A Praia

Voltei à nossa praia esses dias. Refiz o mesmo caminho, passei pelo posto onde compramos cigarro, mas dessa vez não parei. Segui pela mesma estradinha estreita, vi as casas dispostas em círculo, lembrei das histórias que me contou da sua infância. Sorri ao me lembrar de você. Dessa vez não tinha sua mão na minha perna, nem a cerveja entre as minhas coxas.

Refiz todo o caminho, mas cheguei à praia por outro lado. Engraçado isso. Ver que existem outras saídas, outras formas de se chegar àquele lugar tão bonito e tão esquecido. Olhei o mar e lembrei de você. Na verdade, falei de você por um bom tempo enquanto chegava lá. Olhei o mar e me joguei. Pela primeira vez. Sozinha.

Mergulhei naquelas águas calmas em consonância com meu peito agora tranquilo. Deu saudade de você. Deu saudade daquele dia ali com você. Vi o mirante de longe. Sorri aquele canto de boca das lembranças de volúpia da noite que passamos ali.

Aquele mar me lembra você. Entrei nele sabendo que era preciso ressignificá-lo. Ir “à nossa praia” foi a minha maneira de ressignificar os lugares por onde passamos juntos, ressignificar você na minha vida. Entrei no mar e mais uma vez me deu saudade de você. Imaginei teu corpo bronzeado mergulhando ali. Uma pintura bonita. Mergulhei e tive a certeza de que fiz a coisa mais certa que eu podia fazer, a decisão mais sensata que eu podia tomar. Voltei à superfície feliz com que eu sou.

Saí do mar e me esperavam na areia com uma cerveja. As coisas agora eram diferentes. O mesmo cenário, outras histórias. Começo de temporada. Fiz questão de almoçar naquele mesmo restaurante, disse a todo mundo que era o melhor peixe da região. Acho que é o único por ali, né?

Voltei pra casa por outro caminho. Aquela praia não é mais a minha praia com você. É mais uma praia por onde já andei, que está no meu roteiro, que posso dizer que já a conheço. Vivenciei outras alegrias, estive com outras gentes. Você ainda é a pessoa que me apresentou aquele lugar até então desconhecido, mas não é mais minha única referência. Você agora é lembrança doce que me visita vez ou outra.

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Morrer é Foda

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro. Repetia para si as palavras da amiga. Era isso. Havia matado a relação e se matado também. Sentia falta dele, mas percebia que sentia, sobretudo, falta de quem era naquela relação com ele. Sua amiga condensou sua dor em duas frases banais trocadas por whatsapp: “morrer é foda. Morrer é difícil pra burro”.

Morria lentamente de saudade do homem com quem trepava divinamente. Morria de saudade das conversas, da voz, do cheiro. Do olhar. Aquele olhar derramado sobre ela, morno, mas que incendiava tudo por dentro. Um olhar terno, acolhedor e revelador. Ria de como ele não conseguia ler a embalagem do requeijão e achava seus óculos horrorosos. “Vou comprar óculos redondos, ter cavanhaque e camisa xadrez só porque você gosta”, ele prometia irônico.

Ele morreu para ela. Nunca mais a facilidade de gozar naquelas mãos, nem a cerveja comprada no mercado da esquina. Quando foi que ele deixou de ser mais um e se transformou naquele em que pensava com constância, de quem sentia falta? Lembrou-se do dia – o mesmo do requeijão, será? – ele na sua cozinha, abrindo seu armário, pegando a faca e cortando o pão. Naquele dia de intimidade besta, ele fez morada. Ela soube, então, que a partir daí não tinha mais como continuar. Era preciso morrer.

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Doía não só a ausência dele. Quinze dias sem notícias se arrastaram como uma quarentena no deserto. Justo ela tão comedida nas palavras e no sentir. Faltava o ar. O peito esmagado e a certeza de que o único lugar em que cabia era o abraço dele. Doía a ausência dele dentro dela. Doía a falta do corpo dele entre as suas pernas, da boca dele nos seus seios e daqueles dedos longos que a preenchiam por completo.

