Muito pouco, quase nada

Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu clareza…

11698933_10153406344178704_6364370884065739482_o

Eu sei de pouquinho, quase nada. Sei a tabuada do nove, a regra das paroxítonas terminadas em ditongo, a fórmula química da água, as capitais do nordeste. Sei de lugarzinhos pra morder: queixo, pontinha da orelha, bunda, ombro, calcanhar. Sei de deitar na rede de dois, mãe e filho, dois amigos, duas irmãs, dois amantes. E balançar, como se o vento fosse abraço. Sei de pouquinho, quase nada: água de coco para desidratação, maracujá pra dormir melhor, beterraba, fígado e feijão pra quem anda fraquinha, manga com leite pra dar susto no antigo. Sei que andar de mão dada sua a mão, mas caber na mão do outro sossega a alma.

Sei de pouco, pouquinho, quase nada: do mar sei que não se bebe a água, que é cemitério bonito, que ensina a resistir no seu vai e vem, que acolhe o doce mas se faz sal, que convida a viagens, pra lá e pra dentro. Do mar, sei poesia. Do fogo, sei que baixo dá sabor e alto dá menino. Ou quase. Da lua, sei que míngua em mim, que brilha na letra do Vinícius e muda de cor na voz de Bethania. Dos ditados, sei que não se põe a mão na cumbuca, não se vai com muita sede ao pote e não se amostra com salto de égua véia. Mas vez ou outra, esqueço. Do sexo sei que sim – se forem dois ou mais querendo, e não – pra quem não quiser. Sei ainda, e compartilho com quem quiser saber, que o riso diminui a cama. Sei que babydoll de nylon combina com você e o abajur cor de carne não voltará a iluminar outras noites iguais. Sei muito pouco, quase nada, mas sei que o medo do ridículo é de se deixar pra trás, ou nós é quem ficamos.

Eu sei de muito pouco, quase nada, que não me dou ao respeito, que sou de todo mundo e todo mundo é de meu também, que sou rodada, rio alto, bebo e falo menos palavrão do que Marisa Monte, dou pra todo mundo mas não dou pra qualquer um. Sei que tenho o corpo da vida que levo e por tanto bem querer a essa, quero bem demais a ele. Sei sambar de ladinho. Sentar no pé da calçada. Beijar de língua. Que sou de Oxum. Sei abrir pernas, peito, caminhos. Do outro, sei a espera. Que o tempo do outro não é o meu, o desejo do outro não é o meu, que o como, quem, onde e quando do outro não tem resposta certa. E que tudo isso dói. E que tudo isso é vivo. E que tudo isso é vida.

Eu sei de muito pouco, quase nada: azeite com alho, queijo e goiabada, mostarda e mel, café com pão, tomate e ervas, farinha e, bom, farinha e a vida. Sei que refogar cebola pede tempo, que feijão pede molho, que carne pede ponto. Que é a estrada que ensina o passo, que lavar a burra é mais que deixar um bicho limpinho, que os pés de barro viram lama. Sei que viver é muito perigoso, mas que sempre há literatura como bálsamo. Ou forró.

Eu sei de pouco, nada, nandinha quase, sei que sou uma biscate qualquer, fácil, corpo desfrutável. Sei que nunca houve uma biscate como Gilda e que há jeitos de subverter a lei da oferta e da procura. Sei do tempo, dos afetos girassóis, que pra não envelhecer a opção é morrer. Sei de receitinhas pra depois do amor e que quando uma biscate sofre bom mesmo é ouvir Maysa. Sei do escurinho, da vida levada nas coxas, do moralismo sem bandeira política, do que não tem graça e se repete, mas sei também de noites porretas, da temperatura certa, das impressões do desejo e de que, ao fim e ao cabo, é divertido, gente! Sei de despedidas, que amar é dar o que não se tem, sei da dor, da culpa, do samba, dos relacionamentos e que as batatas são do vencedor. Sei das perguntas, sei dos espantos, dos labirintos, das máscaras, das escolhas e sei da escrita, de poder dizer: eu, Sardanapalo. Pouco, quase nada, mas me sustenta.

Sei de um nada, pouco, pouquinho: dançar arrochado, dois pra lá, dois pra cá, cheirar cangote, entrelaçar dedos, gemer baixinho, encaixar perna. Sei que é preciso ter o seguro: livro, comida, escuta. Que é preciso, vez ou outra, cair de boca, descer a lenha, bater o pino. Sei do café quente, da água de quartinha, do prato de alumínio, do milho assando na brasa, que eu já fui uma brasa, que minha vó já foi uma brasa, que a vó da minha avó também. Já fomos. Eu que sei de muito pouco, quase nada, sei disso: findamos.

Eu sei de pouquinho, quase nada: no por enquanto, eu vim aqui foi pra vadiar.

