Dora

Dora [Doralice], aos 92 moradora da cidade de Bananal/SP. Professora aposentada e ainda mantém seus escritos do seu cotidiano.

Dora [Doralice], aos 92 moradora da cidade de Bananal/SP. Professora aposentada e ainda mantém seus escritos do seu cotidiano.

Leia abaixo o poema que escreveu em 2011

Um rio que fala

 Ele vem de mansinho, não se sabe de onde, nem para onde vai.

Quando o sol nasce, é brilhante, parecendo mil estrelinhas douradas piscando, piscando, distribuindo calor e alegria.

Vai indo talvez com receio de perturbar o silêncio da mata que quase sempre está ao seu lado.

Bendito seja Deus que nos concedeu a graça de poder admirar essa natureza tão bela!

Os passarinhos cantam ao seu lado no decorrer do caminhar lento e sereno, muito suave mesmo.

E à noite?

Então tudo se transforma e ele fala, canta, grita, talvez pelo negror do mundo.

Crianças sorrindo ou chorando vão se banhar, ali jovens sedentos de amor suspiram, desesperados animais urram.

E nós, em nossos sonhos, somos perturbados: Meus Deus, esse rio é louco, louco de correr só sem saber onde vai , louco de nunca parar.

Parece que o arco-íris se escondeu dentro dele para ir colorindo-o para o mundo ver quando acordar.

E de manhã ele se cala.

O seu segredo é à noite.

E lá vai ele correndo, correndo…

Nossa vida também é como o rio, tudo passa… alegrias, tristezas e fica a doce felicidade de viver.

Dora, em setembro/2011

Dora

rio Bracuí [ nasce na cidade de Bananal]- O nome vem do tupi-guarani ybyrá-ku’i “farinha de pau”, “serragem”.

 

Dora

rio Bracuí [ nasce na cidade de Bananal]- O nome vem do tupi-guarani ybyrá-ku’i “farinha de pau”, “serragem”.

Dora

 

 

 

Mãe, Feminista, Biscate, Perguntadeira, Operárix em Construção

Eu sou mãe já faz 16 anos. Digo-me feminista há, sei lá, 03 anos, acho. Uma coisa e outra não se determinaram e só chegaram a se cruzar bem depois. Várias pessoas narram que se sentiram e se engajaram feministas com a maternidade. Eu tenho minhas suspeitas do porquê isso não ter acontecido comigo e as suspeitas passam pelo Almir (pai do Samuel e marido, na época) e pelo meu entorno mais próximo, nomeadamente minha família nuclear original. Quando eu fiquei grávida e depois do Samuel ter nascido eu nunca ouvi das pessoas próximas: “não pode (ou não deve) fazer isso porque é mulher / porque vai ser mãe/ porque é mãe”. O Almir sempre cozinhou e lavou as roupas do Samuel e dividimos a arrumação da casa. Samuel sempre teve sono tranquilo, mas se eventualmente acordou, doente por exemplo, Almir levantava tal como eu, ia ao médico, aos exames, além disso foi a todas as reuniões da escola, alimentou o Samuel, colocou pra dormir. Nenhuma tarefa de cuidado tinha gênero, a não ser a amamentação e, mesmo essa, ele estava por perto, acariciando o Samuel ou me mimando. Na época eu estava terminando a faculdade e ia pras aulas e o Almir levava o Samuel pra mamar nos intervalos. E quando eu voltei aos estágios e, depois, ao trabalho, o Samuel ficava com o pai ou com minha mãe, ou com minha irmã ou com meu irmão. Cuidado também não teve gênero. Quando o Samuel tinha um ano, passei a viajar a trabalho e isso nunca foi uma questão. Agora, o Samuel mora com o pai desde o começo de 2012. Daí que questões centrais que se colocam pras mães normalmente como sobrecarga de obrigações, dificuldade de se recolocar no mercado de trabalho, creches, rompimento precoce (em relação ao desejo da própria pessoa e não em função de uma norma) da amamentação e coisas assim passaram em branco por mim.

Fui me nomear feminista em 2010 porque nessa época eu conheci várias blogueiras que assim se indicavam e com as quais eu passei a interagir. E aí a Rita me disse: “tu é feminista, isso aí que tu pensa sobre igualdade e direitos é feminismo” e como ela costuma estar certa, eu acreditei. Eu comecei a ler (os blogs, gente, não as teorias nem nada assim, porque, curiosamente, de lá pra cá minha vida foi tendo outras demandas que eu priorizei como fazer o doutorado e tal) e gostei das ideias, comecei a me identificar com as demandas, percebi que muito do que eu pensava e desejava para mim, pras pessoas ao meu redor, para o mundo de maneira geral tava ali, compartilhado por aquelas pessoas. E fui ficando, na lista das Blogueiras Feministas, publicando eventualmente no blog, participando das blogagens coletivas e, principalmente, aprendendo e trocando com essas pessoas, quase sempre mulheres.

