Explosão

Por Maíra A., Biscate Convidada

É delicioso quando a cama é revisitada, ainda que no desejo. Adoro o seu jeito de cão sem dono. Indisciplinado, salivante, faminto. E você me serve camarão com abacaxi e pimenta. O vermelho, o rosado e o amarelo se misturam por entre as pernas e braços enlaçados em chamas. E você vem farejando calor no meu corpo, enquanto sente meu cheiro de goiaba tropical desejante e toca de leve meus mamilos, que endurecem ainda cobertos pela blusa. Respondo gemendo baixinho, acariciando a sua cintura com as duas mãos e arranhando de leve as suas costas, enquanto sinto seu cheiro másculo de hortelã com sal. Você acaricia de leve as minhas coxas, como se mordiscando-as com a mão. E elas se abrem lentamente, ansiosas por um toque na parte interna. E te beijo firme, sentindo a sua língua na minha. A boca molhada e as coxas úmidas pulsam de tesão. Fecho os olhos, desabotoo a sua calça e deslizo a mão pela sua virilha, mas mais forte, porque suave assim você sente cócegas.

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Você fica mais pra quente do que pra morno e me devolve a carícia na vulva, deslizando de leve o dedo pelo meu clitóris, flor de fogo. Crepitante, faço movimentos vigorosos no seu pau. Te sinto arrepiado da virilha à nuca. E você me lambe de leve no pescoço, porque assim você sabe que eu arrepio da cabeça aos pés. E a gente se mistura de novo em explosões orgásticas de cores fervilhantes. E você bebe no oásis da minha umidade, circulando a língua pela minha vagina e me olhando firme. E nós nos puxamos os cabelos, que fazem estalinhos. Foguetes de todas as cores espocam quando nos encaixamos mais uma vez. Delírio tropical, caliente, afrodisíaco. A nossa dança continua pela madrugada de gozos e gemidos uivantes de animais selvagens. Adormeço, como se saciada depois do jantar. Corpos em brasa que se desmancham. E renascem novamente na noite seguinte. Fênixes livres. Corpos pulsantes que se refazem. Corações que batem juntos. Você & eu, como em novela mexicana. Como em tourada espanhola. Como só nós nos sabemos. Ainda que só no desejo.

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Maíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Dá cá um abraço, amasso!

Abraço.

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E calor. De corpos. De pele. Peles. Já pensou, imaginou, masturbou, tocou, gemeu sobre este instigante tema da humanidade, o abraço? Porque o que é um pau numa buceta senão um abraço. Ele rijo, ela molhada. Ele lá, ela lá, pinto, vulva, cacete, xoxota, molhado, molhada, entumescidos, clitóris, babas, gozos, abraço. Não é um tipão de abraço, este aí?

Sem contar que num tem analogia mais brincante que o cu abraçando o pau, apertando, doendo de amor, tem? Pode ter malabarismo, gel, suores, odores, mas tem lá um quê de abração, gostoso, forte, imantado. A cabeça da gente funciona aos abraços, imagino.

E tem abraço que é capô com  capô. Aquele encontro de formas, exuberares, toques, avessos, esfrega, fricciona, ama, clama, vexama, denguinho, abraço, abraço, abraço.

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Esse mundão todo devia era abraçar mais e falar menos. Porque a gente quando fala esquece de ouvir. E quando abraça, o abraço, o abraço, só tem calor se for entrega, sem protocolo, aperto, saudade, vontade. Desejo do calor do afago, do carinho recíproco, do amor que nasce de corpos que se aquecem. Abraço não tem gênero: no futebol, na cama, no boteco, na rua, na varanda, na esquina, no meio, no fim, no começo, no fim do entrevero, no começo da paz, nas intermináveis dessolidões tão importantes. Me abraça, abraço, abarco. Abarcar. Acalento, acalanto, acalentar, abraçar, canto.

Sem contar que o beijo, a língua na língua, a língua no falo, a língua no grelo, a língua no ânus, a língua no amor, a língua a milanesa num balcão de bar: quem é que não tem, na ponta das línguas, um abraço?

É isso, biscate é abraço.

