PEC 241: O buraco é mais fundo

Por Luiz Antonio Simas*, Biscate Convidado

O buraco é mais fundo e exige análises não apenas conjunturais (essas são importantes, mas aqui vou me ater a outros aspectos). Baterei de novo numa tecla que me parece uma das chaves do problema brasileiro: a exclusão social no Brasil é um projeto de estado inscrito na nossa História como o mais consistente. A afirmação simples apenas constata que, com momentos raros de relativização deste processo, nós temos um Brasil que articulou estratégias em relação à pobreza fundadas na experiência que é o maior marco da nossa formação: a escravidão.

O fim da escravidão exigiu redefinições nas estratégias de controle dos corpos e coincidiu com os projetos modernizadores que buscaram estabelecer, a partir da segunda metade do século XIX, caminhos de inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados.

Essa prevenção contra a pobreza articulou-se também no campo do discurso em que atua a História como espaço de produção de conhecimento. Apenas elementos externos aos pretos, índios e pobres em geral – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a inclusão pelo consumo de bens, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los, ainda que precariamente e como subalternos, naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. É assim que o racismo opera no campo simbólico.

O problema brasileiro passa, em larga medida, pela manutenção do traço mais profundo da nossa formação, aquele que se revela ou se esconde em inúmeras variantes que, todavia, obedecem ao mesmo mote desde o século XVI: confinar, afastar, normatizar, negar, domar, usar, punir e descartar as sobras viventes, todas e todos que ameaçam o projeto predador e civilizatório das elites do Brasil, continua sendo a pedra de toque da ordem e do progresso nesse canto do mundo.

Nós somos um país que não conseguiu, como contraponto a isso, universalizar os direitos à educação e saúde públicas como princípios inegociáveis. Conseguimos apenas avançar circunstancialmente – e pouco – em um ponto ou outro.

O que a PEC 241 faz não é apenas desmontar o estado social brasileiro (ele mal foi montado, afinal). O que ela faz é consolidar o projeto que identifiquei no primeiro parágrafo deste texto e inviabilizar o Brasil como uma possibilidade de país que não seja o fundamentado na lógica acumulativa mais tacanha, na manutenção de privilégios, na domesticação dos corpos para o trabalho subalternizado e no descarte genocida destes corpos tão logo eles não sejam mais viáveis para a engrenagem do imenso engenho colonial do qual nunca saímos de fato.

O Brasil não tem exatamente deputados: tem, com exceções que confirmam a regra, senhores de engenho, bandeirantes apresadores, capatazes e capitães do mato que nunca saíram do século XVI e acabam de dizer o que seremos no século XXI.

fotosimas*Luiz Antonio Simas é historiador de formação, macumbeiro por vocação e contador de causos por ofício.

 

Os homens hétero e a linha de demarcação

Sentar em mesa de bar com uma penca de homens cis hétero acima dos 50 é ter que ouvir uma infinitude de piadinhas sobre a última ida ao urologista, o peso nas costas e similares.
Aí você pode sorrir e esperar passar (mas demora…..).
Ou você pode questionar, e vira barraqueira.

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Escrevi isso como status de feicebuque, e, à medida que recebia notificações, fui olhando pro texto e lembrando. E situando. E organizando, pra vir escrever aqui. Não era esse o objetivo – era apenas desabafar algo sobre a minha noite. E não se enganem: a noite foi ótima, foi agradável, foi divertida….  Falou-se de política, da nossa conjuntura líquida e tremelicante…. Era com amigos, pessoas queridas…. Mas teve isso.

Teve isso, tem isso. Isso faz parte. E, no caso, a mesa realmente só tinha homens acima de 50 anos. Mas arrisco dizer que, se fossem mais jovens, talvez não fosse tão diferente. As piadas poderiam ser outras: mas o conteúdo simbólico não iria mudar tanto assim. Homens hétero juntos: esse tipo de piada é tão corriqueiro.

Como comentei depois, o episódio – como tantos outros envolvendo grupos de homens –  me lembrou um filme do Claude Chabrol chamado “La ligne de démarcation”. Não achei o título em português, mas a tradução é ao pé da letra: “A linha de demarcação”. O filme é sobre uma cidadezinha francesa que, durante a ocupação alemã na segunda guerra, acaba sendo dividida em duas, uma parte ficando na zona alemã, outra na francesa. Pois então. Assim me parece o cotidiano dos homens cis hétero brasileiros (digo brasileiros porque me parece que aqui isso é particularmente marcado): uma eterna demarcação de zona. A hétero, em que se encontram, e o “lado de lá”. O “dos outros”. Arriscado e perigoso “lado de lá”. 

As pessoas da mesa certamente diriam (como disseram) que não têm preconceito, que estão do lado dos direitos dos homossexuais, que até têm amigos que…. E no entanto, fazem essas “brincadeiras”. Essas piadinhas. Todo dia, o tempo todo.

Em algum lugar já comentei que ser homem hétero é eterna vigilância. Como sentar, como andar, o jeito das mãos, a entonação da voz…. As roupas, o lenço (nunca jamais em tempo algum), as cores, o corte de cabelo… canso só de listar. Nunca saberia ser homem hétero, sério. Esse homem hétero padrão. É claro que existem outros, que fazem diferente: mas esses sabem que estão sujeitos a ouvir permanentes piadinhas sobre a roupa “de viagem”, sobre o jeito, sobre as cores. Sobre o que são, sobre aquilo de que gostam.

E, mesmo numa mesa dessas, em que, além de três mulheres, só havia homens hétero, uma boa meia hora se passou à base das piadinhas. Que giravam todas em torno do cu apertado. Apertadíssimo. Tão apertado que os dentes até trincam, imaginem. Deve ser difícil também, deve haver algum tipo de exercício específico pra manter o cu tão apertado. dessa demarcação. De como eram homens-machos. De verdade. De como estavam do lado de cá, e não do lado de lá. E por isso as piadinhas.

Fico pensando na educação que gerou isso. No “isso é coisa de maricas”, no “homem não chora” e tantas outras mais. Fico pensando na coragem de quem ousou assumir sua homossexualidade diante desse panorama. Nos motivos de quem não ousou. Porque não queria contar para os amigos de infância. Porque não queria perder esses amigos. Porque não queria decepcionar o pai. A mãe. Os irmãos. Tantos motivos pra não dizer.

