Eu daria pra você

Cara leitora, vim aqui contar de  uma ideia antiga, à espera de execução, que tem a forma de um cartão de visitas. Um cartão de visitas bonito, em que estaria escrito apenas:

Eu daria para você.
Fulana – contato: xxx@xxxx/tel: xxxxxxxx

Só isso. Ou, melhor ainda, sem e-mail ou telefone. Apenas a afirmação de que, se algum dia acontecesse, se pintasse, se rolasse a oportunidade, a ocasião, os dois assim de bobeira, um tempo conveniente… bem, eu daria pra você. Não precisa perguntar, não precisa ficar na dúvida, não precisa hesitar.

O que, cara leitora, parece pouco romântico? Bem, não é para ser romântico mesmo. Tenho pra mim que a disseminada ideia de que qualquer relação digna desse nome deva ter algum toque disso aí que chamam de “romantismo” (atenção às aspas) é mais furada do que secador de macarrão. Mais esquisita do que botar o dito secador na cabeça e fundar uma seita. E a fonte de tantos desnecessários sofrimentos. Uma confusão sem fim. Um equívoco da cabeça aos pés.

Porque, veja bem, cara leitora, não estou falando de nada que vá além de uma relação sexual. Limita? Ué, por quê? Caso você goste, caso a outra pessoa goste, não seria possível repetir, de novo e de novo, até que isso aí se chame uma relação? Podendo inclusive prosseguir até que alguém abra a gaveta da cozinha e encontre ali um descaroçador de azeitonas – quando então se descobrirá casado?

Por outro lado, caso seja ótimo mas seja isso mesmo, tá tudo certo: cada um vai pro seu lado, saciado, satisfeito, sem demandas fora de hora, sem incertezas incômodas. Era isso, foi isso. Foi ótimo. Eu daria pra você, eu dei pra você. Que delícia. Que alívio.

(suspiro)

Ah, o cartão de visitas? Por que não no feice, por que não no tuíter, no zap e coisa e tal? Ora, cada um com seu jeito, né? Eu sou assim, antiquada. Gosto da imagem do cartão de visitas. Porque é físico, em primeiro lugar: papel, textura, cor, impressão, fonte. Uns envelopinhos, talvez? Escritos à mão e depois impressos, com sua própria letra? Pode ser, tem tantas possibilidades. Lindezas. Só de pensar, já fico com água na boca. Adoro artigos de papelaria desde que me entendo por gente.

Tem também outro motivo, porém: é que desobriga. Você nem precisa entregar pessoalmente: pede pro garçom. Deixa na caixa postal, e acrescenta a lápis: “Fulana, do 702”. Larga em cima da mesa da pessoa, no trabalho. E pronto. Tá dito. Acabou. Não precisa mais ter angústia quanto a isso: daria. Daria, mas talvez não dê, porque sua situação tá complicada, porque a minha é, porque agora a gente tá sem tempo, nunca apareceu uma chance, um momento bom pra introduzir, por assim dizer, o assunto…. mas caso role, se acontecer, quando a gente puder, quem sabe um dia: daria.

E não é nem um “a bola agora está no teu campo”: não tem bola em jogo, não nessa hora. A bola tá no ar, flutua, vagueia, desliza. Não é questão de bola. Porque não precisa ser agora, não tem urgência nem ansiedade, essa a beleza da coisa. É assim, se um dia… eu daria.

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Uma palavrinha, cara ditadora

Por Deborah Sá*, Biscate Convidada

Cara ditadora que mora em mim,

Sei que tentei fazer vista grossa para suas exigências por muitos anos, talvez décadas, é, mais provavelmente décadas. Agradeço de antemão o cuidado extremo que sempre tem tido em projetar expectativas tão altas somente em si mesma. Quer dizer, você sabe que é injusta consigo mesma, às vezes pesa a mão demais, mas é a medida de segurança que você aprendeu, não jogar a dor que já jogaram em você em quem está do lado, poupar os outros, só que nem sempre me poupa dessa energia desgastante. Você é perita em implosão. Então, respeitando a sua autoridade (porque sei que é você que põe certas coisas nos eixos, bloqueia eu ir muito fundo em certas memórias, etc), é preciso respirar mais um pouquinho. Isso mesmo, a dura crítica a “procrastinação de pessoa preguiçosa, uau, por isso não vai pra frente”, na boa, não precisa ser tão severa. Sei que é por causa de você que os prazos (geralmente) estão prontos bem antes do previsto, com sua revisão em cores vermelhas e berrantes de “Opa, advinha quem mandou o anexo e esqueceu de arrumar aquele apud, hehehe”, “Não acredito que você ainda está errando isso”. Você usa palavras realmente horríveis como motivação, quer dizer, como culpabilização, como se realmente o universo fosse entrar em colapso porque não se pode controlar tudo o tempo todo. Você faz meu processo de aprendizagem sempre viciante mas um tanto dolorido, quer dizer, posso ter o caminho mais fácil, ou posso ir para o caminho novo, pouco explorado e um caminhão de termos difíceis e desafiadores. É claro que eu pulo no escuro um tanto de vezes. Mas esse pulo no escuro pode significar levantar da cama e chegar no encontro em tempo, sem auto-sabotagens, você tem que parar de me aterrorizar tanto. Cara ditadora, são três horas da manhã e já escrevi dezessete páginas hoje, dezessete, ontem, vou parar sim senhora, que esse braço não é feito de pedra. E vou celebrar com comidinhas e dancinhas e amorzinhos, eu sei que você só me deixa descansar se eu tenho a sensação de ter dado o máximo antes. Porque, você, Ditadora interior, parece uma propaganda tucana: “Trabalho, compromisso, responsabilidade”. Porém, também tem seus momentos de glória.