O tesão platônico

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

O popularesco colunista reaça que escreve em blogs com bic duas cores criticou uma recente charge da deliciosa Laerte Coutinho. Mas aqui vale a máxima: Laerte é nossa diva e nada nos faltará. E assim foi feito. Laerte declarou publicamente seu tesão platônico em relação ao colunista reaça. E quem aí nunca teve tesão platônico, né minha gente? Quem aí não guarda nos átomos do corpo aquele desejo de desnudar quem deveríamos desprezar, não é mesmo?

Sobre o Reinaldo Azevedo.
Acho que eu não devia dizer o que vou dizer, mas minha advogada opinou que não vai gerar ação na justiça. E minha analista deu força, pra botar pra fora senão somatiza e piora a situação das varizes.
Então lá vai – esse cara me dá um tesão desgraçado.
Não sei o que é – tá, ele não é um ogro -; se é o olhar decidido, o nariz, os lábios, não sei!
Nessas noites de frio que vem fazendo eu fico debaixo das cobertas e, como diria o Henfil, peco demais.
Vou acabar tendo que depilar a mão com cera espanhola.
Acho que eu tenho síndrome de Estocolmo platônica.

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Tesão é desejo. E muitas vezes inexplicável. Aquela sensação de simplesmente encontrar alguém capaz de acender algo diferente, gostoso, um requeijão cremoso a mais na vida. As vezes não dura muito, as vezes dura a vida toda, especialmente quando se é platônico, alimentado com carinho e pão de mel.

Porém, quando falamos de alguém que age e pensa de forma contrária ao que acreditamos, ao que temos como ideal e buscamos ser, surge sempre a dúvida: biscate com princípios ou não? Relevamos em favor do tesão? Esquecemos em favor da revolução? Aquecemos com mãos solitárias no calor do colchão? Infelizmente não há resposta fácil quando o assunto é desejo, tesão ou direito tributário. Todos temos nossas prioridades, sentimentos e taxas pra colocar na mesa. A melhor parte pode ser reconhecê-las. Assim como fez Laerte, também quero botar pra fora o que alimenta meus pensamentos mais proibidos…

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

A culpa, o samba, os relacionamentos 2*

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Um casal (famoso ou não) se separa e as especulações começam. Se há suspeita (e sempre há, quando não por indícios “reais”, por pura inferência) de um triângulo amoroso, não resta dúvida: a “culpa” é da mulher. Ou das mulheres, com gradação. Primeiro a culpa da “traída”, porque não soube segurar seu homem, não deu atenção, deve ser fria, trabalha demais e tal e coisa e coisa e tal. E, com mais vigor, as recriminações à que é descrita como causa, motivo, razão da separação. A outra, a rameira, fácil, destruidora de lares e mais uma coleção de xingamentos que relacionam atividade sexual com pouco caráter e/ou ética questionável. Em uma vibe aparentemente menos virulenta, mas ainda com uma demanda de rotulação e culpabilização da mulher, chegam os argumentos de “cadê sororidade?”, “tem que respeitar o relacionamento da outra mulher pra ser respeitada”, “mulheres tem que se apoiar e não tomar o companheiro da outra”, etc.

Um questionamento válido que muitas pessoas acrescentam são reflexões e indagações sobre a participação dos homens envolvidos na relação. Afinal não são eles os comprometidos no casamento/noivado/namoro/whatever? Não são adultos, responsáveis pelos seus desejos e ações? Não são eles que “quebram” os votos, as promessas, os vínculos? A “culpa” não é deles?

Nessa vibe, uma manchete que responsabilizava a babá pelo fim do casamento entre Ben Affleck e e Jennifer Gardner foi transformada em: Ben Affleck é pivô da separação entre Ben Affleck e Jennifer Gardner. Parece bom? Parece. Mas. Pois, esta biscate tem mania de mas. A manchete modificada traz a ideia de que uma separação, o fim de um relacionamento, tem um responsável, um culpado. E, aqui entre nós, penso que não existe pivô de uma separação. Um casal se separa porque chegou ao ponto em que não dá mais. Porque sim. Porque assim é melhor. E se é pra um dos dois, é para os dois. Quem convive com suas razões, e apenas estes, podem explicá-las a quem lhes é de interesse, aos outros melhor seria ocuparem-se de seus próprios nós. A vida íntima alheia (de célebres ou não) não deveria motivar tanta preocupação e, principalmente, julgamentos baseados em julgamentos do comportamento sexual das mulheres.

