Luiza ERUNDINA

Foto: Antonio Miotto

Luiza Erundina no CEU Perus (Foto: Antonio Miotto)

Luiza Erundina, deputada federal e ex-prefeita de São Paulo, participou do evento no dia 11 de abril: diálogos com a comunidade no Centro Educacional Unificado (CEU) PERUS, na Zona Norte. O tema do evento foi “Ditadura Militar no Brasil – 50 Anos do Golpe de 1964 – Conhecer para não repetir.”

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Momento histórico, com direito a choro e emoção, cantando Vandré e até tietagem, com muita honra!!! Ditadura nunca, nunca mais!! (Foto: Antonio Miotto)

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Luiza Erundina (Foto: Antonio Miotto)

Alguns depoimentos

Sobre o processo que culminou com a eleição de Luiza Erundina, a primeira prefeita de São Paulo:

“Fizeste parte da histórica Revolução dos Bagrinhos, onde as base enfrentaram a direção, garantiram a indicação da Luiza como candidata e com o boicote da dita direção, as bases foras para as ruas, de casa em casa e voto a voto elegeram uma mulher pobre e nordestina como prefeita da maior cidade da América Latina.”

“Que conquista! E se não me engano em cima do Maluf cuja vitória nas pesquisas por mais de 5 pontos a globo cantou até a véspera. Tive o prazer de contar esta história para os meus filhos e na sexta apresenta-los a Luiza e ela a eles.”

O governo de Luíza Erundina, e sua opção política de governar com e para a periferia da cidade:

“Erundina foi pioneira na implementação de um projeto de governo voltado para o social, e a cultura e as artes eram eixos prioritários.”

“Foi uma vitória e um governo dos movimentos sociais e populares. A periferia pela primeira vez venceu, constituiu identidade. Foram os primórdios deste hoje vivo e pulsante movimento artístico e cultural que hoje está revolucionando as periferias.”

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(Foto: Antonio Miotto)

Ainda enterrado em cova rasa o AI-5 completa 45 anos

Por Niara de Oliveira

E as mulheres com isso?

*esse texto faz parte da VIII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

grafite, de Gabriel Muniz

Em quase todos os momentos da história da cultura judaico-cristã o simples fato de ser mulher e ir um passo além do papel designado pela sociedade patriarcal já nos colocava na situação de subversiva. E foi assim na resistência à ditadura.

“Fica evidente que para a ditadura militar brasileira, a mulher militante não era apenas uma opositora ao regime militar; era também uma presença que subvertia os valores estabelecidos, que não atribuíam à mulher espaço para a participação política. Como esta questão está presente na sociedade e nas próprias organizações de esquerda, pode-se concluir que as relações de gênero têm uma dimensão que perpassa todas as instâncias e instituições sociais.
Para uma história das mulheres é imprescindível que a história seja entendida como resultado de interpretações que têm como fundo relações de poder. O caráter de construção da história nos permite desconstruir e reinventar a história, inclusive o papel dos homens e das mulheres na sociedade. Assim a história passa a ser vista como um campo de possibilidades para vários sujeitos historicamente constituídos; lugar de lutas e de resistências.”
As mulheres e a ditadura militar no Brasil, artigo de Ana Maria Colling ICH-UFPel

Se os atos institucionais, entre eles o desgraçado AI-5, foram dando as desculpas legais para toda sorte de arbitrariedade nos porões das delegacias e “departamentos de ordens e segurança” durante a ditadura militar contra quem ousava criticar e se insurgir, contra as mulheres nada disso nunca foi necessário. Embora a subversão das mulheres nunca tenha sido tolerada, também nunca precisou de uma ditadura oficial para ser combatida especificamente. Mas, mulheres subversivas e comunistas já é vandalismo. E embora também não tenha sido fácil para as mulheres (como ainda não o é) enfrentar o machismo da esquerda e se destacarem como quadros políticos na resistência, nunca se teve dúvidas sobre quem era o inimigo maior. E enfrentamos os mesmos horrores.