Cheguei até aqui no texto e me deu vontade de chorar. Lembrei do Jean Wyllys que vive naquele ambiente inóspito da Câmara dos Deputados. Do que ele deve ouvir todo dia, toda hora. Da coragem, da firmeza.

Do momento em que ele se descontrolou diante de um crápula que exaltava um notório torturador da ditadura militar.

E acabo o texto aqui, porque acabou por conta própria, com uma homenagem a ele: Jean, seu cuspe foi nosso também.

E um recado amigo:
Homens cis hétero brasileiros, melhorem. Melhorem muito.

imagem daqui.

Gira o mundo, Elza!

Nesses tempos absolutamente macambúzios, tristonhos, é comum que a gente se sinta sem nada a dizer…

Esses momentos do nada a dizer são broca na moringa. Eles martelam. E como aquele gosto de ontem, depois do fogo destemperado, mas sem a glória de um evento qualquer. Um guarda chuva imenso, chuva ácida.

A gente acaba, sempre e sempre, esquecendo que o mundo gira, naquela antiga anotação: sempre a girar. Nesse giro é sempre um buscar. Não quero com isso tirar destas irresignações, desta raiva, deste inconformismo, desta tristeza, a sua intensidade brutal. Não é relativizar. Mas o mundo de ontem sempre foi pior, as fogueiras, as forcas. Desde que alguém patenteou o fogo ou resolveu escolher um deus em detrimento doutros estamos nessa lama destruindo rio. Talvez nunca superemos esse egoísmo, essa latrina da acumulação, a meritocracia – a verdadeira bazófia do planeta. Talvez…

Aí, nesse cantinho e noutros por aí, a gente acaba tendo aquela coceira de continuar a crer, acreditar, militar. Sou daqueles que acho que isso é mais gostoso se for melado, molhado, ereto, bolinante, em sussurros, gemidos, tesões, olhares. Trocas: de fluídos, de ideias, de corpos, de linhas, de comida com cheiro de refogar.

Tá… deve o texto estar naquele pretensioso, falso otimista e tal e lal lousa mariposa. Ok, vamos aos finalmentes, entrementes: O disco novo da Elza Soares. Um colosso.

Elza encontrou os meninos de São Paulo, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Marcelo Cabral. Nos versos cortantes do Passo Torto, na guitarra de Kiko que parece cortar, Elza – pra variar – se reinventa. A grande dama. A mulher do fim do mundo. A mulher excepcional. Desta vida e deste mundo que gira. E segue. Corre lá. São quarenta minutos de disco. Sairemos todos novos. É necessário: combustível. E como sexo, vital.

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Que Horas Ela Volta? Resenha

 Por Haline Santiago, Biscate Convidada

É a pergunta que aparece logo no início do filme, apresentando a personagem principal e já apontando que se trata também de um filme sobre mulheres-mães.

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Val, interpretada brilhantemente pela Regina Casé, é uma empregada doméstica do tipo “faz tudo” que mora com os patrões e sua vida é modificada com a chegada da filha Jéssica (Camila Márdila) em SP pra prestar vestibular. Val é uma personagem incrível, é divertida, afetiva, cativante. Val escuta a conversa dos patrões atrás da porta da cozinha. A cachorra da casa só anda atrás da Val. Val dedicou sua vida a cuidar da casa e do filho dos patrões, Fabinho (Michel Joelsas), pra poder sustentar sua filha que teve que deixar em Pernambuco. É muito presente no filme essa “terceirização” da maternidade: Val cuidou de Fabinho, enquanto a mãe dele (Karina Teles, ótima no papel) cuidou da carreira, enquanto a Jéssica foi cuidada por outra mulher lá em Pernambuco. Tanto a mãe da Jéssica como a mãe do Fabinho têm dificuldade em se comunicar e se conectar afetivamente com seus filhos biológicos. É um drama feminino que coloca em debate o próprio sistema que impõe escolhas complicadas para as mulheres que são mães, entre elas a de “cuidar da carreira ou se dedicar aos filhos?”. E, principalmente, é um drama social que evidencia a imposição, sobre mães pobres, de deixar seus filhos pra cuidar do filho dos outros. A diretora Anna Muylaert definiu como “um filme que trata da arquitetura dos afetos e simboliza os estratos sociais na sociedade brasileira”.

A minha primeira experiência coletiva (cinema) foi incrível porque as pessoas se emocionaram e bateram palmas para cenas em que a Val comete pequenas subversões, vamos chamar assim. A diretora conseguiu criar uma personagem tão legal e tão bem estruturada que mesmo quem não reflete sobre o filme sai amando ao menos a Val e identificando memória afetiva de suas próprias empregadas. Na outra sessão que assisti (sim, eu já vi DUAS vezes), uma pessoa saiu comentando como a Val era fofa e como ela queria encontrar uma (empregada) assim pra vida dela, já que hoje em dia tá difícil encontrar uma “boa”. Muita gente tem mesmo se lamentado que não existem mais empregadas como antigamente, não existem mais Vals (quem dera, infelizmente sabemos que essa situação ainda é mantida em vários níveis e relações pelo Brasil afora). Vivemos uma realidade em que as relações de opressão e exploração via serviço doméstico são tão naturalizadas no Brasil que a classe média encara como um direito “ter uma empregada”. Mesmo a militância de esquerda não problematiza com a frequência e a profundidade necessárias este tipo específico de vínculo empregatício e suas ramificações práticas e simbólicas.

E o filme segue mostrando um encontro de mundos diferentes, que oferece perspectivas diferentes através das personagens Val e Jéssica.

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Jessica é uma garota segura e sabe do seu potencial: foi estimulada por bons professores e vive no que podemos chamar de um “Brasil novo” onde é possível uma filha de empregada doméstica sonhar com o vestibular de arquitetura. Ela não consegue entender a relação de subserviência da mãe com os patrões. Essa cultura escravocrata que permeia as relações de trabalho no Brasil é tão naturalizada que as pessoas acreditam que existe um lugar que não é o delas, a que elas não podem chegar. Tem um diálogo (não é spoiler porque aparece no trailer) em que Jessica questiona a mãe sobre onde ela aprendeu tantas regras, que manual ela leu antes de trabalhar naquela casa e a Val responde que “a gente nasce sabendo o que pode e o que não pode”. Só que para Jessica não existe essa limitação, ela quer fazer arquitetura. Tudo pode. E dessa forma ela causa bastante desconforto, tanto com a mãe quanto com os donos da casa.