Fim de Caso

Meu bem,

Eu sei que passamos muitos momentos juntos. Bons e maus. Sempre flertamos, mas nos últimos meses estreitamos nossos laços. Você me confortou em muitas noites e como foi bom dormir aninhado no seu colo enquanto bebíamos uma boa garrafa de vinho! Andamos de mãos dadas pelas ruas, muitas vezes totalmente absortos em nós mesmos. Dividimos a cama, o café da manhã e o caminho até o trabalho inúmeras vezes.

Devo dizer que foi muito bom dormir e acordar com você nesses dias todos, acalentado nos teus braços. Sem você eu me sentia meio só, meio sem rumo. Deixei de fazer muita coisa para que você estivesse sempre ao meu lado e não me arrependo. Sei o quanto foi importante estarmos juntos nesses dias, nos conhecendo, nos tornando cúmplices e vivendo com ardor nossa relação.

Saiba que quando estivemos juntos, eu estive só com você. Ok, eu confesso que flertei com outros, alguns amigos seus, outros que você nem conhecia e vez ou outra saía com alguém que você odiava. Nunca foi pra te provocar, mas é que às vezes sua companhia me sufocava tanto e eu queria rodar por aí sem você.

Nos dias cinzentos e de chuva era ainda pior. Porque aí sim a sua presença entrava pelos meus poros e ia me tomando até que eu não pudesse mais respirar sozinho. E eu me cansava de ti e me deitava esperando que você entendesse a deixa e fosse embora me deixando só. Quando acordava e você não estava mais lá, eu te chamava e você voltava e a gente se enroscava num abraço longo e ficava assim um par de dias.

mulher partindo

Mas aconteceu aquilo que acontece com todo mundo que se relaciona tão apaixonadamente assim: o amor arrefeceu. Eu já não sinto mais tanto a sua ausência, os dias e as noites, principalmente, já passam muito melhores sem você. Sua companhia já não me falta e eu sinto que é hora de nos despedirmos. Eu sei que nada do que eu disser vai adiantar e o clichê vai aparecer, mas “o problema sou eu e não você”, “eu gosto de você, mas não quero um relacionamento agora”, “estamos em ritmos diferentes”.

Portanto, Tristeza, apesar de tudo o que vivemos juntos é hora de você seguir seu caminho e eu, o meu. Chegou a hora de nos despedirmos e aproveitar o que a vida tem de melhor e me relacionar com outros sentimentos. Chegou a hora de encerrarmos nosso ciclo tão intenso e cheio de desventuras. Acredito que ainda vamos nos reencontrar, mas espero do fundo do meu coração que demore.

Vestida de onça pintada

mulhertigre1

Carminha é vendedora de frutas lá em Pirapora, minha cidade natal, no sertão de Minas Gerais. Conhecida como “Mulher-Tigre”, na verdade, ela é mesmo uma onça! Há mais de 20 anos ela só se veste com roupas de estampa print animal, “inclusive nas peças íntimas”, me contou safadinha, da vez que conversamos.

“Me vestir assim é minha missão de vida”, disse, sem entrar em detalhes e me deixando mais atiçada ainda. A lenda que corre é que ela teve um marido abusador, que a maltratava física e emocionalmente. Belo dia, esse homem, metido a caçador, teria saído pela mata e sido engolido por uma onça. Desde então, Carminha assumiu essa espécie de luto perpétuo subvertido.

Até tentei confirmar isso que me parece uma história pra lá de instigante. Ela nada disse. Apenas riu.

Uns anos atrás foi publicado um texto apócrifo em Pirapora ridicularizando “personagens curiosos” da cidade. Carminha estava lá, num contexto de galhofa que misturava comentário sobre sua aparência e “piada” homofóbica sobre seus filhos.

Com que facilidade uma mulher se torna alvo de patrulha por não seguir um padrão, qualquer que seja ele, né? O do dress code cotidiano, por exemplo, sobretudo aquele apontado como o “mais adequado” a uma senhora. Ainda mais se tratando de uma senhora que, no folclore local, ao invés de render homenagem ao marido morto decidiu homenagear a onça que o teria devorado!

mulhertigre2

E por mais que eu fique tentada a dessa história escrever um conto, o caso é que, no final das contas, qualquer elucubração pretensamente literária esbarra mesmo nas perguntas mais simples: por que Carminha não pode se vestir da maneira que quiser sem contar ora com a condescendência, ora com o desprezo disfarçado de ironia por parte de alguns? Por que Carminha foi parar num panfleto covarde, porque sem autor, por sua maneira de vestir?

Ainda que seja amada na cidade, porque é, nem sempre as pessoas se abstêm da ironia ao se referir ao seu estilo.

O que me consola, nesse caso, é que ela não parece se importar nadinha com a opinião alheia. Porque ela passou ao largo do disse-me-disse machista e do texto barato e continua se mantendo fiel às suas escolhas de moda.Quer conhecê-la, é só ir lá em Pirapora. Da rodoviária mesmo basta perguntar onde fica a banca de frutas da “Mulher-tigre” ou ‘mulher onça”. Qualquer um sabe.