Morrer é foda. Quando leu a mensagem da sua amiga, riu. Pensou: “bem, não morri. Quem morreu foi ele”. Morrer é difícil pra burro. Aquilo lhe marcou. Pensava sempre nessas duas frases. Sua amiga sabia do que falava. Ela ainda não tinha visto as coisas daquele jeito. Passou dias remoendo o quanto era foda a morte e o quanto era difícil morrer. Até que percebeu que ela também morrera. Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro

Morrera aquela que passava as tardes transando com ele. Aquela mulher corajosa de quem ele tanto falava. Morrera a mulher cheia de doçura. Morrera aquela que era vista por aquele olhar carinhoso. Morrera a que ia passar o dia na praia com ele, mas nunca sentiram o mar juntos. Morreu aquela mulher que contava histórias da sua vida e se sentia livre para contar seus devaneios mais íntimos. Morreu aquela que não teve pudor de declarar sua paixão.

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro.

Mais

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Não queria, mas entendi que o nosso tempo se esgotou. Nosso caso – tão curto – já chegou ao fim. Não chega a ser uma dor sabe, mas é que eu achava que faltou a gente conversar mais, se olhar mais, se tocar mais, se beijar mais. Acho que faltou mais vezes seu corpo visitar o meu. Assim, como quem não quer nada. Faltou mais sua boca nos meus peitos, seus dedos na minha buceta.

Sinto falta de sentir mais tua boca de cigarro e cerveja. Teus lábios no meu pescoço. Minha mão na sua barba. Não é que esteja ruim a vida sem você, mas é que ia ser tão bom se você viesse com a tua mão grande na minha perna. Penso nos outros com quem me deito e penso que sortudo seria você se assim o fizesse também. Ai como me faz falta você me comendo de quatro!

Não me interessa saber o que aconteceu, porque você não quis, porque não quis ficar dentro de mim de novo. Queria que você quisesse de novo. Só isso. Não posso dizer que mais uma vez bastaria, porque pode ser que não. Mas pode ser que sim também, não sei. Eu queria que você quisesse de novo pra poder te lembrar o quanto chupo seu pau bem.

Eu queria de novo não só pra recriar os caminhos de antes. Queria pra percorrer os novos que nos prometemos naquela noite de muita cerveja e maconha. Sonho com a promessa de que da próxima vez você me comeria o cu. “Da próxima vez tu compra lubrificante, hein?”. Disse eu já querendo amarrar o encontro seguinte. É mais forte do que eu, sou assim, de lua em touro.

Sonho com a possibilidade de você gozar na minha boca. E, ok, quero relembrar tua boca quente na minha buceta. Queria dormir aninhada no teu peito de novo. Lembro que você me abraçou a noite toda e mesmo achando ruim, eu estava achando bom. Acho que talvez soubesse que não mais tua perna pesada em cima de mim.

Quando pensei no próximo encontro, não era uma regra, um dever, um ter que. Estava mais para possibilidade. Está vendo, você não me conhece e aí não sabe que sou inteira possibilidades, alternativas e facilidades. Quisesse tu me comer de novo, ficava sabendo que sou dessas que só dizem sim.

Das bagagens

despedida

As malas maiores já foram despachadas, mas ela ainda parece desengonçada: uma bolsa grande no ombro, o casaco no braço quase arrastando no chão, uma vida de equívocos e esbarrões no jeito que gesticula, sem som, enquanto se perde nos olhos dele ali, um pouco à direita do portão de embarque. Ele, em longas, discretas e adequadas mangas azuis, os olhos ainda mais brilhantes que sempre.

O silêncio que costuraram feito colcha de retalho ao longo dos anos agora os aquece e abriga. Desacostumados de carinhos públicos, ele hesita um momento antes de afagar o rosto que lhe sorri, triste, mas sorri. Ela inclina a cabeça, como aprendeu nos romances de banca lidos na adolescência e deixa a dor futura repousar naquela mão. Aquela mão que a coube toda, que a soube toda, que reinventou seu corpo ao percorrê-lo todo, tantas vezes que ela desaprendeu o tempo.

