Entre soslaios e mais

Há sempre um desejo. Ali a espreita, observando. Podem ser pedaços de axila a mostra, com ou sem pelos. Um sorriso maroto, um sorriso farto, ou, ainda, um sorriso farto e maroto. Uma roupa vermelha, uma boca vermelha, uma unha vermelha. Pé descalço, pé sujo, dorso do pé. O desejo está – talvez – nas pequenas cousas que nos saltam às sinapses, aos olhos, ao olfato, ao sexo. Molha, incandesce, ruboresce. Um cheiro, de perfume a suor, quem sabe?

Transavam, sabiam caminhos já. Apesar de tudo, de todas as conquistas deste amor livre, do dar e receber quando as telhas – duas ou mais – resolvem se encaixar em vontades e libido, era bonito e obscenamente interessante aquela insistência. Da segunda vez já descobriram que existia uma pinta, sim, uma pinta, que quando tocada ligava um circuito todo de pele, falo, grelo, grelos, falos, peles. Usaram a língua e foi como se a linguística sempre estivesse a serviço dos corpos, para instinto e fome. Ou de saciar ou de crescer. Cacete, vulva, xoxota, pau, buceta, bigulinho. Já na terceira vez tinham ruelas com esses nomes em plena planície do umbigo. Ah… os umbigos…..

E o desejo, ali. Na espreita. Espreitando. Se esfregando. Se tocando. Se fodendo, todo. Teve um comentário sobre filme do Scola, despretensioso, nus, num intervalo qualquer, que entre a ternura e a delicadeza, deu ao desejo mais tempero, mais esfrega, mais toque, mais foda. Uma mão na bunda, um dedo no cu, uma saudade aqui e alhures, uma louca febre de andar pelados pela sala. Os sexos ali, esfolados, salgados, lúbricos e com gosto de hálito quente umedecido por lábios tenros.

O desejo ali, a espreita. Uma hora ele se levanta e vai embora, sabemos. Mas naqueles átimos universais, fragmentos da história, de civilizações, de escambos necessários: Gozo.

Feliz 2016. Este desejo também.

beijo orelha

Eu daria pra você

Cara leitora, vim aqui contar de  uma ideia antiga, à espera de execução, que tem a forma de um cartão de visitas. Um cartão de visitas bonito, em que estaria escrito apenas:

Eu daria para você.
Fulana – contato: xxx@xxxx/tel: xxxxxxxx

Só isso. Ou, melhor ainda, sem e-mail ou telefone. Apenas a afirmação de que, se algum dia acontecesse, se pintasse, se rolasse a oportunidade, a ocasião, os dois assim de bobeira, um tempo conveniente… bem, eu daria pra você. Não precisa perguntar, não precisa ficar na dúvida, não precisa hesitar.

O que, cara leitora, parece pouco romântico? Bem, não é para ser romântico mesmo. Tenho pra mim que a disseminada ideia de que qualquer relação digna desse nome deva ter algum toque disso aí que chamam de “romantismo” (atenção às aspas) é mais furada do que secador de macarrão. Mais esquisita do que botar o dito secador na cabeça e fundar uma seita. E a fonte de tantos desnecessários sofrimentos. Uma confusão sem fim. Um equívoco da cabeça aos pés.

Porque, veja bem, cara leitora, não estou falando de nada que vá além de uma relação sexual. Limita? Ué, por quê? Caso você goste, caso a outra pessoa goste, não seria possível repetir, de novo e de novo, até que isso aí se chame uma relação? Podendo inclusive prosseguir até que alguém abra a gaveta da cozinha e encontre ali um descaroçador de azeitonas – quando então se descobrirá casado?

Por outro lado, caso seja ótimo mas seja isso mesmo, tá tudo certo: cada um vai pro seu lado, saciado, satisfeito, sem demandas fora de hora, sem incertezas incômodas. Era isso, foi isso. Foi ótimo. Eu daria pra você, eu dei pra você. Que delícia. Que alívio.

(suspiro)

Ah, o cartão de visitas? Por que não no feice, por que não no tuíter, no zapzap e coisa e tal? Ora, cada um com seu jeito, né? Eu sou assim, antiquada. Gosto da imagem do cartão de visitas. Porque é físico, em primeiro lugar: papel, textura, cor, impressão, fonte. Uns envelopinhos, talvez? Escrito à mão e depois impresso, com sua própria letra? Pode ser, tem tantas possibilidades. Lindezas. Só de pensar, já fico com água na boca. Adoro artigos de papelaria desde que me entendo por gente.

