Ângulos

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

Uma amiga muito querida e que eu admiro muito postou uma foto nas redes sociais onde ela estava em um “ângulo ruim”. Mas ela postou mesmo assim, pois aquela foto tinha um valor maior para ela – foi a filha pequena que tinha fotografado pela primeira vez, o dia estava lindo, elas faziam um piquinique num gramado de frente para o mar. Estar bonita ou não era a menor das preocupações ali. Brincamos um pouco sobre a foto no inbox, onde ela aparecia descabelada, sem make e com uma roupa confortável sem nenhum frufru.

Fiquei pensando em como a necessidade de “parecer bem” nos aprisiona e nos impede de viver plenamente as nossas vidas.

Ninguém é obrigada a ser bonita. Ser bonita é construção social. Eu entendo que muitas mulheres usem o discurso da beleza como empoderamento. E cara, isso é muito legal.

Mas não serve para todas. Muitas de nós não vamos querer nos preocupar com isso. Em querer ser bonita. Estar gata. A ser a “melhor versão de si mesma”. Esse discurso pode ser muito violento.

Eu não nasci para ser agradável aos olhos de ninguém, para ser aprovada por ninguém, para despertar o desejo de ninguém. Isso faz com que muitas mulheres acordem todos os dias e vão dormir se achando um lixo.

Meu corpo não é peça de decoração. Ele serve para muitas outras coisas nas quais a tal beleza não participa. Então porque a gente ainda pensa em beleza como o valor mais importante quando o assunto é ser mulher?

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Aparências

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A gente passa metade do tempo militante lutando para ninguém julgar ninguém pela aparência. E a outra metade julgando e disparando mágoa e animosidade nas pessoas que tem uma determinada aparência.

Não é a existência da pessoa dita bonita que sustenta o padrão de beleza excludente. Não é a existência de alguém que sustenta uma situação estrutural. Ela, no máximo, reproduz. No caso da aparência física, isso nem mesmo é uma opção.

A sustentação da exclusão e marginalização se dá via mecanismos materiais alinhados a um discurso naturalizador. Cobrar posturas individuais, culpa e autoflagelação não muda a estrutura. Nem faz cócegas nela. No máximo satisfaz parcialmente nossa fome de um sofrimento alheio que se equipare ao nosso.

Quando eu era criança, meus pais (?) me ensinaram a prestar atenção quando estou apontando o dedo. É um pra lá, um meio confuso e três pra mim. Bobo, né? E, no entanto. Poucas coisas mais verdadeiras (diferente do “nem escuto a zoada da mutuca”, que é mais a enunciação de uma intenção que de um fato, mas divago).

Eu acho que cheguei estragada para a militância feroz. E para a militância sentida, magoada. E, mais que tudo, para a militância que não se pergunta sobre ela mesma. Coloco (contente) na conta de dois barbudinhos, Freud e Horkheimmer. Eu já escrevi umas mil vezes (mas aprendi também que tem um gozo na repetição) que o caminho é tão importante quanto o local de chegada. Que ele determina o local de chegada. Que temos que nos inquirir sobre nossos processos, nossas motivações, nossas chaves e nossas falhas e nunca, nunquinha, supor os processos, motivações, chaves e falhas internas alheias.

Acho que a gente acabou entendendo errado o negócio do privilégio. Ou fui eu que entendi na contramão, forçando o conceito pra meu horizonte de referências. Eu sempre entendi que privilégio era algo pra gente ir dando conta dos nossos em relação a. Tem duas coisas embutidas aí: o privilégio dos outros não é da minha conta, não sou eu quem tem que apontar, identificar, qualificar, analisar, questionar, whatever, isso porque (aí vem o loutro lance, mais importante) o privilégio (o meu e o de qualquer outro) não é absoluto nem cristalizado. Privilégios são em relação. São forças, dinâmicas. Não rótulos estanques. Ninguém (acho eu) deveria ser “acusado” de um determinado privilégio. Mas, claro, reconheço que eu posso ter forçado o conceito pra poder compartilhar dele. Se não for isso, se rpivilégio é alguma coisa que a pessoa tem, absoluta, definível, identificável a priori e sem contexto, estou desde agora parando de usar e deixando de achar útil na militância.

Sair da modo-culpa-de-funcionamento, seja nossa, seja demandando a alheia, penso que seria um passo importante para uma dinâmica de relacionamentos interpessoais bem mais, na mais superficial das hipóteses, divertida.

Vivemos numa sociedade excludente. Sim. Um dos aspectos em que isso se evidencia é na questão da aparência física. Sim. Nesse quesito unem-se preconceitos vários como racismo, gordofobia, transfobia, preconceito contra deficientes físicos, etc. Sim. Isso fica material na hora de sentar na cadeira do avião, de tirar foto pra documento, de ler uma vaga de emprego que fala em boa aparência? Sim. Isso também aparece na hora que você vai pra balada e sua amiga magra, loira e malhada parece ter mais olhares desejosos do que você, baixinha, gorda e meio índia? Sim. Mas. Enquanto dá pra gente discutir novos tamanhos de cadeira no avião, demandar novos softwares de leitura de imagem e fiscalizar a equidade nos processos seletivos, não tem ação externa que dê conta do desejo (e nem é pra ter mesmo).

O desejo, os afetos, os amores, os relacionamentos, são atravessados por construções sociais? Não. Eles mesmos são construções sociais. Nem por isso são voluntários, domesticáveis, moldáveis conforme a disposição política e militante.

