Brasil, 12 de Maio de 2016

Por Renata Correa, Biscate Convidada

Filha,

Falta um mês para o seu aniversário de quatro anos. Todos os dias antes de dormir a gente conversa sobre sua festa. Você já quis dinossauro, sereia, bailarina, baleia. Depois você me pede duas histórias e uma música para aceitar fechar os olhos. Daí você pega no sono entrelaçada no meu corpo e eu vou me desvencilhando de você para terminar de trabalhar, conversar com os amigos, tomar banho, ver as notícias.

Nos últimos meses eu tenho pensado muito nas histórias que eu vou te contar. Sua bisavó nasceu em 1930, e não votou para presidente até sua avó nascer. Sua vó nasceu em 1956 e não votou para presidente até depois do meu nascimento. Eu nasci no fim de uma ditadura militar e nas primeiras eleições para presidente eu já tinha sete anos. Já quando você nasceu eu já tinha votado para presidente três vezes e uma mulher era presidente da república.

Eu queria contar para você que, nós, essas quatro mulheres, vimos ano a ano uma democracia se fortalecer e estabelecer. Mas a verdade filha, é que a república do café com leite lá da época do nascimento de sua bisavó ainda está em vigor. E que as instituições que matavam, torturavam e desapareciam com pessoas na época da sua avó nunca foram punidas e continuaram em pleno fucionamento. E é por isso que estamos vivendo o que estamos vivendo hoje.

Imagina que hoje filha, alguns homens conseguiram, sem nenhuma justificativa, retirar uma presidente da república de seu mandato. Uma mulher que desfilou em carro aberto ao lado da sua filha também, quando foi tomar posse. Uma mulher que foi eleita pela maioria do povo brasileiro.

Desculpa filha. Quando eu comecei a pensar em política, achei que democracia era uma coisa dada, inabalável, um direito inalienável. Sua avó já tinha lutado por ela, bastava agora aperfeiçoá-la, incluir nesse sistema aqueles que nunca puderam usufruir plenamente dela. Errei.

Forças conservadoras sempre irão tentar esmagar subjetividades e impor retrocessos se isso representar poder. Queria te dizer para ficar sempre atenta e vigilante quando eu não puder estar. Nada está permanentemente conquistado, tudo está permanentemente em processo.

Eu gostaria de te prometer uma coisa: a mamãe vai continuar, tá? Agora um pouquinho mais calejada. Eu, assim como a sua bisa, e a sua avó, fizeram antes de mim, não vou desistir. De ter um País mas justo, igualitário, onde a disputa política não se converta em ódio, onde o cinismo não seja maior que o amor.

Espero que um dia você possa ler essa cartinha sem medo de ser agredida por suas opiniões. Sem medo de amar e ser amada. Sem medo de lutar as próprias batalhas. E claro, que também possa ter a tranquilidade de estar vivendo um sistema democrático pleno. Quero ter daqui uns anos uma história mais bonita pra te contar, filha. Não sei se vai acontecer. Mas eu prometo tentar.

Beijos da mamain.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Mulher, ativista. Tudo puta.

Por Niara de Oliveira

“Previsão do tempo:
Tempo negro.
Temperatura sufocante.
O ar está irrespirável.
O país está sendo varrido por fortes ventos.
Máx.: 38º, em Brasília. Mín.:5º, nas Laranjeiras.”
(Jornal do Brasil, 14/12/1968, dia seguinte à decretação do AI-5)

Não. Eu não acho que estamos vivendo numa ditadura. Óbvio que não. E é aí que reside o problema. Vivemos numa democracia que permite práticas comuns a uma ditadura. E isso é inadmissível. Lutamos demais para nos contentarmos com essa democracia meia boca e mal acabada. Sequer trouxemos à tona os crimes da ditadura, dando fim ao luto dos familiares dos desaparecidos políticos da ditadura e já temos uma lista maior de desaparecidos da democracia e de outras tantas violações de direitos. E ainda não completamos nem trinta anos de redemocratização…

Posso não concordar com uma manifestação, seus métodos e bandeiras, mas é minha obrigação — se eu for democrata — defender o seu direito de se realizar. Os protestos de junho de 2013 foram uma luz no fim do túnel do desencanto político após um processo de despolitização articulada, sabemos. E não, Rede Globo, os protestos de junho não podem ser chamados de “Junho Negro”, porque vocês o fazem pejorativamente, mais uma vez dando mostras do quanto o racismo está estranhado em tudo. Gostaria por demais que os protestos de junho tivessem sido negros de fato, que o morro tivesse descido para o asfalto para fazer valer sua voz e principalmente para fazer cessar o massacre de jovens negros pela polícia.