Regina Casé e Camila Mardila merecem todos os prêmios possíveis como atrizes. São atuações impecáveis e sensíveis que se completam. Os atores estão todos ótimos, no tom certo, na medida certa. A trilha sonora é muito bonita e encaixa perfeitamente nas cenas mais emocionantes do filme.

Que horas ela volta? podia ser mais um filme sobre desigualdade social mostrando todas as situações abusivas entre a classe média alta e as pessoas mais pobres, já seria um grande filme, com um importante recorte. Mas ele é genial porque mostra de forma sutil a relação entre patrão e empregada, o afeto da babá pelo filho dos patrões, os limites da casa com aquela pessoa que é “quase da família”. São muitas as cenas em que é esperada uma determinada situação e o que acontece é mais inusitado, evitando o clichê de patrões agressivos, mulheres histéricas ou filho mimado. Nada disso acontece. No filme da Muylaert, as pessoas não precisam ser agressivas ou abusivas porque a própria situação patrão-empregada já é abusiva. É a própria relação que está em debate, que deve ser problematizada, independente da atitude de cada personagem. Como disse ela na coletiva de imprensa em Berlim “Os negros se identificam, os latinos se identificam, todos se identificam. Essas relações de poder se reproduzem em todos os lugares”.

Leia tambémEu fui a filha da doméstica que entrou na Universidade

canção para minha mãe

quase da família

Que horas ela volta? e os sonhos de minha mãe para mim

e tem a página do filme no Facebook “Que horas ela volta?” não chegou na sua cidade? vamos até lá apoiar e fazer pressão para os exibidores apresentarem o filme em mais salas!

meHaline Santiago é ex nadadora, ex analista de sistemas, ex praticante de bodyboarding, ex de alguéns. Se define como queer as a funk, mesmo isso sendo uma banda. Atualmente é jornalista e editora da Revista Wireshoes https://wireshoes.wordpress.com/.

 

 

Alex, Angel e Complexo de Cinderela

Verdades Secretas tem feito muito sucesso desde a estreia e vem mantendo bons índices de audiência. A novela é bem produzida, a edição e a cenografia são de primeira. As cenas de nudez e sexo em vários momentos me remeteram aos filmes-clipes de Adrian Lyne nos anos 80/90 , como “9 e ½ semanas de amor” (saudades de Mickey Rourke gato). Mas novela é folhetim, é romance e daí que Angel é a nova Cinderela.

A nossa heroína, como toda boa heroína de novela, é linda, jovem, boa alma, bondosa (talvez daí o nome virtuoso Angel), carinhosa, estudiosa etcetera e tal, porém pobre e qual seu grande sonho (dela e de 99% das garotas da idade dela)? Isso mesmo, ser modelo. E aí, ao invés de ir limpar a casa e se recolher ao borralho, o que ela faz para salvar a família? “Book rosa”, e se prostitui por meio da agência de modelos (vamos frisar de novo que eu nada tenho contra prostituição, inclusive apoio a regulamentação da profissão e a mobilização da categoria, mas isso é assunto pra outro post).

E aí chega o príncipe que irá salvar a princesa do borralho, ops não é o príncipe é o Cristhian Gray… não pera… Enfim, chega o salvador-macho-dominador que irá tirar a Cinderela-modelete da prostituição. Aliás, não entendo a faceta hipócrita do público brasileiro. Duas senhoras casadas na novela das 9 é: ai-que-nojo-vamo-orar-e-desligar-a-tv-que-isso-não-é-de-deus. Um homem manipulador e castrador assediando uma jovem na novela das 10 tá de boas, porque ser prostituta de um homem só, rico e lindo a sociedade aprova, ele pode te comprar (ele falou isso), que tá tudo lindo, que você é como um bibelô. A sociedade não vê no cara bonito e rico, autoritário, estúpido, dominador etc. etc. uma má pessoa. ELE TÁ SÓ MUITO APAIXONADO. É O AMOR. Ah tá, que bom, ufa, pensei que era uma violência e relação doentia.

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E aí a Camila Queiroz (Angel),vai ao Faustão e diz que as mulheres a param na rua e dizem que torcem pelo amor de Alex e Angel. Migas, isso não é amor. É abuso. Favor assistir o vídeo da Jout-Jout umas 15 vezes seguidas e repitam comigo: ciúmes não é demonstração de amor é só machismo e sentimento de posse mesmo. É algo da estrutura do patriarcado (me deixa que sou de humanas) reforçar esse sentimento de posse, principalmente do homem com relação à mulher, essa valorização do ciúmes como um sentimento que denota grandeza quando na verdade é um sentimento de insegurança, mesquinhez e pequeneza. O ciúmes te mantém quieta e cordata, o que é o oposto de você dona de si mesma.

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Mas e aí, por que mulheres adultas, bem informadas, em pleno 2015, continuam achando que o príncipe encantado virá num cavalo branco ou numa ferrari vermelha,ou sei lá,  sendo ele um Alex ou um Christian Gray, homens dominadores e violentos, que só olham pros seus umbigos, e as salvará de tudo? Síndrome de Cinderela. Reparem bem nos dois personagens: ambos ricos, de sucesso e bonitos. Ambos se apaixonam pela Cinderela-mocinha, mas ela só terá o amor dele, príncipe, se o entender e ceder aos seus caprichos. Em troca, ele lhe dará milhões de presentes e serão muitos felizes até o novo lançamento de iphone (ou, seja, uns 6 meses). Ou então a Cinderela poderá persistir e resistir e mudar o amado, ma non tropo) e também viverão felizes até o novo Macbook ( 1 ano).