Tem também outro motivo, porém: é que desobriga. Você nem precisa entregar pessoalmente: pede pro garçom. Deixa na caixa postal, e acrescenta a lápis: “Fulana, do 702”. Larga em cima da mesa da pessoa, no trabalho. E pronto. Tá dito. Acabou. Não precisa mais ter angústia quanto a isso: daria. Daria, mas talvez não dê, porque sua situação tá complicada, porque a minha é, porque agora a gente tá sem tempo, nunca apareceu uma chance, um momento bom pra introduzir, por assim dizer, o assunto…. mas caso role, se acontecer, quando a gente puder, quem sabe um dia: daria.

E não é nem um “a bola agora está no teu campo”: não tem bola em jogo, não nessa hora. A bola tá no ar, flutua, vagueia, desliza. Não é questão de bola. Porque não precisa ser agora, não tem urgência nem ansiedade, essa a beleza da coisa. É assim, se um dia… eu daria.

CartaoVisita

Mesa Pra Quantos

Acordar é em lentamente. Não abre o olho, não primeiro. Antes, deixa a ideia se espalhar. Alonga as pernas, faz pontinha nos dedos do pé. Um suspiro de bom lhe afasta os lábios. Sente o pegajoso entre as coxas. O dolorido gostoso no corpo. Gosto de vinho amanhecendo na língua. O cheiro de cigarro em quarto de janelas fechadas. Na sala, um cd em repeat murmura, cansado. Estica os braços e esbarra em lembranças. Move o corpo para a esquerda, tateia lençóis, um corpo. Como um filme antigo mal restaurado, os flashes. Roupas empilhadas. Um pé que esbarra na garrafa de vinho. Língua na orelha. Língua no pescoço. Um corpo que se estende no sofá. Uma boca que chupa um dedo do pé. Uma mão que se encaixa entre coxas. Morder uma bunda. Ser lambida. Tesão. Peles que se roçam. Pernas que tropeçam. Uma boca, um pau, uma bunda, outro pau, um peito, uma axila, um cotovelo, um pescoço, uma barriga, um pau, uma buceta, um joelho, um pescoço, um ombro, uma buceta, um pau. Bocas. Línguas se entrelaçando. Línguas invadindo orelhas, umbigo, cu. Uma mão em um pau, um pau em uma buceta, um pau esfregando em outro pau, uma boca chupando ombros, chupando seios, os seus, os outros, uma mão na nuca, uma mão em outra mão. Dentes. Dedos. Saliva. Um corpo sobre. Um corpo entre. Um corpo fora. Um entra e sai, um aqui dentro, agora, vem, vem. Mais. Um gemido seu em outra boca. Uma mordida quase sangue no lábio. Uma mordida na barriga. Uns olhos abertos, uns olhos fechados, umas pernas abertas, uns braços abertos, uma língua em mamilos, um saco, chupar, sugar, lamber e um dedo lhe tocando firme, rápido, leve, seios roçando em suas costas. O gosto dela em um pau, em um dedo, o suor na sua língua indo pra língua outra. Roça. Penetra. Volta. Ruídos. Risos. Gemidos. Sente um corpo que se estende em suas costas, seios e pau duro, mãos nos seus peitos, um pau que vai e vem na sua boca, mordidas na bunda, nas bundas, mãos viajantes, saliva, suor, o gosto de pele, de pêlo, seu coração batendo no peito alheio, seu sangue latejando no ouvido outrem, unhas cravadas nas costas já não se sabe de quem. Em cima, em baixo, ao lado. Fora. Olha. Uma água? Quero. Vai. Volta. Mergulha entre. Um corpo na frente, um corpo atrás, uma alegria em volta.

café

Sorri, agora já é dia no olho aberto, levanta, veste uma camiseta que não lembra de quem, chuta sapatos no caminho, abre janelas, muda do cd para o rádio, acende o fogo, espreguiça, a primeira xícara fumegante é só dela, gosta dessa solidão matinal, um tempo pra ir se ajustando a ela mesma, dança um pouco, ri um pouco, coloca a mesa pra três, xícara, pão, queijo, manteiga, esse gosta de açúcar, a outra fala baixo e toma café pingado meio encabulada, fé cega, faca amolada, ovos mexidos? ovos mexidos. Na bandeja as frutinhas que só ela come de manhã. Já desperta, repara que ainda cabe pelo menos mais um na mesa do café. Gargalha com a sintonia, é pensar e, no rádio, Roberto Carlos se equivocar na conta:

Nua

strip-1024x441

Imagem daqui

Eu gosto de estar nua. Gosto, especialmente, de andar nua. Não foi sempre assim, lembro que com doze, treze anos, pra trocar de blusa na frente de alguém, nem que fosse, sei lá, minha mãe e mesmo que eu estivesse de sutiã, virava as costas pra pessoa. Aí o tempo passou e eu fui aprendendo sobre meu corpo, vivendo sua gostosura, apreciando senti-lo e deixando as roupas cada vez mais tempo em seus cabides. Hoje em dia tenho que me lembrar de me vestir pra sair e muitas vezes assusto as visitas começando a tirar a roupa na sua frente até me tocar e ir pro quarto ou algo assim.