Se o jornalismo ‘oficial’ se alia ao Estado policial em várias de suas esferas para criminalizar manifestações e manifestantes não o faria sendo “apenas” racista. Óbvio que tinha que ser machista e misógino. Só não esperava que fosse de uma forma tão vil, tão sórdida.

O mito da mulher de esquerda e bandida destruidora da sociedade e da família não é novo.

“Pouco tempo depois do lançamento (…) do filme hollywoodiano ‘Bonnie e Clyde’ no Brasil, em 1968, uma versão ‘da vida real’ chegou à imprensa brasileira sob a forma de Sílvia: uma bela e loira estudante universitária e assaltante de bancos (…). O interesse da mídia por esta Bonnie brasileira só aumentou em novembro daquele ano, quando um jovem foi preso depois de um desses assaltos. Segundo a polícia, ele não apenas admitiu ter participado do evento como também revelou a motivação política do assalto, ao denunciar o envolvimento de Carlos Marighella, líder comunista e opositor do regime, e da mulher loira chamada Sílvia.
Com esta confissão, (…) Sílvia tornou-se objeto de um escrutínio intenso e decididamente sexualizado. Desde insinuações sobre um triângulo amoroso entre ela, Marighella e outra mulher, até descrições detalhadas de sua aparência física, a cobertura que a imprensa fez de Sílvia centrou-se predominantemente sobre sua sexualidade.
[Esta cobertura] é um exemplo da grande onda de representações sexualizadas de mulheres militantes que marcou o Brasil de 1968. E essas representações não se limitavam à imprensa. Por exemplo: depois de invadir uma reunião clandestina de estudantes universitários, a polícia realizou uma coletiva de imprensa para exibir os materiais ‘subversivos’ apreendidos: (…) coquetéis Molotov, estilingues, literatura comunista, facas, algumas pistolas e, no meio daquilo tudo, várias caixas de pílulas anticoncepcionais. (…) A exibição das pílulas transmitia uma dupla mensagem aos jornalistas e seus leitores: não apenas as mulheres estavam envolvidas nestas perigosas e combativas atividades (…), mas elas tinham vindo preparadas para fazer mais do que apenas discutir política. (…) Os coquetéis Molotov e a sexualidade das estudantes representavam riscos igualmente alarmantes à ordem estabelecida.
As histórias de revolucionárias perigosas e sedutoras como Sílvia ou ‘subversivas sexuais’ como as do encontro estudantil invadido pela polícia enfatizam a premissa principal deste texto: a Guerra Fria no Brasil foi profundamente marcada por batalhas de gênero. (…) Logo após o assassinato do estudante Edson Luis de Lima Souto pela polícia, em março de 1968, e a subsequente intensificação das mobilizações estudantis, diversos materiais exibindo imagens de mulheres armadas e provocantes começaram a aparecer em publicações direcionadas à classe média (…). Enquanto isso, agentes de forças de segurança estaduais e federais faziam alusão – às vezes de forma privada, mas também publicamente – à suposta promiscuidade sexual de estudantes que faziam ativismo político.”
(trechos de “Birth Control Pills and Molotov Cocktails: Reading Sex and Revolution in 1968 Brazil”, de Victoria Langland, 2008. Tradução da Camila Pavanelli)

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foto: Vanessa Rodrigues

Na véspera da final da Copa do Mundo, 23 ativistas foram presos “preventivamente” no Rio de Janeiro. Destes, três mulheres estiveram em destaque na mídia que não poupou adjetivos e falsos crimes para vender suas imagens como terroristas perigosas. Uma advogada “acusada” de não cobrar honorários de seus clientes baderneiros, uma professora de filosofia “acusada” de subverter alunos com suas aulas e uma… uma… ativista. Já conhecida dos noticiários que visavam criminalizar manifestações, Sininho (Elisa Quadros Sanzi) virou o nosso Bin Laden, a terrorista perigosa que deveria ser temida por todos, a causadora de todos os males — qualquer semelhança com a definição da mulher pela Santa Inquisição não é mera coincidência, esse mito ainda persiste no nosso imaginário.

