O Sexo e as Negas: queremos só representação?

Por Bianca Cardoso*, bisca convidada e participação especial de Iara Paiva

Adoro novelas. Adoro mais ainda a dramaturgia televisiva brasileira, com seus tipos rurais românticos, ricos que dão banana para o Brasil, pobres que encontram uma bolada em dinheiro, mocinhas e vilãs com suas vidas cruzadas por vinganças, entre outros clichês. Porém, desde que comecei a me preocupar com as desigualdades sociais no Brasil, busco observar como a produção televisiva mostra as minorias e, especialmente como reflete o embranquecimento forçado de nossa sociedade. Em pleno 2014, ainda é difícil ver protagonistas negras e negros em telenovelas, por exemplo.

Portanto, ao ouvir falar pela primeira vez num projeto de seriado com quatro mulheres negras protagonistas, aos moldes do americano Sex And The City, tive alguma esperança. Porém, o título “O Sexo e as Negas” logo fez esse sentimento ruir.

Há muitas pessoas no Brasil que utilizam as expressões “nega” e “nego” de maneira carinhosa, para se referir as pessoas que amam com intimidade. Porém, isso não acontece em todos os estados e, num país com dimensões continentais como o Brasil, acho que essa deve ser uma preocupação de um programa que será exibido em rede nacional. Além disso, há uma referência a expressão “não sou tuas negas”, herança do nosso passado escravocrata tão presente nas vidas de tantas pessoas negras em nosso país. Ao dizer “não sou tuas negas” afirmo que não são sou como suas escravas, com as quais você pode fazer o que bem quiser, o que inclui molestar, ofender e até mesmo abusar. Por isso, mesmo que o novo seriado da Rede Globo fosse ótimo, isso não exclui o fato do título ser extremamente racista.

É óbvio que as pessoas virão jogar a carta do moralismo: mas qual o problema com o sexo? As negras não podem ser biscates?

Meu querido e minha querida, as negras podem tudo! A questão é que num país em que mulheres negras tem mais chances de serem estupradas é preciso repensar, criticar e debater como a imagem da mulher negra é representada na mídia e quais as consequências sociais disso. Não se pode esquecer que, na nossa cultura, as mulheres negras são hipersexualizadas. Porque o problema é esse. Óbvio que elas podem ter sexualidade, é óbvio que podem trepar. Mas em um país em que elas são mais estupradas, mais prostituídas por falta de opção, em que seus corpos são usados pra vender de tudo, quem pode falar e ganhar dinheiro com a sexualidade delas deveria ser apenas elas mesmas. Você sabia, por exemplo, que as mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos hospitalares como partos? Isso ocorre porque existe o mito de que a mulher negra é forte, aguenta tudo. As mulatas tão exaltadas, que tem a origem do termo na palavra “mula”. Por isso, não posso dizer que me surpreendi ao ver que numa das primeiras cenas do primeiro episódio de “O Sexo e as Negas”, um vendedor de carros negro ao ser questionado pelas protagonistas se há algum carro no valor que podem pagar responde: “Por esse preço podem levar um burro, mas a carroça fica por conta de vocês”.

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Há pontos positivos no seriado, como o fato de todas usarem cabelos afro com diferentes estilos e os números musicais do final que remetem a grandes estrelas da música negra americana como The Supremes. Também é fato que existem mulheres negras como Zulma, Lia, Tilde e Soraia. Porém, as quatro não avançam na representação das mulheres negras na televisão, porque repetem os mesmos estereótipos: carreiras profissionais subalternas a pessoas brancas, o objetivo final da vida é conquistar um homem, se precisam de dinheiro tem que recorrer a ações que são crime, sempre dispostas a fazer sexo sem importar o local e a presentear o homem que lhe faz um favor com sexo, entre outros.

Recentemente, em “Cheias de Charme” (2012), Taís Araújo fez o papel de uma empregada doméstica que tornava-se uma estrela da música. Parecia ser uma nova representação da mulher negra, justamente exorcizando o papel da eterna empregada doméstica. Porém, não foi o que vimos acontecer. Atualmente, na novela Boogie Oogie (2014) que se passa no fim dos anos 70, a atriz Zezé Motta faz o papel de uma empregada doméstica. Por mais que se alegue que na época, uma mulher negra com mais de 60 anos provavelmente seria doméstica, são autores quem escrevem as novelas e eles são livres para criar personagens. Fico arrasada ao constatar que uma atriz do porte de Zezé Motta, com tantos trabalhos pioneiros e revolucionários, ainda seja escalada para fazer o papel da empregada doméstica subalterna. Ela poderia ser uma profissional que ascendeu em uma empresa, uma cantora na discoteca que dá nome a novela, uma mulher casada com um homem rico que enfrenta o racismo em diferentes esferas. Ela poderia ser muitas coisas, mas preferem mais uma vez retratar a mulher negra como a empregada doméstica. É esse o lugar destinado a mulher negra na cultura das telenovelas.

 Então, quando criticamos o seriado “O Sexo e as Negas” e falamos com todas as letras que trata-se de um homem branco escrevendo sobre mulheres negras, não estamos dizendo que Miguel Falabella é o anti-cristo racista e que deve ser preso. Estamos dizendo que mais uma vez os estereótipos estão se repetindo, num veículo que ainda é o maior meio de comunicação do pais. E o retrato da mulher negra na televisão tem consequências nas vidas das mulheres negras da não-ficção cotidiana.

