Ela

Desde aquele dia, não fui mais a mesma…

A iniciativa foi dela. Sem que eu esperasse – ou me desse conta do quanto queria – recebi o doce e forte toque dos seus lábios. Os meus, tímidos, aceitaram este encontro. E meu corpo já não estava mais sob controle.

Ela sabia disso. E assim, me fiz entregue…

Aliás, ela sabia tantas coisas sobre o meu corpo que parecia conhecê-lo há muito tempo. Cada carícia dela me mostrava o que, por muitos anos, neguei a mim mesma sentir. Ela me ajudou a descobrir não apenas desejos, mas também um pouco de quem realmente sou.

Desde aquele dia, o que sinto por ela é gostoso e conflitante. Gostoso porque flui, sem grandes esforços de ambas as partes. Conflitante porque ainda existem em mim barreiras que me impedem de dizer a ela o quanto a quero outra(s) vez(es). Algumas dessas barreiras, infelizmente, eu mesma coloco. Porque sou aquela pessoa toda errada que não lida tão bem assim com as próprias vontades…

Acho que tudo seria bem mais fácil e menos doloroso numa sociedade aceitasse e compreendesse que o desejo muitas vezes transcende gênero e sexo. Que não diminuísse ou colocasse em descrédito as bissexualidades. Que não fizesse com que em alguns momentos, eu e mais um monte de gente pensasse que sentir algo por outra mulher fosse menor/uma fase/ uma mera experimentação.

No mais, tô aqui ensaiando como dizer a ela o quanto gostaria de ter ela em meus braços denovo. E como agradecê-la por ela, sem saber, ter me tirado desse limbo que é a negação…

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Das opressões ao corpo: as próprias

O Corpo e os Dedos não faltam para apontar o irregular. Dedos do outro, dedos da mídia, dedos da moda, dedos do padrão de beleza estabelecido, dedos do parceiro, dedos dos familiares, dedos e mais dedos e os nossos dedos… Não se trata de criar uma categoria de qual dedo apontando dói mais, aliás, essa não é nem a questão.

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O Embaraço – Paula Rego

A questão, acho,  é o quanto dói o nosso dedo apontando para o próprio corpo e impondo padrões de beleza como forma de opressão, sem revelar o nosso desejo. Culpa, ressentimento, pavor, terror, auto-negligência… E não se trata da idéia de negligência com a saúde e a “aparência” próprio (o popular desleixo), trata-se da negligência consigo, com o não querer se ver…

Ver o próprio corpo… Não é bem um “Três passos, se aceite, você é lind@”… Mas precisamos ver o nosso corpo! Mais que ver, precisamos tocar a nós mesmos. Sem pudor, sem horror, com carícia, com afago… fazer um auto-cafuné… E não é a idéia do “Já que ninguém faz…”. Se a gente não é capaz de fazer, como alguém vai fazer por nós???

Sim, há aqueles que vão fazer por nós sem que saibamos o quê… Mas não é só assim, não precisa ser só assim e é melhor, pra nós mesmo, que não seja só assim… Porque, uma coisa é certa, se é bom quando acertam o nosso corpo, é muito melhor quando sabemos por que a pessoa acertou…

Se é que existe uma jornada de autoconhecimento, talvez ela seja a da delicadeza dos próprios dedos percorrendo cada dobra, cada músculo, cada buraco do próprio corpo até entender que é nosso! que é do jeito que somos! que pode ser bom e prazeiroso sem causar repulsa.

Sim, porque o dedo que aponta o próprio corpo, o aponta com repulsa… E não, não estou dizendo “foda-se, você não pode ter auto-crítica”… Ter auto-crítica é bom, mas a crítica pela crítica ao próprio corpo, apenas para manter as convenções de beleza é no mínimo, espúria.

Cuidar do próprio corpo, caso se chegue a uma conclusão depois de um processo de auto-conhecimento, poderia ser um simples indicativo de prazer… uma simples prova de amor próprio e, principalmente, um cuidado que não pareça uma agressão, um cuidado que demonstre um desejo…

É pura e simplesmente uma idéia de só mudar o próprio corpo para ser mais quem a gente quer… Pra que o nosso dedo que nos percorra, seja pra entender quem a gente quer é ou quer ser e não pra trazer o que o mundo quer que o nosso corpo pareça…

Biscateando às vezes

Às vezes… nem sempre, nem nunca…  em muitos casos,  em poucos. às vezes surpreendentemente, para o bem, para o mal ou para o incerto e às vezes, muito às vezes, a vez.

