Final Feliz

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo

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Na véspera do aniversário ela se pegou pensando em mais um ciclo que se fecha. Enquanto pedalava os pensamentos dançavam na sua cabeça. Pensamentos voam e ela não tinha ideia da quantidade de textos que já havia perdido em cima da bike, correndo ou nadando. Pra evitar que isso se repetisse, de vez em quando parava no meio-fio pra fazer uma ou outra anotação.

E nesse momento de começo de uma nova história, ela pensava nos finais que já tinha vivido. Eram muitos. Impossíveis de classificar em alguma ordem. Mesmo a cronológica é meio dúbia, já que algumas histórias só acabam mesmo muito depois de um final. E outras acabam bem antes do fim oficial. O que ela já aprendeu em 44 anos de finais e começos é que cada final acaba fazendo sentido em algum momento, ainda que pareça na hora do vivido a coisa mais sem sentido do mundo.

Algumas pessoas sonham com a dobradinha clássica: “casar e ser feliz para sempre”. Ela lembrava da discussão histórica que tinha com uma amiga nas noites intermináveis dos seus 20 e poucos anos…  A amiga acalentava o sonho do “pra sempre”. E ela, já naquela época, tinha convicção de que o pra sempre não era coisa pra ela.

Assim, a cada relação que tinha, sonhava em ser feliz por um tempo. E, no único casamento que teve digno deste nome, sonhou muito com uma separação feliz. Não no momento do fim, claro. O fim é sempre triste. Mas tristezas passam, dores prescrevem e ela achava possível manter ou resgatar uma relação de amizade e companheirismo depois do fim. Agora parecia que estava próxima do sonho. Não foi um caminho fácil. Foram necessários vários finais infelizes, estranhos, dramáticos, patéticos pra chegar neste momento. A cada fim aprendeu um pouquinho ou um muitão.

O primeiro final merecedor de nota foi internacional. Neste época ela vivia um tumultuado namoro-de-vai-e-volta que de tantos finais, parecia não ter mais fim. Em um dos intervalos, decidiu ir pra longe, ver as coisas a partir de outra perspectiva, ou fugir mesmo e ser outra pessoa por um tempo. Foi morar um ano na Inglaterra e, logo na chegada, arrumou um namorado inglês, que em seguida se mudou pro quarto que ela ocupava na república de amigos ingleses. Passaram o ano todo ano juntos.

Foi um fim com data marcada, ela tinha dia pra voltar e nenhum dos dois pretendia alongar o romance à distância. Fizeram uma linda viagem de despedida, uma lua de mel ao contrário, logo antes da separação, uma das coisas mais felizes e tristes que ela já viveu.  Tudo isso podia ter funcionado como um belo final e uma transição pacífica pra uma saudável amizade. O problema é que eles combinaram que ele viria pro Brasil visitá-la um ano depois do fim. E um ano depois, aos 20 anos, é tempo suficiente pra ela já estar enganchada em várias outras histórias e não dar a atenção que ele merecia. E quebrar todas as expectativas dele. Sem cuidar muito daquele final, ela fez uma lambança. O cara ficou muito puto da vida (com razão) a ponto de não querer mais falar com ela ou ouvir falar dela. Nunca mais. Ainda hoje ela tenta encontrar essa criatura nas redes pra dar um alô, saber da vida dele, contar da dela.  Mas ele tal qual Arlindo Orlando, o caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade de Miracema do Norte, sumiu, desapareceu, escafedeu-se.  Triste fim. O aprendizado: não prolongue um fim.

Outro final importante foi o da já citada relação, que durou uns 10 anos entre idas e vindas. O último fim desse relacionamento fechava um ciclo que havia começado com 16 anos e acabava aos 20 e tal. E o  fim da história mais importante da sua juventude foi um pé na bunda clássico, um sustão, um “pula direto pra fossa” bem radical. Tudo agravado pelo fato dela ter acabado com um namorado gente fina pra ficar de novo com o este ex. Quando eles voltaram, parecia último capítulo de novela em que os protagonistas, depois de muitos obstáculos, se rendem ao verdadeiro amor e terminam juntos e felizes. Na vida real, ela ter ido morar com ele aceitando o “pedido de casamento” foi um trampolim para o fim. Menos de um ano depois, ele chegou em casa contando que estava apaixonado por outra pessoa. Eles tinham muitos amigos em comum e, mesmo sofrendo, ela pretendia preservar a amizade. Logo viu que não havia espaço pra isso pelo simples fato de que ele não tinha o mesmo interesse no assunto. Fosse hoje, ela o chamaria de golpista. O resumo da ópera é que os dois passaram de um suposto casamento pra mera formalidade. Uma formalidade afetiva, mas que não passa do “E aí, tudo bem? Como vai a família?”. Aprendizado 2: Quando um não quer, não rola de ficar amigo.

Havia outros finais antes, depois e no meio desses. Nenhum deles era motivo de orgulho na sua biografia. Independente de quem terminava, a intenção de manter uma relação de amizade com os ex sempre tinha sido um retumbante fracasso.

Aí veio um casamento de verdade (por casamento de verdade, leia-se um projeto de vida comum por um tempo razoável e que neste caso incluía filhos). O primeiro fim deste foi só um ensaio lá pela metade do caminho e não deu certo. Depois de quase um ano separados, eles voltaram pra viver juntos as coisas que ainda precisavam ser vividas. Tiveram mais um desejado filho, mais uns anos de rotina, mais uns carnavais e mais algumas boas dose de felicidade. Até que as coisas degringolaram de vez. E foi aí que ela tremeu. Sabia que o fim definitivo estava chegando. Sofria mais com “o que será de nós daqui pra frente?” do que com o fim em si. Porque o fim, ela já tinha aprendido com tantos outros, supera-se. Mas o estranhamento, esse pode ficar pra sempre. E morria de medo que depois de tanta parceria, de livros escritos juntos e de dois filhos ele virasse aquele humano com quem ela só ia falar sobre as crias em telefonemas ou mensagens vazias e sem beijo no final. Ela tinha pavor deles virarem só um: “Então tá, tchau.”. Mas e aí, como faz? Ela também não sabia.