Mas não bastava. Era preciso criminalizar Sininho por sua sexualidade. Sendo ativista, é puta. E sendo puta, precisava de lares ou romances desfeitos por ela para que seu crime fosse perfeito. Se a fofoca de ter acabado com o casamento de um deputado não colou, a de ter “roubado o namorado de outra ativista” colaria, e viraria matéria na imprensa. Veja bem que a matéria linkada (em vermelho) não usa o habitual “supostamente” da imprensa, ela compra a versão do roubo de namorado ter contribuído com a “investigação” do caso. E aí, você, eu e mais a torcida do Flamengo e a do Corinthians juntas se perguntam: desde quando isso é crime? Qual é o artigo do código penal? E como muito bem perguntou a Bia ontem, quantos namorados eu preciso roubar para configurar formação de quadrilha? Pelo Código Penal nenhum, mas pelo julgamento da sociedade taí o resultado. E se ainda restar alguma dúvida, dá uma olhada na guglada da Camila Pavanelli com as expressões “pegar homem”, “pegar mulher”, “roubar namorado” e “roubar namorada”.

Estivemos sob a famigerada Lei Geral da Copa, que esteve acima da Constituição Federal (e ninguém até agora explicou esse absurdo jurídico) e que justificou toda sorte de repressão quando em vigor (ninguém sabe ao certo até quando, porque apesar da Copa já ter terminado, não há prazo de validade previsto). Parecia que a prisão preventiva dos 23 ativistas sob o argumento de impedir que cometessem “novos crimes” se baseava nessa lei. Balela. Como o inquérito estava sob segredo de justiça até a “Globo obter com exclusividade acesso aos autos” e manipulá-lo como bem quis, PRIVILÉGIO não concedido — ou dificultado — aos advogados dos #presosdaCopa, não sabíamos os detalhes. Até o prazo da prisão que era temporária vencer, e virem os Habeas Corpus para soltar os ativistas. Antes dos últimos três presos, entre eles Sininho e Camila, serem soltos, eis que surge o Ministério Público do Rio de Janeiro, analisa um inquérito de duas mil páginas em pouco mais de UMA HORA e oferece denúncia contra os 23 ativistas. Vinte minutos depois, uma nota ordenava a prisão dos acusados.

“Às 18h06 de sexta (18), a Polícia Civil confirmou à reportagem da Folha que havia enviado o inquérito finalizado ao Ministério Público. Exatamente uma hora depois, às 19h06, o MP divulgou nota informando que havia oferecido denúncia contra os ativistas. Vinte minutos depois, uma nota da Justiça do Rio ordenava a prisão preventiva de 21 dos 23 denunciados.
(…)
Na sexta-feira à tarde, Darlan falou com a Folha e criticou a prática de se prender antes da condenação no país. “Aqui no Brasil, prende-se e depois verifica-se se o camarada merece ou não a prisão.”
No habeas corpus impetrado em favor de Joseana Maria Araujo de Freitas, militante feminista e jornalista, o advogado Lucas Sada alega que o princípio de “presunção de inocência” estava sendo violado. “A velocidade com que a denúncia foi apresentada e recebida pela Justiça reforça o movimento articulado entre os poderes de criminalização dos grupos”, disse Sada.” — Folha de São Paulo, 20/07/2014

Ao virar processo, os advogados de defesa dos acusados entraram com um pedido conjunto de Habeas Corpus para os 23. E aí, ficou evidenciado o conluio entre vários entes do Estado para criminalizar os manifestantes. Até mesmo o desembargador que iria julgar o HC dos acusados teve dificuldade para ter acesso ao inquérito.

“O desembargador Siro Darlan pediu ontem novamente acesso à documentação relativa ao inquérito contra os 23 ativistas acusados de suposto envolvimento em atos violentos nas manifestações. “O delegado não cumpriu a determinação. Foi mandado um ofício e ele não respondeu”, afirmou ao DIA o magistrado.
O primeiro pedido formal foi feito na terça-feira passada ao delegado-titular da Delegacia de Repressão a Crimes da Informática (DRCI), Alessandro Thiers, quando Darlan concedeu liberdade provisória a 10 ativistas, argumentando que não via fundamento para a prisão temporária. A nova determinação é, agora, ao juiz da 27ª vara, Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau.
Darlan pede, por exemplo, o relatório policial já divulgado por veículos da imprensa. Para o desembargador, os documentos são necessários para analisar o novo pedido de liberdade provisória feito pelos réus.” — O Dia, 22/07/14.

