Aos quase 50, continue a nadar

arte: André Vallias

André Vallias

Pois é. Quase 50.
Impacta, né?
A mim impactou, nesse começo de ano. Vou fazer 48 em maio. E 48 é “quase 50″. Né.

Eu nunca liguei pra idade. Achava graça no ditado da Freira – que eu não conhecia ainda, só conheci agora na formatura da minha mãe : “Depois que eu trintei, nunca mais contei”. Achava graça e me irritava um pouco: como assim? Ainda mais que era ela, minha mãe, que retomava o ditado, quando lhe perguntavam a idade. Eu ficava magoada: se tirassem a idade da minha mãe, lhe tirariam a história, e com a história… eu. Era como se minha mãe estivesse querendo me “apagar” da vida dela.

Já disse em outro lugar:
não gosto quando dizem que eu pareço mais jovem. Não gosto, em primeiro lugar, porque não é verdade: eu não durmo em tupperware, nem parei de mudar com alguma idade pra trás. Mais jovem, eu era diferente. Só sou assim agora porque vivi o que vivi, sofri o que sofri, gargalhei quando deu, chorei um monte – que eu choro à beça, pra caralho ou mais – e… como diria o Neruda, de saudosa memória, “confesso que vivi”. E não vou botar a cabeça embaixo da asa, não vou fazer de conta que não, não vou renegar os anos: são meus, me trouxeram até aqui, e como taurina possessiva que sou não cedo nenhum deles. Se gosto de mim hoje, é por conta desse caminho.  

Quando eu disse, foi há três anos: eu tinha 45 então, e era “bem no meio”. Esse ano, desde o começo do ano, tenho, na minha cabeça, quase 50. E, por um momento, me assustei. Aí fui ali cuidar de coisa e outra, tomar um café, encontrar a galera no Cardosão, dar uma olhada no mar, ler um pouco de Simone que anda me pautando por esses tempos (vá saber). Senti o vento no rosto. E me alegrei. Essa idade, 48, na astrologia, é fechamento de um ciclo – o quarto ciclo de Júpiter. Júpiter, planeta do crescimento, dos “vôos de águia” que ajudam a dar contexto e a sair do olhar míope da proximidade; o planeta dos estudos superiores, das longas viagens. Júpiter, o “grande benéfico” dos antigos, o planeta da boa fortuna, regente de Sagitário, “ao infinito e além”.

Júpiter tem um ciclo de doze anos: doze, vinte e quatro, trinta e seis, quarenta e oito. O quarto ciclo de Júpiter. Fechando, e começando um novo. Cada um desses fechamentos corresponde a um momento extremamente importante da minha vida. E a um novo começo. Vou contar só do primeiro, meu leitmotiv, recorrente de tanto que me explica. Aos doze, eu estava voltando de uma longa viagem. Eu-forasteira. Em carne viva, chegando ao Rio de Janeiro sem entender nada. As gírias. As roupas. Os modos. Os jeitos. Uma dor e um alumbramento. O primeiro ciclo de Júpiter a gente nunca esquece.

Esse ano, tô me sentindo próxima dessa menina aí, a dos doze anos, de olhos assustados, de jeito de bicho do mato. Essa aí que dizia que tinha frio de gente, e que tinham pisado com botas pesadas no seu jardim. A “desgarrada das gentes”. Próxima, porque por baixo de todas as camadas, essa aí ainda sou eu. Próxima, pelo afeto com que olho pra ela, ela-eu, e me alegro de tanto caminho percorrido. Te tanto pau, de tanta pedra, de tanto fim do caminho. Do fundo do poço. Do pouco sozinho.

Depois disso tudo, olho pra ela-eu hoje, e penso que andei. Que hoje não tenho mais medo de dançar em festa, embora a menina de doze anos apareça de vez em quando na hora de dançar de rosto colado. Que não gaguejo mais e que falo pra platéias grandes e pequenas, falo em plenárias, falo até em rádio, olha só. Me alegro que escrevo no Biscate, que vagueio no Chopinho, que faço mapas e falo de economia e traduzo de um pro outro, que é a minha verdadeira vocação.

Olho pra menina-eu de hoje, ao final do quarto ciclo de Júpiter, e vejo-a tão boba, tão palhaça, tão de riso solto como sempre. Ou talvez mais. Mais livre, mais tranquila, mais segura, certamente. Tão inquieta, tão curiosa, tão gulosa de vida e de comida mesmo como sempre. Com algumas cicatrizes a mais, como não. E outras histórias pra contar.

Vai ter festa esse ano. Festa de dança, pra celebrar o quarto ciclo de Júpiter. Como se deve. Provavelmente uma festa conjunta, com outros aniversariantes de maio. Gente querida. Tanta gente querida. E meu coração já fica quentinho só de pensar.

Caminho andado, caminho por andar: tá sendo gostoso esse caminho, viu. Não “fácil”. Nem sempre tranquilo. Mas bom de andar. Com seus perrengues, com seus percalços. Mesmo que de vez em quando fique tudo escuro e não pareça. Bom de andar, sim.

Esse texto de hoje é pra todo mundo que tá chegando lá comigo: tamos começando outro, galera. Ainda tem muito chão pela frente. A chuva ainda não chegou. Borandar. Dançar. Chorar. Gostar.

Continue a nadar, diz a Dory.

Olho pra frente, pra quem já andou mais do que eu, e vejo caminhos a percorrer. Olho pra trás, e cuido das lembranças que me fazem quem sou hoje. Agradeço, todo dia, sempre. Continuo a nadar.

Renata by João

Renata by João

Faça você também

Foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

Entradas

PAPAYA VERDE E PIMENTÕES

- torradinhas
- 1/2 unidade(s) de mamão papaya verde sem semente(s)
- 1 unidade(s) de pimentão vermelho em tiras
- quanto baste de alcaparra em conserva
- 1/2 xícara(s) (chá) de azeite extra-virgem
- quanto baste de sal
- quanto baste de pimenta-do-reino branca
Rale o papaya verde no sentido do comprimento, a fim de obter tiras finas e longas.
Corte o pimentão da mesma maneira.
Misture os dois, regando com o azeite. Tempere com o sal e a pimenta.
Coloque um pouquinho dessa mistura sobre cada torradinha e decore com uma alcaparra sobre cada uma delas.

DICA: Mantenha a mistura de papaya com pimentão gelada, montando os canapés somente no momento exato de servir. Assim, ficam mais refrescantes.

COISA DE ABACATE ( ou quase um guacamole)

- 2 abacates pequenos ou a metade de um abacate grande maduro picado em pedaços cúbicos médios; – Coentro picadinho; – Cebolinha picadinha; – 1/2 limão para temperar a gosto ; Azeite
- 1/4 de cebola picadinha; – Pimenta-do-reino e sal a gosto

misture todos os ingredientes com uma colher sem amassar demais o abacate. Coloque na geladeira e sirva bem fresco. [pode acompanhar tb pão ]

3- BATATAS COZIDAS COM PIMENTA E COENTRO

- 3 batatas doces; – 1 batata inglesa ; – 1 limão; – 1 pimenta dedo de moça; – 50g de tofu(dido); – Coentro (um punhado); – Sal; – Pimenta-do-reino; – Azeite

As batatas; Corte-as ao meio e lave-as (mantendo a casca). Ponhas as batatas em uma tigela para que cozinhem no vapor. Corte um limão ao meio e coloque-o virado para cima, sem deixar o interior encostar nas batatas. Acrescente uma pitada de sal para temperar. Tampe a tigela com plástico filme e leve ao micro-ondas por cerca de 12 minutos. Após o cozimento, retire a tigela do micro-ondas, descarte o limão e quebre as batatas cozidas com uma colher. Reserve. Fatie a pimenta e, sobre ela, jogue sal e pimenta-do-reino a gosto. Acrescente alguns fios de azeite. Corte o coentro grosseiramente e amasse o tofu por cima. Misture tudo com as mãos. Despeje as batatas por cima dessa mistura e pique tudo grosseiramente com uma faca.

4- SALADA DE PEPINO

- 1 pedaço pequeno de gengibre;– 1 limão; – 1/2 pimenta chilli vermelha; – 1 colher de café de óleo de gergelim; – 2 colheres de sopa de azeite extravirgem; – 1 colher de sopa de molho shoyo; -1 pepino; – 1 punhado de coentro

Descasque e rale o gengibre. Ponha em um recipiente e acrescente as raspas da casca do limão. Em seguida, parta o limão ao meio e o esprema bem, para obter o suco. Acrescente o óleo, o azeite e o molho shoyo. Misture tudo com uma colher. Com um auxílio de um descascador de legumes, descasque o pepino no sentido de seu comprimento – e de maneira que fique bem fino. Pare de descascar quando chegar ao centro do pepino, que é aguado. Faça um montinho com o pepino em cima do molho preparado anteriormente. Misture tudo.