O começo do fim foi meio atribulado. Ele apareceu com uma namorada pouco depois da separação. E a cada vez que surgia uma nova pessoa, a dinâmica dos dois sofria alguma alteração. Mas o tempo foi passando, as feridas foram cicatrizando e ela foi vendo que era possível continuar gostando dele, manter o carinho e a admiração. E sentia que era recíproco. Que ele também queria que aquela separação desse certo, que isso era importante. Quando estavam solteiros saíam juntos, bebiam chope com ou sem as crias. Depois de alguns anos, ele começou a namorar uma pessoa legal. Que os amigos em comum achavam legal. De quem os filhos gostavam e falavam bem. A filha um dia, falando sobre a namorada do pai palpitou: “Acho que você vai gostar dela”. Tinha razão, simpatizou de cara. E ficou imensamente feliz de ver que era possível. Uma tarde foram à praia juntos. Todos. Ela, o ex, as crias, a namorada e o filho da namorada. Depois de muito papo, mergulhos e cervejas, ela achou o pôr do sol incrível daquele novo ponto de vista.

Agora, ali, enquanto pedalava, se dava conta de que, pra uma separação “dar certo”, todo mundo tinha que querer. E querer significa também respeitar o tempo. O seu tempo. O tempo do outro. O tempo das crias. O tempo.

E com o tempo, na medida em que passavam de fase, ela sentia que eles botavam mais um tijolinho na história que construíram e que continuavam a construir juntos. E ela, que não sonhava com um “feliz pra sempre”, começava a acreditar que uma ex-relação pode ser feliz.
Talvez até pra sempre.

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Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Sobre cantadas erradas

Random dude at the faculty cafeteria. Must be engineering faculty, telling from his books:
–Wow, you sure eat a lot for such a small woman.
–Wow, you sure talk a lot for such a stupid guy.
Wrong pick-up line, honey. On a very wrong day too.
(Asli Berktay, no facebook)

[Um cara qualquer na lanchonete da faculdade. Deve ser da engenharia, pelos livros dele.
– Caramba, pra uma moça tão pequena, você realmente come bastante.
– Caramba, pra um cara tão mané, você realmente fala bastante.
Cantada errada, querido. E num dia particularmente ruim.]

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Essa aí é uma de tantas. Cantadas erradas. Invasivas. Sem-noção. E num sentido específico: de onde o cara tirou que ele, sem nunca ter visto a moça, poderia dar palpite sobre quanto ela comia? O que será que ele pensou? Que seria visto como um elogio por ela ser magra? Que seria engraçadinho? É apenas invasivo e irritante.

Aí vem a questão: como abordar gente que você não conhece? Acho que se dar conta de que você não conhece é um bom começo. Mesmo que você tenha se encantado com a pessoa à primeira vista: a pessoa não necessariamente se encantou com você – e, sem querer desanimar, a probabilidade maior é de que não tenha acontecido. Assim, se você quer começar algo (uma conversa informal, sem consequências, ou quem sabe uma “amizade ou algo mais”), a dica é: é devagar, é devagar, é devagar é devagar devagarinho…..

Mesmo comentários francamente elogiosos sobre olhos, cabelos ou corpo podem ser percebidos como invasivos. Sim, caro leitor, é isso mesmo: o argumento “eu só estou elogiando” não é argumento. Não se sai comentando por aí dos detalhes físicos de gente que não se conhece. Se você fosse mulher, me arrisco a dizer que isso lhe seria evidente. É prerrogativa puramente masculina sair comentando o rosto e o corpo de mulheres desconhecidas e achar que está tudo bem. As mulheres sabem perfeitamente que desconhecidos, ora, são desconhecidos.

Veja, não estou dizendo que não se deve seduzir desconhecidos e desconhecidas, que não se deve tentar fazer contato, chamar a atenção. A questão aqui é o “como”. Caso você pretenda ser bem-sucedido e não apenas irritante.

O segundo ponto é: tentou e a pessoa não correspondeu? Deixe passar. Deixe pra lá. Não era uma boa hora, não deu certo, não rolou sabe-se lá por quê. Faz parte, né. A segunda tentativa já é um exagero e uma invasão em si.

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Ah, os filmes “românticos” mostram histórias assim o tempo todo? Pois é. Mostram mesmo. Danem-se os filmes “românticos”, que ensinam homens a serem irritantes, invasivos e insistentes.
Danem-se.
Era bom que a gente começasse a aprender de novo a não ultrapassar certas barreiras. A da boa educação, por exemplo.

Sei, é difícil, é contrário ao que seu pai diz, ao que o seu tio diz, ao que o seu irmão mais velho diz. Afinal, sociedade machista tá aí pra isso mesmo: pra perpetuar esse tipo de abordagem.

Mas a gente não ia mudar a sociedade? Tá, a sociedade inteira é difícil, é obra pra muito tempo e muita gente. Mas… pelo menos no nosso cantinho?

Uma história de escola

Por Andréa Dutra*, Biscate Convidada

Eu tenho uma turminha muito querida. São mais jovens e super animados em aprender. Tinha o projeto de sair da escola, mas aquela turminha…a-que-la-tur-mi-nha…acabei ficando.

No início do ano, uma aluna, S., me surpreendeu pela idade, 10 anos no 7° ano. Era ex-aluna da “escola-desejo” dos outros alunos. Falamos muito rapidamente sobre a escola de onde eles vieram e ela me disse que lá era horrível e que não tinha amigos. Achei que era uma reclamação normal. Devia ter tido um ano ruim. Mas me apeguei a ela, como à turma toda, e passei a perguntar sempre a ela se estava gostando, se estava bem (coisa que tento fazer com todos, mas nem sempre funciona)…e ela sempre com um sorrisão no rosto, dizendo que estava feliz. Realmente, ela desabrochou, fez amigos, se diverte com tudo e até os defeitos da escola leva com graça.

Corta pra reunião de responsáveis de hoje. (De responsáveis mesmo. A maioria na sala eram avós e tias).

Comecei conversando com um pai que conheci na semana anterior. O filho, F., fez 15 anos e decidiu que não queria mais estudar. “Professora, pelo amor de Deus, conversa com ele! Não deixa ele largar a escola não!” E vamos lá: “Fulaninho, a escola blablablablabla.” Hoje F., sempre tímido, voltou e veio me abraçar: “Tia, eu voltei!”
Do lado uma senhora, a mãe da S.

_Oi, tudo bem? A senhora é mãe da S.? Ela parece bem feliz aqui, o que a senhora tá achando?