O Complexo de Cinderela foi primeiramente descrito por Colette Dowling, no livro de mesmo título, e é apresentado como o medo que algumas mulheres têm da independência, quando elas têm um desejo inconsciente de serem cuidadas por outros. O complexo é dito para se tornar mais evidentes à medida que uma pessoa envelhece. Recebeu o nome de Cinderela porque é baseado na ideia de feminilidade retratada no conto, onde uma mulher é bonita, graciosa, educada, apoiadora, trabalhadora, independente e difamada e invejada pelas outras mulheres (suas rivais), mas não é capaz de mudar sua situação com suas próprias ações: para isso, precisa ser ajudada por uma força externa, geralmente um homem, o príncipe.

E Colette Dowling continua: “Complexo de Cinderela”, que ocorre quando há um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá alguém para sustentá-la e protegê-la. Independentemente do vigor investido na tentativa dessas mulheres viverem como adultas, a menininha dentro de cada uma sobrevive assombrando seus ouvidos com murmúrios assustados. Essa crença se solidifica na medida em que vai sendo alimentada com o tempo, mantendo na mulher um enorme sentimento de inferioridade, causando insegurança com amplos efeitos, que resultam em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos, onde as mulheres tendem em geral a funcionar muito abaixo do nível de suas habilidades básicas. 

Me digam se o que está escrito acima não é a cara da Angel, da Carolina (mãe da Angel) e até da Fanny, que é a personagem melhor construída da novela (Marieta divando lindamente)? São todas mulheres esperando serem salvas pelo mito do amor romântico de um homem-provedor-castrador e para isso deixam de ver em si mesmas o que têm de melhor e serem simplesmente livres. Claro que as mulheres não desenvolvem esse Complexo do nada, porque são fracas, etc. É o que a sociedade nos incute, ensina, legitima e reforça (por meio, inclusive, de novelas assim). E, se a gente aplaude isso como amor, o que será que a gente faz com a gente mesmo? O que você entrega para manter o parceiro está dentro do seu limite? O que ele retribui? Você está feliz? O quanto você ainda é você dentro dessa relação? Essas são as perguntas a serem feitas, depois pergunte a si o que Jout-jout pergunta no vídeo e descubra se é amor ou abuso: afinal, Rodrigo Lombardi te salvando só existe na tv. O resto, se for daquele jeito, é um caminhão de cilada. Foge, Bino, você pode ser uma Cinderela de olho roxo, na melhor das hipóteses das estatísticas da violência doméstica.

Templo

Por Maíra A., Biscate Convidada

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Primeiro, os olhos se arregalam com o choque tantos corpos de mulheres que circulavam completamente nus e à vontade. 15, 20 mulheres muçulmanas deitadas e sendo ensaboadas por outras mulheres. Depois, a diversão de me juntar a elas e me deitar numa pedra morninha, que imediatamente aliviou as costas e quase me fez adormecer. Os olhos fechados aguardavam o desconhecido do próximo momento. De repente, duas mãos fortes e vigorosas começam a esfoliar o corpo espumante e quentinho. Depois, os cabelos são ensaboados, os olhos meio cegos são direcionados a uma bica e a água quente é fartamente jogada na cabeça. Enxáguo o restante do corpo e os olhos, atentos e relaxados, aguardam numa sala de espera. E então, um momento de redenção: uma mulher espalha um óleo natural de laranja no corpo completamente entregue. Os olhos se rendem fechados, enquanto cada recanto do corpo é massageado e os ouvidos são embalados por canções em turco, cantadas quase que num sussurro agudo e afinado. O tempo cartesiano se perde completamente: 30, 60, 90 minutos? Só é possível perceber-me em transe, quase que como num ritual religioso. O corpo é templo num tempo perdido. A lógica é suplantada por momentos tão introspectivos e profundos do corpo, que a mente se revigora na atenção em suspensão, proporcionada pela ausência da palavra. Onde a palavra falha, o corpo se manifesta e é acolhido generosamente em atitudes de afeto gratuito, vindo de pessoas que não falam a minha língua, mas massageiam e embalam a minha alma. O hamam suspende as burcas, o fluxo do pensamento e me faz reavaliar a minha suposta liberdade ocidental. Simplesmente não consigo pensar em lugares coletivos em que o corpo seja não apenas exposto, mas acolhido e cuidado por pessoas desconhecidas, com quem estabeleço laços de de gratidão. Logo depois, brindo a oportunidade de ter experienciado este momento lindo, olhando pra vocês e muitas emoções sentindo. Obrigada, mulheres! Ou melhor: Teşekkürler, kızlar!

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Gênero, Prisão e Potência

Por Pedro Moraes*, Biscate Convidado

A invenção do sujeito
Um homem é uma invenção de si mesmo. Uma narrativa, uma personagem construída pra se comunicar com o mundo e lidar filosoficamente com a própria existência, com a vida nua. Essa construção é tanto menos livre quanto mais nos são impostas amarras sociais, e parte importante da luta por direitos humanos consiste em deslegitimar algumas dessas amarras, em afirmar que é possível e razoável ser outras coisas, sem prejuízo de direitos. Vou falar, no entanto, do mundo dos privilegiados: o que é que somos quando podemos ser tudo? Se tais barreiras normativas são brandas ou ausentes, o que é que resta por querer, o que é que se escolhe? Pretendo demonstrar que esse dever-ser majoritário, hegemônico, não é o melhor que a vida tem a oferecer, e é, também, uma prisão. Não me interessa se auto-imposta ou não: elencar culpados e beneficiários parece, nesse caso, uma operação ociosa e essencialista, que desastradamente anula a historicidade, a culturalidade e a chance de criticar no plano ideológico esse estado de coisas (se se tratasse mesmo da essência de alguém, combater o fenômeno seria uma operação fascista; pelo contrário, é pura ideologia e desconstruí-la é um gesto libertário). Isto não é um ato cínico, indiferente à dor de quem tem sua igualdade negada – pelo contrário: o que proponho é que é vantajoso libertar-se dessa prisão e que por efeito esse gesto será também, necessariamente, pela liberdade alheia.