E tem outro mas. Ai tem? Tem. Porque o buraco, penso eu, é bem mais embaixo. O bafafá e quiprocó sobre separa-não-separa, foi-por-causa-do-quê-de-outra-não-de-homi-que-não-presta só acontece inserido em uma lógica de a) exclusividade afetivo-sexual e b) imperdoabilidade (existe essa palavra?) de relacionamentos sexuais com outras pessoas.

A nossa sociedade construiu e tenta sustentar (ao mesmo tempo que se sustenta, também, nela) uma ideia de que relacionamentos certos são capazes de – e devem – suprir todas as demandas, faltas e necessidades dos envolvidos. Mas, sei eu e, aposto, sabe você, somos seres de incompletude. Nada, ninguém, relacionamento nenhum vai nos deixar inteiros. Ah, mas a gente não precisa atender a todos os nossos desejos, porque essas pessoas não se controlam? Eu mudo a pergunta: porque é preciso o controle sobre o corpo e o desejo? O que se garante, garantindo esse controle? A quem interessa regrar o sexo alheio?

Vamos combinar: o que há de realmente grave no fato da pessoa com quem trepamos trepar com outra pessoa? Ou ainda, o que há de mais grave nisso do que ela ir ao cinema com outra pessoa? Do que ela gostar de conversar sobre vinis antigos com outra pessoa? O que há de realmente mais grave no fato da pessoa com quem trepamos participar de uma suruba do que participar de um grupo que faz degustação de vinho ou escalada? Porque achamos que é uma imposição nos afastarmos de quem beijou outra boca que não a nossa mas não de quem passa horas jogando videogame com outro alguém que não a gente? Parece-me que nada – afinal tem prazer envolvido, tem tempo envolvido, tem desejo envolvido em todas essas outras atividades, assim como no sexo – a não ser o local em que colocamos o sexo na nossa pudica sociedade. E como o usamos para cercear, reprimir e hierarquizar situações, pessoas e desejos.

Não estou dizendo que não dói, que não mexe, que não balança a gente saber que a boca que encostou na minha boca anda sugando línguas outras. Afinal somos todos inscritos em um discurso de posse, exclusividade, que nos ensina que isso é pra doer, que isso é prova de desamor, que se perdoa quase tudo, mas isso, ah, isso não. Não estou, também, dizendo que, ok, agora entendi, então vamos todos nos tornar não-monogâmicos. Não estou dizendo que ah, coitadinhos, deixa os homens treparem à vontade. Estou dizendo nada disso. Estou, mal e mal, tentando circunscrever esses discursos de posse, separação, traição. Tentando discutir que essa dor de “ser traída” não é um dado natural inevitável, mas resultante de uma construção social que pode ser desconstruída, devagar e sempre (incluindo a noção de traição) rumo a uma sociedade que nos reprima menos e onde se goze mais. Tentando conversar sobre o quanto intimidamos e magoamos outras pessoas ao reforçarmos discursos onde a exclusividade sexual se torna tema central e inquestionável (quantas vezes não ouvi as pessoas dizendo “mas é CLARO que ela devia se separar, imagina, ele transava com outra pessoa há meses”) dificultando que as pessoas afirmem seu desejo de continuidade “apesar de” ou, mesmo, “por causa de”.

Disse antes e repito, não se trata do que sentimos, mas do que fazemos com o que sentimos. Trata-se de quem queremos ser e em que sociedade queremos ser quem queremos ser. Trata-se de ser responsável pelo meu desejo, pela minha falta e pelas minhas ações. Trata de amar no outro a sua incompletude. De amar, na vida, também os silêncios, os vazios, as distâncias. Trata-se de mais. Querer mais, ser mais, gozar mais. Trata de substituir a culpa pela responsabilidade. De afirmar o desejo. E de parar de se importar com quem os outros estão trepando, porque estão trepando, o que A ou B acham da trepada. Parar de criar regra pra trepada alheia, olha aí um bom mote.

*Texto desenvolvido a partir de uma postagem de Dai Dantas no FB que, aliás, está copiada (com autorização) praticamente sem mudanças no parágrafo em itálico no meio do texto.

Não faça e tenha sexo explosivo!

Beijo-Grego-Allison-Williams-Marnie-Michaels-

Amiga leitora Biscate,

da buceta peluda ao “que não fazer na frente do bofe”, a receita de sucesso de um relacionamento prazeroso parece não ter mudado muita coisa. Continuamos recebendo as boas e ~ infalíveis ~ receitas do bem viver, baseadas nos princípios do “não pode. Não deve. Não faça.”

