Vai e Vem

Que seja fácil. Sem perguntar o porquê nem o quando. Sem procurar uma norma. Sem modelo. Suave. Borboleta no peito. Não se sabe direito quando chega nem quando vai. O corpo solto. Não controla. Não promete. Vai ficando. Arranca as páginas do calendário e faz tapete. Tira a bateria do relógio. Que seja em diminutivos. Fica pra um cafezinho. Dá um abracinho. Leve. Deixa chover, deixa a chuva molhar, cantarola uma canção sem pejo. Afasta os móveis, afasta os medos, ensaia um bolero. Só dá bola pro amanhã quando for um hoje. Aprende o adeus. Tudo que vem, vem, volta, cantarola outra vez. Lembra do Kronk e cria sua própria trilha sonora. Abre a janela e deixa o vento embaralhar cabelos e sonhos. Aqui pode. Aqui sim. Aqui e aqui também. Vem. Vai. Sem razões, sem justificativas, sem explicações. Vontade. Tesão. A ponta da língua. A pele. Sem linha, sem pauta, sem regra. Desse jeito, apenas. Primeira vez. Única. Singular. Toca. Abre. Cuida. Solta. Lembra. Esquece. A beleza de esquecer. Suspira. Eu. Você. Sem nós. Mais. Quem chegar. Como chegar. Recebo.

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Chega. Abre a porta, os braços, meu zíper. Encosta teu corpo no meu. Me abraça. Geme no pé do ouvido. Lambe aquele caminho debaixo da orelha até o vão do pescoço. Esfrega o pau duro nas minhas coxas. Me encosta na parede, na máquina de lavar, no encosto do sofá, no que estiver mais perto. Enche as mãos com a minha bunda. Aperta. Roça. Morde o ombro, o queixo, o lábio. Aproxima o nariz do meu e manda eu abrir os olhos. Bitoca. Procura o sutiã e ri baixinho de não encontrar. Uma mão na curva das costas, a outra apertando mamilo. Belisca. Me deixa mole. Com a boca aberta deixa saliva no meu rosto todo. Me vira. Me curva. Usa o joelho pra afastar minhas pernas. Segura minha cabeça, mais escuto que vejo sua calça descer.  Encaixa a mão na minha buceta, move a calcinha pro lado. Enfia um dedo. Outro. Sussurra o que vai fazer. Faz. Vem. Volta. Pau. Dedo. Pau. Dedo. Me dá a mão pra eu lamber. Geme. Desce. Senta no chão, levanta a cabeça. Lambe. Suga. Se toca. Me chupa. Deixa o rosto me sustentar enquanto a língua me prova. Fraquejo. Deslizo. É uma almofada? É. Puxo. Levanto o quadril, apoio no macio. Sinto a língua espalhar o gosto minha buceta pela pele arrepiada. Ia dizer me fode, digo eu te amo.

Dá cá um abraço, amasso!

Abraço.

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E calor. De corpos. De pele. Peles. Já pensou, imaginou, masturbou, tocou, gemeu sobre este instigante tema da humanidade, o abraço? Porque o que é um pau numa buceta senão um abraço. Ele rijo, ela molhada. Ele lá, ela lá, pinto, vulva, cacete, xoxota, molhado, molhada, entumescidos, clitóris, babas, gozos, abraço. Não é um tipão de abraço, este aí?

Sem contar que num tem analogia mais brincante que o cu abraçando o pau, apertando, doendo de amor, tem? Pode ter malabarismo, gel, suores, odores, mas tem lá um quê de abração, gostoso, forte, imantado. A cabeça da gente funciona aos abraços, imagino.

E tem abraço que é capô com  capô. Aquele encontro de formas, exuberares, toques, avessos, esfrega, fricciona, ama, clama, vexama, denguinho, abraço, abraço, abraço.

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Esse mundão todo devia era abraçar mais e falar menos. Porque a gente quando fala esquece de ouvir. E quando abraça, o abraço, o abraço, só tem calor se for entrega, sem protocolo, aperto, saudade, vontade. Desejo do calor do afago, do carinho recíproco, do amor que nasce de corpos que se aquecem. Abraço não tem gênero: no futebol, na cama, no boteco, na rua, na varanda, na esquina, no meio, no fim, no começo, no fim do entrevero, no começo da paz, nas intermináveis dessolidões tão importantes. Me abraça, abraço, abarco. Abarcar. Acalento, acalanto, acalentar, abraçar, canto.

Sem contar que o beijo, a língua na língua, a língua no falo, a língua no grelo, a língua no ânus, a língua no amor, a língua a milanesa num balcão de bar: quem é que não tem, na ponta das línguas, um abraço?

É isso, biscate é abraço.

Velha

Lá pelos meus dezessete, dezoito, eu comecei a dizer que não tinha medo de envelhecer, dizia mesmo que queria envelhecer. E a resposta mais comum que eu recebia era: “espera chegar aos 40, aí você vai ver”. Bom, eu cheguei e minha relação com a velhice não mudou, ela continua bem vinda, estou curtindo. O que mudou foi a resposta que escuto: “espera chegar aos 50, espera chegar aos 60”.

