Fico

Então, fico. Mais um pouco, mais um dia, mais um tempo. Mais. Mais pele. Mais fogo. Mais suor, pernas encaixadas, mais língua, gosto, gemido, mais nós. Mais coração acelerando o ritmo, mãos modelando carne, olhos mergulhando em olhos. Mais perto. Mais.

 

Fico. Deixo a mochila encostada na porta da rua, lembrando que a despedida será. Alerta do café que esfriará na xícara enquanto o pensamento passeia por manhãs em comum. Anúncio antecipado dos dias que escreverei saudade com lápis para poder apagar em papel o que não se apaga em tesão. Avisando o bem querer com calendário.

 

Fico sabendo que já não somos. Que é um puxadinho. Fico apesar de. Da passagem comprada. Do projeto acertado. Dos dias que estavam certos de ser. Fico sabendo que não engano o relógio, não engano a rota, não engano a vida. Não me engano.

 

Fico com a cabeça encostada em teu peito, buscando me ensudercer pelas batidas do teu coração e assim não ouvir o sussurro zombeteiro do tempo. Fico mesmo sabendo os acertos. Os planos. Os contras. Fico mesmo sabendo que você não cabe na minha vida e eu não orno com a sua.

 

Fico e imitamos tão bem a felicidade que sempre sentimos que quase acredito que estar é verbo a ser conjugado no presente. Fico e trepamos. Fico e rimos. Fico e gozamos. Entrelaçamos dedos, acarinhamos rostos, roçamos corpos, prolongamos beijos, como se fosse possível.

 

Fico até que você durma e a dor amanse como bicho selvagem domado. Um equívoco necessário. Fico até conseguir soltar a mão que você segura entre a sua sem que isso cause mais que um gemido desgostoso. Fico até o silêncio passear nos ambientes da casa e entorpecer temporariamente a saudade. Fico até roçar os lábios em seu rosto, inspirar próximo ao seu cabelo, engolir a despedida, pegar a mochila próxima à porta de saída, trancar a porta e passar aquela chave que você nem pestanejou pra me entregar por baixo da porta.

 

Aí, vou. Vôo.

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