Por exemplo, aquele seu lado mais divertido e soltinho, arisco, sarcástico, desbocado, eu acho que é parte sua esse carão que eu adoro, uma certa petulância com gente desrespeitosa, essa vontade de querer o mundo no talo. E os desejos praticamente megalomaníacos, espontâneos? Eu adoro. E por não suportar a tirania de ninguém (nem de  si), vive reinventando as próprias regras e burlando as tuas leis. Talvez, você seja parte de uma força motriz que sempre me guiou, em todos os lugares, mas agora, estou respeitando e considerando sua devida importância, sem contar, gozando (em todos os sentidos) de sua vibrante companhia. Fica que a gente se ajeita, fica, que a gente reveza, fica que a gente se prosa.

11351327_1457045754607564_5642394097373800822_n* Deborah Sá é uma biscate delicinha que só sabe querer de tudo, com todas as coberturas, com todas as sensações e com todos os sabores.

Comportas

Por Maíra A., Biscate Convidada
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Às vezes é preciso não se saber para se encontrar. Deixar que as coisas explodam e se quebrem irremediavelmente. O que eu queria mesmo era os seus dedos nos meus cabelos. E mais um dedinho de prosa para arrefecer essa carência. Queria eu, nos meus dias de 365 horas, que você não tivesse entrado tão insuspeito, ou queria mesmo era que não tivesse saído. Mas você ficar é a vida como ela era. É demandar uma resposta que nem eu mesma tenho, porque a resposta antiga já não comporta mais. E eu também não me comporto naquela vida de ontem. O que eu queria mesmo era você lambendo os meus pés, chupando cada um dos meus dedos, subindo a língua morna e úmida pelas minhas coxas, passeando pela minha virilha, até eu não aguentar mais e explodir de tesão, gemendo feito gata no cio. Mas, na verdade, todas as nossas conversas foram imaginárias ou insuficientes. E eu cansei de escalar o muro da indiferença. Tudo não passa de uma noite escura, um vaso quebrado e um coração latejante da promessa que foi aquela noite. A cama já não comporta apenas dois. A vida estilhaçada entrecorta todas as promessas daquele conforto de “casa-marido-cachorro”. Porque a vida de gata no cio é a vida da noite, de quem pula de telhado em telhado, boêmia e vadia, sem eira nem beira nem garantia. De quem vai rondando os espaços ao sabor do vento, que entra pelas narinas enquanto corro, chegando a doer o peito e tontear a cabeça. Enfim, respiro.  O que eu desejo ainda não tem nome. Mas pulo assim mesmo no abismo da noite. Queria mesmo era me enredar no aconchego dos seus braços, mas não consigo parar quieta: é o corpo que explode em festa. Não me sei, apenas me desconfio um bocado. E insisto em não me comportar.

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Fim de Caso

Meu bem,

Eu sei que passamos muitos momentos juntos. Bons e maus. Sempre flertamos, mas nos últimos meses estreitamos nossos laços. Você me confortou em muitas noites e como foi bom dormir aninhado no seu colo enquanto bebíamos uma boa garrafa de vinho! Andamos de mãos dadas pelas ruas, muitas vezes totalmente absortos em nós mesmos. Dividimos a cama, o café da manhã e o caminho até o trabalho inúmeras vezes.

Devo dizer que foi muito bom dormir e acordar com você nesses dias todos, acalentado nos teus braços. Sem você eu me sentia meio só, meio sem rumo. Deixei de fazer muita coisa para que você estivesse sempre ao meu lado e não me arrependo. Sei o quanto foi importante estarmos juntos nesses dias, nos conhecendo, nos tornando cúmplices e vivendo com ardor nossa relação.

Saiba que quando estivemos juntos, eu estive só com você. Ok, eu confesso que flertei com outros, alguns amigos seus, outros que você nem conhecia e vez ou outra saía com alguém que você odiava. Nunca foi pra te provocar, mas é que às vezes sua companhia me sufocava tanto e eu queria rodar por aí sem você.

