Detox

Não, não irei falar sobre esses sucos verdes, que estão bem na moda. Alguns deles são bem gostosos e eu até tomo por isso (porque não sei se desintoxicam mesmo ou pra que eles de fato servem). Vou falar sobre algumas atitudes que às vezes, se fazem muito necessárias. Sobretudo para quem milita ou precisa de um tempinho para organizar as ideias, especialmente nas redes sociais.

sucos-detox-sucos-receitas-de-sucos

É. Tô na fase do detox. Mas um “detox pessoal”, sabem? É uma coisa que no fundo eu não gostaria de precisar fazer na vida, mas que não dá pra ficar sem. A internet as vezes se transforma num ringue onde algumas pessoas competem para saber quem tem o ego mais inflado, usando uma deturpadíssima noção que possuem do que é liberdade de expressão para propagarem suas falácias, que quase sempre são carregadas de preconceitos diversos.

E o mais legal de tudo isso é que essa galera domina muitíssimo bem vários recursos de linguagem, que fazem com que qualquer bobagem se pareça com uma opinião consistente, bem articulada e sensata. O grande segredo da coisa toda é enumerar, passar para tópicos, usar palavrinhas pomposas e “acadêmicas”. Te deixam confusa. Você aparentemente precisa parar para pensar – ou para ler – minuciosamente antes de elaborar uma resposta. Enquanto isso, vem os likes. Os shares. Os números. O alimento que aquele ego sobre o qual falei acima tanto precisa para não morrer.

Acham que tô falando sobre os reacionários, conservadores, trolls, coxinhas e afins? Antes fosse, porque eles são reconhecidos muito mais facilmente. É só dar unfollow né? Pronto. Só que não. Eu falo de gente que até bem pouco tempo atrás, lutava lado a lado comigo, porém, que adota justamente o modus operandi daqueles que diz combater (odeio essa palavra, é que não encontrei outra melhor). Gente que dizia acreditar no mesmo que eu. Gente que ao longo do tempo, aprendi a respeitar, mesmo em meio à inúmeras divergências teóricas/ideológicas.

O que quis dizer hoje aqui é bem simples (e doloroso, porque sou dessas): tô me desentoxicando dessas pessoas. Ou melhor, desses discursos contaminados. Porque me faz mal, percebem? Não vim ao mundo para ser vaca de presépio, sem ser crítica e autocrítica. Sou aprendente e aprendiz nesse mundo gigante, que não gira ao redor do umbigo de ninguém. Não endosso discurso de ódio disfarçado de militância, venha de quem vier. Sororidade, esse conceito altamente questionável e seletivo não é pra mim. O patriarcado já caga regras demais na minha vida, acho que não preciso que feministas venham fazer o mesmo, certo?

Façam o que bem entenderem com minha carteirinha.

 

Caçando sonhos

Por Niara de Oliveira

[clica na música  e vai ouvindo…]

“O que foi feito amigo de tudo que a gente sonhou? / O que foi feito da vida? / O que foi feito do amor? / … / E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir / Falo assim sem tristeza, falo por acreditar / Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer / Outros outubros virão / Outras manhãs plenas de sol e de luz”

Quase sempre uso esses versos pra perguntar para e por amigos agora distantes onde estão os sonhos que sonhamos juntos. Raramente faço essa pergunta a mim mesma. [sim, esse post é sobre o meu umbigo]

Diante de uma foto não tão antiga, mas de um tempo que me parece agora tão distante, e da dúvida diante do significado do meu próprio sorriso me perguntei: onde estão os sonhos daqueles dias? Que sorriso era aquele? Seria sincero, sarcasmo ou palhaçada?

um domingo de setembro de 2011, na cozinha da Adriana Torres, sorrindo pra Renata Lima

um domingo de setembro de 2011, na cozinha da Adriana Torres, sorrindo pra Renata Lima

E caçando meus próprios sonhos, sonhei com coisas extremamente simples: um olhar (oi, Renata) mais generoso comigo mesma — tinha pensado o pior de mim e daquele momento, mas lembrei onde estava e para quem eu sorria… só podia ser sincero –; outras manhãs, plenas de sol e de luz em Satolep…