Dos 23 acusados apenas cinco estavam presos, dezoito eram considerados foragidos. Aí, veio pedido de asilo político no Consulado do Uruguai, manipulação do vídeo de defesa da advogada Eloisa Samy pela mídia, tentativa de criminalização da deputada estadual do PSOL Janira Rocha por ter dado carona em carro oficial da Alerj aos três foragidos e os ter retirado do prédio. Quando já tinha perdido a conta dos absurdos do processo, veio o manifesto dos juristas em defesa dos ativistas e do direito de manifestação e, FINALMENTE, veio o Habeas Corpus para os 23, que poria em liberdade três dos cinco que estavam presos.

Com o HC vieram os detalhes do processo e do inquérito. E a coisa fica pior.

Quando finalmente o desembargador Siro Darlan teve acesso ao inquérito, tiveram acesso a ele também o restante da imprensa (e não mais apenas a Rede Globo) e todos nós. E os absurdos ganharam uma proporção para além de Kafka. Toda a acusação foi fundamentada em apenas UM DEPOIMENTO. Um suposto ex-líder da FIP (Frente Independente Popular), mesma organização da qual Sininho faz parte, se apresentou espontaneamente à polícia para depor e dar detalhes dos protestos violentos e para identificar “baderneiros” após ter sido escrachado pelo Coletivo Feminista Libertário Geni. Esse depoimento deu origem a sete meses de investigação paga com dinheiro público que devassou a vida de dezenas de pessoas, teve escutas telefônicas anticonstitucionais autorizadas pela justiça, e tudo que conseguiu — além de violar um pressuposto básico da democracia que é o sigilo advogado-cliente — foi obter uma confissão de Sininho de que torceu contra a Seleção Brasileira na Copa — crime gravíssimo e inafiançável, como todos sabemos.

Piora ainda mais.

Além do processo usar expressões muito comuns da ditadura — e haver mesmo sombras da ditadura nesse cerco a advogados de ativistas –, se baseia em fontes nada confiáveis (blog de direita, ufanista) a respeito de Sininho. Diz o jornal O Dia do dia 24/07/2014:…o texto faz referência a “matérias jornalísticas”, que indicam que Elisa teria feito “cursos de ativismo político e agitação com formação e ações de guerrilhas e terror urbano em Cuba e na Rússia”. Isso, segundo a investigação, teria relação com ataques feitos por Black Blocs à embaixada brasileira em Berlim, em maio deste ano”. Tratar opinião de blog como “matéria jornalística chega a ser café pequeno nesse amontoado canalha (isso, opinião, de blog) de suposições.

E apesar do Habeas Corpus, e apesar de um desembargador afirmar com todas as letras que a imprensa está mentindo quando repete a exaustão uma série de supostos crimes cometidos pelos 23 ativistas quando na verdade a denúncia do Ministério Público fala em apenas UM DELITO, “formação de quadrilha armada”, e apesar do processo e da investigação estarem completamente desmoralizados, precisamos reconhecer que isso é apenas para nós que temos a acesso à contra-informação. Para a maioria da população prevalecem as mentiras e o perfil perigoso, terrorista e de caráter duvidoso — leia-se puta — de Sininho. E a perseguição continua.

E para fechar com chave de ouro, o depoente vingativo que originou a investigação e que em entrevista (a mesma em que chama o desembargador Siro Darlan de “veado” e “permissivo” — claro… #TudoPutaEViado) declarou ter se divertido com a prisão de Sininho — Ela se borrou toda ali na hora. toda toda toda. Ela ficou igual a uma baratinha tonta ela e a advogada dela batendo a cabeça sem saber o que fazer. Aquela foi a cena mais engraçada de todas, quase tive um orgasmo ali na hora. Foi muito engraçado. — postou no youtube um vídeo se dizendo ‘apaixonado’ por ela. E juntando esse depoimento com a da ativista que ‘teve o namorado roubado’ por Sininho, temos um processo baseado em recalque, vingança e machismo. Seria até um roteiro interessante, se fosse novela e não vida real.