Eu entendo o desconforto das pessoas, especialmente das mulheres, com a velhice. Como não entenderia? Primeiro porque os corpos velhos nos recordam a finitude. Findamos, o que nos apetece esquecer e que o tempo não cessa de nos recordar. Recusamo-nos, como sociedade, a lidar com a morte que, indiferente, chega. Essa amarra se agrava porque não é só a morte que negamos, mas a diversidade. Em uma sociedade como a nossa, tão rigorosa na vigilância dos corpos, tão atenta ao encaixe nos modelos de beleza, ter um corpo fora do padrão é difícil. O corpo que envelhece não é bem vindo, não é bem visto pela sociedade. Ser bonita é ser jovem, por princípio (e branca e magra e cis, mas aqui vou falar de um padrão específico, certo?). Parecer velho é ser feio e se, eventualmente, alguém velho ainda consegue escapar do carimbo e nos parecer bonito, não há dúvida: é porque parece mais jovem do que é. É preciso disfarçar as evidências, escamotear os indícios de que se viveu. E isso é das coisas que mais me fazem curtir o envelhecimento: eu gosto da vida. Eu gosto da minha vida.

O tempo passa, eu passo nele, ele passa por mim, ele passa em mim e eu não pareço mais jovem, nem mais velha, pareço mais eu. Legal se a gente pudesse ir sendo, apenas. Que os anos fossem. Que a pele narrasse. Que as caixinhas de adolescente, criança, terceira idade, jovem, não nos definissem, não nos limitassem, não nos explicassem.

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Velho, velha, velhice, envelhecer. Eu escrevo, eu afirmo, acho que há, nisso, uma resistência preciosa. São, penso, muitas as transversalidades relevantes nesse tema. Tem a aceitação do tempo. Da transitoriedade da vida. Tem a desconstrução da norma de beleza. E tem, acho, o reconhecimento de que somos e podemos ser. Que não há nada inerente nem às pessoas nem aos momentos da vida das pessoas. Não somos mais ou menos curiosos na infância que na velhice. Tem quem é mais em uma etapa que em outra. Tem quem é sempre. Tem quem é nunca. Não somos mais ou menos dispostos na velhice que na juventude (proporcionalmente à capacidade física, of course). Há crianças que preferem ler do que correr e velhos que curtem bater uma bola com os netos. Não somos mais isso ou aquilo, não precisamos ser mais isso ou aquilo sendo jovens ou velhos. Não devíamos precisar seguir uma forma para sermos reconhecidos, aceitos, amados. Estar. Estar criança, adolescente, adulto, jovem, velho. E, em cada estar, ser, construir-se, reconhecer-se, fazer-se.

Vou sendo, vamos sendo, o que vivemos. O que gozamos. O que sofremos. O que escolhemos. Mas o que vivemos, gozamos, sofremos, escolhemos não é solto no ar, não vivemos a parte de um discurso social. Não são “as mulheres” que se cobram, que não se conformam com o envelhecimento, não é natural essa dor, a angústia, o desassossego. Como não é natural o comportamento de se aceitar como é, de não dar tanta importância pra opinião alheia, de viver tranquila com cabelos brancos, manchas, rugas e todas as marcas do tempo na pele. Não são “os velhos” que desistem, que param de sonhar, que deixam de sair, que não se relacionam, que são rabugentos, que não sabem sonhar. Não é natural a pessoa velha encolher-se, afastar-se, definhar. Como não é natural a pessoa velha afirmar-se, viajar, dançar, interagir, ansiar, planejar, gozar. Não se trata de questionar, julgar, validar ou hierarquizar as opções pessoais (pintar o cabelo não deveria ser, em si, melhor ou pior que acolher os brancos, por exemplo nem sair pra pedalar é intrinsecamente melhor do que ficar tricotando) mas entender que as escolhas são qualificadas e localizadas em relação ao discurso homogeneizante e prevalente na sociedade. Envelhecemos em um contexto que diz, diariamente, que não podemos, não conseguimos, não servimos, ficamos obsoletos. Somos humanos, somos humanas, esses comportamentos são construídos. Somos as possibilidades e o que fazemos com elas e o que elas fazem da gente. Estar ou sair da norma tem seu preço e ele é cobrado diretamente do nosso desejo, da nossa liberdade, da nossa autonomia, do nosso prazer.

 

Tem dia que é pra assim…

Ok. Dispara o despertador. E tem dia que a gente quer pensar na vida, escrever, tecer. Refletir. Mudar de opinião. Olhar, perceber, escutar. E tristeza, alegria, dúvida, incerteza, amor, dor, calcanhar, joanete ou cefaleia e colesterol. Ou música, fossa, cinema, filme, bêbado, novela, livro, cabelo, rede, internetes e isso aí tudo que tudo é.

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Mas tem dia… ô se tem… que a gente só quer é sorrir.

Não queria ficar aqui com mais delongas. Mas o fato é que tua língua nos meus seios me leva longe, numa trilha fantástica que vai acabar explodindo o pinto, naquele jorrar porra – e a deselegância discreta ou não da ejaculação fora de hora. Sim, seios. Homem tem seios.

E não é só o pinto que fica duro. Tem o grelo também, aquela cousa que decifrada com a língua desmancha você toda, em uma pele arrepiada, um cheiro de sexo que tem um quê de suor, mas tem perfume outro que exala e aumenta volumes, eretos. Mulheres tem sexo ereto.

E tem a bunda ou o cu. Que sabemos, molha, umedece, enriquece e aquiesce. E agora, o que é que vamos fazer com todos esses conceitos caixinhas e tal e qual de seios, peitos, duro, molhado, papai mamãe? Não queria ficar aqui com mais delongas, mesmo. Vamos?

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Estopim. Estupor. Entro. Saio. Entras, sai. Coloca, enfoca, maneja, mistura, chupa, engole, gole, matreira, eira, beira, sacode. Entende. Estoura. Espoca. Enforca, descabela. Ejacula, ejaculas, ejaculo. Sorri.