Podia ser mais. Talvez devesse ser mais, sonhar mais e maior, mas por agora é só isso mesmo. Vou deixar para caçar os outros sonhos depois.

amanhecer no Laranjal

amanhecer no Laranjal

Eu decido

Por Niara de Oliveira

escolha

eu + Calvin

Na ressaca do Dia das Mães, comercial e excludente, sou obrigada a reconhecer que a cada passo que damos, individual ou em pequenos grupos, no coletivo maior da sociedade estamos caminhando de costas. Na esteira do desabafo que fiz do meu desconforto com a data, veio uma enxurrada de manifestações, quase todas legais, quase todas afagos, conforto, o que faz um bem danado. Mas — sempre ele –, vieram, no privado, inbox, perguntas, curiosidades de quem não conhece meu histórico de maternidade ou o conhece apenas parcial ou superficialmente.

Nas curiosidades estava implícito a cobrança do meu ativismo na área do autismo. Tipo, como assim eu ativista-comunista-feminista não sou um expoente da luta pelos direitos dos autistas no Brasil? Oras, porque não. Porque decidi não expor o Calvin e nem nossa condição socioeconômica para que tenhamos garantidos direitos que deveriam ser universais. Simples assim.

A cobrança não fica só aí, vai ao limite da sordidez. Como assim eu me dou o direito de viver (incluindo biscatear) e não vivo apenas para o meu filho? Porque somos duas pessoas, oras, e não é justo que vivamos apenas uma vida. Cada um tem a sua vida e a vive como é possível, como faz ser possível. O Calvin depende de mim para várias coisas — quase tudo, é verdade –, e eu tento suprir suas necessidades na medida do possível. Do possível. Sim, porque não sou obrigada a me tornar heroína e ir além da minha condição humana só por que tive um filho específico.

Como seria possível ser feminista e não lutar pelo meu direito à vida, mesmo que em condições tão adversas? Como ser ativista dos Direitos Humanos e não lutar pela minha própria condição, pelo meu direito à humanidade? Como ser comunista e não lutar para ter o melhor do mundo também para mim? Está parecendo egoísta, né? É, estou falando de mim, do meu umbigo, porque foi a minha existência plena, a minha vida que foi questionada nas entrelinhas da curiosidade.

Não quero, e não vou, me tornar a madre-teresa-de-calcutá dos Lennox-Gastaut (síndrome do Calvin). Poderia justificar com um zilhão de motivos, mas vou fazê-lo com apenas um: essa escolha é apenas minha. Lidem com isso.

Leia também:
Maternidade “especial” – o que o feminismo tem a ver com isso? — Cyntia Beltrão

A saudade, o calor, a falta de grana e o preconceito

Por Niara de Oliveira

Ou… Estou me guardando pra quando o outono chegar

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Tempos bicudos, esses. Muito distante do meu habitat natural, tenho sérias, seríssimas dificuldades em me achar nesse espaço de agora. A dificuldade em me achar não me é estranha, mas não me saber nesse lugar incomoda demais. Faltam as pessoas conhecidas para encontrar por acaso na rua, e os “quanto tempo!”, “como vai a tua mãe?”, “ainda moras no mesmo lugar?” acabaram se tornando tão importantes quanto os rostos, ruas, casarões, esquinas e — óbvio — bares familiares.

Nesse calor do Ridijanêro pouco sobra de energia para qualquer coisa após o trabalho, cuidados da casa, filho. Dia desses lendo a Lu falar que são os sonhos pequenos que a fazem feliz (não era bem isso, mas foi assim que entendi), fiquei a me perguntar onde andariam os meus sonhos, grandes ou pequenos… Onde estão os meus sonhos? Nesse calor, querides, se perdem facinho. O cérebro amolece junto com o corpo e tudo se esvai. Cá estou eu, no subúrbio aguardando a tão desejada chuva em mais um final de dia… Esclareço: chuva não é sonho ou delírio. É necessidade, concreta, para suportar o dia a dia nesse pedaço “privilegiado” do inferno, abandonado até mesmo pelo diabo (dizem que foi passar férias em praias mais frescas do Caribe). E ainda tem os outros calores que estão fazendo um carnaval com meus hormônios… Sim, acho que estou entrando na menopausa. (spoiler!)