_Professora, a S. tá muito feliz. Deus sabe o que sofri com essa menina. Ela passou 2 anos sofrendo por bullying na outra escola (particular, cara pros padrões do local, cheia dos gueri-gueri). Ela toma remédio todo dia pra dormir. Aqui, graças a deus, sempre que eu pergunto, ela tá sorrindo, tá feliz demais com os colegas, os professores. Ela gosta de todo mundo.

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E eu parei. Caralho, ela tem 10 anos! Ela toma remédio pra dormir. Porque é traumatizada e foi vitimada por outras crianças e professores como eu. E quis chorar. Mas fiquei feliz logo depois, porque ela tá saindo dessa, acompanhada por psicólogos, pela família, pelos amigos e por nós. Fico pensando no quanto tem muito mais que ensino nessa coisa de educação. E o quanto é gostoso estar atento e participar da ascensão do amor. pelo amor.

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Andréa nasceu no Rio, mas ama mesmo a Baixada Fluminense, e lá satisfaz seu complexo de Xuxa, sendo parada em todo canto por aluno, pai de aluno, mãe de aluno, vó de aluno, filho de aluno…

Os homens hétero e a linha de demarcação

Sentar em mesa de bar com uma penca de homens cis hétero acima dos 50 é ter que ouvir uma infinitude de piadinhas sobre a última ida ao urologista, o peso nas costas e similares.
Aí você pode sorrir e esperar passar (mas demora…..).
Ou você pode questionar, e vira barraqueira.

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Escrevi isso como status de feicebuque, e, à medida que recebia notificações, fui olhando pro texto e lembrando. E situando. E organizando, pra vir escrever aqui. Não era esse o objetivo – era apenas desabafar algo sobre a minha noite. E não se enganem: a noite foi ótima, foi agradável, foi divertida….  Falou-se de política, da nossa conjuntura líquida e tremelicante…. Era com amigos, pessoas queridas…. Mas teve isso.

Teve isso, tem isso. Isso faz parte. E, no caso, a mesa realmente só tinha homens acima de 50 anos. Mas arrisco dizer que, se fossem mais jovens, talvez não fosse tão diferente. As piadas poderiam ser outras: mas o conteúdo simbólico não iria mudar tanto assim. Homens hétero juntos: esse tipo de piada é tão corriqueiro.

Como comentei depois, o episódio – como tantos outros envolvendo grupos de homens –  me lembrou um filme do Claude Chabrol chamado “La ligne de démarcation”. Não achei o título em português, mas a tradução é ao pé da letra: “A linha de demarcação”. O filme é sobre uma cidadezinha francesa que, durante a ocupação alemã na segunda guerra, acaba sendo dividida em duas, uma parte ficando na zona alemã, outra na francesa. Pois então. Assim me parece o cotidiano dos homens cis hétero brasileiros (digo brasileiros porque me parece que aqui isso é particularmente marcado): uma eterna demarcação de zona. A hétero, em que se encontram, e o “lado de lá”. O “dos outros”. Arriscado e perigoso “lado de lá”. 

As pessoas da mesa certamente diriam (como disseram) que não têm preconceito, que estão do lado dos direitos dos homossexuais, que até têm amigos que…. E no entanto, fazem essas “brincadeiras”. Essas piadinhas. Todo dia, o tempo todo.

Em algum lugar já comentei que ser homem hétero é eterna vigilância. Como sentar, como andar, o jeito das mãos, a entonação da voz…. As roupas, o lenço (nunca jamais em tempo algum), as cores, o corte de cabelo… canso só de listar. Nunca saberia ser homem hétero, sério. Esse homem hétero padrão. É claro que existem outros, que fazem diferente: mas esses sabem que estão sujeitos a ouvir permanentes piadinhas sobre a roupa “de viagem”, sobre o jeito, sobre as cores. Sobre o que são, sobre aquilo de que gostam.

E, mesmo numa mesa dessas, em que, além de três mulheres, só havia homens hétero, uma boa meia hora se passou à base das piadinhas. Que giravam todas em torno do cu apertado. Apertadíssimo. Tão apertado que os dentes até trincam, imaginem. Deve ser difícil também, deve haver algum tipo de exercício específico pra manter o cu tão apertado. dessa demarcação. De como eram homens-machos. De verdade. De como estavam do lado de cá, e não do lado de lá. E por isso as piadinhas.

Fico pensando na educação que gerou isso. No “isso é coisa de maricas”, no “homem não chora” e tantas outras mais. Fico pensando na coragem de quem ousou assumir sua homossexualidade diante desse panorama. Nos motivos de quem não ousou. Porque não queria contar para os amigos de infância. Porque não queria perder esses amigos. Porque não queria decepcionar o pai. A mãe. Os irmãos. Tantos motivos pra não dizer.

Cheguei até aqui no texto e me deu vontade de chorar. Lembrei do Jean Wyllys que vive naquele ambiente inóspito da Câmara dos Deputados. Do que ele deve ouvir todo dia, toda hora. Da coragem, da firmeza.

Do momento em que ele se descontrolou diante de um crápula que exaltava um notório torturador da ditadura militar.

E acabo o texto aqui, porque acabou por conta própria, com uma homenagem a ele: Jean, seu cuspe foi nosso também.

E um recado amigo:
Homens cis hétero brasileiros, melhorem. Melhorem muito.

imagem daqui.

Em tempos de “tá dando condição”…

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Algo tem me intrigado nos últimos tempos. É uma pergunta simples e recorrente em conversas com as amigas de todos os tipos: biscates, recatadas, solteiras ou casadas. Como é possível ser gentil, trocar uma ideia, fazer novos amigos sem que o outro ache que você tá a fim, tá dando mole ou, na gíria atual, “tá dando condição”? E ainda, que porra afinal é esse troço de dar condição?

Pra ilustrar, vale lembrar um casinho tão real quanto corriqueiro.

Ele chama ela pra uma cerveja, ela topa. Ela nem sabe se quer mesmo “encontrar ao vivo” , mas o cara parece legal pelas conversas inbox. É amigo de amigos, inteligente, por que não? No dia da tal cerveja o cara dá uma investida e ela recua (sua suspeita de que ele era mais interessante no inbox procede). No dia seguinte o cara manda um inbox indignado: “Se não queria nada, por que topou encontrar?”

