pouca roupa, revalidação da monogamia como única forma possível de relação (apesar dos apartes da Regina Navarro, rs), entre outras coisas.

Seria um bom programa que poderia mesmo tratar de sexo e amor, mas é só um programa de auditório mesmo, e sem o Chacrinha e o bacalhau, ao menos aquele bacalhau.

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Sexo, Idade e o Absurdo

Há um momento em “E o vento levou” em que o galã, Reth Butler, meio agoniado de não conseguir a atenção da não tão mocinha Scarlett, pergunta: “Você já pensou em casar só pela diversão?” e ela, entre surpresa e desiludida, responde: “Besteira, diversão é só pra homens”. Vejam bem, essa fala veio de uma personagem mulher em um filme que retrata a Guerra da Secessão Americana e o período logo a seguir, ou seja, por volta de 1865. Uma mulher, nessa época, seria educada pra reprimir seus desejos, pra subestimar seu prazer. Além disso ela foi casada primeiro com um moço demasiado jovem e inexperiente e posteriormente com um personagem mais velho e aparentemente não muito atento a satisfação da esposa. Nada mais razoável do que uma personagem assim considerar a diversão e o prazer do sexo como exclusivos dos homens. Pra sorte dela, o moço Reth a ajuda a perceber que essa idéia é um equívoco e que devia ter gozo pra todos os envolvidos no rala e rola.

Desde 1865, vamos combinar, muita água já passou por baixo da ponte, tivemos o Relatório Kinsey, a pílula anticoncepcional, tem gente cantando alegremente: “a porra da buceta é minha”, a Marcha das Vadias está na rua, o aborto é legalizado em vários países, há uma compreensão maior do papel do clitóris no orgasmo, tem muita gente envolvida na busca do Ponto G, já se fala em pornografia direcionada às mulheres e por aí vai. Temos até um blog que tem BISCATE no nome, né? Dá pra imaginar que a fala da Scarlett, “diversão é só pra homens”, está totalmente superada, não? Claro, a gente sabe que sempre tem um ou outro mais antiquado, mas as pessoas bem informadas já ultrapassaram isso… Bom, detesto partir o coração de vocês, mas não, não superamos não.

Se tivéssemos superado não teríamos uma decisão, vinda de um Supremo Tribunal de um país teoricamente de Primeiro Mundo, “europeu e esclarecido”, deliberando que uma indenização destinada a uma mulher (por conta de um erro médico que a impede, entre outras coisas, de trepar) deve ser reduzida porque, ATENÇÃO, sexo não é uma coisa relevante para uma mulher de 50 anos. Eu reli pra ter a certeza de que não tinha entendido errado. Mas é isso mesmo: juízes decidiram reduzir uma indenização a ser paga por um hospital por causa de erro médico porque, no entender deles, mulher de 50 e tais anos não tem que ficar de saliência, afinal, nem vai ter mais filhos mesmo. MAS, GENTE, QUE ANO É HOJE?

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Leiam e chorem, amiguinhos: “O Supremo Tribunal Administrativo reduziu o valor da indenização que a Maternidade Alfredo da Costa tem de pagar a uma mulher que ficou impedida de voltar a ter relações sexuais com normalidade depois de ali ter sido operada há já 19 anos. Um dos argumentos invocados pelos juízes, com idades entre os 56 e os 64 anos, é o de que a doente “já tinha 50 anos e dois filhos”, isto é, “uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança”.

Tal decisão traz, inequivocamente, uma visão utilitarista da sexualidade feminina. Sexo, pra mulheres, deve ser para procriar. O corpo feminino serve, a princípio, a terceiros. Como incubadora, prioritariamente. Ecoa a fala da Scarlett: Diversão? É só para os homens. Como bônus, temos a acompanhar mais um elemento da visão machista sobre a sexualidade feminina: uma mulher não é pra se dar ao desfrute, imagine uma mulher velha! Afinal, sexo é uma coisa para corpos femininos jovens, que possam ser devidamente objetificados. Além de incubadora, um objetivo secundário: ser parque de diversão pros homens. Bobagem nossa achar que sexo tinha relação com o prazer que a pessoa, em seu corpo, com formato e idade que tivesse, podia obter no processo.