A dinâmica de transformação da realidade social é dialética, vamos mudando o dentro e lutando no fora e ao mudar o fora vamos redimensionando o dentro. Demora? Sim. Vai continuar doendo ir pra balada e não pegar as pessoas todas que a gente nem queria pegar mas queria que quisessem nos pegar? Sim (ou não, vai que a gente aprende também a não ficar olhando o que não tem e aproveitar melhor o beijo na boca disponível). Mas a transformação do quem e como se deseja nunca será por imposição ou vontade consciente.

A única coisa que pode resultar da fiscalização do tesão e dos relacionamentos alheios é moralismo. Imposição. Doutrinação. Culpa. Pecado. Ou seja.

O que a gente pode ir construindo é um território onde os desejos e relacionamentos que não são no “padrão” não sejam ridicularizados, escanteados ou causem temor e vergonha. Isso é um passo. O que a gente pode tentar é desenvolver comportamentos e discursos com menos foco na aparência física. Isso é um passo. O que a gente pode ir fazendo é lutar por representatividade. Outro passo. O que a gente pode ir incentivando é mais generosidade com nossas nomeadas imperfeições, sem esquecer que o lugar de onde essa limitação vem não tem relação com o corpo em si, com o que ele faz e oferece, mas com uma dinâmica que busca criar a insatisfação. Mais um passo. O que a gente pode ir fazendo é lembrar que o mundo que a gente tem de horizonte ainda vai ter esta gente toda que habita neste (a não ser que, mas então nem estamos do mesmo lado da trincheira), eles sendo do jeito que a gente quer ou não. E que a gente não deveria achar que tem o direito de determinar que alguém seja de algum jeito (mas sim que a sociedade funcione de determinada forma).

O que a gente pode ir fazendo é gozar. E deixar gozar. Abrir mão da culpa. Nossa. Do outro. É parar de exigir enquadramento, seja ele qual for. Vamos gozar. O prazer é subversivo.

Entre soslaios e mais

Há sempre um desejo. Ali a espreita, observando. Podem ser pedaços de axila a mostra, com ou sem pelos. Um sorriso maroto, um sorriso farto, ou, ainda, um sorriso farto e maroto. Uma roupa vermelha, uma boca vermelha, uma unha vermelha. Pé descalço, pé sujo, dorso do pé. O desejo está – talvez – nas pequenas cousas que nos saltam às sinapses, aos olhos, ao olfato, ao sexo. Molha, incandesce, ruboresce. Um cheiro, de perfume a suor, quem sabe?

Transavam, sabiam caminhos já. Apesar de tudo, de todas as conquistas deste amor livre, do dar e receber quando as telhas – duas ou mais – resolvem se encaixar em vontades e libido, era bonito e obscenamente interessante aquela insistência. Da segunda vez já descobriram que existia uma pinta, sim, uma pinta, que quando tocada ligava um circuito todo de pele, falo, grelo, grelos, falos, peles. Usaram a língua e foi como se a linguística sempre estivesse a serviço dos corpos, para instinto e fome. Ou de saciar ou de crescer. Cacete, vulva, xoxota, pau, buceta, bigulinho. Já na terceira vez tinham ruelas com esses nomes em plena planície do umbigo. Ah… os umbigos…..

E o desejo, ali. Na espreita. Espreitando. Se esfregando. Se tocando. Se fodendo, todo. Teve um comentário sobre filme do Scola, despretensioso, nus, num intervalo qualquer, que entre a ternura e a delicadeza, deu ao desejo mais tempero, mais esfrega, mais toque, mais foda. Uma mão na bunda, um dedo no cu, uma saudade aqui e alhures, uma louca febre de andar pelados pela sala. Os sexos ali, esfolados, salgados, lúbricos e com gosto de hálito quente umedecido por lábios tenros.

O desejo ali, a espreita. Uma hora ele se levanta e vai embora, sabemos. Mas naqueles átimos universais, fragmentos da história, de civilizações, de escambos necessários: Gozo.

Feliz 2016. Este desejo também.

beijo orelha

O IMC que não leva em conta nossos sonhos

Por Katiuscia Pinheiro, Biscate Convidada

Recentemente eu fui ao médico levando resultado de exames e felizmente meu colesterol e glicemia e todos os outros exames estão bem, apenas precisando aumentar um pouquinho a taxa do colesterol bom.

 Mas o médico me diz que eu preciso perder peso. E eu pergunto porquê. E ele titubeia e não sabe bem a resposta, já que meus exames estão ótimos. Ai ele menciona o famoso IMC (ìndice de Massa Corporal) e diz que eu estou fora desse parâmetro…

Eu olho pra ele com aquela cara de “E em que isso afeta a minha saúde?” E ele, numa tentativa de flexibilização mínima, reconhece que realmente esse índice não leva em conta elementos como a estrutura óssea da pessoa…

E cá comigo eu penso que não leva também em conta nossos sonhos… A verdade do meu corpo que sai da boca dele começa a se desmanchar como sorvete no deserto…

No fundo não tenho motivos plausíveis para emagrecer. A não ser a pressão midiática que quer nos convencer que somos feias e que temos que ter o corpo padrão da Rede Globo. Que nos ensina a odiar nossos corpos e que se vale de profissionais como ele para enterrar a pá de cal em nossa auto estima…

Ele me manda fazer atividade física (o que acho importante para ter disposição e flexibilidade), mas é com relação ao peso que ele associa essa recomendação… Ele quer que eu fique magra… Quase disse a ele que meu IMC é outro: Índice de Mulher Chacrete!!! E que com esse corpo eu consigo descer até a boquinha da garrafa, mas que não desejo entrar nela!!!