Interlúdio
Se tratamos de fronteiras complexas como poder e potência, diferença e igualdade, é bom esclarecer de onde se parte: como bom comunista comedor de criancinhas, acredito na igualdade como um positivo. Ela não é, porém, um fim em si, um absoluto: ela é a condição em que as potências humanas podem melhor se realizar. Tratamos da horizontalidade da estrutura social. Tratamos, noutras palavras, da igualdade política, que já se pode inferir, em verdade, nas ideias de república ou democracia (para mim, dizer-se comunista é levar às últimas consequências – comme il faut – essas ideias clássicas, que de outro modo seriam apenas cavalos de troia). É a diferença (ou a diversidade de modos de vida, de fenômenos e experiências) que eu assumo como um fim em si, um bem em si. Do surgimento da vida e multiplicação das espécies à criação acelerada de sentido pela arte, o que acontece de extraordinário no mundo é produção de diferença. O avesso é o deserto, a repetição, a estéril paisagem lunar, a morte. Então, tomemos a distinção entre poder e potência em Deleuze e a valorização da diferença e (não paradoxalmente) da igualdade política como parâmetros.

Liberdade
O princípio da liberdade está na negação, na recusa, na revolta, e sua melhor antítese não está na prisão, no cárcere, mas na obediência. Constituir-se sujeito é tomar para si as rédeas da vida, assumir o próprio desejo, os riscos e as escolhas, em oposição ao que se possa esperar de cada um, em oposição ao poder e à alienação. E é assim que opera a heteronormatividade: ela não diz que não podemos ser alguma coisa (ela é mesmo muito anterior às identidades sexodivergentes que hoje reclamam aceitação – de modo que sequer poderia ser definida por sua recusa), o que ela diz é o que devemos ser. Não é só quem se desvia que está sob os efeitos, portanto, desse regime: quem não está sendo punido pelo desvio está também em sujeição, em obediência. As figuras prescritas num regime normativo não são opressor e oprimido mas, mais propriamente, desviante – quem se deve punir ou eliminar – e obediente – quem está ocupado em seguir as normas, e portanto deve ser aceito. E nem mesmo os papéis do fiscal e do fiscalizado são fixos: o desvio ou o cumprimento das regras são usados nas constantes disputas por superioridade moral e poder, e todos se fiscalizam mutuamente e esperam benefícios quando obedecem e prejuízo para seus competidores pegos em falta. (Obviamente, contudo, a vantagem é de quem já está em posição de ascendência social – este estará menos sujeito ao escrutínio e a punições, e poderá mais facilmente se aproveitar do desvio de um subalterno para reforçar sua inferioridade, sua submissão).

Insuficiência
Somos todos, em última instância, desviantes. Mesmo os mais obedientes ou mais adaptados a essa prisão ainda viverão sob o signo da falta, da insuficiência, sob o fantasma do deslize. Os papéis de gênero consagrados pela heteronormatividade estabelecem alguma interface com o natural, mas numa leitura engessada, simplista e caricata, enquanto esse natural é fluido e instável; refletem ainda uma divisão social do trabalho já há muito anacrônica e a ordem patriarcal da tradição judaico-cristã, com profunda assimetria entre o homem, concentrador de todo o poder, sóbrio e infalivelmente forte, e uma mulher pura, submissa e cuidadora. Esses não são apenas papéis inaceitáveis moralmente – são papéis impossíveis de desempenhar, e a malograda tentativa que todos levamos até algum ponto é um processo violento e trágico. Sempre falharemos: nunca machos o suficiente, nunca santas e maternais o suficiente; e sabemos o que acontece a quem é posto nessa situação: uma vez em dívida, estamos coagidos a obedecer mais ainda, a ceder mais terreno, mais liberdade, e propensos a cometer violências covardes em nome da ordem que é nossa credora.

Recusa e escolha
A recusa desses papéis, portanto, deve ser uma operação libertadora mesmo para quem não foi condenado, de saída, à subalternidade (como o são as mulheres), nem teve sua expressão sexual ou de gênero reprimida e sufocada. Falamos da renúncia a um poder triste, limitador da experiência, e da busca de potências em liberdade. Entre as expressões que costumamos atribuir à masculinidade existem potências que estimo e de que não me sinto ou sentiria constrangido a abdicar (a própria busca da autonomia, injustamente, é uma delas), entre outras manifestações que são pura barbárie e boçalidade, das quais busco me libertar – num processo que teve início tardio, o que lamento, mas que tem sido invariavelmente recompensador. De forma análoga, há expressões de um feminino arquetípico que me seriam negadas e de que eu busco, com grande prazer, me apropriar, tanto quanto me convenha. Se o machismo não é outra coisa, em sua operação mais fundamental, senão a hierarquização do masculino sobre o feminino, não acredito num antimachismo que não passe pela valorização do feminino – e isso num processo de deixar-se afetar, deixar-se envolver. Se sou capaz de postular que o Outro me é igual em valor, seria difícil explicar que não quisesse para mim nada, absolutamente, daquilo que o constitui. Como disse meu ídolo Gil: “Todo artista tem de aprender uma certa viadagem…” Ele o diz, ouso elaborar, porque muitas das potências que deve buscar um artista – citaria a abertura para a alteridade, a sutileza, a comunicação empática – estão, em nossa cultura, atribuídas a um feminino.

Contradição e coragem
Não raro, penso em quantos dos meus amigos mais próximos, pessoas muito inteligentes, são aberta e veementemente favoráveis à igualdade de gênero, ao reconhecimento e defesa dos transgêneros e das orientações sexuais divergentes e, no entanto, ainda constituem sua própria subjetividade num clichê conformista e não conseguem abandonar expressões anacrônicas do machismo – entre chavões, renúncias e piadas tacanhas. Não se deve cair no protesto banal que sugere que essas contradições anulam a opção política acertada, é importante dizer. No mínimo, essa opção tem resultado presumível na conquista de direitos para as minorias e serve para colocar quem quer que seja em xeque quanto a suas posturas: um machista convicto sendo machista não poderia sequer ser dito incoerente. Ou será que os movimentos identitários, tão afeitos a coerências, preferem um machista coerente a alguém trilhando um caminho cheio de contradições mas na direção certa? A escolha, me parece, deveria ser óbvia e não é – mas, assim caminha a humanidade. De todo modo, o que me interessa é provocar esses amigos, que tanto estimo: a fragilidade que demonstramos nessas expressões, nessas sobrevivências do machismo chega a ser melancólica. O medo de ser “visto como veado”, o medo de não dar conta da masculinidade que devemos ao mundo salta à vista, e é risível. Por isso os provoco, os chamo a exercer uma potência tida, nessa tradição anacrônica, como masculina: a coragem. Tenhamos a coragem de recusar esse papel e esse medo.