maternidade_picasso

Nenhuma das duas coisas, “ser mãe” ou “ser feminista” me definem ou me explicam. Ser mãe é um nome que a cultura deu pra minha relação com o Samuel. O que me define é passar as noites em claro fazendo cafuné quando ele está doente, é cheirar o cabelo dele e fechar os olhos de felicidade, é alimentá-lo, conversar com ele, banhar, levar ao zoológico, é ter cuidado e continuar cuidando dele, me alegrando com ele, interagindo, aprendendo com ele. Não acho que meu amor ou meu vínculo com ele seja de natureza diferente do que o Almir ou minha mãe, pra ficar nas pessoas mais envolvidas no cuidado, tem com ele. Acho que é diferente porque eu sou uma pessoa diversa do Almir e da minha mãe, e só. Por isso a adjetivação, boa ou má, para mãe, não me importa. Se existe mesmo essa tal sabedoria intrínseca ao ato de ser mãe e que a pessoa só “sabe” algumas coisas depois que pare ou adota, o correio perdeu o manual e nunca chegou lá em casa. Eu continuo no sem saber e na construção diária das relações, inclusive com meu filho.

Ser feminista também não é um título que eu reivindique com empenho. Sou por afinidade de ideias, por identificação com gente que eu amo e/ou admiro, por considerar relevante politicamente engrossar fileira. Mas minha carteirinha eu nem mandei plastificar. Grande parte das coisas que penso hoje e que coadunam com o feminismo eu já pensava ou, antes, sentia, mesmo quando não tinha as palavras certas pra descrever. Então as coisas que faço que me identificam feminista: partilhar textos que eu considero relevantes , instrutivos ou esclarecedores, participar de manifestações a favor da legalização do aborto, militar pelos direitos das mulheres nos espaços e situações que se apresentam, escrever posts sobre temas que me comovem ou impactam, manter um blog chamado Biscate Social Club, tudo isso eu continuaria fazendo sem precisar me dizer – e, especialmente sem precisar que me digam – feminista.

Esse preâmbulo – sim, sorry, isso foi só o preâmbulo – foi pra contextualizar porque, talvez, eu não entenda bem porque as pessoas se sentem pessoalmente atacadas ou agredidas quando se questiona qualquer um desses elementos que se ligam a essas identificações/identidades.

homem feminista

Mãe, pai, amigo, avô, cuidador, sem diferença.

Eu não me sinto pessoalmente contestada se alguém questiona a maternidade, a função social, o porque do foco no cuidado ser impingido às mulheres. Não me sinto nem um pouco constrangida de pensar se realmente a mãe é mesmo essencial às crianças, nessa relação dual que a sociedade em que me vejo inserida indica e cobra. Especialmente não tenho intenção de engrossar coro de nada que solicite que esse papel de cuidado se foque preferencialmente na mulher identificada como mãe.

Também não me sinto pessoalmente chateada quando questionam ou simplesmente indagam as premissas que dão suporte ou validade à minha atividade feminista. Daí, por exemplo, todo recorte que traz as questões das mulheres negras, trans, pobres, indígenas, do meio rural, etc. que estavam ou não presentes em certas demandas do meu discurso, eu reflito e incorporo sem me sentir ruim como pessoa ou algo assim.

Eu penso o mundo dialeticamente, as relações sociais dialeticamente, as construções da identidade dialeticamente. Assim, é justamente no cerne das contradições que eu identifico a possibilidade de mudança e transformação. Por exemplo: eu acho que o papel de mãe é um lugar simbólico e culturalmente construído para as mulheres de uma forma que restringe sua autonomia e plasticidade humana. Se eu encontrar na rua uma bandeira assim: Orgulho de ser mãe, eu e a maior parte das pessoas vamos relacionar ao termo um lugar de cuidado absoluto, dedicação, entrega e apagamento de si ante as demandas dos filhos e do lar. E não vamos identificar isso porque necessariamente acreditamos que isso é o que uma mulher DEVE fazer ao ser mãe, mas porque é assim que a sociedade qualifica esse lugar. Acontece que quem ocupa esse papel são pessoas concretas, reais, que podem ou não buscar ajustar-se a ele. Acredito assim: a maneira de viver o papel qualifica esse papel e pode reconstruí-lo ou reforçá-lo. As que não buscam o ajustamento criam contradição, suas novas demandas, sua forma de vivenciar e encarnar o lugar acabam por dar novas matizes a ele. É aí, no lugar de contradição, que as mudanças operam. Isso pode ser experenciado de forma reflexiva ou não. Tem gente que passa a vida em contradição com dado papel, reconstruindo e remodelando-o sem nomear isso. E tem gente que nomeia, fala disso e, em tempos de internet, escreve posts. Alguns deles, feministas. Outros, não. Como não tenho régua pra medir esse tipo de coisa, não acho que haja alguns melhores que os outros. Acho que há alguns com os quais me identifico mais. Confessadamente: os que questionam a divisão social do trabalho no viés de gênero, os que indagam sobre a socialização, os que se perguntam sobre a essencialização da mulher e/ou da mãe, os que se interrogam sobre a naturalização dos processos sociais. E, muito especialmente, tenho maior afinidade com as escritas (e pessoas) que não tem respostas certas e que não fogem, negam ou escamoteiam contradições.