Ele limpa a garganta e ela sabe as palavras, as promessas, o eterno, o pra sempre, o depois, um negócio em uma rua qualquer, um outro lugar, eles tão outros, o casal que ensaiaram ser. Ela sabe o sentir em cada intervalo entre as frases a serem ditas, antecipa as cores deste horizonte, seria a narrativa do acordar em pernas entrelaçadas, a cumplicidade simples do café com torrada, as miudezas do dia sussurradas antes do sono. Ela sabe o desejo, a viagem, a mudança. Planos. Ela sabe, ela quase. Mas. Ela também sabe que é preciso descerrar os olhos. Ela também sabe que é preciso se afastar da mão. Ela também sabe que é preciso não ouvir. Saber é sua dolorida alegria. Ela sabe, mas teima e fica mais um minuto naquele eterno.

É o som que ele repete de limpar a garganta antes do falar – e que a obrigaria a dizer que não acredita, que não pode, que não conseguiria ser essa ela nesse outro lugar com esse outro ele – que a impele ao movimento. Há coisas que não podem ser ditas e coisas que não devem ser ditas. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não sabe onde localizar as que eles quase enunciam. Seu rosto se afasta da mão dele, lenta como um navio pesado em manobras de partida.

Ela chora. Lágrimas pesadas de sal e memórias. Para disfarçar o choro, para impedir o dito, ela beija. No seu sem jeito de sempre deixa casaco e bolsa escorregarem enquanto molha a boca dele com sua, o sal virando sol, a língua luz aquecendo o dentro, o entre, o tanto. Sem nenhuma palavra, sem nenhuma promessa, sem nenhum eterno ela recolhe bolsa, casaco, futuros e parte. Um passo de cada vez, ela embarca antes em si mesma e tenta lembrar o ser sozinha.

Com infinito cuidado pra não tropeçar, sussurra pra si mesma Leminski: um homem com uma dor é muito mais elegante. A si mesma enganando, conta os passos até ultrapassar o portão de embarque e não poder mais ser vista, nem ela, nem sua bolsa enorme, nem a ponta do casaco que arrasta no chão sem deixar rastro.

Mal me quer

E depois de tudo, do meu carinho, do meu cuidado, da minha entrega quase sacrificial, do almoço-delícia que te fiz, do abrigo que te dei, das caronas da madrugada, das palavras carinhosamente escolhidas pra te impressionar, de tudo, tudinho, você não me quer mais (alias, me pergunto se um dia, quis). Ou teu interesse foi uma breve mentira inventada pela minha enorme e assumida carência?

Ok, baby. Mas cadê a dignidade? Cadê o cuidado em me dispensar educada e solenemente? Por que desprezar, ser indiferente e agir como um imbecil cego (ao meu desejo)? Por que matar a pauladas a nossa história que nem ia durar muito mesmo? Era pra ter ficado linda na nossa memória. Uma lembrança safadinha e irresponsável, história boa de recordar e contar.

Mas você, com talento típico dos egoístas, estragou tudo. Sair correndo do meu carro, depois de uma carona oportuna, é no mínimo, deselegante. Desde quando, do alto da minha sensibilidade, passei a ser um fato indesejado pra você? Desde quando? Me conta, vai! Acho que perdi o bonde andando…

Só quero que saiba de uma coisa: hoje você se tornou a antítese do meu desejo. Poucas vezes me arrependo. Essa é uma delas. Arrependo-me de ter dado o melhor de mim pra ter vivido um day after tão medíocre. Repito: de você, quero distância. Não vou ser sua amiga. Não quero te fazer companhia. Não quero dividir a dureza do nosso trabalho. Não me peça favores. Vire-se sozinho. Não vou te dar abrigo. Por mim, morres de sede, de fome, de frio e de calor. Rancorosa, eu? Sim. Não me interessa fazer tipo. Portanto, se afaste. Use a sua indiferença pra ir ainda mais longe de mim. Fará um bom favor.

E daqui de dentro, depois de tudo, brota um sorriso de alívio. Porque eu vou continuar sendo fácil, generosa, pronta para me doar, escolhendo a dedo palavras bonitas e receitas de comidinhas boas. Mas só pra quem me queira de fato. E pra quem o meu desejo quiser. Pra ti, não né? O tempo é matreiro e a vida é grande!

Sair de cena: meu esporte de combate preferido. Adeus.

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