5- SOPA DE TOMATES

4 tomates
1/2 pimentão verde
1 pepino pequeno
Azeite, manjericão e sal a gosto

Bata no liquidificador.
Coloque na geladeira por 2h e sirva.
Se os ingredientes estiverem gelados e a fome grande, pode consumi-lo logo após o preparo.

Alimentação. SÃO PAULO/SP, Brasil 02/03/2014. (Foto: Antonio Miotto)

As mulheres direitas

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Trabalhar com direitos humanos não é nada fácil, ainda mais em tempos de bandido bom é bandido amarrado em poste, mimimi cadê direitos humanos pra defender os homens de bem, mimimi se está com dó leva pra casa, blábláblá wiskas sachê.

Mas confesso que as amostras de ignorância da #classebrancadericosecultos nada são, perto da revolução que somos obrigadxs a fazer em nós mesmxs.

Eu comecei a atuar no terceiro setor há sete anos e mais diretamente com direitos (ambientais, humanos e não humanos) há pouco mais de cinco anos, quando aderi voluntariamente ao Movimento Nossa BH.

Até então, me orgulhava profundamente de tudo que tinha “conquistado” na vida. Em que pese eu ter nascido de uma verdadeira TFM (ahhhh, a famosa Tradicional Família Mineira…) e vivido quase trinta anos em um dos bairros mais tradicionais de Belo Horizonte, batalhei um bocado para conquistar minha autonomia financeira. Trabalho desde que me entendo por gente e necessito de dindim para tomar brejas e pagar meu cigarro.

Já lavei cachorro pra ganhar trocado, fui cuidadora do meu próprio avô durante quatro anos (com direito a meio salário e uma rotina considerada pesada para uma adolescente de 15 anos, que chocou alguns médicos que o examinavam), fui vendedora de bebidas (aeeeeee!)  de peças para equipamentos pesados (ok, antes eu também chamava de trator, pode chamar também), até conseguir cursar a faculdade com vinte oito anos de idade, pagando do meu bolso ao mesmo tempo em que morava sozinha, cuidava de dois dogs, dormia no máximo quatro horas por dia… a partir daí entrei para o mundo da comunicação, depois para o terceiro setor e aqui estou. Sou uma vencedora? Acreditava que sim. Uma guerreira! =p

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Uma pausa para entenderem aonde quero chegar. Como atuo com comunicação, passo boa parte do dia analisando notícias e posts nas plataformas digitais (pausa dentro da pausa pra explicar – sim, twitter, facebook e similares NÃO SÃO REDES SOCIAIS, são plataformas. Rede é aquilo que formamos e fomentamos dentro e/ou fora dessas plataformas e sou virginiana o bastante para detestar que chamem a ferramenta pelo uso que podem – ou não – fazer dela. Ufa).  E analisar o discurso dos internautas é prato cheio para compreender o pensamento vigente e os preconceitos naturalizados pelo sistema que nos cerca e nos estrutura.

Ontem me chamou a atenção o discurso de um amigo sobre sei lá quem (não consegui ler o resto do post, me ative à primeira frase).  Ele afirmava que admirava mulheres bonitas que não se escoravam nisso para fazer sucesso. Consciente ou não, seu objetivo era elogiar as mulheres da sua timeline que batalham e conquistam suas pequenas alegrias materiais do dia a dia com o suor (?) do seu cérebro ou do seu corpo, desde que não seja na posição horizontal, papai-e-mamãe etc.

No mesmo dia, vi o comentário de amiga de amiga (não me xingue, Niara, eu já consegui parar de ler comentários em sites, mas no twitter e no facebook ainda não foi possível) dizendo que admira as poucas mulheres direitas “que ainda prezam pela sua imagem” e não se vendem ao mercado e – ponto alto -  que é culpa dessas aí que se vendem estarmos todas “na vitrine”,  pois os pobres homens acabam acreditando que todas são iguais e querem se vender. (escorreu uma lágrima no canto do olho de dó dos machos alfa, como ela os apelidou).

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Recapitulando, nada é mais dolorido e ao mesmo tempo enriquecedor do que a revolução que fazemos em nós mesmxs quando trabalhamos com direitos. Eu posso não mudar o mundo, mas tenho consciência que a Adriana de hoje é completamente diferente da jovem que limpava a bunda do seu avô sonhando com o dia em que seu príncipe encantado a resgataria e a levaria para morar numa fazenda no meio do mato cheia de cães, cavalos, galinhas, onças e tigres(era meu sonho, dá licença? =p).

Lendo essas pérolas, fiz uma viagem ao passado. Eu sou branca, cis, magra e com carinha de francesa que acabou de chegar de Paris, como dizia minha saudosa mãe.  O quanto isso influenciou as minhas “vitórias”?  Quantas vezes um contratante não se deixou influenciar pela imagem do padrão “certo” que eu refletia? O quanto meus gerentes, professores, colegas não compraram inconscientemente meu corpitcho? Não sei dizer. Não tinha parado para pensar nisso, só me incomodava quando ultrapassavam o sinal e o assédio acontecia.

O sistema patriarcal é muito escroto. Por um lado impõe um culto nefasto ao corpo feminino, negando a quem não se submete as regras oportunidades diversas. Mas se a mulher resolve usar isso como meio para alcançar seus objetivos é repudiada. Não sejamos ingênuxs, né? Todas somos avaliadas constantemente pela nossa aparência física. Hoje eu tenho plena consciência que meu biotipo me proporcionou privilégios negados constantemente às que fogem do padrão. Então que, sinceramente, eu dispenso de bom grado elogios de como venci (?) pela inteligência e não usando a beleza, pois  isso independe de mim.  Merece elogio quem, a despeito do sistema e do preconceito que ele dissemina, conseguiu vencer apesar de não se encaixar no modelo imposto.

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Devemos também parar de jogar pedras em quem usa seus atributos físicos para ganhar dinheiro. Ela só está dançando conforme a música, e, muitas vezes, mudando o tom sem que o autor perceba. Não é responsabilidade da mulher que opta livremente por expor seu corpo – e, consequentemente, ganhar algo com isso (que pode ser dinheiro, poder ou simplesmente um beijinho na autoestima) – a opressão que nos cerca. Não fomos nós que criamos o sistema, ele está aí e questioná-lo é válido, mas reverter a lógica do opressor usando-a ao seu favor também é uma forma de luta. E isso parece incomodar muito mais do que a mulher que “usa a inteligência para vencer” (como se as demais não usassem, neah? hahahaha) Só lembrar da campanha para combater o preconceito com profissionais do sexo, barrada pela gritaria da bancada evangélica que esperneou ao pensar em uma prostituta feliz.

Imagine o pensamento:

(Como? Eu crio e alimento um sistema para humilhar, mostrar o quanto a mulher é inferior, um objeto descartável, você se empodera por meio dele e ainda tem a audácia de gritar que é feliz? Assim não pode, assim não dá! )

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Confesso, eu não tenho respostas para mudar a lógica do sistema, só questionamentos. Mas tenho indícios do que não fazer. Negar a realidade é um deles. Julgar pessoas e não culturas/ processos/modelos/estruturas é outro.  E parar de questionar cada pensamento que nos surge é a pá de cal na revolução que precisamos fazer nesse mundinho machista, homofóbico, racista e classista dos infernos.

Bora biscatear e sambar na cara da sociedade. Com direito a beijinho no ombro das universitárias de plantão! =D

 

adriana torres*Segunda vez que Adriana Torres, essa bisca convidada ingrata, escreve por aqui, devendo muito mais do que dá conta de pagar, mas a gente finge que entende porque tem filhote de um e meio, cinco cachorros, duas gatas, trabalha de frila em frila, tem três trampos voluntários e ainda arruma tempo pra ler comentários no facebook.  Oh dó! =D

Minha Mãe Biscate

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Seis de  março.

Você acordaria cedo, mãe, (como acordava todos os dias de sua vida, nunca entendi o motivo) e faria o café já pensando no lanche que serviria para as “meninas” (suas amigas e irmãs eram meninas para você, não importa com qual idade estivessem) em comemoração aos seus setenta e um anos de vida.

Provavelmente, entre um cigarro e outro, entre um telefonema e uma “paciência”, puxaria da memória alguns dos diversos momentos que marcaram sua caminhada. Tropeços? Vitórias? Perdas? Não importa. A cada lembrança, resgataria uma música que representasse a cena…

Poderia ser sobre seu relacionamento com meu pai, e com certeza sairia um “Solamente una vez, ame en la vida…”, para logo depois levantar a sobrancelha, estreitar os olhos num ar de desafio e berrar para todos os vizinhos ouvirem: “Nunca, nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar nem mesmo assim as pazes contigo eu farei…”

Com lágrimas nos olhos lembraria da sua filhinha, Patrícia, que morreu tão jovem, com apenas sete anos de idade e transformaria o canto em um lamento de dor com a valsinha que fez para ela: “… era ela linda, uma jóia uma rosinha em botão, quando partiu levou junto pedaço do meu coração…”

Mas logo estaria novamente dançando e sorrindo, cantando até acordar quem se atreveu a ficar mais tempo na cama: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz…”

Você levou a vida cantando, biscateando e sambando na cara da sociedade. E essa lembrança me acompanha a cada dia, mesmo após quase seis anos de sua partida para o mundo de lá.