Difícil dizer se na tortura a crueldade era maior com mulheres. Tortura é cruel, desumano e abominável. Ponto. Claro que haviam os abusos continuados, porque alguns torturadores usavam presas como objetos sexuais diariamente, independente da tortura outra, para arrancar informações e para “quebrar” militante. Estavam ali mesmo, “à disposição”. Sevícias eram comuns com homens e mulheres, fazia parte da cartela de crueldades. Úteros perfurados, filhos roubados, mães logo após sessão de tortura expostas à visita dos filhos, grávidas torturadas… Muitos e horríveis são os relatos do período, ainda não oficiais, ainda não inclusos na história oficial do país, ainda não julgados, ainda colocados em dúvida.

45 anos após aquela tenebrosa sexta-feira 13 de dezembro de 1968 ainda tememos as delegacias, os abusos, a tortura, os desaparecimentos. Ainda tememos a polícia, homens e mulheres que ousam se insurgir contra… qualquer coisa. Basta ser consideradx subversivx. Estar com uma câmera, profissional ou celular, na mão e “ameaçar” registrar os crimes dos agentes da lei. Basta estar com uma garrafa de desinfetante no lugar errado — ou no lugar certo, do ponto de vista do Estado e da polícia que precisa responsabilizar alguém, e se for preto e pobre fica “melhor responsabilizado ainda”.

Embora não estando oficialmente num estado de exceção, o Estado não é seguro. As ruas não são seguras para subversivos e insurgentes, homens ou mulheres. Como bem lembrou a Suzana Dornelles, o AI-5 está enterrado em cova rasa, e se não estivermos atentos e vigilantes talvez nem precisemos de outro ato institucional para vivermos mais horrores nessa “democracia”.

Leia também:

E assista:

“Que Bom Te Ver Viva”de Lúcia Murat:

Luta, Coragem e Memória: Substantivos Femininos

Por Niara de Oliveira

O assunto aqui é sempre biscatagi, mas tem momentos que precisamos falar sério. Hoje é um desses dias. A nossa tão amada e louvada biscatice e a liberdade para biscatear não seria a mesma não fossem muitas mulheres que se privaram dos prazeres da vida para lutar pela liberdade de todos.

Além de pegarem em armas quando foi preciso na resistência à ditadura militar brasileira e aos horrores que ela impunha ao país, foram elas as grandes responsáveis pela Anistia. Sim, a tão questionada Anistia que era para ter sido ampla, geral e irrestrita — mas que só serviu até hoje para proteger o Estado e seus agentes criminosos, torturadores e violadores de direitos humanos — foi resultado direto da coragem e da luta das mulheres.

“A anistia sancionada por Figueiredo foi parcial, mesquinha e restrita. Não houve pacto. Houve imposição. De uma pequena maioria, num Congresso ainda emasculado pela legislação discricionária, associada à truculência habitual dos trogloditas do regime. Aos que estavam do lado dos perseguidos restou apenas se curvar à correlação de forças e aproveitar os elementos de avanço que a medida de qualquer forma representava (porque ninguém seria louco para se recusar a sair da prisão ou a voltar do exílio).” — observa  Chico Assis, em Os penduricalhos da mentira.

Era a luta possível e mesmo com assassinados ainda ocorrendo no país (vide o caso de Vladimir Herzog, assassinado em 1975, e a lista dos mortos oficiais a cada ano e ainda a lista dos desaparecidos políticos) não se intimidaram e foram à luta.

Foi a advogada Terezinha Zerbini que conseguiu entregar a uma autoridade norte-americana em visita oficial ao Brasil em 1974 uma carta onde denunciava as condições dos presos e exilados brasileiros.

“Paralelo a este trabalho de denúncia, havia um trabalho de assistencialismo aos presos políticos em várias regiões brasileira, realizado por grupos de mulheres, que possuíam familiares e amigos de presos ou exilados. Tais mulheres realizaram práticas políticas na assistência aos presos, naquela época.

A partir de 1975 – Ano Internacional da Mulher – com a fundação do Movimento Feminino pela Anistia no estado de São Paulo, mulheres de todo o Brasil iniciaram a campanha pela anistia política aos presos e exilados políticos.

Inicialmente, a campanha pela anistia assumiu uma forma mais amena, sendo as reuniões restritas a ambientes fechados.  Naquele momento era arriscado opôr-se ao regime militar, cuja legitimidade apesar de desgastada pela crise do Milagre Econômico, era imposta, ora pela força física, ora pela propaganda ideológica. Falar de oposição ao regime militar significava: ameaça de levante submisso e comunista  contra a defesa da ordem democrática.

