Entrevista com Yazda Rajab, mulher muçulmana de alma biscate fala sobre islamismo e cultura árabe

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Conheci Yazda Rajab no mundo da dança do ventre.

Uma mulher absolutamente apaixonante, bailarina graciosa, que hipnotiza a gente sem o menor esforço. Mulher muçulmana, brasileira de alma biscate, dessas que vontade de passar mil tardes conversando… Filha de libaneses radicados no país há mais de 50 anos, guerreira, mulher de fé. E sobretudo, pessoa despachada que aceitou facinho falar pro Biscate sobre islamismo e cultura árabe.

Espero que seja tão bom para vocês como foi pra mim <3

Yazda, uma mulher muçulmana brasileira

Yazda, uma mulher muçulmana brasileira

Charô – Quem é Yazda? Qual é a estória de sua família?
Yazda – Meus avós e pais eram camponeses. Meu pai veio para cá na década de 30, por navio, começou a mascatear como a maioria dos libaneses imigrantes e acabou fazendo a vida dele aqui. Depois que ele teve certa estabilidade, conquistou a vida dele, foi buscar minha mãe. Ele já dormiu na rua, lavou prato, fez de um tudo. A dança do ventre eu estudo há 12 anos, depois do 6º ano comecei a dar aulas. Mas sempre estudando.

Charô – Qual é a sua fé? Você decidiu seguir o islamismo depois de adulta?
Yazda – Na verdade eu sou desde criança mesmo. E mesmo depois de adulta, tirando essa parte da cultura na qual nasci e cresci, quando tive um pouco mais de discernimento e decidi estudar os porquês das coisas, continuei muçulmana. Ma seu tenho muita interferência de outras coisas…

Charô – Agora vou partir um pouco dos preconceitos que nós ocidentais temos para com a sua religião. Qual o papel da mulher numa sociedade islâmica?
Yazda – Ela tem papel fundamental como ela tem aqui no Ocidente também. Só que existem as questões culturais. O islamismo é uma coisa e a cultura árabe é outra. Quando a religião chegou lá em Meca, quando veio a palavra e o alcorão foi revelado, era um povo que sim… Tinham uma filha mulher eles matavam, era uma vergonha. A religião veio e mudou isso mas as pessoas tem uma essência, tem a cultura e isso meio que veio vindo junto. E vem até hoje.
Isso não faz parte da religião muçulmana. Vou te dar um exemplo simples, a castidade da mulher até o casamento e tudo mais, não é só da mulher muçulmana, ela é do homem também. Só que o machismo que a gente conhece e tem pavor, o mundo machista, os homens fazem o que eles querem e as mulheres se mantém castas. Mas o que se pede da mulher e do homem muçulmano são direitos e deveres iguais.

Charô – E em relação aos pais e aos homens muçulmanos, existe algum tipo de subordinação?
Yazda – Existe um respeito, um respeito que a maioria das pessoas tem ou deveriam ter. Por sabedoria, experiência. Subordinação acho que é uma palavra meio pesada. Mas ela existe, não vou te falar que não, mas como eu já disse antes mais por questões culturais. O alcorão prega o papel da mulher feminina, o papel do homem, o papel do filho, normais como aqui no ocidente também.

Charô – Agora um pouco da dança. Existe alguma contradição entre a sua dança e a sua religião?
Yazda – Todas (risos). Mas assim, vou te falar uma coisa muito particular minha, que eu acredito muito, tudo vai da intenção que a gente coloca nas coisas, que a gente tem dentro do coração. Então quando eu danço, dou aulas ou estudo, a minha intenção ali é uma. Se as pessoas tem uma visão distorcida, cabe a cada um resolver seus próprios problemas. Eu estou aqui fazendo uma coisa e você tá pensando outra, problema seu.

Charô – Existe alguma restrição à dança? No Egito é proibido dançar de umbigo de fora, no Líbano também?
Yazda – Ah sim, lógico. A gente sabe que a mulher muçulmana, não digo a maioria hoje em dia, ela tem todo aquele conceito do Hijab (pronuncia-se rijeb), de colocar o véu. Até aqueles que não usam, isso eu digo de cidade mais do interior tá. Porque eu fui lá um tempo atrás e está tudo mudo, mais peladinhas do que eu. Lindo, eu achei excelente. Mas com certeza tem a vestimenta, nem é tanto a questão do umbigo. O peito, os movimentos…