Recebe muitos presentes, de bichos de pelúcia a livros, de todos os lugares do mundo. Em um desses livros, me disse, aprendeu que há vários tipos de onça: grande, pequena, albina, mas que a mais valente é a onça pintada.

“Mais valente que o leão!”

A Dor é Minha e Ninguém Tasca

Por Katiuscia Pinheiro, Biscate Convidada

Nesses tempos de árdua luta por tantos Direitos Humanos me coloco na empreitada da defesa de um dos mais antigos deles: o direito à dor. Quero falar da humanidade de tod*as nós, do direito inalienável à dor e à tristeza. Daquela reserva de enfraquecimento à qual tod*s temos um quinhão e que tant*s julgam ser quase uma ofensa.

A passagem por um mundo racista, classista, misógino e homofóbico não é brincadeira. Onde falta afeto, sobra dor e quem nunca teve que lidar com isso não sei como conseguem, racionalizando ou evitando sentir). Eu não, não vegetei, nem racionalizei. Sofri e sofro mesmo, sempre que posso, sempre que a vida me “permite” ainda que contra a minha vontade. Mas vontade da gente é coisa que esse mundo menos respeita…

Me recuso a me sentir culpada por me desequilibrar, não vou rastejar o perdão de quem queria que eu fosse forte porque tem a ilusão de que seja. Não sou forte sempre…Mas sempre é daquelas palavras de gente que pra mim soa como mentir pra mim mesma. Não minto pra mim mesma, só quando eu digo que não faço isso…

Sim, é contraditório, e também complexo. Porque ao mesmo tempo você é a sofredora e sua própria redentora. Não, o príncipe não virá te redimir. É sozinha mesmo. Porque o príncipe não redime nem a ele próprio. Já caiu faz tempo do cavalo branco.

Sem príncipe e sem cavalo branco seguimos em frente na nossa dor que essa sim, é só nossa. Como o imposto de renda, que odiamos, mas é de nossa responsabilidade e fugir dele pode trazer tantos prejuízos futuros que é melhor enfrentar. Pagar logo essa merda, ainda que parcelada. E a merda fede. Fede muito.

Fede tanto que exala e incomoda quem está ao redor. Mas, quem não puder cheirar um pouquinho a merda do outro ai nunca amou, né? Porque se a gente fosse só Chanel nº 05 intoxicaríamos antes dos 30 anos. E eu quero chegar ao menos nos setenta, cheirando e fe(u)dendo, como todo ser que transpira em cima dessa terra. O problema é que alguns pensam que vivem em outro lugar. Talvez no paraíso, ao lado de Descartes. Anjos serenos e fortes que não sofrem e nem se desequilibram.

Eu, que às vezes me descabelo e choro, não me sinto à altura dessas pessoas. Tenho medo de altura. Tenho náuseas. E de náuseas, já basta a do ansiolítico. Prefiro mesmo sofrer de vez em quando e depois melhorar, depois levantar, depois seguir em frente. Mas nunca mais a mesma, nunca mais como antes. As sequelas são como as rugas: estão lá, e você escolhe(?) ligar ou não pra elas. Só isso.

Não vim pra cá pra repousar. Não ando com os dois pés no chão. Quem vive assim é estátua. Vivo mesmo como o Saci-pererê. Já não tenho as duas pernas.Não opero com 100% de mim mesma, parte ficou pelo caminho, parte trago comigo.Não sou fênix, não renasci das cinzas, trago-as comigo, sombreando um colorido inicial que só resiste por completo na tela de quem se blinda.

Não uso colete à prova de balas nem curto Romero Brito.Vou de peito aberto, tentando me esquivar. Sou uma tela toda manchada de cinza cor de sangue. Mas gozo, gozo muito em cima de uma perna só.

10481940_846432465423526_6050972462899631474_nKatiuscia Pinheiro se diz assim: leonina transfeminista, professora e tia. Ando com somente um pé no chão, de noite e de dia. Curto dançar, sexo e coisa e tal, mas ficar triste também é normal. Na alma tenho muitos defeitos, no corpo, dois peitos. E se a mídia não atrapalhar, vou envelhecer sem me estressar.

 

Do que precisa ser dito. E do quanto doi.

Imagem da campanha "Jovem Negro Vivo", da Anistia Internacional

Imagem da campanha “Jovem Negro Vivo”, da Anistia Internacional

Acho que o fato mais inusitado que me aconteceu essa semana foi falar num TEDx. De repente, depois de um convite nos últimos minutos do segundo tempo, me vi em cima do palco desse evento badalado, que corre o mundo, no qual você tem que mandar sua mensagem em alguns minutos, agradecer e implorar internamente para que sua fala tenha sido suficientemente inspiradora pra receber alguns aplausos e, quem sabe, até tocar as pessoas.

