Ser periguete ou parecer periguete?

Ou qual papel a sociedade de consumo escolheu para você hoje e o que isso tem a ver com o Dia dos Namorados

Já está um pouco cansativo essa coisa de ficar afirmando o que é ser biscate. Porque não há definição, ou não há UMA definição e é aí que todo mundo se atrapalha, já sabemos. Estamos acostumados com esse mundo encaixotadinho, fácil, onde cada um representa apenas um papel. Ops! Esse é o mundo das representações, né? Porque no mundo real pessoas são complexas, inteiras e são várias numa só e é muito bom que seja assim. Maluquice, né? Sabemos o quanto somos complexos quando olhamos para nós, mas quando nos refletimos ou nos vemos inseridos na sociedade temos essa necessidade insana de classificar, reduzir, enquadrar… E cabe a pergunta: Temos mesmo essa necessidade ou ela nos é imposta diariamente por esse modelo de sociedade que visa nos transformar em coisas, em apenas consumidores?

Já questionamos uma reportagem sobre o comportamento sexual da periguete e de novo lá afirmamos o nosso entendimento (do BiscateSC). Felizmente saiu na última semana uma outra matéria no mesmo site um pouco melhor, com um entendimento/perfil bem menos preconceituoso sobre o que é uma periguete. Será que fez diferença o fato de agora ser uma mulher escrevendo? Não necessariamente, mas talvez porque sendo mulher e já tendo sido em algum momento classificada e em não gostando disso esteja mais atenta a essa forma nem tão sutil assim de opressão… Mesmo assim essa nova matéria escorrega, e a principal escorregada esteja talvez no tal “Raio-X da periguete” que imediatamente se choca com o perfil da periguete mais comentada do momento, a personagem Suelen da novela Avenida Brasil.

Diz a matéria, de Julia Baptista no Delas (portal IG):

“Mulheres que exibem sua sexualidade e a usam para conseguir coisas são tradicionalmente alvo de todo tipo de piadinha e expressões pejorativas. As periguetes não fogem da regra. “Essa mulher livre e que ousa fazer suas próprias escolhas ocupa um espaço tão importante nas fantasias masculinas que dá para se perguntar se a mulher que faz esse gênero está de fato ‘vivendo a sua sexualidade plenamente’ ou apenas desempenha, sem sequer se dar conta, mais um papel que a sociedade delega”, explica a historiadora e escritora especialista em questões femininas, Nikelen Witter.
A fantasia nasce justamente porque “nossa cultura ainda tem dificuldades de conceber uma mulher numa posição igual a do homem em termos sexuais, profissionais e sociais”, acrescenta Nikelen. Mulheres assim representam uma ameaça, um perigo, e, por isso mesmo, são fascinantes.

É mais ou menos o caso da tal Suelen de Avenida Brasil, que mesmo sendo considerada “mau caráter” (e talvez seja esse o problema no perfil da personagem, colocá-la como mau caráter) e usando seus “atributos pessoais” para obter vantagens ela é dona de si e faz do seu corpo o que quer. Talvez isso explique — me apossando aqui e usando o comentário da Nina Lemos — o sucesso dela entre os homens na trama, a simpatia pela personagem tanto de homens quanto mulheres e a maluquice que é viver encaixotado dessa forma que vivemos. E quando digo “vivemos” me refiro à sociedade como um todo, porque eu (acho!) já me livrei das caixinhas tem tempo e não impunemente, assim como a Suelen que paga sua conta por viver do seu jeito.

Querem um exemplo de como precisamos ser encaixotados para virarmos azeite nessa sociedade de consumo? Alexandre Herchcovitch, um dos maiores nomes da moda atualmente no mundo, revelou ontem na Folha de São Paulo sua estratégia diante da novas classes C e D — a tal “nova classe média”, que não é exatamente classe média e que foi elevada não à categoria de cidadã mas de consumidora pelo atual governo (mas essa é uma outra discussão que não cabe aqui): “Hoje, quem quiser sobreviver no Brasil, e competir, vai ter de fazer produto para a classe C e D”. Ao mesmo tempo que diz não saber fazer roupas para “o perfil da brasileira“. Diz ele: “Já tentei fazer essa coisa de ‘estilo da brasileira’, um certo padrão, mas não tenho mão para isso. Começo a fazer e sai outra coisa. Poucas marcas sabem desse gosto geral do Brasil. Isso não é um problema, pois o país é grande e há variedade de gostos. Minha marca conquistou seu espaço. Se minha roupa fosse periguete, teria mais clientes, mas não sei fazer. O lance é saber ajustar expectativas.” — Não, Herchcovitch não conceitua o que é ser periguete, apenas diz que não faz roupa para elas. Mas isso não é de certa forma dizer, classificar (inclusive no sentido de classe social), conceituar?

Relembrando o tal Raio-X da periguete e o comentário da Nina Lemos sobre a Suelen fica bem desenhadinho que é preciso não apenas classificar o comportamento dessa mulher (e não é que a imprensa seja responsável por isso, é a sociedade como um todo que o faz), da periguete, mas definir o seu jeito, definir o seu gosto. Quer ser periguete? Dê para quem quiser — isso é bom e eu recomendo –, não precisa nem anunciar que está dando, o julgamento e o “título” vêm mais cedo ou mais tarde. Quer parecer periguete? Vista-se assim, maquie-se assado, tenha o cabelo Y e tenha a atitude X. Se isso não é pasteurizar as pessoas e massificar cultura eu não sei o que mais pode ser.

Mas o que tudo isso tem a ver com o Dia dos Namorados, cáspita? Vou facilitar.

O dicionário diz:

periguete
(origem duvidosa, talvez de perigo)
s. f.
[Brasil, Informal]  Mulher considerada desavergonhada ou demasiado liberal. = PIRIGUETE

Na matéria do Delas, do portal IG, da semana passada a definição é essa:

A gíria, surgida na periferia da Bahia no início da década de 2000, virou apelido de cerveja e entrou para o dicionário Aurélio como sendo uma justaposição de ‘perigo’ + ‘ete’, “moça ou mulher namoradeira, mas sem namorado”.

Periguetes e biscates na teoria não namoram, elas flertam com os namorados alheios (ui!). Tudo vadia. Né? ERRADO. Já desfilaram por aqui dezenas de excelentes posts sobre biscates casadas, de um homem só, apaixonadas, mães e até de “quase” não-biscates. E não é que estejamos subvertendo o conceito ou a definição de biscate e periguete, é que ele não existe mesmo, por mais que tentem enquadrar, classificar, encaixotar. E se for para dedicar um dia ao seu amor-caso-peguete-enrosco-amante que cada um/uma escolha a sua data. Acho que ficaria bem menos normativo, massificado e impositivo. Mas, quem quiser cumprir o ritual-combo consumista de presente-jantar-motel hoje, fique à vontade. Sou da opinião que somos livres inclusive para escolher esse modelo consumista, mesmo que o ache bem meia-boca e sirva apenas para dar satisfação à sociedade que estamos tuteladas e estamos momentaneamente “menos perigosas”, mesmo que não seja nada disso. 😉

Amar é ser assexuado como esses bonequinhos? Deve ser por isso que as biscates e periguetes são definidas como quem não namora… Né?

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