Nesse mundo machista quando não se bate ou se estupra ou se mata “por amor”, se denuncia a “amada” pelo crime de formação de quadrilha armada. E o Estado aceita.

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Alguém com raiva querendo se vingar de um grupo de mulheres indo a polícia denunciá-las por falsos crimes não me espanta nada, mesmo sendo um absurdo e injusto, é problema dele, que arque com as consequências de seu ato. Mas, a polícia usando essa denúncia, baseada em vingança pessoal, como base para um processo e uma longa investigação é que é problema. É problema da polícia, da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro e é problema nosso. Não é para isso que pagamos impostos, não foi por isso que lutamos tanto e deveria ser inadmissível numa democracia. Deveria.

Claro que a zueira acompanha a indignação com as notícias desse caso…

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Maurício Santoro: “No Rio de Janeiro há inúmeras quadrilhas de traficantes, milícias, grande banda podre da polícia e muitos, muitos etc. E o principal jornal local quer me convencer que esta é a inimiga pública n.1.

E como a falta de noção do ridículo nesse caso não tem limites… #SeloSandraAnnenbergDeDeselegância

Foto: Sandro Vox / Agência O Dia

diz a legenda original da foto em matéria do jornal O Dia: “Com gesto grosseiro, manifestante tenta impedir trabalho de fotojornalista” — Tadinho!

Para encerrar, é preciso falar sério. A liberdade dos 23 acusados é provisória e no inquérito são citados os seguintes grupos e entidades: FIP Frente Independente Popular; FIST – Frente Internacionalista dos Sem Teto; FNT – Frente Nacional dos Torcedores; Grupo de Luta dos Petroleiros; MEPR – Movimento Estudantil Popular Revolucionário; MFP – Movimento Feminin@ Popular; MRP – Movimento de Resistência Popular; OATL – Organização Anarquista Terra e Liberdade; Oposição de Resistência Classista – ORC; RECC – Rede Estudantil Classista e Combativa; Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência; Universidade Indígena Aldeia Maracanã; Unidade Vermelha; Dia do Basta, Ocupa LAPA; Ocupa Câmara; Ocupa Cabral; Anonymous Rio; Black Bloc RJ; Mídia Ninja; Coletivo Mariachi; Coletivo Calisto; Coletivo Rebaixada; Coletivo Tempo de Resistência; Coletivo Desentorpecendo a Razão; Coletivo Rosa dos Ventos; Coletivo Vinhetando; Coletivo Projetação; Coletivo Margaridas Urbanas; Coletivo SUBURBAGEM; Coletivo Das Lutas; Coletivo SerHurbano; Coletivo Inimigos do Rei; Coletivo Vô Pixá Pelada; Coletivo PACAL; Coletivo PaguFunk; Instituto Raízes em Movimento; Alemão de Noticias; Complexo do Alemão; Jornal Voz das Comunidades; Mulheres de Atitude – AMA; Barraco #55; Descolando ldeias; APAFUNK; Porque Eu Quis; Favela não Se Cala; Fórum Social de Manguinhos; Fórum Rode da Juventude; Favela em Foco; Norte Comum; Observatório de Favelas; Observatório de Conflitos Urbanos; Fala Roça; Marcha Mundial das Mulheres – MMM; Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência; Rio Na Rua; Grupo Teatro da Laje; Surbanitas; Núcleo Socialista da Tijuca; Linhas de Fuga; Fórum Popular de Apoio Mútuo; Movimento Direito Pra Quem; Arteiras; Rede de Instituições do Borel; Ocupa Borel; Fora do Eixo (criador da Mídia Ninja); Mídia Independente Coletiva – MIC; Tem Morador; Suburbano da Depressão; Movimentos Cidades Invisíveis; Comitê de apoio ao jornal A Nova Democracia; Favela Não Se Cala; Sindsprev; Sindpetro; SEPE.

foto: Coletivo Projetação

“Saiu a nova lista de prisões preventivas do Rio de Janeiro. Veja se você está nela.”

Não são apenas os ‘terríveis’ Black Blocs os alvos dessa pantomima. O processo de criminalização é principalmente contra os movimentos de periferia e favela, mulheres e os coletivos provisórios de protestos e insurgência contra o status quo.

Precisa desenhar o que está em risco e quem serve de bucha de canhão?

p.s. da zueira: Se as mulheres fossem mesmo tão perigosas e nossas bucetas tão poderosas já teríamos exterminado o machismo bobo-feio-cara-de-melão com apenas uma abertura de pernas… né?