Sim, eu gosto de estar nua pelos óbvios motivos biscates. Gosto de tomar banho, água quente na nuca, espuma na pele, gosto de me esfregar com vagar e deixar o corpo gozar de ser tocado. Gosto de estar nua ao me masturbar. Gosto de me despir na frente do (s) moço (s) e ver seu olho me vendo. Gosto de ir deixando pele nua encostar em pele nua. Gosto de mãos espalmadas no meu corpo. Gosto de línguas umedecendo carne. Gosto do roçar, do calor que vem de dentro pra fora, gosto do suor escorrendo na nuca, dos mamilos endurecidos, dos pelinhos se eriçando.

Mas tem mais nisso de gostar de estar nua, mais do que deixar meu corpo nu em outro corpo nu (e isso não é pouco). Gosto do meu corpo nu por ele mesmo. Pelo que me conta. Pelo que diz de mim pra mim. Gosto de levantar os braços e ver os seios subindo, as aureólas mudando de lugar. Gosto de deitar e vê-los escorrendo pro lado. Gosto de pressionar os braços e ver aquele vale a la espartilho antigão se formando. De olhar minha mão e reparar que os dedos do cotoco são meio curvados pro lado enquanto os outros são tão retinhos. De cutucar os pelos nascendo na perna, macios, alguns encravando depois de uns dias da depilação com lâmina. Não gosto muito do cotovelo, daí todo dia, depois do banho, fico na frente do espelho olhando pra eles um bom pedaço, dizendo pra mim mesma que, ué, são esquisitinhos, coitados, mas são meus. Gosto de colocar reparo se meu tornozelo está caminhando em direção a se tornar membro da família do meu avô ou se é impressão causada pelas coxas grossas. Gosto do meu totó, corcundinha de estimação. Gosto dos inexplicáveis arranhões que consigo fazer nas costas, em uma flexibilidade noturna que nunca consigo repetir acordada. Do sinalzinho de carne que tenho na parte interna da coxa. De fazer ponta e sentir o esticadinho que dá do dedão até a coxa. Gosto.

E de andar nua, já disse né? Tudo isso, mas em movimento. Gosto de sentir o peso alternando de um pé para o outro, a palma toda encostada ao chão. Do movimento da bunda, o sobe e desce. Do peso da barriga, o ondular ao mover-me. Do roçar dos braços nos lados do peito. Das coxas no encontro, desencontro, encontro, desencontro. Do respirar e sentir o ar levinho, fugindo, entre os lábios. Sentir o corpo meio cortando o vento, o tempo, as coisas que o negam ou definem.

Andar nua na frente do outro: bônus.

Ficar nua, estar nua, ser nua na vida. Como metáfora, mas, principalmente, como materialidade. Não ter vergonha. Meu corpo não tem erros, tem história. Estar nua me lembra as alegrias, as dores, os desassossegos, os prazeres, os soluços, o parto, os abraços, a amamentação. Estar nua me conta infâncias de rua, asfalto, quedas e brincadeiras. Estar nua me diz de adolescência em flertes, livros e amassos. Estar nua me recorda amores, rugas, rusgas, encontros, viagens, praias e cobertores e risos e riscos, cicatrizes, caminhadas, repouso em camas e corpos outros. Envelheci. Engordei. Enruguei. Eu. Estar nua me lembra que o aqui é tudo que sou, que me fiz ser, que pude me fazer. Queria contar isso para vocês: é bem bom estar nua. É bem bom estar.

Eu gosto de estar nua.  E vocês?

 

De carnaval, de verdades e dores de cada um

“Fácil, não é? Você me conta tudo e assim se livra da culpa.  Isso é egoísta, eu ficaria muito melhor se você ficasse calado e guardasse a culpa para você. Mas tem essa história de verdade. A verdade é superestimada”.

(Norma, em “Felizes para sempre?”)