Nos dias cinzentos e de chuva era ainda pior. Porque aí sim a sua presença entrava pelos meus poros e ia me tomando até que eu não pudesse mais respirar sozinho. E eu me cansava de ti e me deitava esperando que você entendesse a deixa e fosse embora me deixando só. Quando acordava e você não estava mais lá, eu te chamava e você voltava e a gente se enroscava num abraço longo e ficava assim um par de dias.

mulher partindo

Mas aconteceu aquilo que acontece com todo mundo que se relaciona tão apaixonadamente assim: o amor arrefeceu. Eu já não sinto mais tanto a sua ausência, os dias e as noites, principalmente, já passam muito melhores sem você. Sua companhia já não me falta e eu sinto que é hora de nos despedirmos. Eu sei que nada do que eu disser vai adiantar e o clichê vai aparecer, mas “o problema sou eu e não você”, “eu gosto de você, mas não quero um relacionamento agora”, “estamos em ritmos diferentes”.

Portanto, Tristeza, apesar de tudo o que vivemos juntos é hora de você seguir seu caminho e eu, o meu. Chegou a hora de nos despedirmos e aproveitar o que a vida tem de melhor e me relacionar com outros sentimentos. Chegou a hora de encerrarmos nosso ciclo tão intenso e cheio de desventuras. Acredito que ainda vamos nos reencontrar, mas espero do fundo do meu coração que demore.

Sobre o Lugar da Rola na Utopia

Esse post é para dizer duas coisas: 1. Não tá de boa alguém mandar outro alguém procurar uma rola e 2. Não é preciso jogar fora o bebê com a água da bacia, os dedos com os anéis, ou seja, repudiar tudo porque alguém errou (errou feio, errou rude).

Quanto à rola, deixo de partida: eu gosto. É bom, divertido, dá prazer, etc. Mas, até onde se sabe, não tem efeitos de reparação de caráter, não redime comportamentos inaceitáveis, não é cura para homofobia nem para nenhum outro tipo de preconceito. Não é legítimo, desejável ou aceitável mandar alguém procurar uma rola, aliás não é legítimo, desejável ou aceitável, em qualquer situação, insinuarmos que a pessoa de quem divergimos age de maneira A ou B por falta de sexo. Essa é uma argumentação machista que tem sido usada reiteradamente contra as feministas, inclusive (mal-amada, mal-comida, e daí ladeira abaixo).

Como disse o Pedro: “nenhum problema de que se tenha notícia (quanto mais homofobia e machismo!) é causado por “falta de rola”. O tal argumento, antes, é que é efeito dos referidos males. Rolas abundam na humanidade, e ouso apontar que quanto mais rola, mais problema. A ofensa via de regra é proferida pelo projeto de machinho – daria pra se traduzir em: você (o feminino, a falta, a fraqueza) é o problema e eu (o falo, o patriarca, o poder) sou a solução. Desnecessário dizer que a frase “vai procurar uma rola, homofóbico” traz consigo no mínimo um ato falho. Uma contradição que prejudica o argumento. Óbvio, não sou neutro: entre Boechat e Malafaia, fecharia com o primeiro. Grandes merdas: fecharia até com o Diabo, mil vezes, antes daquele picareta execrável. Mas eu não preciso fechar com ninguém. Sobretudo não preciso fingir que tudo que se diga ou faça contra quem mais se abomina seja aceitável.”

A gente vive em uma sociedade que naturaliza discursivamente preconceitos. É um tal de “chupa, filho da puta, baitola, mal-comida, vá tomar no cu, histérica, vai dar meio dia de cu, biscate, vadia”, e outras coisas assim. Não tem nada de mau em alguém fazer sexo oral. Nem em ser filho de uma prostituta. Nem em trabalhar como prostituta, aliás. Não tem nenhum problema em fazer sexo anal, pode ser uma delícia, seja homem ou mulher. Não tem nada de errado em apresentar uma neurose. Mas tem muita coisa errada em uma sociedade que usa esses termos como ofensa. Tem muita coisa errada em tentar minimizar alguém insinuando, por exemplo, que ele deveria manter práticas homossexuais, como se a pessoa que tivesse esse comportamento fosse menos digno de escuta e respeito. A banalização displicente desse tipo de fala traz, em seu subtexto, a convicção de que algumas pessoas são menos dignas de cuidado e proteção que outras. E a gente, que milita por um mundo menos excludente, tamos ali, dia a dia, dizendo que não pode, não é legal, não, não, não, não. Não pode no estádio de futebol, não pode na mesa de bar, não pode na entrevista de emprego e não, não pode na rede de televisão mesmo contra um político execrável. E isso não significa que estou defendendo sermos complacentes com os políticos execráveis. É possível ser incisivo, direto, firme sem ser homofóbico e sexista. Passar a mão na cabeça, relevar, dizer que é tempestade em copo d´água, isso tudo só mostra como ainda somos adeptos da lógica os fins justificam os meios e/ou aos amigos, os favores; aos inimigos, a força da lei. A Renata Lins alertou aqui: xingamentos moldam ideias, sentimentos, vamos desnaturalizar o pensamento e a reação. Vamos?