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Tinha tudo para ser apenas mais uma madame da high society, mas quis o destino pregar-lhe uma peça de horror e você, com seu atrevimento, com seu orgulho e – porque não? teimosia – transformou sua vida em um exemplo para mim.

Quando a Patrícia morreu, seu mundo dourado desabou. Você tinha mais do que o necessário, material e emocionalmente falando. E, mesmo assim, agarrada ao túmulo de sua filha, ainda gemeu dizendo que agradecia a Deus não ter levado seu marido, seu grande amor, a razão de sua existência…

Ah, tolinha. Um pedaço dele se foi com a pequena Kika. E ele não conseguia ter a sua força, a sua incrível capacidade de se reinventar. Entregue à bebida e ao carinho de outras mulheres, a cada dia destruía o amor que construíram com o menosprezo, com agressões, com seu machismo.

Quando você mais precisou de sua presença, do seu amor, ele não deu conta, mãe. E você não deu conta disso também. Não era justo. Não era nem um pouco justo.

O divórcio foi o início de sua vida biscate, não é mesmo, minha mãe? Você, que nunca trabalhou na vida (para que, dizia ele? Eu sou diretor de empresa, temos dinheiro, você não precisa trabalhar, cuide de nossa família…) se viu com alguns trocados por mês e quatro filhos para criar.

Só, profundamente só. Familiares lhe desprezaram. Amigos. A tal high society. Divórcio em uma TFM? Horror, horror, horror! Era preferível manter a aparência, mulher direita não separa!

Você sambou na cara deles e foi em frente, com a cara e a coragem.

Fez o supletivo e por poucos pontos não conseguiu entrar na faculdade de direito, seu sonho. Enquanto isso, fazia bicos como chofer do pai, entregando marmita para os novos amigos, trabalhando aqui e ali, quando os filhos deixavam, quando a vida deixava.

Mas a vida biscate não se resumia aos freelas. Deve ter sido por ter virado uma biscate que o ginecologista, sem sequer examiná-la, ao saber que era uma mulher separada afirmou que você teria uma perigosa doença venérea. Ainda bem que a Tia Olga levou-a a outro médico, para provar que era “apenas” machismo, né?

Também deve ter sido pelo seu lado biscate que o marido da vizinha resolveu começar a tocar a campainha lá de casa nas madrugadas, com a esperança de receber algo mais da “nova desquitada” da cidade.

Foram muitos casos, muita mágoa, mas também muita diversão. Ah, sua biscatagi era a salvação da rotinha massacrante de criar quatro filhos contando cada centavo, arrumando um trabalho aqui e ali, sem deixar de sonhar, de cantar, de sorrir.

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Dos diversos namoros, das desilusões, das cantorias e do dia a dia, você foi construindo pérolas, que transmitia diariamente para suas crias:

“Nunca case virgem. Sexo é 50% do casamento e você deve gostar de fazê-lo com seu marido. Como saber se será bom se você não conhecer antes?”

“Mulher deveria se valorizar mais. Casa com qualquer coisa, nunca vi. Só não casa com carrapato porque não sabe o sexo, senão casava!”

“Filhos, marido, amigos, todos são muito importantes na vida. Mas lembre-se: em primeiro lugar deve estar você; em segundo lugar, você e em terceiro lugar, você. Ninguém pensará nessa ordem ao seu respeito.”

“Acha fulano muito bonito para você? Lembre-se que ele caga, faz xixi, tem dor de barriga igualzinho a você. “

“Faça da vida o que quiser, mas tenha sua carreira e não abra mão dela. NUNCA, NUNCA DEPENDA DE UM HOMEM” (essa eu grifo pois era uma frase recitada diariamente, como um mantra).

“Não seja como eu. Não se deixe levar tanto pelo coração, use a razão. Ela não vai lhe deixar na mão.”

(Essa última eu fracassei redondamente, D. Inês. Desculpa aí. Ou não).

Sua biscatagi a fazia sonhar em desfilar algum dia pela Mangueira, com um biquíni bem pequenino, não importando se seu corpo não cabia nas métricas da sociedade. Sua biscatagi nos levava em serenatas, butecos diversos, reuniões festivas sempre acompanhadas pelo seu violão, que hoje me observa do cantinho, meio amuado, já que não tenho seu talento para dedilhá-lo…

Não gosto de lembrar das suas atitudes machistas. Elas faziam parte da sua criação. E ainda faz parte da cultura da maioria das mulheres, afinal, o sistema patriarcal é o que nos estrutura. Você privilegiava nosso único irmão homem dispensando-o de tarefas domésticas e isso me deixava realmente injuriada. E as frases machistas eu preferi apagar da memória, memória essa que sempre se torna seletiva após a morte.

Eu gosto de pensar sempre na sua parte melhor. É o que fazemos quando os que amamos se vão e ficam ao mesmo tempo.

Eu prefiro lembrar da minha mãe biscate.

Cantando, de sobrancelha levantada, sorriso irônico no rosto e a voz melodiosa explodindo por todos os cantos da casa:

“Não me venha falar na malícia de toda mulher. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim. Cale a boca e não cale na boca notícia ruim. Você sabe explicar, você sabe entender tudo bem. Você está, você é, você faz, você quer, você tem. Você diz a verdade e a verdade é seu dom de iludir. Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir…”

Feliz aniversário, D. Inês! <3

(mais textos biscates sobre mães: “Para além de mãe e filho“, “Mãe, Feminista, Biscate, Perguntadeira, Operárix em Construção“, “Mãe-objeto“).

adriana torres*Segunda vez que Adriana Torres, essa bisca convidada ingrata, escreve por aqui, devendo muito mais do que dá conta de pagar, mas a gente finge que entende porque tem filhote de um e meio, cinco cachorros, duas gatas, trabalha de frila em frila, tem três trampos voluntários e ainda arruma tempo pra ler comentários no facebook.  Oh dó! =D

Não mascare a violência contra a mulher – Campanha de Carnaval

Esta biscate escrevente está de plantão, em uma cidade histórica de Minas, com um Carnaval famoso em todo país.

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E onde em 2012 uma campanha da PM contra o beijo roubado gerou protestos dos foliões - e foliãs.

Este ano o mesmo tema retorna na campanha “Não mascare a violência contra as mulheres”, da Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana da Paraíba. Segundo informado, serão distribuídos mais de 50 mil leques com telefones de Delegacias da Mulher e do Disque Denúncia 197 alertando sobre o que fazer em casos de agressão e beijo forçado. De acordo com dados da Delegacia da Mulher de João Pessoa, neste período carnavalesco o número de denúncias aumenta cerca de 30%.

Tão importantes quanto processar criminalmente e punir os agressores, autores de violências contra as mulheres, são as campanhas de conscientização.

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O beijo “roubado”, pode, sim, ser “brincadeira”, se a parte do “roubado” for brincadeira, consentida, entre pessoas adultas e capazes.

O beijo forçado, obrigado, constrangido mediante uso de força física, segurando pelo braço, pelo cabelo, cercando a pessoa com os amigos em “corredores poloneses”, etc, é violência, é crime, tem que ser coibido.

O problema que vejo é que somos tão acostumadas, nós, mulheres, a mascarar a violência como brincadeira, ainda que de mau gosto, que toleramos e negamos nosso direito de dizer não. No Carnaval, não vale tudo.

No Carnaval e nas baladas, mais ainda que no dia a dia, é como se nosso corpo se tornasse público. E não é. Nosso corpo é nosso, e não abrimos mão de nossa autonomia ao vestir uma fantasia provocante e tomar bebidas alcoólicas e sairmos desacompanhadas de um homem.

Ano passado no plantão de carnaval em outra cidade do interior, um jovem de 16 anos, daqueles bem fortes, criados “a danoninho”, agrediu uma colega, com um murro no rosto que quase fraturou o nariz da jovem. O motivo: ela não quis aceitar a brincadeira de beijo roubado, já que o jovem estava embriagado.

Ser agarrada a força e obrigada a beijar, seja um desconhecido seja um colega, não é brincadeira.

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Brincadeira é brincar Carnaval. Somos todas a favor de variadas estripulias e de se fazer o que se quer. Beijin no ombro, camisinha no bolso!