O ser humano é de fato curioso… O cara chama pra um chope, você topa. Ok, até aí nada. A única coisa combinada é que vocês vão tomar um chope. Certo? Errado. Tem um determinado tipo de pessoa que acha que ir tomar um chope “sozinha” com o cara é “dar condição”. Nessa lógica, chamar ou dizer “sim” pro chope é “dar condição” pra todo o resto. (E não vou nem mencionar aquele subgrupo que acha que “quando ela diz não, no fundo quer dizer sim.” Ardil 22. Neste caso não tem saída mesmo.)

Então, vamos lá, voltemos ao básico, tantas vezes maltrapilho, maltratado e esquecido.

Vivemos num mundo de sedução. Estamos todos, a todo momento, seduzindo uns aos outros. Isso é bom. É saudável. É gostoso. É biscate. Eu, você, casado, solteiro, padre ou adepto do poliamor, queremos gostar e ser gostados. Daí pro sexo, pra relação estável e pro pedido de casamento há um mundo de possibilidades. Às vezes, comprometimentos anteriores e convenções sociais nos impedem de ir adiante. Outras vezes simplesmente não queremos ir adiante. Queremos parar por ali mesmo, pelo menos por ora. Há ainda as inúmeras vezes em que mudamos de ideia. É aquela velha máxima: depois de um chope, tudo pode acontecer, inclusive nada.

Assim, topar um chope, conversar ou mesmo seduzir e jogar charme não quer dizer rigorosamente nada. Pra que “algo” além da sedução aconteça é preciso que os dois queiram aquele algo específico. E que isso fique claro.

Vamos fingir que o processo de sedução é um jogo de tabuleiro onde a pegação ou o sexo, ou qualquer “algo mais”, sejam o ponto de chegada. Este jogo, a meu ver, só tem uma regra clara: os dois têm que avançar juntos (repito, juntos, essa parte é importante). Pode pular casas? Pode. Se o outro topar, tudo bem, pulam juntos. Pode virar o tabuleiro de cabeça pra baixo e jogar ao contrário? Pode. Começa na pegação e vai caminhando pro “Qual é o seu nome?”, contanto que os dois concordem. Pode ficar várias rodadas sem jogar? Pode. O outro que respire, tenha paciência e vá meditar ou pular casinhas em outro tabuleiro pra se distrair. Se em qualquer momento do jogo alguém decide voltar uma casa, não há o que fazer, além de voltar uma casa. O que realmente não pode é achar que um dá a condição e o outro avança. Ou os dois avançam juntos ou ninguém avança.

 Aí o amigo pergunta: E as mulheres que fazem joguinho? Que dizem uma coisa, mas querem outra? Vamos lá. Sim, há mulheres que fazem joguinho. Há também homens que fazem joguinho. Você não pode saber o que ela/ele quer. Sabe apenas o que ela/ele diz.  Quem sabe do outro é o outro (às vezes nem ele/ela). Mas no nosso caso hipotético concreto, se o outro está confuso, indeciso ou faz joguinho, problema de quem faz o joguinho. Essa pessoa vai ter que aprender a dizer “sim” quando tá a fim e dizer não quando for o caso.

Voltando à nossa historinha do começo… Ela disse sim pro chope porque ele parecia um cara legal e ela quis ver qual é. Ao vivo, achou menos interessante e não quis mais nada. Quando ela viu a  mensagem indignada do dia seguinte, respirou aliviada, ele se mostrou um mané.

Nesse jogo de sedução há um mundo de subjetividade e interpretações possíveis. E se não foi hoje, amigo, quem sabe um dia… Ok, a regra pode não ser tão clara. Mas também não é muito difícil. Qualquer dúvida, é só perguntar. E existe, sim, a possibilidade dela querer só ser amiga.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

#OcupaEscola: pra periferia, estamos olhando?

Acredito que quem é de mídias sociais deve estar acompanhando, mesmo que de soslaio, a ocupação das escolas estaduais em São Paulo que estão na lista das 94 que serão fechadas pelo governador Geraldo Alckmin. Com isso, já em 2016, ao menos 1 milhão de alunos poderão ser transferidos para outras escolas, espalhadas pela cidade. O caso é que essa decisão foi tomada sem consulta pública, sem conversas com a comunidade, com associações de professores e pais, com os alunos. Tudo é muito nebuloso e pouco transparente e mesmo a publicidade do governo do Estado explica bem pouco.

Em protesto, estudantes se organizaram e resolveram ocupá-las. Até a finalização desse texto, 16 escolas estão ocupadas, espalhadas entre as zonas oeste, sul, leste, Embu e Osasco, estas duas na grande São Paulo. O governador deu entrevista dizendo que há interesses políticos por trás dessas ocupações. Ora, pois, mas não é justamente política o que esses estudantes estão fazendo? E isso não é fantástico?! Realizando coisas realmente lindas por lá, como saraus, shows e muito debate?

Obviamente que um governo como o de Alckmin, pouco acostumado ao diálogo, a reação não poderia ser diferente do que foi. Nesse processo, o estado se fez presente na sua face mais truculenta: pela polícia. O governo enviou a polícia armada contra estudantes munidos apenas com tambores, reivindicações e desejos! Na 4a feira (11), saiu uma liminar de reintegração de posse das escolas Fernão Dias Paes, no bairro de Pinheiros, e Escola Estadual Diadema, que deveria ser cumprida 24h após a notificação na escola, mesmo que de “maneira coercitiva”. Isso deixou o clima mais tenso ainda.

Na 5a (12), durante a Marcha das Mulheres contra o Cunha, gritamos várias palavras de ordem contra essa atitude absurda e tresloucada do governo do estado. O movimento feminista parou em frente à Secretaria de Educação pra denunciar o autoritarismo do governo com o fechamento de escolas e a militarização para reprimir os estudantes. Além disso, um grupo foi em direção à Fernão Dias assim que terminou a Marcha, permanecendo em vigília madrugada adentro.

EE Fernão Dias. Foto: Vanessa Rodrigues

EE Fernão Dias. Foto: Vanessa Rodrigues

Na 6a feira (13), quando seria feita a reintegração na Fernão Dias, fui pra porta da escola. Encontrei PMs postados em frente ao portão, o Choque numa rua lateral, mais “discretos”, e várias pessoas acampadas. Havia também muita imprensa, além das presenças de padre Júlio Lancelotti e do advogado e especialista em Direitos Humanos, Ariel de Castro Alves. Pude ouvir uma fala muito contundente de padre Júlio, que tento reproduzir abaixo:

“A ordem é que o estado não use o Choque conta os estudantes. Mas, quem vê essa escola cercada por PMs e o Choque deve pensar: ‘que país é esse que cerca uma escola contra alunos, contra pessoas que não são criminosas?’ Eles sempre ouviram ‘vão pra escola!’ Agora, estão ouvindo ‘saíam da escola que a polícia vai entrar’. Isso é uma vergonha! Uma vergonha pro país. Uma vergonha pra qualquer educador. Quem devia estar negociando com eles não é a polícia!”