Sorri… “ser feliz é bem possível“.

O sorriso é gozo, desconfio.

Algumas ideias soltas sobre tudo isso que está aí

– Eu não sei para que o meu corpo foi feito. E, sinceramente, não me interessa. O que gosto e sei (ou vou descobrindo) não é para que ele foi feito (sai de mim, determinismo biológico, esse corpo não te pertence) mas o que faço com ele, o que ele pode fazer, o que gosto de fazer, o que gosto que façam com ele, o que não preciso fazer, o que não quero fazer e por aí ladeira abaixo e cama acima. Blá blá blá corpo feminino feito pra procriar/gestar/alimentar… Samuel tem 18 anos e já não mama, me mato agora? Meu corpo é e eu sou meu corpo e no meu corpo, mas não é apenas ele que me determina, nem a minha identidade, nem meu desejo ou possibilidades.

– Liberdade sexual é ser livre pra fazer sexo quando quiser, como quiser, com quem quiser – se a (s) outra (s) pessoa (s) envolvida (s) também quiserem. Primeiro, o óbvio: o “quando quiser” também comporta o nunca, o vez em quando, o só essa vez e todas as demais variáveis temporais… o quando não quer dizer sempre #ficadica. O “como quiser” não implica em dar de quatro ou não dar de quatro, nem se deu de quatro tem que dar sempre de quatro, etc, etc, etc… como as pessoas envolvidas quiserem não precisa ser pautado em regras externas de movimentos sociais, sejam eles legais como forem. O “com quem” compreende o dou pra todo mundo mas não pra qualquer um #leiladinizfeelings, o com quem quiser não significa com quem me quiser, embora eu possa usar isso como critério, se eu assim o desejar. Isso posto (eu que julgava desnecessário, mas parece que não é), acrescento que acredito que liberdade não é (apenas) um fenômeno individual. É um processo de construção coletiva. Liberdade não é uma condição estanque, é um processo relacional e dialético. Manifesta-se na individualidade mas se inscreve no contexto.

Sexo é busca de conexão emocional e não é suficiente sermos tocados por quem nos deseja, a gente quer ser amado blá blá blá não fomos feitos para transar a toda hora com qualquer um.  Olha, eu não sei quem é essa gente aí, mas me inclua fora dessa. Meus relacionamentos (e, suspeito, o de todos, mas nem vou meter o bedelho nos alheios) são únicos. Particulares. E dinâmicos. Sei lá eu o que vai ser. Sei o que está sendo e mal e mal. Sinto. E não, não espero o depois. Que, eventualmente, acontece. Porque a vida, a minha vida, é isso, dias que vão sendo e pessoas que vão estando nesses dias que são. E, vez em quando, olho pra estrada e vejo pegadas juntas que vem de longe. Outras, desvios, abraços de despedidas ou mudanças de rumo quase sem notar. Uma estrada hora mais movimentada, hora percorrida sozinha. Chato isso de pegar a sua demanda emocional e generalizar pro mundo e ainda rotular de superficial quem não sente como quem escreve sente. ZZZZzzzzz. E tem essa insistência no “não fomos feitos”, como se o ser humano fosse peça dessas de fazer casa pré-fabricada.

Sexo é melhor quando feito com sentimento. Não fomos feitos para relações vazias. – Ué, eu faço sexo casual com sentimento e o tempo não é nada vazio, ocupamos de maneiras bem divertidas e criativas… Mas, claro, respondo isso de zueira. Porque sei que quando se fala de sentimento, nesse contexto aí, está implícito o “duradouro”. E, quase sempre, vem junto a ideia de que isso “é coisa de mulher”, “qualidade (ou defeito, depende de onde o machismo fala) feminina”. Encontrar alguém na balada, em um aplicativo, na casa de um amigo, ter interesse mútuo e se jogar no rala e rola, onde mesmo que está o impedimento pras pessoas envolvidas nesse processo sentirem respeito, consideração, carinho pelo outro? Se eu respeito, considero e estou aberta ao contato com outras pessoas por elas serem gente, apenas, e não pelo que elas podem ou não me oferecer, não está suposto que também sentirei assim por alguém no vuco-vuco comigo? O que tem o sexo de tão degradante que alguém perderia automaticamente o carinho, respeito, consideração alguém só por ter trocado fluidos, se esfregado, chupado, lambido, sei lá o que mais o corpo da outra? E lá vem a dogmatização do “foi feito pra isso” novamente.

O “fomos feitos para” supõe uma intencionalidade externa a nós. Implica em uma passividade que não me atrai. Tem um deus ali disfarçado nas entrelinhas desse discurso, dá pra ver de relance. Um deus que, não nomeado nem definido, acaba se parecendo com a versão mais propagada e enlinhada na nossa sociedade. Esse mesmo, o que – pelo que dizem em nome dele – não curte que a gente goze. Não curte que a mulher trepe sem ser pra parir com dor. Esse mesmo no qual não acredito nem assino o conversê.

Das réguas de que não preciso

Por Deborah Sá*, Biscate Convidada

Em um clínico geral do SUS…

Residente – Só exame de rotina mesmo?
Eu: – É, eu faço uma vez por ano, tudo, pode pedir tudo de sangue, os de praxe ginecológicos, etc. Quero um oftalmogista também, faz uns sete anos que não vou em um.
Residente: – Hum, estou vendo aqui na sua ficha que você é vegetariana, você tomava B12, não é?
Eu – Sim, continuo tomando e eu ainda sou vegana Emoticon smile
Residente: – Sente ali, por favor

Após medir pressão, sentir o estetoscópio nas costas, língua para fora, luz nos olhos e etc.