Mas fazer o que não se quer, e ainda ser acusada de “estar aí para isso”, ter que ouvir “com essa roupa, quem mandou”? Não. Amor de Carnaval tem que ser sem violência!

Amigas, meninas, moças, mulheres. Não somos obrigadas. Se você quer beijar um, dois ou quantos mais, é seu direito. Se não quiser beijar ninguém, é também seu direito!

Se quer brincar, entrar na brincadeira dos beijos roubados e achar que não tem nada de mais, ok, claro que você pode.

Mas se outra não quiser, não é frescura, exagero nem “cu doce”.

É liberdade, também.

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* adendo necessário: muitos dos homens que fazem tais brincadeiras acham que são realmente brincadeiras, porque não estão acostumados a pensar na autonomia da mulher. Felizmente, vários já estão se conscientizando e entendendo que a violência se mascara de várias formas.

 

 

29 dicas para você não ser um cara mala e machista

Por Mariana Parra*, Biscate Convidada

Homens: sabemos que vocês adoram dar dicas legais e descoladas para as mulheres, achando que estão arrasando e estão sendo super parceiros de nós. Vocês se sentem super moderninhos, achando que dizendo a “verdade” vão ajudar a sermos mais felizes, até mais livres.

Queridos homens, não, nós não estamos esperando suas dicas para sermos mais legais, mais descoladas, para sermos: a namorada perfeita. Definitivamente não queremos saber a opinião de vocês sobre como exatamente devemos nos comportar.

Esses dias chega até mim este curioso texto: 29 Coisas que os Homens Adorariam que as Mulheres Soubessem. Esse texto carrega um machismo muito típico dos nossos tempos: um machismo com cara de descolado. Aquela coisa que parece moderninha, parece apregoar a liberdade. Mas quando analisamos cuidadosamente, o ranço machista está lá, disfarçado, tão disfarçado que chega a convencer os mais descuidados, chega a parecer o que não é.  Uns toques aqui e ali de concessão de liberdade e autonomia (pequenas concessões para manter a dominação?). No geral, no entanto, o mesmo machismo de sempre.

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Então, para os homens que não querem ser malas e machistas, que querem de fato viver e deixar viver, nós mulheres, livres, para sermos: O QUE QUISERMOS SER, aqui vão 29 dicas, rebatendo cada uma das dicas do moço que achou que estava arrasando, que, hum, no final vai saber o que fazer com elas.

1. Fale o que pensa. Não é por mal, mas não somos muito bons com indiretas;

1. Hum, ele começa suave, usando o que o senso comum parece atribuir ao comportamento feminino. Como sempre, todos os comportamentos, dos menos aos mais bizarros, são atribuídos a nós mulheres. Não que alguns deles não façam sentido, afinal a condição de opressão de fato faz emergir alguns comportamentos neuróticos em nós mulheres (assim como o machismo acarreta comportamentos neuróticos nos homens também. Digamos que não deve ser fácil, por exemplo, não poder chorar ou expressar seus sentimentos, ter que ser forte o tempo todo. Ah, esse sentimento pra algum lado é canalizado, muitas vezes em forma de violência, infelizmente). Mas, aí vai a dica: desconfie desse tipo de generalização baseada em gênero. Sempre. Para mulheres e também para homens. Agora homens não dão indiretas? Que engraçado, os chefes, na maioria homens, não são os reis da indireta?

2. Quando fizermos uma cagada, fale – uma vez;

2. Bom, se um ser humano, macho ou fêmea, comete uma cagada e alguém fica puta/puto com ele, vai reclamar se não houver nenhum motivo de força maior que o impeça (ah, o machismo impediu as mulheres de reclamar de qualquer coisa por séculos – nossa, será que a reclamação é porque não estavam acostumados a ouvi-las, só a fazer merda e dar uns tapas se a mulher não obedecer?). Enfim, voltando à situação normal, o interlocutor que fez a merda tem que mostrar que entendeu o recado, não é? Será que as mulheres, mães, esposas, namoradas, normalmente sobrecarregadas com aquilo de que reclamam, seja de aspectos do cuidado da casa, seja de comportamentos diversos, são tão neuróticas que ficam reclamando porque acham gostoso, porque adoram uma boa briga? Vamos trazer situações e dados práticos para a mesa, para ver se dá pra entender: o post do Leonardo Sakamoto: Mulheres trabalham mais do que homens. Mas as convencemos do contrário, pode dar algumas pistas do porque as mulheres parecem reclamar muito às vezes. Sacou?

3. Eu sinto tesão por você, não pela sua prima ou pela sua vizinha;

3. Opa! E não é que moderninhos acreditam naquela relação monogâmica em que nem podemos olhar para o lado, nem pensar em desejar outra pessoa? (alguém acredita nisso hoje?? Nada contra a monogamia, nem sou adepta ao amor livre, mas aquele modelo de relação monogâmica do casalzinho perfeito, e hipócrita na maioria dos casos, já era, né?) Ou será apenas uma dica para evitar ataques de ciúme aparentemente sem nenhuma razão? Bom, se for pelo segundo motivo, é bastante compreensível. Mas, porque a dica vai para as mulheres? Num país e num mundo onde as mulheres são mortas pelo simples fato de serem mulheres, em grande parte dos casos por seus próprios companheiros, por terem se separado, por ciúmes, muitas vezes pelo simples fato de a mulher ter alguma vida além do lar e daquela relação, num mundo em que os homens se sentem donos das mulheres, é muito estranho essa dica ser direcionada a nós mulheres! Embora haja casos isolados de mulheres que cometem o tal “crime passional” (conceito do qual eu discordo veementemente), as estatísticas não mentem: as mulheres morrem sistematicamente na mão dos próprios companheiros – e o principal diferencial: com a aceitação da sociedade (afinal a defesa da honra figurava em nosso código penal até há pouquíssimo tempo, obviamente só se aplicando para os homens que a defendem, claro!).

4. Maneire nas suas sobrancelhas. Uma linha fina em cima do olho não é bonito;

4. Olha, provando que este texto não é uma questão de implicância (embora com certeza haverá os que me chamarão de feminista-neurótica-mal-comida, mas eu já estou acostumada), eu concordo com esse ponto; na minha opinião pessoal e estética, não curto quem arranca toda sobrancelha, adoro uma bela sobrancelha natural. MAS gosto é gosto não é mesmo. Tenho uma amiga que adora monocelha, acha lindo. A variedade de gostos no mundo é uma coisa linda! Mas enfim, essa deixo passar mesmo, é uma questão de gosto, mas expressar o próprio gosto em relação a isso, ok.

5. Você fica extremamente sexy com aquele seu pijama velhinho de algodão;

5. Como estou falando demais, aqui o recado vai mais curto e grosso: sério? Bom pra você! E eu gosto de me vestir do jeito que me sinto bem, confortável, feliz, agradável, e definitivamente não é minha pretensão nem a de nenhum ser humano saudável ser sexy 100% do tempo!

6. Não tenha medo de dispensar a maquiagem – natural é sempre mais sexy;

6. Neste caso, a dica é na mesma linha do item anterior: jura? Parabéns! Mas nos maquiamos quando tivermos vontade e quando bem quisermos! Se você se preocupar menos com que sua namorada pareça sexy 100% do tempo, talvez ela se sinta mais à vontade e tranquila sem maquiagem.

7. Vocês mentem muito mal quando dizem que está tudo bem – nós sabemos que não está, só não sabemos o que aconteceu;

7. De novo o pressuposto do comportamento universal feminino (ok, respira, paciência!). A dica número 1 já falou um pouco sobre essa coisa de comportamento e gênero. Às vezes a pessoa, fêmea ou macho, está mal, incomodada, e nem sabe por que, não é mesmo? Não é à toa que tantos de nós vão ao psicólogo, fazem terapia, de fala, corporal, energética, de massagem (a infinidade de tipos de terapia dá sinais de como não é tão simples assim, não é?!). Definitivamente os homens muitas vezes se sentem incomodados e não sabem dizer, não sabem expressar, não sabem resolver pura e simplesmente com um passe de mágica. Por isso: sim, todos nós, mulheres, homens, transgêneros, queer, etc. etc., temos que exercitar a expressão do que estamos sentindo, seja pela fala, seja por outros meios.