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às vezes
by Chagall

Não é bem uma matemática afetiva… não é uma multiplicação de pessoas e gestos e feições e afeições, sequer é soma… tampouco o clichê da divisão e, menos ainda, o subtrair do outro, mas, às vezes, esse é mais…

O querer é da ordem do “às vezes”… querer sentir, querer estar, querer ser… é em meio à infinitude, encontrar o que a gente quer e, também, o outro quer… para mais, para menos, por isso às vezes dá certo… nem nunca, nem sempre… às vezes…

O querer… querer é um bicho com quem ninguém pode… o querer é da destruição de qualquer matemática da vida… mas, às vezes, ele desperta um quê para além do querer… aquela ponta de desejo que vai para além do infinito e, por vezes, explode em uma profusão de querer também.

TAMBÉM, como querer também é bom! querer também subtrai pra dividir uma soma que multiplica tudo o que se é junto… mas também não é matemática… também é linguagem… de uma língua das mais aplicadas! Também é quando o às vezes do querer acontece…

São linguagens para além de palavras, são linguagens do sentir em forma de música, de movimento, de um conjunto de formas e maneiras confusas e inconfundivelmente abstratas para que só a ordem só sentir entenda… e para que só no tocar, no envolver, no beijar e no ser se entenda… linguagens para poder realizar o querer… esse querer também que parece difícil, mas que entre uma biscateada e outra, às vezes, desavisada e despretensiosamente captura…

A primeira casa de swing a gente nunca esquece

casa

Eu já sabia que havia uma casa de swing na rua de casa. Na.Rua.De.Casa. Walking distance.

Estava casada há quatro anos, mas se nem filme pornô dava para assistir juntos, e transar se tornou o aprimoramento da repetição de 4 etapas apenas, na mesma ordem, com a mesma intensidade… (se já tivessem mostrado a ele o episódio de Friends com os 7 passos para a felicidade…), o que dirá sugerir a ida a uma casa de swing. Jamais, jamais…

Eis que veio a separação, por uma lista de motivos que mal justificam o casamento, ok, mas ela veio com tudo e abriu espaço, pelo menos no começo, para muita liberdade e para que tudo o que não havia acontecido acontecesse, de alguma forma.

Clichê dos clichês, o advogado que cuidaria do divórcio vai em casa para discutir alguns detalhes. E depois que você chora dez minutos no ombro dele, percebe que o perfume é ótimo e que sempre rolou um clima e… depois de quatro anos e pouco, uma transa decente. E uma conversa deliciosa. E “ah sim, vamos combinar algo”…

E uma semana depois, por telefone – há uma casa de swing aí próximo da sua casa, conhece? E eu – não, ainda… (ele) – Vamos? Na quinta? (eu) – E por que não?

Fantasia por fantasia, casa de swing para mim era uma coisa meio norte americana, e eu não conseguiria imaginar o que veria. O que vi. (E o que ainda não saiu das minhas alegres memórias).

Melhor lingerie, vestido sensual, casaco porque fazia um friozinho. Salto alto. Perfume. O advogado chegou a sugerir de deixarmos para lá, mas não… fomos caminhando, copos de plástico com whisky na mão, rindo alto até chegar na portaria. O porteiro, todo simpático, pergunta se queremos uma introdução à casa, que eu descubro ter 4 pavimentos… Apresenta uma antessala em que você, com a chavinha recebida na recepção, deixa sua roupa no armário e fica de roupão. Camisinha grátis. O advogado ficou com 7, eu nem quis porque, afinal, tinha ido só para apreciar. Importante lembrar que a casa tinha todo um calendário – um dia certo para casais e homens sozinhos, outros para casais e mulheres sozinhas, outro somente casais, e outros eventos especiais, tematizados. Outra coisa curiosíssima – os casais pagavam um preço muito pequeno enquanto os sozinhos pagavam quatro vezes esse valor… compreensível, para manter a oferta equilibrada…

No térreo, ficava o bar, com a melhor batata frita da região, segundo relatos coletados no local. Um palco para live performances de sexo explícito a noite toda. Música para fazer um fundinho, e uma turma conversando muito numa boa, uma parte já em seus roupões, e outra ainda em suas roupas. Ah sim, um pouco mais para o fundo, a entrada para uma área com sauna e duchas. .