Até dá pra fazer de conta que as dicas são democráticas, pra elas e pra eles. Mas, no fim do dia, as regras, amiga leitora, parecem existir só pra gente mesmo.  Pensemos aqui nas revistas, sites e colunas, na perspectiva da heteronormatividade.

Não deixe ele perceber suas dobrinhas.
Não deixe ele notar suas celulites.
Não deixe a depilação vencer.
Não seja tímida.
Mas, não desinibida demais. Deixe pro mistério.
Não seja muda. Fale palavrão, mas não muitos.
Seja lady. Seja puta. Mas, não muito.
Se solte. Mas, não seja mandona.
Assuma o comando, mas não deixe ele perceber.
Deixe ele perceber, mas finja.
Finja, mas goze.
Não seja tímida, mas não fale demais.
Fale palavrão, mas não deixe ele por baixo.
Seja bem resolvida com seu corpo, mas não deixe ele notar suas celulites.
Tenha orgulho das suas dobrinhas, mas não fique por cima.
Seja sexy. Não seja vulgar.

Agora, se você está pensando que só tem regra pra cama, amiga leitora Biscate, devo te informar que você é uma ingênua. Ouvimos rumores que tem pro chuveiro também. E se você quer a extensão da trepada lá no quadradinho do box, prestenção no índex. Mesmo que seja só pro banho mesmo.

Não pode fazer xixi.
Não pode soltar pum.
Não pode olhar pra ele.
Não pode deixar o sabonete entrar na buceta.
E o mais intrigante de todos: “água não é lubrificante. Portanto, nem tente.”

Aqui, suspeito que tem o mistério do inominável. Do sexo que não se pode dizer o nome. Mas, pelo que entendi, é sobre anal, né? É disso que se trata.

Não pode sabonete na buceta. Não pode água no cu.

Portanto, amiga, leitora Biscate, nem tente. Nem tente a buceta peluda. Nem tente dar pum. Nem tente não depilar. Nem tente fazer xixi! Nem tente olhar pro cara. Nem tente não olhar. Nem tente o chuveirinho. Nem tente querer transar. Nem tente dar o cu à secas. Ou à molhadas. Que agora fiquei confusa.

E viva a constipação e a colite! Que se dane. Apenas, finja que a ducha é uma cachoeira e sensualize enquanto lava o cabelo. É o que te cabe. É o que se espera. Deixe a mangueirinha pra ele. Fique no canto. Não seja espaçosa.

Esteja. Mas, não seja

E que tal nos anteciparmos, querida leitora Biscate, e irmos pra cozinha, então? Saiu do chuveiro, pensou em fazer uma boquinha e aproveitar pra dividir com seu boy esse pecado da madrugada. Obviamente, nada é tão simples quanto parece.

Listemos, pois, as regras pra cozinha.

Não pode objetos cortantes.
Não pode pepino gelado.
Não pode lavar a louça e trepar.
Não pode sujar a mesa.
Não se suje.
Não roube o sanduiche dele.
Não coma demais.
Não arrote.
Melhor nem coma.
Não beba água.
Não faça xixi (lembra?).

Geleia não é lubrificante.

Na próxima semana, querida leitora Biscate, falemos da lavanderia. Por via das dúvidas, já sabe. Ao contrário do que dizem, não pode na máquina de lavar. Ah, mas nem pense.

Tem dia que é pra assim…

Ok. Dispara o despertador. E tem dia que a gente quer pensar na vida, escrever, tecer. Refletir. Mudar de opinião. Olhar, perceber, escutar. E tristeza, alegria, dúvida, incerteza, amor, dor, calcanhar, joanete ou cefaleia e colesterol. Ou música, fossa, cinema, filme, bêbado, novela, livro, cabelo, rede, internetes e isso aí tudo que tudo é.

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Mas tem dia… ô se tem… que a gente só quer é sorrir.

Não queria ficar aqui com mais delongas. Mas o fato é que tua língua nos meus seios me leva longe, numa trilha fantástica que vai acabar explodindo o pinto, naquele jorrar porra – e a deselegância discreta ou não da ejaculação fora de hora. Sim, seios. Homem tem seios.

