Uma Paixão Imponente

Brasileirão da Biscatagem
Palmeiras, Daniel Nascimento

Um amor assim, biscate, livre, liberto, não vem de bate-pronto como uma decisão que se toma na vida, de caso pensado. É necessário a maturidade, aquela cevada, as dores. Passar pela etapa do gozo e da dor. Compreender que muitas coisas são incompreensíveis e que pra ser verdadeiro não faz-se mister a posse e que com isso a palavra fidelidade ganha um sentido mais amplo. Vira cumplicidade. Esse amor vem de manso, te magoa, te faz sofrer. Mas justamente tais passos lentos e dolorosos fazem tal sentimento penetrar na carne e na alma. E assim os obstáculos somem. Vem aquela paz e tranquilidade de uma relação onde sabe-se que não importa os obstáculos, as agruras, as lágrimas: sempre teremos um ao outro.

Falo de uma relação com outra pessoa? Poderia bem ser. Mas no caso é o que sinto ao querer transcrever minha paixão por meu time: o Palmeiras.

Nasci em 1978. Quando criança eu amava – e ainda amo – mesmo é o futebol. Sou de uma família onde toda a parte paterna é palmeirense e a parte materna corinthiana. Diz meu pai e meu avô materno comprova que este fez de tudo para que eu fosse mais um alvinegro na família: deu-me camisa, bola, boné. Eu poderia dizer que meu pai venceu a batalha mas as coisas nunca são tão simples assim. Afinal nos anos 80 (como hoje por sinal, mas isso não importa) o Palmeiras não ganhou nada. Imaginem uma criança louca por futebol ver os amiguinhos corinthianos e são-paulinos revezarem-se na comemoração por títulos. Até o Santos teve sua vez em 1984. E a Inter de Limeira, em 1986. Justamente em cima do Alviverde. Mas a grande verdade é que eu realmente não me importava muito. Gostava mesmo do jogo.

 Mas aí veio a adolescência e nela junto com os hormônios que nos dão pulsão e desejos veio a necessidade de por tal amor à prova. Pensei até em não torcer pra time nenhum ou, como bom metido a outsider, torcer por um time de tradição mais refinada como o Santos ou Botafogo (que sempre me foram simpáticos) ou a Portuguesa. Afinal, time que não ganha nada por time que não ganha nada esta é mais cool. Como diz um grande amigo meu: eu era jovem e tolo. Isso era uma clara fuga. E tudo foi recompensado e confirmado em 12 de junho de 1993. Dia dos namorados; só podia ser. O Palmeiras humilha o Corinthians, logo o Corinthians! na final do Paulistão por 4 x 0, devolvendo derrota simples na partida de ida, levanta a taça, quebra o jejum de 17 anos, me dá um tapa na cara e diz: você é meu! E era.

Torcida que canta e vibra

A partir daí, lua de mel: grandes times, grandes jogos, grandes conquistas. Mais estaduais, bi-brasileiro, Copa do Brasil, Mercosul, a cobiçada Libertadores. Vi grandes craques desfilarem e honrarem o manto-sagrado alviverde, como Evair, Edmundo, Mazinho e seu show contra o Boca Juniors, Alex, Zinho, César Sampaio, a era Felipão – quando aprendemos a ter raça, e o maior de todos: São Marcos.

Como não há mal que nunca acabe nem bem que dure pra sempre, hoje voltamos a vivenciar uma fase ruim. Mas como disse no início, esse amor já está consolidado, enraizado, e não há queda pra segunda divisão (quando fui em todos os jogos que ocorreram no Palestra), vexames ou gozações que nos afaste. Ouço muito dizer que viraremos uma nova Portuguesa. Como se isso importasse ou fosse vexatório. São tolos; não aprenderam ainda. Eu e o Palmeiras não precisamos ter títulos, ter maior torcida, ter o melhor estádio, ter nada. Simplesmente somos.

Daniel Nascimento é palmeirense, roteirista de ficção científica e faz um guacamole como ninguém. Tem 33 anos de paixão por futebol, ama os grandes torneios mundiais e tem saudades do Desafio ao Galo. Nasceu em São José dos Campos, mas tem alma cigana, mora em São Paulo e já viveu em outras três cidades, outro estado e outro país. Não está satisfeito, tem aquela coceirinha de conhecer muito mais do mundo. Não sabe de umas tantas coisas, mas sabe bem de uma, onde  estiver terá sempre uma raiz: sua paixão pela Sociedade Esportiva Palmeiras

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