Na cama, na cozinha

(texto originalmente publicado no Feministas na Cozinha, surrupiado, revisto e ampliado pra biscatagem)

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E ontem eu jantei cerveja e sonhos e estrelas e tempo. depois dos rodopios ao som de “vem, morena” em várias versões (com gil e, claro, gonzagão) e um último giro com a fafá cantando filho da bahia (não me julguem, vocês nunca pensaram: “viver não é fácil, não, pergunte pra meu coração”) eu sentei com esta coisa de cozinhar na cabeça. Com esta coisa de que amar é um tantinho como cozinhar.

Cozinhar muitas vezes parece difícil, complicado, demorado e é tão fácil. Pratos com aparência sofisticada que nos custaram um forno amigo, uma taça de vinho pra acompanhar a espera e uma mesa bem arrumada. Às vezes amar é só um cafuné, um telefonema inesperado, um gesto cuidadoso. Peixe? Sal, azeite e fogo. Não tem erro. Massa? Manjericão e tomate. Mas daí a gente pensa: manjo! E, claro, é um erro enorme. Fica até mais bonito em  inglês, como aqueles filmes de final infeliz: terrible mistake, até parece uma sobremesa, né? É que amar também sabe ser difícil. Amar e ser amado são da ordem de uma pergunta e de uma falta e o que temos a oferecer é justamente o que não possuímos. Mas insistimos. Difícil como fazer pão. Tem que ter paciência e saber que tem uma hora, um processo, que não depende de nós, que é lá com ele e sua vida íntima. E que não é garantido. Mais ainda, é preciso saber que, ainda que tudo dê certo, pão pronto e saboroso, nossa fome não finda nele. A de momento, talvez, mas ela se renova.

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Preparando a sopa…

Amar é como cozinhar, ainda, porque se precisa dos ingredientes certos. Mas o certo não é, necessariamente, o óbvio. Alguém diz: ingredientes frescos! e logo penso em juventude e a pergunta: só os jovens amam? Porque é o que parece em tantas revistas e filmes mainstream, todos com a viçosa pele esticada e nenhuma bagagem. Mas aí eu lembro do queijo, do vinho, da carne de sol, tantos que são mais saborosos e intensos depois que o tempo faz sua parte. Amar é também para os que já tiveram seu sabor modificado pelos anos, pelas perdas, pelos sustos, pelos anseios, pelos medos, sim e pelas alegrias, pelas conquistas, pelo gozo, pelo suave apreciar do tempo passando ou pela ansiosa pressa de chegar antes dele. Bom, os ingredientes têm que combinar, outro insiste e eu concordo. Mas combinar é o quê? Sal com sal? Mas e o porco com abacaxi? O salmão com maracujá? O mais gostoso não é justamente quando a boca se surpreende num sem saber de gostos? Eu acho. Por isso gosto tanto de beijar. E comer. Por causa do inesperado.
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A minha cozinha oscila entre ser a das sobras e a do desbravamento. Como disse uma vez, é uma cozinha das sobras como o post da Nikelen indica, porque sempre faço um “a mais”, se depreende uma beleza do excesso, mas é, também, a cozinha das sobras no sentido de intuir que há mais sabor no dia seguinte, de aprender a aproveitar o que restou, de inventar utilidades e combinações para as porções que ficaram. É o querido restô d’ontê. Na cama, como na cozinha, gosto do exagero e gosto do dia seguinte, da intimidade, de deixar apurar. E é uma cozinha de desbravamento porque gosto da diferença, da descoberta, do inusitado. Provar o que nunca provei, sim, por favor. Me atrai a possibilidade de um sabor novo, uma combinação inspiradora, um tempero diferente.
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E nisso do amar se achegar ao cozinhar, tem, claro, a constatação que, nos dois casos, cozinhar e amar, insistimos nas receitas, mas suspeitamos, bem  lá no fundo, que isso é mesmo: mão. E seguimos na peleja: atenção, cuidado, autonomia, desejo, momentos a dois, momentos cada qual no seu cada qual e uma lista interminável de duas xícaras disso e três colheres daquilo. E, às vezes, a comida está feita, receita seguida, tudo no lugar…e tão sem gosto! Outra hora é o excesso que faz o particular: pimenta demais, sal de menos, cozido demais, ficou pouco tempo no forno e tá duro e, ainda assim, com todos os poréns, dá água na boca e sacia.
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Isso de se cozinhar é preciso ter vontade, como amar. E aceitar as limitações. E improvisar o omelete quando não há nada em casa a não ser temperos, ovo e um restinho de queijo. No amor, como na cozinha, os sentidos fazem a festa e é isso de ver-se e cheirar-se e lamber-se e saber a textura. Na cozinha, como no amor, o feito na hora tem vantagens, mas descobrir aquele bilhete, opa, aquele pedaço de torta na geladeira, meio esquecido atrás da garrafa d’água quando se está com desejo de doce, ai ai, é de deixar a perna meio bamba e acelerar o coração.
risoto de camarão

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 Resumindo, o resultado do amar é um monte de alteração no metabolismo, tal qual o resultado de cozinhar. E nisso de estrela, cerveja, suspiros e perguntas – em forma delirante como “ai, quando, quando e quando” daí a um o apressado come cru, (como minha avó alertava), mas eu gosto de sushi, retruco eu mesma – nisso de estrelas e fome e lembranças do que ainda nem sei se será, veio-me Adélia e é a receita que tenho a partilhar hoje:
Alimento da fome que desejo perpétua
Jonathan é minha comida”
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