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Mas então, Luciana, vamos levantar a bandeira de homofóbico e jogar pedra no moço que mandou o outro moço procurar uma rola? Olha, eu vejo bem muito filme esquemático, tipo faroeste. É lá eu exercito o joguinho bem X mal. Na vida cá fora, um pouco mais de complexidade cai bem, acho eu. Para além do pensamento e das reações binárias tem um monte de outros caminhos. Como, por exemplo, o que prefiro: achar super legal o resto da conversa e dizer, “mas, opa, isso da rola não”. Sexo é bom consentido e por prazer, não forçado como resposta pra problemas de comportamento e ideologia. Nós e o moço da tv vivemos nessa sociedade. Fomos formados por ela. Isso implica em termos arraigados vários preconceitos. Isso significa que mesmo estando do lado das causas mais justas, mesmo militando contra a discriminação, mesmo querendo construir uma sociedade mais inclusiva e igualitária, a gente vai se valer, vez ou outra, de termos, comportamentos, análises que reproduzem justamente o que queremos desconstruir. Eu super entendo que a gente escorregue. Eu escorrego que só (tenho joelhos ralados pra provar). Mas a gente só sai do lugar reconhecendo os desacertos e fazendo melhor da próxima vez.

A sociedade que a gente quer construir vai sendo construída e determinada pelos meios e ferramentas que a gente usa para alcançá-la. No meu horizonte tem gozo e riso e aceitação. No meu horizonte tem rola sim. Tem gente procurando e achando rola, sim. Tem gente procurando e achando buceta, sim. Tem gente se esbaldando em rolas e bucetas, sim, sim, sim. Não como ofensa. Não como xingamento. Não para horror e espanto alheio. Como festa. E não, eu não acredito que é possível chegar aí sendo complacente com a reprodução de preconceitos, mesmo vindo de quem “tá do nosso lado”. Também não acredito que a gente chegue com a catalogação estática de pessoas (etiquetas com “homofóbico”, “racista”, “classista”, “libfem”) nem alijando aliados. A gente chega é afinando o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro. E, claro, com as rolas procuradas, aproveitadas, gozadas, por livre escolha e alegre consentimento.

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Nem Sempre

Não tenho raiva de você nem nada disso. É claro que eu sinto sua falta. Nem sempre, não todo dia. Às vezes. Lembrei de você dia desses. Lembra da mulher do seriado que a gente via e que não conseguíamos identificar de onde a conhecíamos? Então, a reconheci em outro seriado. Engraçado, né? Tanto tempo depois e lá estava ela. Queria ter te contado isso na época. Achei que você ia gostar de saber. Ah, e lembra aquela nossa série favorita, que vimos tudo de uma vez num fim de semana só? Pois então, achei a segunda temporada. Já viu? Ai, assiste, você vai gostar.

Talvez você ache irrelevante ou até mesmo bobas as lembranças que me trazem você. Mas saiba também que sinto falta do teu peito, de entrelaçar meus dedos nos seus pelos, de coçar tua barba depois do sexo. Sinto falta de gozar na sua mão. Nem sempre, não todo dia.

Te contei que vou viajar? Vou. Decidi, pedi as contas, aluguei o quarto, raspei a poupança e vou. Vou começar por Cuba. É, a gente pensou em ir pra lá um dia, quando nossas férias coincidissem. Você dizia que eu tinha que conhecer, que era a minha cara. Eu também sempre achei isso. Aí agora, resolvi ir. Vou ficar hospedada pertinho do bar em que você diz que tomou um porre de rum com Win Wenders. Você sabe que nunca acreditei nessa história, né? Mas sempre gostava quando você contava e mudava sempre alguma coisa. Mas, vou lá. Quem sabe não dou a sorte de vê-lo, né?

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Bom, é claro que vou me lembrar de você quando estiver lá e mais certo ainda que vou ansiar pela sua presença. Mas sei também que estarei feliz por estar viajando pra um lugar que sempre quis conhecer, sozinha, treinando meu tão enferrujado portunhol, descobrindo outros bares, outras paragens e outras pessoas. Sentirei sua falta, mas nem sempre, não todo dia.

E daqui uns meses quando eu voltar, quem sabe terá chegado o dia – o tão aguardado dia – em que sua ausência não será mais sentida. E também chegará o dia em que você vai falar de mim sem saudade, sem tristeza e sem rancor. O dia em que nossas presenças serão indiferentes. E nesse dia, poderemos nos sentar no nosso antigo bar preferido, beber e brindar à vida que seguiu seu rumo lenta e todo dia.

A Dor é Minha e Ninguém Tasca

Por Katiuscia Pinheiro, Biscate Convidada

Nesses tempos de árdua luta por tantos Direitos Humanos me coloco na empreitada da defesa de um dos mais antigos deles: o direito à dor. Quero falar da humanidade de tod*as nós, do direito inalienável à dor e à tristeza. Daquela reserva de enfraquecimento à qual tod*s temos um quinhão e que tant*s julgam ser quase uma ofensa.