Dessa experiência, poderia discorrer sobre vários aspectos. Sobre o que é falar num TEDx, ainda mais nesse, com recorte de gênero: TEDxSãoPaulo Women, que acontece no mesmo dia em vários países. Poderia falar do que é palestrar no auditório lotado do Masp (Museu de São Paulo), onde você põe aí umas 500 pessoas sentadas.

Poderia falar do quanto foi emocionante ouvir e conhecer mulheres tão bacanas, generosas, engraçadas… Poderia até contar do conteúdo da minha palestra.

E até vai ser um pouco isso. Mas, também é outra coisa. Mais particular. Em resumo, o meu relato foi assim: contei da minha autoidentificação étnica, da epifania que representou uma experiência específica de racismo que vivi com o meu filho mais velho e finalizei falando do genocídio de nossos jovens negros.

Segundo dados da Anistia Internacional, todos os anos morrem 30 mil jovens no Brasil. Desses, 77% são negros. O que dá mais de 23 mil jovens negros assassinados anualmente.

São 64 por dia. Mais de dois por hora.

Por que permanecemos em silêncio diante desse genocídio? Por que não estamos protestando, nas ruas, com indignação? Como podemos deixar de ser cúmplices desse extermínio? O que podemos fazer pra criar uma sociedade mais acolhedora, amorosa e livre de preconceitos para nossos jovens negros?

E aí, na noite de quarta-feira (27), véspera do TEDx, fui conversar com o meu filho mais velho sobre o evento, o que ia falar, etc e tal. Afinal, ele tem sido minha inspiração quando abordo esse tema.

Pois durante a conversa, me dei conta que falar essas coisas pra 500 pessoas (além daquelas que acompanham na transmissão online) é até fácil. Difícil mesmo é falar com o meu filho.

Como dizer a um adolescente que, todos os dias, ao sair de casa, ele está vulnerável e exposto a diversas formas de violência, incluindo o risco de morte, já que a despeito de sua condição social, o racismo não poupa ninguém?!

Quando vi, estava minimizando meu conteúdo ou usando mil eufemismos pra narrá-lo. Parecia que eu estava guardando minha assertividade apenas pra plateia do TEDx. Com ele, falei tranquilamente da primeira parte até o episódio de racismo que vivemos juntos (quando o segurança de uma doceria famosa aqui em São Paulo o retirou pelo braço do local), mas, fui ficando mais genérica, sem entrar em muitos detalhes sobre o extermínio.

É muito, muito duro mesmo dizer isso. Terminei a conversa reiterando o quanto adoro e tenho orgulho de seu cabelo black e que ele é lindo. Porque, de fato, é. Mas, naquele momento, talvez pelas emoções já afloradas pela tensão da palestra, não consegui ser mais específica. Não é fácil.

Perguntei se estava tudo bem pra ele que eu contasse a história da doceria publicamente, nesse contexto. Ele me devolveu um sorriso orgulhoso e cúmplice, respondendo:

“Só não divulga a minha foto!” Vontade, bem que eu tive. 😉

Aproveita e acesse a campanha da Anistia Internacional “Jovem Negro Vivo”. Assine o manifesto!

A música é porque ele pediu!

Começar de Novo….

fuckthisshit

Tive aos menos 4 momentos de viradas na minha vida. Momentos em que fui forçada a me reinventar pra sobreviver aos acontecimentos externos: gravidezes, separações, mortes.

Mas, também, finalmente superei a morte de um sonho: a carreira. Como milhares de brasilienses, sonhava em fazer carreira em um órgão público. Poderia se dizer que logrei êxito: passei num concurso e tomei posse, mas em 9 meses meu sonho se tornou pesadelo. Sofri assédio moral com gritos e berros, e eu, que sempre me achei inteligente, sempre fui reconhecida assim pelas pessoas, que no emprego anterior era reconhecidamente competente, fui chamada de burra, incompetente e, pior, preguiçosa. Autoestima virou pó.

Somado a outros fatores da minha vida naquele momento, esse contribuiu para uma depressão profunda da qual só vislumbro sair agora, mais de 2 anos depois. E na terapia tive de rever o tal sonho  de carreira. Terapia é vida.

Pois bem, é preciso muita força para admitir que não tenho mais esse sonho, que não ligo mais pra isso, que quero fazer outras coisas e achar outros caminhos na minha vida. É preciso também força interior para lidar quando te olham com desdém porque você não é nada, e não é mesmo, mas tá tudo ok, porque não é isso que importa. Vou lá, trabalho bem minhas horas diárias contratadas, e tchau. Não quero mais fazer do emprego que paga minhas contas o centro da minha existência. E isso está bom para mim. Quero descobrir outras coisa fora de lá.

Isso foi difícil decidir,  porque na vida moderna é o cartão de visitas do seu trabalho, o seu crachá, o seu currículo ou o seu lattes que definem grande parte do que o mundo externo vê e respeita em você. Aí é preciso desapego desse respeito, dessas convenções, desse desejo de reconhecimento externo para ser só você de novo em busca de você. De se sentir bem com você mesma e fazer algo que dê a você sentido e retorno. Seja lá o que for esse retorno. E porque o que importa menos é dinheiro e posição e mais paz de espírito e tempo pra se fazer o que gosta e estar com quem se ama.