E se algum dia eu desejar virar a “Jeannie é um Gênio” eu o farei, mas não pela negação de quem sou hoje, mas pela clareza de que essa é TAMBÉM uma possibilidade, nem melhor nem pior que a realidade corporal que vivo atualmente. Apenas outra. Porque quando eu decidi ser ruiva não foi porque eu odiasse meu cabelo… Fiz porque tenho direito a escolhas e a uma régua que só cabe a mim mesma.

10481940_846432465423526_6050972462899631474_nKatiuscia Pinheiro se diz assim: leonina transfeminista, professora e tia. Ando com somente um pé no chão, de noite e de dia. Curto dançar, sexo e coisa e tal, mas ficar triste também é normal. Na alma tenho muitos defeitos, no corpo, dois peitos. E se a mídia não atrapalhar, vou envelhecer sem me estressar.

 

Toca Sebastiana!

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Na semana passada li um artigo publicado na BBC Brasil sobre masturbação feminina e no quanto isso ainda é tabu na sociedade. Na Suécia até lançaram, em junho, uma campanha para inventar um novo nome para a “autoestimulação genital feminina” (ufa!). O escolhido foi “Klittra”, fusão das palavras “clitóris” e “glitter”, escolhido entre 200 sugestões recebidas pela Associação Sueca para a Educação Sexual.

A ideia da campanha é estimular a igualdade de gêneros. “Segundo um relatório da educadora sexual americana Debby Herbenick, 44% dos homens se masturbavam duas ou três vezes por semana. Entre as mulheres, essa proporção era de apenas 13%. Já um estudo espanhol, realizado em 2009, indicou que era muito maior a parcela dos homens que dizia ter se masturbado no mês anterior à pesquisa do que a de mulheres (46,9% deles contra 4% delas).”

O texto ainda destaca a influência da religião na busca do prazer feminino: “Nascemos com o corpo organizado para sentir, há funções específicas que são ativadas no momento de receber um estímulo agradável (…), mas as normas culturais e religiosas não permitem que as mulheres desfrutem de sua sexualidade na plenitude.”

A matéria não fala especificamente do Brasil, mas sabemos que não é muito diferente. Com a diferença que lá estão lançando campanha. Aqui, a gente continua sem nem falar muito sobre o assunto. Mesmo em grupos de discussão e rodas de conversa, masturbação feminina não costuma ser tema dos mais corriqueiros. Falamos pouco disso, inclusive com nossas melhores amigas.

Pois dialoguemos aqui. E minha maneira de falar sobre o assunto é começando por revelar que, sim, minha gente, eu me masturbo! Antes, preciso dizer que glitter na xoxota não é exatamente meu ideal de estimulação genital. Embora, sei lá, seja até bonitinho. Mas, tô mais é pruma licka licka, mesmo.

Ilustração de "Garota Sirirca"

Ilustração de “Garota Siririca”

E isso não tem nada a ver com insatisfação sexual. Tem a ver comigo e comigo mesma. E não sou muito dos brinquedinhos, não. Me regalo mesmo é com minhas mãos. E com os meus dedos. Principalmente de manhã.

Estímulos eróticos, como contos, me excitam bastante. Em geral, basta um tiquinho de putaria na web pra me deixar ligada. E, não, não tenho 15 anos. Tenho bem mais. Mas, é isso. Continuo facinha, facinha pra me excitar com bobagem sacana da internet. Ai, se meu google falasse! Estamos aí, tocando campainha desde a mais tenra idade. Poderia dizer que me masturbar me acalma, e é verdade. Me desestressa. Também é. Mas, faço é porque é gostoso mesmo. E dá-lhe tocar sanfona de manhã!

Aliás, concordemos que os suecos pensando que inventaram um neologismo com essa “Klittra” e a gente nem precisou de campanha pra criar a siririca! Até fui atrás da origem do nome. Vasculhei por aí e descobri no primeiro blog recomendado que “siririca” poderia ser, na verdade, “um termo técnico usado inicialmente por médicos pesquisadores do assunto, no qual siririca é sigla para Sistema Individual de Recreação Íntima ao Rostir o Indicador no Clitóris e Adjacências.”

Curioso. Mas, né. Rostir. Sei nem como conjugar na primeira pessoa.

Segundo esse mesmo blog, outra explicação é que siririca seria uma onomatopeia, já que o clitóris é conhecido por alguns como “grilo ou grilinho”. “Algumas pessoas acreditam que o som que o grilo (inseto) faz é resultado de um esfregar de patas. Logo, a siririca seria então uma onomatopéia ao som do grilo esfregando.”

Vai ver é por isso que curto tanto. Vivo atrás do cri-cri-cri da roçadinha!

Me dei por satisfeita com essas explicações e nem segui com a busca. Preferi fazer outras coisas com a inspiração. E dá-lhe lapidar a safira! Só discordo do blog quando fala que a palavra siririca é vulgar prum ato que não é. Mas, gente. Não acho uma coisa nem outra. Antes pelo contrário. É até fofa. E, puxa. Que mal tem se a siririca é vulgar? Será que aqui também teremos que criar um neologismo chique pra boa e velha masturbação?

Tem mesmo que chipar duas palavras pras pessoas se livrarem de seus tabus? Qual seria, no caso, usando a sugestão dos suecos? Glitóris?

:-/

Até a siririca precisa ser sexy?! Pois defendo a ideia de deixá-la o mais natural possível. Isso posto, que não seja extraordinária. Que seja mesmo ordinária. Cotidiana. Feliz. Livre.