No subsolo, um labirinto interessantíssimo. Luz negra e paredes com buracos estrategicamente localizados. Um código de conduta facílimo de entender e a possibilidade de amassos desconhecidos e intensos, sem maiores contatos (ou não … ). Devo dizer que é extremamente excitante para uma primeira abordagem… aparência, dimensões e outros critérios pré-estabelecidos desaparecem. Puro prazer e muita, muita fantasia. Mãos, outras mãos, diversas mãos, uma ou outra língua inesperada…

No segundo piso, algo parecido com um “esquenta”. Sofás largos para um pouco de carinhos e chamegos, banheiros (limpos a cada 10, 15 minutos, impecáveis devo relatar) e alguns boxes acolchoados, alguns com poltronas, outros apenas escuros, e uma cortinazinha convidativa para os olhares curiosos. Lembre-se, para privacidade mesmo, só pagando a parte alguns dos poucos quartinhos do local. Mas não é, definitivamente, o caso.

No terceiro piso, uma sala onde rolava a maior suruba que eu já testemunhei. (A única, até o momento). Duas camas que deveriam ter, tranquilamente, 3×3 m. E em cada uma, uns seis casais se pegando. E uma moçada em volta olhando, se inspirando, se divertindo, se masturbando. Era isso que eu buscava. O olhar sem culpa de algo que estava ali, totalmente despido de preconceito (ou não, ainda não tenho certeza), e pura luxúria e desejo no ar. Os casais se alternavam, e o clima era por demais envolvente para quem queria apenas olhar.

Eu me segurei muito, mesmo. Até que de repente cruzei olhares com o negro de sorriso mais lindo desse universo, e cujo pinto era de ator pornô. Sério. Não precisei falar absolutamente nada, e em minutos já era eu no meio daquela cama. Com ele por cima, depois com ele e outro cara. (E sim, eu ainda permanecia com a minha roupa, do jeito que entrei, alguma pequena alteração momentânea…) Pouco depois já havia um terceiro, todo cuidadoso, que me tirou do meio da galera para uma outra cama ali mesmo, menos tumultuada. Fez, em quinze minutos, o que o ex não fez em uma vida.

Um dos caras da cama volta e nisso, o advogado que foi comigo ressurge de algum lugar, e vamos em quatro para um daqueles acolchoados. Transar com outra mulher não me seduziu tanto quanto poder finalmente ter dois caras na minha mao, na minha boca. Foi sensacional.

Parei um pouco; se eu fumasse, teria sido para fumar. Mas não. Foi para pegar uma água e olhar, lá no térreo, o show erótico… não houve nada mais redentor do que essa noite. Uma lista de fantasias realizadas e um contato com um lado meu que não havia. O desejo e a curiosidade deram espaço para o olhar para o outro que ali estava, e confesso, não foi nada convencional. Ou melhor, foi convencional demais. Os casais são na verdade homens e mulheres como eu e o advogado, que se organizam para ir realizar as fantasias. Quando são, de fato, casais, você vê que ou falta muita na intimidade deles, ou já se chegou a um ponto de tamanha cumplicidade que essa troca de parceiros não incomoda.

casa

Não vi ali ninguém do tipo ‘moderno’. Vi muita gente que está um pouco fora dos padrões de beleza, muita mulher inspirando Botero, acima do peso como eu. Muitos caras para quem você sequer olharia na rua. Baixinhos, esquisitos, nerds. Gente de verdade, disposta a te acompanhar em descobertas interessantes.

Não vi, nem ouvi, e muito menos senti, qualquer tipo de agressão ou insinuação. Terminei a água, pensando em ir para casa, mas aí o sorriso bem dotado da noite ressurgiu e fez com que não sobrasse nenhuma lembrança do que eu tinha sido até a hora de entrar ali.

Leia também: Tudo que você sempre quis saber sobre casas de swing…e nunca teve coragem de perguntar!

O que mais quero é mais bem querer

#UmaBiscateQuer #2anosBiscateSC

(Abre parenteses)

imageEscrevo esse post diretamente do hospital onde minha avó está internada desde outubro, com Alzheimer e Parkinson em estágio avançado. E juro que tinha planejado outra coisa e a minha ideia de post para a nossa festa de 2 anos era totalmente diferente. Infelizmente, não estou em ritmo de festa tanto quanto gostaria…

Verdade seja dita: nunca gostei de fazer planos pois, como diz a canção, “tudo muda o tempo todo no mundo” e a gente pode ir da mais perfeita ordem ao caos completo em questão de segundos. E 2013 tem sido exatamente assim para mim, em quase todos os sentidos. Muitas, MUITAS lutas. Cansaço. Momentos de desânimo desesperadores. Raiva contida. Decepções com a falta de amor e daquela fatídica “sororidade” que assola a nossa existência. E no que tange a mim, essa falta surgiu de quem se dizia próximo e é isso que f*de (no pior sentido possível) com tudo.