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Depois de ler essa notícia que me chocou, entristeceu e revoltou, fui fuçar no google. Sabe como é que é, coloquei, em diversas combinações, as palavras: sexo, mulher, velhice (só façam isso em casa se tiverem o estômago forte). Não, o choque, a tristeza e a revolta não foram embora. O que eu li foi uma sucessão de textos que naturalizavam, justificavam ou mesmo preconizavam a redução da vida sexual das mulheres com o passar dos anos sem nenhum questionamento do papel da cultura, da mídia, dos valores nesse processo (não estou falando dos artigos acadêmicos, mas de matérias de portais, posts em blogs e sites ditos femininos). Nenhuma interrogação. Alguma lamentação, muito conformismo, uma e outra dica. E, na minha cabeça, um monte de temas completamente ignorados nas publicações. As mulheres mais velhas fazem menos sexo  e, muitas vezes, quando o fazem, não aproveitam nem se satisfazem e isso não causa nenhuma coceirinha no juízo de vocês? Tipo autoimagem, autoestima, padrões de beleza, a mitificação da mulher como ser sem desejo, a supervalorização da relação entre sexo e amor para as mulheres, o desconhecimento do próprio corpo, a pouca prática da masturbação, a vinculação entre sexo e procriação… nada disso, sério mesmo, é sequer mencionado quando se fala em sexualidade feminina na terceira idade? Só diminuição da lubrificação, desconforto e bola pra frente, tem outras atividades que podem ocupar o tempo? Pronto, pra que falar mais sobre o assunto?

Então, eu não sei vocês, mas eu pretendo falar muito sobre o assunto. Perguntar. Me indignar. E continuar afirmando, em palavras e ações (de preferência mais ações que palavras #intençõesbiscates), que a relação entre idade e sexo não deve ser necessariamente de “quanto mais A, menos B”, seja em quantidade, qualidade ou, mesmo, vontade. Nossa sociedade imediatista, focada na juventude, machista, cristalizou a ideia de que as mulheres, ao envelhecerem não são mais desejáveis (e, claro, nunca desejantes, a não ser que sejam essas, essas, essas…biscates, que não se dão ao respeito) e é essa ideia que, acho eu, precisa ser desconstruída pra que absurdos como a decisão do Supremo Tribunal Administrativo português não continuem sendo regra no nosso cotidiano.

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PS. Para além do sexismo clamoroso eu suspeitava que a decisão compreendia, também, um forte componente de classe. Ali, escondidinho discretamente na matéria, temos a informação de que a vítima do erro médico era uma empregada doméstica. Sem mais elementos, não coloquei esta discussão no meu texto. Os elementos surgiram, (ieba) nesse texto que nos dá ainda mais pra pensar, “O sexo e a idade” de João Taborda da Gama: “em 1998, um “administrador de empresas” retirou a próstata na sequência de uma biopsia ter revelado cancro. Afinal não havia cancro nenhum e, além do susto, o “administrador” ficou incontinente e impotente. Ao senhor “administrador” “com quase 59 anos”, o tribunal atribuiu, em 2008, 224 500 euros de indemnização. Ainda há três meses o STJ fixou em 100 000 euros a indemnização a um homem “social e financeiramente bem-sucedido na vida” que, num caso idêntico, ficou incontinente e com as ereções reduzidas a 60%-70%. Tinha 55 anos. Quando uma vida vale em média 65 000 euros nos tribunais, a filosofia judicial é clara: antes morto que mortiço. Os tribunais sabem bem o valor do sexo depois dos cinquenta, mas sobretudo para homens que estão bem na vida. Na cabeça dos tribunais, um homem rico e uma mulher pobre são mesmo pessoas de sexo diferente.

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