Outra pergunta que me faço é: quem assiste a esse seriado? Porque sendo exibido às 23h, imagino que as mulheres negras trabalhadoras das comunidades não terão muito tempo para assistí-lo já que precisam acordar cedo para pegar o transporte coletivo e continuarem suas jornadas triplas e quádruplas. Então, no fim, será um seriado para a classe média rir dos estereótipos das mulheres negras?

A Rede Globo até tem investido em programas com a presença ou elenco formado por pessoas negras. O “Esquenta” de Regina Casé e seriados recentes como “Suburbia”, mas a representação das pessoas negras no geral é a mesma: estão sempre felizes, mostrando que na vida o que importa é alegria. Também estão sempre ligados a música, carnaval e a imagem romantizada do pobre brasileiro. Essa representação estereotipada acaba tornando-se vazia ao não trazer uma representatividade ou uma identidade que não seja apresentada como algo exótico pelas pessoas brancas.

A boa notícia é que hoje as mulheres negras tem voz e isso incomoda muito, porque significa que novos espaços serão conquistados por elas, elas não vão esperar por convite. Por isso, convido você a acompanhar o projeto #AsNegaReal das Blogueiras Negras que pretende apontar e debater o racismo presente nesse novo programa.

Mais sobre o assunto: As Faces da Representatividade e 10 Motivos Óbvios pra Não Ver “O Sexo e As Negas”

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Você não tem que saber

Eu não acho que você tenha que saber. Não acho mesmo. Ninguém nasce sabendo, e a gente nasce na sociedade que está aí. Essa aí. Essa das mulheres nas capas de revistas, como pedaços de carne expostos. Essa em que todo dia se mede, se pesa, se julga, se aponta. Essa em que a mulher que não é considerada bonita tem que estar sempre se explicando. Como se não lhe bastasse ser. Como se algo faltasse, como se para ser mulher fosse necessário ser bonita.

Essa sociedade em que, com três mulheres candidatas à presidência, a aparência é questão todo dia. Em que “quem você pegaria das três” é assunto. Não ocorre que talvez não seja algo relevante a ser discutido, quando se fala de candidatas à presidência. Nem relevante, nem necessário, e definitivamente prejudicial. Não ocorre, afinal, “é só uma brincadeira”, “você é que está mal-humorada”. Mal comida, talvez? Logo vi.

Então. Eu não estou dizendo que você tenha que saber. Só estou sugerindo que talvez fosse bom escutar. Pensar. Prestar atenção. Dar importância às falas. Não desprezar, não achar que é fruto da TPM. Pensar nas consequências dela ser, mesmo, esse “ser igual” em que você diz que acredita. Ser igual, no sentido dos direitos. O mesmo respeito. O mesmo espaço. O mesmo tempo para falar. Sobretudo – sobretudo! –  a mesma atenção.

Não “tomar como um dado”. Não achar que algo lhe é devido. Respeitar a diferença, a individualidade, os quereres, os desejos, os limites. Saber que ela é sujeito pleno. Dona de si e da sua própria vida. Perguntar antes, caso seja. E depois, se precisar. Deixar quieto, em certas horas. Aceitar, se for para deixá-la ir embora.

Deixá-la ir embora faz parte, por tantos motivos. Porque ela se apaixonou por outro cara. Porque aquela história não é mais. Porque não tá mais dando pra ficar juntos, embora ainda haja amor. E é isso, aceitar. Chorar no canto, que seja. Chorar sempre, se possível. Se embebedar, ouvir música, estar com os amigos. Ficar sozinho. Mas aceitar. Largar mão. Dar espaço. Recuar.

E cada uma é uma, cada jeito é um, cada história é nova. Não dá pra fazer igual, pra prever pelo passado, pra deduzir o que será. Dá pra tentar aprender algumas coisas, sim. E, talvez, quem sabe, retomar, tentar diferente, começar de novo olhando pelo avesso. Também pode ser.

Mas tenta. Não é fácil. Porque o mundo, esse nosso aqui, moldura, limite, fado, diz o tempo todo diferente. Aí tem que fazer contrapeso. Abrir frestas. Deixar o vento entrar. Jogar idéias velhas fora, sem dó nem piedade. Não, não é tudo ao mesmo tempo. Devagarinho. Um passo de cada vez. Tenta.

Não diz nada ainda.

Espera.

Você vai ver.

No tempo da delicadeza

Talvez no tempo da delicadeza. Aquele tempo. Todo mundo anseia pelo tempo da delicadeza. Dos olhos nos olhos. Da atenção ao detalhe. Do cuidado, da leveza. Da busca da gargalhada, do vem cá que eu te dou um abraço, do já passou, do não há de ser nada. Do não sei como vai acabar mas estou aqui contigo. De mãos dadas, contigo. Em silêncio contigo. Do não concordo com você mas nem por isso deixarei de te amar. No tempo da delicadeza, não deixarei de te amar. Porque sei suas perguntas, embora não concorde com suas respostas.

E talvez eu esteja errada. Eu já estive tanto errada. Tanto. Porque não de novo? Porque haveria eu de gritar minhas respostas, em vez de tentar entender seus caminhos, suas escolhas, seus motivos?

As perguntas estão aí e ninguém respondeu de verdade, vai. E tudo parece difícil, sem saída ou alternativa. Tudo parece áspero, rígido, sem nuances. Sem meios-tons.

Faz a gente sonhar com ele. O tempo da delicadeza. Do cuidado. Das sutilezas. Do talvez, do por que não, do não sei, do acho que você tem razão. Do vamos andando e no caminho a gente há de descobrir. Há de encontrar abrigo. Uma sopa quente, um cobertor. Um cantinho pra chorar as mágoas e descansar as bolhas dos pés. Uma tina de água pra lavar a alma. Pra lavar as angústias. Aquele tanto de mágoas.