Achei espetacular essa fala aí, da personagem interpretada pela Selma Egrei, que é uma grande atriz, dita com um misto de raiva e desprezo pro marido. Porque toca em um ponto essencial: tem quem conta, tem quem ouve. O que a gente conta não tem a ver com o que o outro ouve, necessariamente. 

Me lembrou da primeira vez que eu tive contato com essa questão e seus meandros. Eu tinha 17 anos e um namorado que não gostava de carnaval. Fui pra Olinda e ele ficou aqui. Tomei duas doses de pau do índio (favor não fazerem isso) e fiquei com outro cara o carnaval inteiro.
Fiquei, e era carnaval.
Quando voltei pro Rio, a primeira coisa que fiz foi contar pro meu namorado. De supetão. Era uma história de carnaval, pra mim tava claro. Não era nada sério. Só brincadeira.
Aí eu vi que  a discussão da “verdade”, nessa história aí, não fazia sentido nenhum. Que o que eu tinha vivido não era o que ele escutava ou sentia, e que nada, nada justificava a dor que eu causava a ele, com a desculpa de “ser sincera”. Na minha percepção, eram várias dores, inclusive, em camadas: uma era o fato concreto, eu com outro cara, que ele ficava revivendo e com o qual se torturava. A outra era a dor dele ver que eu não estava penitente como ele esperava. Não era que eu não sofria: não queria estar causando aquela dor a uma pessoa de quem eu gostava, claro que não. Mas era isso, eu tinha ficado com um cara no carnaval. Não considerava aquilo tão grave, não me sentia tão culpada assim, sentia o abismo que havia entre a minha percepção e a dele, e que só aumentava a cada conversa.
E foi isso, um desentendimento só. Uma conversa e uma verdade que não existiam, verdades que se esbarravam e que se machucavam uma à outra.
Esse texto não pretende dar lições de moral a ninguém, claro. Cada um sabe dos seus acordos e das suas possibilidades. A intenção aqui é só pensar um pouquinho mais sobre esse assunto fugidio, a “verdade”, o que se diz, o que se cala, como um sente, como o outro recebe. O que é possível partilhar, compartilhar, viver junto. O que não é. O risco permanente que é viver no mundo, se expor no mundo, aparecer. As escolhas que se faz, as consequências dessas escolhas.
Não sei, de verdade, nem quero discutir, se se deve ou não contar, o que se deve ou não contar (porque, é claro, o buraco é muito mais embaixo, e a gente pode se encantar de forma plena por outra pessoa sem nunca ultrapassar os limites impostos pela moral vigente. Isso pode. Ninguém discute.). Acho mesmo que cada um sabe de si. Do que sente, do que faz. De como lida com isso. Mas estou convencida de que certas sinceridades servem apenas para tirar o fardo da culpa da pessoa que resolve ser sincera, e jogá-lo em cima da outra pessoa. E vale a pena pensar um pouco sobre isso. Tudo são escolhas, sempre. Narrativas, cada um tem a sua. É tão mais fácil classificar e categorizar. Fica parecendo tudo tão arrumadinho. Só que não.
Carnaval

Para tudo e um jeito

Estou aqui a matutar trepadas…

corpo

Jeitos e jeitos de encontrar um jeito de te pegar de jeito. Na verdade, nos pegarmos. Pegarmos, de jeito, no jeito, leito, sem pudores, com suores, gozos, labaredas e dedos. E línguas. E falo e vulva, e pau e buceta, e caralho e xoxota e qualquer canção que trate de dois – ou mais, por que não? – corpos se fodendo. Estou aqui a imaginar que quando abres estas páginas de blogue não pensas o mesmo e já tira minha roupa, já chupa meu talo, já pensa barbaridades que só quem trepa é capaz de pensar. De cu, de lambida, de salto alto, de chicote, serpentina, de quatro, de papai e de mamãe, de sabão, de vaselina, de sessenta e noves vezes dez e que mais de cálculo e meto, enfio, tiro, ponho, retiro, recebo, levo, passo o cheque e bota e camisola de oncinha e sei lá mais qual linha… que eu tô mesmo é tarado e pensando num jeito. Num jeito… que jeito?