 Então, é isso: eu sou mãe, eu sou feminista. Nem tudo que penso e faço na maternidade é feminista. Nem tudo que penso e faço no feminismo se vincula às questões da minha relação com a maternidade. Nem tudo que não é feminista é machista, lembrando, porque não são concepções espelhadas da realidade. Não acho que maternidade e feminismo são incompatíveis. Não acho que maternidade e feminismo são causais. Acho que o feminismo coloca questões de contradição à maternidade. Acho que o feminismo questiona não só a obrigação de ser mãe, mas especialmente a forma de vivenciar a maternidade. E acho que no dia em que mãe for o mesmo que pai, tio, vizinho nos cuidados com as crianças, estaremos em uma sociedade melhor, pras mulheres e pras crianças, sejam de que gênero forem.

Guia Biscate Para Homens (módulo 01): Como Andar na Rua

Aqui, no nosso clube, diariamente re-afirmamos que a vida vem sem bula. Que o como viver é sem receita, modelo ou prescrição. Sem guia. O como é a medida da individualidade. Mas também re-afirmamos que o como não é um dado natural, estático, imutável, mas um processo a ser construído, diariamente, em interação. O como vai se fazendo na medida em que somos capazes de assumir e nos responsabilizarmos por nossas escolhas e, assim, nos aproximarmos de sermos capazes reconhecer e respeitar o direito do outro escolher e se responsabilizar por suas escolhas. Neste movimento, acreditamos, nos tornamos um tantinho mais livres de avaliações e julgamentos das nossas escolhas e das escolhas alheias. É por isso que, aos domingos, aqui brincamos de contradição. Porque se há pouca coisa menos biscate que modelos, fôrmas, padrões, é muito biscate subverter as receitas e torná-las caminhos pra um viver assim, menos dolorido.

Propomos, então, um guia de convivência bem biscate. Começamos com esse ótimo texto do Everson, mas estamos abertas (ui!) pra sugestões e textinhos de vocês. Quem gostaria de escrever, por exemplo, “como chegar junto em baladas sem ser um babaca” ou “elogiando sem agredir”? Por agora, leiam e aprendam, #ficadica.

Guia Biscate Para Homens: Como Andar na Rua, por Everson Fernandes*

Eu tenho lido bastante blogs, feministas principalmente,  e conversado bastante com as feministas e uma das coisas importantes que eu aprendi se chama ter empatia. Com isso em mente, somando-se aos vários relatos de violências cotidianas pelas quais as mulheres passam, adotei uma tática simples para tentar minimizar situações de tensões em determinados momentos. Conversei com algumas amigas para saber se essa tática ajudava em algo e a maioria delas respondeu que sim. Então resolvi repassar para outros homens.

Quando você, homem, estiver numa rua – principalmente quando for uma rua com pouca movimentação e à noite – e houver alguma mulher por perto, você pode “ajudar” com alguns passos simples:

1 – caso não seja possível não caminhar atrás dela (evite sempre, pois ela não está vendo você, mas nota sua presença poderá se sentir ameaçada) mantenha a distância, reduzindo a velocidade dos passos, se for preciso;

2 – se estiver atrás dela e estiver com pressa, atravesse a rua para ultrapassá-la, sempre mantendo distância;

3 – caminhe do outro lado da rua, quando possível;

4 – se já estiver caminhando na frente dela, mantenha a distância, acelerando o passo, se for preciso; e, se possível, não reduza a velocidade ou atravesse a rua;

5 – nunca, em hipótese alguma, dê cantadas ou assovios ou tente qualquer interação;

6 – caso veja outro homem se aproximando dela de forma que considere agressiva ou suspeita ou mesmo interagindo com ela de modo que a incomode, intervenha. Nem que seja somente de modo a se mostrar presente e vigilante para o possível agressor (consideremos inclusive agressão simbólica), que pode desistir da agressão somente por se perceber observado.

166003_10151609500399732_1888593695_n

Cantada de Rua é assédio, não elogio.

Isso serve, pelo menos, para tentar demonstrar que naquele momento e naquele trajeto, ela não precisa se preocupar (tanto) com você. Porque, veja, você é um desconhecido para ela. E nunca se sabe o que um desconhecido pode fazer.

Que fique claro que essas sugestões não são uma medida de combate ao machismo. Não são essas atitudes que vão dar segurança de fato às mulheres na nossa sociedade. Isso serve APENAS para evitar tensões em determinados momentos. Além do mais, isso não custa nada, não atrapalha em nada, não faz perder tempo, só exige boa vontade.

Ps. 1: agradeço à Ariane Silva que reescreveu o item 1 e acrescentou o item 6, à Lucya Tobleronne por ter revisado e a todas as outras que tiveram paciência de ler e opinar

Ps. 2: esse texto foi publicado depois de mostrado a algumas amigas feministas e ter sido discutido.

Ps. 3: quando se trata da situação da(s) mulher(es), deem ouvidos a elas, conversem com elas, inspirem-se nelas. Elas vêm dizendo tudo isso há muito tempo.