Liberdade e potência do não
Por fim, e numa tentativa de sintetizar minha proposta e expandir seu alcance, eu trato aqui de que o gesto radicalmente livre está na recusa peremptória das identidades – que são, impreterivelmente, um dever ser, um regime normativo. O espírito comunitário, destruído pela colonização ocidental/cristã/capitalista do mundo para que esta se afirmasse como poder único, precisa ser reconstruído sob um novo tipo de identificação, um encontro na diferença, e não na homogeneidade fascista. Reconheço ainda, é claro, que os oprimidos se orientam e se reúnem em vínculos identitários como forma de reagir a opressões sistêmicas e conquistar direitos. Isto tudo é, sim, legítimo, provou-se eficaz até certo ponto, e deve ser apoiado, em suas demandas legítimas, por quem quer que se pretenda libertário. Esses vínculos não podem ser, no entanto, o modelo final da ação política, pois, primeiro, não oferecem um caminho para a libertação de seu próprio conteúdo normativo: a tentativa de dar conta deste efeito colateral tem sido – o que é um evidente fracasso – a fragmentação sucessiva em novos agrupamentos identitários, numa espiral sectária que já beira a esquizofrenia; e então, sobretudo, porque não oferecem um caminho para o encontro entre os diferentes devires minoritários com que precisamos – e esse é o grande desafio da política contemporânea – constituir uma maioria política diversa, igualitária, libertária e antifascista.

Para além do fenômeno dessas identidades reativas, é certo que existe um encantamento, uma tentação em servir, obedecer, conformar-se: ser livre tem um custo terrível, não é nunca um processo indolor, nunca um processo de que saímos impunes, ao menos sem conhecer a solidão – o maior dos terrores, talvez, da condição humana. O pertencimento traz algum tipo de recompensa psíquica primordial e o buscamos mesmo nas mais estúpidas fontes, como atestam torcidas organizadas e outras seitas fascistóides que escancaradamente só existem para e pela nivelação e identidade de seus membros, sem nenhum conteúdo positivo, sem nenhuma intenção perceptível senão o estabelecimento de uma fronteira Nós/Outros e a consequente tentativa de destruição do Outro.

A liberdade não é panaceia ou éden, mas o inferno da alteridade, da experiência, do risco e do desconhecido; não o fim das dificuldades, mas seu começo – é sempre mais fácil obedecer. A liberdade é a dor inenarrável da recusa, o terror do enfrentamento que é dizer: Não. E o único terreno em que a vida pode verdadeira e radicalmente florescer.

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*Pedro Moraes, o moço à esquerda, é programador e editor da Revista Baderna. Os gritos de ódio devem ser encaminhados à seção de reclamações do site naofo.de

Exijo, Sim, Respeito

Por Monique Prada*, Biscate Convidada

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Tu dizes que não me respeitas e eu fico aqui, me perguntando de onde tiraste a ideia de que podes negar o respeito a outra pessoa. E não que eu tenha te pedido respeito: tu levantas a voz e diz “não respeito”, e eu me pergunto o que é que tu julgas em ti tão superior ao que tenho pra dizer que não respeitas.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que não respeitas uma mulher por que ela faz sexo. E me pergunto de que ventre saíste, fecundado sem sexo. Ou quem sabe pra ti o sexo da santa mãe seja tão sagrado que ela te tenha gerado sem prazer – abnegada que é, como devem ser as mulheres respeitáveis.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que é com o suor do teu corpo que pões o pão na mesa sagrada de teus filhos, do mesmo modo que com o sagrado suor do meu corpo ponho o pão e a refeição à mesa dos meus. Dizes que não me respeitas por que não estudei, e o dizes sem ter perguntado se quem sabe não fomos colegas. Nos puritanos bancos de escola em que sentaste não teria antes se esbaldado a lasciva bunda de uma puta e assimilado tanto ou mais conhecimento que tu?

Dizes que não me respeitas e vais à missa, e lá prometes amar e respeitar teu próximo como a ti mesmo. E repetes semanalmente a promessa – mas estufas o peitinho e dizes que não me respeitas. Ou pelo comprimento da minha saia, ou pela acidez feroz da minha língua. Não te desperto respeito.

Isso como se a ti ou a qualquer de nós fosse dado o divino direito de sair por aí dizendo “não conheço mas não respeito”. Não me respeitas por que te parece que meu sustento vem fácil e o teu, suado – e parte desse teu sustento tão suado vem parar em minhas mãos ou nas mãos de uma das minhas, por que não resistes. “A carne é fraca”, tu dirás – e meus demônios internos rirão da tua cara, da tua falsa moral, e guardarão tua face na memória.

Te arrependerás do pecado de ter pago pelo gozo a uma pecadora, e pensarás te redimir dizendo “eu não respeito” – puro despeito. A mim não enganas. Eu acho graça e levanto a cabeça: exijo, sim, respeito.

10429437_1639299509627620_3154711491717519962_n* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Vestida de onça pintada

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Carminha é vendedora de frutas lá em Pirapora, minha cidade natal, no sertão de Minas Gerais. Conhecida como “Mulher-Tigre”, na verdade, ela é mesmo uma onça! Há mais de 20 anos ela só se veste com roupas de estampa print animal, “inclusive nas peças íntimas”, me contou safadinha, da vez que conversamos.

“Me vestir assim é minha missão de vida”, disse, sem entrar em detalhes e me deixando mais atiçada ainda. A lenda que corre é que ela teve um marido abusador, que a maltratava física e emocionalmente. Belo dia, esse homem, metido a caçador, teria saído pela mata e sido engolido por uma onça. Desde então, Carminha assumiu essa espécie de luto perpétuo subvertido.

Até tentei confirmar isso que me parece uma história pra lá de instigante. Ela nada disse. Apenas riu.