Residente:- Sua pressão está doze por oito
Eu:- É…eu não sei o que isso significa
Residente: – Está normal, aparentemente está tudo normal.
Eu: – Ah, que bom.

Médico, entra na sala: – E está tudo bem?
Residente: – Está tudo bem.
Médico: – Já fez pesagem? Seria interessante
Residente: – Ah, não, tire o sapato por favor. Ali, incline a cabeça e…88 quilos, um metro e sessenta e oito.
Médico: – O IMC, faz o cálculo do IMC
Residente:…Então, você está no nível da obesidade, precisa perder uns dez quilos

Eu: – ¯\_(ツ)_/¯
Residente: – Você tem que continuar sua dieta e…
Eu: – Eu sou vegetariana há oito anos, eu já era gordinha antes, eu continuo gorda depois. Ouço isso, que eu tenho que perder dez quilos desde que eu tinha sete anos. Eu subo escada, eu estou vivendo bem, minha alimentação é ótima, meus exames estão sempre tudo bem, eu estou bem.

Depois que saí do consultório, os panfletários da Herbalife ofereceram seus “santinhos”. Diacho! Não é a toa que as mulheres ao meu redor estão todas tentando emagrecer. Nunca estive tão gorda e tão feliz com o espelho… mano, até mais bonita me sinto. Ao mesmo tempo é esquisito ter de endurecer com isso, ter que me impor com isso. Pelos meus cálculos, faz 22 anos que ouço esse discursinho, que eu estou gorda, que eu preciso perder peso, que eu devo diminuir as porções, fazer mais exercício. Só que 1) Gosto mesmo de comer, repetir até, se der vontade, faço por onde e que mal há nisso, cacete? Mulheres que comem por prazer são ~pecadoras~, mais uma vez, aos homens toda a pulsão e para as mulheres, todo o freio nesse raio de mundo 2) Não tenho projeto de ser atleta, mas assim que sobrar um dinheirinho, vou me inscrever em um curso de dança porque adoro dançar.

Eu poderia ter respondido os médicos: * Dançado Anaconda * Dançado Bootylicious *Mostrado um nude.

Mas preferi fazer a gorda orgulhosa e sair do consultório sendo educada sem pedir desculpas, sem me chamar de preguiçosa ou sem-vergonha (já acompanhei mulheres que dizem isso para médicos, eu mesma já disse, quando mais nova). Migas, tá foda, é foda, não tem um único dia que eu não ligo a TV, convivo com outras mulheres, vejo vitrines, ou bancas de jornal que o tal emagrecimento não seja gritado aos sete ventos. Até nas prateleiras de livros da minha casa as dietas estão lá de soslaio (os livros não são meus). Todas as mulheres da minha família são grandes e ou gordas, faz parte do que eu sou, eu ocupo espaço, chamo atenção, só que agora estou aproveitando isso, usando uns colarzão mesmo, uns dourados, pintando o cabelo de vermelho, só que né, eu fico chateada pelo discurso médico não avançar nesse sentido desde meu tempo de criança. De imaginar que ninguém consegue se safar dessa pressão chatíssima de patrulhamento dos corpos. Mesmo o corpo estando lindão, completamente dentro do que precisamos dele.

Mais uma régua em que não caibo, talvez uma das mais antigas da minha coleção.

* 11351327_1457045754607564_5642394097373800822_nDeborah Sá é uma biscate delicinha que só sabe querer de tudo, com todas as coberturas, com todas as sensações e com todos os sabores.

Templo

Por Maíra A., Biscate Convidada

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Primeiro, os olhos se arregalam com o choque tantos corpos de mulheres que circulavam completamente nus e à vontade. 15, 20 mulheres muçulmanas deitadas e sendo ensaboadas por outras mulheres. Depois, a diversão de me juntar a elas e me deitar numa pedra morninha, que imediatamente aliviou as costas e quase me fez adormecer. Os olhos fechados aguardavam o desconhecido do próximo momento. De repente, duas mãos fortes e vigorosas começam a esfoliar o corpo espumante e quentinho. Depois, os cabelos são ensaboados, os olhos meio cegos são direcionados a uma bica e a água quente é fartamente jogada na cabeça. Enxáguo o restante do corpo e os olhos, atentos e relaxados, aguardam numa sala de espera. E então, um momento de redenção: uma mulher espalha um óleo natural de laranja no corpo completamente entregue. Os olhos se rendem fechados, enquanto cada recanto do corpo é massageado e os ouvidos são embalados por canções em turco, cantadas quase que num sussurro agudo e afinado. O tempo cartesiano se perde completamente: 30, 60, 90 minutos? Só é possível perceber-me em transe, quase que como num ritual religioso. O corpo é templo num tempo perdido. A lógica é suplantada por momentos tão introspectivos e profundos do corpo, que a mente se revigora na atenção em suspensão, proporcionada pela ausência da palavra. Onde a palavra falha, o corpo se manifesta e é acolhido generosamente em atitudes de afeto gratuito, vindo de pessoas que não falam a minha língua, mas massageiam e embalam a minha alma. O hamam suspende as burcas, o fluxo do pensamento e me faz reavaliar a minha suposta liberdade ocidental. Simplesmente não consigo pensar em lugares coletivos em que o corpo seja não apenas exposto, mas acolhido e cuidado por pessoas desconhecidas, com quem estabeleço laços de de gratidão. Logo depois, brindo a oportunidade de ter experienciado este momento lindo, olhando pra vocês e muitas emoções sentindo. Obrigada, mulheres! Ou melhor: Teşekkürler, kızlar!