538825_427404223950208_2010822677_n (1)

*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

Vou vadiar, eu vou

“Fui feita pra vadiar, eu vou…”

marcha das vadias sp 2013

A concentração e os preparativos na Praça do Ciclista [Av. Paulista esquina com Rua da Consolação], antes da Marcha das Vadias de São Paulo 2013 em 25 de maio.

marcha das vadias sp 2013

marcha das vadias sp 2013marcha das vadias sp 2013marcha das vadias sp 2013

Mulheres e homens participaram da Marcha das Vadias em São Paulo, percorrendo a Avenida Paulista, Rua Augusta e terminando na Praça Roosevelt – zona central.

marcha das vadias sp 2013

clique nas imagens

marcha das vadias sp 2013marcha das vadias sp 2013marcha das vadias sp 2013marcha das vadias sp 2013

marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013 marcha das vadias sp 2013

“A Marcha das Vadias de São Paulo, assim como a Marchas das Vadias no mundo, marcha para que a sociedade entenda que as mulheres não são responsáveis pela violência que sofrem. A sobrevivente NUNCA é culpada. Culpado é o agressor.”

Ouça também Não Vadeia – Clementina de Jesus.

É tempo de jogo

tempo

E o tempo é de jogo. Jogo: risco. Jogo: brincadeira. Jogo: expectativa e coração batendo.
Jogo: vida. Avesso do tédio. Do pacífico. Do estagnado. Jogo: movimento. Corda bamba. Incerteza. Aposta. Ansiedade.
É o jogo que leva. O jogo que encanta. Que seduz. Que faz brilhar. O jogo embala e dá vontade de ir.
Não amor, o que quer que isso seja. Não necessidade. Não desejo. Jogo.
Meia-luz. Meia-luz é importante: jogo de sombras. Silhuetas. Vislumbres.
Aumenta o risco. Mover-se na penumbra é mais temerário.

O jogo é que leva, o jogo é que move, o jogo é que impulsiona. Enquanto há jogo há risco, enquanto há risco há encantamento.
Giros. Rodopios. Desvios. Desencontros.

E o jogo continua, de lá para cá, de cá para lá. Levezas. Deslizares. Tristezas. Olhando a fumaça no ar se perder. Quem ganhar leva tudo. Ninguém sai.

Tensão. Apostas. Receios. E se doer? E se doer demais?
Não vou mais.
Chega disso.
Tô de altos.
Mas o jogo puxa, o jogo atrai.
Aí, de leve. Só por hoje. Só um pouco. De novo, o jogo.

Vamos amar?

“O seu sorriso é o que eu preciso

para abraçar o mundo e muito mais (…)”.

tumblr_mb2tzaRkwZ1qd7lz5o1_500

amar faz falta…

Final de tarde chuvosa, uma velha e ranzinza sensação de que precisava de ajuda para sair de uma espécie de vazio esquisito. Tinha acordado tarde e fiquei parafraseando Criolo, cantando enquanto lavava a louça do almoço que “não existe amor em João Pessoa”. Pensei cinema. Tarde demais, tinha perdido a hora e então o resto de paciência zen e taurina conquistada com as horas em que brigo feito cachorro e gato comigo mesma para silenciar a ansiedade e que alguns chamam de meditação.

Então computador, claro. Conversas virtuais sobre solidão (ou algo assim) e música. Me mandam um link. Fiquei sorrindo bobamente. Para logo em seguida pensar com o coração entre as pernas. Não, não é bobeira ter a certeza da existência desse tal de amor. Com seus muito nomes.

E não é porque a alma gêmea, a outra metade da laranja ou a tampa da panela vá (como nos prometem livros e comédias românticas) um dia aparecer ou que já tenha aparecido. Não é só porque estou esperando que aconteça comigo algo como o relacionamento “perfeito” de alguns casais amigos que continuo enrubescendo em minha solidão, essa que independe de estado civil.

E nem sei se esperar é a palavra. Mas sei que. Sei por que minha tampa é adaptável ao meu tamanho. E vice. E verso. É do tamanho do mundo e cozinha com temperos outros, tais como amizade, livros, músicas e lembranças, um tempo de felicidade. Em fogo brando.

Sei por que já amei muito, por que amo todos os dias e também por que fui e sou muito, muito amada. Inteira e pela metade. Com beleza e também rancor. Com medo e em paz. Com ternura e morrendo de tesão. Por que sangrei e me machuquei, machuquei outras pessoas, enfiei os pés pelas mãos. Por que já desejei não querer mais sentir as pragas das perdas e de tanto adeus, que devastam o jardim de delicadezas e ilusão do “para sempre”, aquele que eu já observei encantada, com inveja da minha sorte e com meu apetite por intensidade saciado. Também porque continuo insistindo na lista dos impossíveis.

Sei, mesmo que eu nunca mais vá constar nas prioridades do tal do cupido.

Sei principalmente por isso, por que o amor não é só meu. Nem seu. E mesmo assim é. É.

Então… é isso… Façamos, vamos amar…

 

Ai, se eu te pego!