E não é só o pinto que fica duro. Tem o grelo também, aquela cousa que decifrada com a língua desmancha você toda, em uma pele arrepiada, um cheiro de sexo que tem um quê de suor, mas tem perfume outro que exala e aumenta volumes, eretos. Mulheres tem sexo ereto.

E tem a bunda ou o cu. Que sabemos, molha, umedece, enriquece e aquiesce. E agora, o que é que vamos fazer com todos esses conceitos caixinhas e tal e qual de seios, peitos, duro, molhado, papai mamãe? Não queria ficar aqui com mais delongas, mesmo. Vamos?

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Estopim. Estupor. Entro. Saio. Entras, sai. Coloca, enfoca, maneja, mistura, chupa, engole, gole, matreira, eira, beira, sacode. Entende. Estoura. Espoca. Enforca, descabela. Ejacula, ejaculas, ejaculo. Sorri.

Sorri… “ser feliz é bem possível“.

O sorriso é gozo, desconfio.

Simples

Tudo nele a deixava excitada, sua pele, macia e negra, seu olhar de desejo, a boca, o belíssimo sorriso. Era tudo tão natural, tão certo e tão fácil, era simples, um beijo já a despertava arrepios e tesão. Ele pegava com muita vontade em seus peitos, bunda, os olhos e os gemidos mostravam o quanto ele a desejava. Tudo tão simples, tão normal, como se sempre fosse fácil, pra ela, muitas vezes, era tão difícil. Era difícil se entregar, era difícil se apaixonar, era difícil querer alguém naqueles últimos meses. E ela queria muito seu corpo e seu beijo.

Ela sabia que tinha medos, inseguranças, mas o carinho e a compreensão dele apagava tudo aquilo com uma facilidade tão grande, nem parecia que ela tinha medo de se entregar, de se dar. Tantos traumas apagados com um simples beijo, tantas saudades, tantos olhares, um desejo que ela não acreditava mais poder sentir, uma cumplicidade dada pelo sexo e pelo tesão, coisas de gente apaixonada, coisas dela. Ela sempre misturou sentimento com tesão, ela até já transou por transar, mas quando tem carinho, amor, amizade, paixão, o sabor é melhor, você se sente livre. Mas, no mínimo, ela esperava confiança, e, com ele, ela sentia confiança, o corpo dizia mais que ela poderia imaginar. Os carinhos após o sexo, tão familiares e tão bons.corpos-colados

E só é assim com ele, sintonia, magia, sentimento incomum que ela não sabe descrever, só sentir e retribuir. Corpo exausto, sede, satisfação e sono. Ela dorme com uma leveza tão familiar, sentimento de paz e satisfação. Ela não compreende o motivo de ser diferente com ele, mas sentia que a pele dele era tudo que ela queria tocar naquele momento, só isso que ela sabia e tava bom pra ela.

Além da piscadela…

Tem uma música do Caetano que diz em um de seus versos algo como “eu retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon, eu sei o que é bom.”. Durante os anos de colégio, colégio classe média mas bem na média de São Paulo, era comum os meninos caçoarem Caetano: “é gay.” Aliás, a ofensa comum era a associada ao gostar de alguém do mesmo sexo: gay, sapata, bichona, marica. Demorou muitos anos para que eu entendesse o “eu sei o que é bom” e que retribuir a piscadela do garoto do frete pode ter pouca cousa, mas bem pouca mesmo, a dizer sobre gostar de transar com homens ou mulheres. Tem a ver é com prazer, com empatia, com desejo e do reconhecer que o sexo deve ser gostoso, ainda que a gente não tenha a experiência ali na hora, no instante, no momento seguinte ou que nunca venha a ter, ou querer, nada além da piscadela.

Menino aprende desde cedinho a reprimir. Menino não acha menino bonito. Homem não acha homem bonito. Homem não beija homem. Retribuir a piscadela do garoto de frete, então, é atestado.  É um mundo obviamente equivocado aquele que consegue admitir que uma criança possa jogar um jogo eletrônico com o objetivo final de cortar a garganta do “inimigo”, com o sangue jorrando pela tela, mas não possa olhar outro menino e achá-lo… bonito.