Saí da porta da Fernão ao redor das 21:00. E, ainda na estação do metrô, recebi mensagem de uma amiga que também estava lá contando que a liminar de reintegração tinha sido suspensa e que os estudantes estavam em festa. Fui pra casa um pouco mais aliviada, acreditando que, ao menos naquela noite, as coisas ficariam relativamente tranquilas. No caminho, comecei a pensar mais intensamente nas outras escolas. Naquelas que, ao contrário da Fernão, estão longe das zonas mais nobres.

A EE Fernão Dias se localiza próxima de uma estação de metrô, num bairro de classe média alta de São Paulo. Além de ter sido uma das primeiras a ser ocupada, não se pode negar que sua localização contribui para que seus alunos chamem mais atenção da mídia e causem tanta comoção. Além disso, qualquer atitude mais truculenta contra adolescentes desarmados, muitos deles brancos e de classe média, poderia gerar uma profusão de imagens que, certamente, iria circular bastante. O desgaste que isso poderia causar ao próprio governo, mesmo um tão blindado como o de Alckmin, cobraria um preço, presumo.

Mas, e as outras escolas? As da periferia? Aquelas que, longe dos holofotes e de parte do apoio presencial popular (e nisso me incluo), estão muito mais vulneráveis à violência do estado? O que aconteceria com elas? Obviamente, o que aconteceu.

PMs invadindo a escola José Lins Rego. Publicada originalmente na página "Não fechem minha escola"

PMs invadindo a escola José Lins Rego. Publicada originalmente na página “Não fechem minha escola”

Segundo relatos das páginas que estão acompanhando as ocupações, na EE Ana Rosa, no Butantã (zona Oeste), com a justificativa de verificar a integridade do espaço físico, a polícia entrou junto com a diretoria. Sem violência, felizmente. Entraram e saíram, e os alunos permaneceram.

Foi numa escola do Jardim Ângela, na zona sul, que o meu temor se confirmou. De acordo as mesmas páginas, no domingo (15), a PM invadiu e tentou retirar à força estudantes e apoiadores da ocupação da escola estadual José Lins Rego. Como tem sido lugar comum na gestão de Alckmin, educadores foram brutalmente agredidos. Um professor foi espancado e está com o rosto coberto de hematomas. Em vídeo, uma professora conta aos Jornalistas Livres como foi agredida por PMs.

“Eles abriram minha boca e jogaram spray de pimenta dentro da minha boca.”

O potente é que, mesmo com tudo isso, a escola continua ocupada

Os estudantes resistem e temos notícias de que estão precisando de alimentos de fácil consumo, lanches, água, etc. Entendo que para aqueles que moram em outras regiões da cidade não seja tão fácil se dirigir a essas escolas. Mas, quem puder apoiar, estar lá, levar mantimentos, levar sua presença, acho imprescindível. E que compartilhemos conteúdos, que as visibilizemos. Recomendo as páginas O mal educado e Não fechem minha escola, no Facebook, e o perfil @Ocupaescola, no twitter, que também tem uma hashtag.

Penso que uma unidade de ensino capitalizando tanta visibilidade e amplificando o protesto e os desmandos do governo do estado, como a Fernão pode fazer, é muito importante pra todo o processo de ocupação. Mas, que não deixemos de olhar, de proteger e de apoiar aquelas mais distantes do centro expandido. Que as lideranças e associações de defesa dos direitos humanos também estejam lá. Que a mídia mainstream e alternativa também cubram o que acontece lá. Que nós estejamos lá.

Que a truculência do estado não alcance mais ainda esses adolescentes enquanto a sociedade cochila.

Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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A redação do ENEM e a neutralidade ‘nkali’

Um vídeo que sempre me inspira é o da apresentação para o TEDx da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, sobre múltiplas histórias. Ali, pelo minuto 9′:42″, ela diz o seguinte:

“É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo. E a palavra é Nkali. É um substantivo que livremente traduzido é ‘ser maior do que o outro’. Como nossos mundos econômicos e políticos, historias também são definidas pelo principio do nkali. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa.”

E aí, fiquei pensando na grita relacionada ao tema proposto na redação do ENEM deste ano – sobre as razões da persistência da violência contra mulher – e o questionamento se essa revisão não acabaria calcada num viés ideológico. Realmente, fiquei mesmo intrigada sobre a cobrança dessa suposta ~ neutralidade ~ na correção. De que neutralidade estamos falando, afinal? Da neutralidade hegemônica, à qual estamos submetidos, inclusive e especialmente, na educação e nos processos de aprendizagem formal de história, geografia, língua etc.? Em que lugar de fala esta neutralidade mora?

Não imagino como essa redação poderia ser escrita sem pautar-se em alguma perspectiva ideológica, uma vez que desde o seu cabeçalho já se anunciava que textos que ferissem os direitos humanos não seriam considerados. O que nos ensinam nos livros didáticos passa pelo apagamento da mulher na história; a maneira como aprendemos sobre a nossa colonização; sobre o tráfico de pessoas escravizadas; sobre os indígenas; até a língua… tudo isso não está submetido a um viés ideológico? Não são as pessoas que narram os eventos? E quem detem o poder não tem a primazia na narrativa?

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Ora, nós também queremos ser ouvidas!

A narrativa tradicional de nossa sociedade é normatizada pelo viés patriarcal, branco, cisgênero e heternormativo, no qual o espaço para a participação mais efetiva de minorias, e nesse grupo nos encontramos, ainda é limitado. Neste sentido, a prova do ENEM tem minimamente o mérito de obrigar os estudantes a pensarem sobre o tema da violência contra a mulher. Sem duvida que virão muitas respostas fora do contexto ou até ofensivas. Mas o fato é que pela primeira vez um conjunto tão grande de estudantes teve de se debruçar sobre um tema que não tem sido objeto profundo de discussões em sala de aula e, provavelmente, em suas casas.