Se eu tivesse um ar condicionado, mais ventiladores, pudesse morar numa rua mais arborizada… O subúrbio do Rio é devastado, e nas lajes que tentam aliviar o sufoco das moradias precárias e ampliar um pouquinho o conforto só o que cresce é cimento, nenhuma árvore é plantada, nem mesmo em vasinhos. Falta de grana está diretamente ligada à precária qualidade de vida na “cidade maravilhosa”. Mais que uma cidade partida é uma cidade desumana para seus moradores — o Freixo tinha razão.

Além de rebaixar a qualidade de vida, a falta de grana te expõe mais aos preconceitos. E aqui me reservo e preservo o direito de não relatar pormenores. Porque dói se expor tanto, embora a necessidade de desabafo seja premente.

A saudade e a sensação de não pertencimento, o calor e a impossibilidade de sonhar com ele, combinados com a falta de grana e essas pressões e opressões cotidianas colocaram minha biscatice em xeque… Sou biscate, mas não estou biscate. Chuif.

Quem sabe quando chover e arrefecer um pouco, tudo o mais fique menos pesado… Quando é mesmo que começa o outono?

Sou flôxa

Ou podem chamar também de biscate de critérios. Eu? É. Não saio com qualquer um, só com os que bebem. Não abraço qualquer um, só os que cheiram bem — e isso não tem a ver com perfume, que fique bem claro. Não beijo qualquer um, só os ‘barbudão’ — e aí, entre os barbudão, pode ser qualquer um, desde que a boca seja escovada. Não trepo com qualquer um, só com quem tenho tesão e já beijei e cheirei e saí antes… Claaaaaaro que os critérios afrouxam — ou ‘afloxam’* — bastante depois de beber ou por qualquer outro motivo. Porque né… Biscate. (beijo no ombro)

Imaginando que todos tenham os seus critérios, podia ser diferente a biscatagi. Podíamos ter um “Espaço Biscatagi” nos botecos e buátchy onde todo mundo que tá a fim de pegação vai lá dar pinta e fazer exibição da figura. Mas, aí, fica muito focado no físico… E a biscatagi transcende… E nem todo mundo curte boteco ou buátchy… Então, o ‘Espaço Biscatagi’ podia ser para conversar… Mas, aí, a gente já faz isso entre os amigos, e com os amigos dos amigos, ligando ou cutucando… Não, pera! Já é assim.

critérios

Então, poderia ser igual, como é, mas diferente. Porque, vamucombiná, o problema não está nos lugares. Só que pessoas não são questionários de múltipla escolha a serem preenchidos. Poderíamos nos agarrar menos a convenções sociais, e altura da gargalhada e o comprimento da saia ou escassez da blusa e se mostra a calcinha, ou não esconde o pau que endureceu ‘do nada’ no meio da conversa — até porque isso é qualidade — e que horas saiu/voltou de casa para beber, se deu no primeiro ou no segundo ou no terceiro encontro — o ideal é dar no primeiro, no segundo, no terceiro encontro e em quantos mais for possível e for do agrado de ambos encontrar e dar. Poderíamos não olhar tanto pras mãos (a não ser para reparar no tamanho e gestos e supor do que são capazes) procurando sinais evidentes de comprometimento com outrem e nem ficar se guardando no papo esperando o momento que a criatura diga se mora sozinho ou acompanhado e com quem (a pessoa pode morar sozinha e não querer falar, né?). Poderíamos nos entregar mais pra todo mundo. Deixar tudo rolar. E se for para escolher, só se a urgência do desejo exigir, lá no final, depois de ter aproveitado bem todo mundo. Poderíamos não exigir tanto de nós mesmos, impondo ritmo, ordenando passos, etapas…

Poderíamos julgar menos, principalmente as mulheres, em todos as situações acima e noutras tantas. E poderíamos sair beijando indiscriminadamente quando sentíssemos vontade, tipo micareta-todo-dia-aqui-e-agora onde o único critério é gostar do beijo pra seguir adiante. *\o/*

Enfim… Como única regra a biscatagi deveria ser só saber que o bacana é trocar, física e intelectualmente, muito. Com muitas pessoas (quantas mais melhor, acho) ou com poucas, no gosto de cada um/a. Mas que haja troca, e que seja bom para todxs xs envolvidxs. Experiência, saliva, fluídos, suor, o dia pela noite, o pé pela mão… Trocar.