Essa tal Democracia: o que é e para que(m) serve???

“A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga.
Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”

(Aldous Huxley)

democracia

Estou com 24 anos de idade. Três desses anos, dedicados à militância e ao ativismo nas ruas e na internet em defesa de bandeiras que acredito (igualdade entre gêneros, combate à homofobia e ao racismo e democratização da comunicação, por exemplo). E é com perplexidade que afirmo: jamais imaginei que presenciaria, em pleno ano de 2013, eventos como as manifestações que ocorreram em nosso país.

Para elucidar a reflexão que pretendo propor, farei um breve resumo do que vivenciei e senti, particularmente, em 17 de junho, dia do 5º grande ato contra o aumento das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo, organizado pelo Movimento Passe Livre. O desenrolar dos fatos, as mobilizações em nível nacional e a repercussão no mundo, creio eu, muitxs de vocês já sabem.

Assim como boa parte das pessoas do meu convívio, fiquei profundamente indignada com a truculência da Polícia Militar ao reprimir as manifestações. Eu não pude comparecer aos outros quatro atos porque era final de semestre na faculdade e tinha muitas coisas para terminar. No entanto, a causa que o MPL defende me representava ( e representa) demais para que eu deixasse de apoiar. Me organizei e fui para o Largo da Batata, acompanhada do meu namorado e de mais alguns amigos.

Era de encher os olhos. Um mar de gente. A Avenida Faria Lima completamente tomada pelos manifestantes. A multidão era tão grande, que quem ali estava ficava entorpecido. Eu mesma, confesso: me deslumbrei. Quase não tinha polícia. Tudo bem pacífico, como as emissoras TV adoram reforçar em seus noticiários. Acompanhamos o grupo que fez o trajeto Berrini-Ponte Estaiada ( previamente “desocupado” para a manifestação) e após a dispersão, voltamos para casa. E soube depois que o pessoal do MPL seguiu para a Avenida Paulista e que um pequeno grupo foi rumo ao Palácio dos Bandeirantes. Achei estranho isso, somado a um nacionalismo vazio que estava começando a dar as caras ali. Mas aquilo ainda não tinha sido o suficiente para tirar meu sono ou confundir a minha cabeça.

Como a revogação do aumento ainda não tinha acontecido, o 6º ato foi convocado para o dia seguinte, 18 de junho. E lá fui eu novamente, com namorado, amiga da facul e duas conhecidas, na Praça da Sé. Mas o clima estava mais pesado do que no dia anterior. Era muito ufanismo, nacionalismo exacerbado, pessoas bradando contra a corrupção ou a PEC 37 ( que já caiu antes mesmo de eu formular minha opinião a respeito), gente pedindo impeachment para a Dilma, galera contra a Coca-Cola Zero ou defendendo a volta do regime militar. Mas nada, absolutamente nada relacionado à tarifa. Tava mais para uma final de Copa do Mundo. E os manifestantes que carregavam bandeiras de partidos já estavam sendo rechaçados. Voltei para casa triste, confusa e com a sensação de ter feito papel de idiota por ter “endossado” pautas que não tinham foco. Ou até tinham, só que divergiam demais do que sempre acreditei.

Após a revogação do aumento em São Paulo, os atos continuaram e eu soube através de amigos, das redes sociais e de alguns blogs que tudo o que eu tinha visto no dia do 6º ato se intensificou de tal modo, que muita gente ( eu inclusa) temia que um golpe de estado pudesse ser articulado (porque o golpe midiático já estava em andamento, tendo em vista a forma “mágica” como a mídia tradicional passou a achar manifestções populares fofas, e a chamada massa de manobra ficando cada vez mais em evidência). E foi aí que confundi minhas bielas e parei de dormir direito à noite.