Mas aí a gente se encontra no mundo, de roupa, de tecidos, de teias emaranhadas, de vizinhos, de opiniões alheias, de o que vão pensar de mim, e tem que fingir que não estamos pensando num jeito – e é assim que eu percebo: Gabo tinha razão e cada um vem ao mundo com suas trepadas contadas e a gente perde um montão delas pelas simples razão que insistimos nesse negócio de sexo sagrado, é amor, é sei lá namoro, casamento, teto, afeto. É jeito, desconfio. E volto aqui a matutar trepadas, inventar argumentos para um filme de foda, sonhando com um enredo que ao cabo acabe com uma transa, um nexo, um amplexo, um ósculo sem fim de boca a boca, de lábio a lábios, de fio a pavio terra e tudo.

Então, imagino é um jeito de um jeito que quando acabares este texto tu esteja – no mínimo – molhada e dê…

Um jeito… um jeitinho… um tesão.

Até a próxima paixão

Por Dani Damaso, Biscate Convidada

Acorda e sente o cheiro nas mãos. O banho da madrugada não apaga. Retira o cabelo do rosto, retoma as lembranças: sexo gostoso tem cheiro. Marca a pele crua e urgente. O estouro da cereja no céu da boca, o lambuzar de línguas. Epiderme tatuada pelas sensações.

Não foi a primeira e nem a última. Mas havia algo a mais naquele cheiro. Lamber, morder, chupar o sexo dá. O encontro de ontem arrepiava, fazia gargalhar, dançar pelos corredores tomados de sol.

Ah, como é insaciável o sexo dos que sentem cheiros. O suor dos que amam contidos, dos que soltam a voz, dos que buscam novos sons. Vai e vem. Sangue pincelando a entrega. Como o sal reconhece a maresia. Simbiose de odores.

A noite surge e a memória daquela troca segue até o amanhecer. Queria mais! E então coloca de lado a biscate convicta dos encontros regados a apenas sexo e amizade e busca a noite passada, do beijo avassalador, da pele aquecida, do cheiro. Aquele cheiro… Liga. Pouco ouve, fala demais, mas compreende: quero, sim!

red-wine

O dia chega. Vão a um café. Pedem vinho. Riem contidamente. Mais vinho. Gargalham. As luzes se apagam. Buscam uma dose de música noutro lugar. Dançam. Falam sobre lugares e amizades. Olham o céu e logo chove.

Com a língua escapando pelos lábios, ela sorri. Não falam mais nada. Os cheiros sufocam. Lambem olhos, fuçam nucas, trocam pernas, empurram portas, fazem barulho. A presa e o predador invertendo papeis. Mãos envoltas em corpos, cintilantes, fluídos, marcados. Encaixe, desordem, gozo.

Se lambuzam até a próxima paixão. E se cheiram mais uma vez como se fosse a última.

dani damaso*Dani Damaso é mulher da Amazônia, mãe, pisciana, jornalista, tuiteira, torcedora do Paysandú e do Botafogo, nessa ordem de prioridades. Adora olhar as ruas. É do rock e do samba, do reggae e do jazz. Curte paixões descalças e os botequins mais vagabundos. Mas na hora da alvorada, vai sempre atrás de sombra e água fresca.

Dar no Primeiro Encontro

Vira e mexe e pula na nossa cara uma questão tão, mas tão tosca que, aparentemente, nem deveria ser discutida: a mulher deve dar no primeiro encontro? A minha tendência é fazer tsc, tsc, dar de ombros e prosseguir. Mas, né. Ela volta tantas vezes que me parece um sintoma. Vamos conversar, então.

IMAGEM-1

Pra mim, o problema desse problema é que ele é um falso problema. Só pra começar, como disse Lacan, “a mulher não existe”. Opa. Estou falando do quê? Estou falando que a pergunta começa equivocada. Quando dizemos “a mulher deve dar no primeiro encontro” estamos tratando um grupo heterogêneo como se assim não fosse. Que mulher é essa? Mulher é uma mulher negra hiperssexualizada no imaginário, mulher é uma mulher trans contestada em sua identidade, mulher é uma mulher gorda que socialmente é lida como insatisfeita e incapaz de atrair alguém, mulher é uma mulher adolescente curiosa, mulher é uma mulher velha que não faz sexo já há uns anos porque a sociedade grita que seu corpo é feio. A qual dessas mulheres a questão se coloca? Você pensou em qual delas quando leu a pergunta? Provavelmente em nenhuma, não é? Essa pergunta é dirigida e traz, subentendida, a mulher branca, cis, jovem, heterossexual, magra. Para as outras a resposta é compulsória.