Por Xênia Mello*, Biscate Convidada

Atreva-se, ouse e não deixe de biscatear, deixe o medo pra depois. Não o traga nem pra essa que é inevitável, tão presente e que tantos substantivos, pronomes, adjetivos, servem para nomeá-la. Essa que já causou tanto temor e tanta coisa já foi feita por conta dela, que talvez seja a única inafastável verdade. Pra morte eu canto e danço um tango, né Raul?! Se a morte, que não podemos afastar, tantos temem, me pergunto como é produzido esse temor? Onde é que o medo nasce? Me digam que eu ponho saia curta, bonito decote, meia arrastão e um batom bem vermelho e vou lá encarar, porque eu de biscate até o medo comigo vem flertar.

medo

Hoje temos muitas variadas formas do medo. Um medo que não tem uma cara, nem endereço. Quando criança nos amedrontavam com o famoso Homem do Saco, talvez essa seja uma versão curitibana, mas não duvido que em cada cidade haja uma versão parecida. Pois bem, todo pai e toda mãe sabe que não existe Homem do Saco. Passamos a ter medo de algo que não existe, de algo sem rosto. Sobretudo, passamos a ser controlados por ele. Pais e mães controlando os corpos dos filhos e filhas através do medo. Eu lembro de pequena ter apontado para vários velhinhos pois acreditava ter descoberto O Verdadeiro, pra vergonha dos meus pais em se desculparem pela filha que os acusava injustamente, pra minha tristeza que até hoje não peguei o dito cujo.

Atualmente me parece que os tarados do busão e os voyeurs do banheiro são os Homem do Saco, na nossa versão adulta, gente grande. E ai me pergunto, será que a gente cresceu? Por que reproduzimos um medo infantil que ainda nos controla? Por que ainda procuramos esse dito homem que nunca existiu. Crescemos, mas não amadurecemos nem nos desvencilhamos da cultura do medo, do medo do outro, e também do medo de nós mesmos. Tarados, voyeurs, bandidos, homens do saco, estupradores. Não gosto dessa cultura escapista que cria monstros indeterminados. O tarado do busão é pauta destacada nos jornais versões tribunas, o voyeur do banheiro foi muito procurado na universidade, rolou até um ato, mas não foi encontrado. No busão espaços separados, muitas pessoas deixam de usar o  ônibus pois o carro ‘é mais seguro’. Na universidade controle total de quem entra e quem sai, instalam-se câmeras e até um inspetor na porta do banheiro, pra cagar agora é necessário identificação. O Medo, esse sem rosto, sorri! Pois lucra e controla.

Medo2

A foto do estuprador na capa do jornal, grande, destacada, amedrontadora. Agora o monstro tem um rosto, agora posso descrever O Medo: pobre, negro, ninguém, não tem advogado, não tem dignidade, não tem defesa. Podem os jornalistas expor e explorar a ultima gota do seu sangue, ele é monstro, ele não é humano. Porque enquanto o sensacionalismo lucra com O Medo, o monstro continua sendo a carne mais barata do mercado.  A cultura do medo determina que a todo momento estamos em estado de perigo. Não relaxe, tenha medo, esse é o imperativo! Sim, O Medo, continua controlando nossos corpos, como já fazia desde que eu era criança, ali nos anos oitenta, mas acredito que de muitos séculos prá cá. Essa cultura de criar o outro, o mostro, o desconhecido só favorece que tenhamos receio daquilo que não conhecemos. Quando na realidade o outro poderia ser um convite à ousadia, à biscatagi. Acredito que o perigo está quando o outro me causa medo, quando deveria me causar interesse, curiosidade. Porque ai eu sou controlada, o terror é instaurado, um pouco de mim em vida morre, um pouco do outro eu mato em vida. Eu desumanizo e me desumanizo.

Essa cultura de reforçar O Medo, de criar o outro, o desconhecido, não liberta, não afasta a violência. Sim mulheres são cotidianamente violentadas, abusadas, mortas, agredidas. Denunciar o medo, ou melhor murar o medo não é negar a violência. Em regra a violência contra a mulher é perpetrada pelas pessoas que mais amamos, pais, irmãos, amigos, namorados. Se queremos combater a violência, devemos combater as ameaças reais e urgentes como a cultura do estupro, a vitimização compulsória das mulheresa culpabilização da vítima. Se queremos mudança não podemos reforçar ainda mais essa cultura controladora que nos assola desde a infância. Devemos nos indignar, ocupar a cidade, as ruas, denunciar e não propagar, propagandear O Medo.

E pra não dizer que eu esqueci do poetinha, com carinho a gente canta: Atravesse a vida sem medo!

Eu não quero o medo. Eu só quero saber daqui que me liberta!

.

xênia*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Assenta a polêmica, sobe o chorume

Por Cíntia Morais*, Biscate Convidada

Todo mundo viu a polêmica dos R$ 100,00?

[Pra quem não viu, aqui está]

Pronto, passou polêmica, certo?

Não. Vamos esclarecer algumas coisas: Estávamos discordando e conversando a partir do que tuitou a moça. Em algum momento alguém disse que não ia comentar mais nada porque a opinião automaticamente seria ofensiva. A moça que iniciou a conversa depreendeu que seria chamada de puta – por uma feminista, veja só, como se fosse cabível, mas decerto era o que ela queria ouvir para poder se justificar naquela confusão de suas declarações. E fez um texto em cima dessa ‘falácia’, “dessas feministas que chamam outras mulheres de puta” (esse aqui, ó), construindo toda a argumentação em cima de algo que não aconteceu, ridicularizando uma luta na tentativa de fazê-la parecer incoerente, para justificar a sua própria. Isso só me faz ver como o texto é um grande buraco que nem a autora sustenta. Que bom! Estranho seria se com premissas verdadeiras ele continuasse a fazer sentido. No mais, ninguém ia chamá-la de ‘puta’, era só ‘babaca’.