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Este tipo perverso de repressão é que todo olhar passa a ser expressão da libido, de um desejo sexual. Um beijo nunca mais será só um beijo, uma expressão de se gostar, de prazer, de carinho. Perdemos a capacidade de sentir prazer, de gostar, e do carinho pelo que os outros sentem – o que importa é nossa percepção e só ela. Ali na piscadela, sabemos, há um convite, mas há sobretudo a possibilidade de prazer do outro. Um prazer que sabemos que deve ser bom, mesmo que não seja a expressão do meu desejo, do meu querer, do meu tesão.

Toda a repressão, desconfio, tem uma intenção egoísta, que nos afasta do coletivo. Tenho uma triste intuição que estamos naufragando numa sociedade onde o coletivo está sendo é formado por egoístas, um medonho paradoxo que resulta nisso que vemos todos os dias: o bullying sistemático com quem está fora da ordem.

Devíamos ouvir mais Caetano. Como cesta básica.

NOTA DA GERÊNCIA: E ler este texto de outra biscate que tá por aí, por aqui, falando de cuidar de meninos.

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Um conto para o não-dito (ou ainda: a linguagem do desejo)

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Ela: – Um tal cara ligou às quatro e meia da manhã desses dias. Não atendi porque não vi. Nada demais. E mesmo que visse. Provavelmente não. Ele insiste, depois de termos entre bebedeiras e vontades, que não é isso o que foi. “Isso o quê?” – dá vontade. De perguntar. Vontade de mim? Como a que te faz ligar sempre que bebe? Como a que se infiltra nas ligações não atendidas do meu celular vez ou outra?

Ele: – Ah, eu sei. É só porque ela ri comigo. Se sente. A vontade. Mas só de ligar. E de falar sério. Só falar besteira. De apenas escutar em silêncio minhas baboseiras todas. E rir de novo. E sentir vontade de novo. De comentar o filme. O trânsito ruim. Do seu dia. Da noite de ontem. De escutar uma música e achar minha cara. Lembrar de se lembrar, se por acaso a gente se encontrar, de me contar. De tal artista. A tal piada. Os fatos. Não, eu não sou o tal. Não precisam me lembrar. É, eu sei. Que ela quer ser “apenas” minha amiga.

Ela:- Eu escolheria um nome menos comum, principalmente porque ele fala prazer em te conhecer bem baixinho. Também sobre deuses e mitologia. Observa fixamente tela e olhos. Anda como um felino, languidamente e, no entanto, é surpreendentemente estável e forte. Seu parentesco com os gatos de rua, é que nada parece que vai assustá-lo ou tirar seu equilíbrio.

Ele:- Você nunca foi naquele bar. Era meu território e eu me achava em segurança. Então, é claro que eu estava desarmado. E entenda também, quase dois meses que eu não te avistava, estava me sentindo quase curado, quase não doía mais. E aí quase. Quase acreditei que manteria firme a decisão de nunca mais. Mas você saiu de onde eu não te podia, naquela mesa lá longe para beijar um outro. Doeu tanto que eu roubei um microfone e fui berrar minhas dores. Você me olhava e eu me senti tão ridículo ali, tão bêbado, tão de joelhos, tão “sem sentir meus pés no chão” que fui aplaudido de pé quando terminei minha apresentação de desespero. E você foi embora para que eu conseguisse conter as lágrimas e o ódio e a vontade. Aí teve o Sábado. Novamente. Teu olhar firme me acompanhando sem motivo algum. Eu fugindo para procurar pela janela, minha vergonha. Porque eu te queria e te quis tanto. Domingo. Te quero. Ainda. O outro mostra tua mensagem no celular. Depois a tua rouquidão nos nega no viva-voz, se nega para mim, me nega para si mesma.

Ela:- “… E, mesmo assim, estarei sempre pronta para esquecer aqueles que me levaram a um abismo. E mais uma vez amarei. E mais uma vez direi que nunca amei tanto em toda a minha vida.”

Ele: – O grande problema, meu amor, é que as pessoas preferem nossa versão editada. E eu não vou mais desperdiçar uma boa cena apenas para agradar o grande público.

Ela:- Três vezes. Choro escutando o galo cantar. Acordo com sua crueldade e frieza me fazendo doer as têmporas em laranjas e amarelos. Coloco os óculos escuros e tenho que enfrentar a verdade ao voltar para casa. Você nunca.

Ele: – Para sempre, seu.