8. Você pode me chamar pra transar a hora que quiser. De verdade;

8. Homens, vocês também podem nos chamar pra transar a hora que quiserem. De verdade! Como vocês, pode ser que às vezes não estejamos a fim (afinal, levanta o dedo aí quem é o Sex Machine infalível please!). Esse ponto, de novo (para mostrar de novo que não estou sendo implicante) pode ter um sentido positivo, afinal o mito de que a mulher tem menos apetite sexual que o homem permeia corações e mentes de homens, e infelizmente, de mulheres. Mas aí, entendam o motivo pelo qual muitas vezes as mulheres reprimem sua sexualidade, porque não mostram que estão com tesão, com vontade de transar: porque somos ensinadas desde crianças, porque os meios de comunicação, o senso comum, nos diz que temos que ser puras, que temos que ser caçadas, laçadas pelos homens, e só assim então, muito timidamente, poderemos mostrar nosso desejo e tesão. Entendendo isso, ok, vocês podem dar essa dica, MAS se lembrando disso em tempo integral, e não reprimindo a sexualidade da mulher, (achando que aquela sua amiga que deu pra vários caras é uma puta, por exemplo) e nem reprimindo o corpo da mulher (não, as garotas que usam minissaia não estão querendo ser estupradas. Se você não entende isso, não dê esta dica, vai ser hipócrita e imbecil.

9. Masturbação me dá 1/10 do prazer que sinto no sexo com você. Acredite;

9. Alguém aí compara masturbação com sexo? Colega, se a sua namorada tem algum tipo de ciúme, sentimento ruim, ou reprime o fato de você se masturbar, você tem que dar a seguinte dica para ela: masturbe-se! Fará bem para ela mesma, para conhecer seu próprio corpo, para se amar, para se permitir ter tesão… Quem reprime a masturbação dos outros é porque reprime a própria, sim, as mulheres desde crianças são induzidas a achar que masturbação é coisa do demônio, as garotas, em sua esmagadora maioria, se masturbam e sentem uma culpa terrível, se sentem sujas por isso (enquanto para os homens é uma coisa totalmente natural e aceita socialmente). Se você quer ser um namorado legal, ajude sua namorada a superar isso!

10. Não tem som melhor no mundo do que ouvir você tendo um orgasmo;

10. Ok, de novo: não sou implicante, isso é ótimo, sinal dos tempos de que o machismo está sendo superado e que os homens cada vez mais se preocupam em dar tesão para suas companheiras. Ah, também é incrível ouvir vocês gozarem, vocês tão super poderosos, neste momento ficam tão humanos e frágeis, como qualquer ser.

11. Quando vocês ficam bravas com coisinhas pequenas e insignificantes, nós questionamos sua inteligência;

11. Quando vocês pensam igual a todo mundo, não refletem e só reproduzem o senso comum, ah, nós achamos vocês burros mesmo. Novamente a questão do comportamento atribuído universalmente à mulher. Comportamentos infantis e mesquinhos: mulher, homem, criança, velho, branco, negro, asiático, mulato, todos tem. Parem com isso por favor!

12. Se eu te dou opinião quando você está se arrumando, significa que você está muito atrasada;

12. OPA! Não éramos nós mulheres que não falávamos claramente o que queríamos dizer? Essa não saquei, uma hora é legal dar indireta e outra não? (tá, eu ri!). Dica para a vida: pelo menos tente ser coerente!

13. Não me peça pra te ajudar a escolher com qual roupa vai sair. Eu provavelmente vou fazer uma escolha ruim e a gente vai se atrasar ainda mais;

13. De novo, para não ser implicante: que bom que você não quer opinar no guarda-roupa da sua namorada! Normalmente os homens fazem isso para proibir roupas curtas e “chamativas”, e daí para começar a bater, muitas vezes são poucos passos.

14. Mas me dar duas ou três opções de roupa já são outros 500, desde que você troque de roupa na minha frente. Bem devagarzinho;

14. A dica agora é para não ser mala mesmo: vocês não estavam atrasados?

15. Adoramos quando vocês fazem rabo de cavalo;

15. Adoramos deixar o cabelo do jeito que ficamos mais confortáveis e felizes. Quer ser um namorado legal? Não se intrometa muito no penteado e no corte de cabelo da sua mulher. Cortar o cabelo às vezes é uma necessidade, às vezes dá uma vontade de mudar, de se livrar daquele peso… Se a mulher quiser cortar curto, se quiser deixar comprido, o melhor é se intrometer o menos possível, e se algo não der certo, dar o máximo de apoio que você puder (assim como fazem os verdadeiros amigos da sua namorada).

16. Celulite ou lingerie feia só nos incomodam se estiverem em um estado muito crítico;

16. Sua chatice só nos incomoda se você continuar a dar dicas tão importunas e previsíveis! Que tal deixar as mulheres decidirem sobre o que é melhor para seus próprios corpos, sem achar que vocês são o centro das atenções?

17. Uma passada de mão inesperada é sempre bem-vinda, até em lugares públicos. Principalmente em lugares públicos;

17. Procurar uma pessoa com afinidades com você, é a dica. Quem nasceu para ser voyeur, será sempre voyeur, quem não curte essa parada dificilmente vai mudar para simplesmente te satisfazer (e aí atribuem a mania de querer mudar os outros às mulheres, pode?).

18. Você pode escolher o filme, mas tem que ter um motivo para querer vê-lo;

18. Conte-me mais sobre ter que dar explicações sobre o por que um ser humano quer assistir um filme. Essa foi longe no egocentrismo. Se você não quer assistir um filme que sua namorada quer, que tal cultivar uma relação mais livre e saudável, onde ela pode ver o filme que bem entender com outros amigos, com a mãe, o avô, ou simplesmente sozinha? É impossível dois seres humanos terem o gosto exatamente igual, e olha que meus gostos são bem parecidos com os do meu companheiro. Mas temos um universo de coisas que curtimos que são diferentes. E é ótimo também curtir essas coisas diferentes separados. Vivemos nossa individualidade. Respeitamos o espaço do outro. Cultivamos nossas amizades, a relação com a família…

19. Quando você me chama no chat do trabalho “só pra falar um oi” eu não estou realmente prestando atenção – estou checando meu e-mail;

19. Ah, essa foi machista descaradamente. As mulheres são menos ocupadas que os homens?? Não sei em que planeta! A maioria das mulheres que eu conheço são umas batalhadoras, aplicadas, perfeccionistas no trabalho. Mas enfim né, os dados mostram que vocês, mesmo com menos escolaridade que nós, ganham mais, ocupam esmagadoramente mais cargos de chefia. Não, não é porque vocês são mais profissionais e inteligentes, é pelo machismo mesmo, que constantemente impede as mulheres de ascender profissionalmente e ter os mesmos salários, nos mesmos cargos.

20. Não espere que tenhamos uma conversa por SMS, a não ser que inclua a palavra “esperando” e “pelada”;

20. De novo a teoria do comportamento universal feminino. Caraca, no começo do namoro com meu atual companheiro, era ele que adorava ter uma conversa infinita por sms (ele tem pavor de falar no telefone). Essa é nova pra mim: nunca ouvi falar nesse estereótipo! E que ótimo, você só vai dar atenção à sua namorada por motivos sexuais? É mais provável que você leve um pé e fique sem nada!

21. Sempre que quiserem cozinhar, irão nos fazer felizes;

21. Sempre que vocês homens, que assumem muito menos responsabilidades domésticas do que nós mulheres, quiserem deixar de ser folgados, quiserem largar essa posição opressora e quiserem assumir a divisão das responsabilidades e tarefas domésticas, assim como de cuidado com os filhos e os mais velhos, a humanidade agradece, principalmente as mulheres, que cumprem dupla e tripla jornada de trabalho, que chefiam boa parte dos lares brasileiros, e continuam com todo peso do “lar” nas costas. Infelizmente o machismo é tão grande que muitas vezes está dentro das mulheres, que não deixam os homens assumir tais funções. Você quer ser um cara legal? Ajude sua mulher a se livrar disso!

22. Nós temos um alarme de perigo iminente que sempre dispara quando vocês perguntam: “Você acha aquela mulher bonita?”;

22. Dica: relacionamentos que se livram das amarras e agruras do ciúme são muito mais felizes. Existe tanta gente bonita no mundo né? Porque não comentar, com quem quer seja? Então, não seja ciumento com a sua namorada, e se ela for ciumenta, ajude ela se livrar dessa praga! Deixá-la livre, não oprimi-la, vai ajudar bastante.

23. Não confie na gente para mantê-las atualizadas sobre as fofocas;

23. Oh céus, de novo, só as mulheres são fofoqueiras agora? Impressionante, isso é uma mentira muito sacana! Em ambientes corporativos, por exemplo, os homens são mais que fofoqueiros! E em grupos de amigos, sobre relações alheias… Os homens são tão ou às vezes mais fofoqueiros que as mulheres. A questão é que o corporativismo masculino, aquele sentimento de solidariedade entre os homens, que se ajudam, que trocam informações privilegiadas, principalmente para manter seus privilégios no ambiente profissional, restringe a fofoca a seus pares masculinos. Então, não, não podemos contar com vocês mesmo para entrar no circuito alto das fofocas! Dica: esse corporativismo masculino já perdeu a graça, gente moderninha mesmo liga cada vez menos para esse tipo de coisa.