Deixa em paz meu coração. Ele é um pote até aqui. Então, só mesmo lá. No tempo da delicadeza. Se lembra, maninha? Tinha a fogueira, os balões. Os luares do sertão.

Se lembra do futuro que a gente combinou? Eu era tão criança e ainda sou. Continuo naquela. Querendo acreditar que o dia vai raiar só porque uma cantiga anunciou.

Apesar. Malgrado. Embora. Contudo. Entretanto.

A gente continua. A gente vai levando só de birra, só de sarro. A gente vai fumando, que também, sem o cigarro….

E não me deixe aqui, tão sozinha, a me torturar
que um dia ele vai embora, maninha, pra nunca mais voltar.

(Viu? Eu disse que continuava tão criança. Idade vai mudando todo dia, maturidade é outra parada.)

 

Para voltar a ter medo

Por Andrea Moraes*, Biscate Convidada

Ninguém quer sentir medo. O medo é desses sentimentos desprezados, desqualificados. Ser medroso é um xingamento. O medo, já dizia um daqueles moços que inventou o “Contrato Social”, ou uma de suas versões, é o que faz o Homem depositar tudo o que tem na esperança de ser vigiado por Outro. Ele pode paralisar, destrói silenciosamente qualquer aposta de futuro. Definitivamente, o medo não é boa companhia. O medo vem em muitas embalagens, grandes e pequenas, de formas e pesos diferentes. Mas, não importa muito como venha, é sempre ele, onipresente, avassalador.

Quem não se lembra das historinhas infantis onde o medo é ingrediente fundamental? Tem até a versão do Chico Buarque para o tema: Chapeuzinho Amarelo, amarela de medo! Além das historietas mais moderninhas que querem fazer as crianças “aprenderem a refletir sobre… blá-blá-blá”. Na adolescência tinha Stephen King, o máximo dos máximos, tudo de bom. E aquelas tardes no cinema gritando de horror, beijando loucamente e deixando a mão dele deslizar e apertar enquanto se vivia o susto e o êxtase. Ai, o medo, como era bom!

Em algum momento da minha vida eu parei de sentir medo. Ele simplesmente me abandonou por um longo período. Não senti falta. Na verdade, eu não me dei conta de que a previsibilidade, as certezas, aquele gosto de rotina só existiam porque ele tinha ido embora. Nada contra esse mundo de relojoaria suíça, eu gosto dele assim. Pés no chão, coração tranqüilo. Uma pessoa pode viver assim por um longo tempo. Para alguns, poder viver assim é tudo o que se pede. Mas, eu confesso que sinto falta de ter medo. Sinto falta da potência que ele despertava em mim.

O bom do medo é que ele se instala sem aviso. O medo vem pra bagunçar o coreto. Aguça os sentidos, traz vertigens, a fantasia. O absurdo vira seu vizinho e estão abertas as portas pra tudo e qualquer coisa. O medo, se vivido em todo seu esplendor, é uma força criativa, faz o impossível. Sentir medo, meus amigos, pode ser libertador. Mas, para isso, há que abraçá-lo sem peias, sem pudor. Entregar-se ao medo sem resistência é o que faz dele o melhor sentimento do mundo. O medo não se combate, se acolhe. Apontar para o medo, mostrar que ele está ali respirando ofegante ao seu lado, animal colado na sua pele. O medo que é, antes de tudo, cria da sua costela e não algo que vem de fora, do outro. Não! O medo está todo ali em você, é sua obra mais espetacular, o testemunho da sua vida. O medo é o seu filho torto, e não aceitá-lo é a receita para alimentar o que ele tem de menos encantador: a atrofia. Acolher o medo é o que ainda nos falta pra viver melhor.

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*Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, tem 43 anos, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

 

Pelo Telefone

Sozinha, cama revirada, noite por dormir. Camisola fina, nenhuma peça a mais. Corpo quente, o suor escorre entre os seios, o ventilador – monótono – apenas afaga a pele, insuficiente. Deita-se de costas, as pernas abertas, o vento fraco brincando com os pêlos mal depilados. Nas pequenas caixas de som a mesma música se repete, incansável.

Tédio. Tateia em busca do livro. Contos Eróticos. Vira de bruços, a bunda descoberta desejando olhos que não estão. Os olhos percorrem as linhas acentuando desejos. A língua brinca nos dentes, os seios intumescem roçando o lençol áspero da cama. Enquanto lê, respiração mais pesada, as coxas se apertam. Esfrega pele com pele, a fome crescendo. Ao seu redor, igual: ventilador fraco, mesma música, nada acontecendo. Vira de lado e puxa o travesseiro pro meio das pernas. Uma mão segura o livro, as palavras quase sem importância já, a outra – displicente – brinca com a ponta do mamilo e o corpo força o travesseiro. Sede. Levanta-se brusca, livro no chão, desliga ventilador, procura o copo que sempre deixa ao lado da cama. Vazio. Ao lado, o celular. Ri, safada, muda as configurações. Chamada não Identificada. Assim, Assim. Liga. Ninguém atende. Insiste. A voz, rouca, sonolenta. Ao alô ela reponde com um gemido. E outro. E outro. Ela sabe que ele não vai desligar. Ele nunca desliga. Coloca no viva voz, ela vai precisar das mãos. Baixa o volume, mas a canção continua, instigante.