É difícil fazer tudo isso quando você achava que aos 40 e poucos estaria tudo definido. Mas, olha que legal, aos 40 e poucos você sabe mais quem é você e as possibilidades estão todas abertas de novo.

É isso. Tudo pode ser recomeçado de novo.

Talvez um sorvete…

Queria nada, não. Outro dia mesmo, numa dessas megas torres blaster última geração que rasgam os céus da cidadona, mal consegui usar um elevador. Sim, um mero equipamento moderno. Sem botões, não sabia como subir, indicar andar, descer, parar. Bastava entrar e a máquina lá: prum. Minha cara de idiota e espanto.

Nem o celular sei usar. As “mileduas” pastas de arquivo, página de downloads, reconhecimento de voz,  aquele escarcéu todo de possibilidades. Queria era só fazer uma ligação, talvez: “cheguei.” “tudo bem.””como vai.”. Talvez usar a internete. Talvez um sorvete.

82558-050-5E6FEC9C

A televisão? Ela grava, assovia, filma. Tem mais recursos que meu cérebro inútil, parado no tempo, perguntando a hora do jogo e preocupado porque vai perder o horário do filme. Queria nada, não. Ou talvez queira, porque nesse mundo tem sido assim o querer sem saber porquê. Nem a maldita regra do “por que porque porquê”…

Queria era um sorriso, talvez. Daqueles repletos, mesmo quando repete piada. Queria era um pau calibroso, durão, bonito, sempre a postos, sem que a porcaria do cartão de crédito ou a flacidez de ânimo estivessem ali, na espreita, na companhia, querendo algo que não sabe o quê. Queria era só um sorvete, de suco com água ou leite, congelado – sem gourmet, mesmo que feito daquela groselha antiquada.  Queria ler livro de papel, jornal de papel, mimeógrafo e colar cartaz de campanha política em poste, com soda cáustica e um cadinho daquela farinha de milho da embalagem amarela na calada do noite. Queria beber sem pressa mas no bar de sempre, sem deixar as calças numa cerveja super gostosa com preço de champanhe e retrogosto de alguma obra do romero brito.

Enfim, ando desconfiado que não caibo mais, não visto mais, não sonho mais, não quero mais…

Nessas horas, confesso, o único remédio possível é recordar, mastigar, saborear memórias, afetos, dengos e de sexos – molhado, amplo, geral, irrestrito, com sabor de quem chupa e se lambuza numa manga amarela doce, veludo, fiapo. No fundo, a tabacaria deveria ter o cigarro, a cerveja e uns libretos de foda.

A caretice é a última carta da tal mão invisível do mercado. Uma mão que não te masturba, mas só nos fode trazendo o prospecto das últimas novidades super lindas das torres de elevador inteligente internetes de oito mil gês e cacetes infláveis com pílulinhas azuis de um matrix sem fim….

the-matrix-papel-de-parede-kboing-pictures-475868

 

Além da piscadela…

Tem uma música do Caetano que diz em um de seus versos algo como “eu retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon, eu sei o que é bom.”. Durante os anos de colégio, colégio classe média mas bem na média de São Paulo, era comum os meninos caçoarem Caetano: “é gay.” Aliás, a ofensa comum era a associada ao gostar de alguém do mesmo sexo: gay, sapata, bichona, marica. Demorou muitos anos para que eu entendesse o “eu sei o que é bom” e que retribuir a piscadela do garoto do frete pode ter pouca cousa, mas bem pouca mesmo, a dizer sobre gostar de transar com homens ou mulheres. Tem a ver é com prazer, com empatia, com desejo e do reconhecer que o sexo deve ser gostoso, ainda que a gente não tenha a experiência ali na hora, no instante, no momento seguinte ou que nunca venha a ter, ou querer, nada além da piscadela.

Menino aprende desde cedinho a reprimir. Menino não acha menino bonito. Homem não acha homem bonito. Homem não beija homem. Retribuir a piscadela do garoto de frete, então, é atestado.  É um mundo obviamente equivocado aquele que consegue admitir que uma criança possa jogar um jogo eletrônico com o objetivo final de cortar a garganta do “inimigo”, com o sangue jorrando pela tela, mas não possa olhar outro menino e achá-lo… bonito.

alguma-coisa-t-fora-20-728

Este tipo perverso de repressão é que todo olhar passa a ser expressão da libido, de um desejo sexual. Um beijo nunca mais será só um beijo, uma expressão de se gostar, de prazer, de carinho. Perdemos a capacidade de sentir prazer, de gostar, e do carinho pelo que os outros sentem – o que importa é nossa percepção e só ela. Ali na piscadela, sabemos, há um convite, mas há sobretudo a possibilidade de prazer do outro. Um prazer que sabemos que deve ser bom, mesmo que não seja a expressão do meu desejo, do meu querer, do meu tesão.