Hoje estou mais calma, mas não menos confusa. E tal confusão despertou em mim a necessidade de parar um pouco para pensar. Ainda que existam oportunistas de toda espécie tentando se apropriar e cooptar uma luta legítima para promover o caos em nome de interesses que não contemplam o povo, tenho consciência de que a maioria das pessoas que “acordaram” agora nunca tinha ido para a rua antes. Que a educação propositalmente defasada que receberam,  reforçada por (mais uma vez ela) uma mídia poderosa fez com que elas acreditassem que: política não se discute, que político é tudo igual e que nenhum partido deve ser capaz de representá-las.

periferiaPor isso, penso que meu papel, assim como o de quem se considera politizadx, esclarecidx e bem informadx seja, a partir deste momento, o de fazer um trabalho de formiguinha: tentar, aos poucos, conscientizar as pessoas de que vivemos em uma democracia sim, mas que só será plena quando um negro for tratado da mesma forma que um branco em qualquer lugar que vá; quando homens e mulheres tiverem EFETIVAMENTE direitos iguais; quando gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais puderem viver livres de preconceitos; quando aprendermos a diferenciar liberdade de expessão de liberdade de ofensa; quando o pessoal que mora lá na periferia conseguir usufruir da mobilidade urbana e do próprio espaço público da mesma forma que quem tem carro; que reforma política se faz nas urnas, de preferência lembrando bem quem foi que ajudamos a eleger… Etc. (muitas eteceteras aí)

Eu mesma, sou bisca aprendente.

A Babi Lopes tem um excelente texto falando sobre isso. A Maíra Kubik também.

 

Um não-texto sobre isso tudo que tá aí

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O texto hoje não é um texto exatamente, é um comentário. Um comentário que dialoga com o texto da Niara de ontem

Não é um texto porque eu, como todo mundo, tô olhando, tô vivendo, tô perplexa. E vou falar, sem nenhuma pretensão de análise fechada nem de síntese de nada. Um pouco como o movimento das ruas.

O movimento das ruas: tanta, tanta, tanta gente. Tanta gente que não dá pra simplesmente desprezar. Pra deixar de lado e fingir que não aconteceu. Tanta gente como não se via na rua desde … sim, isso mesmo. Desde os protestos contra a ditadura, desde as Diretas Já. Tanta gente querendo dizer. Dizer o quê? Ah, isso é outra conversa. O que a gente está vendo aqui começa com o Movimento Passe Livre. Mas começa mesmo?

Porque já tinha gente na rua. Gente protestando contra o Feliciano na Comissão de Direitos Humanos. Gente dizendo não ao PL da “cura gay”. Gente pedindo que o famigerado Estatuto do Nascituro não seja aprovado. Gente protestando contra as remoções bárbaras, que usam os megaeventos como justificativa para higienizar a cidade e levar a periferia para mais longe ainda. Isso pra me manter na pauta urbana. (Porque, claro, tem os protestos acontecendo já há tanto tempo em Belo Monte. Tem os indígenas dizendo “não” à remoção que é a deles, ao modelo de progresso-trator que tá devastando a Amazônia a bala. E isso é uma pauta em si, que insiro aqui porque não dá para esquecer nem pra deixar de lado.)

OrdemEProgressoO que a gente tá vendo agora, no asfalto do centro da cidade, é o que já vem acontecendo há tanto tempo. Nas favelas. Pinheirinho foi outro dia, com as pessoas correndo das casas sem nem conseguir tirar seus pertences. Os incêndios tão suspeitos que ajudam nas remoções em São Paulo, no Rio. Gente jogada fora. Gente que não importa.

E o silêncio das autoridades. E a falta de resposta, a falta de diálogo, a falta de prestação de contas. A insatisfação crescendo por tantos lados.

Mas divago.

O que eu queria dizer, mesmo, era o seguinte: como se pode chamar de democracia uma sociedade em que as chamadas “forças da ordem” avançam para cima dos que protestam, a balas de borracha ou reais, com seus cavalos, com suas motos? Em que se atira no rosto das pessoas que acompanham manifestações, em que se joga gás lacrimogêneo, spray de pimenta, bombas de efeito moral em gente que apenas está exercendo seu direito de ocupar a rua?

Não vou fazer relatos, eles estão aí pra quem quiser consultar. Começou em São Paulo e foi se espraiando.Tantos, tão variados, tão fartos. Imagens, videos, falas, indignação, dor, impotência.

“O que foi feito amigo/ de tudo o que a gente sonhou?”

Eu só queria dizer isso: não pode. Não pode chamar de democracia e reprimir manifestações do jeito que tem acontecido. E ameaçar quem reclama. E prender assim, à toa, como aconteceu e continua acontecendo.

A gente vai ter que se repensar, sim. E vai ter que começar por aí. Porque aí começa: no direito de estar na rua sem levar bala de borracha nem gás lacrimogêneo. E se não começar por aí… pode anotar: é que a vaca já foi pro brejo.