Para reagir a redação, muitas pessoas, homens em sua maioria, passaram a compartilhar um meme que traz dados mostrando que eles são as maiores vitimas de violência, relativizando, assim, aquela vivida pelas mulheres e tentando retirar a importância dessa reflexão. O subtexto é que as mulheres deveriam até meio que estar felizes por não sofrerem na mesma medida que os homens. A desonestidade intelectual deste argumento salta aos olhos na medida em que geralmente a violência contra a mulher atende a um machismo tão profundamente arraigado na sociedade, que nos impede de ver o óbvio.

Não podemos perder de vista que as mulheres fazem parte de uma minoria que sofre violência e opressão justamente por serem mulheres. Ainda que encontremos depoimentos de assédio e estupro de homens, são as mulheres as maiores vítimas desse tipo de violência, por exemplo.

Será interessante ver os resultados de correção da redação. Especialmente para entender a visão das mulheres em comparação com a perspectiva masculina sobre o tema. Possivelmente, veremos muitos relatos pessoais, seja sobre violência sofrida pelas próprias estudantes seja por familiares. De certa forma, a redação da ENEM pode transformar-se num grande estudo sobre a percepção dos jovens, maioria esmagadora no exame, em um assunto tão urgente. Só isso já justificaria o tema da redação.

Depois dessa redação e do incômodo (pra dizer o mínimo) causado pela questão sobre a filósofa feminista Simone de Beauvoir e algumas outras perguntas que nos entusiasmaram bastante, para os próximos anos esperamos temas igualmente fundamentais, como o genocídio da juventude negra ou das comunidades originais (indígenas, quilombolas), por exemplo.

A cultura do ranking escolar, cada vez mais questionada, pode pelo menos prestar este serviço à sociedade. Afinal, mesmo o ENEM, com todas as suas críticas e idiossincrasias, também é um espaço de disputa. Quem sabe, assim, vamos ampliando mais ainda nosso repertório de múltiplas histórias, em todos os cantos onde isso seja possível.

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Os idiotas e as famílias

VLUU L100, M100  / Samsung L100, M100

Ontem, ontem mesmo, ontem… século vinte e um , um grupelho de deputados resolveu por bem aprovar um parecer, numa comissão especial, favorável a um tal “Estatuto da Família”. Em breve resumo, a ideia dos parlamentares é estabelecer um regime jurídico de proteção à família, entendida como a união do homem e mulher: papai, mamãe e filhinhos.

Até os paralelepípedos mais imberbes sabem que esta ideia é estúpida, reluz ignorância e preconceito. Porque absolutamente irrelevante no campo prático, vai criar uma série de entraves, empecilhos, dificuldades, bazófias, discussões inúteis e cocô a esmo. É daquela ideias de jerico fundamental, porque afastada completamente do dia a dia das pessoas comuns. Todos sabem que família é a união de neurônios em busca da sobrevivência comum, de garantir o dia a dia, o prato, a cama, o banho, o remédio. Pode ser pai e mãe, pode ser vó e neto, pode ser um solitário e um cachorro, um gato, um sapato. Pode ser irmão e irmão, irmã e primo, pode ser uma confraria hippie, um bando de estudantes em uma república, um divorciado e seu filho, uma divorciada e seu enteado, uma mãe e outra mãe, um time de futebol. A ideia de “família” como algo sacro, como um fundamento estanque, como um princípio em si mesmo, é de uma tosquice vulgar e obsoleta.

Sim, até acho mesmo mesmíssimo que tem gente que quer uma família no conceito tradicional e tal e lousa, mariposa e é bonito. Em comercial de margarina arranca lágrimas. Mas é o calor da vida que ensina que as cousas não são assim operação matemática simples, de soma ou subtração. Tem vida, tem morte, tem afeto, tem amor, tem rusgas, tem andor, tem sabor, tem falta de grana, tem fila de posto de saúde, tem seguro fiança, tem pão na padaria e tem sexo, muito sexo para além do ato divino da criação – e, neste ponto, ainda bem… já pensou se no mundo fosse a cada enxadada uma minhoca? A população global seria na faixa dos quinquilhões.

Não se trata, portanto, da defesa de um modelo que deus criou de sociedade. E também não é a denúncia desta blasfêmia legislativa somente uma bandeira de uma causa arco-íris. Este absurdo legislativo afetará a vida das pessoas comuns, em todos os cantos, de uma maneira completamente idiota,  e para nada. Porque as pessoas vão continuar a se agrupar para viver  – ou viverem sozinhos – e estes agrupamentos são famílias, mesmo de uma só pessoa.

Aos que acham que a ideia é boa e é a defesa do modelo de deus, seja lá o que isso for, indico a notável experiência de precisar de algum documento formal para ter acesso a um direito ou benefício. Da vó que cria o neto e tem que colocar ele como dependente no plano de saúde. Da viúva que tem como herdeiro o enteado. Das irmãs solteiras na hora do benefício previdenciário. Na partilha de bens daqueles dois homens que moram juntos no apartamento do sexto andar.

Mais uma grande cagada deste fundamentalismo hostil, que confunde alhos com bugalhos, que acham mais importante fiscalizar buracos do que legislar para o bem comum. Idiotas repletos, o que são.

Que Horas Ela Volta? Resenha

 Por Haline Santiago, Biscate Convidada

É a pergunta que aparece logo no início do filme, apresentando a personagem principal e já apontando que se trata também de um filme sobre mulheres-mães.

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Val, interpretada brilhantemente pela Regina Casé, é uma empregada doméstica do tipo “faz tudo” que mora com os patrões e sua vida é modificada com a chegada da filha Jéssica (Camila Márdila) em SP pra prestar vestibular. Val é uma personagem incrível, é divertida, afetiva, cativante. Val escuta a conversa dos patrões atrás da porta da cozinha. A cachorra da casa só anda atrás da Val. Val dedicou sua vida a cuidar da casa e do filho dos patrões, Fabinho (Michel Joelsas), pra poder sustentar sua filha que teve que deixar em Pernambuco. É muito presente no filme essa “terceirização” da maternidade: Val cuidou de Fabinho, enquanto a mãe dele (Karina Teles, ótima no papel) cuidou da carreira, enquanto a Jéssica foi cuidada por outra mulher lá em Pernambuco. Tanto a mãe da Jéssica como a mãe do Fabinho têm dificuldade em se comunicar e se conectar afetivamente com seus filhos biológicos. É um drama feminino que coloca em debate o próprio sistema que impõe escolhas complicadas para as mulheres que são mães, entre elas a de “cuidar da carreira ou se dedicar aos filhos?”. E, principalmente, é um drama social que evidencia a imposição, sobre mães pobres, de deixar seus filhos pra cuidar do filho dos outros. A diretora Anna Muylaert definiu como “um filme que trata da arquitetura dos afetos e simboliza os estratos sociais na sociedade brasileira”.