Porque aqui, nesse blog, a siririca é a verdadeira sororidade!

Conheça mais de Garota Siririca

Queima…

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Como me queima a alma….

Alguém desconfia o que é o desejo?
Torpor que invade, cega, denuncia…
Ardor, suor, dor, vontade
Não quero pensar, mas desejo
Quero afastar, mas quero inteiro.
Qual a diferença entre amor e desejo?
Isso que queima, lateja, arrepia… molha
Os olhos são como o sexo, o sexo é como ar

Alguém desconfia o que é o desejo?
Trêmula, trêmulas minhas mãos…
E a hipocrisia de negar é negada pelos meus seios
Sequiosos, arrepiados, arredondados, rasgam vestes
Estimulam olhares, estimulam olhares….

São sentimentos distintos, paixão e desejo?
São complementos vitais? Quero…
Vagas lembranças e sinto o cheiro…
súbito, direto, vício, vital, pulso e me queima
E o gosto. O sabor. Suor.

Alguém sabe a diferença entre desejo e viver?
Gritar. Arranhar. Verbalizar. Desejar. Desejo…
Me toco. Te toco. Toque. Retocar. O fogo.
Como me queima a alma….

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https://contosdealcovatenra.wordpress.com/2010/10/20/das-linguagens-do-corpo/

Outro

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Conheço esta pessoa faz, pelo menos, 15 anos da minha vida. Parte da minha infância e adolescência foi ao lado de sua família. Frequentei a sua casa, me tornei amigo de sua mãe, vi o irmão mais novo nascer. Cheguei a visitá-lo no hospital quando ele se acidentou andando de bicicleta, na rua onde morava, anos atrás.

Ser LGBT, no senso comum, é inegavelmente ser promiscuo. Carregamos conosco o estigma da libertinagem e perdemos nossa humanidade para dar espaço a corpos abjetos preparados para servir sexualmente ao outro sem que haja a necessidade de envolvimento. Somos seres desalmados que carregam orifícios que precisam ser preenchidos; penetrados. Mais do que isso, que querem ser penetrados, principalmente por um “homem de verdade”.

Homens héteros que procuram por homens gays para sexo casual não são gays encubados. O sexo aqui perde a sua característica enquanto uma relação de mútuo prazer e passa a ser visto como forma de favor e punição.

Na cabeça da grande maioria heterossexual, o público gay carrega consigo o fetichismo e o desejo pelo proibido do homem hétero pela nossa vontade incensante de se relacionar com um “homem de verdade”. Afinal, são eles quem trazem consigo não somente os estereótipos carregados no tocante à virilidade – um dos signos reconhecidos socialmente da masculinidade, mas também são os únicos legítimos para performá-los. Como se todos os homens gays buscassem por homens viris. Como se a virilidade fosse via de regra para a masculinidade e ao tocante sobre o que é ser homem. E, uma vez que gays procuram por homens, logo, eles serão objetos de nosso desejo e só nos realizaremos completamente quando, enfim, nos relacionarmos com eles.

As demonstrações de interesse sexual pela parte dominadora soam como um favor, uma vez que, ao se rebaixarem, eles reafirmam suas posições de privilégio e se colocam nivelados acima. Quando um homem hétero se vê como objeto de desejo de um homem gay, ele reforça sua posição de superioridade e hierarquização social – que aqui se correlaciona diretamente a uma heteronormatividade dentro de seus vários aspectos. É como se estivessem prestando uma gentileza a nós quando se dispõem a se relacionar com a gente.

A punição, por sua vez, vem no que diz respeito a nossa subversão à masculinidade compulsoriamente imposta pelo gênero identificado: ser homem e “ser submisso sexualmente a outro homem” (sic) é papel da mulher. Ferir o orgulho masculino se submetendo a práticas “performadas pelo gênero feminino” (sic) merece castigo.

O sexo punitivo geralmente acontece numa mão única: desde o prazer até os limites da relação terão somente um sujeito na ordem das regras, e sabemos quem é. Não há preocupação com o bem estar do outro, com os limites do outro, com prazer do outro, tudo vai girar em torno do um pinto. “Não era isso que você queria? Não é de pau que você gosta?”, eles dizem.

Eu já perdi a conta de quantas vezes fui abordado por homens casados e que não são gays, mas héteros que procuram em seres “inferiores” a possibilidade de realização dos seus desejos e fetiches sexuais sem que haja o mínimo de respeito no envolvimento. Outro bloqueado pra lista.

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11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

Manda Nudes

Texto construído em conversas
com a deliciosa e sabida Patrícia Guedes

Como eu já disse por aqui, gosto muito de ficar nua. Acredito que somos nosso corpo e nosso corpo nos é. Estamos. Assim, conhecer, tocar, percorrer, gozar do próprio corpo me parece caminho interessante a ser percorrido no processo de minha diferenciação, autonomia e prazer de viver. Enfim, pele, suor, saliva, contornos, buracos, texturas, tudo isso me interessa. Não é apenas sobre me sentir ou não bonita, desejável, atraente, whatever, mas sobre sentir-me bem, sentir prazer no corpo, sentir a potência e os limites do meu corpo, ou seja, meus limites e minha potência (o que também inclui sentir-me bonita, desejável, atraente, porque não? Só não se reduz a isso).