A pergunta prossegue e o erro se acentua: “a mulher deve dar no primeiro encontro?”. Ora, eu penso que não é apropriado usar o verbo dever em relação a práticas sexuais. Uma mulher, qualquer mulher – as que estão ou não nas entrelinhas da pergunta – nenhuma mulher, repito, deveria fazer nada sexual que não seja do seu desejo. A pergunta tem essa pegadinha, né? Parece estar oferecendo opções: dar ou não em situação X, mas está apenas reconfigurando as amarras. Passamos do mulher direita não deve dar antes do casamento para a mulher liberada (ou moderna ou whatever) deve dar no primeiro encontro. Sorry, mas trocar uma obrigação por outra não parece um cenário atraente.

E a pergunta finaliza com outro elemento dúbio: “a mulher deve dar no primeiro encontro?”. É uma incógnita a que se refere esse termo: primeiro encontro. Do que se trata? De sair pra o aniversário de uma amiga, ser apresentada ao primo dela e de lá, depois de muita conversa e uns bons drinks ir pro motel com ele? De ir pra uma balada, esbarrar numa mina gostosa, dar uns amassos no dark room e lá mesmo aproveitar e transar? De conhecer alguém naquela pós que está cursando, sair muitas vezes em grupo e um dia receber um convite pra jantar em dupla? Tem gente que a gente passa por ela um monte de vezes e aí um dia, pá, o estalo. Foi o primeiro ou o vigésimo encontro? Tem gente que a gente tem na rede social, mas nunca viu até que um dia, uma viagem, um café, é o primeiro encontro? As conversas todas antes foram o quê? Contam como?

Então, tá, Luciana, entendi, não tem regra pra toda mulher, não é uma obrigação e esse negócio de primeiro é meio confuso porque o tempo é uma variável que se qualifica em relação com várias outras, mas e você, quando é que dá? Ué, eu dou quando o outro quer e eu quero. E posso querer mal nos apresentamos no bar sem nunca termos nos visto antes como posso querer depois de longa convivência e muitos momentos em comum. Não tem hora certa, não tem a priori, não tem regra – pra mim. Porque cada pessoa com quem estou é única e cada relacionamento (porque é um relacionamento, dure seis horas ou dez anos) é o que a gente faz dele.

O que eu faço é me abrir. Me permitir. Olhar e ouvir. Receber. Deixar o tempo para além do relógio, o tempo do encontro, operar as aproximações. O que eu faço é acolher meu desejo, deixar a mão na outra mão, a perna encostar na outra perna, o olho mergulhar no outro olho. O que eu faço é deixar a voz deslizar pela orelha como um afago e arrepiar a nuca. O que eu faço é saber se a pele esquenta e se o olho brilha. O que eu faço é inventar o meu próprio pecado e morrer do meu próprio veneno.

Figurinha repetida não completa álbum, mas troca a lâmpada

Sabe aqueles dia que não tem nada digno na tv aberta e tudo que você  queria era não ver o futebol na quarta-feira, rir e comer bobagem na frente da tv? Seus problemas acabaram. Tem Lili, a ex, no GNT.

lâmpada

Interpretada por Maria Casadevall, Lili é a ex-esposa que não esquece e não larga do seu inseguro ex-marido, Reginaldo ( COMO UMA DEUSAAAA, canto internamente toda vez que ela fala Reginaldo, desculpa) e vai morar no apê vizinho ao dele.  O objetivo para poder vigiá-lo de perto e atrapalhar todos os seus casos amorosos.

lili-620

Reginaldo é um bananão interpretado deliciosamente por Felipe Rocha, inclusive aparecendo várias vezes de cueca em cena #trackbonus.  Os personagens secundários são igualmente ótimos, a melhor amiga, a linda e sexy  Cíntia (Daniela Fontan), a mãe muito maluca e viciada em compras de Lili (deve ser genético) Gina ( Rosi Campos),  e novo #bonustrack tem o Seu Anselmo ( Milton Gonçalves), o avô muito maluco da Cintia e caidinho pela mãe da Lili.  Temos ainda o irmão galinhão do Reginaldo, o Reinaldo e o Bituca, dono do bar da esquina (João Vicente Castro e Robson Nunes).