Ele sabe, ele faz: narra o seu querer. Ela geme. Ele diz: agarre, toque, aperte, molhe, roce, esfregue. Verbos no imperativo, como o desejo. Ela segue. Ele: a voz mais alerta. Ela: o corpo mais obediente. Peito, queixo, bunda, ombro, orelha, barriga, coxa. Quebra-cabeça do tesão. Ela ri. De olhos bem fechados, ele diz ou ela mesma quem quer? Aproxima a boca do celular, geme mais forte, o suor agora lhe molha toda. Quedê a voz? Uma mão perdida em si mesma, a outra procura o telefone, mais perto, ela quer ouvir, ela quer saber, ela quer obedecer, ela quer… Porque ele não fala? Porque ele não diz? Porque ele não manda: enfie o dedo gostoso? Os olhos nublados mal enxergam o visor. Chamada finalizada. Ela não acredita. Tira a mão do meio das pernas. Cheira. Geme. Pega o telefone. Quer mais. Liga. Você não tem créditos para realizar essa chamada. E Bethania continua a cantar…

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Cuidar de meninos, ainda

DeBruyne

Cuidar de meninos. Já escrevi um sobre isso, aqui. E tenho vontade de falar muito mais sobre o assunto. Meninos: pressões sociais. Ser menino, algo que eu acho tão difícil. Acho tão difícil, daqui de onde olho. Sem ser. Mas vejo as pressões, o tempo todo, permanentes. As pressões para sentar de tal jeito, não mexer a mão de tal outro, falar com voz assim ou assado. As roupas. Ah, as roupas. Só pode isso e aquilo, aquela nem pensar, essa cor de jeito nenhum. De-jei-to-ne-nhum.
“Mas por quê?”
E a resposta definitiva: “Não é coisa de menino”.

Coisa de menino: não é tanta coisa que pode. Tanta coisa não pode. Uma, em particular: não pode brincar de boneca. Não pode ter boneca. Já ouvi histórias de gente que deu bonecos (nem eram bonecas, vejam bem: eram bonecos, bebês) para filhos de amigos. Pareceu fazer sentido, ia nascer um irmãozinho: um boneco é algo que se dá com frequência quando vai nascer um irmãozinho, ajuda a criança a lidar, a aprender a cuidar, a brincar de “ter o seu bebê” também, agora que a mãe vai estar ocupada com um.

Que se dá? Ah, sim, se dá para as meninas. Ponto. Menino não brinca de boneca. E vão os pequenos lidar com suas dores sem apoio. Sem aprender a botar no colo, a ninar. No máximo um bicho de pelúcia, não-humano. Boneca, nem pensar. É coisa de menina.
Panelas, comidinhas? Coisa de menina. Vassoura, ferro de passar? De menina. Brilhos, paetês, maquiagens? De menina, de novo.

Pros meninos? Sobram os carros. Carros: potência, velocidade. Atributos “de macho”. Sobram as armas. Na minha casa não rolava: no máximo, pistola de água. Porque era de água, não porque era pistola. Mas é presente comum, né? As pessoas dão. As bolas, que são talvez a parte mais legal. Já tinha comentado no outro texto:

Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.

Porque educar é isso, não é mesmo? Educar pra quê? Pra navegar do seu jeito nesse mundão velho sem porteira, acho eu. Pra saber que o outro é outro e é igual a você. E merece respeito, como você. E merece atenção, como você. E merece viver do jeito dele, como você.

E pra isso, é melhor começar cedo. Quando as crianças são pequenas. Bem pequenas. Com o exemplo, ainda mais importante que as palavras. E com as aberturas de espaços. Conviver com os outros diferentes. Aprender que os diferentes são, também, iguais. Brincar. Brincar, que é aprender a vida. Brincar que ajuda a se entender no mundo. Mais meninos brincando de bonecas. De pular corda. De elástico. Brincar de roda. Junto com as meninas. Junto. Fazendo junto. Se fantasiando junto. Criando novos mundos. Do seu jeito. Com o que der. Abrindo possibilidades e caminhos.

E, sim, isso é assunto para esse nosso bloguinho. Que tantas vezes fala da violência contra a mulher. E o que está proposto aqui é, também, forma de luta. Lá no começo, quando eles ainda são bem pequenos, cuidar para começar a desmontar essa armadilha.

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Das tantas mortes

“…Depois de tanto verbo a pessoa morre. A pessoa morre”.
(Karina Buhr)

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Coragem, para as pequenas mortes. Pequenas mortes que antecedem a grande passagem do ego. Pequenos lutos de grandes mortes. Grandes lutos de pequenas mortes. A gente morre. Depois de tanta vida, depois de tanta aspiração, depois de tanto amor, depois de tanto verbo, depois de tanto gozo, depois de tanta dor, como diz Karina Buhr lá em cima, a pessoa morre.

E a gente morre. Viver é estar permeado de morte, com os olhos assombrados pelo escape do tempo, e de nós mesmos. Morrer assusta, mas é bonito. É fluxo de vida, é vida de rio cheio, é vida que vai e não volta, é vida pulsante de tantos tempos que ainda virão. É possibilidade de reinventar-se, de se deixar ir, de deixar ir o que não podemos segurar com as mãos, de ser nada diante do segredo maior de estar vivo. E de ser tudo que se pode ser neste respiro de tempo presente.

A sinceridade – nua e crua, é que a gente morre. E aceitar a morte é aceitar que somos finitos neste instante em que tudo é. Em que os olhos veem e a gente existe. Em que a gente já não é mais, e nunca mais poderá ser.

E tem tanta gente tentando (em vão) segurar a areia que escorre incontida para o outro lado da ampulheta. Tentando se segurar nas certezas expiradas, que já evaporam no ar. Tentando se proteger com bens e seguranças materiais, cercar-se da materialidade e do conforto possível diante da sensação nada segura de estar vivo.