Ser gente, hoje, em tempos de capitalismo flexível, é lidar diariamente com estruturas, cultura e discursos de controle do corpo. De forma agravada, quando se é mulher – o bonde do capitalismo segrega e machuca quando agrega machismo (e racismo, homofobia, bifobia, transfobia, capacitismo, gordofobia, etc).  O corpo de uma mulher (concreta, real) está sempre errado frente a uma mitificação do ideal de mulher (abstração branca, magra, cisgênero, sem deficiência, de classe média, etc). São corpos à margem.

Os corpos das mulheres trans*, permanentemente vigiados, condenados ao se ajustarem de forma insuficiente ao ideal feminino, rotulados como “falsos” ou condenados por se ajustarem demasiado e colaborarem para sustentar esse padrão. Os corpos das mulheres negras, reduzidos ao seu grau de exotismo. Os corpos das mulheres que, aparentemente seguindo o “correto”, como malhar, o exacerbam a seu gosto e fogem do esperado. Ah, mas esses corpos nem parecem de mulher. Ué, se o corpo é dela e ela é mulher, logo seu corpo é “de mulher”. (Fragmento de Mulheres: Corpos Sempre Disponíveis, publicado no Blogueiras Feministas)

O corpo de uma mulher é território sobre o qual terceiros pretendem poder legislar, avaliar, rotular, categorizar e dispor. Não por acaso temos os altos índices de violência obstétrica, temos uma legislação punitivista e moralista sobre interrupção da gravidez, temos “argumentos e considerações” sobre o comportamento e roupas de mulheres vítimas de assédio e violência sexual, temos a mitificação da maternidade e o silêncio sobre a ausência de ações coletivas que resulta em culpabilização das mulheres no que se refere ao cuidado de crianças, temos o silêncio cúmplice e indiferente aos altos índices de violência doméstica, temos o assustador número de assassinatos ignorados de travestis e transsexuais. Poderia aumentar – e muito – essa lista, com elementos aparentemente díspares mas que se reúnem sob o selo de um poder externo sobre o corpo das mulheres.

Nesse sentido, uma relação íntima e prazerosa com o corpo me parece vital, provocadora, até revolucionária. Não em uma perspectiva individualista e essencializada, mas uma relação íntima e prazerosa com um corpo concreto, um corpo com contexto, um corpo localizável na geografia, um corpo com gênero, classe social e raça. Não uma relação onde se afirme um corpo e uma leitura do corpo próxima do aceitável, mas justamente uma relação “errante”, que se constitui no gozo de ir onde o corpo vai e não levar o corpo a algum lugar pré-determinado. De outro modo, uma relação íntima e prazerosa com o irrepetível do corpo, com a particularidade do nosso desejo, com o que escapa. Não é negar o que nos falta, mas acolher a ruptura, a ausência, festejar a diversidade, a alteridade de cada corpo (e, assim, de cada sujeito). Alteridade que só faz sentido, justamente, na localização além desse corpo único, na classe, raça, local, gênero que o compreende.

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Esse preâmbulo todo é pra falar de nudes. Esses dias uma revista dessas famosas e tal convidou as mulheres a mandarem nudes sem identificação (sem rosto, mais exatamente) para serem publicados na próxima edição. Não se trata de julgar os nudes que serão feitos e enviados. As ações individuais das mulheres não serão, por mim, rotuladas, questionadas ou qualquer coisa nesse sentido. Mas isso não implica abdicar de tentar compreender e discutir como a convocação da revista é operada, a partir de que lugar discursivo e com que implicações. Euzinha considero essa convocação completamente irresponsável. Dependendo do momento, utilizo até adjetivos mais fortes. Sob o discurso de um suposto empoderamento, rasteja a mais completa falta de noção ou uma escrotidão quase indefinível. É inconsequente, para dizer o mínimo. Ficando só no óbvio, como a revista vai proteger mulheres de terem suas fotos nuas, feitas em momentos de intimidade e sem esse propósito, enviadas por terceiros? Como assegurar que apenas mulheres maiores de idade enviarão os registros fotográficos? Que critérios serão usados para selecionar as fotos? Os corpos “não-convencionais”, usualmente cosiderados abjetos, ignorados e silenciados, os corpos das mulheres gordas, negras, trans, esses corpos serão igualmente acolhidos?

E eu fiquei especialmente matutando o lance dos nudes serem solicitados “sem cabeça”. Na primeira leitura pode parecer que é para proteger a privacidade da mulher – e em parte opera assim, mas não garante, o cenário pode ser igualmente revelador, mas divago. Porém me parece que há algo que age para além da garantia de privacidade. Fiquei com perguntas. Se o objetivo alegado é o tal empoderamento, como acontece se a pessoa se apaga, se desindividualiza, se esconde? Não seria o caso de posar com nome, sobrenome e riso solto? Reconheço que minha reflexão parte de um lugar de privilégio, de poder mostrar o corpo se e quando eu quero sem (muitas) represálias. Mas não seria o caso de agir no sentido de construir uma sociedade em que esse privilégio não fosse o que é e não apagar o problema, descartando os rostos e identidades?

Não sou contra nudes (nem precisaria dizer, mas, né, só pra garantir). Não acho que fazer nudes é uma burrice inconsequente que só serve pros homens se excitarem – como vi repetido por algumas pessoas (o que, aliás, revela um pensamento bem heteronormativo, afinal apaga que há mulheres que se excitam com outras mulheres). Considero que o nude pode ser uma ferramenta útil nesse processo de construir uma relação íntima e prazerosa com nosso corpo. Assim como a masturbação, andar nua pela casa, olhar-se no espelho na hora do banho, ir a uma praia de nudismo, experiências várias que permitam uma aproximação da gente com a gente mesma. Mas como qualquer instrumento, o nude se localiza não no vácuo, mas em um processo sócio-cultural multideterminado. Como qualquer instrumento ou ferramenta, ele não é em si mesmo, mas opera ao ser operado.