Toda a repressão, desconfio, tem uma intenção egoísta, que nos afasta do coletivo. Tenho uma triste intuição que estamos naufragando numa sociedade onde o coletivo está sendo é formado por egoístas, um medonho paradoxo que resulta nisso que vemos todos os dias: o bullying sistemático com quem está fora da ordem.

Devíamos ouvir mais Caetano. Como cesta básica.

NOTA DA GERÊNCIA: E ler este texto de outra biscate que tá por aí, por aqui, falando de cuidar de meninos.

 caetanoveloso

das coisas que nem o meu cachorro aguenta mais

Por  Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

choque de realidade is so last year: a moda agora é choque de ficção — vejamos:

a moça, entediada com um desterro que atende pelo nome de uma cidade serrana bicentenária, resolve gastar seu sábado a noite levando seu cachorro para passear — pelo menos tá bem mais fresco, dá até para usar um modelito de outono em pleno verão e, na falta de coisa melhor, se distrair é com isso mesmo.

atravessa a famosa praça de eucaliptos da cidade e chega na calçada ao longo do rio e, no ziguezague do seu cachorro bumerangue, que não decide se faz xixi na árvore, ou no poste, ou no meio-fio, ou na grade da ponte — veja bem que a cidade mais tediosa do universo jamais será entediante para um cachorro, um dia serei sábia assim — e ela acaba caminhando ao lado de um moço que está de papo no celular.

normal, ela segue seu ritmo, mas acaba que o moço também segue o dele e coincide que eles estão indo na mesma direção e na mesma velocidade. e a moça então ouve o moço ao celular:

— é, mas isso porque eu sou homem direito, quero ver o que ele vai fazer quando aquela pirigueti da filha dele comecar a dar pra todo mundo, quero ver se ele vai continuar achando que eu não sou ninguém. mas aí também, como ela já deu pra todo mundo mesmo, quem não vai querer ela sou eu.

e ele continua a conversa nesse mesmo nível de antice, e a moça fala para dentro de si mesma ‘ignora, hoje você está a paisana, ignora, faz de conta que você não está ouvindo nada, ignora…’, mas eis que o cachorro ziquezagueia entre as pernas do moço do celular e pronto: mais um choque de realidade no mesmo fim de semana.

— desculpa, moço, ele é assim, o gps dele veio com defeito de fábrica e ele anda em ziguezague, foi mal.
— magina, cachorro é assim mesmo (responde ele automaticamente enquanto, também automaticamente, dá uma avaliada geral na produção de outono veranil da moça)
— mas me desculpa mesmo assim.
— mas foi bom, pelo menos eu parei de falar no celular e pude reparar em você *xaveco de oportunidade detected*
— ha-ha…(sorriso protocolar e educado da moça)
— meu nome é flavio, e o seu?
— meu nome é pirigueti.
— como?
— pirigueti.
— como assim? (e olha para o cachorro como quem procura um outro olhar que compartilhasse a sua impressão de que ele só pode ter ouvido errado. encontrou um olhar de paisagem canino, muito parecido com o dos humanos, só que aquele era de verdade: ele tava com olhar fixo no matinho mesmo, o qual cheirava naquela fissura canina de quem pretende investigar o cheiro até o nivel do dna das folhas.)
— é isso mesmo. meu nome é pirigueti. primeiro nome. o sobrenome é ‘que dá pra todo mundo`. ou seja, meu nome todo é Pirigueti Que Dá pra Todo Mundo, prazer em conhecê-lo.
— (silêncio constrangedor, até que o moço arrisca) você tá me zoando né? mas gostei de você. voce é sincera, e direta, gosto disso.
— não gosta não. eu sou sincera e direta como toda boa pirigueti que dá pra todo mundo é, e que eu acabei de ouvir você falando mal de uma pessoa que era pirigueti e também ouvi você dizendo que, depois que ela desse pra todo mundo, quem não ia querer saber dela era você. então decida em que momento você tá sendo falso: se é agora, pra me cantar, ou se era no telefone.

o cara para de andar e olha pra moça, espantado. a moça para de andar, em solidariedade. o cachorro, coitado, não tem opção, né, tá na coleira. e o moço pergunta:

— quem é você? de onde você veio?
— meu nome é Pirigueti Que Dá Pra Todo Mundo Mas Não Pra Qualquer Um, e eu venho do planeta Onde Quer Que Tenha Machismo Eu Não Me Calarei.

o cara continua olhando com cara de WTF e, quando a moça achou que ia ouvir um monte de merda, ele diz:
– e o salsichinha, como é o nome dele?

FIM.

ImagemPostFabiMotroni

FabianaMotroniBSC

 

*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste a um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

 

Amor de carnaval

Por Beth Salgueiro*, Biscate Convidada

confetes-e-serpentinas-1453247439428_615x300
Conheci o amor da minha vida no carnaval.