24. Não, eu não lembro o que ele disse depois. Nem o que ela disse. Nem me lembro do homem de camisa roxa perto da porta. Somos ruins em detalhes;

24. O lance do comportamento pela 7ª vez! Bom, alguns tipos de funcionamento distinto entre o cérebro do homem e da mulher a própria ciência discute, que somos melhores em linguagem, e os homens melhores em percepção espacial, etc. Mas, hoje em dia, com a evolução da educação, da tecnologia, etc., essas divisões cada vez mais caem por terra. A dica é novamente não cair em armadilhas de divisão de padrões de comportamento por gênero!

25. Tenha opinião própria, não me pergunte se está gorda se já sabe a resposta;

25. Ter opinião própria sobre si mesma é o melhor que uma mulher pode fazer. Sendo bombardeadas com um padrão de beleza anoréxico como somos, fica um pouco difícil manter a “opinião própria”. Dica: ajude a sua namorada a se livrar desses padrões-opressões, a ser feliz com a sua própria beleza, com seu próprio corpo, do jeitinho que ela é. Te garanto que as neuras, se existirem, irão melhorar se ela conseguir se libertar disso e se amar.

26. Opa, o mocinho das dicas inconvenientes faltou nas aulas de matemática, não tinha o ponto 26. Dica: releia seus textos!

27. Não grite, nem com suas amigas. Isso não é legal, mesmo;

27. Oh Deus, o padrão pressuposto de comportamento, 8ª vez! Agora homens não gritam? Engraçado, não tenho essa impressão quando passa um ônibus com uma torcida de futebol, a maioria homens, berrando. Que coisa! Homens gritam sim, e o pior, muitas vezes num contexto de violência e opressão. Ah, isso sim é enlouquecedor!

28. Aprenda a jogar videogame. Nossos finais de semana teriam uma emoção a mais;

28. Dica: não seja uma pessoa opressora e autoritária. Aprenda a jogar videogame? Colega, o que você cheirou? A garota vai aprender a jogar videogame se ela estiver a fim! Então você quer que ela faça uma coisa de que não gosta só para te agradar? E a história do filme? Só serve para um lado isso? A dica vai parecida com o ponto do filme: se você gosta de videogame, vai fundo! Jogue com seus amigos/amigas que curtem, seja feliz! Sua namorada certamente ama fazer coisas que você não curte, deixe ela ser feliz também! A vida não se resume ao casal. Uma relação assim tem prazo de validade curto (ou o casal se resigna a uma vida extremamente chata e medíocre). E de novo o lance do comportamento. Eu conheço várias mulheres que adoram videogame (assim como homens que detestam). Se isso é fundamental para você, busque uma mulher fã de videogame oras!

29. Às vezes, nós nos perguntamos porque mulheres tão incríveis querem ficar com a gente, seres tão inferiores. Então, obrigado mais uma vez.

29. Aqui, não tem muito o que dizer, você pode estar querendo apenas ser legal mesmo. Mas uma dica fundamental, nunca se esqueça: o cavalheirismo é o outro lado da moeda do machismo opressor, como bem mostra este texto aqui.

MariParraBiscate*Mariana Parra é formada em Relações Internacionais pela PUC/SP e mestranda em Estudos Internacionais pela Universidad del País Vasco, feminista, interessada por direitos humanos e suas abordagens mais emancipatórias. Ganhadora do prêmio acadêmico Construindo a Igualdade de Gênero, promovido pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, CNPQ e ONU Mulheres.

Sabe a Miss Bumbum e o Cadeirante? Não é da sua conta

Texto escrito com a consultoria/parceria de Patrícia Guedes*, Biscate Convidada

Vou contar um segredo pra vocês: desejo, tesão, amor, sexo, afeto… nada disso é exclusividade de pessoas jovens, magras, sem deficiências, brancas, heterossexuais e cisgêneras. Afeto, sexo, amor, tesão, desejo, tudo isso é humano e tá presente em todos nós de fio a pavio.

Ontem de manhã uma amiga me perguntou se eu estava acompanhando a polêmica sobre o namoro da Miss Bumbum. Eu disse que não e fiquei preparada pra ouvir o relato mais usual sobre as pessoas com preconceito sobre mulheres que “usam o corpo pra subir na vida”, “mulheres que não se dão ao respeito” e outras bobices assim. Mas os preconceitos relatados não eram (apenas) o machismo e conservadorismo nosso de cada dia.

O preconceito da vez é contra as pessoas com deficiência. Nem é novidade, o preconceito em relação a pessoas com deficiência é aquele mesmo de todo dia, mas no todo dia vem meio disfarçado de benevolência e paternalismo.

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Só não pode tratar de sexo. Aí, cumpade, o buraco é mais em baixo (ou, no caso, melhor seria dizer que o buraco é mais em cima ou que nem se admite a existência do buraco). Magina que pessoas com deficiência (seja física, motora, psíquica, cognitiva, whatever) vai ter desejo. Tesão? Não, não, não (quase que a gente escuta o “eca”). O corpo com deficiência é visto como assexuado, defeituoso, impróprio. Aliás, não só o corpo, à pessoa com deficiência é vedado, implicitamente, o desejo. Não só não pode fazer sexo como não pode desejar fazê-lo. Sobre esse assunto, ninguém fala, ninguém sabe, ninguém viu. Talvez nem exista.

Mas qual a história mesmo? Uma moça que namora um moço. E o moço é cadeirante. E uma enxurrada de comentários imbecis. De maneira geral as pessoas destilam preconceito ao julgar que paraplégicos e tetraplégicos (pra ficar mais próximo do tema, mas isso se estende a vários outros tipos de deficiências) não podem ter vida sexual. Não precisamos nem pensar muito pra ver como o senso comum é limitado na sua compreensão de sexualidade, julgando-a a partir do paradigma heterossexual-cis-penetração-pênis-vagina-homem-no-controle. Sério mesmo que ainda se pensa que sem pau não tem o que fazer na cama? (Sexo sem… #ficadica e é só uma das inúmeras) Esse caso é agravado por outro preconceito: ela, por ser miss bumbum, é hipersexualizada e supõe-se que é difícil de ser satisfeita sexualmente. Mais de um comentarista enfatiza que é “sacanagem deixar um mulherão desses só na vontade”.

Não devia, mas ainda me impressiona a facilidade com que as pessoas se sentem no direito de invadir a privacidade alheia, questionar, julgar e rotular a vida sexual do outro. Sério mesmo, que é que a galera tem a ver com o jeito que as pessoas trepam? Não interessa se eles usam mão, língua, acessórios, se tem ereção, se tem ejaculação, se convidam mais alguém pra festa. Cada adulto, com seu desejo e seu gozo.

Mas é preciso reconhecer, se um corpo não desejável passa a demonstrar desejo, temos um problema grande com o qual a sociedade não consegue lidar. E a reação a ele costuma ser bem violenta. Não por acaso costuma haver tanto preconceito no que tange a sexualidade de pessoas gordas (leiam o gorda e sapatão, leiam sim), trans (leiam o transfeminismo, leiam sim), negras (leiam o blogueiras negras, leiam sim). E pessoas com deficiências.

Lembro quando assisti o excelente filme “As Sessões” (que narra, basicamente, a relação entre uma sex surrogate – parceira sexual substituta – e seu cliente – Mark O’Brien, que é deficiente físico) e quantos comentários desconfortáveis surgiram pelas redes sociais. Um monte de gente incomodado por uma pessoa tetraplégica sentir, manifestar e procurar satisfazer seu desejo sexual.

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O filme é muito feliz ao mostrar, com leveza, o desejo do seu protagonista e (não menos relevante) tratar com naturalidade o corpo não padronizado de Helen Hunt (grande parte das cenas da atriz são realizadas despida ou semi despida). Uma grande parte do incômodo que encontrei nos comentaristas do filme é em relação às coisas que considero grande mérito: a) a naturalidade com que o filme nos leva a encarar a busca da relação sexual e do conhecimento do próprio corpo, empreendida pelo moço com deficiência, b) a desglamourização dos corpos, tirando o foco da beleza esteticamente aceitável, c) o sexo como um elemento presente e ativo na vida de toda e qualquer pessoa, manifestado de forma específica segundo sua vivência e subjetividade (seja o protagonista, a parceira sexual substituta, o padre, o marido da parceira sexual substituta, etc), sem moralismos ou julgamentos de caráter.

Supor a incapacidade de alguém de desejar ou ser desejado tem nome: capacitismo. Ao negarmos a sexualidade de alguém, lhe negamos, automaticamente, representatividade política e social, entre outros direitos. A inclusão sexual da diversidade de corpos existentes é, talvez, a mais difícil a ser feita, já que com tabu não se discute. Mas precisamos. Precisamos desconstruir a noção disseminada que pessoas com deficiência não são aptas a decidir sobre suas vidas. Precisamos desconstruir a idéia de que sexo é exclusividade de pessoas que se inserem no padrão que a sociedade avaliza. Precisamos debater a noção de que existem corpos que “não servem” pra o prazer. Precisamos incluir, precisamos visibilizar, precisamos ouvir. Precisamos sair do paradigma da sobrevivência digna para o da existência gozada.