Mas o clamor por anistia política, entoada por vozes femininas, de mães e esposas que imploravam, ao Estado, o perdão de seus entes queridos não podia ser ignorado. Aos olhos da sociedade, tratavam-se de mulheres dispostas a reconstituir seus lares desfeitos pela “ameaça comunista”.

Com esta justificativa, as mulheres brasileiras iniciaram a campanha pela anistia aos presos e exilados políticos, protegidas pelo papel da mulher na sociedade: defensora e protetora do lar. Naquele contexto, não havia como bloquear a ação daquelas mulheres.

Progressivamente a campanha ganhou fôlego e avançou no cenário nacional e  internacional, dando origem a vários movimentos e comitês pela anistia em todo o país.

No dia 4 junho de 1977, forças policiais cercaram o prédio da Escola de Medicina da UFMG,  e efetuaram várias prisões, minando o III Encontro Nacional dos Estudantes, em Belo Horizonte. O objetivo deste encontro era promover a reorganização da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Neste mesmo dia, várias pessoas manifestaram seu descontentamento com as atitudes do governo militar em relação à sociedade civil. Entre elas, destacou-se o discurso de Helena Greco, assustada com as cenas que havia presenciado e preocupada com a situação política e civil daqueles jovens (homens e mulheres), que reivindicavam uma realidade democrática para o país e o fim de todas aquelas perseguições, censuras e torturas.  As mulheres que se esforçaram para formar o núcleo do Movimento Feminino pela Anistia em B.H., aproveitaram a ocasião para convidar todas as mulheres mineiras a participarem de um ato de protesto contra o governo, vendo na figura de D. Helena, a representante maior daquela proposta. No dia 30 daquele mês foi fundado o Movimento Feminino pela Anistia em Minas Gerais, presidido por  Helena Greco.

As propostas iniciais do Movimento eram a luta pela anistia política e contra a discriminação da mulher. O núcleo mineiro foi um dos mais numerosos do país, chegando a congregar um total de 300 mulheres. Naquele momento, afloravam, de forma mais explícita, denúncias sobre as perseguições políticas, a situação dos presos políticos, dos cassados, dos exilados, dos desaparecidos e de seus familiares.

O principal motivo de integração das mulheres mineiras foi o mesmo que levou à desintegração do MFPA. Ou seja, a maioria das mulheres que se integraram ao Movimento o fizeram porque este era o único canal de participação possível naquele momento.

O principal motivo que levou o pioneirismo feminino à campanha pela anistia deve-se ao apelo humanitário da campanha. Ou seja, tratava-se de mulheres cumprindo seu papel designado pela sociedade: o de mãe e esposa, transmissoras de valores sociais e protetoras de seus entes queridos.”

(artigo de Anna Flávia Arruda Lanna, MULHERES E ANISTIA: ENTRE BANDEIRAS E FUZIS sobre o Movimento Feminino pela Anistia em Minas Gerais no período de 1975 a 1980)

Se hoje nós podemos biscatear livremente por aí — ou nem tão livremente assim, mas vamos enfrentando as adversidades com alegria — devemos isso às mulheres que subverteram o papel que lhes era permitido e foram além, levantaram bandeiras em nome da liberdade.

Fica aqui o pequeno registro do Biscate Social Club sobre a luta dessas mulheres. E para que essas histórias sejam conhecidas precisamos desarquivar o Brasil e promover o encontro dessa nação com a verdade e sua memória. Precisamos contar oficialmente, e com orgulho, a história da resistência ao horror oficializado pelo Estado. Para que se conheça, para que não esqueça, para que nunca mais aconteça!

Continuamos daqui, levantando outras bandeiras em nome da mesma liberdade.

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E para que conheçamos mais a história dessas guerreiras, assista ao filme “Que Bom Te Ver Viva” — baseado em depoimentos de mulheres (elas estão presentes no filme) que lutaram na resistência à ditadura, foram presas, torturadas e sobreviveram — e baixe em pdf o livro “Luta: Substantivo Feminino — Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura“.

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Este texto faz parte da 5ª Blogagem Coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28 de março a 02 de abril de 2012.

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