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Precisamos Falar de Aborto

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Eu preciso falar…
(de aborto, de machismo, de médicos, da Elis)

Com 42 anos de idade, eu achava que já tinha passado pelas minhas maiores batalhas na vida. Mas nada dessa minha vida louca vida me preparou para os primeiros meses desse maldito ano de 2015.

Pela primeira vez desde os meus quase esquecidos sete anos, quando sonhava em ser veterinária, eu confesso: não faço ideia do que quero ser agora que já cresci. E só não quero deixar de ser (ou estar, sei lá) por essa teimosia infinita de virginiana com ascendente em touro que acha que pode fazer alguma diferença nessa mundo insano.

Eu preciso falar de aborto.

Foram seis meses planejando minha segunda gestação. Inicialmente com medo, por conta da minha idade, medo que se dissipou com o novo ginecologista referenciado pelo movimento do parto humanizado, com a conversa com a enfermeira obstétrica sobre o possível parto domiciliar que me resgataria do nascimento do leãozinho, parto esse que me foi roubado nos últimos minutos do segundo tempo, que me sangrou a alma e me fez conhecer o estranho mundo da violência obstétrica.

Eu sabia que engravidaria. Eu já conhecia minha pequena Elis e seu desejo de vir. Ela me aparecia nos sonhos, com seus cabelos cacheados e dourados, suas bochechas rosadas e o riso fácil.

Investi no sonho, melhorando minha alimentação que é usualmente bem ogra, investindo no inhame duas vezes por semana, na vitamina B diária, nas castanhas, no abacaxi, até na beterraba com couve (que honestamente, eu detesto).

No dia que viria minha menstruação fiz o teste e a segunda linha rosa, ainda fraquinha, me encheu de amor e alegria. Tudo estava acontecendo como planejado.

Na mesma semana meu cão sênior piorou muito de saúde e a veterinária me pediu que eu o libertasse da dor. Já não andava direito, não se alimentava e mal conseguia beber água. Foi com o coração partido que dei meu adeus, abraçada ao seu frágil corpo após quase 17 anos de amizade. Entre a dor de perdê-lo e a alegria da confirmação da gravidez, oscilei meus dias entre lágrimas e sorrisos.

Primeiro ultrassom agendado, Cheguei na clínica já antecipando a emoção de ouvir o coração do meu feijãozinho. Uma hora e meia de exame, com direito a consulta a outra especialista da clínica e o veredicto que me tirou o chão: a gestação não tinha evoluído como esperado, o saco gestacional estava correspondente a sete semanas, via-se a vesícula mas não o feijão e muito menos se ouvia o coração. Pior: uma suspeita forte de uma segunda gestação na trompa, caracterizando um possível caso (raríssimo em uma gestação natural) de gestação heterotópica, uma dentro e outra fora do útero.

Passei dias me sentindo no inferno. Foram cinco exames de beta quantitativo dia sim, dia não, para acompanhar sua involução e, em cada ida ao laboratório eu parecia que ia morrer de tanta dor. Mais dois ultrassons para tentar confirmar ou não a suspeita da heterotópica, descartada no último quando o sangramento já dava sinais.

Final de semana marcado pelas pequenas cólicas e um sangramento leve. Eu só pensava nas palavras da terapeuta: “Quem ama de verdade deixa ir”.

Na segunda-feira, às 14h00, saiu um coágulo grande, assustador. E, de repente, a cada 10, 20 minutos saia um coágulo ainda maior. As cólicas não paravam, cada vez que saia um a dor voltava e eu já sabia que outro sairia. Em cada coágulo eu o investigava para averiguar se o saco gestacional tinha saído, mesmo sem entender bem do assunto. Por volta das 18h00 eu já não conseguia sequer me levantar sozinha e pedi arrego.

Com a ajuda do marido fui para o hospital, receosa de uma curetagem indevida e ciente que, caso não houvesse a expulsão total a indicação correta seria a AMIU (Aspiração Manual Intra Uterina).

Escolhi um hospital público, pois no privado dificilmente eu teria escolha ou seria ouvida. O que eu não sabia é que, mesmo em um hospital público, existem profissionais cansados, abitolados e que não seguem a ideologia da direção, essa, reconhecidamente adepta do atendimento humanizado. E, principalmente, que mesmo em uma condição clínica crítica, o aborto está no fim da fila de prioridades. Pode não ser o protocolo, mas é a realidade.

Eu não vou dar detalhes do horror que passei desde que a triagem me mandou com uma bela bolinha laranja no prontuário para a sala do plantonista. Foram 12 horas de espera e de luta, resistindo contra a curetagem, alternando o choro com a raiva da situação, deitada no mesmo quarto junto a duas mulheres em trabalho de parto e onde, a cada meia hora uma enfermeira entrava para auscultar o coraçãozinho dos que estavam para chegar ao mundo. Não dá pra descrever como aquela ausculta me rasgava inteira.

(Pausa pra respirar e chorar.)

Uma amiga virtual se materializou no hospital como um anjo guerreiro e passou a noite comigo, já que o marido precisava ficar com o filho em casa. E foi ela quem viu as enfermeiras chorando nos cantos, penalizadas com a situação absurda que assistiam.

Num relance, entendi o que estava acontecendo. Eu fui deixada lá de castigo. Porque eu quis “impor” a minha vontade. Me senti humilhada. Por mim, pelas profissionais que lá estavam e que não tinham autonomia alguma. Apenas no dia seguinte, quando um novo plantonista apareceu, fui atendida e liberada. Ele, ciente dos protocolos atuais, fez pessoalmente um ultrassom e me levou para a sala de cirurgia para realizar a AMIU.