E como dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, temos a Jane Fonda em Amargo Regresso, com seu amante paraplégico, pra não nos deixar cair no moralismo (pode ver aí)

E o que a gente faz com a moça capa-de-revista e o moço cadeirante? Não faz. Deixa que eles façam. Sexualidade e autonomia caminham de mãos dadas. Que entre eles exista (ou não) desejo, tesão, amor, sexo, afeto, apenas: não é da minha conta, não é da sua conta, não é da nossa conta.

patrícia*Patrícia Guedes é arquiteta, feminista, biscate militante e a favor do piriguetismo consciente.

PS. Nosso obrigada à Jussara, com quem conversamos e de quem pescamos umas boas questões.

PS2. Nosso obrigada à Renata Lins que lembrou da Jane Fonda <3

Armários

Por Everson Fernandes, Biscate Convidado

outro dia tava rolando um vídeo sobre saídas de armários…

no vídeo, uma mulher lésbica falava sobre os diferentes tipos de armários que precisam ter suas portas escancaradas. e, ok, é um vídeo e um discurso interessante, mas ‘sair do armário’ tem um peso diferente quando relacionado à orientação sexual. o fato é que, além de todos os outros armários, a saída do armário da sexualidade tem que ser feita, e refeita e reforçada e feita mais uma vez. e de novo. não é ‘uma saída do armário’. são várias, em ambientes diferentes, contextos diferentes, pessoas diferentes. porque sociedade heteronormativa é heteronormativo em vários ambientes e contextos. e sair do armário não é exatamente algo simples, fácil. requer muita paciência.

armários

caso 1: primeiro semestre de graduação. roda de colegas conversando no corredor. inicia-se o assunto sobre homossexualidade. alguém comenta que um casal homo iria influenciar na criação da criança, que também se tornaria homo. aí explico que ser criado por um casal hétero, conservador e cristão não fez com que eu me tornasse hétero. foi a primeira saída de armário na universidade. olhares de espanto; ‘mas você nem parece’, e lá vamos explicar um monte de coisas.

caso 2: balada. tô no fumódromo, fumando, encostado na parede, sozinho. uma moça vem bater papo comigo. conversamos pelo tempo o suficiente de um cigarro. nome, o que faz, onde mora e aquela coisa toda. ela pergunta se eu sou solteiro. respondo que não [na época não era]. pergunta se estou com namorada. nesse momento, aparece o rapaz. apresento a ela. cara de espanto. e sai.

caso 3: balada. encontro ex-colegas de aula. fico com um rapaz. os ex-colegas olham espantados. final da noite, vamos para a fila acertar a conta. tudo bem enquanto não tínhamos contato físico. nos abraçamos, os dois rapazes que estavam na frente olham atravessado. um se afasta e fala pro outro “vou esperar na rua porque não aguento ficar no mesmo ambiente que ‘esse tipo de gente’”. aguardo outra manifestação pra revidar. não aconteceu.

dava pra listar mais alguns casos, mas tá ficando extenso já. mas é isso, não existe uma ‘saída de armário’. nem mesmo do ‘armário da sexualidade’. e essas saídas se tornam desgastantes. e, às vezes, ficar no armário não tem nada a ver com não-aceitação, homofobia internalizada. pelo contrário: é questão de auto-preservação, ou cansaço. apesar de que a ‘saída do armário’ seja um ato político importante, ele precisa ser feito quando a pessoa se sente segura de que pode lidar com o que se seguirá. a saída de armário compulsória é mais uma forma de opressão e violência. tirar alguém do armário é violência.

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*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

A intimidade de uma lua no ascendente

“Intimidade é bem-vinda, não só de namorados”, disse ela, e foi como um eco dos meus próprios pensamentos. Eu já andava mesmo pensando em escrever algo sobre isso; em outro lugar, disse: “ou é com intimidade ou não será”. Não falava especificamente de relações amorosas – falava da vida. Das relações em geral. De um certo jeito de ser. Traduzia, de certa forma, minha lua ascendente: minha forma de chegar, minha “porta de entrada”, meu caminho nas relações é pelo viés da conquista de intimidade. É nisso que eu acho graça, é disso que gosto de brincar. Desde sempre. É esse meu desafio.

Intimidade implica uma certa sem-cerimônia, para além das convenções, e talvez por isso eu tenha ficado amiga de tantos professsores ao longo da vida – a distância protocolar da sala de aula nunca serviu pra mim. Talvez por isso é que eu diga – meio como provocação, mas sem deixar de ser verdade – que não gosto de casais. Gosto de pessoas que formam casais, eventualmente. De um, de outro, dos dois. Mas de um casal não dá pra ser íntimo, não é mesmo? De um casal-entidade, digo. Sabe, daqueles casais-simbiose, daqueles casais fusionais. Sempre juntos, com jeito e opinião coletiva. Dá pra ser íntimo de um, de outro: não do conjunto formado. Intimidade implica olho no olho. Difícil se são mais do que dois pares de olhos.

Intimidade: poder ficar em silêncio sem ficar estranho (e como dizê-lo sem lembrar dessa lindeza aqui?). Intimidade: rir sem precisar explicar, olhar sem precisar explicar – apenas levantando de leve as sobrancelhas. Intimidade: não precisar explicar.

É isso que me encanta, que me atrai, que me dá tesão: o cintilar do deus das pequenas coisas por trás dos gestos cotidianos. Paixão? Arrebatamento? Fogo consumindo? Por certo, como não. Mas o que completa, o que engancha, o que me pega mesmo é o presente que eu sei que foi pra mim, por alguém que tão bem me conhece. É o sentar no chão e compartilhar lembranças e dores, o deitar no colo porque o colo tá ali e fica fácil; é fumar um cigarro juntos, quietamente, cada um imerso em seus próprios submundos, olhando a fumaça traçar desenhos improváveis. É o “vi isso e lembrei de você”, “achei que você ia gostar” de ver, de saber, de provar, de ouvir.

Intimidade: delícia. Suave e envolvente. Cálida e aconchegante. Sopa morninha. Travesseiro. Esteio. Beira de rio. Caminho.
Intimidade: quem me conhece sabe. Ou saberá, quem sabe.

Eufemismos, medo e morte

No dia 22 de novembro de 2013, uma jovem de 17 anos foi morta pelo (ex)namorado, no interior do Paraná. As câmeras do circuito interno de vigilância do supermercado onde a jovem Letícia trabalhava captaram parte da cena.

Assisti tal notícia num jornal sensacionalista, do tipo Cidade Alerta. Sábado modorrento, de passar a tarde em casa depois de almoçar fora. Namorado zapeando canais da televisão. E de repente, no meio do meu sábado, dentro da minha sala, aquela cena.

Uma jovem sendo arrastada por um agressor. Se agarra a um homem, na porta do supermercado, implorando por socorro. O homem que a arrasta mostra uma arma, e o pequeno grupo de pessoas se afasta, impotente, com medo. Ou talvez pensando: “em briga de marido e mulher…”.  Eles saem. Todos na porta, olhando.   Segundos depois, ela volta, correndo. Escorrega. Cai. E é atingida por mais um disparo.

Isso foi transmitido na tevê.

Ao final da matéria, eu chorava. De dor. Desespero. Agonia. Raiva.

Durante a matéria, entrevistas com colegas de trabalho e com a mãe da jovem.

O (ex) namorado, de 21 anos, não aceitava que a jovem trabalhasse. Ou estudasse. Exigia que ela largasse o emprego. Não foi a primeira violência, aquela sequência transmitida em rede nacional.

E os repórteres noticiam: “mais um crime passional”.

Duas semanas depois, o Ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, ao analisar a autorização ou não para a investigação da agressão relatada pela esposa de um parlamentar, que o acusou de agressão e narrou que ficou apanhando por 40 minutos, votou contra, usando seu conhecimento em MMA para desqualificar o depoimento da vítima.

Segundo o Ministro, “Não só por experiência pessoal, mas porque tenho um gosto específico por esporte, o ministro Marco Aurélio também sabe que nem num torneiro de Mixed Martial Arts (MMA) se permite que uma pessoa apanhe por 40 minutos. Porque uma surra de 40 minutos é conducente à morte”, explicou Fux, que pratica jiu-jítsu. “Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, completou adiante, observando que o exame do Instituto Médico-Legal (IML) encontrou apenas lesões na mulher, como hematomas nos braços e nas pernas.”