Minha casa em Olinda sempre foi pouso de viajantes dos quatro continentes, especialmente no carnaval. A turma chegava dez dias antes, mas com um mês a gente já arrumava a produção das fantasias, a maquiagem, listava o roteiro dos blocos, contratava a cozinheira que ia fazer o alimento salvador da ressaca, e principalmente definia quem vai dormir onde ou com quem. Tinha uma regra, sutil e não verbalizada, no carnaval: todo mundo estava sem compromisso, disponível pro que pintasse. Sem críticas nem cobranças. Essas hospedagens aconteciam em todas as casas, não só na nossa. Afinal era Olinda e era carnaval…

Então, naquele ano, o aniversário da amiga com quem eu morava caia justo na semana pré. Por isso a gente resolveu fazer uma festança caribenha na nossa casa, convidando amigos e o povo de fora que tinha vindo pro carnaval. E foi aí que ele apareceu. Eu não o conhecia. Era um homem comum, muito moreno, com cabelos compridos e encaracolados, mais ou menos da minha idade, com umas roupas que nunca tinha visto em ninguém antes, super modernas e descoladas. Me amarrei de cara. E ainda por cima, ele foi o rei da pista. Dançava com o corpo inteiro aquelas salsas, todo naturalmente sexy. Não estava se exibindo, mas chamava a atenção da mulherada com aquele charme avassalador. E eu pensei comigo: eu quero esse homem. Ele vai ser meu, pelo menos nesse carnaval… Fiquei por perto, na espreita, porque minha sedução é sutil, mas nem precisei me esforçar muito, porque ele também ficou a fim. Então a gente dançou a música seguinte e a outra, bebendo tequila, e virou a noite se agarrando pelos cantos, aos beijos, e amanheceu andando pela rua e parando pra se pegar e adormeceu na minha cama, cheia confetes e purpurina. Acordamos tarde e tão na boa, que  foi a primeira vez em muitos anos que não me arrependi no dia seguinte de ter dado trela pra um cara que conheci de noite. Pensei: cara, é esse…

Então, nesse carnaval criamos uma redoma transparente que envolvia nós dois. A gente estava no meio dos amigos mas sozinhos um com o outro, vivendo aquela paixão, experimentando de tudo, adorando o toque, o cheiro e sabor do corpo um do outro, alheios a qualquer coisa que não fosse nosso tesão. Me entreguei completamente àquela paixão. E ele também. Todo mundo em Olinda sabia o que acontecia, porque era tudo muito explicito, mas a gente não estava nem ai.

Na quinta feira depois do carnaval, ele foi embora. E eu fiquei despedaçada. Já tinha tido outros namorados de carnaval, e sabia que era assim mesmo, coisa passageira, sem futuro. Mas daquela vez era diferente. Então na semana seguinte fui encontra-lo na casa dele, no Rio. Ficamos uma semana em lua de mel, com o coração estourando de amor, mas eu precisava voltar. Vocês já namoraram no telefone? Pois foi o que aconteceu. Todo dia, ligações de três, quatro horas, que estouravam a conta no fim do mês. Mas que nunca bastavam. Um tempinho depois ele veio de mala e cuia. Vendeu tudo, fechou a budega e se mudou. E nunca mais a gente se desgrudou.

Com ele eu tive os maiores prazeres, os melhores orgasmos, a mais completa cumplicidade possível com outro ser humano. Com ele eu briguei muito, às vezes briga feia de querer ir cada um pro seu lado, mas sempre conversando porque ele também era chegado numa DR. Juntos aprendemos muito sobre nossos corpos, sobre amizade, companheirismo, respeito e entrega. Foi uma relação construída a cada dia. Nunca casamos, mas ele foi meu amado por muitos anos, meu parceiro de trabalho, cama e mesa, com quem tive filhos e netos. Até que ele fez aquela longa viagem, aquela que a gente deve fazer sozinho, e me deixou.

Mas ele tá por perto, eu sei, principalmente nessa época. E confesso que ainda fico de calcinha molhada só de pensar nas nossas brincadeiras juntos. É meu amor, que conheci num carnaval.

Beth_SalgueiroBeth Salgueiro já fez tanta coisa nessa vida que nem dá pra dizer aqui. Seus pés estão fincados no chão, mas a cabeça continua nas nuvens e as antenas todas ligadas no futuro. Ela diz que é feliz por estar vivendo nesses tempos contraditórios.

De carnaval, de verdades e dores de cada um

“Fácil, não é? Você me conta tudo e assim se livra da culpa.  Isso é egoísta, eu ficaria muito melhor se você ficasse calado e guardasse a culpa para você. Mas tem essa história de verdade. A verdade é superestimada”.

(Norma, em “Felizes para sempre?”)