Uns anos atrás foi publicado um texto apócrifo em Pirapora ridicularizando “personagens curiosos” da cidade. Carminha estava lá, num contexto de galhofa que misturava comentário sobre sua aparência e “piada” homofóbica sobre seus filhos.

Com que facilidade uma mulher se torna alvo de patrulha por não seguir um padrão, qualquer que seja ele, né? O do dress code cotidiano, por exemplo, sobretudo aquele apontado como o “mais adequado” a uma senhora. Ainda mais se tratando de uma senhora que, no folclore local, ao invés de render homenagem ao marido morto decidiu homenagear a onça que o teria devorado!

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E por mais que eu fique tentada a dessa história escrever um conto, o caso é que, no final das contas, qualquer elucubração pretensamente literária esbarra mesmo nas perguntas mais simples: por que Carminha não pode se vestir da maneira que quiser sem contar ora com a condescendência, ora com o desprezo disfarçado de ironia por parte de alguns? Por que Carminha foi parar num panfleto covarde, porque sem autor, por sua maneira de vestir?

Ainda que seja amada na cidade, porque é, nem sempre as pessoas se abstêm da ironia ao se referir ao seu estilo.

O que me consola, nesse caso, é que ela não parece se importar nadinha com a opinião alheia. Porque ela passou ao largo do disse-me-disse machista e do texto barato e continua se mantendo fiel às suas escolhas de moda.Quer conhecê-la, é só ir lá em Pirapora. Da rodoviária mesmo basta perguntar onde fica a banca de frutas da “Mulher-tigre” ou ‘mulher onça”. Qualquer um sabe.

Recebe muitos presentes, de bichos de pelúcia a livros, de todos os lugares do mundo. Em um desses livros, me disse, aprendeu que há vários tipos de onça: grande, pequena, albina, mas que a mais valente é a onça pintada.

“Mais valente que o leão!”

O feminismo fulanizado

O feminismo de internet se fulanizou. É um feminismo que está sempre com o fígado em revolução. A bile nas alturas. Uma adolescente enraivecida com os pais. Por isso, quando jornalistas nos perguntam quais são nossa lutas, as lutas são difusas. Não me identifico com esse feminismo e não consigo me declarar feminista nesse meio.

Sim, tem gente chata na nossa vida, gente machista, misógina, preconceituosa de vários tipos e níveis. Escolhi não me aborrecer o dia todo ou nem emprego consigo ter, passaria o dia brigando e discutindo. O que posso fazer nessa horas varia do pito, quando conveniente e possível, ao escracho, da ignorância ao fazendo a egípcia, e nas redes sociais dando um unfollow aqui ou um mute ali, dependendo do grau de amizade. Mas olha, isso pouco muda o cenário machista do país, viu?

Quando li O Segundo Sexo, eu tinha uns 19/20 anos: o que mais me chamou a atenção foi a insistência que Simone de Beauvoir dava para que as mulheres fossem independentes financeiramente. Vejam bem, se temos nosso dinheiro, podemos sair de nossos casamentos, de relações, da casa  dos pais, podemos mudar de emprego se temos qualificação profissional (oi PRONATEC rs) e se também dispomos de creches públicas ou acessíveis quando temos filhos. Sendo assim, não estamos à mercê de ciclos de abusos: seria bem mais fácil. Não é só isso que pesa, eu sei, mas pesa bastante.

frases-e-pelo-trabalho-que-a-mulher-vem-diminuindo-a-dis-simone-de-beauvoir-1423Parece simples, mas não é. E não é  principalmente porque nossos salários ainda são mais baixos e não dispomos de creches, as mulheres de classe média dependem de tirar outras mães de casa – elas deixam os filhos não sabemos como, e ainda reclamamos delas.  Não dividimos o trabalho doméstico e de cuidados com a família por igual. Sequer controlamos, financeiramente e moralmente falando, nossos direitos sexuais e reprodutivos, porque neles o Estado e religião se intrometem. E controlar nossas vida sexual e consequentemente o número de filhos é essencial para nossa liberdade de ir e vir e, novamente, fugir de ciclos de abusos, também.

Nesse contexto, ver a pauta feminista tomada por birras me entristece. Mas é mais fácil ganhar likes e RTs nessas questões tão pequenas que geram celeuma do que nessas grandes pautas em que há um grande consenso, eu sei. No entanto, precisamos fazer as grandes pautas circularem, ou nossos direitos morrem. Taí o grande desgovernador de SP questionando a licença maternidade de 6 meses para funcionárias públicas estaduais. Não vamos deixar mais essa, espero que o movimento feminista pressione e se una. É urgente.

img_0803Agora imagina um país que dê, de verdade, iguais condições salariais às mulheres, creches para todas as crianças que precisem, proteção no emprego, na gravidez,  acesso pleno ao planejamento familiar, num Estado laico, para que possamos exercer nossos direitos sexuais e reprodutivos, para casadas e solteiras. Aí sim teremos mulher empoderada. Aí sim, a gente não precisa ficar vivendo de picuinha besta.

Dilma, o vestido, as críticas e as críticas das críticas

Aí que teve a cerimônia de posse da Dilma, e o assunto foi …. claro: a roupa da Dilma, a cor do vestido, o corpo da Dilma. E dá um cansaço. De novo e de novo.
Uma mulher em situação de poder? Critique-se a roupa, o rosto, o cabelo, a maquiagem. Sempre, todo dia, não há de faltar. A saia é curta, é longa, o decote, o corpo, fica bem, não fica,  a cor da roupa, o tecido, o corte de cabelo…. assunto para longuíssimas horas de nada e coisa nenhuma.

Dentre as “críticas estéticas” da cerimônia de posse, estavam as jornalistas Míriam Leitão e Cora Rónai. Cora chegou a criticar o “jeito de andar” da Dilma – segundo ela, “deselegante”. Sinceramente.

Muita gente ficou indignada com os comentários, corretamente, a meu ver. Já é a segunda posse da Dilma, e o assunto é esse de novo? Roupa, corpo “acima do peso” (do peso de quem?), cabelo, maquiagem…? Sério que o assunto é esse?

Só que, na sequência, chegamos à segunda onda de mais-do-mesmo: algumas pessoas passaram a exibir fotos de Míriam e Cora, para, de alguma forma, deslegitimá-las. Com essa ou aquela roupa, com esse rosto, com esse corpo, querem criticar quem?