A minha primeira experiência coletiva (cinema) foi incrível porque as pessoas se emocionaram e bateram palmas para cenas em que a Val comete pequenas subversões, vamos chamar assim. A diretora conseguiu criar uma personagem tão legal e tão bem estruturada que mesmo quem não reflete sobre o filme sai amando ao menos a Val e identificando memória afetiva de suas próprias empregadas. Na outra sessão que assisti (sim, eu já vi DUAS vezes), uma pessoa saiu comentando como a Val era fofa e como ela queria encontrar uma (empregada) assim pra vida dela, já que hoje em dia tá difícil encontrar uma “boa”. Muita gente tem mesmo se lamentado que não existem mais empregadas como antigamente, não existem mais Vals (quem dera, infelizmente sabemos que essa situação ainda é mantida em vários níveis e relações pelo Brasil afora). Vivemos uma realidade em que as relações de opressão e exploração via serviço doméstico são tão naturalizadas no Brasil que a classe média encara como um direito “ter uma empregada”. Mesmo a militância de esquerda não problematiza com a frequência e a profundidade necessárias este tipo específico de vínculo empregatício e suas ramificações práticas e simbólicas.

E o filme segue mostrando um encontro de mundos diferentes, que oferece perspectivas diferentes através das personagens Val e Jéssica.

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Jessica é uma garota segura e sabe do seu potencial: foi estimulada por bons professores e vive no que podemos chamar de um “Brasil novo” onde é possível uma filha de empregada doméstica sonhar com o vestibular de arquitetura. Ela não consegue entender a relação de subserviência da mãe com os patrões. Essa cultura escravocrata que permeia as relações de trabalho no Brasil é tão naturalizada que as pessoas acreditam que existe um lugar que não é o delas, a que elas não podem chegar. Tem um diálogo (não é spoiler porque aparece no trailer) em que Jessica questiona a mãe sobre onde ela aprendeu tantas regras, que manual ela leu antes de trabalhar naquela casa e a Val responde que “a gente nasce sabendo o que pode e o que não pode”. Só que para Jessica não existe essa limitação, ela quer fazer arquitetura. Tudo pode. E dessa forma ela causa bastante desconforto, tanto com a mãe quanto com os donos da casa.

Regina Casé e Camila Mardila merecem todos os prêmios possíveis como atrizes. São atuações impecáveis e sensíveis que se completam. Os atores estão todos ótimos, no tom certo, na medida certa. A trilha sonora é muito bonita e encaixa perfeitamente nas cenas mais emocionantes do filme.

Que horas ela volta? podia ser mais um filme sobre desigualdade social mostrando todas as situações abusivas entre a classe média alta e as pessoas mais pobres, já seria um grande filme, com um importante recorte. Mas ele é genial porque mostra de forma sutil a relação entre patrão e empregada, o afeto da babá pelo filho dos patrões, os limites da casa com aquela pessoa que é “quase da família”. São muitas as cenas em que é esperada uma determinada situação e o que acontece é mais inusitado, evitando o clichê de patrões agressivos, mulheres histéricas ou filho mimado. Nada disso acontece. No filme da Muylaert, as pessoas não precisam ser agressivas ou abusivas porque a própria situação patrão-empregada já é abusiva. É a própria relação que está em debate, que deve ser problematizada, independente da atitude de cada personagem. Como disse ela na coletiva de imprensa em Berlim “Os negros se identificam, os latinos se identificam, todos se identificam. Essas relações de poder se reproduzem em todos os lugares”.

Leia tambémEu fui a filha da doméstica que entrou na Universidade

canção para minha mãe

quase da família

Que horas ela volta? e os sonhos de minha mãe para mim

e tem a página do filme no Facebook “Que horas ela volta?” não chegou na sua cidade? vamos até lá apoiar e fazer pressão para os exibidores apresentarem o filme em mais salas!

meHaline Santiago é ex nadadora, ex analista de sistemas, ex praticante de bodyboarding, ex de alguéns. Se define como queer as a funk, mesmo isso sendo uma banda. Atualmente é jornalista e editora da Revista Wireshoes https://wireshoes.wordpress.com/.

 

 

Insone, com a mão no bolso

Por Ana Paula Medeiros*, Biscate Convidada

São três horas da manhã, você me liga
Pra falar coisas que só a gente entende
Pode ser de São Paulo a Nova York
Ou tão lindo flutuando em nosso Rio
Ou tão longe mambeando o mar Caribe
A nossa onde de amor não há quem corte
Oh, meu amor!

Mentira, são quatro horas e eu nem sei por que essa musiquinha idiota veio à minha cabeça. Não acordei com você me ligando e sim com sonhos inquietantes. Não, nada sexy e molhado, quem dera. Só angústia mesmo. A boca seca. Um peso ruim esmagando o peito. Vou fazer xixi, beber água, voltar para a cama, que às seis e meia toca o despertador para o trabalho.

Tic…Tic…Tic…

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Estava tão friozinho e gostoso dormir aí com você. Minha bunda encostada no seu pau, minhas costas no seu peito quente, suas mãos nos meus seios, descuidadas, as pernas pelo meio umas das outras. A bagunça que eu faço nos lençóis, rsrsrs…

O oxi ganhou na Grécia. Li antes de deitar que os líderes europeus já estão se coçando todos. A Merkel e o Hollande já disseram que “o resultado tem que ser respeitado”, outra forma de dizer que não vão respeitar porra nenhuma. Esse arroubo grego podia bem se alastrar pela Baixa Europa e levar de roldão Portugal e Espanha assim, só pra começar. Muito sonho, eu sei. Se pelo menos isso forçar uma negociação melhor com o FMI, em termos menos horrorosos para a população, talvez já seja bom. Não adianta de nada fazer bravata com o cu alheio e não é o nosso que está na reta, né?