Já faz mais de três meses que isso aconteceu. Coincidência ou não, a AMIU foi realizada no dia do aniversário de setenta anos de Elis Regina, a homenageada pela gravidez que não foi.

Meu corpo, minhas regras? Não no Brasil, onde o aborto é criminalizado, afetando todas que abortaram. Quase um quinto das gestações termina em um aborto espontâneo. Uma em cada cinco mulheres já interromperam voluntariamente a gravidez. Como não falar de aborto?

Eu preciso falar do machismo.

Dizem que o diabo mora nos detalhes. Eu percebo que o machismo mora nos detalhes. No hospital-referência, as mulheres eram as operárias e os homens os comandantes (grande novidade…). E, nesse ponto, vamos concordar: Nós que parimos. Nós que abortamos. Nós que sabemos a dor que sentimos. Não eles!

Eu não me arrependo de ter ido a um hospital público, pelo contrário, agradeço por ter ido lá, pois caso tivesse escolhido um privado sequer teria conseguido ser escutada. Mas o machismo daquele momento não será esquecido nem perdoado. Não pode ser. Nesse momento, só o que desejo é que mulheres estejam no comando. Porque enquanto o homem estiver não conseguiremos ter nossos desejos e necessidades respeitados.

Precisamos de mais mulheres no comando, seja no hospital, na política, na indústria, na mídia. De preferência mulheres feministas, empoderadas, de sangue nozóio e que saibam que sim, o aborto é assunto de Estado, muito mais do que a mandioca.

Mas eu também preciso falar de discurso e da empáfia da classe médica.

Precisamos de médicos que estejam abertos às novas evidências científicas. Que reaprendam os conceitos de humanidade e humildade. Que saibam que não são deuses e que o parto é da mulher, o  corpo é da mulher e o aborto também é da mulher. Sua função é basicamente se fazer presente para que tudo saia como o planejado ou, para que o que já saiu fora do planejado tenha os riscos minimizados e a paciente acolhida.

Eu preciso falar. Não me importa se vocês não estão me ouvindo. Eu realmente preciso falar. =/

 

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* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la no Twitter @Adriana_Torres.

Frida Kahlo e a intensidade do sentir

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Hoje é aniversário de Frida Kahlo. Nascida em 06 de julho de 1907 no México, Frida sempre foi para mim aquela pessoa que gostaria imensamente de ser amiga. O fillme “Frida” (2002) só reforçou essa imagem de que ela era uma mulher única e incrível, uma biscate com a qual todos gostaríamos de flertar.

Com uma vida marcada por doenças, acidentes e limitações físicas, a intensidade com a qual vivia e produzia é o que mais me chama atenção em sua trajetória. Sendo considerada uma mulher feia socialmente, subverte essas questões fazendo de sua imagem a representação mais forte de seu trabalho. Ao mesmo tempo, sua intensidade transborda em cada foto que vemos dela, trazendo consigo uma sensualidade e atração. Frida nos convida com o olhar e nos provoca a conhecê-la.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Bissexual, revolucionária e autêntica. Se vivesse nos dias atuais, provavelmente Frida Kahlo seria questionada até mesmo entre as feministas. Por que usar vestidos que remetem a uma cultura indígena que enxerga a mulher tão feminina? Por que o desejo de ser mãe e agradar o marido é tão importante? Por que manter por tantos anos uma relação tão conturbada com Diego Rivera?

Em meus devaneios, penso que Frida responderia apenas que estava vivendo. Sentindo e absorvendo cada ação, tempo e espaço que lhe cabia no mundo. Preenchendo o vazio com o existencial complexo e dialético do amor. Misturando às suas tintas a falta de respostas óbvias que há quando perguntamos para nós mesmas: o que quero?

O querer de Frida passa pelo desejo de autonomia, de ação, de construção, de provocação. Seja por meio da arte, da política ou da própria existência. Sua imagem nos remete a força e autenticidade, mas sua obra e seus escritos retratam fragilidade, medos e inseguranças. Como pode uma mulher tão livre cair em ciúmes por um marido infiel a quem parece implorar o amor? Como vemos nesse trecho de uma carta escrita por Frida a Diego Rivera em 23/07/1935:

[…] uma certa carta que descobri por acaso num certo paletó de um certo cavalheiro e que provinha de uma certa senhorita que mora na distante e feia Alemanha e que, imagino, deve ser aquela dama que Willi Valentiner achou por bem mandar se aventurar por aqui com fins “científicos, artísticos e arqueológicos”… me deixou absolutamente furiosa e, a bem da verdade, ciumenta… Por que sou tão suscetível e limitada e não consigo compreender que as cartas, os casos com o primeiro rabo de saia que aparece, as professoras… de inglês, as modelos ciganas, as assistentes cheias de “boa vontade”, as aprendizes interessadas “na arte de pintar” e as “enviadas plenipotenciárias de regiões distantes” não passam de aventuras sem futuro e que, no fundo, eu e você, nós nos amamos ao extremo e, mesmo quando sofremos com os inúmeros pecadilhos um do outro, as portas batendo, os piores insultos e as solicitações internacionais, continuamos a nos amar. Creio que o problema é que sou um pouco brutal e um tantinho maliciosa, pois todas essas coisas que aconteceram  e se repetiram ao longo dos sete anos em que vivemos juntos e todas as cóleras que senti me levaram a compreender melhor que o amo mais que minha própria pele, inclusive se você não me amar do mesmo jeito: de todo modo, você me ama um pouquinho… não é mesmo? E se isso não for verdade, sempre me resta a esperança de que venha a ser, e isso me basta. Ama-me um pouquinho. Eu te adoro. (1 – pg. 115).