Faísca

Eu estava encarando sua boca, sou louca por sua boca. Sabia que não ia dar certo, quando a gente fica juntos sai faísca, bebo um copo de cerveja, acreditando que, ao engolir o líquido, iria junto o desejo de beijá–lo. Ele tem esse poder sobre mim, não sei cumprir com meus acordos quando ele está presente. “Não fico mais com ele!” Disse pra mim mesma, ele disse algo parecido pra mim um pouco mais cedo. Esse era o certo, mas o certo nunca acontece quando estamos juntos.

E acabou a cerveja, abre outra correndo, entra em casa e respira fundo, volta pra rua e enche o copo, já estava embriagada. Só não sabia se era por causa de (só) uma garrafa de cerveja ou se era por causa do seu cheiro, uma mistura de perfume com cigarro. Sem querer, ele esbarra em mim, eu arrepio toda. Vai dar errado, nunca dá certo quando estamos juntos, tenho essa fraqueza por ele que eu não entendo.
“Falei tanto que iria dar errado que ele já está deitado na minha cama”, pensei comigo. “Meu último ônibus já saiu, agora só daqui a três horas.” ele falou. “Puta merda! Três horas, tenho que me segurar pra não atacá–lo.” Pensei e respirei fundo. A gente sempre perde a hora conversando, ele iria passar rapidinho aqui e iria pra casa, mas… nunca dá certo, a gente pode planejar o contrário, mas é só quando eu estou com ele que eu não me controlo.
Ele me contou da sua cicatriz, que ele não gosta e eu acho linda, sinto tanta vontade de beijá–la, não tenho juízo quando estou com ele, só penso em beijá–lo. Como num passe de mágica, eu já estava alisando a perna dele, ele pega na minha perna, eu reclamo, ele fala “você também tá com a mão na minha perna!” E tudo flui tão bem, como se eu pudesse viver sem culpa, sem medo, sem me preocupar com o dia seguinte. Eu só sinto, desejo, amo e gozo! E é sempre assim, a gente junto não dá certo (será que não?), sempre sai faísca.

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Umbigada e sal grosso

 

Dois mil e quinze anda a merecer carinhos. Sim, o ano. O ano todo, repleto dele. Disse uma de nós que estamos a carecer de sal grosso neste ano ímpar. O tal banho de: Para espantar agouros, olhados ruins, presságios, adágios de costumes e tralhas que carregamos, mesmo sem querer, ombros e ombros. Talvez seja verdade. Talvez…

Mas há carinhos ali nas esquinas, saudades e desejos. Num texto recente aqui no clube lembramos de nossa história e das bonitezas dela. Sim, tem lá uns percalços, uns escorregas. Mas tem muito mais esfrega, banho, amor, saliva, massagem, abraço, conforto, pertencer. Talvez o sal grosso todo.

Porque não tem sido razoável o mau humor lá fora. Como gente mimada e birrenta, o tal século vinte e uno se transformou numa ode aos próprios umbigos, estamos num mundo onde a regra é o do “não brinco mais” dos parquinhos infantis: as batalhas por aí tem sido travadas como fúrias sem fim, pontes são destroçadas como quem pisa em baratas – sim, baratas, sabe nojo de barata que faz até o budista mais zen sair para matar as feiosas? – e há um distanciamento cínico da elegância no trato. A rede social, tão bela pra algumas cousas, é um portal para o inferno do dane-se o que o outro pensa.

Dois mil e quinze é um pouco a adolescência chata deste século vinte e um. Repleta de neuroses, problemas mal cuidados, debates encalhados, a graninha firme no despropósito dos futuros incertos. Nós, as biscates – e não tenho problema algum em me definir assim, com artigo feminino – estamos aqui a convidar as pessoas para dançarmos, em bailinhos, rostos e corpos grudados, pois entendemos que cada vez mais são esses chameguinhos que podem tirar este século da modorra. Porque se a marca marcada deste dois mil e quinze é o umbigo, a resistência só pode ser expressar desejos, em gotas, suores, labaredas, gozos infindos. Um umbiguinho bem trabalhado, com língua, óleo para besunte, porra ou só um carinho é capaz de devaneios muito mais bonitos. Sal grosso, do bom pra churrascos…

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Vem com a gente, vem.

Amor de carnaval

Por Beth Salgueiro*, Biscate Convidada

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Conheci o amor da minha vida no carnaval.