Cheguei num ponto da vida que achei na minha vã filosofice que jamais chegaria: o de dizer que a idade/maturidade/experiência (chame do que preferir) me deixou frouxa. Sou muito inflexível com ideologia, mas não com pessoas. Quando biscateio com alguém não estou pensando em deixar minha vida em suas mãos na trincheira da revolução e nem deixá-lo conviver com meu filho. Estou só biscateando. Então, respeitem minha biscatagi e seus ~critérios~ libertários/libertinos/frouxos. Porque se não respeitarem… Bem, vou biscatear do mesmo jeito.

barba2

Só ando um tanto intransigente com barbas. Mas…depois de beber um pouquinho…talvez…afrouxe aí também.

*Minha avó Carolina, analfabeta e filha de um alemão com uma polonesa, tinha dificuldades com algumas palavras. Para ela não existia afrouxar, mas afloxar. E olha, na pronúncia, a dela fica mais de acordo. Porque alguém flôxo é bem mais frouxo, acreditem.

(então, reescrevendo…)

“Só ando um tanto intransigente com barbas. Mas…depois de beber um pouquinho…talvez…afloxe aí também.” (sentiram a floxidão?)

SIM, sou flôxa!

#VemNiMim

Beijo, Vó!

Não estou

— Bom dia?
— Que dia? Que bom? Tá maluco?
— Sou eu, seu dia. Venha.
— Não estou. Volta amanhã.

estou

Nem todo dia acordamos junto com o dia. Nem todo dia ao acordarmos e a nave do teu dia/rotina abre a porta e avisa #partiu tu embarcas. Tem dias que tu ficas na cama, e deixa pra depois o acordar, e vai adiando, adiando… Como se o dia pudesse te esperar. Não pode, não espera, e depois te apresenta a conta.

Hoje foi assim. Acordei e não embarquei no meu dia. Fiquei na cama até agora a pouco, enrolando, rolando, e adiando. Não adiantou. O dia ficou batendo o pé com cara de impaciente e olhando o relógio e interrompendo o meu sono a cada dez minutos. O inferno!

Resultado: quando finalmente embarquei no meu dia, estava mal humorada. Mas, pelo menos com vontade de escrever e desabafar. Pelo menos para dizer isso. Que nem todo dia é dia de escrever, de biscatear, de lutar, de acordar e viver. Hoje não era. Era para eu ter ficado lá, na cama, o dia inteiro — mas sem as interrupções a cada dez minutos, claro!!!

E tem trabalho para fazer, e conta pra pagar e ginástica no orçamento para tentar viajar amanhã e conseguir gargalhar um pouco e esquecer do resto dos dias que não me esperam e forçam uma barra danada comigo… Enfim! Tem dia. Tem o dia. Ele está aí. Mas eu não estou nele.

Ânimo em pílulas, por favor? Pelo menos para biscatear…

— Não estou. Volta amanhã, quem sabe… :/

Minha parte exilada

Por Niara de Oliveira

Abafada, contida, quase perdida nessa cidade que não é minha e é partida. Claro que dentro da cidade estou no mesmo lugar em que sempre estive. Na parte que é minha, no lugar reservado pra mim nesse mundo. Sei o meu lugar, sei de que lado estou em qualquer partilha de cidade ou mundo, mas está longe de ser confortável ou bom. Me saber não quer dizer estar bem ou aceitar. E sou ‘revolts’, vocês sabem. É… exilada.

Na parte da cidade que não é minha, a parte é familiar na simplicidade das gentes, gostos, jeito, gestos, cheiros. Mas falta clima, temperatura, sotaque, tempero… Está faltando o encantamento, o lúdico, aquela coisinha que mesmo nos momentos difíceis te fazem sorrir e seguir caminhando.