Usando dessa premissa falsa, o texto foi um sucesso, afinal, não cansamos de ver mulheres com síndrome de princesa, como bem definiu Nina Lemos: independentes, donas de si, mas que não resistem e fazem questão de serem tratadas como princesas, bonecas, damas.

Isto posto, agora acabou? Não.

Hoje pela manhã fui convidada por uma jornalista a conceder uma entrevista sobre “esse curioso/interessante e instigante” ponto de vista que vai contra o “machismo benevolente” e que prega o “anti-cavalheirismo”. A mesma jornalista que já tinha dito sobre o caso: “cuidado para numas de ser contra o machismo vocês, garotas, não ficarem DURAS demais, ok”?

Não. Não acho que ficaremos duras, querida. E se ficássemos, não vejo problema, nada nos obriga a ser dóceis.

voto-feminino

Entrevista não concedida. Ainda que a jornalista insistisse que não seria um artigo opinativo e, sim, uma reportagem, acho que de saída tudo já estava errado. Que divirjamos nesse tipo de questão, não é sobre ela ter uma opinião diferente da minha apenas, é sobre dar crédito e chance para que isso se perpetue, é estar do lado que concorda que uma opressãozinha ‘de nada’ não faz mal a ninguém. Machismo benevolente, assim como homofobia benevolente e escravidão benevolente são coisas que não existem.

Sem esquecer do uso do termo anti-cavalheirismo, que reforça essa imagem de dureza que querem impor às feministas. Como se nós estivéssemos lutando contra algo bom, inocente, como se rejeitássemos algo bonito que estão fazendo pela gente. Feminista ingrata, essa anti!

Como está bem desenhadinho nesse texto do Pedro Munhoz: “O cavalheirismo não é gratuito e pouco tem a ver com gentileza ou empatia: é um código cultural que só faz sentido se considerarmos que as mulheres a quem esse código socorre são inferiores. Prova disso é que mulheres também podem ser gentis ou empáticas, mas apenas homens podem ser cavalheiros. A palavra que se quer como o feminino de “cavalheiro” na língua portuguesa, “dama”, carrega em seu significado papéis sociais distintos e complementares ao dos seus pares do sexo oposto: a dama é frágil, comedida, discreta, não lida com dinheiro, anda bem vestida (“sem vulgaridade”) e tem, no máximo, uma profissão compatível com sua “feminilidade”. Se o cavalheiro é um controlador, a dama é um ser dócil, domado, que atende a todos as expectativas de um ideário machista e elitista.”

E, destaque-se, como fez o Alex Castro: O indivíduo cavalheiro, que trata sua mãe e sua noiva de maneira gentil e benevolente (porque elas merecem, porque são dignas, direitas, honestas) é o mesmo cara que vai exercer sua dominância e seu machismo hostil sobre as mulheres ditas não-direitas, sobre as vadias e sobre as vagabundas, sobre qualquer um que não conforme ao ideal tradicional de mulher. Quem é considerada “fácil” provavelmente não vai merecer as benesses do cavalherismo. Mais ainda, o cavalheirismo é como o machismo premia as mulheres que são da cor certa e da classe social certa.

Gentileza e carinho independem de gênero. Ser cavalheiro é subestimar, é pressupor que mulheres não podem desempenhar certas tarefas, que são damas e que seu papel na sociedade é de enfeite – devemos ser delicadas, virtuosas, maternais, pacientes, “esperarmos pelo nosso amor e sermos só perdão”. Obrigada, mas não.

De novo sinto aquela sensação de estar batendo na mesma tecla, seguida da sensação de parecer necessário bater nessa mesma tecla.

No mais, quando os relacionamentos não se calcarem em cavalheirismos e em outros papéis de gênero, ficará mais fácil entender que do gênero sequer dependem nossas relações.

cintcha*Cíntia Morais é ex-jornalista, feminista e caipira.

Às mães possíveis, um domingo qualquer

8988corujas

Mães de Cesárea ;-)

Vocês já sabem que a gente é do contra, né? Então, não esperavam uma homenagem de dia das mães aqui, certo? Errado. Até pensamos na possibilidade. Mas, não rolou. Sabem por que? Porque a gente é biscate, oras. Porque dentre nós as que são mães não são especiais, santificadas, abnegadas ou “a melhor mãe do mundo”. É capaz até de estarmos entre as piores, se levarmos em conta os critérios usados para definir “as especiais”, as de comercial de margarina.

Somos mães possíveis, humanas, falhas, “de cesárea”, imperfeitas. Mas ainda assim, mães. Porque é assim, ué! Por um conjunto de decisões ou circunstâncias tivemos nossos rebentos, mas defendemos o direito de escolha de cada uma não ter, de não passar por essa experiência se assim julgar mais conveniente para si.