Charô – O que é o Hijab, para que ele serve?
Yazda – Em primeiro lugar, ele não é uma coisa obrigatória. Eu digo que não é obrigatória querendo dizer o seguinte- eu por exemplo, meu pai e minha mãe não podem chegar pra mim e dizer você vai colocar. Já não vai mais estar valendo, eu posso até colocar mas aos olhos de deus já não vale mais. Religião é uma coisa espontânea, ou você sente ou você não sente.
Então se você carrega aquilo e fala eu quero, eu vou colocar de coração porque eu quero, vai com deus. A minha mãe por exemplo não usa Hijab. Uma vez que eu pensei em colocar, meu pai me viu com lenço e disse tira essa porcaria da cabeça agora. Tira, pode tirar, não quero saber de você usando isso. Pelo respeito aos mais velhos que acabei de falar, ele me convenceu (risos).
O Hijab é usado como uma forma de proteção à mulher mesmo. Não é uma questão de submissão. Você precisar andar toda pelada também é uma forma de submissão uma mulher precisar andar toda desnuda só pra um cretino olhar pra ela. Tem de usar porque gosta, porque acha bonito e se sente bem. Não por causa de alguém.

Charô – E o que existe por baixo do Hijab?
Yazda – O Hijab que a gente está falando é um lenço que o rosto fica de fora e roupas compridas, posso usar blusa de manga comprida e uma calça comprida, daí você vê o que você quer usar. Uma calça branca, uma blusa azul, uma blusa colorida. Os preceitos são não usar roupa transparente porque aí já mostra o contorno do corpo ou uma roupa muito justa.
A questão do por baixo vem a burca, que é uma coisa diferente – é aquela roupa preta, tem só a redinha nos olhos. Eu acredito que ela não existe na cultura libanesa, eu não vi. Mais Arábia Saudita. E diga-se de passagem, não foi uma coisa imposta por deus e nem dita por ele. Ele falou sim do Hijab mas as mãos, os pés e o rosto podem sim ficar de fora e a burca cobre tudo.

Charô – Como é a beleza para a mulher muçulmana?
Yazda – A mulher muçulmana é muito vaidosa, muito vaidosa. Se enchem de ouro e aqueles olhos pretos (maquiagem), adoram cabelo. O padrão de beleza da mulher árabe, da mulher muçulmana, também não deixou de ter um pouco de interferência de fora. Por que a mulher muçulmana é morena de cabelo preto… mas elas afinam sobrancelha, colocam botox no olho, plástica no nariz…

Blogueira usando Hijab

Blogueira usando Hijab

Charô – Existem outros códigos de vestimenta, para os homens por exemplo?
Yazda – O profeta Maomé deixou alguns costumes que seria a forma ideal de o muçulmano se comportar. Então fala que o homem anda com a barba um pouco maior, com a barra da calça um pouco mais curta, mas ninguém faz isso. Não é uma coisa que se diga faça ou você não será um muçulmano.

Charô – Nós temos muitos preconceitos sobre a sua e a sua cultura, concorda?
Yazda – A gente ia ficar aqui umas 3 horas falando dos preconceitos. Não digo que eu sofro porque pra sofrer preconceito você tem de ligar mas… Que a mulher não tem liberdade nenhuma, o que mais falam. Ou vocês são violentos, por conta das brigas entre Israel e Palestina..

Charô – Sobre o sexo na cultura árabe e na religião muçulmana, como ele é visto?
Yazda – Na verdade o sexo é visto dessa forma, uma coisa sagrada, linda, lícita, maravilhosa, gostosa, tudo isso mas tem essa questão de praticar o sexo depois do casamento. Eu vejo isso mais como uma preservação de muita coisa que a gente acaba sofrendo, que a gente vê que as pessoas sofrem também, de fazer antes. As pessoas que eu falo que não sabem usar o sexo, que não sabem fazer com responsabilidade. Não mais uma questão de você está pecando ou você não é de deus…

Charô – E os jovens praticam? E o namoro?
Yazda – Risos. As meninas estão agora mais saidinhas. Elas adoram fazer sexo anal para preservar ali na frente e dizer eu sou virgem. Tem muitas que fazem isso. Muitas que enfiam o pé na jaca e é isso. Não pode ter contato mas sempre tem (risos). Ainda tem famílias que preservam um pouco isso mas são muito tradicionais e muito raras.