Ninguém disse que a vida seria uma coisa muito fácil, evidentemente. E perrengues fazem parte do que minha prima de 9 anos chama de “vida chata de adulto” (acho que ela é a primeira criança que conheci  que nunca quis ser adulta antes da hora. Ela é das minhas!!!). Mas talvez, tudo seria menos doloroso se cada um se colocasse, genuínamente, no lugar do outro.

(Fecha parenteses)

Ademais, 2013 foi o ano do segundo aniversário do nosso amado blog e através dele, exprimi muito do que eu sempre quis. Quereres esses que nem sempre consigo dividir com alguém no tête-a-tête, aí com palavras escritas eles fluem mais. E é com muita honra que encerro as postagens de 2013 com uma das categorias mais subjetivas e especiais do BSC. Afinal, não é uma delícia falar/fazer/gostar/sonhar com o que quiser?

gatos_coracao_01Essa bisca aqui quer – para ela e para todos – um  2014 com mais leveza. Mais momentos gostosos. Mais breja ( ou insira sua bebida favorita aqui) gelada numa tarde quente. Mais amizades, mais carinho, mais afeto, mais sonhos e mais meios de realizá-los. Quero desejar e ser desejada, e desejo a vocês o mesmo. Quero beijos intermináveis, mais abraços apertados e mais banhos com corpos colados. Como disse a Jeane, “a vida se esvai e não há tempo para ingratidão”.

Sejamos gratxs à ela, vivendo. E ter passado quase todo o final de 2013 num hospital vendo tanta gente lutar para continuar a viver me fez conhecer de verdade a importância disso.

Que em 2014, possamos nos querer melhor. Que o calor e a esperança de um novo ano faça com que esse sentimento permaneça firme em nossos corações. E que venha mais um, dois, três, dez anos de BSC!

 

Das noites que encarei sem deus

São essas, as noites que encarei sem deus. Não foram noites ruins, pelo contrário. As noites de luta com ele é que foram piores. Aliás, deus… palavra confusa! Que usem divindade, experiência do sobrenatural, feitor do universo, senhor de todas as coisas… Ou usem deus mesmo… E daí…

2013-08-05 00.09.50

Acreditem, não é sobre deus… É sobre o que fazem dele, o que impõem por ele. É sobre o que alguns acham que precisam nele. E escrevo deus em letra minúscula… desculpem… a deferência que, em particular, lhe presto não é linguística… aliás, nem sei em que medida essa deferência é “a deus” ou a qualquer que seja a imagem que se faz dele, mas, definitivamente, não é linguística…

É tudo, claro, sobre religião… É tudo sobre como isso que chamam e superior entra em mim, domina uma alma que sequer sei se tenho… embora a sinta… Pois é… a experiência… As religiões e as experiências de deus… gostaria de, por mínimo que fosse, entender a medida da possibilidade de deus intervir para além da minha experiência no que quero do outro…

Sim, as religiões são umas danadas… não no sentido biscate! justo em um sentido avesso! Enquanto nós, biscates, estamos por aí borboletando na experiência divina (as que querem, porque pode não querer, não entender, não gostar, ignorar… sei lá…) as religiões, ao contrário, cagam tudo ao querer institucionalizar isso!

É como institucionalizar o amor na comemoração do dia dos namorados no jantar seguido de motel… é isso a religião. É pegar a experiência de algo que está para além do imaterial (que nem é só imaterial) e colocar padrões… pior! colocar padrões universalistas!

E não é só colocar padrões universalistas. É colocar padrões universalistas e divinizar e demonizar aquilo que fazemos por desejo. E, sim, estou falando de sexo, de trepar, de tchacatchaca na butchaca, de burbruburbrurburbu… vocês entenderam… É um achismo convicto esse que tenho… o de que a minha experiência do divino é correlata a minha vontade de prazer… e ninguém tem nada a ver com isso. Se o meu deus tá vendo, problema dele que é só voyeur (o que gosto muito), mas deveria é estar aqui participando…

Eu sei, eu sei, eu sei… a minha experiência de deus e essa minha relação divino-desejo, não vai evitar que as religiões e os religiosos intervenham, ou tentem, intervir na minha vida… Pois é… é por isso que encaro noites sem os deuses deles! é por isso que travando discussões com os deuses deles, encontrei o divino em mim. Sincrético, completamente sincrético, mas o encontrei! Ainda é falho, ainda é frágil, mas construir o divino e o meu desejo faz de mim…

Destruam-se os padrões universalistas da experiência de deus! Subvertam-no! Tudo pelos deuses que não destruam nosso desejo! E disso, fica um recado: ESCANDALIZEM. Só assim se colocarão questionamentos necessários à própria mudança. E, mais, esperem de cada um a própria mudança, se ela vier… conviva com a sua… ela é só sua, assim como o seu desejo!