Mas é preciso dizer que para as mulheres que decidiram ser mães que isso não as transformou num modelo de maternidade, nem as absolveu de pecados previamente, menos ainda lhes conferiu um caráter de santidade. Não precisamos da redenção conferida (por quem, mesmo?) pela maternidade para o pecado do prazer. Porque do pecado, digo, da fruta do prazer continuaremos comendo até o caroço. E continuaremos sendo humanas, falhas, tortas, erradas, errantes, às vezes, certas e acertantes, às vezes perfeitas (nem sempre exatamente no que esperavam).

E é para essas mães, as mães possíveis, as mães biscates, da vida, com seus rebentos gratos pelo cumprimento do nosso papel ou não — rebento de biscate tende à revolta, sabem comé… –, que desejamos que esse domingo seja apenas um domingo qualquer, com suas chateações e alegrias, brilhos e sombras e que sobrevivamos a ele sem maiores desgastes e sigamos a vida, na luta por liberdade e libertação das amarras, caixas e papéis pré-definidos que tanto nos desumanizam e nos distanciam de nossa essência.

Outra estação

“Por isso é que caminho como antes
Adulta e austera.
Acrescida de véus me mostro aos viajantes:
Vês a mulher, aquela?
Dizem que a cara é de cálice e pedra.
Que a luz das ilusões passou por ela.”

Hilda Hilst

viajante

Viajante, a caminho, no caminho

Ah, a biscatagem. As risadas, os olhares, o corpo entregue sem ressalvas, o remelexo nas cadeiras, a vontade de ir mais e além. Todos os dias. Desde que se entende. A antecipação ao se olhar no espelho antes de sair de casa para se reconhecer na alegria, no riso escancarado, nos arrepios e abraços, no sangue quente, no coração batendo apressado, nas propostas aceitas cotidianamente.

Também as notícias tristes, a morte de mais mulheres, a violência presenciada na rua enquanto se ia comemorar o viver, o grito alto mesmo assim, o risco, um medo que não cabe em uma só quando não se consegue mais fechar os olhos, a luta diária pelo que se acredita ao menos ético num mundo que tem idolatrado os relativismos, principalmente quando servem para justificar maldades. Poucas e frágeis certezas.

O de repente alguém falou. Ainda. As lembranças, os fantasmas. Ciúmes. O que foi e ainda é preciso esquecer.

Levantar mais um dia sabendo que sim, vale a pena, mas não vale tudo. Porque tem o que se cala e o que se conta. O que era vidro e se quebrou. Horas certas para fechar portas e janelas, porque tem barulho demais, ameaça demais, cansaço demais. Tempestade.

Meu limite. Daqui não passo.

Mas o tudo passa, moço. O tudo sempre passa. Até lá tentamos nos proteger.

Data de Validade

Filmes, livros e as vizinhas mais xeretas vivem nos dizendo: pra sempre. Os relacionamentos são – devem ser! – permanentes. Duradouros. Sem data de validade.  Eternidade. Se não era eterno não era amor. Pra sempre. E aprendemos assim, homens e mulheres, mas para nós, mulheres, a ênfase é mais acentuada e há a mensagem, nem sempre explícita, de que somos as responsáveis pelo sucesso da relação. O mundo privado é nossa esfera de competência (seja pelo argumento da rainha do lar, seja pela falácia da essência feminina mais suave, compreensiva, etc). O que você está fazendo aí parada que não está em busca do seu “final feliz”? Leia todas as revistas, faça todas as poses, aprenda todas as posições e estratégias de sedução pra manter seu relacionamento. Porque se não foi pra sempre, olha, deu errado e lá começam os “onde foi que eu errei” e todo mundo vira meio Paula Toller procurando a fórmula do amor. Cada relacionamento que acaba parece assinar um atestado de incompetência. E a gente passa um tempão pra descobrir que relacionamentos não são para dar certo

Eu nem lembro direito quando me chegou a descoberta oswaldiana: sempre não é todo dia. O primeiro dia que a gente acorda e vai dormir sem ter um pensamento sobre o moço (ou moça) por quem estamos apaixonados e com quem estamos envolvidos pode ser um rebuliço na alma. Porque vamos sendo educadas a pensar que quando a gente quer, a gente quer com constância e mais que qualquer outra coisa. Passar um dia inteiro desejando além da pessoa passa a ser motivo de culpa, arrependimento e questões sobre o relacionamento: será que cansei delx? será que elx é mesmo o amor da minha vida? E se de lá pra cá ocorre o mesmo (esquece de ligar, chega atrasadx e coisas assim) é um deusnosacuda de sentimentos de abandono e, às vezes, despudadoradas acusações: você-não-me-ama-mais-se-pensa-mais-no-seu-(complete aqui: time, trabalho, amigo, chulé)-que-em-mim. Porque aprendemos a andar com fita métrica e balança pro bem querer. E nessa tentativa de escalonar o desejo, o afeto, as relações, a gente vai perdendo e se perdendo. E aí, quando chega uma hora em que não se consegue e/ou quer e/ou pode mais se estar junto, o que resta é o sentimento de fracasso, de vazio, a ausência de nós mesmas porque, afinal, perdemos o que nós mesmas hierarquizamos como o “mais importante”.