Charô – Falando um pouco sobre inserção da mulher na política, existem mulheres nos cargos de comando?
Yazda – Lá você vê muito pouco. A gente não foge desse preconceito não. A política lá já é muito difícil, os homens não dão contam, já é a maior bagunça. Se eles não conseguem se manter no poder, imagina a aceitação de ter uma mulher ali. Isso está extremamente longe e não sei isso vai acontecer e tem preceitos religiosos aí no meio também, de uma mulher em posição de comando político.
Porque (o cargo prevê) reuniões íntimas, mais confidenciais, de ter de ficar sozinha com um homem… Tem toda essa coisa puritana do islamismo que existe. Nem é tanto porque a mulher não pode ou não tem capacidade de estar no poder. É mais para a mulher não ter contato direto com o homem.

Charô – Sobre a tolerância religiosa, como são vistos os outros deuses e as outras culturas?
Yazda – Tem até um versículo no alcorão que diz que nós temos de respeitar a tudo e a todos. Existem muitas brigas entre eles mas foi isso que foi mandado pra gente. A mensagem é muito clara e o versículo é muito simples, independe de interpretação. Ele é simples e direto. Conviver sempre com as diferenças e fazer o bem sem olhar a quem.


Mas é claro que a coisa toda tem de terminar em ventre, então assista a essa apresentação da Yazda com o grupo Les Almées.


AGRADECIMENTOS ou YAZDA SUA LINDA

Antes de fazer essa entrevista, a primeira da minha vida, falei com a Yazda sobre os meus preconceitos e a minha ignorância acerca da sua religião e cultura. Ela, com muita paciência, topou a empreitada de explicar o básico, responder essas perguntas tão primárias sobre a sua concepção de mundo.

Uma estória que não entrou pra entrevista, o significado do nome Yazda. O pai sempre disse para ela que se tratava de uma princesa e ela sempre acreditou nisso. Um dia, maiorzinha, descobriu que essa princesa na verdade era a sua avó <3

Em meu nome e em nome do time Biscate Social Club, muito obrigada.

Lembrando que esse post faz parte de uma série sobre dança do ventre aqui no blog.

charÕ

*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

Dina, primeira bailarina de dança do ventre do Egito, biscate e delícia

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Recentemente ouvi de um bailarino de danças orientais, de ascendência árabe, que sua família temia que ele seguisse a carreira artística. O receio nada tinha a ver com quaisquer questionamentos sobre sua sexualidade como muitos poderiam pensar. O problema era frequentar aquelas mulheres que dançam de umbigo de fora, ato proibido pela lei egipcia desde a década de 1950.

O assunto de hoje é uma dessas mulheres, a bailarina, filósofa e biscate Dina Talaat.

LOOOOOSHO, VOLÚPIA E PROTESTO

Nem toda família de ascendência árabe tem a mesma visão de mundo sobre a dança, assim como nem toda mulher que faz dança do ventre é biscate, vero. Só que probabilidade de a dança despertar a bisca que existe dentro de cada uma é muito grande pois a visão do umbigo emoldurado pelo vai e vem do próprio quadril (e o das zamigas, aiaiai, uiuiui)  é qualquer coisa de solene. Fora o acinte uma mulher ser indenpendente, tendo como instrumento de trabalho o próprio corpo.

Dina Dança do Ventre

Dina e um figuro looooosho

Esses detalhezinhos fornecem pistas sobre o status da mulher na sociedade egípcia. A feminista muçulmana  Nihad Abu el Konsa reporta que a nova constituição ignora os direitos das mulheres. A cláusula que assegura a igualdade entre todos os cidadãos perante a lei existe, mas não garante a não violação dos direitos humanos da população feminina.

Em contrapartida,  o vocabulário visual da dança do ventre parece indelevelmente associado ao universo do harém. São princesas e odaliscas inacessíveis. Não é raro esquecermos que sua dança geralmente se desenvolve num contexto de opressão. É por isso que quero apresentar uma personagem muito singular no mundo da dança, toda luxo, volúpia e protesto – Dina Taalat.

A PRIMEIRA BAILARINA DO EGITO

Dina é a última entre as egípcias,  está para dança do ventre assim como Alcione e Bete Carvalho estão para o samba. Antes dela, mulheres como Badia Massabni, que abriu uma casa noturna aos moldes europeus em plena Cairo da década de 1930. Ou Tahya Karioca, preterida por Farid el Atrash que preferiu se casar e ter filhos. Um mundo de babados homéricos.

Mais uma vez que as bisca pira!

Mais uma vez que as bisca pira!