E teve gente que achou isso razoável, que achou que elas apenas “tiveram o que mereceram”. Aí eu queria esclarecer, desde já, que estou me lixando para elas. Não é esse o problema. O problema, pra mim, é que, se luto desde sempre para dizer que uma mulher pode ter o corpo que tiver, usar a roupa que quiser, andar do jeito que lhe convier, isso vale para a Dilma, mas tem que valer também para  a Cora e a Míriam. Ou vocês acham que não? Que o “olho por olho” é o caminho? Mais ainda, será que vocês não percebem que, ao “expor” Cora, Míriam e quem mais for, estão atrasando a luta e a trajetória das mulheres todas, a nossa, que queremos que a conversa saia da avaliação de corpos, de jeitos, de roupas? Que temos que rebater, sim, as falas delas, mas não deslegitimando-as pela sua aparência?

(pausa para auto-citação)

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Alguém  reparou que não havia nenhuma discussão dos ternos dos inúmeros homens que tomaram posse. Procurei também, e não achei nada a respeito. Outra pessoa chamou a atenção para o fato de que, se não se fala das roupas dos homens, é que elas obedecem a um figurino bem mais rígido, o que não deixa de ser outra prisão. Fato. Mas esse uniforme os protege, como se fosse o avesso de um certo tipo de nudismo: quando está todo mundo igual  – seja nu ou de terno -, o que se vê é a pessoa, não a roupa.

Eu, por enquanto, prefiro pensar que a gente pode ir além. Que há tantas, tantas coisas passíveis de ser criticadas na Dilma e no governo Dilma. Que é possível e necessário rebater e discutir os comentários idiotas da Míriam Leitão e da Cora Rónai, sem precisar chamá-las de feias ou de mal vestidas. Porque se a gente acredita que essa não é a questão, bem… essa não é a questão. Nem para a Dilma, nem para a Míriam, nem para a Cora.

Voltemos ao que interessa.

Dar no Primeiro Encontro

Vira e mexe e pula na nossa cara uma questão tão, mas tão tosca que, aparentemente, nem deveria ser discutida: a mulher deve dar no primeiro encontro? A minha tendência é fazer tsc, tsc, dar de ombros e prosseguir. Mas, né. Ela volta tantas vezes que me parece um sintoma. Vamos conversar, então.

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Pra mim, o problema desse problema é que ele é um falso problema. Só pra começar, como disse Lacan, “a mulher não existe”. Opa. Estou falando do quê? Estou falando que a pergunta começa equivocada. Quando dizemos “a mulher deve dar no primeiro encontro” estamos tratando um grupo heterogêneo como se assim não fosse. Que mulher é essa? Mulher é uma mulher negra hiperssexualizada no imaginário, mulher é uma mulher trans contestada em sua identidade, mulher é uma mulher gorda que socialmente é lida como insatisfeita e incapaz de atrair alguém, mulher é uma mulher adolescente curiosa, mulher é uma mulher velha que não faz sexo já há uns anos porque a sociedade grita que seu corpo é feio. A qual dessas mulheres a questão se coloca? Você pensou em qual delas quando leu a pergunta? Provavelmente em nenhuma, não é? Essa pergunta é dirigida e traz, subentendida, a mulher branca, cis, jovem, heterossexual, magra. Para as outras a resposta é compulsória.

A pergunta prossegue e o erro se acentua: “a mulher deve dar no primeiro encontro?”. Ora, eu penso que não é apropriado usar o verbo dever em relação a práticas sexuais. Uma mulher, qualquer mulher – as que estão ou não nas entrelinhas da pergunta – nenhuma mulher, repito, deveria fazer nada sexual que não seja do seu desejo. A pergunta tem essa pegadinha, né? Parece estar oferecendo opções: dar ou não em situação X, mas está apenas reconfigurando as amarras. Passamos do mulher direita não deve dar antes do casamento para a mulher liberada (ou moderna ou whatever) deve dar no primeiro encontro. Sorry, mas trocar uma obrigação por outra não parece um cenário atraente.

E a pergunta finaliza com outro elemento dúbio: “a mulher deve dar no primeiro encontro?”. É uma incógnita a que se refere esse termo: primeiro encontro. Do que se trata? De sair pra o aniversário de uma amiga, ser apresentada ao primo dela e de lá, depois de muita conversa e uns bons drinks ir pro motel com ele? De ir pra uma balada, esbarrar numa mina gostosa, dar uns amassos no dark room e lá mesmo aproveitar e transar? De conhecer alguém naquela pós que está cursando, sair muitas vezes em grupo e um dia receber um convite pra jantar em dupla? Tem gente que a gente passa por ela um monte de vezes e aí um dia, pá, o estalo. Foi o primeiro ou o vigésimo encontro? Tem gente que a gente tem na rede social, mas nunca viu até que um dia, uma viagem, um café, é o primeiro encontro? As conversas todas antes foram o quê? Contam como?

Então, tá, Luciana, entendi, não tem regra pra toda mulher, não é uma obrigação e esse negócio de primeiro é meio confuso porque o tempo é uma variável que se qualifica em relação com várias outras, mas e você, quando é que dá? Ué, eu dou quando o outro quer e eu quero. E posso querer mal nos apresentamos no bar sem nunca termos nos visto antes como posso querer depois de longa convivência e muitos momentos em comum. Não tem hora certa, não tem a priori, não tem regra – pra mim. Porque cada pessoa com quem estou é única e cada relacionamento (porque é um relacionamento, dure seis horas ou dez anos) é o que a gente faz dele.

O que eu faço é me abrir. Me permitir. Olhar e ouvir. Receber. Deixar o tempo para além do relógio, o tempo do encontro, operar as aproximações. O que eu faço é acolher meu desejo, deixar a mão na outra mão, a perna encostar na outra perna, o olho mergulhar no outro olho. O que eu faço é deixar a voz deslizar pela orelha como um afago e arrepiar a nuca. O que eu faço é saber se a pele esquenta e se o olho brilha. O que eu faço é inventar o meu próprio pecado e morrer do meu próprio veneno.

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