Achei espetacular essa fala aí, da personagem interpretada pela Selma Egrei, que é uma grande atriz, dita com um misto de raiva e desprezo pro marido. Porque toca em um ponto essencial: tem quem conta, tem quem ouve. O que a gente conta não tem a ver com o que o outro ouve, necessariamente. 

Me lembrou da primeira vez que eu tive contato com essa questão e seus meandros. Eu tinha 17 anos e um namorado que não gostava de carnaval. Fui pra Olinda e ele ficou aqui. Tomei duas doses de pau do índio (favor não fazerem isso) e fiquei com outro cara o carnaval inteiro.
Fiquei, e era carnaval.
Quando voltei pro Rio, a primeira coisa que fiz foi contar pro meu namorado. De supetão. Era uma história de carnaval, pra mim tava claro. Não era nada sério. Só brincadeira.
Aí eu vi que  a discussão da “verdade”, nessa história aí, não fazia sentido nenhum. Que o que eu tinha vivido não era o que ele escutava ou sentia, e que nada, nada justificava a dor que eu causava a ele, com a desculpa de “ser sincera”. Na minha percepção, eram várias dores, inclusive, em camadas: uma era o fato concreto, eu com outro cara, que ele ficava revivendo e com o qual se torturava. A outra era a dor dele ver que eu não estava penitente como ele esperava. Não era que eu não sofria: não queria estar causando aquela dor a uma pessoa de quem eu gostava, claro que não. Mas era isso, eu tinha ficado com um cara no carnaval. Não considerava aquilo tão grave, não me sentia tão culpada assim, sentia o abismo que havia entre a minha percepção e a dele, e que só aumentava a cada conversa.
E foi isso, um desentendimento só. Uma conversa e uma verdade que não existiam, verdades que se esbarravam e que se machucavam uma à outra.
Esse texto não pretende dar lições de moral a ninguém, claro. Cada um sabe dos seus acordos e das suas possibilidades. A intenção aqui é só pensar um pouquinho mais sobre esse assunto fugidio, a “verdade”, o que se diz, o que se cala, como um sente, como o outro recebe. O que é possível partilhar, compartilhar, viver junto. O que não é. O risco permanente que é viver no mundo, se expor no mundo, aparecer. As escolhas que se faz, as consequências dessas escolhas.
Não sei, de verdade, nem quero discutir, se se deve ou não contar, o que se deve ou não contar (porque, é claro, o buraco é muito mais embaixo, e a gente pode se encantar de forma plena por outra pessoa sem nunca ultrapassar os limites impostos pela moral vigente. Isso pode. Ninguém discute.). Acho mesmo que cada um sabe de si. Do que sente, do que faz. De como lida com isso. Mas estou convencida de que certas sinceridades servem apenas para tirar o fardo da culpa da pessoa que resolve ser sincera, e jogá-lo em cima da outra pessoa. E vale a pena pensar um pouco sobre isso. Tudo são escolhas, sempre. Narrativas, cada um tem a sua. É tão mais fácil classificar e categorizar. Fica parecendo tudo tão arrumadinho. Só que não.
Carnaval

Ela, Ele

coragem

Era uma vez uma coragem. Tantos contrários. O dia e a hora. Ele, menino ainda. Ela, já tanto. Ele, reserva. Ela, escândalo. Ele, pensamento e ela, um grito. Ele, a caminho. Ela, a própria estrada. Não era tempo, sabia-se. Porque eram deste tipo: de saber. Pensavam, claro. Ela dizia: não, não, não, em noites de querer tanto. Ele? Ela não adivinhava, mas ele dizia os miúdos e se perdia nela, sempre. Ela, rubor. Ele, velho tênis e calça desbotada. Não era agora. Claro que não era. Apesar das flores e das letras tantas. Ele, olhares distantes. Ela, olhares pra dentro. Mas, se havia o querer. E havia. E havia. E tantas palavras fazendo carícias. E letras como línguas. Ela se pôs a caminho. Ele se pôs, apenas. Em esperas? O branco macio do abraço quase ofusca. Ela não diga que não se assustou. Pois sim, quase corria. Mas era uma vez uma coragem e ela ficou. Ele, arisco. Ela, esquiva. Não era lugar. Mas havia o querer. E havia mão que encontrava outra. Não pode. Não deve. E o querer? Havia. E mãos que viravam bocas e também se sabiam. Queriam. E havia ainda o refúgio das palavras e eles faziam de conta que. Que não era nada. Que não era demais. Que não era querer. Que não era. Era uma vez. Uma vez não conta. Era uma vez. Uma vez não conta. E seguiram. Como se nada. Como se não tivesse existido a coragem. Mas as estradas ficaram mais largas. E os caminhos mais curtos. Ela, mais menina. Ele, mais um tanto. E a distância virando pergunta. E a pergunta virando desejo. E o desejo, de novo, coragem. A coragem pede andança. Nem sempre ela vai, às vezes ela é o próprio atalho. E se despe, lenta, peça por peça, enquanto escreve, descreve. Ela, nua. Ele?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...