E de nada adianta tanta concretude, não conseguimos conter o tempo. A gente morre. E é melhor morrer vivendo, seguir nadando na correnteza, do que morrer cercado de concretos armados e vazios de ar viciado. De vazios de tudo que podíamos ser, e não fomos. De tudo que não experimentamos, dos vastos mares que não nadamos dentro de nós mesmos. E dentro do mundo, do outro, dos outros, das matas e das florestas verdes ou cinzas. E de tudo não seremos ali, no morto-vivo que não morre e não vive. Que está pela metade se costurando com linha que não junta os pedaços desconexos. Tem tanta vida lá fora. Vida que só tocamos quando paramos de nos proteger do fluxo de ser. E de ser qualquer coisa, qualquer coisa que surge quando paramos de nos proteger das nossas inevitáveis mortes.

E enquanto escrevo digo isso a mim mesma, aos meus próprios medos e inseguranças de vida e morte, bradando aos ventos que me levem.

É verdade: viver dói. Nascer dói, e morrer pode ser alívio. Tem dor, e na dor tem matéria prima do que somos feitos. Tem gozo que antecede a felicidade de estar vivo. Felicidade que não precisa de nada a não ser o pulso. Que se sabe fluída e sempre presente nos intervalos das marés. Que sabe da dor da impermanência. E da beleza das ondas que levam e trazem substâncias vitais. E a gente se refaz ali na beira do mar, que lambe nossa pernas e apaga as marcas na areia. Que molda novos e impossíveis desenhos. Até o último respiro de olhos abertos.

E não adianta se esconder do mar, porque a gente morre. Porque viver é mutabilidade. Caem as unhas, os dentes, os cabelos mudam, a pele enruga, as nossas células gritam e a gente muda por dentro. As sensações mudam, os desejos mudam, a gente morre e renasce em diferentes instâncias de nós mesmos. Até que um dia a gente se desfaz em poeira cósmica e beija as estrelas. Desculpem-me mais uma vez: de nada adianta nosso ego. Ele vira poeira.

E nesse nosso falso mundo de seguranças jurídicas e investimentos no que dá lucro, de pequenezas materiais e mesquinharias aos montes, só me resta rasgar os rótulos e tentar dissipar o medo. E que a gente seja. E viva com sede, biscateando impossíveis desejos e vivências, até a última gota.

Conversas sobre o feminino e outros bichos

Ontem, almoço com amiga querida. E conversas sobre o feminino. O não-feminino. Ela, como eu, cresceu naquela terra distante de relógios e vacas (que permitem os queijos e os chocolates). Chegou aqui, como eu, no início da adolescência. E teve que se deparar com o que era ser mulher, aqui.

Talvez por isso a conversa tenha sido na base de tanta concordância: a gente se entende, por ter tido um primeiro olhar sobre isso lá na Europa. Por ter crescido ouvindo conversas de feministas da década de 70, por lá. Por ter as mães que a gente teve, que, embora não se dissessem feministas, faziam parte dessa época pós-queima de sutiãs, em que as mulheres ocupavam os espaços, tratavam dos seus assuntos. Reivindicavam. Era o mundo pós-pílula, e, na Europa, era um mundo ainda marcado pelas duas grandes guerras – quando os homens foram para as frentes de combate e as mulheres ficaram para tocar a vida civil, as fábricas, os campos… quando acabou a guerra, como fazer as mulheres voltarem para dentro de casa?

Não que não houvesse contradições nesse mundo aí: eu, menina de classe média que crescia no Rio de Janeiro, fui pela primeira vez apresentada às noções de que meninas são “mais arrumadas”, “têm cadernos mais limpinhos” lá, em Genebra. Nunca tinha ouvido falar disso…. na escola, a gente tinha aula de costura e culinária, enquanto os meninos tinham “trabalhos manuais” variados. Coisa que me parecia bizarra. A gente reclamava muito disso, aliás. A gente, todas as meninas. E, na década de oitenta, isso mudou, como me contou minha professora de primário, Mlle. Guelpa: todo mundo passou a ter aula de tudo. Juntos e misturados, como deve ser.

Divaguei, mas esse parágrafo me trouxe de volta ao assunto: o que é “feminino” e “masculino”, onde se dá a linha de demarcação. Quem sempre morou no mesmo lugar, acho, pode ter mais dificuldade de perceber o quanto esses conceitos são construídos. A mim, na volta, no começo da adolescência, foi necessário um longo período de adaptação: como “ser menina” no Rio de Janeiro? Não era igual ao que eu conhecia; ralei para entender. Tanta coisa que, pra mim, era só um jeito de ser sem maiores consequências, aqui me encaixava em categorias bizarras como “hippie”, “fora do padrão”, “moderna” (Rá. Moderna, eu, aos treze anos? Passe de novo.).

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

Olhando hoje, tanto tempo depois, a sensação que tenho é que isso aí só piorou. Afinal, na década de oitenta, ainda havia eflúvios de Hair, de amor livre, de flores nos cabelos. No meu portal, dizem-me. Certamente, no meu portal. Mas é dele que continuo olhando o mundo, e mesmo aqui, as definições me parecem hoje, tanto tempo e tanta luta depois, mais estreitas. Continuamos no mundo do “homem não chora”, e a ele adicionamos brinquedos ainda mais definidos por gênero: o mundo das meninas, antes bem colorido, virou um insuportável universo cor-de-rosa. Até ovo Kinder hoje tem “de menino” e “de menina”, pelamor. Caixinhas apertadas. Tão difícil se encaixar. Corresponder às expectativas. Saltar a barra cada vez mais alta da aceitação sem questionamentos. Mas aí, se for pra ser aceito assim, não pode tanta coisa. Não pode camiseta rosa, não pode brincar de boneca, não pode gostar de glitter ou de maquiagem, não pode usar cabelo assim ou assado… não pode. Meninas também não podem, e são suavemente empurradas para o universo fofo e cor-de-rosa, inexoravelmente. Um universo em que importante é ser bonita e fazer pose, biquinho, charme.