Estamos participando, aqui no Biscate, da campanha #16DiasDeAtivismo pelo #FimDaViolênciaContraMulher e enquanto eu pesquisava sobre esses dois casos, para poder explicar qual a ligação entre um e outro, encontrei uma “matéria” com uma declaração do tio da Letícia Monique, dizendo: “Nós esperamos que isso sirva de exemplo para outras jovens que estão em um relacionamento complicado como este. Infelizmente, é um exemplo ruim”, lamenta o tio.

“Exemplo para outrAs jovens”, diz o tio.

“Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, diz o ministro Fux.

“Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, dizem tantos.

Lei “Maria da Vingança”, já ouvi homens dizendo.

Relacionamento “complicado”.

“Na hora, assim, da fúria, né? A pessoa não pensa… ai eu efetuei os disparos”, disse o assassino.

Uma jovem é morta, no interior do Paraná, por um homem de 21 anos. Crime passional – porque foi filmado, gravado, testemunhado, ele foi preso em flagrante e confessou.

Uma mulher é agredida por um deputado federal, durante um longo tempo. Podem ter sido 40 minutos. Para o ministro não houve crime, não houve sequer agressão. Segundo ele é impossível, inverossímil, a versão inicial da vítima — “a suposta vítima e a testemunha, empregada doméstica da família, teriam voltado atrás em seus depoimentos”, diz o jornal. Felizmente o STF entendeu, por 6 votos a 3, que existem indícios suficientes para a instauração de uma ação penal e atenderam ao pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para que a denúncia contra o deputado fosse recebida e o processo fosse aberto. Ele agora é réu.

Entre o tio da Letícia Monique e o nobre magistrado, doutor, ilustre e fã de MMA, nada em comum. E tudo em comum.

O pensamento é semelhante, o objetivo é semelhante: legitimar a ação do homem e agressor, e desqualificar as palavras da vítima.

Leticia já havia sido agredida antes. Na frente de amigos e familiares. Já havia sido arrastada pelos cabelos, na frente de casa, pelo Jean Albino. Na frente da mãe. O tio chama o relacionamento de “complicado”.

Letícia faz o que é chamada a fazer, para demonstrar que “não gosta de apanhar”: se separa do agressor. Termina o namoro.

Não sabe (ou talvez saiba) que aumentou em mais de 85% o risco de ser morta.

E morre.

Quando vamos ver a relação entre as declarações dos nossos jornalistas e dos nossos juízes (e nossas jornalistas e nossas juízas!) e as mortes de ao menos 10 Letícias por dia?

Quando vamos entender que Jean Albino não matou em um momento de fúria, sem pensar? Que ele pensou, e muito. Ele pensou, e muito, que Leticia era sua coisa, sua propriedade, sua posse. Que Leticia não tinha direitos sobre a própria vida, que não podia trabalhar, estudar, ter outros interesses na vida, salvo ele.

violencia contra mulher

Para a imprensa, um “namoro que terminou tragicamente”.

Para o tio, “um exemplo para outras jovens”.

E para os agressores, a declaração do Ministro: nunca vi murro de mão fechada não deixar marcas. E a suposta vítima tem apenas lesões.

Apenas. Lesões.

A mensagem que fica é: bata, mas não deixe marcas.

E se matar, foi apenas um momento de fúria. De um jovem desequilibrado. E não de um sistema, de uma situação, familiar e cotidiana, que afasta qualquer debate ou discussão ou conversa, e que coloca os autores de agressão física, verbal, psicológica, sexual, como monstros. Desequilibrados.

O jovem Jean Albino não demostrou arrependimento. Logo dizem: monstro. Ou então: apaixonado.

Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas.

Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.

Miosótis

Entrevista-depoimento com/da MIOSÓTIS*

Contra a violência as mulheres. São Paulo, 23/11/2013. foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

#fimdaviolenciacontramulher :

” Nome fictício:  (é uma flor.)

Situação: 19 anos, sem emprego, sem filhos, e sem relação com o agressor.

Relato da violência: Estava voltando para casa (4 km de caminhada a 4 anos) quando ao terminar de atravessar uma das ruas, um carro bateu em mim. O meu antebraço ficou encaixado no carro (meu corpo ficando em cima do capô) até ele parar, mais ou menos uns 100 metros do local da pancada. Depois, vários motoboys me ajudaram ligando pra minha família e depois ligaram para a SAMU. Estava muito mole e tentando recobrar a memória, mas ainda não estava sentindo dor alguma. Por alguma razão, que ainda tento entender, não quis processá-lo. Ele pedia muitas desculpas, mas continuava com um discurso de que eu também estava errada por estar a pé, por estar sozinha e estar andando à noite. Total imbecilidade. No hospital, apesar de terem tirado Raios-X do meu corpo, disseram que eu não havia quebrado nada. Uma semana depois voltei por sentir dor no antebraço, aí descobri que estava quebrado. Depois disso tudo fui a um hospital particular e engessei o braço e fiquei uns três meses achando que o osso iria calcificar, mas não havia jeito. Depois de quase cinco meses depois do acidente (até marcar e fazer todos os exames demora…), tive que fazer uma cirurgia de enxerto de células ósseas, do meu próprio quadril. Depois fiz um mês de fisioterapia e o braço parece bem melhor.

Situação do processo: Não o processei, mas ainda estou juntando as coisas para receber o dinheiro do seguro obrigatório do carro, que cobre acidentes, o DPVAT.

Opinião da vítima sobre o atendimento recebido: o posto de saúde falhou muito ao me mandar para casa com o antebraço quebrado sem eu saber. Isso agravou o estado do meu antebraço, pois se soubesse na hora, daria para colocar o antebraço no lugar e não perderia todo esse tempo com dor.

De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge?
Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”
……………………..
*Texto originalmente publicado em novembro de 2010

Somos, Todas, Maria!

*Texto que conta com a ajuda de algumas letras bem vindas de Luciana Nepomuceno. 

Nesses dias de luta, e ativismo pelo fim da violência contra a mulher, assistimos, mais uma vez, a repressão do nosso Estado, dito laico, sobre uma mulher. (leia aqui)

Ela se chama Maria. Maria, como muitas. Maria, como nós. Maria que sofre pelo aborto ilegal. Maria que tem seu corpo violado nas tantas esquinas desse país. Maria que pede, e clama, por justiça, e por um Estado que respeite o corpo das mulheres. Que se empenhe em tantas ações não realizadas de proteção e respeito à dignidade feminina. Que garanta, com preceitos e normas laicas, o direito de dispormos sobre o nosso corpo como bem entendermos. Um Estado que não fira à voz e a liberdade das mulheres.

Maria clamou por um Estado Laico. E foi reprimida por pessoas que ainda confundem laicidade e ateísmo. O Estado laico deve garantir e proteger a liberdade religiosa, evitando que alguma religião exerça controle ou interfira em questões políticas. Difere do estado ateu porque este se opõe a qualquer prática de natureza religiosa. Um Estado Laico deve garantir a liberdade religiosa, repete-se e esclarece-se: incluindo aí o direito à descrença. Um Estado Laico não pode e não deve ser pautado por concepções morais religiosas. Que estas rejam decisões individuais é o que o estado deve proteger, mas as mesmas não devem guiar as ações do Estado.

Maria adentrou à Câmara dos Deputados, numa audiência pública (pública? será que isso existe mesmo?) sobre aborto, defendendo seu direito de existir como mulher. De poder reivindicar. E ela reivindicou. Pintada de vermelho, consagrando o sangue de tantas mulheres mortas e violentadas por esse Brasil afora, ela gritou. E gritou, lá dentro da Casa que deveria ser do povo, a voz das Marias. Das Marias que querem poder abortar de forma segura. Das Marias que querem poder transitar com a roupa que quiserem sem serem violentadas por isso. Das Marias que somos nós, vestidas de vermelho todos os dias em que andamos com o nosso corpo cerceado por um Estado repressor. Por um machismo que mata milhares de mulheres das formas mais cruéis e repugnantes, diante do qual a sociedade ainda se cala.

Mas Maria não se calou.

maria

E os doutos deputados expulsaram Maria, com a mesma violência sofrida por todas nós no trânsito cotidiano. Maria foi expulsa pela segurança da Câmara, arrastada pelos corredores com seu sangue pingando pelas leis que não nos representam. Reprimida duramente por existir entre a casta engravatada do poder. Por dizer o que queremos dizer: deixe-nos ser mulher! e viver mulher com o corpo pungente e livre.

Os deputados não aceitaram Maria. Com o mesmo machismo que não nos aceita como mulher. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o Deputado Pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), pronunciou: ”enquanto havia apenas uma mulher apoiando o tema, a maioria do plenário da comissão se manifestou contra o aborto. Essa representatividade seria, para Feliciano, reflexo da opinião da sociedade sobre o assunto.” (leia aqui)

Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.

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