Em uma conversa no FB, ainda hoje, aprendi um bocado sobre como o nude pode ser valioso para pessoas, para mulheres, que tem seu corpo vistos como abjetos, não-desejáveis nem desejantes. O nude permite, para além dos outros exemplos que dei, um certo controle do sujeito sobre o próprio corpo, um controle originado não do exterior como a maior parte dos controles a que nossos corpos são submetidos, mas uma determinação sobre como se vai ser visto. O que o sujeito deseja re-velar (mostrar para esconder, esse jogo de sombras e ausências que nos permite ser) é o que a fotografia oferece.  O nude convida o olhar do outro, entrega-se supostamente ao crivo alheio, mas, concomitantemente, seleciona o que vai ser visto, dando uma certa margem de conforto. Mesmo que o nude seja para ser visto pela própria pessoa (um self-nude?) o olhar que temos sobre nosso próprio corpo nu é um olhar Outro, mediato, um olhar no só-depois.  Afinal, o corpo registrado no nude não é mais o corpo, mas uma representação não só do corpo, mas de um discurso que o registro incorpora. Para as pessoas que tem seu corpo diariamente avaliado para além do seu desejo e controle, esse poder é, repito, valioso.

René Magritte La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe) (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929 Oil on canvas 23 3/4 x 31 15/16 x 1 in. (60.33 x 81.12 x 2.54 cm) Los Angeles County Museum of Art, Los Angeles, California, U.S.A. © Charly Herscovici -– ADAGP - ARS, 2013 Photograph: Digital Image © 2013 Museum Associates/LACMA,Licensed by Art Resource, NY

René Magritte – La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe)                                                         (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929

Então, eu podia terminar esse texto falando que existe um nude certo, um nude de raiz, um nude arte, um nude moleque. Mas não vou. Não vou dizer que o nude convocado pela revista será, necessariamente, alienante. Ué, para alguém (ou alguéns) pode ser um montão de coisa, divertido, empolgante, excitante e, até, elemento de autonomia e responsabilização pelo desejo. Não tem norma, não tem forma. O sentido da experiência quem vai dar é o próprio sujeito, cada mulher que enviar – ou não – sua fotografia. Cada qual no seu desnudar-se, cada corpo no seu revelar-se, cada desejante responsável pelo seu desejo. Mas o significado (beijos, Vigotsky) da convocação da revista e da publicação das fotos, esse tendo a considerar como mais do mesmo no que tange a corpos femininos anonimizados, descaso pelas implicações na vida das mulheres e tendência a uma certa mercantilização e domesticação dos corpos revertida em capital.

Meu desejo é que esse território explorado, que é o corpo feminino, se insurja cada vez mais. Em nudez, em riso, em gozo. Que opere a contradição e que subvertamos a ordem. Que os corpos errados não se tornem certos, mas que reconheçamos a beleza do inesperado. Que novos significados possam ser construídos, a partir de sentidos outros, diversos, indomáveis. Que a materialidade dos corpos, suas fomes, suores, fluidos, fragilidades e potência entrem na dança e na luta, corpos que existem, que demandam, que sofrem e sentem e gozam. Bora nessa, sem precisar de validação de revista, um dois, três: todo mundo nu! YAY!

Leia também: As Marcas e os Memes

Vamos deixar as pessoas em paz

Texto de Iara Paiva
com participação da bisca Luciana

Hoje na hora do almoço tava pensando em como alimentação é algo que rende assunto. Porque a gente pode pensar do ponto de vista da cultura, da história, da nutrição, da política de comércio internacional, da economia. É fascinante. Mas tem um ponto em que eu me recuso a entrar na conversa: quando passamos pra gordofobia.

Gordofobia, de forma simples, é o preconceito contra pessoas gordas. É julgar e rotular personalidade, comportamentos, valores a partir de um aspecto físico: ser gorda. Assim, nossa sociedade gordofóbica costuma relacionar às pessoas gordas coisas como preguiça, desleixo, má saúde, etc. A gordofobia faz com que as pessoas gordas sejam representadas, de maneira geral, como desagradáveis, repulsivas ou inconvenientes. A pressão que fazemos sobre as pessoas gordas, como sociedade, geralmente promove perda de autoestima, ódio internalizado, sofrimento psíquico, desconforto, inadequação social, etc. Gordofobia é a naturalização discursiva e material (porque tanto acontece quando dizemos que pessoas magras são mais bonitas como quando produzimos meios de transporte cujas poltronas não acolhem todo tipo de corpo com conforto) de um “modelo cultural que privilegia pessoas magras e marginaliza gordas”.

Podemos pegar o exemplo dos fumantes… por mais que ninguém seja obrigado a fumar – como é obrigado a se alimentar – por mais que fumar possa causar diversas doenças, por mais que deixar de fumar seja socialmente mais simples do que fazer regime, o fumante não é assediado como a pessoa gorda. Ainda bem, nem tem que ser! A gente discute propaganda, indústria do tabaco. Discute os limites alheios por conta da fumaça e tal. Mas eu não vejo ninguém ridicularizando fumante, sabe? Tratando como alguém inferior ou digno de pena.