Que difícil.

Aí, claro, cada vez fica mais gente de fora: que não consegue se encaixar nem em uma, nem em outra. E que quer ser ouvido. Que quer estar, ser, poder. Como todo mundo. E agora? O que fazer?

Talvez, quem sabe, uma dica, pra começar a conversa.

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Esse texto, que vai ficar assim mesmo, meio aberto e sem certezas, cheio de angústias arranhadas e de dúvidas implícitas, mas com muita vontade que esse panorama mude, tem a ver com o almoço de ontem (obrigada, Claudinha!), mas tem também a ver com a nota tão estranha que circulou em jornal carioca essa semana. Nota que me ficou entalada na garganta. Porque era “engraçadinha”. Porque vinha de coluna “descolada”. E porque encerra, em tão poucas linhas, uma quantidade tão absurda de preconceitos… e penso na minha escola primária, que na década de oitenta aboliu essas diferenças. E lembro que estamos em 2014. E me dá uma tristeza. Um cansaço.
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Silvia

Na cidade de São Paulo, cidadãs descobrem que a bicicleta é também um meio de transporte. Leia a entrevista com a educadora física Silvia Oliveira, de 31 anos e moradora do bairro de Campo Belo.[zona sul]

foto: Antonio Miotto

foto: Antonio Miotto

1-Por que você escolheu a bicicleta como meio de transporte?

“escolhi a bicicleta, como meio de transporte por perceber quanto tempo eu perdia no trânsito.”

2. De modo geral, a saúde melhorou depois que começou a pedalar? O que melhorou exatamente?

“melhorou sim e muito! passei a ter muito mais fôlego, minhas pernas ficaram beeem mais fortes, e eu passei a me sentir bem mais alegre, bem humorada e de bem com a vida!”

Foto:  Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

3. Se uma pessoa que está pensando em usar mais a bicicleta no dia a dia perguntasse a você: “E aí, o que tem de bom em pedalar em cidade grande?”, o que você responderia?

“como passar a vivenciar a cidade de maneira mais humana, mais intima e verdadeira. sua vida passa a ter mais cores, sons, passa a ser mais vida! fora q vc passa a ter mais folego, condicionamento fisico e pernas incriveis! [risos]“

Foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

obs. hoje, segunda-feira, ocorre o encontro entre algumas as paulistanas que caminham e pedalam, conhecido como “miça” [ um trocadilho para o hábito de beber com as amig@s em algum bar de esquina...]

Carta resposta para um amor biscate

Por Luiz Welber*, Biscate Convidado

Qualquer lugar do mundo, hoje ou qualquer outro dia.

Querida amada biscate,

Uma carta feita de saudades. Sinto saudades. Saudades de você. De andar contigo. De procurar caminhos, metrôs, endereços, praças, esquinas, pontos de ônibus, bares, bistrôs, botecos, terreiros, praias, encontros. Comer acarajé na feira, pedir Heineken (porque a Brahma custava o mesmo naquele bar). Saudades de procurar tua mão para segurar no meio daquela muvuca de todos os lugares em que estivemos, daquelas multidões de tanta gente sem rosto, sem voz, sem graça, sem meu interesse, sem meu querer, sem minhas saudades.

Saudade das minhas mãos em tua cintura, das caminhadas em passos trocados e fora de ritmo, de você com a mão no bolso sobre a minha bunda ao andar pela calçada larga de grandes avenidas tão movimentadas. De ligar para seus amigos em cada cidade pelas quais passamos e, melhor ainda, encontrá-los e me sentir parte.

artabiscate

Before Sunrise (Antes do Amanhecer)

De contar a saudade no pé do teu ouvido, nos vendo loucos para, logo, encontrarmos um lugar para ficarmos apenas você e eu.

Saudades de tê-la a escolher as músicas do karaokê daqueles botecos “copo sujo” na tentativa de evitar que outros estragassem o momento de nosso beijo com trilhas sonoras que não queríamos nestas memórias de nossos encontros. De compartilhar, ao vivo (ou não), das músicas que agora são parte de nossas conversas. Muitas delas.

E o tempo, esse que passa, transforma, refaz, permite novos encontros, epifanias e…

De manhã, pó de café, água fervente. Passa a água pelo filtro de papel, aquele que guardo após o uso, para que você dê um fim mais digno do que a lixeira. Café, com açúcar, café, com adoçante, mais café.

Música, mais música, ao vento, aquele vento com repelente, num espaço sem mosquitos, com abraços e coisas mais.

Água, muita água, brisa litorânea, lá fora um coqueiro generoso, cheio de cachos. Cai um coco, caem dois, escada, sobe, mais coco, água… doçura líquida.

Caminhar, caminhar, acender os cigarros e conversar, contar de outros carnavais, saber de ti, de si, de mim, de lá, de cá, de quando, de quem nem sempre. Mas é de nós mesmos, sempre. Conhecer, reconhecer, caminhar mais ainda numa trilha que só vê quem conta os contos sobre ela, e o outro imagina, dificilmente vê a mesma que se conta, talvez nunca. Pensar, imaginar, sorrir, rir-se, olhar sério, sentir mundos entre alegrias, humores, graças, ciúmes, acertos, desacertos, acordos.