A passagem por um mundo racista, classista, misógino e homofóbico não é brincadeira. Onde falta afeto, sobra dor e quem nunca teve que lidar com isso não sei como conseguem, racionalizando ou evitando sentir). Eu não, não vegetei, nem racionalizei. Sofri e sofro mesmo, sempre que posso, sempre que a vida me “permite” ainda que contra a minha vontade. Mas vontade da gente é coisa que esse mundo menos respeita…

Me recuso a me sentir culpada por me desequilibrar, não vou rastejar o perdão de quem queria que eu fosse forte porque tem a ilusão de que seja. Não sou forte sempre…Mas sempre é daquelas palavras de gente que pra mim soa como mentir pra mim mesma. Não minto pra mim mesma, só quando eu digo que não faço isso…

Sim, é contraditório, e também complexo. Porque ao mesmo tempo você é a sofredora e sua própria redentora. Não, o príncipe não virá te redimir. É sozinha mesmo. Porque o príncipe não redime nem a ele próprio. Já caiu faz tempo do cavalo branco.

Sem príncipe e sem cavalo branco seguimos em frente na nossa dor que essa sim, é só nossa. Como o imposto de renda, que odiamos, mas é de nossa responsabilidade e fugir dele pode trazer tantos prejuízos futuros que é melhor enfrentar. Pagar logo essa merda, ainda que parcelada. E a merda fede. Fede muito.

Fede tanto que exala e incomoda quem está ao redor. Mas, quem não puder cheirar um pouquinho a merda do outro ai nunca amou, né? Porque se a gente fosse só Chanel nº 05 intoxicaríamos antes dos 30 anos. E eu quero chegar ao menos nos setenta, cheirando e fe(u)dendo, como todo ser que transpira em cima dessa terra. O problema é que alguns pensam que vivem em outro lugar. Talvez no paraíso, ao lado de Descartes. Anjos serenos e fortes que não sofrem e nem se desequilibram.

Eu, que às vezes me descabelo e choro, não me sinto à altura dessas pessoas. Tenho medo de altura. Tenho náuseas. E de náuseas, já basta a do ansiolítico. Prefiro mesmo sofrer de vez em quando e depois melhorar, depois levantar, depois seguir em frente. Mas nunca mais a mesma, nunca mais como antes. As sequelas são como as rugas: estão lá, e você escolhe(?) ligar ou não pra elas. Só isso.

Não vim pra cá pra repousar. Não ando com os dois pés no chão. Quem vive assim é estátua. Vivo mesmo como o Saci-pererê. Já não tenho as duas pernas.Não opero com 100% de mim mesma, parte ficou pelo caminho, parte trago comigo.Não sou fênix, não renasci das cinzas, trago-as comigo, sombreando um colorido inicial que só resiste por completo na tela de quem se blinda.

Não uso colete à prova de balas nem curto Romero Brito.Vou de peito aberto, tentando me esquivar. Sou uma tela toda manchada de cinza cor de sangue. Mas gozo, gozo muito em cima de uma perna só.

10481940_846432465423526_6050972462899631474_nKatiuscia Pinheiro se diz assim: leonina transfeminista, professora e tia. Ando com somente um pé no chão, de noite e de dia. Curto dançar, sexo e coisa e tal, mas ficar triste também é normal. Na alma tenho muitos defeitos, no corpo, dois peitos. E se a mídia não atrapalhar, vou envelhecer sem me estressar.

 

Motes Publicitários

Tenho um amigo que usa uma expressão engraçada pro tempo em que está no processo de tentar conquistar uma garota: ele chama isso de “campanha de lançamento”. A campanha de lançamento é tudo o que se faz pra ver se a moça (ou o rapaz) te acha interessante e decide ir adiante.

Me lembrou um livro que eu tenho sobre feitura de CVs: o sujeito garante que, se você fizer o CV segundo suas recomendações, chega na entrevista. Aí é por sua conta.

Mas só que esse é que é o ponto, não é mesmo: serve pra CVs, não tanto para relações afetivas. Quer dizer, caso o objetivo da história seja que aquilo vire uma relação, ou pelo menos um projeto de, o que você vai ser depois, além de você mesmo? Como é que vai passar da campanha de lançamento para o dia-a-dia de você normalzão sem causar impacto?

Fiquei pensando nisso porque minha abordagem é basicamente o oposto disso: a minha “campanha de lançamento” tem como mote “não espere nada de mim além de mim mesma”. Me lembro daquele dia em que fui encontrar um cara em quem estava bem interessada, e ele nem sabia: a roupa? Uma camiseta de que eu gostava e minha calça jeans meio rasgada. Não é que eu não tenha me preocupado com o assunto, entendam. Me preocupei, e essa foi a escolha para aquele momento. Uma “eu” do jeito que eu sou mesmo, calça velha e rasgada e tal. Era, sim, uma calça de que gostava, entre outras coisas, porque achava que vestia bem. Mas não poderia ser nunca uma roupa “arrumada”. Não sou arrumada no cotidiano (embora me arrume um monte, mas isso é outra conversa); logo, não poderia sair pela primeira vez com o cara usando uma das minhas – poucas – roupas “arrumadas”. Essas são pra eventos tipo casamentos, cerimônias. Não pra encontrar um sujeito que eu quero que se interesse por mim.