Hahahaha, como não, o nosso tá MUITO na reta. Em várias retas. Eu ando tão preocupada. Com tudo. As incertezas políticas, o esgoto fétido do Congresso, os retrocessos na conquista de direitos, as lutas fratricidas cada vez mais acirradas entre grupos que supostamente deveriam estar do mesmo lado. Aí me agarro em pequenas luzes e carinhos e festas. Achei tão lindo o mar de arco-íris, quase toda a minha timeline no feicebuque ficou colorida. Mas acabei não colocando agora o filtro pelo orgulho trans. Devia. Militar em todas as frentes cansa, de vez em quando. Mas essa seletividade me desperta umas culpas. Eu tive uma aluna trans muitos anos atrás. Não lembro o nome dela. Lembro que na pauta estava o nome do documento e eu achava isso estranho. Como tinha pedido para os alunos se apresentarem na primeira aula, saquei logo, pus o nome dela a lápis do lado do nome que estava na pauta e resolvi esse problema. Para mim, era uma aluna. Uma moça. Como todas as outras da sala. Acho tão violento agir de outra forma. Ame-o e deixe-o ser o que ele é.

Eu tenho que levantar praticamente daqui a pouco, devia conseguir dormir.

Tenho que lembrar de pagar o aluguel amanhã. E colocar a roupa na máquina. Depois que eu dispensei a faxineira, as coisas estão meio acumuladas. Ah, passar no mercado também. Não tem uma mísera banana nessa casa, eu fico comendo bobagem. Queria perder uns cinco quilos. Pelo menos.

Mas tem a tese. Eu estou avançando tão lentamente nisso. A um custo enorme. Isso também está me angustiando. É como se eu estivesse muito perto, falta vencer uma pequena parede. Mas ela é de rocha dura e cheia de pontas, eu só tenho as mãos nuas para escavar, raspando pó de pedra com as unhas, sangrando os dedos, ficando exausta com quase nenhum progresso.

Olhos fechados pra te encontrar
Não estou a seu lado, mas posso sonhar…

Tantas contradições pra resolver, entender. Internas. Meus discursos, minhas práticas, os sentimentos, os padrões de comportamento tão arraigados. Que voltam, que empurram, que emperram. Por que é que às vezes é tão difícil viver, respirar, amar?

Um bocejo. Cara, que sono. Eu já estou embaralhando tudo, começo a pensar uma frase que não termina. É boa essa sensação de afundamento, de desligar as conexões aos poucos. Deixei a janela da área aberta. Será que esse barulho é de chuva? Hmmm… tá tão quentinho aqui.

Pííííí pí pí pí… Pííííííí

Maldito despertador.

*AAnaPaulaPBiscatena Paula Medeiros é mais amante do que esportista, mais flamenguista do que arquiteta, mais feminista do que parece, mais inquieta do que seria sensato. Se deixa doer quando dói a saudade, se deixa chorar quando as lágrimas pedem para sair, ri de si e do mundo e do estado das coisas no mais das vezes. Perguntada tarde da noite, quem sabe depois de muitas cervejas, ela ousaria dizer que talvez seja feliz.

Uma palavrinha, cara ditadora

Por Deborah Sá*, Biscate Convidada

Cara ditadora que mora em mim,

Sei que tentei fazer vista grossa para suas exigências por muitos anos, talvez décadas, é, mais provavelmente décadas. Agradeço de antemão o cuidado extremo que sempre tem tido em projetar expectativas tão altas somente em si mesma. Quer dizer, você sabe que é injusta consigo mesma, às vezes pesa a mão demais, mas é a medida de segurança que você aprendeu, não jogar a dor que já jogaram em você em quem está do lado, poupar os outros, só que nem sempre me poupa dessa energia desgastante. Você é perita em implosão. Então, respeitando a sua autoridade (porque sei que é você que põe certas coisas nos eixos, bloqueia eu ir muito fundo em certas memórias, etc), é preciso respirar mais um pouquinho. Isso mesmo, a dura crítica a “procrastinação de pessoa preguiçosa, uau, por isso não vai pra frente”, na boa, não precisa ser tão severa. Sei que é por causa de você que os prazos (geralmente) estão prontos bem antes do previsto, com sua revisão em cores vermelhas e berrantes de “Opa, advinha quem mandou o anexo e esqueceu de arrumar aquele apud, hehehe”, “Não acredito que você ainda está errando isso”. Você usa palavras realmente horríveis como motivação, quer dizer, como culpabilização, como se realmente o universo fosse entrar em colapso porque não se pode controlar tudo o tempo todo. Você faz meu processo de aprendizagem sempre viciante mas um tanto dolorido, quer dizer, posso ter o caminho mais fácil, ou posso ir para o caminho novo, pouco explorado e um caminhão de termos difíceis e desafiadores. É claro que eu pulo no escuro um tanto de vezes. Mas esse pulo no escuro pode significar levantar da cama e chegar no encontro em tempo, sem auto-sabotagens, você tem que parar de me aterrorizar tanto. Cara ditadora, são três horas da manhã e já escrevi dezessete páginas hoje, dezessete, ontem, vou parar sim senhora, que esse braço não é feito de pedra. E vou celebrar com comidinhas e dancinhas e amorzinhos, eu sei que você só me deixa descansar se eu tenho a sensação de ter dado o máximo antes. Porque, você, Ditadora interior, parece uma propaganda tucana: “Trabalho, compromisso, responsabilidade”. Porém, também tem seus momentos de glória.

Por exemplo, aquele seu lado mais divertido e soltinho, arisco, sarcástico, desbocado, eu acho que é parte sua esse carão que eu adoro, uma certa petulância com gente desrespeitosa, essa vontade de querer o mundo no talo. E os desejos praticamente megalomaníacos, espontâneos? Eu adoro. E por não suportar a tirania de ninguém (nem de  si), vive reinventando as próprias regras e burlando as tuas leis. Talvez, você seja parte de uma força motriz que sempre me guiou, em todos os lugares, mas agora, estou respeitando e considerando sua devida importância, sem contar, gozando (em todos os sentidos) de sua vibrante companhia. Fica que a gente se ajeita, fica, que a gente reveza, fica que a gente se prosa.

11351327_1457045754607564_5642394097373800822_n* Deborah Sá é uma biscate delicinha que só sabe querer de tudo, com todas as coberturas, com todas as sensações e com todos os sabores.

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