O gelo e o limão caem, a coca-cola ensopa o tecido que, horas depois, rasga. Rasgam dores, rasgam reações desmedidas e tolas, rasga a crítica e a autocrítica, costuramos de novo, isso que já é novo e, paradoxalmente, velho.

Sono, descanso, pensamentos, acorda, presente de doçura.

Doçura.

Bom dia, amor!

welber *Luiz Welber é mineiro. Se diz historiador e nas horas vagas navega de maria-fumaça. Biscate que viaja por trilhos e trilha narrativas, em contato com o passado sem sair do presente. Viciado em café e em cervejas. Não foge das mesas de bar e aprendeu a fazer macarronada.

Sete de Mãe, digo, de Maio

“Filhos, há que se ter essa coragem:
ir e deixá-los, deixá-los ir.” (Renata Lins)

Domingo é o dia das mães. Eu sou mãe. Uma mãe biscate. Laralilá. Adoro comemorações. Sou festeira. O que eu não sou é uma boa mãe. Nem má. Sou, apenas. Acho importante desmistificar isso que ser mãe é padecer no paraíso. É nada. Tem um monte de coisas boas e um monte de coisas péssimas. E uma porção de coisas que normalmente são boas mas que naquela hora são péssimas e uma porção de coisas que são péssimas mas, em alguns momentos, ficam até boas.

calvin

Minha mãe é exatamente assim, como na tirinha. Dava jeito em tudo (em certos dias em que preciso de colo, ela ainda dá). O jeito que minha mãe dava sempre parece melhor que o jeito que eu dou (em uma análise feita por mim mesma se eu fosse minha filha). Já pro Samuel, o jeito que eu dou parece ótimo. Ah, os pontos de vista!

O certo, certo mesmo, é que eu só sou a mãe que eu sou, isso significando o que quer que signifique, por causa do Almir, o pai. O Almir fez possível uma maternidade mais tranquila e alegre. Ele estava sempre lá. Ele está sempre aqui. O Samuel, hoje, mora com ele. É ele quem cuida das coisinhas que a nossa sociedade, com seu apego aos papéis, credita às mulheres. Ele que olha se as unhas estão curtas, as tarefas feitas e a saúde em ordem. Sou muito grata por tê-lo como companheiro nos cuidados com o Samuel. Se eu sou a mãe que sou, com defeitos e acertos, é muito por sabê-lo aqui, perto, disponível e pronto pra tocar o barco. E, mais, só sou a mãe que sou pela incrível e amorosa rede de familiares e amigos. Suas dicas, sua disponibilidade, seus exemplos, suas perguntas, suas aporrinhações. Tudo que me fez tentar, pensar, mudar.

Ser mãe não é a coisa mais importante que sou. Nem a menor delas. Sou eu, como tantas outras coisas que sou. Não sou a “Mãe”. A cada dia vou dando ao termo “mãe” mais a minha cara, o meu jeito, o meu ritmo. Por outro lado, o exercício da maternidade vai me constituindo e caracterizando. Não vem primeiro o ovo nem a galinha, mas um omelete de frango, acho.

O certo é que tem memórias que, quando o peito dói, servem de bússola e alento. Como o dia em que fui, a pé, da Universidade ao escritório, tomando banho de chuva, barriga de sete meses, enorme, a sensação de prazer e liberdade. Ou amamentar. Amamentar pode ser complicado, pra muita gente é. Pra mim foi alegria e prazer desde a primeira vez (tenho vídeo provando, mas acho que ele não seria aprovado pela censura, o outro seio fica lá, exposto e descarado). Ou colocar o filhote pra dormir na rede. Ai, poucas coisas são tão gostosas na minha memória como aquele peso no peito, o cheirinho cativante e a respiração pausada. Às vezes que ele fica doente (eu sei, sou terrível) e procura a minha mão. Mesmo grande, 16 anos e quase 2 metros, quando ele tem febre e quer ficar aconchegado, meu coração dá saltos. Nenhuma dessas coisas é natural. Não vem no automático. São construções. O amor não é um dado. É um processo e o filho sempre, sempre, permanece um Outro, acho eu. Estranho, invasor, conquistador. Bárbaro, em todos os sentidos do termo. Quase sempre como a gíria.

mafalda - mae

Comecei dizendo: domingo é dia das mães e eu sou mãe. Equívoco, claro. deveria ser: “domingo é dia das mães e eu sou mãe do Samuel”. Ser mãe não é uma categoria abstrata a qual nos enquadramos. É uma experiência concreta que vai sendo o que que vou sendo e vai me tornando quem sou. Não sou Mãe. Sou a mãe desse moço aí, meio menino, meio rapaz, quase homem. Outro. Admirável, interessante, divertido, enraivado, carinhoso, impertinente. Ele. Eu. Nós.

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E hoje, pra terminar a conversa, hoje é sete de mim, digo, de maio. Já faz dezessete anos que você, Samuel, está por aí, por aqui, em mim. Já faz dezessete anos que você me surpreende, alegra, tira o ar, preocupa, enerva, confunde, enternece, dezessete anos que me comove. Dezessete anos e eu ainda sei tão pouco sobre você, sobre nós, sobre ser quem eu deveria ser com você ou pra você. Não sei estar, talvez, onde você quer. Mas estou onde você precisa, espero. Estou aqui pra você. Te amo. E tenho um orgulho danado de fazer parte dessa história que é sua, que é você. Parabéns, eu digo, por ser assim como é: em construção.