Do mesmo jeito, já vi gente tentar se interessar por assuntos aleatórios para ver se conseguia chegar perto da pessoa no foco. Acho bem esquisito, já que amanhã ou depois ela vai descobrir que você não se interessa de verdade por aquilo. O que não quer dizer, claro, que não possa vir a se interessar: apenas não é a sua praia naquele momento. Depois da relação começada, a pessoa pode te apresentar àquele universo até então estranho, e você, ao ver o que a encanta ali, também pode se encantar, por que não? Só que o movimento é ao contrário. Primeiro, você chega como você mesmo: aí é que você vai – se tudo for adiante – conhecer o universo do outro, e, quem sabe, se encantar por alguma das suas paixões.

Tive um namorado que dizia que “amar é comer e comer de novo, e de novo”…. acho graça nessa formulação e entendo o que ela quer dizer. Dia após dia se constrói uma história. E talvez seja isso: não consigo olhar para além do próximo dia. Que de repente será seguido de outro dia. E quando se olha pra trás, em algum momento, nota que ali já tem uma pá de dias enfileirados: será que aquilo já virou uma história? Pera… melhor deixar passar mais uns dias.

em qualquer caso, cuidar das roupas de baixo

Festa de São João

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Eu sempre cantarolei Foguete. Porque eu nem acredito, mas já te sabia em mim. Ou quero acreditar que sim. Por enquanto. A fogueira na pele. As cores. O balanço gostoso. Cantarolo com mais vigor. Desafino. Rio. Um quase rodopio e me deixo quieta num sorriso, há certas belezas que se pedem discretas, uma mulher e um segredo. Então, abro as janelas e aqueço o peito pro abraço. Azul é o dia em antecipações. Pode-se viver no quase e é quase o bastante. Refogo cebolas, para que o cheiro seja de intimidade. Um dia aprendi: é preciso abrir o apetite. Afofo as almofadas e estico bem o lençol da cama. A saudade faz barulho, reconheço, com surpresa, o peito em descompasso. Se eu tivesse a coragem de morrer de amor, encheria a casa de flores, penso, corro ao espelho e tento reconhecer-me. Não tenho sequer a vontade, prefiro viver o bom. Estendo no banheiro a mais colorida das toalhas para compensar. Arrasto os móveis, diz a Bethania na radiola, faço eu, é preciso espaço para o desejo. Varro a casa com vassoura fina, faço eco com as canções. Foram elas que me ensinaram sobre o que desejo. Enquanto me dispo, te respondo em pensamento, eu sei, eu sei, não é vitrola, é cd e é no computador, mas me deixa ser antiga, e quase vejo o sacudir nos ombros e os olhos espantados. Que a gente não saiba o outro ainda me encanta e assusta. De quem você gosta, se sabe tão pouco de mim, já pensei em perguntar, desisto sempre porque vislumbro a sombra dolorida que mancharia seus olhos. Esses olhos em que mergulho e dos quais desconheço a cor, se fosse preencher uma ficha… de que cor são os olhos? Morno. Cor de voltar pra casa. Cor de lua crescente. Cor de doce de caju. Cor de maresia. Morno. Teu olho é morno. Gosto do barulho da água corrente. Deixo o quente da água embaçar espelho e pensamentos. Me umedeço pra você. Shampoo de manga, sabonete de maracujá, quem precisa de metáfora? A escada te antecipa. Aproveito, de olhos fechados, os ruídos que mais adivinho que escuto: chave, maçaneta, mochila no chão. As mãos ávidas, a pele arisca, as roupas desnecessárias. Uma vida assim: feito festa de São  João.