Ser estrangeira numa cidade de beleza tão anunciada em prosa, verso e vendida em publicidade e não se sentir confortável não é fácil. Nem é fácil se fazer entender quando digo que meu lugar é mais bonito que aqui. Será só a sensação de despertencimento, de exílio?

Cidade de biscatagem solta e anunciada, de malemolência cosmopolita, me faz biscatear menos. Será o exílio? Estou ambientada. Me obriguei a me ambientar para sofrer menos. “Escolhi” ficar, para poder escolher melhor depois. Para voltar a ser eu, revolts, biscate… satolepiana.

Podia ao menos chover um pouco para me fazer sentir melhor… Mas, não.

ridijanêro

deve ser até pecado sentir esse gosto de exílio numa cidade dessas… mas, é assim que é

Bonança

Juro que hoje eu queria escrever um daqueles posts cheios de cor, de calor e de alegria. Mas biscate também fica triste. Biscates, apesar de fortes, também podem acabar quase sucumbindo diante de questões sem uma solução possível a curto prazo, dependendo do tempo e de fatores externos para deixar de causar aflição.

Tá aí uma coisa que não desejo a ninguém: a aflição.

Todos temos problemas. Uns mais, outros menos. Mas todos temos. E nem sempre conseguimos lidar com eles com a serenidade necessária. E eu estou assim nos últimos dias, por um conjunto de fatores: uns são minha culpa, admito. Outros foram ocasionados por um sistema que funciona de forma bem precária e independe da minha vontade ou de minha atitude que algo mude nele. E, quando um pequeno avanço acontece, o dobro de retrocessos chega para “compensar”. Isso cansa bastante.

Ainda não tenho meios de provocar uma ruptura radical e definitiva com essa questão que tanto me aflige. Contudo, imaginem como é você ter que fazer todo dia algo sem a menor paixão. Sair da sua casa todos os dias  “se arrastando” para fazer determinadas obrigações que são apenas isso: obrigações. E o pior: você se sentir egoísta por reclamar tanto daquilo que te acontece enquanto tem gente vivendo de um jeito muito mais sofrido do que o seu, com menos amargura.

Vocês já pensaram que esse negócio de ser “bem sucedido” e “estabilidade” podem ser uma imensa furada?

Depois que “me descobri” biscate, aprendi a olhar muito mais para mim mesma e para os outros.  Como nunca tinha feito antes. Tenho quase certeza de que essa fase meio zicada faz parte deste processo. E que de alguma forma, irei crescer com isso. Só que paciência num é muito o meu forte e nas minhas veias, corre pressa ao invés de sangue. E entender aquilo que não serve para você quase sempre dói.

Desculpem se o texto de hoje fugiu da temática do blog. É que este é um dos poucos espaços que me representam ultimamente. Entendam este desabafo como uma forma que encontrei para exteriorizar o que sinto e ao mesmo tempo, compartilhar uma experiência que pode vir a acrescentar algo na vida de alguém.

Dizem que depois da tempestade, vem a bonança. Quando a minha tempestade acabar, espero poder voltar aqui para dizer que foi apenas uma chuva de verão que veio para me refrescar e fazer com que a minha visão fique menos turva para encontrar de verdade o meu caminho.

Uma nova biscate

Por Líli France*, Biscate Convidada

Minha paixão por este blog é tão grande, que meu desejo é falar tudo da minha vida, falar tudo que eu penso e que eu não posso conversar com muita gente. Criar textos e mais textos para o blog, em amor a ele, com as idéias que tenho diariamente e que não ponho no papel. Leio todos os posts, cheia de sede e de encantamento. E os que não posso ler no momento, ficam guardadinhos pra primeira sombra de espaço livre que eu tenho pra ler. É tanta vontade de fazer parte disso tudo aqui, que me transbordo de ansiedade. Mas vou me acalmar, não se preocupem. =D. Agradeço de coração por uma oportunidade que me cativa imensamente.

Vou falar um pouco de mim, da minha história, para que vocês me conheçam um pouquinho, já que eu conheço um tantinho das biscates escreventes e convidadas daqui.