Mas, ain, é por causa da saúde, sei que lá a saúde da pessoa gorda, muitos anos de vida”… Mas saúde não é nem precisa ser um referência individual universal. Nem o desejo de viver muito tempo. Tem gente que quer e se preocupa, tem gente que não, ué. Ser saudável (o que quer que isso seja, porque é outra discussão bem longa) é um valor e uma referência individual que não podemos imputar ao outro e quando o fazemos é sempre uma violência.  Como disse a Jarid: “ é também papel do feminismo combater esse discurso de ódio e má fé disfarçado de preocupação com o bem estar; é necessário lutar contra a imposição de padrões, seja de aparência, roupas ou comportamentos. Cuidar de si mesma e amar outras pessoas significa não constrangê-las e envergonhá-las. Ninguém jamais deveria impoôr aà outra pessoa, não importa quem seja, nenhum tipo de roupa, alimentação ou comportamento.”

Então me irrita essa desculpa cínica do “é pela saúde!”. Não é, nunca foi. Vamos assumir que a gente não gosta de gordo? Que foi ensinado socialmente, mesmo que não tenha sido dito explicitamente, que gordo é inferior? Que mesmo pessoas gordas sofrem com gordofobia internalizada? Que eu tô escrevendo textão, mas olho no espelho e acho meu bracinho de biscoitera roliço? Que até pessoas magras podem sofrer por se acharem “gordas demais” para uma sociedade cujos padrões são cada vez mais magros e se afastam cada vez mais de uma suposta “busca de saúde”?

Bora ser honesto. Depois a gente foca o debate na indústria alimentícia, na propaganda, na política, no discurso médico, na educação, no caralho a quatro. Mas primeiro vamos deixar as pessoas em paz.

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Vai e Vem

Que seja fácil. Sem perguntar o porquê nem o quando. Sem procurar uma norma. Sem modelo. Suave. Borboleta no peito. Não se sabe direito quando chega nem quando vai. O corpo solto. Não controla. Não promete. Vai ficando. Arranca as páginas do calendário e faz tapete. Tira a bateria do relógio. Que seja em diminutivos. Fica pra um cafezinho. Dá um abracinho. Leve. Deixa chover, deixa a chuva molhar, cantarola uma canção sem pejo. Afasta os móveis, afasta os medos, ensaia um bolero. Só dá bola pro amanhã quando for um hoje. Aprende o adeus. Tudo que vem, vem, volta, cantarola outra vez. Lembra do Kronk e cria sua própria trilha sonora. Abre a janela e deixa o vento embaralhar cabelos e sonhos. Aqui pode. Aqui sim. Aqui e aqui também. Vem. Vai. Sem razões, sem justificativas, sem explicações. Vontade. Tesão. A ponta da língua. A pele. Sem linha, sem pauta, sem regra. Desse jeito, apenas. Primeira vez. Única. Singular. Toca. Abre. Cuida. Solta. Lembra. Esquece. A beleza de esquecer. Suspira. Eu. Você. Sem nós. Mais. Quem chegar. Como chegar. Recebo.

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Chega. Abre a porta, os braços, meu zíper. Encosta teu corpo no meu. Me abraça. Geme no pé do ouvido. Lambe aquele caminho debaixo da orelha até o vão do pescoço. Esfrega o pau duro nas minhas coxas. Me encosta na parede, na máquina de lavar, no encosto do sofá, no que estiver mais perto. Enche as mãos com a minha bunda. Aperta. Roça. Morde o ombro, o queixo, o lábio. Aproxima o nariz do meu e manda eu abrir os olhos. Bitoca. Procura o sutiã e ri baixinho de não encontrar. Uma mão na curva das costas, a outra apertando mamilo. Belisca. Me deixa mole. Com a boca aberta deixa saliva no meu rosto todo. Me vira. Me curva. Usa o joelho pra afastar minhas pernas. Segura minha cabeça, mais escuto que vejo sua calça descer.  Encaixa a mão na minha buceta, move a calcinha pro lado. Enfia um dedo. Outro. Sussurra o que vai fazer. Faz. Vem. Volta. Pau. Dedo. Pau. Dedo. Me dá a mão pra eu lamber. Geme. Desce. Senta no chão, levanta a cabeça. Lambe. Suga. Se toca. Me chupa. Deixa o rosto me sustentar enquanto a língua me prova. Fraquejo. Deslizo. É uma almofada? É. Puxo. Levanto o quadril, apoio no macio. Sinto a língua espalhar o gosto minha buceta pela pele arrepiada. Ia dizer me fode, digo eu te amo.

Dá cá um abraço, amasso!

Abraço.

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E calor. De corpos. De pele. Peles. Já pensou, imaginou, masturbou, tocou, gemeu sobre este instigante tema da humanidade, o abraço? Porque o que é um pau numa buceta senão um abraço. Ele rijo, ela molhada. Ele lá, ela lá, pinto, vulva, cacete, xoxota, molhado, molhada, entumescidos, clitóris, babas, gozos, abraço. Não é um tipão de abraço, este aí?

Sem contar que num tem analogia mais brincante que o cu abraçando o pau, apertando, doendo de amor, tem? Pode ter malabarismo, gel, suores, odores, mas tem lá um quê de abração, gostoso, forte, imantado. A cabeça da gente funciona aos abraços, imagino.

E tem abraço que é capô com  capô. Aquele encontro de formas, exuberares, toques, avessos, esfrega, fricciona, ama, clama, vexama, denguinho, abraço, abraço, abraço.