Por partos e mulheres livres


Recentemente temos assistido uma grande polêmica envolvendo o parto domiciliar. Casos de partos fora do ambiente hospitalar que tem motivado uma série de debates sobre a liberdade da mulher parir onde bem entender, e como bem entender. Médicxs, juízes, juízas, promotores de justiça, gente da medicina e do direito vem se debatendo para barrar, tolher, regulamentar esse tipo de parto. Para entender até onde a mulher pode ser livre para dispor do seu corpo e da sua gravidez como quiser.
É preciso que se diga que esse é um debate um tanto elitista, pois se resume àqueles casos de partos domiciliares daquelas mulheres e famílias que puderam arcar com o que significa ter um parto domiciliar bem assistido hoje em dia: pagar umx médicx ou uma parteira, uma doula, umx neonatologista para ir em casa. Não estamos falando as mulheres pobres que pariram em casa por falta de opção ou por morarem num lugar inacessível a qualquer Hospital. Dessas não se fala, nem se preocupam os doutos magistrados e médicos. Essas são as invisíveis, excluídas, e não aparecem na mídia vendendo notícia. Estamos falando do parto domiciliar que não é para todas. É para quem tem acesso, muitas vezes, a círculos privilegiados e com dinheiro em estoque para arcar com isso. É para quem pode pagar. Mas, ainda assim: é um direito de quem pode. Como é um direito privilegiado de quem pode pagar um plano de saúde ter seu parto na suíte master do Hospital estrela mais mais. Ou daquelas que pagam um plano de saúde com muito custo e acabam nos protocolos de hospitais que, nem sempre, ou melhor, quase nunca, garantem seus direitos na hora de parir.
Infelizmente, a saúde capitalizada em nosso país como um bem de consumo. Temos o SUS para nos salvar e para continuarmos brigando por um sistema universal de saúde que reverta essa lógica. Mas ainda temos muito chão pela frente. O SUS tem incentivado a criação de casas de parto e a realização de partos naturais e humanizados, mas estamos longe de termos respeito às mulheres na hora de parir nos hospitais públicos. Basta que ver na pesquisa feita pelo Ministério da Saúde para avaliar a Rede Cegonha, seu programa integrado de promoção do parto humanizado, 62% de mulheres não conseguem sequer terem um acompanhante na hora do parto, direito legalmente garantido e que deveria pressuposto básico de todos os partos. Mas não é.
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Queria ressaltar, com todas as ênfases, que esse tipo de parto domiciliar não é a mesma coisa que um parto desassistido. O parto domiciliar é um parto onde existe uma equipe de saúde que atende à mulher, mas uma equipe que foge da lógica medicalizada e centrada no poder biomédico que existe nas instituições de saúde. Uma equipe que vai acolher a mulher no melhor lugar do mundo para que sua cria venha ao mundo: na sua casa. Parto que pode ter todo mundo peladx na banheira, parto com massagem, parto com a avó passando um café na cozinha, parto com respeito ao momento e a hora de parir, parto com música, parto com beijo, parto com amor. Mas, e se der algo errado? Bom, nos partos domiciliares existe sempre um plano B e um hospital de referência para seguir caso algo não saia como o esperado. Porque sempre é possível que algo não saia como o esperado, em hospitais ou em casa. Com ou sem médico. A vida sempre escapa de certezas. Mas o mito de que o parto domiciliar é menos seguro é o que querem vender como certeza.
Não temos estatísticas para evidenciar o número de partos domiciliares com qualquer tipo de intercorrência, mas sabe-se que são muito poucas, pois quando um caso surge, contra-hegemônico, cai o mundo na imprensa e nos fóruns de debates médicos e jurídicos, como assistimos nessas últimas semanas aqui no Distrito Federal. Um único caso. E o que temos do outro lado? Sabemos que a mortalidade materna no Brasil é enorme nos ambientes tão “seguros” dos hospitais. A Pesquisa “Nascer no Brasil” feita pela Fundação Oswaldo Cruz em 2014 trouxe o alarmantes dado de que a mortalidade materna no Brasil atinge o patamar de 69 mulheres a cada 100.000 nascidos vivos. É. Isso tudo. Temos ainda o Relatório da CPI da Mortalidade Materna de 2000 que apurou que 68% da mortalidade materna ocorre durante os partos e que em 98%  dos casos as mortes são evitáveis. Hum. Será que sair de casa e ir parir no Hospital é mais seguro mesmo?
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Mas aí vem algo que aprendi e vivenciei durante um Fórum sobre Parto que participei como debatedora pela Artemis na Associação Médica de Brasília: a mulher não é o foco de preocupação dos médicxs. Dane-se a mulher. O que importa é se o bebê vem ao mundo vivo e saudável. Não importa se a mulher pariu na posição de frango assado, se ela foi cortada sem necessidade por episiotomia ou numa cesárea desnecessária, se rasparam seus pelos pubianos para ficar “mais fácil” e “mais higiênico”, se ela passou horas desconfortável e sem a menor assistência.
O mundo machista acostumou-se a usar o corpo feminino e dele dispor sempre em benefício de outrem. Ou em prol da “família” ou em prol dos desejos do homem ou, ainda, para facilitar o serviço médico. Não é dado à mulher falar, reclamar, argumentar, não querer. “O que importa é a criança que carregas em teu ventre, mulher!. Fica quieta e aguenta”. Aguenta a violência, tão real e tão simbólica, e tão naturalizada na sociedade. Como nos mostra o Dossiê da Parto do Princípio é “normal” as mulheres passarem por violências das mais diversas ao parir, desde físicas até morais. Falas como: “na hora de fazer você não reclamou né? agora fica quieta” são corriqueiras, assim como cortes e invasões desnecessárias e sem o devido consentimento da mulher. Marcas que ficam, e seguem, no corpo e na mente de tantas de nós. Sim, eu também fui vítima de violência obstétrica.

Sabemos que o Brasil é campeão de cesarianas. Na rede pública vamos para um número parecido com 52% desse tipo de parto, enquanto o índice recomendado pela OMS é de 15%. Na rede privada, pasmem, o índice sobe para 83%, podendo até chegar a mais de 90% em algumas maternidades. A cesárea, obviamente, pode salvar vidas. Como é bom poder ter esse recurso. Mas, como toda cirurgia, devia ser usada para casos de necessidade. Tem que ter indicação correta. o que não acontece, por certo, nos 80% dos casos de cesárea de uma maternidade.