QuePaísFoiEsse

Sobre o direito de sambar — amplo, geral e irrestrito

Por Niara de Oliveira

Devia ter escrito meu post mais cedo (chicoteada de auto-flagelo 1), mas não foi possível. Aí, que pouca gente vai ler e pans, e o BiscateSC ficou o dia inteiro sem post. Humpfff! 🙁 (chicoteada de auto-flagelo 2)

Mas, eu estava tri-ocupada com trabalho e cuidando do Calvin ao mesmo tempo. E, de verdade, tudo que eu queria era ter passado o dia agarrada na faxina. No final, não fiz bem nem uma coisa e nem outra. Trabalhei, cumpri as tarefas e o Calvin está com aquela sensação de que foi negligenciado. Sensação partilhada por mim.
(chicoteada de auto-flagelo 3)

O que me perturbava que não me deixava focar? E eu só pensava em “foca no transporte” — bandeira principal das manifestações que arrastaram multidões às ruas e que conseguiram baixar as tarifas do transporte coletivo em quase todas as cidades onde houve mobilização no país nas últimas semanas –, e não conseguia focar.

-- Foca no transporte!

Foca no transporte!

Acho que estava pressentindo o final do dia. A tentativa sórdida de manipulação e cooptação por parte da Globo e da direita dos atos #contraOaumento não ficou apenas na manipulação das bandeiras empunhadas nos atos. Chegou as vias de fato, e levou às ruas fascistas e reacionários de toda ordem. Um movimento apartidário consegue reconhecer fácil quem assume suas bandeiras e ideologia, mas não está preparado para quem está disfarçado e escondido atrás de máscaras.

reacionário fazendo gestos obscenos (até aí nenhum problema, desde que a intenção não fosse desqualificar) e com discurso de ódio, sexista e homofóbico para uma ativista no ato de hoje em São Paulo #sp20j

reacionário fazendo gestos obscenos (até aí nenhum problema, desde que a intenção não fosse desqualificar) e com discurso de ódio, sexista e homofóbico contra uma ativista no ato de hoje em São Paulo #sp20j (foto: Antonio Miotto)

E assim foi. O que eram suspeitas e impressões hoje são certezas. Os mascarados e não identificados foram crescendo e o discurso despolitizado em seu meio também. Enquanto os anarquistas, a esquerda e a direção do movimento se desgastavam discutindo um direito fundamental da democracia — se podia ou não empunhar bandeira em ato público –, o que há de mais vil na política se articulava nas sombras para encampar os atos. Acho que nem precisou muito empenho. A grande imprensa colaborou bastante, o obscurantismo que assola os bastidores da política nacional também.

Achei que esse tinha sido um ato isolado, do ato da última segunda em São Paulo; um reacionário lunático na manifestação errada. Era só o começo...

Achei que esse tinha sido um ato isolado na última segunda-feira em São Paulo; um reacionário lunático na manifestação errada. Errei. Era só o começo…

Agora, a esquerda — ou o que sobrou dela — terá que estabelecer uma pauta mínima de consenso para não deixar que um direito legítimo dos trabalhadores e uma pauta da esquerda não seja sequestrada, saqueada e transformada em mais violações de direitos humanos e opressão para os trabalhadores, negros, mulheres, LGBTs e demais minorias.

Daqui, das páginas do BiscateSC, afirmo (ainda que só em meu nome) que estamos aqui sempre para colocar o bloco na rua para lutar por liberdade e democracia. Mas, um movimento desse tamanho que não respeita os direitos mais elementares da pessoa e a expõe a toda sorte de preconceito e violações não nos representa. Já não bastava a violência da polícia para enfrentar?

Continuarei sambando na cara do moralismo hipócrita e do machismo, mas aqui desse e de outros cantos. Só isso já me/nos expõe a riscos demais, necessários na conquista da liberdade — dizem –, mas riscos demais. Democracia, assim como liberdade, é um exercício doloroso ao qual precisamos nos habituar para termos de fato uma sociedade justa e igualitária, onde possamos todxs sambar em paz.

wandalismo

o que nós, biscxs, queríamos mesmo era aderir ao Wandalismo e protestar atirando calcinha na polícia #VemPraRuaAtirarCalcinhaNaPolícia

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