Minha casa em Olinda sempre foi pouso de viajantes dos quatro continentes, especialmente no carnaval. A turma chegava dez dias antes, mas com um mês a gente já arrumava a produção das fantasias, a maquiagem, listava o roteiro dos blocos, contratava a cozinheira que ia fazer o alimento salvador da ressaca, e principalmente definia quem vai dormir onde ou com quem. Tinha uma regra, sutil e não verbalizada, no carnaval: todo mundo estava sem compromisso, disponível pro que pintasse. Sem críticas nem cobranças. Essas hospedagens aconteciam em todas as casas, não só na nossa. Afinal era Olinda e era carnaval…

Então, naquele ano, o aniversário da amiga com quem eu morava caia justo na semana pré. Por isso a gente resolveu fazer uma festança caribenha na nossa casa, convidando amigos e o povo de fora que tinha vindo pro carnaval. E foi aí que ele apareceu. Eu não o conhecia. Era um homem comum, muito moreno, com cabelos compridos e encaracolados, mais ou menos da minha idade, com umas roupas que nunca tinha visto em ninguém antes, super modernas e descoladas. Me amarrei de cara. E ainda por cima, ele foi o rei da pista. Dançava com o corpo inteiro aquelas salsas, todo naturalmente sexy. Não estava se exibindo, mas chamava a atenção da mulherada com aquele charme avassalador. E eu pensei comigo: eu quero esse homem. Ele vai ser meu, pelo menos nesse carnaval… Fiquei por perto, na espreita, porque minha sedução é sutil, mas nem precisei me esforçar muito, porque ele também ficou a fim. Então a gente dançou a música seguinte e a outra, bebendo tequila, e virou a noite se agarrando pelos cantos, aos beijos, e amanheceu andando pela rua e parando pra se pegar e adormeceu na minha cama, cheia confetes e purpurina. Acordamos tarde e tão na boa, que  foi a primeira vez em muitos anos que não me arrependi no dia seguinte de ter dado trela pra um cara que conheci de noite. Pensei: cara, é esse…

Então, nesse carnaval criamos uma redoma transparente que envolvia nós dois. A gente estava no meio dos amigos mas sozinhos um com o outro, vivendo aquela paixão, experimentando de tudo, adorando o toque, o cheiro e sabor do corpo um do outro, alheios a qualquer coisa que não fosse nosso tesão. Me entreguei completamente àquela paixão. E ele também. Todo mundo em Olinda sabia o que acontecia, porque era tudo muito explicito, mas a gente não estava nem ai.

Na quinta feira depois do carnaval, ele foi embora. E eu fiquei despedaçada. Já tinha tido outros namorados de carnaval, e sabia que era assim mesmo, coisa passageira, sem futuro. Mas daquela vez era diferente. Então na semana seguinte fui encontra-lo na casa dele, no Rio. Ficamos uma semana em lua de mel, com o coração estourando de amor, mas eu precisava voltar. Vocês já namoraram no telefone? Pois foi o que aconteceu. Todo dia, ligações de três, quatro horas, que estouravam a conta no fim do mês. Mas que nunca bastavam. Um tempinho depois ele veio de mala e cuia. Vendeu tudo, fechou a budega e se mudou. E nunca mais a gente se desgrudou.

Com ele eu tive os maiores prazeres, os melhores orgasmos, a mais completa cumplicidade possível com outro ser humano. Com ele eu briguei muito, às vezes briga feia de querer ir cada um pro seu lado, mas sempre conversando porque ele também era chegado numa DR. Juntos aprendemos muito sobre nossos corpos, sobre amizade, companheirismo, respeito e entrega. Foi uma relação construída a cada dia. Nunca casamos, mas ele foi meu amado por muitos anos, meu parceiro de trabalho, cama e mesa, com quem tive filhos e netos. Até que ele fez aquela longa viagem, aquela que a gente deve fazer sozinho, e me deixou.

Mas ele tá por perto, eu sei, principalmente nessa época. E confesso que ainda fico de calcinha molhada só de pensar nas nossas brincadeiras juntos. É meu amor, que conheci num carnaval.

Beth_SalgueiroBeth Salgueiro já fez tanta coisa nessa vida que nem dá pra dizer aqui. Seus pés estão fincados no chão, mas a cabeça continua nas nuvens e as antenas todas ligadas no futuro. Ela diz que é feliz por estar vivendo nesses tempos contraditórios.

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