Ademais, se formos ainda olhar pelo “bem do bebê”, as cesarianas fora de hora podem acarretar males bem preocupantes para os bebês, como diz Melânia Amorim: “diversos estudos apontam que taxas de cesariana superiores a 15%-20% não resultam em redução das complicações e da mortalidade materna e neonatal e, ao contrário, podem estar associadas a resultados prejudiciais tanto para a mãe como para o concepto”.

Mas não, é o parto domiciliar, com sua liberdade e não enquadramento no poder médico e machista que querem tolher e problematizar. É o parto da mulher protagonista que querem apagar com falsos medos, é o parto onde a mulher tem voz e que tem vez que querem calar e abafar em uma dita normatividade científica e biomédica que de dados científicos não tem nada. É o parto da mulher que não se curva, que não se deixa deitar como é melhor para o outro, que não fica quieta e que assume as rédeas de seu corpo que querem culpar e colocar cabresto.

O que tem nesse falso problema é um monte de medo da mulher fora da curva, da mulher que teve seu parto como quis, que deu uma banana para os senhores de jaleco branco e foi ter seu filho com outra mulher que lhe afagou os cabelos e lhe olhou nos olhos sem bisturi nem injeção em punho. Se querem culpabilizar a mulher pelo parto domiciliar que resultou em qualquer dano para o bebê, que culpabilizem também a mulher que escolheu uma cesárea eletiva que resultou em danos para o bebê. Mas de preferência que não culpabilizem ninguém. Que as mulheres possam dispor sobre seus corpos como quiserem. E que tenham suporte de saúde, de direito, e informações claras para decidir.

feminista

Abuso não será discurso

Foto de Miroslav Tichy

Foto de Miroslav Tichy

E foi noite dessas, num restaurante com meus dois filhos, que entabulei uma conversa simpática com uma mulher (porque tudo foi dito na simpatia e no bom humor) que acabou me derrubando ao final: “você só tem meninos, né? Eu também. Três meninos. E ainda quero adotar mais um…”

“Outro menino?”, perguntei, educada.

“Ah, sim. Menina dá muito trabalho. Vejo por aquelas que aparecem batendo no meu portão…” E, se virando para o meu filho de 13 anos, completou: “Por isso, abusa, viu?! Abusa mesmo das meninas porque tá sobrando!”

Nada disse. Saímos de lá, conversei rapidamente com o Mateus sobre o ocorrido, mas, só pensava mesmo naquilo que continua latente, na base de tantos discursos e atos de violência contra mulher que sabemos, presenciamos e vivemos.

Por favor, eu pensei, que venham tempos que meninas não sejam consideradas um fardo. Que os estereótipos de gênero que fundamentam as proibições sobre elas e as permissões a eles caiam.

Que meninas possam buscar amigos, namorados ou flertes sem que isso legitime abuso. Que elas possam fazer isso sem constrangimento, com segurança e bom humor e que sejam recebidas com respeito.

Que a palavra abuso não seja trivializada numa anedota debochada. Que eu sequer precise explicar ao meu filho que a gente não abusa das pessoas, em hipótese alguma, porque essa possibilidade sequer será considerada. Não será parte de um conselho.

Porque ninguém mais será educado a acreditar que algumas pessoas merecem.

Nunca.

Nem Tão Silenciosa Assim

Porque nos reencontramos, reencontrei o desejo que eu já nem sabia. Você falava e eu quis, como na canção, rodar as horas pra trás e ficar no tempo em que eu vadiava em seu dizer. Mais: em que seu dizer vadiava em meu corpo. E não só ele. Voltar a uma tarde que não ficara, em mim, tão silenciosa como eu imaginava.

Trouxe o desejo pra casa, comigo. Como quem sabe o bom, esperei deitar-me pra sentir o querer inteiro. Queria sim. Queria assim. Queria, outra vez, essa risada que me distrai, assim, pertinho, ao pé do ouvido. Fazer reais, úmidos e curiosos os beijos educados que se espalham nas palavras que trocamos. Sem nenhum talvez, confesso: queria renovar o estoque de vinho. Queria voltar a saber mãos, pele, olho. Língua, queria sabê-la. Queria aquela força com que me colocaste de bruços no sofá. A mordida, queria. Queria que você sentisse agora, como eu sentia – mesmo ali, naquele espaço tão cheio de gentes e assuntos outros – que as roupas nos atrapalhavam, como sentimos antes. Queria o dedo duro molhando-se na minha cona. Queria os apelidos engraçados que no esfregar das peles se fizeram tesão. Queria ter a boca ocupada de você. Queria outra vez aquele choque de te ter percorrendo sem dúvida o que eu nem pensava que viesses a demandar. Queria aquela dor que gozei, cada vez mais e cada vez melhor. Queria o peito molhado da tua agonia quase riso. Queria o sem jeito do depois. Os olhos enevoados. O sutiã na maçaneta da porta. O telefonema antecipado. O adeus apressado. O banho corrido. E a rua, aquela esquina e tanta vida que seria.

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