Eu adoro, particularmente, a Cíntia, mais que a Lili. É a amiga doida da doida (só doidos se entendem, gente) é mais descolada que a Lili, é linda, baixinha, gordinha e super sexy com um cabelão lindo.  Sabe sempre o que dizer. Pega todos os gatos. Praticamente minha meta de vida.

cintia-340

Tá mas o que uma feminista com carteirinha rasgada (eu) curte tanto num seriado que estereotipa mulheres como doidas? Bom, o texto é leve, divertido, a edição excelente, os figurinos e cenários são super bacanas. Mais: é para gente ver a Lili e se lembrar das maluquices que fez por causa de homem, ou pensou em fazer, e lembrar que homem não é e nem deve ser o centro das nossa vidas. O exagero das situações vividas por Reginaldo e Lili é pra ser tomado como um: não se apegue loucamente ao seu ex.

personagens-lili-aex_1

É um lembrete divertido de que existem relações doentias em que casais se envolvem.  É para ver e rir e na hora do desespero em que você insiste em stalkear o ex ou a ex de 5 anos atrás por quem você ainda é apaixonada e pensar que tá na hora de mudar de fase no joguinho da vida. Afinal, figurinha repetida não completa álbum e só serve pra uma rapidinho jogo de bafo. Sem apegos, claro.

E a lâmpada?  clique aqui

ps: o último episódio da temporada vai ao ar na quarta que vem mas tem tudo no site do programa ou aqui

Rabo

Uma coisa que ela gosta: o cheiro na cama. Nos lençóis remexidos pelo sexo que se dorme a seguir. Odor do esperma. Do liquido morno que saiu da sua buceta em gozo. Suor, suor, suor. Saliva. Enfia o nariz, inspira a lembrança, exala desejo. Seu corpo vai acordando. Querendo. Ela se mexe e sente o corpo dele encostado em suas costas, o respirar compassado, a mão descansando embaixo de um seio. Ri um pouco, ele só com a camiseta do pijama, ela mesma nua. E tantos lençóis. Depois da cama, o mundo, o frio, o dia. Mas ainda não. Agora não. Agora ela esfrega a bunda nele. Roça, roça e sente. O pau lateja. Bom. De novo. Ele resmunga. Ela empurra a mão dele pelo corpo até que chegue entre suas coxas. Dedos entrelaçados brincam com seus pelos, separam os lábios, enfiam-se no úmido. Um gemido, ela não está bem certa de quem. Mexe o corpo pra facilitar o acesso. Mais fundo. Mais molhada. Os dedos, mais despertos que o resto dele, brincam. Passeiam. Tocam. Esfregam. Ritmo. A outra mão, como ignorante do que a direita faz, belisca os mamilos que alcança. Ela estende os braços sobre sua cabeça e puxa a dele pra si. Me lambe. Me morde. Ele lambe, do ombro ao pescoço. Morde a orelha. Volta ao pescoço alternando beijos, mordidas e pequenos sopros. Ela empina a bunda contra o pau duro enquanto impulsiona o tronco pra frente. Ele aproveita pra chupar, firme, suas costas. Ela sente tudo, o roçar áspero nos seios, a língua provando a pele, o pau pressionando o rabo, os dedos no vai e vem, dentro, mais, forte, sim, sim, sim. Pequenos estremecimentos. Ela arqueja, respira pela boca, os olhos mais abertos, o corpo mais mole, a buceta em pequenos espasmos. Prazer. Não há dúvida, agora, que estão acordados. Excitados. Ela sente o corpo entre a satisfação e a fome. Mais? Mais. Em um movimento ao mesmo tempo íntimo e brincalhão, ele enfia os dedos mais fundo e depois os retira, devagar, esfregando o molhado da buceta ao cu. Ela aproveita a posição do corpo, pernas entrelaçadas, quadris se esfregando e troncos distantes pra inclinar-se ainda mais em direção à gaveta da mesinha de cabeceira. Camisinhas, camisinhas, ela sussurra, eles riem, creme também – ele diz. A voz, as palavras, os sentidos implícitos, tesão, tesão, tesão. Ela pega a camisinha, não rasgue com os dentes, ela sempre se diz, mesmo que esteja com pressa, com vontade, ah, que vontade de ser enrabada. Agora é a intimidade construída e repetida feito movimento, camisinha que colocam juntos, o creme com que ele a prepara, as mãos levantando as nádegas, afastando, devagar – ele diz, sim, devagar – ela concorda, mas empurra o corpo em direção ao dele. Ele geme, o pau ocupando os espaços apertados que se moldam conforme o avanço. É quase dor, só não sabem de quem. Sabem tão pouco naquele momento. Quase não sabem a música que começa, repentina, no rádio despertador. Quase não sabem os ruídos abafados de alguém acordando no apartamento superior. Quase não sabem o sol sem calor que atravessa as cortinas. Quase não sabem os lençóis em desalinho já desnecessários. Sabem o gosto de pele, sabem os sons dos gemidos, sabem pedaços do outro entrevistos nos movimentos. Sabem em mãos que puxam, empurram, exploram, apertam, esfregam. Sabem em ritmo, suor, sons dos corpos que se atritam e se encaixam. Sabem em tesão no pau que lateja no ir e vir de ocupar o rabo e no rabo que se abre em aceitações. Ele para. Respira mais fundo. Ela geme um pequeno protesto, ele volta a deslizar as mãos sem rumo pelo corpo dela. Ela suspira. E se mexe. Mais. Assim eu vou gozar, é ele que protesta, como quem gosta. Ela firma as pernas segurando as dele, move o braço pra trás e crava as unhas na bunda dele, faz do corpo um arco, onde os pontos de encontro são o quadril e o pescoço – que ele suga já meio fora de ritmo. Eu te sinto. Duro. Dentro. Assim? Assim? Sim, sim. Vem forte. Vem mais. Goza. Goza. Goza. Gozam.