Será tão fácil explicar Frida Kahlo? Será que essa intensidade não é justamente o seu dínamo pessoal para produzir uma obra tão instigante, expressiva e questionadora? Talvez sim, talvez não. Talvez o melhor de Frida esteja justamente na maneira como suas dualidades e ambiguidades evidenciam nossas imperfeições e fraquezas. Não há respostas simples para os relacionamentos humanos, especialmente os amorosos. Não há cartilhas feministas que deem conta das complexidades internas e externas das mulheres, de seus desejos e atitudes. Por isso, mais do que determinar o que é certo ou errado nos comportamentos humanos, podemos aprender com Frida Kahlo a ampliar os horizontes de possibilidades, sem tantos julgamentos, mas rindo ou chorando juntas e apoiando quando for necessário.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Referência

(1) BURRUS, Christina. Frida Kahlo: pinto a minha realidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

Quer mais de Frida?

Também tem texto meu nas Blogueiras Feministas: Frida Kahlo: imagem, corpo e feminismo. Aqui no Biscate tem Frida, romance e receita no: E a Biscate Mexicana Enfeitiçou Trotsky.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Motes Publicitários

Tenho um amigo que usa uma expressão engraçada pro tempo em que está no processo de tentar conquistar uma garota: ele chama isso de “campanha de lançamento”. A campanha de lançamento é tudo o que se faz pra ver se a moça (ou o rapaz) te acha interessante e decide ir adiante.

Me lembrou um livro que eu tenho sobre feitura de CVs: o sujeito garante que, se você fizer o CV segundo suas recomendações, chega na entrevista. Aí é por sua conta.

Mas só que esse é que é o ponto, não é mesmo: serve pra CVs, não tanto para relações afetivas. Quer dizer, caso o objetivo da história seja que aquilo vire uma relação, ou pelo menos um projeto de, o que você vai ser depois, além de você mesmo? Como é que vai passar da campanha de lançamento para o dia-a-dia de você normalzão sem causar impacto?

Fiquei pensando nisso porque minha abordagem é basicamente o oposto disso: a minha “campanha de lançamento” tem como mote “não espere nada de mim além de mim mesma”. Me lembro daquele dia em que fui encontrar um cara em quem estava bem interessada, e ele nem sabia: a roupa? Uma camiseta de que eu gostava e minha calça jeans meio rasgada. Não é que eu não tenha me preocupado com o assunto, entendam. Me preocupei, e essa foi a escolha para aquele momento. Uma “eu” do jeito que eu sou mesmo, calça velha e rasgada e tal. Era, sim, uma calça de que gostava, entre outras coisas, porque achava que vestia bem. Mas não poderia ser nunca uma roupa “arrumada”. Não sou arrumada no cotidiano (embora me arrume um monte, mas isso é outra conversa); logo, não poderia sair pela primeira vez com o cara usando uma das minhas – poucas – roupas “arrumadas”. Essas são pra eventos tipo casamentos, cerimônias. Não pra encontrar um sujeito que eu quero que se interesse por mim.

Do mesmo jeito, já vi gente tentar se interessar por assuntos aleatórios para ver se conseguia chegar perto da pessoa no foco. Acho bem esquisito, já que amanhã ou depois ela vai descobrir que você não se interessa de verdade por aquilo. O que não quer dizer, claro, que não possa vir a se interessar: apenas não é a sua praia naquele momento. Depois da relação começada, a pessoa pode te apresentar àquele universo até então estranho, e você, ao ver o que a encanta ali, também pode se encantar, por que não? Só que o movimento é ao contrário. Primeiro, você chega como você mesmo: aí é que você vai – se tudo for adiante – conhecer o universo do outro, e, quem sabe, se encantar por alguma das suas paixões.

Tive um namorado que dizia que “amar é comer e comer de novo, e de novo”…. acho graça nessa formulação e entendo o que ela quer dizer. Dia após dia se constrói uma história. E talvez seja isso: não consigo olhar para além do próximo dia. Que de repente será seguido de outro dia. E quando se olha pra trás, em algum momento, nota que ali já tem uma pá de dias enfileirados: será que aquilo já virou uma história? Pera… melhor deixar passar mais uns dias.