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Esse mundão todo devia era abraçar mais e falar menos. Porque a gente quando fala esquece de ouvir. E quando abraça, o abraço, o abraço, só tem calor se for entrega, sem protocolo, aperto, saudade, vontade. Desejo do calor do afago, do carinho recíproco, do amor que nasce de corpos que se aquecem. Abraço não tem gênero: no futebol, na cama, no boteco, na rua, na varanda, na esquina, no meio, no fim, no começo, no fim do entrevero, no começo da paz, nas intermináveis dessolidões tão importantes. Me abraça, abraço, abarco. Abarcar. Acalento, acalanto, acalentar, abraçar, canto.

Sem contar que o beijo, a língua na língua, a língua no falo, a língua no grelo, a língua no ânus, a língua no amor, a língua a milanesa num balcão de bar: quem é que não tem, na ponta das línguas, um abraço?

É isso, biscate é abraço.

Velha

Lá pelos meus dezessete, dezoito, eu comecei a dizer que não tinha medo de envelhecer, dizia mesmo que queria envelhecer. E a resposta mais comum que eu recebia era: “espera chegar aos 40, aí você vai ver”. Bom, eu cheguei e minha relação com a velhice não mudou, ela continua bem vinda, estou curtindo. O que mudou foi a resposta que escuto: “espera chegar aos 50, espera chegar aos 60”.

Eu entendo o desconforto das pessoas, especialmente das mulheres, com a velhice. Como não entenderia? Primeiro porque os corpos velhos nos recordam a finitude. Findamos, o que nos apetece esquecer e que o tempo não cessa de nos recordar. Recusamo-nos, como sociedade, a lidar com a morte que, indiferente, chega. Essa amarra se agrava porque não é só a morte que negamos, mas a diversidade. Em uma sociedade como a nossa, tão rigorosa na vigilância dos corpos, tão atenta ao encaixe nos modelos de beleza, ter um corpo fora do padrão é difícil. O corpo que envelhece não é bem vindo, não é bem visto pela sociedade. Ser bonita é ser jovem, por princípio (e branca e magra e cis, mas aqui vou falar de um padrão específico, certo?). Parecer velho é ser feio e se, eventualmente, alguém velho ainda consegue escapar do carimbo e nos parecer bonito, não há dúvida: é porque parece mais jovem do que é. É preciso disfarçar as evidências, escamotear os indícios de que se viveu. E isso é das coisas que mais me fazem curtir o envelhecimento: eu gosto da vida. Eu gosto da minha vida.

O tempo passa, eu passo nele, ele passa por mim, ele passa em mim e eu não pareço mais jovem, nem mais velha, pareço mais eu. Legal se a gente pudesse ir sendo, apenas. Que os anos fossem. Que a pele narrasse. Que as caixinhas de adolescente, criança, terceira idade, jovem, não nos definissem, não nos limitassem, não nos explicassem.

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Velho, velha, velhice, envelhecer. Eu escrevo, eu afirmo, acho que há, nisso, uma resistência preciosa. São, penso, muitas as transversalidades relevantes nesse tema. Tem a aceitação do tempo. Da transitoriedade da vida. Tem a desconstrução da norma de beleza. E tem, acho, o reconhecimento de que somos e podemos ser. Que não há nada inerente nem às pessoas nem aos momentos da vida das pessoas. Não somos mais ou menos curiosos na infância que na velhice. Tem quem é mais em uma etapa que em outra. Tem quem é sempre. Tem quem é nunca. Não somos mais ou menos dispostos na velhice que na juventude (proporcionalmente à capacidade física, of course). Há crianças que preferem ler do que correr e velhos que curtem bater uma bola com os netos. Não somos mais isso ou aquilo, não precisamos ser mais isso ou aquilo sendo jovens ou velhos. Não devíamos precisar seguir uma forma para sermos reconhecidos, aceitos, amados. Estar. Estar criança, adolescente, adulto, jovem, velho. E, em cada estar, ser, construir-se, reconhecer-se, fazer-se.

Vou sendo, vamos sendo, o que vivemos. O que gozamos. O que sofremos. O que escolhemos. Mas o que vivemos, gozamos, sofremos, escolhemos não é solto no ar, não vivemos a parte de um discurso social. Não são “as mulheres” que se cobram, que não se conformam com o envelhecimento, não é natural essa dor, a angústia, o desassossego. Como não é natural o comportamento de se aceitar como é, de não dar tanta importância pra opinião alheia, de viver tranquila com cabelos brancos, manchas, rugas e todas as marcas do tempo na pele. Não são “os velhos” que desistem, que param de sonhar, que deixam de sair, que não se relacionam, que são rabugentos, que não sabem sonhar. Não é natural a pessoa velha encolher-se, afastar-se, definhar. Como não é natural a pessoa velha afirmar-se, viajar, dançar, interagir, ansiar, planejar, gozar. Não se trata de questionar, julgar, validar ou hierarquizar as opções pessoais (pintar o cabelo não deveria ser, em si, melhor ou pior que acolher os brancos, por exemplo nem sair pra pedalar é intrinsecamente melhor do que ficar tricotando) mas entender que as escolhas são qualificadas e localizadas em relação ao discurso homogeneizante e prevalente na sociedade. Envelhecemos em um contexto que diz, diariamente, que não podemos, não conseguimos, não servimos, ficamos obsoletos. Somos humanos, somos humanas, esses comportamentos são construídos. Somos as possibilidades e o que fazemos com elas e o que elas fazem da gente. Estar ou sair da norma tem seu preço e ele é cobrado diretamente do nosso desejo, da nossa liberdade, da nossa autonomia, do nosso prazer.

 

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