pra sempre

Aí vem a segunda faceta do “pra sempre”, aquela que a gente cantarolou mas não acreditou na Cássia Eller: o pra sempre, sempre acaba. Não são as relações que acabam ou os vínculos (necessariamente), mas a percepção da continuidade, da repetição, do mesmo. Acaba porque um dos envolvidos morre, pra ficar no exemplo mais simples e definitivo. Acaba porque mudamos de emprego, de cidade, porque se adota um filho, porque se leu um livro que mexeu com a cabeça, porque se viu um filme que fez repensar escolhas, acaba o pra sempre porque somos outros e o outro se torna um outro além da alteridade que era. Tudo que está além do “e foram felizes para a sempre” é a materialização do final do pra sempre e é, também, o que a gente pode chamar de vida adulta.

pra sempre 2

E nem mesmo nas entrelinhas do “pra sempre” as doutrinas da felicidade amorosa mencionam aquele relacionamento que, tal como os outros, traz em si o seu fim, mas não apenas de uma forma potencial, e sim como uma certeza. Como ter um relacionamento com data de validade se o que valida os vínculos é a ideia subjacente de permanência, de que “é esse” e que “agora sim” posso me aquietar? Como escolher sem ter certeza? Ninguém nos diz que se pode (e como) amar sem um depois de amanhã. Não tem ninguém pra contar pra gente como viver sem planos. Não digo nem a ideia da aposentadoria conjunta, cadeira de balanço e netos no colo, mas o simples e trivial: o que vamos fazer na próxima semana. Porque não há a certeza de que a semana que está próxima está próxima o bastante pra que se chegue, juntos, nela. Amar sem calendário é um desafio. É abrir mão do “pra sempre”.

Já não me importa que o você não seja o enfim. Eu não quero escrever histórias, quero fazer viagens. Quero pegar estrada tendo o desejo como roteiro. Perder-me. Quero quarto sem vista pro mar, sem janela, sem porta, casa muito engraçada feita de cerveja, riso e suor. Quero cama, pele e música. Quero seu gosto de agora. E sua mão fazendo cócega no meu pé. Quero acordar com aquela perna pesando na minha, a barba reescrevendo vontades no meu ombro, uma voz fazendo lembrar a saudade que ainda nem comecei a sentir. E descobrir que saudade pode não ser solidão e sim encontro, o meu encontro com essa eu que ama você.

 

Vida Dura de Biscate…

Quem define biscate – vadia – puta (não vou usar o vagabunda de propósito) como mulher de vida fácil não faz ideia do trabalho que é bancar esse título-posto nesse mundo machista e capitalista em que vivemos. E nem precisa ser, basta parecer para ter que sustentar e botar banca.

De verdade, nunca me importei com os títulos que me davam, só com os que assumia por livre e espontânea vontade. Nessa vibe, aos 16 anos ouvi da minha mãe que os comentários a meu respeito na feira era que não conseguiria um bom casamento. E eu pensava cá com meus botões: Oba! Nunca quis casar e um bom casamento para minha mãe era um homem trabalhador, não precisava ser culto ou estudado, que sustentasse a mim e aos filhos que teríamos sem que eu precisasse trabalhar. Não é um sonho dourado? Só que não, né? Por favor…

Fato é que acostumei a bancar, fosse o que fosse: preconceito, títulos, julgamentos… Só que um dia isso tudo pesou de uma forma decisiva. Foi quando tomei uma decisão tão controversa que meus amigos da vida toda — com exceção da Fernanda, comadre e melhor amiga pra todo o sempre — não se seguraram e apontaram seus dedinhos na minha direção. A sorte — não do dia, nem do mês, nem da década — da vida? É que ao mesmo tempo em que perdia esses amigos, outros amigos surgiram. Não amigos maiores e nem melhores, AMIGOS! LINDOS! AMADOS! Gente-tri-humana, saca? Gente que me acolheu no coração e na casa e que em nenhum momento me julgou.

Mas… Eu me julgava. Não foi fácil deixar meu dino-filhote para trás. A dor e a culpa me consumiam… E por mais que conscientemente eu soubesse que estava fazendo o que deveria, não bastava. Falhar como mãe, sendo biscate, tem assim peso duplo. Sabe comé?

Já vi as demais biscates usando a expressão “mãe de cesárea”. Pois, é. Não é o caso. O parto do dino-filhote foi normal. Normal não, natural. Porque não é normal passar a cabeça de uma criança por um lugar onde “normalmente” só entram coisas pequenas (a piada é péssima, eu sei, as não resisti). E não me sinto mãe de cesárea. Tenho uma ligação muito forte com meu dino e acho que fui muito além do que poderia ir como mãe.

Há coisas das quais não me orgulho, é fato. Mas não me sinto diminuída. E agora que meu dino está de novo debaixo da minha asa, me sinto bem mais segura para sustentar minhas bandeiras, títulos e famas.

Estou botando banca, sim, e sustentando essa banca. Vai encarar?

photo (1)

Dinossauros reunidos

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...