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Que todos encarem uma noite sem deus e voltem dela renovados, com ou sem deus, para além de seus desejos.

Paixonites esquizofrênicas

Ou, o amor nos tempos da bipolaridade.

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

paixonite

Eu desperto e o seu cheiro ainda está em mim. Não me incomodam os seus pêlos que em carícias sorrateiras vêm parar na minha boca.  Esses me engasgam, eu cuspo e rio depois. O que me incomoda é a sua ausência. É passar o dia todo com você em mim. Quem sabe não furo uma veia, abro ainda mais um poro, invento algum outro orifício pra ver se você me ausenta sem dor. Ou racho a minha cabeça pra ver se escoam essas lembranças inúteis. Não sei pra quê as guardo. Da mesma forma como ainda não sei porquê eu nunca te disse eu te amo. Talvez puro receio disto não ser recíproco. E certamente não será. Mas estou com vontade de dizer. E aí, você aguenta? Esquenta, meu bem, pois o cobertor, é curto, bem curtinho, então vem logo. Sabe por que? Amanhã eu mudo de idéia. E te odiarei, teu time, teus pêlos, teu jeito desastrado.  Só posso ser feita de matéria abjeta e suja, porque até hoje não ouvi de você, espontaneamente, nem um mísero e vago “eu te adoro”. Eu, justamente eu, que me arranhei, me sangrei, aprendi a cozinhar na panela de pressão, a entender o que era um impedimento, a ver o jogador Fred para além da sua beleza e prestar atenção para um voleio (!). Você, verme miserável, que sai plácido e cinicamente da minha cama quase todas as manhãs não merece mais do que meu mortal desprezo. Nunca mais vou tencionar dizer eu te amo. Te odeio e tenho fome de ti. A louca de sentimentos imprevisíveis, que à distância se reconhece bipolar, só quer um abrigo no espaço de teus braços. Um carinho, somente. A palavra dita na hora certa. A coisa feita na hora certa. E não pense que estou falando das vezes que você me convidou pra comer sushi e eu aceitava com os olhos brilhando. Não, não me vendo por comida. Ok, só algumas vezes. Mas naquele dia foi sacanagem, vinho argentino e salmão com molho de maracujá, porque você precisava ser tão baixo??? Era só ter trazido mais uns cinco sashimis que eu te declararia amor eterno. E você, em contrapartida, o que você sabe do meu mundo? Sabe o que eu pesquiso? Sabe que eu choro ao ler Neruda? Que fico paralisada e arrasada depois de ver um filme de Bergman? Que meu sonho é viajar pro Chile e pra Cuba? Que meu desejo mais íntimo é ser só mais uma na multidão, confundida com toda essa gente? Mas você só sabe falar mal dos meus vestidos compridos. Esses mesmos vestidos que são elogiados no meio acadêmico e de trabalho, esses vestidos que você condena porque não são curtos, coladinhos e chamativos, como você queria. É querido, você namora com um bicho-grilo (que não vai mudar o seu visual). E eu, com um caretão tardio que quer tão somente uma menina transadinha e na moda, maquiada e escovada, toda trabalhada no previsível gênero inteligível (só Butler pra me salvar!). Juro que vou ficar apenas pra ver quem ganha essa queda de braço, eu, a sua outsider preferida.

Beijos, te cuida…

Peraí, vc sabe o que é uma outsider?

.

jeane melo*Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

O Pão da Ira

Receita Biscate Por Niara de Oliveira

esse é o pão que fiz nesta madrugada

Pode parecer oba-oba, mas ser biscate não é fácil. Tem o lado divertido, óbvio, decidimos pela rebelião, pela não-conformismo com a opressão e o triste papel que a sociedade machista nos impõe e todos os seus efeitos colaterais. Optamos pela alegria. Mas matar todas as ofensas sutis e veladas no peito (e haja peito), engolir sapos, desfeitas, desaforos e, principalmente, os enganos é dureza.