“Curtindo a vida adoidado” — 1986

Nós já vimos por aqui alguns relatos de biscates casadas (e bem casadas), e eu sempre me identifico bastante. Mas nem sempre tudo dá tão certo, porque ser uma biscate casada, num relacionamento onde seu(sua) parceir@ compreende sua biscatagi é muito difícil.

Apesar de ter 22 anos, já fui casada. Estive nesse relacionamento por quase 6 anos. No início éramos o casal perfeito. Mesmo ele sendo caseiro e eu não, nós saíamos paa lugares que sempre eram do agrado dos dois, e programinhas caseiros também eram super bem-vindos.

Antes de completar 21 anos, comecei a ter uma daquelas crises de idade que tod@s têm. Foi a primeira (e única até agora, ainda bem), e me deixou num estado de reflexão, medo e “claustrofobia” contínuos. Eu comecei minha relação com ele quando eu tinha 15 anos, e ele 23. Sempre fui mais madura do que o convencional para minha idade, e não planejava o que é chamado de “auge da adolescência”. Na minha cabeça, tudo que eu precisava viver, o meu auge, poderia ser acompanhada, tudo que eu precisava viver, viveria com ele. E não posso dizer que minha adolescência deixou de ser especial, estaria sendo no mínimo cruel e mal agradecida. Mas a cabeça de uma garota de 15 anos não é a mesma de uma de 21. Então não foi o bastante.

Acho que todos precisam de porraloquices. Até os que acham que não. E foi assim que começou meu ano de 2011: numa sede absurda por liberdade. A dar partida pelo reveillon em que, tanto eu quanto ele, tivemos uma “noite não monogâmica” pela primeira vez. Que resultou, inclusive, em uma paixão por uma garota, sem deixar de amar meu marido. Poliamorismo que ele não aceitaria.

Sempre tive alguns gostos e amigos que não batiam com o perfil dele. Queria frequentar boates LGBTT e sair ao amanhecer, rir descontroladamente num bar, falar de sexo sem pudor. Coisas que eu não poderia fazer sem que ele cerrasse suas sobrancelhas arqueadas naquele olhar de quem teve seus conceitos desafiados. Eu queria passar a noite dançando, esquecendo de tudo. Ele queria passar a noite assistindo um bom filme, e não costumava dançar muito. Não que eu não gostasse de sentir o prazer intelectual que ele sempre prezava, eu adorava igualmente. Porém, eu queria também o prazer dos sentidos, eu queria viver o que nós líamos e assistíamos. O que mais se passava em minha mente era “que história eu vou contar quando tiver a idade da minha mãe? Reclamar que não tive juventude, como essas coroas que vejo por aí?” Não… eu não podia. Eu precisava voar.

De início foi um tanto na paz. Eu tinha meu espaço. Já estive numa banda de eletropop totalmente biscate, e eu tinha que me caracterizar e exteriorizar tal perfil. Poderia encontrar meus amigos, sair com eles sem meu marido, mas ainda assim não era o bastante. Eu ainda não poderia chegar depois das 23h, a não ser se fosse para dormir na casa de alguém da confiança dele; tinha que falar de baixaria e bebedeira sem comentar com ele; não podia sair sem destino, sem tudo programado; ficar numa boate até o dia amanhecer? Nem pensar. Mas tudo isso acabou acontecendo. As consequências foram brigas e brigas. Não o julgo, cada um sabe seu limite. Mas o meu também estava sendo atingido. E mais brigas. Silêncios que incomodam, expressões frias e decepcionadas. Assistíamos nossas séries sem comentar e discutir, como fazíamos antes. Pois nossos pensamentos ainda estavam na discussão ofensiva que tivemos outrora. Eu me afastei de algo que havia ali, e não sabia o caminho de volta. A frieza tomou conta. As coisas que eu não deveria comentar com ele ficaram mais abrangentes, pois estava tudo mais frágil. E qualquer comentário do tipo “aprendi a beber cerveja com o pessoal do meu trabalho”, feito entre os amigos dele, se tornava motivo para desentendimentos (true story). O que as pessoas poderiam pensar? O que elas vão dizer se eu tivesse aprendido a beber cerveja com um monte de homens? Se eu voltasse da balada só e pela manhã? A fragilidade do relacionamento foi aumentando tanto, que eu estava me sentindo privada de ser quem eu sou, simplesmente por ter que pisar em ovos. E a vontade de sair com ele acabou diminuindo por causa disso. Imagina falar besteira com meus amigos na frente dele e acabar tendo dr depois. O clima na minha casa ficou tão tenso que as vezes eu chorava quando tinha que ir pra lá no fim do dia. Todo dia poderia ser o último com ele. Todo dia eu pensava em terminar. Nós tentamos consertar muitas vezes. Tivemos muitas conversas metódicas tentando encontrar uma solução, como curtir mais estando juntos. Mas nada adiantou.