Aos quase 50, continue a nadar

arte: André Vallias

André Vallias

Pois é. Quase 50.
Impacta, né?
A mim impactou, nesse começo de ano. Vou fazer 48 em maio. E 48 é “quase 50″. Né.

Eu nunca liguei pra idade. Achava graça no ditado da Freira – que eu não conhecia ainda, só conheci agora na formatura da minha mãe : “Depois que eu trintei, nunca mais contei”. Achava graça e me irritava um pouco: como assim? Ainda mais que era ela, minha mãe, que retomava o ditado, quando lhe perguntavam a idade. Eu ficava magoada: se tirassem a idade da minha mãe, lhe tirariam a história, e com a história… eu. Era como se minha mãe estivesse querendo me “apagar” da vida dela.

Já disse em outro lugar:
não gosto quando dizem que eu pareço mais jovem. Não gosto, em primeiro lugar, porque não é verdade: eu não durmo em tupperware, nem parei de mudar com alguma idade pra trás. Mais jovem, eu era diferente. Só sou assim agora porque vivi o que vivi, sofri o que sofri, gargalhei quando deu, chorei um monte – que eu choro à beça, pra caralho ou mais – e… como diria o Neruda, de saudosa memória, “confesso que vivi”. E não vou botar a cabeça embaixo da asa, não vou fazer de conta que não, não vou renegar os anos: são meus, me trouxeram até aqui, e como taurina possessiva que sou não cedo nenhum deles. Se gosto de mim hoje, é por conta desse caminho.  

Quando eu disse, foi há três anos: eu tinha 45 então, e era “bem no meio”. Esse ano, desde o começo do ano, tenho, na minha cabeça, quase 50. E, por um momento, me assustei. Aí fui ali cuidar de coisa e outra, tomar um café, encontrar a galera no Cardosão, dar uma olhada no mar, ler um pouco de Simone que anda me pautando por esses tempos (vá saber). Senti o vento no rosto. E me alegrei. Essa idade, 48, na astrologia, é fechamento de um ciclo – o quarto ciclo de Júpiter. Júpiter, planeta do crescimento, dos “vôos de águia” que ajudam a dar contexto e a sair do olhar míope da proximidade; o planeta dos estudos superiores, das longas viagens. Júpiter, o “grande benéfico” dos antigos, o planeta da boa fortuna, regente de Sagitário, “ao infinito e além”.

Júpiter tem um ciclo de doze anos: doze, vinte e quatro, trinta e seis, quarenta e oito. O quarto ciclo de Júpiter. Fechando, e começando um novo. Cada um desses fechamentos corresponde a um momento extremamente importante da minha vida. E a um novo começo. Vou contar só do primeiro, meu leitmotiv, recorrente de tanto que me explica. Aos doze, eu estava voltando de uma longa viagem. Eu-forasteira. Em carne viva, chegando ao Rio de Janeiro sem entender nada. As gírias. As roupas. Os modos. Os jeitos. Uma dor e um alumbramento. O primeiro ciclo de Júpiter a gente nunca esquece.

Esse ano, tô me sentindo próxima dessa menina aí, a dos doze anos, de olhos assustados, de jeito de bicho do mato. Essa aí que dizia que tinha frio de gente, e que tinham pisado com botas pesadas no seu jardim. A “desgarrada das gentes”. Próxima, porque por baixo de todas as camadas, essa aí ainda sou eu. Próxima, pelo afeto com que olho pra ela, ela-eu, e me alegro de tanto caminho percorrido. Te tanto pau, de tanta pedra, de tanto fim do caminho. Do fundo do poço. Do pouco sozinho.

Depois disso tudo, olho pra ela-eu hoje, e penso que andei. Que hoje não tenho mais medo de dançar em festa, embora a menina de doze anos apareça de vez em quando na hora de dançar de rosto colado. Que não gaguejo mais e que falo pra platéias grandes e pequenas, falo em plenárias, falo até em rádio, olha só. Me alegro que escrevo no Biscate, que vagueio no Chopinho, que faço mapas e falo de economia e traduzo de um pro outro, que é a minha verdadeira vocação.

Olho pra menina-eu de hoje, ao final do quarto ciclo de Júpiter, e vejo-a tão boba, tão palhaça, tão de riso solto como sempre. Ou talvez mais. Mais livre, mais tranquila, mais segura, certamente. Tão inquieta, tão curiosa, tão gulosa de vida e de comida mesmo como sempre. Com algumas cicatrizes a mais, como não. E outras histórias pra contar.

Vai ter festa esse ano. Festa de dança, pra celebrar o quarto ciclo de Júpiter. Como se deve. Provavelmente uma festa conjunta, com outros aniversariantes de maio. Gente querida. Tanta gente querida. E meu coração já fica quentinho só de pensar.

Caminho andado, caminho por andar: tá sendo gostoso esse caminho, viu. Não “fácil”. Nem sempre tranquilo. Mas bom de andar. Com seus perrengues, com seus percalços. Mesmo que de vez em quando fique tudo escuro e não pareça. Bom de andar, sim.

Esse texto de hoje é pra todo mundo que tá chegando lá comigo: tamos começando outro, galera. Ainda tem muito chão pela frente. A chuva ainda não chegou. Borandar. Dançar. Chorar. Gostar.

Continue a nadar, diz a Dory.

Olho pra frente, pra quem já andou mais do que eu, e vejo caminhos a percorrer. Olho pra trás, e cuido das lembranças que me fazem quem sou hoje. Agradeço, todo dia, sempre. Continuo a nadar.

Renata by João

Renata by João

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