em qualquer caso, cuidar das roupas de baixo

Mesa Pra Quantos

Acordar é em lentamente. Não abre o olho, não primeiro. Antes, deixa a ideia se espalhar. Alonga as pernas, faz pontinha nos dedos do pé. Um suspiro de bom lhe afasta os lábios. Sente o pegajoso entre as coxas. O dolorido gostoso no corpo. Gosto de vinho amanhecendo na língua. O cheiro de cigarro em quarto de janelas fechadas. Na sala, um cd em repeat murmura, cansado. Estica os braços e esbarra em lembranças. Move o corpo para a esquerda, tateia lençóis, um corpo. Como um filme antigo mal restaurado, os flashes. Roupas empilhadas. Um pé que esbarra na garrafa de vinho. Língua na orelha. Língua no pescoço. Um corpo que se estende no sofá. Uma boca que chupa um dedo do pé. Uma mão que se encaixa entre coxas. Morder uma bunda. Ser lambida. Tesão. Peles que se roçam. Pernas que tropeçam. Uma boca, um pau, uma bunda, outro pau, um peito, uma axila, um cotovelo, um pescoço, uma barriga, um pau, uma buceta, um joelho, um pescoço, um ombro, uma buceta, um pau. Bocas. Línguas se entrelaçando. Línguas invadindo orelhas, umbigo, cu. Uma mão em um pau, um pau em uma buceta, um pau esfregando em outro pau, uma boca chupando ombros, chupando seios, os seus, os outros, uma mão na nuca, uma mão em outra mão. Dentes. Dedos. Saliva. Um corpo sobre. Um corpo entre. Um corpo fora. Um entra e sai, um aqui dentro, agora, vem, vem. Mais. Um gemido seu em outra boca. Uma mordida quase sangue no lábio. Uma mordida na barriga. Uns olhos abertos, uns olhos fechados, umas pernas abertas, uns braços abertos, uma língua em mamilos, um saco, chupar, sugar, lamber e um dedo lhe tocando firme, rápido, leve, seios roçando em suas costas. O gosto dela em um pau, em um dedo, o suor na sua língua indo pra língua outra. Roça. Penetra. Volta. Ruídos. Risos. Gemidos. Sente um corpo que se estende em suas costas, seios e pau duro, mãos nos seus peitos, um pau que vai e vem na sua boca, mordidas na bunda, nas bundas, mãos viajantes, saliva, suor, o gosto de pele, de pêlo, seu coração batendo no peito alheio, seu sangue latejando no ouvido outrem, unhas cravadas nas costas já não se sabe de quem. Em cima, em baixo, ao lado. Fora. Olha. Uma água? Quero. Vai. Volta. Mergulha entre. Um corpo na frente, um corpo atrás, uma alegria em volta.

café

Sorri, agora já é dia no olho aberto, levanta, veste uma camiseta que não lembra de quem, chuta sapatos no caminho, abre janelas, muda do cd para o rádio, acende o fogo, espreguiça, a primeira xícara fumegante é só dela, gosta dessa solidão matinal, um tempo pra ir se ajustando a ela mesma, dança um pouco, ri um pouco, coloca a mesa pra três, xícara, pão, queijo, manteiga, esse gosta de açúcar, a outra fala baixo e toma café pingado meio encabulada, fé cega, faca amolada, ovos mexidos? ovos mexidos. Na bandeja as frutinhas que só ela come de manhã. Já desperta, repara que ainda cabe pelo menos mais um na mesa do café. Gargalha com a sintonia, é pensar e, no rádio, Roberto Carlos se equivocar na conta:

A arte da punheta canhota

Outro dia, numa deselegância colossal, quebrei a mão. Sim, o tal metacarpo quinto, da mão direita, a que escrevo. O motivo da deselegância? Futebol. Meu time perdeu uma peleja e eu, incomodado com a forma mais do a derrota, desferi um soco numa mesa. A mesa passa bem, incólume. Eu…

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Essas fraturas nos tiram bem mais do que locomoções, manejos, praticidades. Elas fraturam também os pequenos pedaços da alma que nos moldam. Fiquei deprê, confesso. Fui um idiota e quebrar a mão por causa de uma deselegância dessas não faz menor sentido. Ou faz… sei lá.

Certo, também, que não era só o futebol. Percebi, depois da alucinada reação, que naquela semana estive mais preocupado do que o habitual com contas, mais do que sempre com as frustrações de um trabalho que mais mecânico cada vez e vez mais. Uma semana onde queria chope, mas veio refrigerante sem gás. Uma semana em que – mais uma vez – um desapontamento com a política me tirou mais encantos, me tornou mais cético, mais cínico, menos sonhador. E quando o time perdeu, sem alma, sem brigar, sem fazer furdunço dos indignados – ainda que papelão de derrotado, projetei, me vi no espelho, bovino e pronto: prum trabum crac. Gesso.

Tirei esta semana o gesso. E tá doendo muito, tudo. A mão inchada pelo mês parado. Aquela sensação que sua mão parece um pão. O dedo não dobra. A articulação parece a interlocução do governo Dilma com a sociedade, dura, macilenta. O metacarpo? Tá lá, escondido, desviado um cadinho. Passou medo pela cabeça, de nada voltar a ser como antes. De não conseguir me desvencilhar desta porcaria de dor. E me odiei mais um cadinho, neste exercício de perseguição que a gente comete quando faz uma cagada monstruosa, como esta que relato.

Mas neste mês de gesso, olha lá, finalmente fiz uma planilha excel para uns cálculos de uns processos. Antes, fazia todo o trem de cabeça, anotava, pensava. A tal planilha revolucionou o mundinho do meu trabalho, meu mundinho chato de escritório e saíram mais cálculos, tirando um pouco de peso dos atrasos acumulados. E aprendi a usar a esquerda para muitas e muitas coisas. E percebi também o quanto este mundão é despreparado para quem tem restrições de algum tipo… Do ônibus ao banheiro.

A esquerda…. a mão esquerda…. Era ela uma companhia fina quando era adolescente. A piada era boa: Se masturbar com a esquerda dormente dava a impressão de que era outra pessoa a fazer o ato… Uma arte deliciosamente canhota.

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NU RECLINADO COM O CABELO SOLTO, 1917, ÓLEO SOBRE TELA DE AMEDEO MODIGLIANI/OSAKA CITY MUSEUM OF MODERN ART

Pensando bem, a esquerda… bati de novo a punheta sagrada. Devíamos nos masturbar mais e quem sabe a punhetação do resto das cousas não nos incomodasse tanto. Há punhetas e punhetas, cabendo a nós – desconfio – qual masturbação escolher.

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