rabo

Pequenos Prazeres: Todo dia

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates

#PequenosPrazeres

dia

Pequenos prazeres… me desculpem, não consigo associar o sexo a pequeno prazeres, sexo, pra mim, é um grande prazer. O pós-sexo também, a mão que descansa na bunda, ficar agarradinho, dedos que acariciam levemente as costas, beijos carinhosos. Tudo um grande prazer.

Pequenos prazeres para mim estão nas coisas comezinhas do dia a dia, pequenos gestos deliciosos e diários que vão às vezes numa sequência.

Chegar em casa e tirar o sapato, tirar o sutiã, tomar um banho gostoso e lavar o cabelo. Usar no banho um óleo de banho delícia. Pedir pizza de banana com borda de catupiry e coca geladinha para ver algo bacana floodando no twitter ( ultimamente o #Masterchef) .

Se não comer pizza no dia vale comer chocolate (o lacta  branco com oreo),  lambuzar o dedo e lamber o dedo. Melhor ainda se ganhar massagem nos pés e nas costas.

Na hora de dormir é delícia se for o dia que trocou a roupa de cama e ela estiver novinha e cheirosinha.

Mas seria um grande, imenso, incomensurável prazer mesmo se no dia seguinte fosse feriado. Não é. Boa noite, vou dormir tendo como pequeno prazer antes do sono meus dedos… Bons sonhos pra vocês também.

Amor & Sexo caretas

Amor & sexo é um programa de auditório engraçadinho, pretensamente libertário e até feminista, moderninho, mas na verdade é conservador, eu diria até tucano (rs).#vote45nãopera

Sempre começa com a bela Fernanda Lima exibindo sua curvas em roupas  diminutas e/ou justas com um belo elenco de machos no apoio num número musical “brodway wanabe”. Nesse, até tinha a nossa amiga #siririca (oba!), que eu achei mais parecida com um carrapato, e um clitóris com um textinho de duplo sentido de humor no palco.

musical01

Pra dar um certo ar de seriedade acadêmica temos a famosa  psicanalista e escritora Regina Navarro para dar suas pílulas de sabedoria de sempre. Aí temos o Xico Sá pra ser o exemplo do canalha que ama as mulhrezzzzz (sobre ele o texto da Juliana Cunha é perfeito, mas também tem um texto sobre as bobices que moço comete aqui no Biscate). E tem O Otaviano Costa de palhaço-bobo-da-corte, tinha o lindo do Alexandre Nero (#voltaNerinho), o José Loreto que às vezes fala uma coisas bacanas e mais uns globais.

loreto02

Mas o que programa faz mesmo é backlash (aprenda sobre o que é backlash aqui, juro que vai ser muito útil pra ler revista, ver tv, etc.), bastante misoginia e muito machismo. O desta quinta em especial, pois, ao pretensamente diferenciar o que seria uma boa cantada de rua (será que existe isso?) de uma agressão verbal, validou as cantadas agressivas disfarçando-as em piadas. A participação de uma delegata (odeio o termo) não ajudou muito nem nisso.

Também sempre há um revalidação de estereótipos: nesse teve homens-pagam-o-motel porque-as-mulheres-gastam-com-depilação-e-unhas (de novo, não somos feministas que não se depilam ou não fazem as unhas: somos contra obrigações de depilar ou não, por exemplo), pessoas com corpos definidos como belos desfilando com pouca roupa, revalidação da monogamia como única forma possível de relação (apesar dos apartes da Regina Navarro, rs), entre outras coisas.

Seria um bom programa que poderia mesmo tratar de sexo e amor, mas é só um programa de auditório mesmo, e sem o Chacrinha e o bacalhau, ao menos aquele bacalhau.

leticiaspiller02

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...