Não falo dos nossos enganos, mas dos enganos de pessoa (erro fundamental de pessoa), quando o ser que deveria vir junto com sexo, risadas e poesia, mete os pés pela mão e te trata como biscate naquele sentido pejorativo que combatemos aqui – ou seja, acha que a biscate está ali pra saciar o desejo DELE e não porque ela também tem desejos. E se a gente – biscate – aponta este equívoco, ainda cobra a nossa suposta “contradição”.

Geralmente essa tal contradição se refere à facilidade de acesso. Desenhando a razão da raiva: conversando a gente se entende. Pode ser só sexo. Se a gente quiser, pode. Pode ser sexo e amizade? Mesma coisa. Pode ser relacionamento monogâmico fofinho-dormir-de-conchinha-ir-buscar-na-rodoviária? Pode. Pode tudo. O que não pode é sugerir A e, depois, dizer que é só B e que como somos biscates, tá tudo ok. Dá raiva. E, aí (vamocombiná), não tem nada de biscatagi, é o velho e péssimo machismo de sempre que trata mulheres como objetos.

Nessas horas, amiga-biscate-decepcionada-e-cheia-de-raiva, nada como fazer um pão. Tem pratos que se feitos com raiva dão errado. Pão fica melhor com esse ingrediente. Então, vamos à receita.

Tenha em casa os ingredientes para o dia que essa raiva aparecer. São eles: óleo e/ou azeite, sal, açúcar (refinado — não pode ser nem cristal, nem orgânico e muito menos mascavo), ovo (opcional), farinha de trigo e fermento biológico seco (envelopes de 10 gr ou uma colher de sopa) e água.

Numa bacia média coloque pouco mais que meio quilo de farinha e cave um buraco no centro, jogue conteúdo do envelope de fermento, cubra com duas colheres de sopa rasas de açúcar e coloque apenas sobre o fermento com o açúcar um pouco de água morna (mais para quente). Cubra com um pano de prato e deixe o fermento agir (= fermentar) por uns 10 min. Verifique se água continua na temperatura mais para quente e acrescente mais uma colher de sopa de açúcar e outra de sal, de 3 a 4 colheres de sopa de óleo e/ou azeite (pode misturar um pouco de cada) o ovo (temperatura ambiente, ou cave um outro buraco na farinha para abri-lo — se o ovo estiver gelado o deixe entrar em contato com o fermento), vá misturando direto com a mão e colocando a água morna aos poucos. Caso fique mole demais e não desgrude das mãos, coloque um pouco mais de farinha até acertar. Não é difícil achar esse ponto. Massa de pão quando está no ponto desgruda fácil da mão. Tire a massa da bacia e coloque sobre uma superfície onde possas amassá-la.

Vá amassando, intercalando movimentos de juntar (embolar) e abrir (rasgar) a massa. Não é agora ainda a hora de descarregar a raiva. Trabalhe na massa o suficiente para ela ficar homegênea e desgrudando tanto da mão quanto da superfície. Faça uma bola da massa e a coloque de volta na bacia. Cubra com o pano de prato e se possível coloque num lugar morno. (coloque a bacia sobre uma vasilha com água quente, por exemplo). Deixe a massa descansar por no mínimo 20 min.

Antes de juntar toda a sua força e raiva e partir pra cima da massa com tudo, unte a forma com óleo (bem pouquinho e espalhe com os dedos — o calor da mão ajuda e a mão engordurada ajuda na hora de pegar a massa). Retire a massa da bacia e trabalhe-a de novo sobre a superfície, mas agora usando mais força, rasgando e embolando mais agressivamente. Bata a massa sobre a superfície sem dó, soque-a se isso lhe fizer bem. Faça isso por uns 15 min ou até o braço cansar. Quando terminar, ajeite a massa na forma (se a forma for retangular deixe a massa mais ou menos no mesmo formato, menor — claro). Aqueça o forno levemente e desligue. Coloque a forma lá dentro e deixe a massa crescer até triplicar de tamanho. Ligue o forno em temperatura média, pão deve assar lentamente ou doura muito rápido e não dá tempo de assar por dentro.

Opcionais: Pode substituir um terço da farinha de trigo por farinha de milho ou de centeio e ainda acrescentar linhaça, passas, gergelim e outros grãos da sua preferência (com parcimônia).

Para essa receita não usei a raiva de apenas uma situação, juntei várias porque estou numa fase “revolta mode on”. Pelo menos o pão fica macio.

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