Desavisada de todo esse background, acabei me acostumando a pensar a dança do ventre como coisa de princesa. Meus olhos transbordavam ignorância e preconceito toda vez que assistia uma apresentação da bailarina. Como assim começar uma dança do ventre que deveria ser toda elegância exibindo o derrière para o público¿ Detallhe que para a cultura egípcia, essa atitude tem nada de vulgaridade.

Tudo mudou quando uma professora me fez pensar sobre a coragem necessária para dançar numa sociedade estruturalmente machista , tão afeita ao slut shaming. Como não é possível proibir as mulheres de dançar, algumas adaptações são feitas. Assim se desenvolveu a dança Shaabi que, grosso modo, é o funk da dança folclórica, praticado por quem goza de relativa liberdade.  Assim as bailarinas cobriram o umbigo com broches, diminuiram o tamanho das saias e aumentaram os decotes.

Uma dança que exala sensualidade mas se esmera na exposição de conflitos sociais, políticos e raciais. Algumas letras falam abertamente sobre o consumo de substâncias entorpecentes. Apesar de dominar diversas modalidades da dança oriental inclusive a dita clássica, Dina é a mãe dessa modalidade irreverente e tão amada pela classe trabalhadora. Não por acaso, detem o status de Primeira Bailarina do Egito, título informal muito parecido com aquele o Princesa do Povo conferido à Ladu Di.

SEX TAPE TIMES E DIAMANTES

Apesar disso, o ano de 2002 não foi nada glamouroso. Dina teve sua intimidade exposta numa sex tape difundida por um ex-marido desejoso de vingança. Sua reação foi se exilar e adotar o hijab (código de vestimenta muçulmana para mulheres). Logo ela que faz tanta questão de se apresentar com trajes provocadores, subversivos. Ah sim, com uma discreta jóia no umbigo, como manda a boa moral e os bons costumes.

Pelo que sei, passou 2 anos em Meca, ainda que não haja fontes para comprovar esse fato. Deu entrevistas chorando diamantes, sem jamais borrar o rímel e tentando contornar a situação. Apesar dessas tentativas de se retratar perante o público, sua carreira parecida irremediavelmente destruída (qualquer semelhança com o caso Kristen Steewart não é mera coincidência).

A parte boa é que, após alguns meses de jejum, Dina retomou sua agenda de apresentações com um cachê mais alto que nunca. Finalmente superava uma (malsucedida, ufa) tentativa de suicídio. As acusações contra o ex-affair foram formalmente retiradas sob a alegação de que tudo foi feito com seu consentimento, o que me pareceu uma estória pra lá de mal contada…

ESSA VADIA SOU EU

É muito fácil rotular Dina como vadia. Gosto de imaginar que, se ela soubesse o que a palavra biscate significa, seria a primeira a menear seus lindos cabelos negros e dizer – EU SOU. Foi justamente por esse motivo, e para deixar de lado meu próprio olhar viciado, que decidi trazer para vocês essa mulher delícia. E olha que nem falei sobre filosofia, área do conhecimento em que Dina é bacharel.

E pra terminar, o mais importante: vídeos! Dina fazendo a linha primeira bailarina e biscate do país num porgrama de TV. Depois se jogando num clipe de Shaabi bem humorado e muito distante dessa coisa melosa dos harens ou de uma cultura sisuda. E pra terminar com Fatme Serhan em Taht El Shibak, essa música que tanto amo ouvir e dançar. Botem reparo na roupinha Xeeeeena mais linda de todas. E o menear de bunda inesquecível, tem como não amar? Aprecie sem moderação!



MUCH MORE

Se você quiser comparar o modo como a música é interpretada hoje e ontem, veja esse vídeo bem legal de Taheya Carioca que integra uma seleção feita por mim para aprender dança do ventre.

AGRADECIMENTOS ou AYSHA SUA LINDA

A dança do ventre sobrevive porque mulheres se dispõe a aprender e ensinar. Comigo não foi diferente. Tenho por inspiração artistas como Dina que estão lá longe no Egito, mas também gente que trabalha muito duro pelo desenvolvimento da dança com acento brasileiro. Todo meu agradecimento e admiração pelo talento e pela pessoa de Aysha Almée que você encontra facinho no facebook e teve a paciência de fazer imprescindíveis observações para a feitura desse texto.

Lembrando que esse post faz parte de uma série sobre dança do ventre aqui no blog.

charÕ*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

 

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