A Dido me entende.

Um dia eu fui forçada a ter coragem por causa das circunstâncias criei coragem e terminei, com muita insegurança. Terminei com aquele que parecia ser meu par perfeito pra vida inteira, mas que na verdade ele era o par perfeito pr’aquela outra garota de uns anos atrás. Ele disse que já tínhamos terminado, só que ainda estávamos morando na mesma casa. Fato.

Minha vida desmoronou. Não digo sentimentalmente, porque nessa parte o alívio era maior que outra coisa, porque como ele disse, o que havia entre nós já tinha acabado antes de terminar o relacionamento. Mas em questão de planejamento, estava tudo destruído. Tudo que eu já tinha planejado pra minha vida, tudo que minha família esperava de mim, tudo que eu planejava ser, foi perdido. Uma vida foi perdida, um caminho inteiro, uma Aline morreu. Um universo paralelo (fã de Fringe detected) foi destruído. Eu não sabia sequer como minha família olharia pra mim, como ela reagiria. Mas eu tinha força o bastante pra continuar. Era como a disposição em deixar uma cidade falida de Sim City de lado e começar uma do zero, com tudo novo, tudo desconhecido. Ou jogar as roupas do seu guarda roupa bagunçado em cima da cama, e dobrar tudo de novo. Naquele mês eu passei meu primeiro(em minha vida toda) fim de semana sem rumo, saindo de um lugar, indo pra outro porque deu na telha e sem saber onde iria dormir. Tudo esperava pra ser descoberto.

E é nessa vibe de andar por estradas que nunca planejei, que me encontro há 8 meses. Desbravando um mundo desconhecido. Biscateando de bar em bar (sem medo de ficar bêbada demais e ser julgada), de boate em boate (sem saber a hora de volta), de boca em boca (que nunca seriam descobertas), de risada em risada. Estando disponível para meus grandes amores, que são meus amigos, sempre que eles precisarem, só precisando ligar. Assim, sem planejamento de rotina nas noites e fds por aí. Tenho meus momentos de solidão, afinal dormir sozinha depois de tanto tempo tendo meu lençol já quente é bem difícil. Ainda mais pra mim, que tenho medo de ficar só, desde pequena. Morar com minha mãe, tendo saído de casa assim que completei dezoito anos, igualmente difícil. Mas nada foi desperdício. Eu o amei com tudo que eu tinha. O amei como se não houvesse possibilidade de fim. Amei como se fosse início de namoro sempre. E todo o amadurecimento e conhecimento que ganhei estando ao seu lado, não se mede.

Já desisti de planejar o que não dá pra saber. Deixa essa parte metódica pra vida material/profissional e olhe lá. Não sei o que vem pela frente, não sei se vou terminar sozinha. Mas no final das contas a gente nunca sabe de nada.

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Líli France* Aline na certidão, mas Líli desde que se assumiu biscate. Aos 22 anos já foi casada, hoje o carinho que ela tem no fim do dia é de sua gata Ísis. Web designer, maquiadora, rpgista, cinéfila, gamer e a caminho para ser cantora. A amizade é o que há de mais importante pra ela, seja por pessoas com laço sanguíneo ou não, e tá sempre fazendo barraco em proteção das questões LGBTT e biscáticas. Ri fácil, ri alto, é avoada e esquece de qualquer tristeza quando está com os amigos nos botecos e boates por aí.

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